AS PERCEPÇÕES DE PRATICANTES DE GINÁSTICA PARA TODOS SOBRE O USO DAS TECNOLOGIAS DIGITAIS

PERCEPTIONS OF GYM FOR ALL PARTICIPANTS REGARDING THE USE OF DIGITAL TECHNOLOGIES

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/782854416

RESUMO
A sociedade vem se transformando de forma acelerada propondo uma profunda integração entre os espaços físicos e digitais desafiando práticas corporais a equilibrarem os avanços tecnológicos com o bem estar humano. A sociedade 5.0 denominada superinteligente, busca superar a era da informação ( sociedade 4.0) a fim de promover melhor qualidade de vida às pessoas por meio desses avanços tecnológicos (Fukuyama, 2018). No seio dessas transformações a Ginástica para Todos (GPT), modalidade alicerçada na coletividade, diversão, cultura corporal, saúde e permanência (FIG, 2023), enfrenta o desafio de ressignificar seus rituais diante da mediação digital. Nesse cenário de hibridismo emergente, emerge a promessa de bem-estar tecnológico e a experiência vivida na ginástica. Embora a teoria da Sociedade 5.0 projete uma integração harmônica, o cotidiano da prática gímnica impõe o desafio de preservar o que o digital não consegue absorver plenamente: o “olho no olho” e o “corpo a corpo”. Afinal, na GPT, a coletividade não é um mero instrumento, mas a própria potência e sentido da prática (Menegaldo; Bortoleto, 2020). Sob esse prisma, o objetivo desse artigo é compreender as percepções de praticantes de GPT sobre o uso e o futuro das tecnologias digitais na modalidade, investigando as tensões entre a inovação técnica e a preservação da essência humanizadora da prática. A pesquisa de cunho metodológico misto foi realizada através de um formulário eletrônico com a participação de 97 praticantes de GPT de 18 a 86 anos de todo o território brasileiro. O formulário investigou o perfil demográfico e de representatividade regional, níveis de autonomia tecnológica e o binômio benefícios-desafios da mediação digital na prática. Adicionalmente, o estudo inquiriu sobre a manutenção da essência coletiva no ambiente virtual e as projeções para um futuro híbrido da modalidade. Os achados foram submetidos a uma análise descritiva, das questões fechadas e análise do conteúdo de Bardin (2016) para as duas questões abertas, a fim de entender o fenômeno investigado. A investigação junto aos praticantes revelou uma modalidade de natureza intergeracional e com forte presença no ambiente universitário brasileiro. Embora o perfil tecnológico dos participantes seja majoritariamente autônomo, a integração digital na GPT é perpassada por uma ambivalência estrutural: se, por um lado, as ferramentas são celebradas como pilares de salvaguarda da memória coreográfica, democratização e conexão global, por outro, a mediação por telas é percebida como um fator de fragilização da essência coletiva. Para a maioria dos respondentes, a ausência da interação física e do “calor humano” representa o principal limite da virtualização. Os resultados encontrados apontam uma possibilidade híbrida, na qual a tecnologia sirva à democratização e ao intercâmbio global, e que as vivências presenciais permaneçam como núcleo central da prática. 
Palavras-chave: Ginástica para Todos; Tecnologias Digitais; Sociedade 5.0.

ABSTRACT
Society has been undergoing rapid transformation, fostering a deep integration between physical and digital spaces and challenging physical practices to balance technological advances with human well-being. Society 5.0, often referred to as “super-intelligent,” seeks to move beyond the Information Age (Society 4.0) in order to promote a better quality of life for people through these technological advances (Fukuyama, 2018). Amid these transformations, Gymnastics for All (GPT)—a discipline grounded in community, fun, physical culture, health, and continuity (FIG, 2023)—faces the challenge of redefining its rituals in the face of digital mediation. In this scenario of emerging hybridity, the promise of technological well-being and the lived experience of gymnastics come to the fore. Although the theory of Society 5.0 envisions harmonious integration, the daily reality of gymnastic practice poses the challenge of preserving what the digital realm cannot fully absorb: “eye-to-eye” and “body-to-body” contact. After all, in GPT, collectivity is not a mere tool, but the very power and meaning of the practice (Menegaldo; Bortoleto, 2020). From this perspective, the objective of this article is to understand GPT practitioners’ perceptions regarding the use and future of digital technologies in the sport, investigating the tensions between technical innovation and the preservation of the practice’s humanizing essence. The mixed-methods study was conducted using an online survey with the participation of 97 GPT practitioners aged 18 to 86 from across Brazil. The survey examined demographic profiles and regional representation, levels of technological autonomy, and the benefits and challenges of digital mediation in the practice. Additionally, the study examined the preservation of the collective essence in the virtual environment and projections for a hybrid future of the modality. The findings were subjected to a descriptive analysis of the closed-ended questions and a content analysis based on Bardin (2016) for the two open-ended questions, in order to understand the phenomenon under investigation. The research with practitioners revealed a modality of an intergenerational nature with a strong presence in the Brazilian university environment. Although the participants’ technological profile is predominantly self-directed, digital integration in GPT is marked by a structural ambivalence: while, on the one hand, the tools are celebrated as pillars for safeguarding choreographic memory, democratization, and global connection, on the other hand, mediation through screens is perceived as a factor that undermines the collective essence. For most respondents, the absence of physical interaction and “human warmth” represents the main limitation of virtualization. The findings point to a hybrid possibility, in which technology serves democratization and global exchange, while in-person experiences remain at the core of the practice. 
Keywords: Gymnastics for All; Digital Technologies; Society 5.0.

INTRODUÇÃO

Em um mundo crescentemente digitalizado, esta investigação evoca mais do que uma simples consulta de opiniões. Remete à forma como os praticantes de Ginástica para Todos (GPT) significam sua própria corporalidade e sentimento de comunidade. Ao investigar a percepção desse grupo de atores sobre as tecnologias digitais esse artigo faz um mergulho entre a tradição de uma prática essencialmente coletiva e a possibilidade de um futuro mediado por telas.

Essa reflexão torna-se urgente diante da emergência da Sociedade 5.0. Conceituada como uma organização social “superinteligente” e centrada no ser humano, ela promete a integração profunda entre o espaço físico e o ciberespaço para promover a qualidade de vida por meio da inovação tecnológica (Fukuyama, 2018). Todavia no âmbito dessa proposição, a GPT, fundamentada nos pilares fun, fitness, fundamentals,friendship e forever (FIG, 2025), enfrenta o desafio de ressignificar rituais que valorizam a presença física justamente por ser uma ginástica desenvolvida e praticada coletivamente, flexível aos interesses dos grupos (Bento-Soares; Schiavon, 2020) e fundamentada em vínculos afetivos e sociais. Conforme apontam Menegaldo e Bortoleto (2020), nesta modalidade a coletividade é vivenciada como uma potência, onde o contato físico não é um mero acessório, mas o próprio sentido da prática.

Surge, então, a problemática central desse estudo: conciliar a vibrante presença física com ferramentas que são percebidas como limitadoras da conexão sensível do contato presencial. Essa discussão ganhou relevância a partir do registro do primeiro festival on-line da modalidade no Brasil, que buscou compreender como a corporalidade virtual e o “ser-junto” poderiam resistir à distância física (CARBINATTO; EHRENBERG, 2020). Mais recentemente a literatura explorou estratégias pedagógicas típicas e necessárias durante a pandemia de COVID-19 (CORRÊA; SILVA; CARBINATTO, 2023), contudo, ainda há uma lacuna sobre como os praticantes percebem a permanência do digital para além do caráter emergencial registrado naquele momento histórico. A contribuição deste estudo reside em decifrar essas subjetividades, compreendendo se a tecnologia atuará como um suporte pedagógico e criativo ou como um elemento puramente técnico.

A obra de Carbinatto e Ehrenberg (2020), documentou o primeiro festival on-line da modalidade no Brasil como uma estratégia de resistência e superação diante do isolamento social obrigatório. Todavia, existe uma distinção necessária entre o registro daquele momento e a presente investigação: enquanto a literatura anterior focou na adaptação emergencial para preservar o “ser-junto” em meio às incertezas da crise sanitária, este estudo avança para o cenário de cinco anos após o marco pandêmico, buscando preencher a lacuna sobre a percepção de permanência do digital. Ao contrário do caráter reativo inicial, a contribuição deste artigo reside em decifrar as subjetividades de uma amostra nacional e intergeracional sobre como essas ferramentas foram assimiladas, compreendendo se a tecnologia se consolidou como um suporte pedagógico e criativo ou se permanece como um elemento puramente técnico que fragiliza a conexão sensível do corpo a corpo.

Assim, a justificativa deste estudo ancora-se na urgência de investigar como a inovação tecnológica ganha terreno na GPT. A pesquisa apresenta uma população de ampla faixa etária, e a presença de todos os estados brasileiros, o que permite preencher uma lacuna na literatura que, até então, priorizou estratégias de caráter puramente emergencial voltadas ao ensino remoto ou eventos on line. Assim, a contribuição deste trabalho é decifrar como as ferramentas digitais podem ser consolidadas, garantindo que a interdependência física e a sensibilidade do encontro permaneçam como o núcleo inegociável da modalidade.

Portanto esse artigo tem como objetivo compreender as percepções de praticantes de GPT sobre o uso das tecnologias digitais na modalidade, investigando as tensões entre a inovação técnica e a preservação da essência humanizadora da prática.

METODOLOGIA

A presente pesquisa de carater descritivo caracteriza-se por uma abordagem mista, combinando elementos quantitativos e qualitativos para investigar a percepção de praticantes de (GPT) sobre as tecnologias digitais. Segundo Lakatos e Marconi (2003), a pesquisa descritiva tem por finalidade delinear, analisar características, fatos, fenômenos a partir de diferentes técnicas como entrevistas, questionários, formulários.

Neste estudo o instrumento utilizado foi um formulário eletrônico contendo 10 questões. Este foi elaborado e validado no seio do grupo de estudos LABESC ( Laboratório de Estudos do Corpo - FAEFID/UFJF), onde pesquisadores revisaram a adequação das perguntas aos objetivos do estudo. Na sequência, foi realizado um pré-teste com integrantes do próprio grupo para verificar a clareza e a funcionalidade do formulário digital. As perguntas 1;2;3,4 tiveram por objetivo uma descrição amostral: idade; sexo; região do Brasil onde se encontra e qual Grupo de GPT pertence. As questões 5,6,7,8 estabeleceram relação direta com a temática tecnologia digital: O formato online, Familiaridade com a tecnologia; Benefícios das tecnologias digitais; Desafios e limitações; e a relação da tecnologia digital com a GPT. As perguntas 9 e 10 foram de cunho discursivo. Investigaram sugestões para o futuro e comentários a respeito do uso da tecnologia na GPT que não tenham sido contemplados nas perguntas anteriores.

Após a organização do instrumento seguiu-se na seleção da amostra de praticantes de GPT e coleta de dados. Para a seleção dos participantes realizou-se inicialmente uma consulta documental à obra Gymnaestradas Mundiais a experiência de grupos brasileiros, organizada por Carbinatto, Barbosa-Rinaldi, Noel e Stadnik (2025) e publicada pela Confederação Brasileira de Ginástica (CBG),visando identificar grupos com histórico consolidado na modalidade. A partir desse levantamento, estabeleceu-se contato via redes sociais com os coordenadores de grupo. Para ampliar o alcance, os coordenadores indicaram novos contatos, totalizando 15 coordenadores e garantindo representatividade em todas as cinco regiões brasileiras. 14 grupos de GPT participaram da pesquisa. Estes coordenadores atuaram como mediadores, compartilhando o link da pesquisa com seus respectivos praticantes. O público-alvo foi delimitado a indivíduos maiores de 18 anos e com tempo de prática superior a seis meses. O processo resultou em uma amostra final de 97 respostas com idade mínima de 18 anos e máxima de 86 anos ( média 39.85 anos). Para a pergunta 8, discursiva, 69 praticantes participaram com suas contribuições. Para os comentários adicionais, obtivemos 30 contribuições. Todos os participantes aceitaram participar de forma voluntária.

A última fase consistiu nos procedimentos de análise. Os dados quantitativos foram analisados por meio da estatística descritiva, utilizando o software Jamovi versão 2.7.24. Para as variáveis numéricas, foi calculada a média, que consiste na soma de todos os valores dividida pelo total de casos, permitindo identificar um valor central da amostra. Para as variáveis categóricas, foram calculados os valores de frequência, ou seja, a contagem simples e a porcentagem de cada opção assinalada pelos praticantes. Já os dados qualitativos, provenientes das questões abertas sobre o futuro e sugestões para a GPT, e comentários adicionais foram submetidos à Análise de conteúdo (Bardin,2016), a partir de uma leitura flutuante com objetivo de pré analizar o documento, seguido de uma exploração material mais densa a fim de categorizar e tematizar as respostas, interpretando os achados.

A análise e interpretação dos achados são o núcleo central de uma pesquisa e a importância deles não se reduz em si mesmos, mas em proporcionarem respostas às investigações. Analisar é evidenciar relações existentes entre o fenômeno estudado, e interpretar amplia os conhecimentos sobre o fenômeno procurando dar significado mais amplo às respostas, vinculando -os à teoria ( Lakatos e Marconi, 2003).

A pesquisa foi devidamente aprovada pelo Comitê de Ética, sob o CAAE: 67311223.6.0000.5147.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os resultados encontrados apresentam-se em partes: uma tabela para as questões fechadas com a caracterização sociodemográfica dos 97 participantes da pesquisa, bem como suas percepções e experiências relativas ao uso das tecnologias digitais na GPT. Os dados contemplam informações sobre a idade, o sexo e a distribuição regional da amostra, além de detalharem o impacto do formato online na essência coletiva da modalidade e os níveis de familiaridade tecnológica dos envolvidos. Adicionalmente, são expostos os principais benefícios, como o acesso remoto e a memória virtual, e os desafios identificados, com destaque para a falta de interação física e a dependência de equipamentos. Todo o tratamento dos dados foi processado por meio do software de estatística descritiva Jamovi, versão 2.7.24. Na sequencia apresentam-se os grupos de GPT que participaram do estudo. Por fim duas questões finais do formulário de caráter aberto. Os participantes respoderam as questões propostas e a análise seguiu a teoria da análise de conteúdo Bardin (2016).

Tabela 1. Caracterização da Amostra, Percepções e Impacto das Tecnologias Digitais na GPT (N=97)

Variável / Categoria

N

%

Estatística Descritiva

  

Idade ( média: 39.85 anos)

  

Frequência de Sexo

  

Feminino

81

83.5%

Masculino

16

16.5%

Frequência de Regiões

  

Sudeste

50.

51.5%

Sul

10.

10.3%

Centro-oeste

17.

17.5%

Nordeste

13.

13.4%

Norte

7.

7.2%

No formato online, você sente que a essência coletiva da GPT é prejudicada?

  

Sim

34.

35.1%

Não

14.

14.4%

Parcialmente

49.

50.5%

Familiaridade com a Tecnologia

  

Facilidade

65.

67.0%

Dificuldade

3.

3.1%

Aprendo fácil

22.

22.7%

Auxílio

7.

7.2%

Benefícios das Tecnologias Digitais

  

Acesso remoto

53

54.6%

Memória virtual

44

45.4%

Feedback corporal

30

31.3%

Festivais virtuais

22

22.7%

Conexão

19

19.6%

Comunicação

1

1.0%

Apps para coreografia

1

1.0%

Arquivos

1

1.0%

Músicas

1

1.0%

Ideias para coreografias

1

1.0%

Gravar e assistir

1

1.0%

Desafios e Limitações

  

Falta Interação

49

50.5%

Perfeição

35

36.1%

Dependência equipamentos

27

27.8%

Dificuldades

10

10.3%

Nenhum

5

5.2%

Atualizações app

1

1.0%

Edição

1

1.0%

Tabela: (elaborado com Jamovi 2.7.24)

Os dados demográficos revelaram uma amostra diversificada. Dos 97 respondentes, as idades variaram de 18 a 86 anos ( média:39.85), com uma presença significativa de jovens na faixa dos 20 a 39 anos e adultos acima dos 50 e 60 anos, até idosos (com registros de 72, 82 e 86 anos), o que caracteriza a GPT como uma prática para todas as idades, evidenciando sua característica intergeracional. A partir da descrição demográfica, observa-se que a maioria da amostra do presente estudo foram 83.5% mulheres.

Com base nas respostas ao formulário, segue abaixo os grupos de Ginástica para Todos (GPT) mencionados, a representatividade por estados brasileiros e institucional.

Nome do Grupo

Estado

Instituição Origem

Tipo de Instituição

Agitar

Minas Gerais

PUC MINAS

Acadêmica (Universidade)

Ânima

São Paulo

UNICAMP

Acadêmica (Universidade)

Cia Rosana Marques

São Paulo

Academia de Ginástica

Privada (Academia)

Cignus

Goiás

UEG

Acadêmica (Universidade)

Geginba

Bahia

UFBA

Acadêmica (Universidade)

GGD

Minas Gerais

UFVJM

Acadêmica (Universidade)

GPT-on

Santa Catarina

UFSC

Acadêmica (Universidade)

GGUnesp

São Paulo

UNESP Rio Claro

Acadêmica (Universidade)

Grupo Atenas

São Paulo

Academia de Ginástica

Privada (Academia)

GymCorpo

Paraná

UFPR

Acadêmica (Universidade)

Gymnarteiros

Ceará

UFC

Acadêmica (Universidade)

Gymnusp

São Paulo

USP

Acadêmica (Universidade)

Inec Silvana Gym

Rio de Janeiro

Academia de Ginástica

Privada (Academia)

Prodagin

Amazonas

UFAM

Acadêmica (Universidade)

Tabela: Grupos, regiões e Intituições (elaborado pela autora)

O levantamento realizado sobre a participação em grupos de GPT no Brasil revela um cenário de grande diversidade e uma distribuição geográfica que abrange todas as regiões do país. A análise das respostas demonstra que a modalidade possui raízes profundas tanto em ambientes acadêmicos quanto em academias privadas. O estado de São Paulo se destaca com o maior número de grupos participantes. Um dado observado é a forte ligação entre a GPT e o ambiente universitário. A grande maioria dos grupos listados está vinculada a Universidades Federais, Estaduais ou Institutos Federais, reforçando o papel da academia não apenas no ensino da ginástica, mas como um polo de extensão e prática comunitária que mantém a modalidade ativa em seus estados.

O estudo de Menegalgo e Bortoleto (2024) teve como objetivo identificar o perfil de grupos brasileiros de Ginástica para Todos (GPT) e corrobora comos dados apontados acima. No estudo dos autores, foi utilizado um questionário online (Google Forms) respondido por 378 adultos integrantes de 22 grupos. Os dados evidenciaram o protagonismo da região Sudeste, e a forte atuação das universidades públicas no desenvolvimento da GPT no contexto brasileiro. Há um predomínio de integrantes do sexo feminino na composição dos grupos, e à idade dos praticantes, em diferentes faixas etárias, inclusive dentro de um mesmo grupo, com uma expressiva dominância de jovens adultos. Por fim, os dados consagram a GPT como uma prática de longa permanência, uma vez que mais de um terço dos membros relataram fazer parte de seus respectivos grupos por mais de quatro anos.

No formato online, você sente que a essência coletiva da GPT é prejudicada?

No formato online, os dados encontrados sinalizaram um prejuízo parcial de 50.5% no formato on line. Outros 35.1% revelaram que sentem prejuízo total e 14.4% respoderam que não sentem prejuízo. Se o formato for totalmente on line, 1% sente prejuízo.

A análise revela que a essência coletiva, pilar fundamental da GPT, enfrenta desafios significativos de adaptação ao ambiente virtual. A maioria (85.6%) dos participantes sinaliza que o formato online impacta, mas não anula completamente a essência do grupo. Isso sugere que a tecnologia não substitui integralmente a experiência física, reforçando a necessidade do contato humano. A prática da GPT envolve trocas afetivas e sincronia que dependem da presença física. Os que não vêem prejuizo no formato on line e não percebem danos indicam que a modalidade pode residir em formatos híbridos.

O artigo de Menegaldo e Bortoleto (2020), valida teoricamente que a coletividade na GPT depende de interação contínua, essa característica é provavelmente o principal aspecto que promove um sentimento de pertencimento e coletividade. As experiências compartilhadas e o tempo de convivência podem estabelecer vínculos afetivos.  A mediação por telas pode não consegue reproduzir integralmente essas experiências vividas presencialmente.

Familiaridade com a Tecnologia

Com relação à familiaridade com a tecnologia, os dados indicam que a grande maioria dos participantes possui uma relação positiva com a tecnologia demonstrando autonomia. Somando os que possuem facilidade de uso (67%) com os que aprendem com facilidade (22,7%), percebe-se um grupo capacitado para interagir com plataformas digitais, ou redes sociais totalizando (89,7%) de perfil autônomo. O perfil autônomo e de rápida adaptação identificado corrobora os achados de Corrêa, Silva e Carbinatto (2023), que demonstram como o uso de vídeos e ferramentas digitais atuam como suporte pedagógico e criativo, incentivando o protagonismo dos praticantes na composição coreográfica.

Embora a maioria seja autônoma, uma pequena parcela dos participantes demanda suporte: (10,3%) de perfil dependente. Apresentam dificuldade (3,1%) precisam de auxílio (7,2%). Embora o percentual seja pequeno não deve ser negligenciado.

Assim sendo, o perfil tecnológico dos participantes da GPT no Brasil, investigados nesse estudo, é majoritariamente de facilidade e rápida adaptação. Carbinatto e Ehrenberg (2020), mencionam que a transposição da GPT para o ambiente virtual revelou a capacidade dos praticantes de ressignificar sua presença e superar limitações técnicas por meio de um processo de aprendizagem intuitivo e coletivo. Isso fortalece a modalidade, permitindo que grupos de diferentes regiões e instituições (públicas, privadas e academias) mantenham-se conectados, compartilhem conhecimentos e utilizem a tecnologia como uma ferramenta de expansão da GPT. Segundo Mota, Patrício e Carbinatto (2022), a internet permite a criação de novos tipos de comunidades, supera barreiras geográficas e possibilita o encontro entre pessoas de diferentes realidades, mantendo o sentimento de pertencimento mesmo à distância.

Benefícios das Tecnologias Digitais:

Os dados mostraram que 54,6% dos entrevistados afirmaram que aulas e conteúdos remotos ajudam na prática da GPT. Os benefícios tecnológicos na preservação de memórias, como exempo vídeos dos festivais foram percebidos por 45.4% da amostra. A tecnologia pode ajudar no feedback corporal de 31.3% dos relatos. Perceberam como benefício conectar e interagir com praticantes de outros lugares um total de 19.6%. Valorizam a oportunidade de poderem participar de festivais remotamente 22.7% respondentes. Citaram outros benefícios como : comunicação, formação de coreografia, compartilhamento de arquivos e músicas, ideias para treinar e para elaborar coreografias e gravação das coreografias para treinar em casa um total de 6%.

Os dados revelam que a tecnologia na GPT vai muito além do simples uso de dispositivos; ela atua como um pilar de memória transcendendo o uso meramente instrumental, servindo para registrar e preservar vídeos coreográficos, apresentações em festivais, viagens, congressos, a história do grupo. Essa valorização ´da memória virtual é percebida por 45.4% dos praticantes.

Complementarmente, a utilização de vídeos para feedback corporal (31,3%) e como ferramenta criativa valida a percepção da tecnologia como um suporte pedagógico estratégico que incentiva o protagonismo do praticante, conforme defendido por Corrêa, Silva e Carbinatto (2023). Esse cenário, aliado à democratização do acesso em festivais remotos (22,7%), consolida o digital como um elemento que potencializa a conexão e a preservação da história dos grupos.

Considerando que os grupos estão espalhados por todo o território nacional a tecnologia viabilizou a existência e conexão de uma comunidade unificada e democratizou o acesso, permitindo que grupos com menos recursos para viagens participassem de eventos nacionais sem sair de suas cidades.

A tecnologia atuou como um suporte pedagógico e técnico, facilitando a continuidade dos treinos em casa. O uso de vídeos para autoanálise e correção de movimentos ajudou no refinamento das coreografias. Também atuou como ferramenta de gestão e criatividade no funcionamento dia a dia do grupo, nos compartilhamentos de arquivos, músicas, ideias, coreografias.

O estudo de Corrêa, Silva e Carbinatto (2023), demonstra estratégias pedagógicas desenvolvidas no ensino remoto da GPT. Os autores analisaram uma disciplina universitária durante a pandemia, destacando a gravação de movimentos e editoração de vídeos como facilitadores da explicação e motivação dos alunos. As autoras evidenciaram a importância dos eventos ginásticos remotos organizados por diferentes instituições e ressaltaram o protagonismo discente na composição de coreografias, e o uso da tecnologia para criação, compartilhamento de ideias e elaboração coreográfica, evidenciando que, mais que um recurso técnico, as ferramentas digitais atuaram como suporte pedagógico e criativo na GPT.

Em suma, os resultados permitem inferir que a inovação tecnológica ingressou na GPT no Brasil com a inclusão do uso de vídeos, redes sociais, entre outros recursos. Esta mediação pode funcionar como um suporte criativo que potencializa a coletividade e o protagonismo, sem substituir a essência do encontro humano. Assim, a tecnologia não é mais um mero recurso emergencial herdado da pandemia, mas consolida-se como um agente de expansão e visibilidade global da modalidade.

Desafios e Limitações 

Os dados revelaram desafios e limitações distribuídas entre barreiras humanas e sociais e limitações técnicas e operacionais. Dos participantes do estudo, 50.5% responderam sentirem falta de interação física, toque, calor humano. Outros 36.1% sentiram pressão por perfeição, por exemplo na edição de vídeos, e 27.8% relataram a dependência da tecnologia e a internet de qualidade. Sobre as dificuldades em utilizar as plataformas digitais, 10.3% dos participantes se manifestaram positivamente enquanto 5.2% não encontraram dificuldade em utilizar e 2% relataram a dificuldade nas constantes atualizações dos aplicativos e plataformas e não saber editar vídeos.

Existem barreiras humanas e técnicas que impactam a prática nos grupos. O maior desafio identificado é a falta de interação física e calor humano. Por ser uma modalidade fundamentalmente coletiva e expressiva, a mediação por telas foi percebida como uma perda da conexão sensível que o toque e a presença física proporcionam.

A prática remota da Ginástica para Todos, intensificada durante a pandemia, evidenciou tanto potencialidades quanto limites da mediação tecnológica. Lopes e Tsukamoto (2022), ao relatarem experiências de projetos de extensão universitária, destacam a reorganização dos modos de ensinar e aprender uma prática corporal essencialmente coletiva, ponderando sobre as potencialidades e limites do formato remoto. Ainda assim, as autoras consideraram que as experiências vividas somaram um grande conjunto de aprendizados para todos os envolvidos – coordenadoras, monitores, praticantes – alguns deles talvez aplicáveis em tempos presenciais. Além disso, o período de restrição também nos permitiu valorizar ainda mais toda a potencialidade que as atividades em contextos reais podem proporcionar.

Para alguns a tecnologia introduz novas formas de estresse percebidas no nível de exigência na edição de vídeos podendo gerar uma ansiedade que destoa do caráter não competitivo e inclusivo da GPT. A dependência de uma internet de alta qualidade também pode ser um fator excludente, limitando a participação plena em atividades remotas. E apesar da maioria possuir facilidade tecnológica, a parcela que apresenta dificuldades com plataformas ou atualizações constantes precisa de suporte. Essa barreira pode ser mitigada pela colaboração dos participantes mais experientes.

A última etapa se refere às duas questões abertas que foram propostas no formulário. Esses dados qualitativos, foram submetidos à Análise de conteúdo (Bardin,2016), a partir de uma leitura flutuante com objetivo de pré analizar o documento, seguido de uma exploração material mais densa a fim de tematizar as respostas, interpretando-as.

Futuro e Sugestões: Como Você Imagina o Futuro da GPT com as Tecnologias Digitais?

Esta primeira questão aberta foi respondida por um total de 69 participantes e dela emergiram tres categorias de análise: 1 - Expansão, Democratização, Conectividade e Intercâmbio; 2- Suporte Pedagógico, Técnico e inovação criativa; 3- Preservação da Essência Humana.

Categoria 1: Expansão, Democratização, Conectividade e Intercâmbio.

A primeira categoria revela que os participantes projetam o futuro da GPT como um campo em plena expansão, impulsionada pela visibilidade digital. Nas falas dos praticantes a tecnologia é descrita como um motor de crescimento capaz de “ facilitar a divulgação massiva da GPT”;e “projetar a modalidade para além das fronteiras locais alcançando o mundo todo”. Essa percepção de alcance global está ligada à

“democratizar o acesso de pessoas às atividades em geral”, uma vez que o ambiente virtual atenua barreiras, permitindo a participação de pessoas que antes eram excluídas por “ questões econômicas e de logística”.

As frases enfatizam a capacidade da tecnologia de conectar grupos geograficamente distantes. Essa conectividade mencionada pelos participantes não é meramente técnica, mas sim um fator de integração humana. Ao afirmarem que o digital possibilita a “integração entre pessoas de diversos cantos do Brasil” e traz “agilidade na comunicação e interação entre equipes”, os respondentes indicam que a tecnologia atua como uma “porta do Brasil para fora”, fomentando o intercâmbio internacional.

Esses achados dialogam diretamente com o estudo de Mota, Patrício e Carbinatto (2022) mostrando que a tecnologia possibilita conexão e participação mesmo à distância. Os autores afirmam que os eventos remotos não surgiram para substituir os presenciais, mas, em tempos tão atípicos como os da pandemia, foram necessárias ações que fortalecessem os grupos e equipes. Conforme os autores, a internet permite a criação de “novos tipos de comunidades”, superando barreiras geográficas e preservando o “sentimento de pertencimento social” mesmo à distância. Ao articular as falas dos praticantes com a literatura, percebe-se que o desejo por “mais festivais virtuais” não é um recuo do corpo, mas uma estratégia para “continuar se movimentando” e mantendo a chama da coletividade acesa.

A partir da análise desta categoria, infere-se que a tecnologia deixou de ser um recurso emergencial para se tornar um agente estrutural de democratização na GPT. O futuro da modalidade poderá estar pautado na consolidação de uma comunidade gímnica em rede, onde o digital não apenas amplia a visibilidade, mas atua como uma estrada virtual que poderá equalizar oportunidades de participação, e conexão ao cenário global.

Categoria 2: Suporte Pedagógico, Técnico e Inovação Criativa.

A segunda categoria agrupa as percepções que posicionam a tecnologia como um recurso estratégico para o ensino, a aprendizagem e a inovação estética na GPT. Para os praticantes, o ambiente digital torna a modalidade “mais inclusiva em termos de acesso e estudos”, funcionando como um catalisador que “auxilia no aprendizado rápido” por meio do detalhamento “passo a passo de um movimento”. Essa função pedagógica, voltada para as “correções de movimento” e suporte aos treinos, valida a percepção de que as ferramentas digitais podem ser facilitadoras da autonomia do ginasta, conforme observado por Corrêa, Silva e Carbinatto (2023).

Os praticantes, trazem as ferramentas digitais como possibilidade de agregar e qualificar a prática, e a técnica, assim como a criatividade. As “ possibilidades criativas para as coreografias” e “ uso maior de telas no fundo dos palcos interagindo com a coreografia” são exemplos possíveis do uso dessas tecnologias como recurso de inovação ampliando as possibilidades estéticas da modalidade.Para além do suporte técnico-pedagógico, a tecnologia é celebrada como um instrumento vital de salvaguarda, permitindo “registrar coreografias e memórias das aulas presenciais” para manter a história dos grupos viva através do compartilhamento. Scarabelim e Toledo (2016), propõem um sistema de fichas analíticas para composições coreográficas na GPT. As autoras destacam que tais registros não se limitam a um fim em si mesmos, mas possibilitam a organização de informações detalhadas sobre cada coreografia criada, o registro sistemático permite que os grupos construam um acervo coreográfico histórico, preservando a memória das apresentações, dos festivais e da trajetória do grupo. A tecnologia pode servir de ferramenta para essas ações conforme destacam os colaboradores desse estudo.

A partir da análise desta categoria, percebe-se que a tecnologia na GPT amadureceu de um recurso de contingência para um recurso pedagógico consolidado e que o suporte digital atua hoje como uma memória viva e um laboratório criativo, permitindo que o conhecimento técnico seja democratizado e a história da modalidade seja eternizada. A inovação técnica não substitui o esforço humano, mas o potencializa e expande para novas linguagens estéticas.

Categoria 3: Preservação da Essência Humana.

Esta categoria reflete a tensão entre o avanço tecnológico e a natureza coletiva/afetiva da GPT. Para os participantes, existe un núcleo da modalidade que a tecnologia não consegue replicar, pois “ O contato físico (sentir o outro... sua pulsação) jamais deveria ser substituído por uma prática à distância”. Essa percepção evidencia que a ausência do “olho a olho”,é sentida como uma perda da conexão “que a GPT proporciona”, reforçando a convicção de que o “calor humano do encontro ao vivo não se supera”.Mais do que uma resistência técnica, os relatos expressam o “ receio que... acabem com o lado humanizado, presencial e até mesmo afetuoso”. Existe o receio de que o avanço tecnológico possa tornar a prática “tecnicista” interferindo no lado afetuoso e humanizado da convivência rotineira.

Essa visão dos praticantes aprofunda a discussão proposta por Menegaldo e Bortoleto (2020) revelando que a maioria das produções sobre GPT aborda a coletividade de forma instrumental, como meio para promover interação social e cooperação, sem aprofundar sua especificidade. Os achados deste estudo apontam, que os praticantes vivenciam a coletividade como potência. O contato físico não é um meio para um fim, mas o próprio sentido da prática. Essa experiência, produz vínculos afetivos duradouros e pertencimento. A experiência por intermédio de uma tela pode não ser suficiente para criação desses vínculos , a projeção dos participantes inclina-se para um “formato híbrido, mas coletivo”. Nesse cenário, as ferramentas digitais seriam utilizadas para transmissões e manutenção de laços à distância, garantindo que a tecnologia permaneça estritamente a serviço do encontro humano, e não o contrário.

Os participantes sugerem que o novo formato poderá envolver momentos coletivos presenciais fortalecidos por interações virtuais pontuais, transmissões ao vivo de festivais e o uso da internet para manter os laços quando o encontro físico for impossível. Em suma, o futuro da GPT com as tecnologias digitais é imaginado como uma ferramenta de inclusão e registro.

A análise dos achados revelam que GPT poderá atuar como um “limite intransponível” para a virtualização plena. Enquanto as categorias anteriores demonstraram a eficiência da tecnologia para a expansão e o registro, esta terceira dimensão reafirma que o digital deve ser o suporte, mas o encontro presencial é o núcleo inegociável da modalidade. Na Sociedade 5.0, o futuro da GPT não reside na substituição do toque pela tela, mas em um hibridismo vigilante, onde a inovação técnica serve para potencializar a visibilidade da prática sem jamais silenciar a vibrante e insubstituível pulsação do “corpo a corpo”.

Comentário Ou Sugestão a Respeito do Uso da Tecnologia na GPT Que Não Tenha Sido Contemplado nas Questões Acima.

Esta segunda questão aberta foi respondida por 30 participantes da pesquisa. Os comentários e sugestões fornecidos, centraram-se em quatro eixos: 1-visibilidade e divulgação; 2-ensino e criatividade; 3-infraestrutura e limitações; 4-prática, eventos e conexão.

Os comentários finais dos participantes transcendem a análise instrumental e revelam uma visão crítica sobre os avanços da GPT no ambiente digital, estruturando-se em eixos que evidenciam o desejo por uma profissionalização da presença virtual.

No eixo 1 Visibilidade e Divulgação, a crítica à “divulgação fraca” e a demanda por contas oficiais sugerem que os praticantes já percebem a tecnologia como um “agregador” essencial para a visibilidade global da modalidade “facilitando a divulgação massiva da GPT”. Essa necessidade de uma presença institucionalizada dialoga com a promessa da Sociedade 5.0, que busca utilizar a inovação para promover a integração social. A tecnologia, neste caso, não é vista apenas como um canal, mas como uma ferramenta de legitimação e expansão da GPT brasileira no cenário internacional, “ tem que ter e alcançar o mundo todo de forma a ser vista e entendida

A viabilidade dessa rede de conexões é sustentada pelos achados de Mota, Patrício e Carbinatto (2022), que demonstram como a mediação tecnológica permite que a participação e o engajamento gímnico ocorram, mesmo sob o regime de distanciamento. “Desde a pandemia, se mostraram grandes aliadas. Creio que continuarão sendo”.O estudo enfatiza que a prioridade desses encontros virtuais reside na manutenção do movimento e na continuidade da modalidade, permitindo que a GPT rompa barreiras geográficas e institua novas comunidades unificadas pelo desejo de “ser-junto”.

Quanto ao eixo 2- Ensino e Criatividade, o surgimento da Inteligência Artificial (IA) como ponto de debate representa um marco inédito na literatura da área. Embora os praticantes reconheçam que a IA pode auxiliar no “passo a passo de movimentos complexos”, há uma vigilância ética sobre o risco de que a automação iniba a criação humana e a união do coletivo, por isso “acredito que as tecnologias digitais serão componentes de possíveis composições coreográficas. Mas não o principal meio para fazê-las”. Essa preocupação corrobora os princípios da FIG (fun, fitness, fundamentals, friendship, forever), indicando que, na GPT, o protagonismo e a autoria coletiva são inegociáveis e não podem ser substituídos . Segundo os praticantes o “uso inteligente das tecnologias digitais deve melhorar as prática”s, e “vindo para somar e não para substituir, é sempre bem vinda.” O estudo de Corrêa, Silva e Carbinatto (2023), ressaltaram o protagonismo discente na composição de coreografias, e o uso da tecnologia para criação, compartilhamento de ideias e elaboração coreográfica, evidenciando que, mais que um recurso técnico, as ferramentas digitais atuaram como suporte pedagógico e criativo na GPT.

O eixo 3- de Infraestrutura e Limitações, por sua vez, desnuda o que ainda compromete a premissa de que a GPT é para todos quando relatam que “a internet nem sempre está boa” e que “não temos nenhum equipamento disponível” mostrando barreiras físicas e financeiras, o que pode aprofundar a exclusão de grupos periféricos. Segundo Carbinato e Ehrenberg (2020) um fator agravante no período pandêmico foi o enquadramento social e financeiro dos jovens, características como a baixa renda familiar e, inclusive, famílias inteiras sem renda fixa, impossibilitavam a aquisição de equipamentos eletrônicos de comunicação e acessibilidade a rede de internet. Por fim, no eixo 4- Prática, eventos e Conexão, a preferência por transmissões ao vivo em detrimento de aulas gravadas revela a busca pelo “engajamento momentâneo” que se perdem nas aulas gravadas. Os praticantes buscam replicar no virtual o “calor humano” e a “pulsação do outro” que são o núcleo da GPT. O formato híbrido é defendido como o caminho, “ideal para dar continuidade ao avanços” sem silenciar o encontro presencial. Nesse sentido Menegaldo e Bortoleto (2020) revelam que os praticantes vivenciam a coletividade como potência. O contato físico não é um meio para um fim, mas o próprio sentido da prática. O encontro presencial, produz vínculos afetivos duradouros e pertencimento. A GPT por intermédio de uma tela pode não ser suficiente para criação desses vínculos.

A partir da análise desses comentários e sugestões percebe-se que os praticantes de GPT desse estudo possuem um perfil conectado e consciente, desejando as facilidades da tecnologia, mas compreendendo até onde ela é bem vinda, e não aceitando a desumanização da prática. As falas relatam que um dos maiores desafios para o futuro da modalidade não é a resistência à tecnologia, mas a desigualdade de acesso. Para que a tecnologia seja de fato um agente de democratização, é urgente que o avanço digital venha acompanhado de políticas de infraestrutura. As ferramentas tecnológicas são bem vindas desde que permaneçam como suportes pedagógicos e estímulo à criatividade, nunca como substitutas do encontro corporal.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A investigação aos 97 praticantes de GPT revelou uma amostra de natureza intergeracional e inclusiva, com idades variando entre 18 e 86 anos. O perfil demográfico evidenciou uma predominância feminina e uma distribuição geográfica que alcançou as cinco regiões do país, com destaque para a forte vinculação da modalidade ao ambiente universitário, que atua como polo de extensão, pesquisa e grupos de prática. O estudo revelou que a tecnologia é vista pelos praticantes de GPT como uma ferramenta de via dupla. Se por um lado ela promove a democratização, a visibilidade global da modalidade, permitindo a conexão entre grupos distantes, preservação da memória coreográfica, uso criativo e recurso pedagógico, por outro, desperta o receio da perda da essência humanizadora.

Os dados quantitativos permitiram diagnosticar a integração tecnológica na modalidade, onde a grande maioria se declara autônomo no uso e aprendizado, viabilizando o uso da ferramenta como suporte pedagógico e criativo bem como na preservação da memória visual e história dos grupos. Por outro lado, a interação física e o calor humano são o núcleo inegociável da prática que a mediação por telas não consegue reproduzir integralmente.

A análise qualitativa das percepções sobre o futuro, comentários e sugestões adicionais consolidou-se em categorias e eixos estratégicos. Nas Três Categorias relacionadas ao Futuro os praticantes vislumbram a tecnologia como um motor de expansão e democratização e um suporte pedagógico/criativo, desde que subordinada à preservação da essência humana. Nos quatro eixos de ação acerca dos comentários e sugestões, emergiu a necessidade de maior visibilidade e divulgação institucional. Surgiu também uma vigilância ética sobre a inteligência artificial, para que esta não iniba a criação coletiva. Identificou-se uma dificuldade a equipamentos e acesso à internet, como entrave à democratização. Por fim, o formato híbrido com transmissões ao vivo foi defendido como o caminho para manter o engajamento.

O artigo cumpriu seu objetivo de compreender as percepções de praticantes sobre o uso e o futuro das tecnologias digitais na GPT, investigando as tensões entre a inovação e a humanização. A resposta central da investigação indica que, embora a tecnologia seja consolidada como um suporte pedagógico,criativo, de memória e história dos grupos, e agente de expansão global, ela não substitui a essência do encontro físico. O futuro da modalidade reside em um hibridismo vigilante, onde as ferramentas digitais permanecem estritamente a serviço da insubstituível pulsação do encontro presencial.

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1 Licenciatura e Graduação em Educação Física/ Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF,1994). Lato senso:Bases Metodológicas das atividades em academia. Faculdades Metropolitanas Unidas - SP(1995);Strito senso:Mestrado em Educação Física(Educação Física e Cultura) pela Universidade Gama Filho - RJ (2005). Doutoranda em Educação Física (Universidade Federal de Juiz de Fora / FAEFID-UFJF- MG (2022 - 2026).Participação como ginasta NA XVI WORLD GYMNAESTRADA MUNDIAL /ÁUSTRIA 2019.Integrante da delegação Brasileira (CBG) para a WORLD GYMNAESTRADA/ AMSTERDAM 2023. Bolsista Capes de Doutorado sanduiche na FADEUP- Faculdade do desporto da Universidade do Porto- Portugal (2024).Experiências em consultorias de Lazer e Recreação (@brincatrupe) desde 2017. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-1986-0572

2 Docente da Universidade de São Paulo (USP), vinculada à Escola de Educação Física e Esporte (EEFE/USP), no Departamento de Esporte, em regime de dedicação exclusiva. Orientadora de mestrado e doutorado no Programa de Pós-Graduação da EEFE/USP, na área de concentração Estudos Socioculturais e Comportamentais da Educação Física e do Esporte. Licenciada (2003) e bacharel (2006) em Educação Física pela Universidade Estadual de Campinas (FEF/UNICAMP); mestre (2006) pela UNIMEP, com bolsa CAPES; doutora (2012) pela EEFE/USP. Realizou estágio de pós-doutorado (2019) no Teachers College da Columbia University (Nova Iorque, EUA), além de estágios de pesquisa na Cardiff University (País de Gales, 2015) e na Hochschule Fresenius University of Applied Sciences (Munique, Alemanha, 2016). Em 2007, participou de uma imersão na Gymnastics and Sports Academy (Viborg, Dinamarca), com foco nos estudos técnico-artísticos da ginástica. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6598-9938

3 Professora Adjunta da Faculdade de Educação Física e Desportos (FAEFID-UFJF). Atualmente, coordenadora do curso de Educação Física (FAEFID-UFJF). Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação Física em associação plena UFV-UFJF. Doutora em Psicologia da Universidade Federal de Juiz de Fora (2017). Mestra em Psicologia da Universidade Federal de Juiz de Fora. Pós Graduada em Aspectos Conceituais e Metodológicos da Pesquisa Científica (2013) pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Graduada (2011) e Licenciada (2012) em Educação Física pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Membro do Núcleo de estudos, Corpo, Educação Física e Sociedade (NECOS) atuando no estudo e produção do conhecimento na intersecção da Educação Física com aspectos teórico-metodológicos das Ciências Humanas e Sociais a partir de articulações temáticas entre: corpo, práticas corporais, lazer, cultura, sociedade, gênero e imagem corporal. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-5240-6710