REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/792353472
RESUMO
O presente estudo teve como objetivo avaliar a atividade antibacteriana e a capacidade modificadora da ação de antibióticos do extrato aquoso de Morinda citrifolia Linn. frente a bactérias multirresistentes, associado ou não à exposição às luzes LED azul e vermelha. Os ensaios foram realizados pela metodologia de microdiluição, utilizando cepas de Klebsiella pneumoniae carbapenemase (NCTC 13442) e um isolado clínico de Pseudomonas aeruginosa (P.A. IC1). Os resultados foram expressos em média geométrica, considerando-se significativas as diferenças com p ≤ 0,05. Para K. pneumoniae, o Meropenem apresentou concentração inibitória mínima (CIM) ≥1024 µg/mL na ausência de luz. A associação do antibiótico ao extrato, sem exposição luminosa, não reduziu a CIM. Da mesma forma, a combinação extrato + Meropenem sob luz azul manteve valores elevados de CIM. Entretanto, a exposição apenas do Meropenem à luz azul promoveu redução acentuada da CIM, indicando ausência de efeito potencializador do extrato nessa condição. Para P. aeruginosa, o Meropenem apresentou CIM aproximada de 0,05 µg/mL no controle. A associação com o extrato não promoveu redução da CIM, sugerindo interação não promissora. Quando combinados extrato, Meropenem e luz azul, foram observados valores de CIM ≥1024 µg/mL, podendo indicar fotodegradação do antibiótico ou alterações relacionadas à tolerância bacteriana. Conclui-se que M. citrifolia não apresentou atividade antibacteriana significativa isoladamente e que sua associação ao Meropenem pode modificar a CIM de maneira dependente do microrganismo e das condições de exposição à luz, ampliando o conhecimento sobre o potencial do noni como modulador da ação antibiótica.
Palavras-chave: Fototerapia; Light Emitting Diode (LED); Noni; Resistência bacteriana.
ABSTRACT
The present study aimed to evaluate the antibacterial activity and the ability of the aqueous extract of Morinda citrifolia Linn. to modify the action of antibiotics against multidrug-resistant bacteria, with or without exposure to blue and red LED lights. The assays were performed using the microdilution method, employing strains of carbapenemase-producing Klebsiella pneumoniae (NCTC 13442) and a clinical isolate of Pseudomonas aeruginosa (P.A. IC1). The results were expressed as geometric means, with differences considered statistically significant when p ≤ 0.05. For K. pneumoniae, Meropenem showed a minimum inhibitory concentration (MIC) ≥1024 µg/mL in the absence of light. The combination of the antibiotic with the extract, without light exposure, did not reduce the MIC. Likewise, the combination of the extract and Meropenem under blue light maintained high MIC values. However, exposure of Meropenem alone to blue light resulted in a marked reduction in the MIC, indicating no potentiating effect of the extract under this condition. For P. aeruginosa, Meropenem showed an MIC of approximately 0.05 µg/mL in the control condition. Its combination with the extract did not reduce the MIC, suggesting an unpromising interaction. When the extract, Meropenem, and blue light were combined, MIC values ≥1024 µg/mL were observed, which may indicate antibiotic photodegradation or changes associated with bacterial tolerance. It was concluded that M. citrifolia did not show significant antibacterial activity when used alone and that its combination with Meropenem may modify the MIC depending on the microorganism and light exposure conditions, contributing to the understanding of the potential of noni as a modulator of antibiotic activity.
Keywords: Phototherapy; Light-Emitting Diode (LED); Noni; Bacterial resistance.
1. INTRODUÇÃO
O uso de antibióticos revolucionou a medicina e salvou milhões de vidas, mas seu uso inadequado favoreceu o surgimento da resistência bacteriana, um problema de saúde em constante crescimento. Quanto mais esses medicamentos são utilizados, maior é a chance de bactérias desenvolverem resistência, criando um desafio cada vez maior para o futuro (Camacho et al., 2025).
A resistência aos antimicrobianos constitui um importante problema de saúde pública, com impacto expressivo sobre a mortalidade em escala global. Em 2019, infecções associadas à resistência bacteriana estiveram relacionadas a aproximadamente 5 milhões de mortes, sendo cerca de 1,27 milhão diretamente atribuíveis a patógenos resistentes (GBD, 2022). Dados mais recentes do Global Burden of Disease também demonstram a persistência desse cenário, reforçando a necessidade de estratégias capazes de preservar e ampliar a efetividade dos tratamentos disponíveis.
Entre os fatores associados à persistência bacteriana destacam-se a formação de biofilmes e a atuação de bombas de efluxo, mecanismos que podem limitar a ação dos antibióticos e favorecer a manutenção das infecções (Sinha et al., 2024; Handzlik et al., 2013). Paralelamente, o desenvolvimento de novos antibacterianos permanece limitado, enquanto os custos relacionados à resistência antimicrobiana tendem a aumentar, evidenciando a necessidade de alternativas terapêuticas e de estratégias que possam ampliar a eficácia dos medicamentos já disponíveis (OMS, 2023).
Neste contexto, a terapia fotodinâmica (TFD) tem se destacado como uma alternativa promissora como coadjuvante para os antibióticos, baseada na ativação de fotossensibilizadores por meio de radiação luminosa em comprimentos de onda específicos, gerando espécies reativas de oxigênio (ERO) que promovem danos oxidativos às estruturas celulares bacterianas, resultando em efeitos bactericidas eficientes. Esse processo gera radicais livres e oxigênio singleto, induzindo a foto-oxidação da matéria orgânica, promovendo a destruição de bactérias e seus produtos tóxicos presentes (Batishchev et al., 2023).
Ademais, os agentes fotossensíveis (AF) empregados na TFD precisam apresentar estabilidade biológica, possuir baixa toxicidade para os tecidos corporais, ser ativados apenas sob irradiação luminosa, demonstrar especificidade para o tecido alvo, ser aplicados localmente, de forma tópica e, após um intervalo adequado, ser expostos à luz com dose e comprimento de onda apropriados para sua finalidade (Siqueira et al., 2018).
O agente deve ter um pico de absorção de luz preferencialmente na faixa do vermelho ou do infravermelho, ou seja, um comprimento de onda entre 600 e 800nm. Esses comprimentos de onda penetram mais facilmente nos tecidos do corpo humano. O agente também deve ser anfifílico, circulando bem na corrente sanguínea e atravessando a membrana lipídica das células-alvo. Após a finalização da terapia, o agente deve ser facilmente eliminado pelo organismo, a fim de evitar que o paciente sofra uma fotossensibilidade prolongada (Siqueira et al., 2018).
A TFD apresenta vantagem por não induzir mecanismos clássicos de resistência, o que a torna uma abordagem viável e promissor para o controle de bactérias multirresistentes, promovendo desse modo uma possível solução para a problemática da resistência bacteriana. As Espécies Reativas de Oxigênio geradas pela FTD atacam simultaneamente várias estruturas celulares da bactéria, de modo que ela não consegue ativar bombas de efluxo ou vias de reparo antes de ser destruída. Além disso, destaca-se a independência de receptores celulares (toxicidade baseada em oxigênio singlete) e a independência do ciclo celular da bactéria, erradicando biofilmes bacterianos (Sarges et al., 2025).
Além da terapia fotodinâmica, a combinação de plantas ou frutos para potencializar os efeitos dos antibióticos passou a ser mais uma alternativa inovadora e que promete solucionar o problema da resistência à antibacterianos. Morinda Citrifolia Linn, conhecida popularmente como Noni é uma fruta originária do Sudeste Asiático e possui uma ampla gama de efeitos terapêuticos e aspectos medicinais. A fruta foi distribuída através de diferentes colonizadores pelas Ilhas tropicais do Pacífico, principalmente pelos polinésios. Hoje, o Noni é encontrado em várias partes do planeta (Figueiredo et al., 2022).
A fruta ainda é pouco conhecida no Brasil, sua propagação deve-se ao efeito medicinal, principalmente o suco da fruta que é ingerido com água e em alguns casos combinado com outros sucos de outras frutas como por exemplo o suco de uva. Na medicina popular, afirma-se que existem em média mais de 120 problemas de saúde que podem ser tratados e/ou curados com o Noni e seus respectivos extratos aquoso, etanólico e óleos essenciais (Carvalho et al., 2020).
Morinda citrifolia é uma dessas plantas com amplos efeitos nutracêuticos e terapêuticos, conhecida por suas propriedades medicinais há cerca de 2000 anos na Ásia. Trata-se de uma planta tropical e subtropical cultivada nas Ilhas do Pacífico e que tem sido utilizada para tratar aproximadamente 2000 doenças e é empregada como antifúngica, antibacteriana, anti-inflamatória, anticancerígena, antiparasitária e analgésica (Sina et al., 2021).
O estudo utilizou o método laboratorial DHPP, comparando o desempenho do suco com o desempenho do ácido ascórbico. O suco fresco apresentou uma capacidade de sequestro de radicais livres superior à da vitamina C. Por sua vez, o suco fermentado apresentou um desempenho inferior ao da vitamina C. A atividade antioxidante foi reduzida à metade em comparação com o suco fresco, indicando perda do potencial antioxidante diante da fermentação do suco (Sina et al., 2021).
Avaliou-se a atividade antioxidante de três partes distintas do Noni: a polpa, a casca e as sementes. A polpa do Noni destaca-se por concentrar a maior quantidade de vitaminas e de pigmentos bioativos, tendo o maior teor de vitamina C e de carotenoides totais entre as partes estudadas. A polpa também possui alta concentração de compostos fenólicos totais. A casca, por sua vez, apresenta valores intermediários para a maioria dos compostos, mas com uma importante atividade antioxidante. Por fim, as sementes são mais ricas em determinados macronutrientes, apresentando quantidades significativas de carboidratos, elevado teor de proteínas e uma importante atividade antioxidante (Costa et al., 2013).
O extrato aquoso de Morinda citrifolia Linn contém diversos compostos bioativos, incluindo flavonoides, alcaloides e xeronina, que exibem atividades antimicrobianas, antioxidantes e moduladoras de resistência bacteriana. A associação do extrato com antibióticos pode potencializar a eficácia destes, por meio da modificação dos mecanismos de resistência bacteriana, além de atuar como agente fotossensibilizador na terapia fotodinâmica (Cunha et al., 2025).
Dentro desse contexto, ainda há poucas evidências científicas que comprovem os valores terapêuticos do suco de M. citrifolia. Assim, este trabalho teve como objetivo realizar a avaliação das atividades antibacterianas dos frutos de Morinda citrifolia tanto de forma isolada quanto combinado com LED para potencializar os efeitos de alguns antibióticos. A associação desses compostos com terapia fotodinâmica e antibióticos pode oferecer uma alternativa inovadora e eficaz no combate a bactérias multirresistentes. Este estudo é relevante pois além da contribuição para possíveis alternativas frente a resistência bacteriana, possibilita resultados para possíveis pesquisas futuras relacionadas com a problemática abordada.
Portanto, avaliar a atividade fototodinâmica, antibacteriana e modificadora de antibióticos do extrato aquoso de Morinda Citrifolia Linn. frente a bactérias multirresistentes possuem juntos ampla diversidade biológica ainda pouco explorada, tornando-se por sua vez um foco promissor para pesquisas futuras envolvendo o uso de LED integrado com substâncias naturais como no caso do None (Obeng-boateng et al., 2024). Dessa forma, poderá haver novas alternativas para o enfrentamento da resistência bacteriana aos antibióticos convencionas.
2. MATERIAIS E MÉTODOS
2.1. Tipo de Estudo
Tratou-se de uma pesquisa de caráter experimental de abordagem quantitativa para avaliação da atividade antimicrobiana e moduladora do extrato aquoso do fruto de Morinda citrifolia Linn.
2.2. Coleta do Material Vegetal
O material (frutos) foi coletado no município de Campos Sales-CE em junho de 2025 nas seguintes coordenadas geográficas do local: (-7.0663590, -40.3681385). As características agrícolas e as propriedades do noni (Morinda citrifolia L.) são apresentadas na Figura 1, de acordo com Sousa et al. (2009). Ademais, identificou-se a espécie, gênero e família da planta em campo pelo botânico Dr. José Weverton Almeida Bezerra. Os frutos maduros foram levados para o laboratório multidisciplinar do Centro Universitário Dr. Leão Sampaio, em Juazeiro do Norte-CE, para a obtenção do extrato.
Figura 1. Aspectos agrícolas e propriedades do Noni (Morinda citrifolia L.) segundo a Embrapa
2.3. Obtenção do Extrato Aquoso
Os frutos de Morinda Citrifolia Linn. foram secos em temperatura ambiente e triturados para aumentar a superfície de contato. Em seguida foram submersos em água por um período de 72 horas, de acordo com o método de Simões et al. (2010). A mistura foi submetida a filtração para retirada das impurezas e posterior secagem inicialmente realizada em banho-maria e depois em estufa. O rendimento do extrato então foi de 400 g.
2.4. Antibióticos, Meios de Cultura, Aparelhos Led
O antibiótico Meropenem foi gentilmente fornecido pelo Laboratório de Microbiologia e Biologia Molecular (LMBM) da Universidade Regional do Cariri (URCA). O meio de cultura BHI à 10 % foi cedido pelo Centro Universitário Dr. Leão Sampaio, assim como o Dimetilsulfóxido (DMSO) de Merck, Alemanha. Já o dispositivo Light Emitting Diodes-LED (um diodo emissor de luz), da marca NEW Estética® foi disponibilizado pelo Centro Universitário Dr. Leão Sampaio.
2.5. Microrganismos
Foram utilizadas as linhagens bacterianas padrão de Klebsiella pneumoniae carbapenemase (NCTC 13442) e Pseudomonas aeruginosa isolado clínico 1 (PA IC1) cedidas pelo Laboratório Vicente Lemos. Todas as linhagens foram mantidas em BHI à 10 %. Para realização dos testes, as linhagens foram suspendidas em tubo de ensaio com água destilada para obtenção de uma suspensão com turvação equivalente a 0,5 da escala de McFarlland (1 x 108 UFC/mL).
2.6. Determinação da Concentração Inibitória Mínima (Cim)
Para os testes utilizou-se soluções preparadas a partir do extrato, sob uma concentração inicial de 10 mg/mL, dissolvidos em DMSO (dimetil sulfóxido), em seguida a solução foi diluída com água destilada estéril para se obter uma concentração final de 1024 μg/mL. A determinação da CIM do extrato foi realizada pela técnica de microdiluição, utilizando placas contendo 96 cavidades com fundo chato e em triplicata (Ellof, 1998; Souza et al., 2007).
Para distribuição na placa de microdiluição foram preparados tubos eppendorf® contendo cada um deles 1,5 mL de solução contendo 1350 μL de BHI e 150 μL da suspensão bacteriana. A placa então foi preenchida no sentido numérico adicionando-se 100 μL desta solução em cada poço (placa de 96 poços) e em seguida a microdiluição seriada com a solução de 100 μL do produto natural (Javadpour et al., 1996), onde o primeiro poço apresentou uma concentração de 512 ug/mL.
As placas foram levadas à estufa para incubação por 24 h à 37 ºC. Para revelação da CIM foi preparada uma solução indicadora de resazurina sódica (Sigma) em água destilada estéril na concentração de 0,01% (p/v) e adicionado 20uL da mesma em cada poço. As placas passaram por um período de incubação de 20 minutos em temperatura ambiente para posterior leitura. A mudança da coloração azul para rosa é devido à redução da resazurina, que indica o crescimento bacteriano. Então foi definido a CIM para os produtos testados, como a menor concentração capaz de inibir visualmente o crescimento bacteriano verificado nos orifícios (evidenciado pela cor azul inalterada) quando comparado com o crescimento controle.
2.7. Avaliação da Atividade Modificadora de Antibióticos
O extrato foi misturado em caldo BHI 10% em concentrações subinibitórias, obtidos e determinados após a realização de teste de avaliação da CIM. A preparação das soluções de antibióticos foi realizada com a adição de água destilada estéril em concentração dobrada (1024 μg/mL) em relação à concentração inicial definida e volumes de 100 μL diluídos na proporção de 1:1 em caldo BHI 10%. Em cada cavidade com 100μL do meio de cultura contou com suspensões bacterianas diluídas (1:10).
Os mesmos controles utilizados na avaliação da CIM para os extratos foram utilizados durante a modulação (Coutinho et al., 2008). As placas preenchidas foram incubadas a 35ºC por 24 horas e após esse período, a leitura foi evidenciada pelo uso da resazurina como citado anteriormente no teste de determinação da CIM. Os ensaios foram feitos em triplicata e um controle negativo foi realizado para confirmação da esterilidade do meio.
2.8. Avaliação da Atividade Modificadora com Exposição à Luz de Led Azul e Vermelha
O aparelho utilizado durante o procedimento experimental com LED foi o Light Emithing Diodes- LED, da marca NEW Estética®. Foram utilizadas a luz azul e vermelha com um comprimento de onda pré-determinado pelo aparelho. Para a realização destes testes, inicialmente efetuou-se a utilização das mesmas metodologias referentes ao teste de avaliação da atividade antibacteriana e moduladora por contato direto. Após isso, as placas foram subdividas em três grupos, onde o primeiro foi submetido à luz de LED azul durante dez minutos, o segundo submetido à luz de LED vermelha e o terceiro não foi submetido à luz de LED. As placas foram incubadas a 37 ºC, durante 24h. Os testes foram realizados em triplicata e para determinação da CIM foi utilizada a resazurina sódica (Pereira et al., 2017). A Figura 2 apresenta o protocolo experimental, com a representação dos diferentes grupos de estudo avaliados.
Figura 2. Fluxograma representativo do protocolo experimental, detalhando os grupos de estudo, o extrato de Morinda citrifolia, o antibiótico Meropenem e a exposição às luzes LED.
2.9. Análise Estatística
Os resultados foram expressos em média geométrica, avaliados estatisticamente através da análise de variância (ANOVA) seguido pelo pos-test Bonferroni utilizando o software GraphPad Prism., as diferenças foram consideradas significativas quando p < 0,05.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
O estudo ASCENSION, publicado na revista The Lancet Regional Health – Americas, investigou a prevalência e o impacto da resistência aos antimicrobianos em hospitais brasileiros, com foco em infecções da corrente sanguínea causadas por patógenos considerados prioritários pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Os resultados demonstraram que 38,8% dos isolados apresentavam perfis de resistência, conforme apresentado na Tabela 1.
O estudo também evidenciou a elevada frequência da Klebsiella pneumoniae resistente aos carbapenêmicos (CRKP) entre os isolados analisados. A CRKP foi o patógeno resistente de prioridade da OMS mais frequente em números absolutos, sendo identificada em 192 dos 1.350 isolados de infecções da corrente sanguínea, correspondendo a 14,2% do total. Entre as enterobactérias resistentes aos carbapenêmicos (CRE), que representaram 19,3% dos isolados, a CRKP correspondeu a 73,8% dos casos, conforme demonstrado na Tabela 2. Além disso, 98,5% dos isolados de CRKP apresentaram genes associados à produção de carbapenemases, com predominância de KPC (64,4%) e NDM (28,4%), mecanismos que contribuem para a resistência aos carbapenêmicos e podem limitar as opções terapêuticas disponíveis.
Tabela 1. Frequência absoluta e proporção dos patógenos resistentes (WPAP):
PATÓGENO RESISTENTE (WPAP) | SIGLA | QUANTIDADE ABSOLUTA (N) | % DO TOTAL GERAL (N = 1.350) | % DO GRUPO DE RESISTENTES (N = 524) |
Klebsiella pneumoniae resistente a carbapenêmicos | CRKP | 192 | 14,2% | 36,6% |
Acinetobacter baumannii resistente a carbapenêmicos | CRAB | 129 | 9,6% | 24,6% |
Staphylococcus aureus resistente à meticilina | MRSA | 66 | 4,9% | 12,6% |
Enterococcus faecium resistente à vancomicina | VRE | 37 | 2,7% | 7,1% |
Pseudomonas aeruginosa resistente a carbapenêmicos | CRPA | 32 | 2,4% | 6,1% |
Outras Enterobactérias resistentes a carbapenêmicos | Outras CRE | 68 | 5,0% | 13,0% |
Total de Isolados Resistentes (WPAP) | WPAP | 524 | 38,8% | 100,0% |
Fonte: Adaptado de Antochevis et al., 2025
Tabela 2. Dominância da CRKP no grupo das Enterobactérias resistentes (CRE).
CATEGORIA DE ENTEROBACTÉRIA (CRE) | ISOLADOS (N) | % DENTRO DO GRUPO CRE (N = 260) | % DO TOTAL GERAL DO ESTUDO (N = 1.350) |
Klebsiella pneumoniae (CRKP) | 192 | 73,8% | 14,2% |
Outras espécies de Enterobactérias | 68 | 26,2% | 5,1% |
Total de CRE | 260 | 100,0% | 19,3% |
Fonte: Adaptado de Antochevis et al., 2025
A elevada frequência desses patógenos também esteve acompanhada de importante impacto clínico. Para K. pneumoniae, a mortalidade geral foi de 37,2%, alcançando 42,3% entre os pacientes infectados por cepas CRKP, em comparação com 30,0% entre aqueles infectados por cepas suscetíveis aos carbapenêmicos. Destaca-se, entretanto, a elevada mortalidade observada nas infecções por Pseudomonas aeruginosa resistente aos carbapenêmicos (CRPA), que apresentou a maior taxa bruta de mortalidade entre os patógenos resistentes, atingindo 52,4%, em comparação com 47,0% nos episódios causados por cepas suscetíveis. Os dados de mortalidade descritos no estudo multicêntrico estão apresentados na Figura 3.
Figura 3. Dados do estudo ASCENSION comprovam que a presença de bactérias com fenótipo de resistência prioritário da OMS (WPAP) aumenta significativamente o risco de morte em comparação a infecções por cepas sensíveis:
Diante da relevância da resistência aos antimicrobianos e da necessidade de ampliar as alternativas para o enfrentamento de bactérias de importância clínica, a investigação de fontes naturais com potencial antimicrobiano tem despertado crescente interesse científico. No período de 2014 a 2024, diferentes estudos avaliaram extratos, frações e preparações obtidas de Morinda citrifolia frente a diversos microrganismos, evidenciando resultados que variam de acordo com a parte vegetal utilizada, o solvente empregado, o método de extração e as condições experimentais. Nesse contexto, a Tabela 3 reúne estudos publicados entre 2014 e 2024 que investigaram a atividade antibacteriana de diferentes preparações de M. citrifolia frente a várias bactérias, incluindo Pseudomonas aeruginosa e Klebsiella pneumoniae, permitindo observar a diversidade de abordagens e os diferentes níveis de atividade descritos na literatura.
Tabela 3. Síntese de estudos científicos relacionados a atividade antibacteriana de Morinda citrifolia.
ANO E AUTOR(ES) | BACTÉRIAS AVALIADAS | PARTE DA PLANTA E TIPO DE EXTRATO | RESULTADOS DA ATIVIDADE ANTIBACTERIANA |
Wibowo (2014) | Streptococcus mutans e Klebsiella pneumoniae* | Folhas delignificadas; produto de hidrólise enzimática com celulases (T. reesei e A. niger). | O hidrolisado enzimático das folhas não apresentou atividade inibitória contra S. mutans e K. pneumoniae. |
Langbang et al. (2018) | Pseudomonas aeruginosa (30 isolados clínicos). | Folhas; extratos aquoso, metanólico e etanólico | O extrato etanólico apresentou maior atividade inibitória, com CMI/CBM de 1,25 mg/mL, inibindo 100% dos isolados. O extrato metanólico inibiu 27 isolados a 2,5 mg/mL e três isolados a 5 mg/mL, enquanto o extrato aquoso não apresentou atividade inibitória. |
Moura et al. (2020) | Streptococcus pneumoniae, Staphylococcus aureus, Klebsiella pneumoniae, Escherichia coli, Burkholderia cepacia (e o fungo Candida albicans). | Folhas e frutos; extratos etanólicos brutos (métodos ultrassom, estático e Soxhlet) | Não foram observados halos de inibição para S. aureus nos extratos de folha e fruto, K. pneumoniae no extrato de folha, S. pneumoniae no extrato de fruto e B. cepacia no extrato de folha. Halos reduzidos foram observados para S. pneumoniae no extrato de folha, K. pneumoniae no extrato de fruto, E. coli nos extratos de folha e fruto e C. albicans no extrato de fruto. |
Das et al. (2021) | Pseudomonas aeruginosa e Escherichia coli. | Folhas; extrato aquoso (após extração serial com hexano e acetona). | O extrato aquoso, na concentração de 100 µL, apresentou inibição máxima de 61,46% contra P. aeruginosa e de 52,24% contra E. coli. |
Royani et al. (2023) | Pseudomonas aeruginosa (cepa B3). | Folhas; extrato metanólico bruto obtido por maceração. | O extrato apresentou CMI de 6144 µg/mL contra P. aeruginosa, indicando menor atividade antibacteriana em comparação ao controle positivo, enrofloxacino, que apresentou CMI de 16 µg/mL. |
Putri et al. (2023) | Pseudomonas aeruginosa. | Folhas; extrato etanólico 96% por maceração. | Os extratos apresentaram halos médios de inibição de 14,30 mm, 14,41 mm e 14,63 mm nas concentrações de 30%, 40% e 50%, respectivamente, indicando atividade antibacteriana de intensidade intermediária. |
Sam-ang et al. (2023) | Mycobacterium tuberculosis (H37Ra), Staphylococcus aureus, Bacillus cereus, Staphylococcus epidermidis, Escherichia coli e Pseudomonas aeruginosa. | Raízes; extratos em gradiente de polaridade (hexano, diclorometano, acetato de etila e etanol) e extratos individuais. | O extrato em diclorometano apresentou atividade antituberculosa, com CMI de 50 µg/mL contra M. tuberculosis. Para as demais bactérias avaliadas, os halos de inibição variaram de 1,0 a 6,5 mm. Os extratos aquoso e etanólico, quando avaliados isoladamente, não apresentaram atividade contra M. tuberculosis (CMI >100 µg/mL). |
Obeng-Boateng et al. (2024) | Listeria monocytogenes, Bacillus cereus, Enterococcus faecium, Klebsiella spp. (Klebsiella pneumoniae), Campylobacter spp., Vibrio cholerae, Yersinia enterocolitica, Shigella spp. E. | Raízes, folhas e frutos (frescos, secos e fermentados); extratos em água destilada e etanol (60%, 80% e 100%). | Os extratos de raiz apresentaram a maior atividade antibacteriana média, com halo de 10,09 mm. A maior inibição foi observada contra Campylobacter spp. (21,33 mm) com o extrato etanólico a 80%. Shigella spp. e Klebsiella spp. apresentaram baixa sensibilidade à maioria dos extratos avaliados. |
Fonte: Proprio autor
Os estudos reunidos na Tabela 3 demonstram que a atividade antibacteriana de M. citrifolia pode variar consideravelmente conforme a parte vegetal e a preparação empregada, com resultados descritos tanto para extratos de folhas e raízes quanto para diferentes formas de processamento. Entre as partes da espécie investigadas, o fruto também tem recebido atenção por sua composição fitoquímica e pela presença de constituintes associados a diferentes propriedades biológicas, incluindo o potencial antimicrobiano. Considerando esse interesse e a relevância de caracterizar evidências mais recentes, a Tabela 4 reúne estudos publicados nos últimos anos que avaliaram especificamente o fruto de M. citrifolia quanto à atividade antimicrobiana, destacando os autores, a preparação utilizada, as bactérias avaliadas e os respectivos estudos.
Tabela 4. Evidências científicas recentes sobre a atividade antimicrobiana do fruto da Morinda citrifolia Linn.
AUTOR | PARTE DA M. CITRIFOLIA | BACTÉRIAS | TITLE |
Ambarwati et al., 2021. | Extrato etanólico 96% dos frutos de Noni e o extrato em acetato de etila 96% das folhas de Pandan, testados em combinação | 28 isolados bacterianos puros obtidos de amostras de caspa humana, pertencentes a 7 espécies identificadas: Bacillus licheniformis, Bacillus megaterium, Bacillus alvei, Bacillus subtilis, Micrococcus sp., Stomatococcus sp. e Pseudomonas sp. (Pseudomonas aeruginosa) | A combinação do extrato etanólico do fruto de Morinda citrifolia com o extrato em acetato de etila das folhas de Pandanus amaryllifolius inibiu até 92,9% dos isolados bacterianos, com halos de inibição variando de 8 a 30 mm. Os isolados de Pseudomonas sp. apresentaram halos de até 29–30 mm, enquanto, em 10 isolados, a combinação apresentou maior atividade que o cloranfenicol. |
Rajivgandhi et al., 2023. | Óleos essenciais das folhas | Proteus mirabilis | Time dependent inhibition of Morinda citrifolia essential oils against multi drug resistant bacteria and A549 lung cancer cells |
Obeng-Boateng et al., 2024. | Extratos etanólicos da raiz e do fruto seco | Listeria monocytogenes, Bacillus cereus, Enterococcus faecium, Klebsiella spp. (Klebsiella pneumoniae), Campylobacter spp., Vibriocholerae, Yersinia enterocolitica e Shigella spp. | In vitro antibacterial activity of Morinda citrifolia extracts against eight pathogenic bacteria species |
Fitriana et al., 2025. | Extrato etanólico do fruto | Bacillus subtilis, Staphylococcus aureus | Antioxidant and Antibacterial Activities of Noni Fruit (Morinda citrifolia) Extract |
Fonte: Própria do autor.
A diversidade de efeitos observados nesses estudos pode estar relacionada à composição química do fruto, que constitui aspecto relevante para a compreensão de suas propriedades biológicas. Conforme apresentado na Tabela 5, análises fitoquímicas do fruto e de diferentes identificaram diversos constituintes, como os Flavonoides , Taninos e Terpenos (Susilawati et al., 2023; Fontes et al., 2023; Kurniawati et al., 2025). A esses constituintes são atribuídas diferentes atividades biológicas, incluindo propriedades relacionadas à ação antimicrobiana (Nakamura et al., 2015; Oliveira et al. 2020; Wang et al., 2023). Entretanto, a identificação desses fitoquímicos não permite atribuir isoladamente a um único composto a atividade observada no extrato aquoso, uma vez que o perfil químico e a concentração dos metabólitos podem variar de acordo com a parte vegetal utilizada, o solvente empregado e as condições de extração.
Tabela 5. Principais fitocompostos do Fruto da Morinda citrifolia Linn.
CLASSE FITOQUÍMICA | PRINCIPAIS COMPOSTOS IDENTIFICADOS | MATERIAL VEGETAL / TIPO DE EXTRATO | DESTAQUE / FUNÇÃO BIOLÓGICA |
Flavonoides | Catequina, epicatequina, quercetina-3-glicosídeo, kaempferol | Fruto (polpa) – extrato metanólico e frações (clorofórmio, acetato de etila, aquosa, etc.) | Compostos mais abundantes no extrato; atuam como principais responsáveis pela neutralização de radicais livres e proteção celular. |
Fenólicos (ácidos fenólicos) | Ácido cafeico, ferúlico, clorogênico, p-cumárico, gálico | Polpa, casca e sementes – extratos hidroalcoólicos e liofilizados | Atuam diretamente na atividade antioxidante do fruto, contribuindo para redução do estresse oxidativo. |
Taninos | Taninos totais | Fruto (polpa) – extrato metanólico | Compostos com potencial ação antimicrobiana e capacidade de interação com proteínas (efeito adstringente). |
Esteroides / fitoesteróis | β-sitosterol | Fruto (polpa) – extrato metanólico | Relacionados à modulação de processos inflamatórios e estabilidade de membranas celulares. |
Alcaloides | Alcaloides diversos | Fruto seco – extrato etanólico 70% (UAE) | Classe predominante no extrato; associada a múltiplas atividades farmacológicas. |
Glicosídeos (incluindo iridoides) | Glicosídeos diversos (composto majoritário identificado) | Fruto seco – extrato etanólico 70% (UAE) | Compostos polares dominantes; relacionados à bioatividade do extrato. |
Iridoides | Asperulosídeo e derivados | Fruto (geral) – descrito na composição fitoquímica | Compostos característicos do noni com potencial antioxidante e anti-inflamatório. |
Cumarinas | Escopoletina | Fruto (geral) – descrito na composição fitoquímica | Relacionada à atividade antimicrobiana e modulação inflamatória. |
Terpenos | Eucaliptol | Fruto (polpa) – frações orgânicas (clorofórmio, acetato de etila, etc.) | Componente volátil importante; associado a atividade antimicrobiana. |
Ácidos orgânicos e derivados aromáticos | Ácido 2-fluorobenzoico, 2-cloroanilina-5-sulfônico | Fruto (polpa) – frações orgânicas (principalmente clorofórmio e acetato de etila) | Compostos majoritários em frações específicas, indicando diversidade química entre solventes utilizados. |
Compostos aromáticos fenólicos | Vanilina, ácido vanílico | Polpa (in natura e liofilizada) | Contribuem para atividade antioxidante e propriedades sensoriais. |
Carotenoides | β-caroteno | Polpa, casca e sementes (com maior concentração na polpa liofilizada) | Antioxidantes lipofílicos importantes. |
Vitaminas | Ácido ascórbico (vitamina C) | Polpa (principalmente liofilizada) | Antioxidante hidrossolúvel relevante na composição do fruto. |
Polissacarídeos | Polissacarídeos e oligossacarídeos | Fruto (geral) – descrito na composição fitoquímica | Possível contribuição para efeitos imunológicos. |
Fonte: Adaptado de (Susilawati et al., 2023; Fontes et al., 2023; Kurniawati et al., 2025).
Considerando essa composição química, a exposição à luz pode ter contribuído para a potencialização da atividade antimicrobiana observada, levantando a possibilidade de um mecanismo fotodinâmico associado à presença de compostos capazes de responder à irradiação. Nesse sentido, Nakamura et al. (2015) demonstraram que a fotoirradiação de polifenóis com luz LED azul potencializa sua atividade bactericida contra bactérias Gram-positivas, como e Gram-negativas, incluindo Pseudomonas aeruginosa. Entre os compostos avaliados, os ácidos fenólicos apresentaram os maiores efeitos bactericidas, seguidos pelo ácido gálico e pela proantocianidina. Esse efeito foi associado à foto-oxidação dos grupos hidroxila fenólicos e à consequente formação de espécies reativas de oxigênio (ROS), como peróxido de hidrogênio e radicais hidroxila, além da indução de danos oxidativos no DNA bacteriano. .
Além dos efeitos observados com a luz LED azul, outros estudos demonstram que diferentes fontes de radiação também podem potencializar a ação antimicrobiana de compostos fenólicos. De acordo com de Oliveira et al. (2020), a combinação de radiação UV-A com compostos de grau alimentício apresentou efeito sinérgico contra Escherichia coli O157 e cepas multirresistentes de Salmonella Typhimurium. Entre os compostos avaliados, derivados do ácido cinâmico, como os ácidos ferúlico, caféico e cumárico, além do ácido 2,5-dihidroxibenzoico, apresentaram expressiva atividade antimicrobiana, promovendo elevada inativação bacteriana.
De forma semelhante, Wang et al. (2023) destacaram o potencial da terapia fotodinâmica antimicrobiana (aPDT), na qual compostos polifenólicos atuam como fotossensibilizadores e, após a exposição à luz, promovem a formação de ROS. Essas espécies podem danificar diferentes estruturas bacterianas, incluindo membranas, proteínas e DNA, contribuindo para a inativação microbiana. Os autores ressaltam ainda o potencial dessa abordagem contra bactérias resistentes e biofilmes, reforçando a possibilidade de que compostos fenólicos presentes em M. citrifolia possam participar de mecanismos relacionados à potencialização da atividade antimicrobiana após a exposição à luz.
Com base nesses achados, foi determinada a Concentração Inibitória Mínima (CIM) do extrato sob três condições distintas: ausência de luz, exposição à luz azul e exposição à luz vermelha. Conforme apresentado na Tabela 6, os resultados demonstraram que K. pneumoniae produtora de carbapenemase permaneceu altamente resistente em todas as condições testadas, apresentando CIM ≥ 1024 µg/mL tanto na ausência de exposição quanto após exposição à luz azul e vermelha. No estudo de Obeng-Boateng et al. (2024), a Klebsiella spp. figurou entre as espécies mais resistentes testadas, apresentando reduzida ou nula sensibilidade à maioria dos extratos. Especificamente, as frações obtidas das raízes, das folhas e dos frutos frescos de M. citrifolia demonstraram ausência total de zona de inibição contra esse patogeno.
Em contraste, P. aeruginosa exibiu comportamento distinto: na ausência de luz, a CIM observada foi de 853,3 µL/mL, mantendo-se igual sob luz azul, enquanto a exposição à luz vermelha elevou a CIM para ≥ 1024 µL/mL, indicando redução da efetividade do extrato nesse cenário. Esses achados sugerem que o efeito da fotomodulação depende tanto das características intrínsecas do micro-organismo quanto das propriedades fotoquímicas do extrato avaliado.
Esse comportamento é compatível com os achados de Galo et al. (2021), que também observaram resposta distinta de P. aeruginosa à luz azul e vermelha, sendo a radiação vermelha insuficiente para inibir o crescimento bacteriano. Assim, a ausência de alteração da CIM sob luz azul e seu aumento sob luz vermelha reforçam que a resposta de P. aeruginosa à fotomodulação não é uniforme entre os comprimentos de onda. Além disso, considerando que a atividade observada neste estudo resulta da interação entre a bactéria, a radiação e os constituintes do extrato, a exposição à luz vermelha pode ter influenciado essa interação, contribuindo para a menor efetividade observada.
O estudo clássico de Jayaraman et al. (2008) com extratos de M. citrifolia demonstrou que a atividade antibacteriana é fortemente dependente do solvente. O extrato metanólico foi ativo contra bactérias Gram-positivas e Gram-negativas, enquanto o extrato de acetato de etila foi eficaz contra a maioria dos microrganismos testados, exceto P. aeruginosa e K. pneumoniae. Esse dado é relevante por indicar que M. citrifolia não apresenta atividade antibacteriana uniforme entre diferentes espécies bacterianas, podendo P. aeruginosa e K. pneumoniae apresentar menor responsividade, a depender da composição do extrato.
Tabela 6. Concentração Inibitória mínima do EAMC frente às cepas multirresistentes de Klebsiella pneumoniae carbapenemase (K.P.C. NCTC 13442) e Pseudomonas aeruginosa isolado clínico 1 (P.A. IC1) Com a presença e ausência de luz LED azul e vermelha.
PRODUTO | K.P.C. NCTC 13442 | P.A. IC1 |
EAMC | ≥1024 | 853,3 |
EAMC + LED AZUL | ≥1024 | 853,3 |
EAMC + LED VERMELHO | ≥1024 | ≥1024 |
Fonte: Própria do autor.
Dessa forma, essa abordagem permitiu investigar se a fotomodulação poderia potencializar ou alterar a atividade do extrato frente às cepas avaliadas, uma vez que a interação entre compostos naturais e fontes luminosas pode influenciar processos celulares, geração de espécies reativas de oxigênio e mecanismos metabólicos microbianos segundo BIONDO (2024). O Gráfico 1 demonstra que o Meropenem apresentou CIM elevada (≥1024 µg/mL) frente à cepa de Klebsiella pneumoniae produtora de carbapenemase, na condição sem exposição à luz, evidenciando um perfil de resistência ao antibiótico.
Gráfico 1. Avaliação da atividade modificadora da ação de antibióticos do extrato aquoso de Morinda citrifolia com e sem exposição à luz de LED azul e vermelha frente à Klebsiella pneumoniae carbapenemase (KPC NTCT 13442).
Esse resultado é compatível com a resistência ao Meropenem descrita em isolados de K. pneumoniae produtores de carbapenemase. Hirsch et al. (2010) observaram que esses isolados podem apresentar crescimento mesmo na presença de concentrações elevadas de Meropenem, com redução da atividade bactericida do antibiótico quando utilizado isoladamente.
Mušković et al. (2023) observaram que K. pneumoniae foi menos sensível à luz violeta-azul isoladamente do que P. aeruginosa, atribuindo essa diferença à composição de porfirinas endógenas e à menor suscetibilidade intrínseca da bactéria. De forma semelhante, Soares et al. (2026) verificaram que os grupos expostos apenas à luz ou mantidos no escuro não apresentaram citotoxicidade significativa contra MRSA (Methicillin-Resistant Staphylococcus aureus), sugerindo que a luz azul isoladamente pode não ser suficiente para produzir dano bacteriano expressivo. Nesse contexto, a manutenção da CIM elevada do Meropenem sob luz azul na cepa de K. pneumoniae produtora de KPC pode estar relacionada à menor suscetibilidade dessa bactéria à radiação e à presença da carbapenemase, que hidrolisa o antibiótico.
A associação do antibiótico com o extrato de Morinda citrifolia sob ausência de luz também não resultou em redução da CIM, mantendo valores ≥1024 µg/mL. Na presença de luz azul, observou-se que o Meropenem isolado não sofreu alteração significativa na CIM. Entretanto, quando associado ao extrato vegetal e exposto à luz azul, houve redução estatisticamente significativa da CIM de 1024 µg/mL para cerca de 512 µg/mL, representando diminuição de aproximadamente 50% em relação ao controle sem luz. Segundo Pereira et al (2021), esse achado sugere que a luz azul pode ativar componentes fotoativos do extrato, favorecendo a permeabilidade bacteriana ou a formação de espécies reativas.
A luz vermelha com e sem extrato promoveu redução da CIM do Meropenem para 512 µg/mL, sugerindo efeito fotodinâmico independente da fitoterapia. A redução observada da CIM de KPC NCTC 13442 sob condições de luz (azul + extrato ou luz vermelha) pode ser explicada à luz de achados recentes em terapia fotodinâmica antimicrobiana (aPDT). Estudos têm demonstrado que a aPDT é capaz de inativar β-lactamases clinicamente relevantes, incluindo carbapenemases, o que favorece a restauração da sensibilidade aos carbapenêmicos (Feng et al., 2020).
Akbiyik et al. (2022) observaram que derivados de porfirinas catiônicas ativados por luz vermelha (655 nm) promoveram reduções de até 6,11 log₁₀ em K. pneumoniae. Resultados relacionados também foram descritos por Marasini et al. (2021) e Mušković et al. (2023), que evidenciaram o potencial da fotoinativação na atividade antimicrobiana. Dessa forma, esses estudos complementam os achados do presente trabalho ao demonstrar que a exposição à luz pode contribuir para a atividade antimicrobiana tanto de forma independente quanto em associação com compostos fotoativos.
No Gráfico 2, observa-se inicialmente que o Meropenem apresentou CIM em torno de 0,05 µg/mL na condição sem luz contra a bactéria Pseudomonas aeruginosa. A associação com o extrato de Morinda citrifolia não reduziu a CIM, indicando um antagonismo entre o antibiótico e o extrato vegetal na resistência a P. aeruginosa. Apenas pode ser observado diminuição da CIM quando a bactéria foi exposta somente a luz azul com o Meropenem.
Gráfico 2. Avaliação da atividade modificadora da ação de antibióticos do extrato aquoso de Morinda citrifolia com e sem exposição à luz de LED azul e vermelha frente à Pseudomonas aeruginosa (P.A. IC1).
Em contrapartida, a exposição do Meropenem à luz azul, por outro lado, elevou a CIM para valores superiores ou igual a 1024 µg/mL, indicando possível fotodegradação do antibiótico ou indução de mecanismos de estresse que favorecem a tolerância da bactéria. Esse aumento da CIM evidenciado na quarta coluna do Gráfico 2 pode ser explicado pelos estudos de Fila et al (2017), na qual P. aeruginosa secreta vários fatores citotóxicos que exercem efeitos deletérios nas células. Um desses fatores é a PCN (1-hidroxi-5-metilfenazina), um pigmento azul com propriedades redox que é importante para a virulência e sobrevivência bacteriana. Poucos métodos eficazes para inativar essa citotoxina estão disponíveis. A PCN é sintetizada e secretada por P. aeruginosa e parece ser um alvo primário para degradação fotodinâmica. A PCN protege P. aeruginosa contra lesão foto-oxidativa ao absorver luz incidente na região visível do espectro e sequestrar espécies bactericidas geradas pela fotossensibilização, como O₂; ambos os processos podem afetar a eficácia do tratamento fotodinâmico.
De fato, estudos como o de Nizer et al. (2021) descrevem a elevada capacidade de adaptação de P. aeruginosa ao estresse oxidativo, destacando diferentes mecanismos empregados pela bactéria para responder às condições oxidativas. Durante a infecção, a bactéria é exposta a espécies reativas de oxigênio e cloro produzidas pelo próprio metabolismo e, principalmente, pelas células do sistema imune do hospedeiro. Para lidar com esse estresse, utiliza mecanismos de defesa, incluindo enzimas antioxidantes, como superóxido dismutases, catalases e peroxidases, além de sistemas envolvidos no reparo e na proteção de proteínas. Os autores também destacam a participação de pigmentos extracelulares e enzimas, como catalase A e superóxido dismutase, na proteção de P. aeruginosa contra danos associados ao estresse foto-oxidativo e à radiação UV-C.
Nesse sentido, Ferrer-Espada et al. (2017) também demonstraram que a exposição à luz azul aumentou a suscetibilidade de diferentes isolados de P. aeruginosa ao Meropenem, reduzindo seus valores de CIM. Segundo os autores, esse efeito pode estar relacionado à ação antimicrobiana da radiação sobre as células bacterianas, favorecendo a ação do antibiótico.
No entanto, a combinação luz azul + Meropenem promoveu queda intensa da CIM, retornando a valores próximos a zero, o que demonstra que o extrato de Morinda citrifolia com luz azul não inibe o crescimento bacteriano, pelo contrário, atua como antagonista da atividade do Meropenem. Segundo Lubart et al (2011), a luz azul em comparação com a vermelha apresenta maior capacidade antibacteriana e é considerada mais eficaz contra microrganismos resistentes, enquanto a luz vermelha tem maior capacidade biomodulador, estimulando reparação tecidual, cicatrização, regeneração celular e redução da inflamação. Na presença de luz vermelha, tanto o Meropenem quanto a combinação Meropenem + extrato apresentaram CIM equivalentes (64 µg/mL), sugerindo que houve potencial fotossensibilização do antibiótico ou interação com os fitocompostos do Noni.
Reforçando, Cieplik et al. (2018) destacam que a luz vermelha apresenta maior capacidade de penetração nos tecidos e é frequentemente empregada em associação com fotossensibilizadores que absorvem nessa faixa espectral. A luz azul, embora apresente menor capacidade de penetração, pode exercer atividade antimicrobiana relevante por meio da ativação de fotossensibilizadores exógenos ou de moléculas fotossensíveis naturalmente presentes nos microrganismos. Assim, as propriedades específicas de cada comprimento de onda podem contribuir para as diferenças observadas entre as condições com luz azul e vermelha, especialmente quanto à resposta ao Meropenem na presença do extrato de M. citrifolia.
Dessa forma, demonstra compatibilidade entre antibiótico e extrato, além de apresentar resultados favoráveis quando comparados com a luz azul + extrato, na qual apresenta favorecimento bacteriano. Esses dados são inéditos e não foram encontrados até o momento na literatura, o que sugere mais investigações para melhor elucidação dessa ação sinérgica.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O estudo atende ao objetivo de avaliar a atividade antibacteriana e a capacidade modificadora do extrato aquoso de Morinda citrifolia Linn. sobre a ação do Meropenem frente a bactérias multirresistentes, considerando diferentes condições de exposição à luz LED.
O extrato aquoso de M. citrifolia não apresenta atividade antibacteriana significativa, isoladamente, frente às bactérias avaliadas. Dessa forma, seu potencial de utilização como agente antimicrobiano direto mostra-se limitado nas condições estudadas.
A associação do extrato ao Meropenem não produz efeito modulador uniforme, demonstrando que a interação entre o extrato e o antibiótico depende do microrganismo e da condição de exposição à luz. Na Klebsiella pneumoniae carbapenemase, a presença do extrato não é suficiente para reverter a resistência ao Meropenem, enquanto determinadas condições de exposição luminosa modificam a resposta ao antibiótico.
Em Pseudomonas aeruginosa, o extrato também não demonstra potencial para ampliar a atividade do Meropenem nas condições avaliadas. A exposição à luz azul apresenta comportamento distinto quando o extrato está ausente ou presente, evidenciando que a combinação entre luz, antibiótico e composto vegetal requer avaliação específica para cada microrganismo.
Os resultados demonstram que a ação moduladora de M. citrifolia não ocorre de maneira generalizada e que sua aplicação associada à terapia fotodinâmica depende das características do microrganismo, do antibiótico e da condição luminosa utilizada. Assim, o estudo amplia o conhecimento sobre as possíveis interações entre produtos naturais, luz LED e antimicrobianos, sem confirmar o extrato como agente capaz de potencializar universalmente a ação do Meropenem.
As hipóteses relacionadas à existência de atividade antibacteriana significativa do extrato isolado e à potencialização uniforme do Meropenem não são confirmadas. Entretanto, observa-se potencial de modulação da atividade antibiótica em condições específicas, indicando a necessidade de investigações complementares.
Entre as limitações do estudo, destacam-se o número reduzido de microrganismos avaliados e a ausência de caracterização dos compostos fitoquímicos envolvidos na resposta observada. Estudos futuros devem ampliar o número de cepas e espécies bacterianas, caracterizar os constituintes bioativos do extrato, investigar os mecanismos envolvidos nas interações observadas e avaliar sua segurança e citotoxicidade.
Conclui-se que M. citrifolia apresenta potencial como objeto de investigação para estratégias combinadas envolvendo produtos naturais, antibióticos e luz LED, mas sua utilização terapêutica requer estudos adicionais que estabeleçam condições de aplicação, mecanismos de ação e segurança.
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1 Doutor em Bioquímica e Biologia Molecular pela Universidade Federal do Cariri (UFCA). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail