REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/778107578
RESUMO
Introdução: A morte perinatal configura-se como uma perda irreparável que exige um suporte institucional sensível e qualificado, visto que o luto materno é frequentemente agravado pelo silenciamento e pela falta de preparo das equipes de saúde. Objetivo: Este estudo tem como objetivo analisar a atuação da enfermagem no acolhimento de mães enlutadas pela morte perinatal, com base nas evidências disponíveis na literatura científica. Metodologia: Revisão integrativa da literatura, qualitativa e descritiva, fundamentada no referencial de Dantas et al. (2021) e na estratégia PIO. A busca foi realizada nas bases SciELO, PubMed/BMC e manuais do Ministério da Saúde, com recorte temporal de 2022 a 2026. A amostra final consistiu em 06 artigos científicos. Resultados: Os achados indicam que a morte perinatal é influenciada por determinantes socioeconómicos e falhas no acesso ao pré-natal. A assistência de enfermagem deve focar-se no suporte emocional e na escuta ativa, contudo, o "distanciamento defensivo" das equipas e o défice institucional dificultam a humanização do cuidado. Conclusão: O acolhimento qualificado é fundamental para mitigar traumas psíquicos e validar a dor materna. É necessária a implementação de protocolos baseados na ética do cuidado e o cumprimento de marcos legais, como a Lei nº 15.139/25, para assegurar a dignidade e o suporte integral à mulher.
Palavras-chave: Mortalidade Perinatal; Assistência de Enfermagem; Luto Materno.
ABSTRACT
Introduction: Perinatal death is an irreparable loss that requires sensitive and qualified institutional support, since maternal grief is often aggravated by the silence and lack of preparedness of healthcare teams. Objective: This study aims to analyze the role of nursing in supporting mothers bereaved by perinatal death, based on evidence available in the scientific literature. Methodology: An integrative, qualitative, and descriptive literature review, based on the framework of Dantas et al. (2021) and the PIO strategy. The search was conducted in the SciELO, PubMed/BMC databases and manuals from the Ministry of Health, with a time frame from 2022 to 2026. The final sample consisted of 6 scientific articles. Results: The findings indicate that perinatal death is influenced by socioeconomic determinants and failures in access to prenatal care. Nursing care should focus on emotional support and active listening; however, the "defensive distancing" of teams and institutional deficits hinder the humanization of care. Conclusion: Qualified reception is fundamental to mitigating psychological trauma and validating maternal pain. The implementation of protocols based on the ethics of care and compliance with legal frameworks, such as Law No. 15.139/25, are necessary to ensure dignity and comprehensive support for women.
keywords: Perinatal Mortality; Nursing Care; Maternal Grief.
1. INTRODUÇÃO
O objeto de estudo desta pesquisa é a atuação da enfermagem no acolhimento de mães enlutadas pela morte perinatal, compreendida como um processo assistencial que envolve não apenas intervenções técnicas, mas, sobretudo, a oferta de suporte emocional, escuta qualificada e cuidado humanizado diante da perda. Trata-se de um fenômeno complexo, que exige do profissional de enfermagem sensibilidade, preparo técnico-científico e competências comunicacionais para lidar com situações de extrema vulnerabilidade.
A motivação para a realização deste estudo fundamenta-se na identificação de uma lacuna na formação e na atuação da enfermagem frente à morte perinatal. Nota-se que o despreparo emocional das equipes pode resultar em um distanciamento defensivo, o que agrava a vulnerabilidade das mães enlutadas. Assim, este trabalho justifica-se pela importância de fornecer subsídios teóricos que ajudem o enfermeiro a integrar a competência técnica ao suporte humanizado, garantindo que o acolhimento seja realizado de forma digna e empática, respeitando o tempo e a singularidade desse processo de luto.
A morte perinatal é definida como o óbito que ocorre no período compreendido entre o final da gestação e os primeiros dias de vida do recém-nascido (BRASIL, 2024). De acordo ainda com o Ministério da Saúde, o período perinatal inicia-se a partir da 22ª semana completa de gestação, quando o feto apresenta peso aproximado de 500 gramas, estendendo-se até o sétimo dia completo após o nascimento.
No Brasil, a mortalidade perinatal ainda representa um importante desafio para o sistema de saúde, especialmente em regiões marcadas por desigualdades socioeconômicas. Evidências científicas indicam que fatores socioeconômicos e assistenciais, como baixa escolaridade materna, número insuficiente de consultas de pré-natal, condições precárias de vida e dificuldade de acesso a serviços de saúde especializados, estão associados ao aumento do risco de desfechos maternos e perinatais adversos (SILVA et al., 2025).
Para além de dados estatísticos, a mortalidade perinatal representa histórias interrompidas precocemente e evidencia fragilidades na assistência à saúde materno-infantil, especialmente em contextos de vulnerabilidade social. A morte de um bebê que ocorre durante a gestação, mortalidade fetal ou até os primeiros sete dias após o seu nascimento, conceitualmente, mortalidade neonatal precoce, tem se mantido como um grande desafio na prática do cuidado às gestantes e a seus conceptos, em todo o mundo, particularmente para os países de média e baixa renda (SERRA et al., 2022).
Além disso, os óbitos fetais ocorridos no período intraparto estão frequentemente associados à inadequação da assistência prestada durante o trabalho de parto, especialmente no que se refere a falhas na monitorização do bem-estar fetal e ao atraso na tomada de decisões clínicas oportunas. Evidenciando as fragilidades nos serviços que visem reduzir desfechos evitáveis (SERRA et al., 2022).
Dessa forma, a compreensão do conceito de morte perinatal vai além de sua definição temporal, envolvendo também a análise de seus determinantes, causas e consequências. O reconhecimento desse evento, em grande parte, evitável reforça a importância do fortalecimento das políticas públicas, da qualificação da assistência pré-natal, obstétrica e neonatal, e da promoção de cuidados integrais e humanizados à saúde materno-infantil (SANTOS et al., 2024).
Nesse cenário de fragilidade, o cuidado de enfermagem assume um papel essencial, não apenas na assistência técnica, mas principalmente no suporte humano, sensível e empático. O acolhimento, a escuta ativa e o respeito ao sofrimento vivenciado tornam-se instrumentos fundamentais para que essa mulher e sua família se sintam amparadas em um momento de extrema vulnerabilidade (BEZERRA et al., 2024).
De forma geral, o cuidado prestado aos pais enlutados, sobretudo no caso da mãe, no âmbito perinatal deve ultrapassar o aspecto técnico e especializado e visar ferramentas de suporte emocional qualificado e comunicação apropriada diante do evento de perda, dessa maneira, o profissional deve ter preparo para realizar uma escuta ativa e orientações adequada para ser facilitar durante o processo de luto (ANDRADE et al., 2025).
Diante disso, a pergunta norteadora deste artigo é: quais evidências descrevem a atuação da enfermagem no acolhimento de mães enlutadas pela morte perinatal?
A realização deste estudo justifica-se pela necessidade de preencher lacunas assistenciais que frequentemente relegam o luto materno à invisibilidade no ambiente hospitalar. A morte perinatal, embora seja um evento biológico e emocionalmente devastador, muitas vezes é tratada sob uma ótica puramente tecnicista, negligenciando a dor da mulher e de sua rede de apoio.
Este estudo tem como objetivo analisar a atuação da enfermagem no acolhimento de mães enlutadas pela morte perinatal, com base nas evidências disponíveis na literatura científica. Tal fenômeno desencadeia repercussões emocionais e psicológicas profundas, que exigem dos profissionais de saúde uma abordagem pautada na compaixão e na presença terapêutica.
Diante do papel central do enfermeiro no suporte ao luto materno, torna-se imperativo ampliar o diálogo sobre a formação profissional e a gestão das perdas. Dessa forma, busca-se fomentar práticas humanizadas que assegurem um cuidado integral, capaz de abraçar a dor e promover a dignidade no momento da despedida.
2. METODOLOGIA
Trata-se de um estudo de revisão de literatura integrativa, qualitativa e descritiva. Método que busca reunir e sintetizar resultados de pesquisas anteriores para uma compreensão ampla sobre o tema. A investigação foi estruturada de forma sistemática, seguindo rigorosamente as etapas propostas pelo referencial de DANTAS et al. (2022).
A condução da revisão integrativa seguiu as etapas metodológicas sequenciais: (1) formulação da questão norteadora; (2) definição das bases de dados e estratégias de busca; (3) aplicação dos critérios de inclusão e exclusão; (4) seleção e organização dos estudos; (5) análise crítica e síntese dos resultados; e (6) apresentação dos achados de forma categorizada.
Para o refinamento da questão norteadora, utilizou-se a estratégia PIO, acrônimo que delimita a População (mães em luto perinatal), a Intervenção (assistência de enfermagem e estratégias de acolhimento) e o Outcomes/Desfecho (sentimentos manifestados e humanização do cuidado). A partir desse delineamento, estabeleceu-se:
Quadro 1: Questão norteadora
P (População) | População das mães que vivenciaram a perda perinatal. |
I (Intervenção) | Assistência de enfermagem e estratégias de acolhimento. |
O (Desfecho: Outcome) | Sentimentos manifestados e a qualidade da humanização do cuidado. |
Fonte: Autores. 2026
A busca bibliográfica foi consolidada em bases de dados de alta relevância científica e portais de referência em saúde pública. Utilizou-se a SciELO (Scientific Electronic Library Online). A pesquisa foi expandida ao PubMed/BioMed Central (BMC) para a inclusão de protocolos de alcance internacional e discussões sobre morbidade e mortalidade perinatal. Por fim, integraram-se documentos técnicos e manuais normativos extraídos diretamente do portal oficial do Ministério da Saúde.
A construção desta base teórica fundamentou-se em uma coleta de dados baseada em evidências científicas, priorizando estudos sobre a assistência de enfermagem no ciclo gravídico-puerperal, com ênfase em mortalidade e luto.
Para a realização da busca, foram utilizados descritores controlados extraídos dos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e Medical Subject Headings (MeSH), combinados por meio dos operadores booleanos AND e OR. A estratégia de busca incluiu os seguintes termos: “Perinatal Mortality” AND “Nursing Care” AND “Maternal Grief”, bem como suas correspondentes em português.
Como critérios de inclusão, estabeleceu-se a seleção de artigos científicos publicados entre 2022 e fevereiro de 2026, nos idiomas português e inglês, disponíveis na íntegra e que abordassem diretamente a temática do acolhimento, luto perinatal, atuação da enfermagem além de documentos técnicos e manuais normativos vigentes.
Como critérios de exclusão, foram descartados estudos duplicados, relatos de experiência, cartas ao editor e pesquisas sem aderência direta ao objeto de estudo, garantindo a captação de evidências alinhadas aos objetivos deste trabalho.
Na etapa de coleta de dados, foram extraídas informações como instrumento de elaboração própria, visando a extração sistemática de informações como autoria, ano de publicação, objetivos, delineamento metodológico, principais resultados e conclusões dos estudos selecionados. Os dados foram analisados por meio de síntese temática, organizados em categorias relacionadas à atuação da enfermagem no acolhimento.
A condução deste estudo pautou-se na integridade científica e na ética profissional. Por utilizar apenas material bibliográfico já publicado e disponível em bases de dados, não houve necessidade de apreciação por Comitê de Ética. Entretanto, assegurou-se a fidedignidade aos dados originais, evitando interpretações tendenciosas e respeitando a propriedade intelectual dos autores consultados, conforme as normas vigentes para trabalhos acadêmicos.
3. RESULTADOS
Para a identificação das produções científicas relacionadas às intervenções de enfermagem no manejo da morte perinatal, foram utilizados quatro descritores de termos de busca. A Tabela 1 expõe a dispersão das pesquisas localizadas em cada banco de dados, conforme os agrupamentos de descritores adotados na tática de pesquisa. Os dados extraídos estão sintetizados no quadro abaixo:
Tabela 1: Consolidação dos resultados de busca segundo bases de dados e combinações de termos.
Descritores | Scielo | PubMed | Total |
Morte Perinatal | 28 | 4 | 32 |
Assistência de Enfermagem | 2 | 35 | 37 |
Luto Materno | 5 | 31 | 36 |
Total geral: | 35 | 70 | 105 |
Fonte: Autores. 2026
Inicialmente, foram identificados 105 artigos por meio dos descritores selecionados. Após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão que envolveram a remoção de duplicatas e de estudos que não convergiam com a temática central, a amostra final foi composta por 06 artigos, os quais fundamentaram a elaboração desta revisão integrativa.
Tabela 2: Caracterização dos estudos incluídos na revisão integrativa de literatura
Autor / Ano | Título do Estudo | Principais Achados Relacionados ao Tema |
Andrade et al. (2025) | Atuação dos profissionais de saúde no luto parental... | O cuidado deve ultrapassar o técnico, focando em suporte emocional e escuta ativa. |
Bezerra et al. (2024) | O cuidado de enfermagem aos pais que vivenciaram o óbito fetal... | O acolhimento e o respeito ao sofrimento são fundamentais para o amparo à família. |
Brasil, (2024) | Codificação da Causa Básica do Óbito| CID-10 | O Ministério da Saúde define o período perinatal entre a 22ª semana de gestação e o 7º dia pós-parto, a Lei 15.139/25 vem para garantir que, dentro de todo esse intervalo técnico, o acolhimento humano e a separação de alas sejam direitos invioláveis da genitora |
Santos et al. (2024) | Perinatal mortality, severe maternal morbidity... | Reforça a importância da qualificação da assistência e das políticas públicas. |
Serra et al. (2022) | Fatores associados à mortalidade perinatal... | Aponta falhas na monitorização e assistência no parto como causas de óbitos evitáveis. |
Silva et al. (2025) | Perfil da mortalidade materna e sua relação com o pré-natal... | Associa a mortalidade a fatores socioeconômicos e falhas no acesso à saúde. |
Fonte: Autores. 2026
Os resultados demonstram que a morte perinatal, definida como o óbito entre a 22ª semana de gestação e o sétimo dia após o nascimento, representa um desafio que exige uma assistência sensível e empática.
Entretanto, por mais que o estudo apresentado acentue a mortalidade materna, os fatores de risco apresentados também se adequam à morte perinatal. Todavia, os dados de (SILVA et al. 2025) reforçam que, no Brasil, não é um evento isolado, mas um estado de desamparo. Diante disso, as suscetibilidades apresentadas na Tabela 2 identificam que o enfermeiro deve ser um educador em saúde que acolhe essa mulher desde o pré-natal, pois é a falha nessa base que pode gerar um cenário desabitual ao esperado na gestação: ou seja, o do luto e sofrimento que o sistema de saúde, muitas vezes, não está preparado para conduzir de forma humanizada.
Tabela 3: Análise dos Determinantes de Saúde na Assistência à Gestante
Fator Analisado | Evidência Epidemiológica (Achados) | Impactos na Assistência de Enfermagem |
Escolaridade Materna | Baixa escolaridade está associada a uma menor percepção de risco e adesão tardia ao pré-natal. | Exige que o enfermeiro utilize linguagem acessível e busca ativa para garantir o entendimento das orientações. |
Perfil Socioeconômico | Regiões com maiores desigualdades apresentam maior incidência de óbitos evitáveis por falta de suporte especializado. | O enfermeiro deve atuar como articulador da rede de apoio social para garantir o acesso de gestantes aos exames. |
Qualidade do Pré-natal | O número insuficiente de consultas (menos de 6) é um preditor direto para desfechos perinatais adversos. | A consulta de enfermagem qualificada é o principal eixo para identificar sinais de alerta e prevenir a morte fetal. |
Fatores Assistenciais | Falhas na identificação precoce de patologias (como hipertensão) elevam o risco de morte materna e perinatal. | Necessidade de educação permanente da equipe para manejo de protocolos clínicos de urgência e emergência |
Fonte: Autores. 2026
A análise dos determinantes sociais e assistenciais revela que a vulnerabilidade materna é multifatorial, impactando diretamente os desfechos perinatais. Os achados indicam que a baixa escolaridade e as desigualdades socioeconômicas operam como barreiras significativas, dificultando a adesão precoce ao pré-natal e a compreensão das orientações clínicas. Conforme apontam (SANTOS et al., 2022), a persistência de óbitos evitáveis está intrinsecamente ligada a falhas na identificação precoce de patologias, como a hipertensão gestacional, e ao número insuficiente de consultas, o que compromete a vigilância epidemiológica.
Nesse cenário, a atuação da enfermagem torna-se o eixo central da assistência qualificada; o enfermeiro deve desempenhar um papel articulador, utilizando uma linguagem humanizada e acessível para transpor as limitações de escolaridade, além de garantir a aplicação rigorosa de protocolos clínicos. Para (OLIVEIRA; SILVA, 2023), a educação permanente da equipe e a busca ativa por gestantes faltosas são estratégias indispensáveis para mitigar os impactos das desigualdades sociais e garantir a segurança do binômio mãe-filho.
4. DISCUSSAO
Os resultados evidenciaram que a morte perinatal produz importantes repercussões emocionais e psicológicas nas mulheres. Esses dados demonstram que a qualidade do acolhimento é o fator determinante na percepção da mãe sobre a experiência da perda. Quando a assistência de enfermagem falha em oferecer um ambiente de validação da dor, o desfecho perinatal negativo é potencializado pelo sentimento de desamparo. Isso reforça que o cuidado em situações de luto deve ser contínuo e humanizado, pois a forma como essa mãe é acolhida impacta diretamente sua saúde mental a longo prazo.
Nesse cenário, o suporte emocional e a escuta ativa emergem não como ações complementares, mas como intervenções terapêuticas essenciais. A atuação profissional deve transpor o tecnicismo para validar a dor da mãe, garantindo um espaço de acolhimento que respeite a singularidade de cada processo de despedida, visto que a integração desses elementos é o que define uma assistência verdadeiramente humanizada, capaz de mitigar sequelas psíquicas indeléveis que marcam a trajetória da mulher de forma definitiva (ANDRADE et al., 2025).
4.1. Determinantes Sociais e Barreiras na Assistência Qualificada
A vulnerabilidade ao óbito perinatal é influenciada por fatores multifatoriais e lacunas assistenciais, onde a baixa escolaridade materna muitas vezes retarda a busca pelo pré-natal. Nesse contexto, o enfermeiro assume o papel estratégico de mediador, utilizando a busca ativa e uma comunicação acessível para superar barreiras socioeconômicas e garantir que as orientações clínicas sejam compreendidas, evitando que falhas na base do cuidado culminem em desfechos negativos (SILVA et al., 2025).
Ademais, os achados indicam que a persistência de óbitos evitáveis está intrinsecamente ligada a falhas na identificação precoce de patologias, como a hipertensão gestacional, e ao número insuficiente de consultas de pré-natal. Essa realidade exige uma educação permanente das equipes para o manejo rigoroso de protocolos de urgência e emergência, conforme defendido por (OLIVEIRA; SILVA, 2023). A atuação da enfermagem torna-se, portanto, o eixo central da assistência qualificada, devendo desempenhar um papel articulador dentro da rede de apoio social.
4.2. Implicações Éticas, Jurídicas e o Suporte Institucional
Um ponto crítico identificado nesta revisão é o "distanciamento defensivo" dos profissionais de saúde, muitas vezes fruto de um despreparo emocional e da ausência de suporte institucional. Para que a escuta ativa e a empatia ocorram de forma genuína, a gestão hospitalar precisa fornecer suporte emocional também aos profissionais, prevenindo o esgotamento que impede a conexão humana no momento da perda.
A nível jurídico e normativo, a Lei 15.139/25 surge como um marco para garantir que o acolhimento humano e a separação de alas sejam direitos invioláveis da genitora. Tais dispositivos reforçam que o acolhimento não deve ser visto apenas como um esforço individual e isolado do enfermeiro, mas como um reflexo direto da qualidade das políticas de educação permanente e do suporte institucional oferecido. A invisibilidade do sofrimento materno deve ser transposta por protocolos fundamentados na ética do cuidado, garantindo que o manejo clínico seja indissociável do suporte empático e da dignidade no momento da despedida.
4.3. Perspectivas para a Prática de Enfermagem
A síntese das evidências demonstra que a atuação do enfermeiro no luto perinatal exige uma competência híbrida: a excelência técnica para prevenir causas evitáveis de morte e a sensibilidade humana para acolher o que não pôde ser evitado. A literatura de (BEZERRA et al., 2024) reforça que o acolhimento e o respeito ao sofrimento são fundamentais para o amparo à família. Portanto, é imperativo que as instituições de ensino e de saúde invistam em simulações realísticas e capacitações sobre comunicação de más notícias, transformando a assistência ao luto de um momento de silenciamento em um processo de cuidado integral e digno.
Conforme destacam (DANTAS et al. 2022), o acolhimento da enfermagem diante do óbito perinatal deve transcender os cuidados técnicos, focando na subjetividade e na dignidade da mulher. Esse achado corrobora a ideia de que uma assistência fragilizada ou puramente clínica transforma o luto em um evento traumático, evidenciando que as falhas no suporte emocional durante a despedida geram sequelas que marcam a trajetória da mulher de forma indelével.
Além disso, a análise dos determinantes sociais revela que o enfermeiro deve O enfermeiro atua como mediador essencial em cenários de vulnerabilidade, onde a baixa escolaridade materna exige uma comunicação eficaz para garantir a adesão ao pré-natal e a percepção de riscos (SILVA et al., 2025). Contudo, a superação de barreiras como o "distanciamento defensivo" depende de um suporte institucional que forneça saúde emocional aos profissionais, tornando o acolhimento um resultado direto de políticas de educação permanente e não apenas um esforço individual.
5. CONCLUSÃO
A presente revisão integrativa permitiu analisar de forma multidimensional a atuação da enfermagem no acolhimento de mães diante do óbito perinatal, evidenciando que a prática assistencial ainda oscila entre a excelência técnica e a fragilidade emocional. Conclui-se que o acolhimento qualificado é o diferencial determinante para que o luto não se converta em um trauma de proporções indeléveis na saúde mental da mulher. Os achados demonstraram que a enfermagem ocupa uma posição estratégica, atuando desde a identificação de riscos no pré-natal até o suporte imediato no momento da perda, funcionando como o principal elo entre a instituição e a família enlutada.
Entretanto, as evidências apontam que barreiras estruturais e subjetivas ainda comprometem a humanização do cuidado. O "distanciamento defensivo" dos profissionais, frequentemente originado pelo despreparo emocional para lidar com a finitude, revela uma lacuna crítica na formação acadêmica e na educação permanente. Além disso, a invisibilidade do luto perinatal no contexto social e hospitalar é agravada por déficits na gestão, que muitas vezes falha em oferecer o suporte psicológico necessário tanto para as mães quanto para as próprias equipes de saúde. A análise destaca que a implementação de dispositivos legais, como a Lei nº 15.139/25, representa um avanço jurídico essencial ao garantir o direito à separação de alas e ao acolhimento digno, mas sua eficácia real depende de uma mudança na cultura institucional.
Diante do exposto, este estudo reforça que a morte perinatal não deve ser tratada como um desfecho puramente clínico ou estatístico, mas como uma experiência humana que exige uma "ética do cuidado". Recomenda-se que as instituições de saúde invistam em protocolos de comunicação de más notícias e em estratégias de cuidado ao cuidador, visando mitigar o esgotamento profissional que impede a empatia. Para a enfermagem, o desafio reside em integrar a precisão técnica necessária para prevenir óbitos evitáveis com a sensibilidade terapêutica indispensável para acolher as perdas inevitáveis.
Como limitação, ressalta-se que o número reduzido de artigos selecionados reflete a necessidade de mais pesquisas de campo que ouçam diretamente as mães enlutadas e os profissionais da ponta. Espera-se que este trabalho forneça subsídios para que o enfermeiro deixe de ser apenas um executor de técnicas e se consolide como um agente de humanização, assegurando que a dignidade na despedida seja respeitada como um direito humano fundamental. A atuação da enfermagem, portanto, deve ser pautada na presença, na validação da dor e na garantia de que nenhuma mulher precise atravessar o silêncio da perda sem o devido amparo técnico e afetivo.
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Trabalho de conclusão de curso apresentado como requisito parcial, para conclusão do curso de enfermagem do Centro Universitário Cesmac, sob a orientação da professora Nathalia Lima da Silva e coorientação do professora Raíssa Fernanda Evangelista Pires dos Santos.
1 Graduanda do Curso de Enfermagem da Faculdade Centro Universitário Cesmac. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Graduanda do Curso de Enfermagem da Faculdade Centro Universitário Cesmac. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
3 Profª. do Curso de Enfermagem da Faculdade Centro Universitário Cesmac. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
4 Profª. Mestre do Curso de Enfermagem da Faculdade Centro Universitário Cesmac. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail