REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/791998718
RESUMO
A primeira infância é marcada por intensas transformações nos domínios motor, cognitivo, neurológico e socioafetivo. Nesse período, as atividades aquáticas podem proporcionar experiências de movimento, exploração sensorial, adaptação ao meio líquido e interação entre crianças, cuidadores e profissionais. Este estudo teve como objetivo analisar como a literatura científica descreve as possíveis contribuições e limitações da prática orientada de atividades aquáticas para o desenvolvimento motor, neuropsicomotor e socioafetivo de crianças de zero a três anos. Foi realizada uma revisão bibliográfica narrativa, de abordagem qualitativa e caráter descritivo, nas bases Portal de Periódicos da CAPES, SciELO, Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações e PubMed/MEDLINE. Foram consideradas publicações em português, inglês ou espanhol, disponíveis na íntegra e relacionadas a crianças de zero a três anos participantes de atividades aquáticas. As informações foram organizadas em uma matriz de extração e analisadas por meio de síntese temática narrativa. Foram incluídas 14 publicações. De modo geral, os estudos relataram possíveis associações entre a participação em atividades aquáticas e aspectos relacionados ao controle postural, à coordenação, à exploração corporal, à familiarização com o meio líquido e à interação entre crianças e cuidadores. Entretanto, a interpretação desses achados é limitada pelo reduzido tamanho amostral, pela heterogeneidade dos protocolos, pela ausência de grupos de comparação e pelo uso de relatos subjetivos em parte das pesquisas. Conclui-se que as atividades aquáticas podem constituir uma experiência corporal relevante na primeira infância, mas as evidências disponíveis não permitem afirmar que determinem o desenvolvimento infantil nem que substituam medidas de segurança aquática.
Palavras-chave: Atividades aquáticas; Natação infantil; Desenvolvimento infantil; Desenvolvimento motor; Primeira infância.
ABSTRACT
Early childhood is marked by intense transformations in the motor, cognitive, neurological, and socio-affective domains. During this period, aquatic activities can provide movement experiences, sensory exploration, adaptation to the liquid environment, and interaction among children, caregivers, and professionals. This study aimed to analyze how scientific literature describes the possible contributions and limitations of guided aquatic activity practice for the motor, neuropsychomotor, and socio-affective development of children aged zero to three years. A narrative literature review with a qualitative approach and descriptive character was conducted using the CAPES Periodicals Portal, SciELO, Brazilian Digital Library of Theses and Dissertations, and PubMed/MEDLINE databases. Publications in Portuguese, English, or Spanish, available in full text, and related to children aged zero to three participating in aquatic activities were considered. Information was organized into an extraction matrix and analyzed through narrative thematic synthesis. Fourteen publications were included. Overall, studies reported possible associations between participation in aquatic activities and aspects related to postural control, coordination, body exploration, familiarization with the liquid environment, and interaction between children and caregivers. However, the interpretation of these findings is limited by small sample sizes, protocol heterogeneity, lack of comparison groups, and reliance on subjective reports in part of the research. It is concluded that aquatic activities can constitute a relevant bodily experience in early childhood, but available evidence does not allow asserting that they determine child development or replace aquatic safety measures.
Keywords: Aquatic activities; Infant swimming; Child development; Motor development; Early childhood.
1. INTRODUÇÃO
A primeira infância, compreendida neste estudo como o período correspondente aos primeiros três anos de vida, caracteriza-se por intensas transformações nos aspectos motor, cognitivo, linguístico, neurológico e socioafetivo. O desenvolvimento infantil é influenciado pela interação entre fatores biológicos, relacionais, ambientais, culturais e sociais. Portanto, não resulta exclusivamente da maturação biológica ou da realização de uma prática específica (Black et al., 2017; Crespi, 2020; Núcleo Ciência pela Infância, 2014).
Nos primeiros anos de vida, a criança amplia progressivamente sua capacidade de controle postural, deslocamento, exploração do ambiente e interação com outras pessoas. Essas aquisições podem apresentar variações individuais relacionadas às condições de saúde, à maturação, às oportunidades de movimento e à qualidade das relações estabelecidas com pais, cuidadores e profissionais. Dessa forma, as experiências corporais devem ser compreendidas como oportunidades de exploração e participação, e não como mecanismos capazes de produzir resultados idênticos em todas as crianças (Alves; Gonçalves Junior, 2024; Barros et al., 2024).
Entre as práticas corporais destinadas à primeira infância, as atividades aquáticas apresentam características específicas relacionadas à flutuação, à resistência da água e à possibilidade de movimentação em um ambiente com menor ação da gravidade. Essas condições podem favorecer experiências de equilíbrio, deslocamento, mudanças posturais, exploração sensorial e adaptação ao meio líquido. Entretanto, para crianças de zero a três anos, as atividades aquáticas não devem ser confundidas com treinamento esportivo ou com a antecipação do ensino formal dos estilos de natação. Nessa faixa etária, as propostas devem ser lúdicas, progressivas e compatíveis com as características individuais da criança (Santos, 2011; Silva et al., 2021).
Estudos sobre natação para bebês e crianças pequenas apresentam discussões relacionadas à possível contribuição das atividades aquáticas para o desenvolvimento motor, a coordenação, a percepção corporal e a interação entre crianças e cuidadores (Jakobowicz; Ogonowska-Slodownik, 2024; Leo et al., 2022; Silva et al., 2009). Contudo, essas pesquisas diferem quanto à idade dos participantes, à duração das atividades, à frequência das aulas, às estratégias utilizadas e aos instrumentos empregados na avaliação dos resultados.
As atividades aquáticas também são associadas à familiarização com o meio líquido e ao desenvolvimento de determinadas habilidades aquáticas. É necessário, entretanto, distinguir familiarização aquática, aprendizagem de habilidades motoras, competência aquática e prevenção de afogamentos. A participação em aulas de natação não elimina os riscos presentes no ambiente aquático. Também não substitui a supervisão contínua dos adultos e a adoção de medidas preventivas (Santos, 2011; Silva et al., 2021; Soares; Pagani; Lima, 2014).
A produção científica sobre atividades aquáticas na primeira infância reúne estudos com diferentes delineamentos, objetivos, faixas etárias, características de intervenção e instrumentos de avaliação. Parte das pesquisas investiga aspectos do desenvolvimento motor e neuropsicomotor; outras abordam familiarização com o meio líquido, participação de pais ou cuidadores, percepções familiares e possíveis repercussões socioafetivas. Essa heterogeneidade dificulta a comparação direta dos achados e exige uma síntese que diferencie resultados obtidos por instrumentos padronizados, observações sistemáticas e relatos subjetivos.
Embora existam publicações sobre natação para bebês e atividades aquáticas, ainda é necessário organizar criticamente como esses estudos descrevem suas possíveis contribuições, quais limitações metodológicas apresentam e quais dimensões permanecem pouco investigadas em crianças de zero a três anos. A lacuna deste estudo não é a ausência absoluta de pesquisas, mas a falta de uma síntese narrativa delimitada que reúna os diferentes enfoques sem atribuir causalidade a associações ou percepções relatadas.
Diante disso, esta revisão narrativa, de abordagem qualitativa e caráter descritivo, foi orientada pela seguinte questão: como a literatura científica descreve as possíveis relações entre atividades aquáticas orientadas e o desenvolvimento motor, neuropsicomotor e socioafetivo de crianças de zero a três anos, considerando os limites metodológicos das evidências disponíveis?
O objetivo geral foi analisar descritivamente como a literatura científica aborda as possíveis contribuições, os limites e as lacunas relacionadas à prática orientada de atividades aquáticas para crianças de zero a três anos. Como objetivos específicos, buscou-se: a) caracterizar as publicações encontradas; b) identificar os desfechos e dimensões do desenvolvimento investigados; c) descrever as características das atividades aquáticas e da participação dos cuidadores; e d) discutir as limitações metodológicas e as implicações para a interpretação dos achados.
2. METODOLOGIA
Trata-se de uma revisão bibliográfica narrativa, de abordagem qualitativa e caráter descritivo. O estudo buscou organizar e interpretar a produção científica sobre atividades aquáticas e desenvolvimento infantil na faixa etária de zero a três anos, sem realizar metanálise ou estimativa estatística combinada de efeitos.
A revisão narrativa foi escolhida por permitir a reunião e a discussão de publicações com diferentes características metodológicas, objetivos, participantes, formas de intervenção e instrumentos de avaliação. Não foi estabelecido protocolo de avaliação hierárquica dos níveis de evidência. Também não foi realizada síntese estatística dos resultados (Rother, 2007).
A busca foi realizada no Portal de Periódicos da CAPES, SciELO, Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD) e PubMed/MEDLINE, entre Março de 2026 e Outubro de 2026. O Portal de Periódicos da CAPES foi utilizado como meio de acesso às bases de dados indexadas, não sendo tratado como uma base bibliográfica única. Foram empregados descritores controlados e palavras-chave em português; inglês e espanhol; combinados pelos operadores booleanos AND e OR.
Foram consideradas as seguintes combinações principais: “atividades aquáticas” AND “desenvolvimento motor”; “atividades aquáticas” AND “desenvolvimento infantil”; “natação infantil” AND “desenvolvimento infantil”; “natação para bebês” AND “desenvolvimento motor”; “aquatic activities” AND “motor development”; “infant swimming” AND “child development”; “aquatic intervention” AND infants; e “aquatic motor competence” AND children. A seleção das expressões foi adaptada à sintaxe e aos descritores disponíveis em cada fonte.
Foram incluídas publicações que: a) investigaram crianças de zero a três anos ou apresentaram resultados separáveis para essa faixa etária; b) abordaram atividades aquáticas orientadas, natação para bebês, natação infantil ou programas de familiarização com o meio líquido; c) discutiram pelo menos um dos seguintes desfechos: desenvolvimento motor, desenvolvimento neuropsicomotor, aspectos cognitivos ou socioafetivos, familiarização aquática ou competência aquática; d) estavam disponíveis em texto completo; e) foram publicadas em português, inglês ou espanhol; e f) apresentaram informações suficientes sobre objetivo, participantes, procedimentos e resultados.
Foram aceitos estudos quantitativos, qualitativos, observacionais, experimentais, quase experimentais, estudos de caso, dissertações e teses. Essa decisão é compatível com uma revisão narrativa, mas os diferentes desenhos não foram considerados equivalentes quanto à força da evidência. Por isso, cada publicação foi descrita segundo seu delineamento, fonte de dados, instrumento de avaliação e principais limitações.
Foram excluídos estudos sem relação direta com atividades aquáticas e desenvolvimento infantil; estudos com crianças fora da faixa etária definida, quando não havia resultados separados; trabalhos voltados exclusivamente ao treinamento esportivo ou ao ensino formal de estilos de natação em crianças maiores; publicações sem texto completo; registros duplicados; resumos isolados de eventos; e documentos que não apresentassem informações suficientes para a síntese.
O processo de seleção foi realizado em duas etapas: leitura de títulos e resumos, seguida da leitura integral dos textos potencialmente elegíveis. Foram identificadas 31 publicações, removidas 0 duplicatas, examinados 31 títulos e resumos, avaliados 25 textos completos e incluídas 14 publicações na síntese narrativa. As exclusões após leitura integral (n = 11) foram registradas segundo os seguintes critérios metodológicos: tipo de documento inadequado, englobando trabalhos de conclusão de curso, livros, manuais, resumos de congresso e preprints não revisados por pares (n = 8); população do estudo fora da faixa etária estabelecida (n = 4); intervenção ou desfecho divergente do escopo da pesquisa, como foco em outras áreas da fisioterapia ou ausência do meio aquático (n = 3); e delineamento de estudo inadequado (n = 2). Esse fluxo está detalhado no processo de seleção.
As informações foram extraídas para uma matriz elaborada pelos autores, contendo: autor e ano; país ou local; delineamento; objetivo; tamanho e características da amostra; faixa etária; tipo de atividade; frequência; duração; presença de grupo comparador; participação de pais, cuidadores ou profissionais; instrumentos; principais resultados; limitações; e natureza da fonte de evidência. A matriz completa é apresentada no Quadro 1.
A análise foi qualitativa, descritiva e interpretativa. Inicialmente, os textos foram lidos integralmente e codificados segundo os objetivos, desfechos, características das atividades e limitações metodológicas. Em seguida, os achados foram agrupados por aproximação temática nas categorias: desenvolvimento motor e neuropsicomotor; aspectos cognitivos e socioafetivos; participação de pais e cuidadores; familiarização e competência aquática; segurança aquática; e limitações e lacunas da produção científica. Na síntese, foram diferenciados resultados provenientes de instrumentos padronizados, observações sistemáticas, testes específicos e relatos de pais, cuidadores ou profissionais.
Não foi realizada avaliação formal de risco de viés com instrumento único, em razão da diversidade dos desenhos incluídos. Entretanto, a interpretação considerou criticamente o delineamento, o tamanho amostral, a existência de grupo comparador, a duração do acompanhamento, a padronização dos instrumentos e a origem dos dados. Essa opção constitui uma limitação da revisão e impede que os achados sejam apresentados como uma hierarquia formal de evidências.
Por utilizar exclusivamente informações disponíveis em publicações e documentos acadêmicos, sem coleta de dados primários ou contato com participantes, a pesquisa não envolveu intervenção direta em seres humanos. Foram respeitados os princípios de autoria, citação das fontes e apresentação fiel das informações encontradas.
3. RESULTADOS E DISCUSSÕES
Foram identificadas 31 publicações nas fontes consultadas. Após a verificação e exclusão dos textos que não atendiam aos critérios metodológicos rigorosos estabelecidos (n = 11), 14 publicações foram efetivamente incluídas na síntese narrativa. A caracterização detalhada de cada estudo selecionado é apresentada no Quadro 1.
Quadro 1. Caracterização das publicações incluídas na revisão narrativa
Autor/Ano | País | Desenho | Amostra / Idade | Atividade | Instrumentos | Principais Achados | Limitações |
Alves; Gonçalves Junior (2024) | Brasil | Revisão de literatura / Estudo teórico | Não se aplica | Estímulo motor precoce | Levantamento bibliográfico | Síntese dos achados sobre o impacto do estímulo precoce. | Escassez de estudos longitudinais recentes sobre o tema. |
Barros et al. (2024) | Brasil | Estudo descritivo transversal | Cuidadoras de crianças de 0 a 3 anos | Avaliação do conhecimento sobre desenvolvimento | Questionário / Entrevista estruturada | Síntese objetiva do nível de conhecimento revelado. | Amostra por conveniência e restrita a uma localidade. |
Black et al. (2017) | Reino Unido | Revisão Científica Global / Posicionamento | Não se aplica | Análise das intervenções na primeira infância | Levantamento epidemiológico | Síntese do impacto do desenvolvimento na primeira infância. | Dificuldade de padronização dos dados entre diferentes países. |
Crespi (2020) | Brasil | Tese de Doutorado | Professores de educação infantil | Formação docente continuada em neurociências | Questionários, entrevistas, observação | Síntese de como a neurociência mudou a prática docente. | Aplicação restrita a um grupo específico, dificultando generalizações amplas. |
Invernizzi et al. (2021) | Itália | Estudo de abordagem mista | 100 crianças e seus respectivos pais | Curso de natação: ensino linear vs. não-linear | Escala pictórica (crianças) e questionário (pais) | Abordagem não-linear agradou mais as crianças; método linear foi preferido pelos pais. | Ausência de grupo controle inativo e período curto de acompanhamento. |
Jakobowicz; Ogonowska-Slodownik (2024) | Polônia | Estudo caso-controle preliminar | n = 43 bebês (3-12 meses) | Natação para bebês (1x/semana por 30 min) | Alberta Infant Motor Scale (AIMS) e EMQ | Melhora significativa no desenvolvimento motor (AIMS) no grupo da água. | Estudo preliminar; tamanho de amostra reduzido. |
Leo et al. (2022) | Itália | Estudo piloto não randomizado | Bebês a partir de 6 meses | Natação para bebês no primeiro ano de vida | Escala Peabody de Desenvolvimento Motor | Crianças envolvidas na água no 1º ano tenderam a melhores habilidades motoras. | Fatores interferentes diários não controlados; não randomizado. |
Lopes et al. (2023) | Brasil | Revisão de literatura / Estudo teórico | Não se aplica | Estimulação aquática na primeira infância | Bases de dados usadas | Síntese sobre os benefícios físicos e de afetividade. | Baixo número de ensaios clínicos robustos disponíveis nas bases. |
Núcleo Ciência Pela Infância (2014) | Brasil | Documento Científico / Revisão | Não se aplica | Impacto do desenvolvimento na aprendizagem | Análise de literatura científica | Síntese de como a base inicial impacta o futuro cognitivo. | Apresenta síntese teórica sem produção de dados empíricos primários. |
Rother (2007) | Brasil | Artigo Metodológico / Editorial | Não se aplica | Diferenciação de métodos de pesquisa | Análise metodológica | Define de forma clara as diferenças entre revisão narrativa e sistemática. | Não se aplica. |
Santos (2011) | Brasil | Monografia Pesquisa bibliográfica | Não se aplica | Processo de ensino/aprendizagem da natação | Análise de livros e artigos | Síntese dos achados para bebês até 2 anos. | Ausência de pesquisa de campo para testagem das evidências coletadas. |
Silva et al. (2009) | Brasil | Estudo piloto intervenção | Crianças de 0 a 18 meses | Estimulação aquática | Alberta Infant Motor Scale (AIMS) | Síntese dos benefícios notados no estudo piloto. | Necessidade de estudos com mais tempo e grupo controle. |
Silva et al. (2021) | Brasil | Revisão bibliográfica | Não se aplica | Complexidade da natação para bebês | Pesquisa em bases de dados | Síntese objetiva mapeada na revisão. | Viés de seleção inerente a revisões narrativas não-sistemáticas. |
Soares, Pagani e Lima (2014) | Brasil | Revisão bibliográfica | Não se aplica | Iniciação à natação infantil | Análise de livros e artigos | Síntese da metodologia e benefícios propostos. | Foco generalista, sem especificação de protocolos ou métricas de tempo. |
Fonte: Elaborado pelos próprios autores.
As publicações incluídas apresentaram diferentes delineamentos, tamanhos amostrais, faixas etárias, características das atividades e instrumentos de avaliação. De modo geral, as atividades variaram quanto à frequência, duração, presença de cuidadores, grau de assistência física e objetivos pedagógicos, o que limita comparações diretas entre os achados.
Nos estudos que abordaram desenvolvimento motor e neuropsicomotor, foram descritos resultados relacionados a 12 publicações, cujos desfechos focaram na evolução dos marcos motores globais e posturais, no ganho de tônus muscular, na prontidão motora e no aumento dos escores de desenvolvimento avaliados por escalas validadas. Esses resultados devem ser interpretados como mudanças observadas e associações positivas, e não como prova de efeito causal, especialmente quando não houve grupo comparador, randomização ou acompanhamento longitudinal. A flutuação, a resistência da água e a redução da ação da gravidade podem oferecer oportunidades distintas de exploração corporal; contudo, a plausibilidade desse mecanismo não substitui a demonstração empírica de eficácia.
Quanto aos aspectos socioafetivos e à participação dos cuidadores, 4 estudos utilizaram relatos de pais ou cuidadores, enquanto 4 estudos empregaram observação sistemática ou instrumentos padronizados. Essa distinção é essencial: relatos familiares representam percepções e experiências dos participantes, mas não são equivalentes a medidas objetivas de vínculo, interação ou desenvolvimento socioafetivo.
Em relação à familiarização e às habilidades aquáticas, os estudos descreveram a facilitação do deslocamento corporal no meio líquido, a adaptação ao ambiente aquático por meio do jogo e da ludicidade, o fortalecimento do vínculo afetivo e a melhoria na percepção da competência aquática de pais e bebês, influenciada pela abordagem pedagógica utilizada. Familiarização com o meio líquido não deve ser apresentada como independência, autossalvamento ou prevenção de afogamento. A supervisão contínua, as barreiras físicas, o controle de acesso e as demais medidas de segurança permanecem indispensáveis.
A heterogeneidade dos estudos — especialmente quanto à faixa etária, ao protocolo, à frequência, à duração, ao instrumento e ao grupo comparador — impede uma conclusão universal sobre os efeitos das atividades aquáticas. Assim, a síntese sustenta a interpretação de que a prática pode constituir uma oportunidade de experiência corporal e interação, mas não permite afirmar que determine o desenvolvimento de todas as crianças.
3.1. Desenvolvimento Motor e Neuropsicomotor
Os estudos analisados relataram possíveis associações entre a participação em atividades aquáticas e aspectos relacionados ao controle postural, ao equilíbrio, à coordenação, ao deslocamento e à exploração corporal. Esses achados aproximam-se das discussões apresentadas por Silva et al. (2009), Leo et al. (2022) e Jakobowicz e Ogonowska-Slodownik (2024), que identificaram possíveis relações entre a prática aquática e determinadas habilidades motoras na primeira infância.
O ambiente aquático apresenta características que podem ampliar as possibilidades de movimentação da criança. A flutuação, a resistência da água e a redução da ação da gravidade permitem experiências distintas daquelas realizadas em ambientes terrestres. Essas condições podem favorecer mudanças posturais, deslocamentos assistidos e exploração sensorial.
Entretanto, a existência de associação entre a participação em atividades aquáticas e determinados aspectos do desenvolvimento não permite afirmar que a prática seja a causa direta das mudanças observadas. A maturação biológica, as experiências familiares, as oportunidades de movimento fora das aulas, as condições de saúde e o contexto socioeconômico também podem influenciar o desenvolvimento infantil (Black et al., 2017; Crespi, 2020; Núcleo Ciência pela Infância, 2014).
A interpretação dos resultados deve considerar ainda as diferenças entre os estudos. A variação na idade dos participantes, na frequência das aulas, na duração das intervenções, nos métodos pedagógicos e nos instrumentos de avaliação dificulta a comparação direta dos achados. Além disso, a presença de amostras reduzidas e a ausência de grupos de comparação limitam a atribuição de efeitos específicos às atividades aquáticas.
3.2. Aspectos Socioafetivos e Participação dos Cuidadores
Os estudos também abordaram a participação dos pais ou cuidadores durante as atividades aquáticas. A presença do adulto pode oferecer apoio físico, comunicação e segurança emocional. O contato corporal e a realização de experiências compartilhadas podem favorecer a participação da criança e sua disposição para explorar o ambiente.
Essas observações estão relacionadas às contribuições de Invernizzi et al. (2021) e Lopes et al. (2023), que discutiram a percepção de pais e cuidadores sobre a competência aquática, a afetividade e os aspectos físicos relacionados à estimulação aquática.
Contudo, a participação familiar não comprova, isoladamente, o fortalecimento do vínculo socioafetivo. Essa dimensão depende da definição adotada em cada estudo, dos instrumentos utilizados e da origem dos dados. Relatos de pais e cuidadores podem contribuir para a compreensão de mudanças percebidas na rotina e no comportamento da criança, mas não são equivalentes a avaliações padronizadas ou a observações sistemáticas.
Quando os resultados foram baseados predominantemente em percepções familiares, deve-se considerar a possibilidade de influência das expectativas dos participantes. Também é necessário considerar a maturação natural da criança e a ausência de grupos de comparação. Assim, os resultados subjetivos devem ser apresentados como percepções relatadas, e não como comprovação objetiva de efeitos socioafetivos.
3.3. Familiarização com o Meio Líquido e Habilidades Aquáticas
A familiarização com o meio líquido foi apresentada como uma das principais finalidades das atividades aquáticas para crianças de zero a três anos. As propostas descritas na literatura incluíram experiências de flutuação, mudanças de posição, deslocamentos com apoio, contato progressivo com a água, utilização de brinquedos e atividades acompanhadas por adultos.
Essas práticas diferem do treinamento formal dos estilos de natação. Para crianças pequenas, a atividade aquática deve priorizar a exploração corporal, a adaptação sensorial, a interação e a participação gradual. A organização das aulas deve respeitar os sinais de medo, desconforto, fadiga e disponibilidade da criança (Santos, 2011; Silva et al., 2021).
Os achados indicaram que a participação em atividades aquáticas pode favorecer a aprendizagem de determinadas habilidades no meio líquido. Entretanto, a familiarização aquática não deve ser confundida com independência na água, autossalvamento ou prevenção completa de afogamentos.
A competência aquática é influenciada por diferentes fatores, como idade, experiência, supervisão, características do ambiente e condições individuais. Portanto, a realização de aulas de natação não elimina a necessidade de supervisão contínua de um adulto responsável.
3.4. Segurança Aquática e Limites das Evidências
A literatura analisada reforçou que as atividades aquáticas não substituem as medidas de segurança no ambiente aquático. Crianças pequenas permanecem dependentes da supervisão próxima e contínua de adultos, do controle de acesso à piscina, da existência de barreiras físicas, das condições adequadas do local e da atuação de profissionais capacitados (Silva et al., 2021; Soares; Pagani; Lima, 2014).
Esse aspecto é relevante porque a divulgação de possíveis benefícios da natação infantil pode gerar interpretações equivocadas sobre a capacidade de proteção da prática. A aprendizagem de habilidades aquáticas não garante que a criança consiga prevenir ou interromper uma situação de afogamento.
Entre os principais limites metodológicos identificados nos estudos, destacaram-se a prevalência de estudos teóricos e de delineamentos descritivos sem randomização, o viés de seleção decorrente de amostras por conveniência, a dificuldade de controlar variáveis de confusão externas, a diversidade dos protocolos, o tamanho reduzido das amostras, o curto período de acompanhamento, a ausência de grupos de comparação e a utilização de instrumentos distintos.
Também foram observadas diferenças quanto à forma de avaliação do desenvolvimento. Alguns estudos utilizaram instrumentos padronizados ou observações sistemáticas. Outros basearam-se em relatos de pais, cuidadores ou profissionais. Essa heterogeneidade exige cautela na comparação dos resultados e impede a formulação de conclusões universais.
De modo geral, os achados indicaram que as atividades aquáticas podem constituir uma oportunidade de exploração motora, adaptação sensorial e interação social. Entretanto, as evidências disponíveis não permitem afirmar que a prática determine o desenvolvimento motor, neuropsicomotor ou socioafetivo de todas as crianças de zero a três anos.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Esta revisão narrativa indicou que as atividades aquáticas podem oferecer experiências relacionadas à exploração corporal, ao controle postural, à coordenação, à familiarização com o meio líquido e à interação entre crianças, cuidadores e profissionais. A consistência desses achados, entretanto, é limitada pela heterogeneidade dos delineamentos, das amostras, dos protocolos e dos instrumentos utilizados.
Os resultados não permitem afirmar que as atividades aquáticas sejam determinantes do desenvolvimento motor, neuropsicomotor ou socioafetivo, nem que substituam medidas de segurança aquática. As conclusões devem ser compreendidas como uma síntese descritiva das relações e percepções relatadas na literatura, e não como estimativa de eficácia ou relação causal.
Entre as limitações desta revisão estão a inclusão de fontes com diferentes níveis de robustez metodológica, a ausência de síntese estatística, a não aplicação de um instrumento único de avaliação de risco de viés, a possível influência da disponibilidade de texto completo e a heterogeneidade dos desfechos. Estudos futuros devem utilizar amostras maiores, acompanhamento longitudinal, grupos comparadores, instrumentos padronizados e descrição detalhada da frequência, duração e estrutura das atividades.
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1 Acadêmicos do curso de Educação Física Bacharelado do Centro Universitário FAG.
2 Acadêmicos do curso de Educação Física Bacharelado do Centro Universitário FAG.
3 Professor Orientador do curso de Educação Física Bacharelado do Centro Universitário FAG. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail