AS LUTAS NO ENSINO FUNDAMENTAL: UMA PROPOSTA DE SEQUÊNCIA DIDÁTICA NO COLÉGIO MILITAR DE SALVADOR

THE FIGHTING ARTS IN ELEMENTARY EDUCATION: A PROPOSED TEACHING SEQUENCE AT THE SALVADOR MILITARY COLLEGE

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/780092031

RESUMO
O presente artigo apresenta um relato de experiência acerca da implementação de uma unidade didática de lutas com turmas do 6º e 7º anos do Ensino Fundamental do Colégio Militar de Salvador (CMS). A proposta pedagógica foi desenvolvida no contexto de organização curricular da instituição, no qual os objetos de conhecimentos da Educação Física são trabalhados em sistema de rodízio de modalidades ao longo do ano letivo. O objetivo do estudo foi compartilhar experiências e conhecimentos acerca das lutas e da capoeira enquanto manifestações da cultura corporal de movimento, fundamentadas no conceito de lutas em sentido ampliado. A metodologia caracteriza-se como um relato de experiência de natureza qualitativa, baseado na descrição e análise de uma intervenção pedagógica realizada ao longo de quatro semanas. A unidade didática foi estruturada em uma progressão pedagógica que incluiu jogos de oposição, fundamentos técnicos de diferentes sistemas de lutas e artes marciais, como judô, karatê entre outras, além da vivência com a capoeira. O processo avaliativo ocorreu de forma processual e formativa, considerando procedimentos adotados pela Educação Física no CMS. Os resultados indicam que a diversificação de experiências corporais e o uso de estratégias pedagógicas lúdicas favoreceram o engajamento dos estudantes, contribuindo para a ressignificação das lutas no ambiente escolar e constitui um importante recurso educativo para a Educação Física Escolar, contribuindo para a ampliação do repertório motor e para a formação integral dos estudantes.
Palavras-chave: Educação Física Escolar; Lutas; Colégio Militar de Salvador; Prática Pedagógica.

ABSTRACT
This article presents an experience report on the implementation of a teaching unit on combat sports with 6th and 7th grade classes at the Salvador Military College (CMS). The pedagogical proposal was developed within the context of the institution's curricular organization, in which the knowledge objects of Physical Education are worked on in a system of rotation of modalities throughout the school year. The objective of the study was to share experiences and knowledge about combat sports and capoeira as manifestations of the body culture of movement, based on the concept of combat sports in a broad sense. The methodology is characterized as a qualitative experience report, based on the description and analysis of a pedagogical intervention carried out over four weeks. The teaching unit was structured in a pedagogical progression that included opposition games, technical fundamentals of different combat systems and martial arts, such as judo, karate, among others, in addition to the experience with capoeira. The evaluation process was procedural and formative, considering procedures adopted by Physical Education at CMS. The results indicate that the diversification of bodily experiences and the use of playful pedagogical strategies favored student engagement, contributing to the re-signification of combat sports in the school environment and constituting an important educational resource for Physical Education, contributing to the expansion of motor skills and the integral development of students.
Keywords: Physical Education; Combat Sports; Salvador Military College; Pedagogical Practice.

1. INTRODUÇÃO

A Educação Física Escolar tem como objeto de estudo e intervenção pedagógica as manifestações da cultura corporal de movimento, entre as quais se destacam jogos, esportes, danças, ginásticas e lutas (SOARES et. al., 1992). Nesse contexto, o ensino das lutas vem sendo progressivamente reconhecido como um conteúdo relevante para a formação integral dos estudantes, possibilitando experiências que envolvem não apenas o desenvolvimento de habilidades motoras, mas também a construção de valores éticos, sociais e culturais.

As lutas, enquanto práticas corporais historicamente constituídas, representam um patrimônio cultural presente em diferentes sociedades e tradições. Caracterizam-se por situações de oposição corporal mediadas por regras e princípios específicos de ataque, defesa, equilíbrio e estratégia (BRASIL, 2018; OLIVIER, 2000). No contexto educacional, tais práticas podem contribuir significativamente para o desenvolvimento de competências relacionadas ao respeito ao outro, ao autocontrole e à compreensão das regras que organizam as interações corporais (RUFINO; DARIDO, 2015).

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) reafirma essa perspectiva ao incluir as lutas como uma das unidades temáticas da Educação Física no Ensino Fundamental. De acordo com o documento, esse conteúdo possibilita aos estudantes compreender diferentes tradições culturais associadas às práticas corporais, além de favorecer o desenvolvimento de atitudes como cooperação, respeito às diferenças e responsabilidade nas interações corporais (BRASIL, 2018).

Apesar desse reconhecimento no âmbito curricular, estudos indicam que as lutas ainda são pouco exploradas no contexto escolar. Entre os fatores que contribuem para essa realidade destacam-se a associação equivocada dessas práticas à violência e a ausência de formação específica por parte de alguns professores para abordar esse conteúdo de forma pedagógica (DARIDO; RANGEL, 2012). Em muitos casos, as lutas acabam sendo reduzidas a uma perspectiva estritamente esportivizada ou simplesmente excluídas do planejamento pedagógico.

Nesse sentido, torna-se fundamental desenvolver propostas didáticas que possibilitem a inserção das lutas no ambiente escolar de forma segura, contextualizada e educativa. Uma das perspectivas que tem se mostrado promissora nesse campo é a abordagem das lutas em sentido ampliado, conceito que compreende práticas a partir de princípios estruturais comuns independentemente da modalidade específica. Essa abordagem amplia as possibilidades pedagógicas do conteúdo, permitindo que os estudantes compreendam os fundamentos das lutas por meio de jogos de oposição, atividades lúdicas e vivências corporais diversificadas.

Vale pontuar que a abordagem das lutas em sentido ampliado na Educação Física Escolar compreende práticas com elementos presentes nas lutas e se apresenta como uma manifestações da cultura corporal de movimento que busca ir além da reprodução de técnicas específicas de uma modalidade ou arte marcial. Nessa perspectiva, o ensino pode ser organizado a partir de princípios fundamentais das práticas de oposição, como desequilíbrio, controle corporal, ataque, defesa e ocupação de espaço, possibilitando a vivência pedagógica por meio de jogos e situações-problema. Tal compreensão tem sido defendida por autores como Olivier (2000) e Rufino e Darido (2015), que apontam a importância de tratar as lutas como conteúdos culturais acessíveis ao contexto escolar, contribuindo para o desenvolvimento motor, cognitivo e social dos estudantes.

No contexto específico do Colégio Militar de Salvador (CMS), instituição federal pertencente ao Sistema Colégio Militar do Brasil e vinculado ao Ministério da Defesa, a Educação Física integra um projeto pedagógico voltado à formação integral dos estudantes, no qual valores como disciplina, respeito e responsabilidade são fortemente valorizados. A organização curricular desse componente curricular no 6º e 7º ano do Ensino Fundamental ocorre por meio de um sistema de rodízio de modalidades, no qual os/as estudantes vivenciam diferentes objetos do conhecimento ao longo do ano letivo, incluindo esportes coletivos, jogos e brincadeiras, atletismo, natação e lutas. Tal estrutura curricular favorece a ampliação do repertório motor e cultural dos estudantes, permitindo o contato com diversas manifestações da cultura corporal de movimento.

No âmbito do Sistema Colégio Militar do Brasil (SCMB), a Educação Física integra a área de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias e fundamenta-se na compreensão da cultura corporal de movimento como objeto de ensino. Conforme estabelecido no Plano de Sequências Didáticas do Ensino Fundamental, a disciplina busca articular dimensões psicomotoras, cognitivas, afetivas e sociais, promovendo o desenvolvimento integral do aluno e a formação cidadã. Nesse contexto, objetos de conhecimento como as lutas constituem importantes manifestações culturais a serem tematizadas pedagogicamente, possibilitando aos estudantes compreender aspectos históricos, sociais e técnicos dessas práticas corporais, além de desenvolver valores como respeito, cooperação e autocontrole (BRASIL, 2017).

Importante salientar que a inserção das lutas no modelo de organização curricular do CMS apresenta desafios pedagógicos específicos, especialmente no que se refere à organização de experiências significativas em um período relativamente curto de tempo. Surge, portanto, a seguinte questão orientadora: Como apresentar a complexidade das lutas e de suas diferentes manifestações culturais em um cronograma didático compacto, garantindo uma vivência significativa e inclusiva para alunos do 6º e 7º ano do Ensino Fundamental no Colégio Militar de Salvador (CMS)?

Diante desse cenário, o presente artigo apresenta um relato de experiência referente à implementação de uma unidade didática de lutas desenvolvida com turmas do 6º e 7º anos do Ensino Fundamental do CMS. A intervenção pedagógica foi estruturada em 16 tempos de aula, distribuídos ao longo de quatro semanas (duas aulas às terça e duas aulas às quintas, nos primeiros horários do quadro de horários do colégio), e fundamentada no conceito de lutas em sentido ampliado.

A proposta buscou diversificar as experiências corporais dos estudantes, partindo de jogos de oposição básicos e avançando progressivamente para a vivência de diferentes sistemas de lutas e da capoeira enquanto manifestação cultural brasileira. Dessa forma, pretendeu-se promover o contato dos\as estudantes com múltiplas expressões das lutas, valorizando-as como práticas da cultura corporal de movimento e como formas de linguagem corporal.

Assim, o objetivo geral deste estudo foi compartilhar experiências e conhecimentos acerca das vivências com as lutas e a capoeira, valorizando-as como práticas da cultura corporal de movimento e linguagem no Colégio Militar de Salvador. Além disso, buscou-se analisar as contribuições pedagógicas dessa experiência para a ampliação do repertório motor dos estudantes e para a ressignificação das lutas no contexto da Educação Física Escolar.

Por meio da análise dessa intervenção pedagógica, pretende-se evidenciar que a diversificação de experiências corporais, mesmo em um período didático relativamente curto, pode contribuir significativamente para ampliar o repertório motor dos alunos e transformar sua percepção sobre o universo das lutas no ambiente escolar.

2. METODOLOGIA

O presente estudo caracteriza-se como um relato de experiência de abordagem qualitativa, centrado na descrição e análise de uma intervenção pedagógica realizada no contexto da Educação Física Escolar. Esse tipo de investigação busca compreender processos educativos a partir da reflexão sistematizada sobre práticas pedagógicas desenvolvidas em contextos reais de ensino.

A intervenção foi realizada no Colégio Militar de Salvador (CMS), instituição integrante do Sistema Colégio Militar do Brasil, cujo projeto pedagógico orienta-se pela formação integral dos estudantes, articulando excelência acadêmica, desenvolvimento físico e formação ética. Nesse contexto, a Educação Física compõe o currículo escolar como componente responsável pela vivência e compreensão das diferentes manifestações da cultura corporal de movimento.

O currículo de Educação Física para os anos finais do Ensino Fundamental do Sistema Colégio Militar do Brasil foi revisado em 2020 pela Diretoria de Educação Preparatória e Assistencial (DEPA) e estabelece uma carga horária anual de 160 horas-aula para os anos finais dessa etapa da educação básica. Inserida na área de Linguagens, o componente curricular Educação Física compreende o movimento corporal como forma de expressão, comunicação e produção cultural. O documento curricular orienta que as práticas pedagógicas estejam articuladas ao desenvolvimento de eixos cognitivos como dominar linguagens, compreender fenômenos, enfrentar situações-problema, construir argumentação e elaborar propostas, favorecendo a participação ativa dos estudantes, a reflexão crítica sobre as práticas corporais e o desenvolvimento de valores relacionados à convivência, ao respeito e à cooperação.

Participaram da intervenção quatro turmas do 6º ano e três turmas do 7º ano do Ensino Fundamental, durante o ano letivo de 2025. Na instituição, os conteúdos da Educação Física são organizados por meio de um sistema de rodízio de modalidades, no qual as turmas vivenciam, ao longo do ano, diferentes práticas corporais, como futebol, basquetebol, voleibol, handebol, jogos e brincadeiras, natação, atletismo e lutas, ampliando o repertório de experiências motoras e culturais dos estudantes.

As aulas são desenvolvidas na Seção de Educação Física (SEF) da instituição, que dispõe de infraestrutura composta por campo de futebol, campo de futebol society, piscina, dois ginásios esportivos, três quadras poliesportivas ao ar livre, pista e campo de provas de atletismo, dojô destinado às práticas de lutas, além de amplas áreas externas que possibilitam a realização de diferentes práticas corporais.

A unidade didática de lutas foi desenvolvida ao longo de quatro semanas, totalizando 16 tempos de aula de 50 minutos cada, distribuídos em encontros de dois tempos consecutivos e realizados nos dois primeiros horários das terças e quintas-feiras. A proposta pedagógica foi estruturada com base no conceito de lutas em sentido ampliado, priorizando o desenvolvimento de princípios fundamentais dessas práticas, tais como oposição, ataque e defesa, equilíbrio, desequilíbrio, estratégia e controle corporal, em detrimento da especialização técnica precoce em uma modalidade específica. Para fins de organização didática, a intervenção foi estruturada em três Eixos Pedagógicos de Aprendizagem, que orientaram a progressão das experiências corporais ao longo da unidade didática.

2.1. Eixo Pedagógico de Aprendizagem I – Conscientização corporal e jogos de oposição (Aulas 01 a 04 – 4 tempos)

Na etapa inicial da unidade didática, as atividades foram voltadas à conscientização corporal, à distinção conceitual entre luta e briga e a identificação de características específicas das lutas, aspecto considerado fundamental para a abordagem pedagógica desse conteúdo no contexto escolar. Foram realizadas vivências que envolvia atividades de percepção corporal, coordenação motora, exercícios de rolamentos e dinâmicas voltadas ao desenvolvimento do equilíbrio, da agilidade e das formas de deslocamento no dojô.

Além disso, foram propostos jogos de oposição, como queda de braço, cabo de guerra e pisa-pé, que possibilitaram aos estudantes experimentar situações de confronto corporal mediadas por regras. Essas atividades tiveram como objetivo introduzir os princípios básicos das lutas de forma lúdica, favorecendo a compreensão do contato corporal respeitoso e da importância das regras nas interações de oposição.

2.2. Eixo Pedagógico de Aprendizagem II – Vivências de sistemas de lutas e artes marciais (Aulas 05 a 10 – 6 tempos)

Na segunda etapa da intervenção pedagógica, os estudantes tiveram contato com diferentes sistemas de lutas e artes marciais, incluindo elementos do judô, jiu-jitsu, karatê, taekwondo, boxe, sumô, sambô, Wrestling, kikboking, luta marajoara e kung fu. Nessa fase, buscou-se ampliar o repertório motor dos alunos por meio da experimentação de diferentes formas de combate corporal presentes em distintas tradições e culturas.

As vivências incluíram jogos pedagógicos e exercícios técnicos adaptados, utilizando materiais como cones, faixas, bolas e saco de boxe. Entre as dinâmicas realizadas destacam-se a luta-bola, luta cone, exercícios com bexigas e sumô adaptado. Além dessas houveram práticas com técnicas que priorizasse movimentos específicos com os braços, pernas e suas possibilidades de defesa ou esquivas, ancoradas em exercícios básicos do boxe, karatê, taekwondo, kikboxing e kug fu. Essas práticas possibilitaram trabalhar aspectos importantes das lutas, como tempo de reação, percepção espacial, estratégia e controle dos movimentos de forma individual e conjunta.

2.3. Eixo Pedagógico de Aprendizagem III – Capoeira e identidade cultural brasileira (Aulas 11 a 16 – 6 tempos)

A etapa final da unidade didática foi dedicada à capoeira, compreendida como uma manifestação cultural brasileira, presente na cultura local, que articula elementos de luta, dança, música e expressão cultural. Inicialmente, foram abordados aspectos históricos e culturais da prática, destacando sua relação com os processos históricos de resistência da população negra no Brasil. Essa parte histórica foi partilhada a partir da vivência ‘capitão do mato’2.

Posteriormente, foram trabalhados movimentos fundamentais da capoeira, como ginga, cocorinha, armada, meia-lua de frente, au e negativa, possibilitando aos estudantes experimentar a dinâmica rítmica, ao som do pandeiro, característica dessa prática corporal. A unidade didática culminou com a vivência da primeira sequência de Mestre Bimba, utilizada como estratégia pedagógica para a memorização motora dos movimentos, e depois com a realização de uma roda de capoeira, na qual os estudantes tiveram a liberdade de explorar movimentos e puderam integrar os elementos aprendidos ao longo das aulas.

2.4. Processo Avaliativo

O processo avaliativo foi conduzido de forma processual e formativa, considerando o acompanhamento contínuo das aprendizagens ao longo da intervenção pedagógica. Os critérios utilizados incluíram:

  • Registro de frequência e engajamento, observando a participação ativa dos estudantes nas atividades propostas;

  • Observação das aprendizagens individuais e coletivas, considerando aspectos procedimentais, atitudinais e conceituais;

  • Momentos de autoavaliação, nos quais os estudantes foram estimulados a refletir sobre suas experiências, dificuldades, superações e aprendizagens vivenciadas durante a unidade didática.

Essa perspectiva avaliativa buscou valorizar o processo de aprendizagem e a participação ativa dos estudantes, deslocando o foco da avaliação da performance técnica para a compreensão das experiências corporais e das interações construídas ao longo das aulas.

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

A implementação da unidade didática de lutas no contexto da Educação Física Escolar possibilitou a observação de diferentes aspectos relacionados às percepções dos estudantes, ao engajamento nas vivências e às potencialidades pedagógicas desse conteúdo no ambiente escolar.

Inicialmente, verificou-se a existência de alunos que associavam o termo “luta” exclusivamente a situações de violência, agressividade ou conflito físico descontrolado. Essa percepção inicial evidencia um imaginário social frequentemente presente entre estudantes, no qual as lutas são compreendidas de forma reduzida e desvinculada de seus aspectos culturais, educativos e simbólicos. Entretanto, à medida que as atividades foram desenvolvidas ao longo da unidade didática, essa compreensão foi gradualmente ressignificada, permitindo que os estudantes passassem a perceber as lutas como práticas corporais mediadas por regras, estratégias e valores de respeito mútuo.

3.1. Ressignificação das Lutas e Jogos de Oposição

As vivências iniciais baseadas em jogos de oposição mostraram-se fundamentais para introduzir os princípios das lutas de forma lúdica, segura e pedagogicamente adequada ao contexto escolar. Dinâmicas como pisa-pé, queda de braço, cabo de guerra e outras situações de confronto mediado permitiram que os alunos experimentassem a lógica da oposição corporal sem que a prática fosse interpretada como agressiva.

Essas experiências contribuíram para que os estudantes compreendessem, na prática, a diferença entre luta e briga, favorecendo a construção de um ambiente de respeito e controle corporal. Ao vivenciarem situações de confronto estruturadas por regras, os discentes passaram a compreender que as lutas envolvem princípios técnicos e estratégicos que vão além do simples ato de atacar o oponente.

Nesse sentido, os resultados observados convergem com a perspectiva defendida por Darido e Rangel (2012), segundo a qual o ensino das lutas no ambiente escolar deve priorizar experiências pedagógicas que possibilitem a compreensão de seus princípios fundamentais antes da introdução de aspectos técnicos mais específicos.

3.2. Estratégias Lúdicas e Transposição Didática das Lutas

Outro aspecto relevante observado durante a intervenção foi a eficácia do uso de estratégias lúdicas para a transposição didática de elementos presentes em diferentes sistemas de lutas. Atividades como a luta-bola, sumô e as simulações de combate com materiais adaptados mostraram-se recursos pedagógicos importantes para facilitar a compreensão de conceitos complexos, como distância de combate, tempo de reação, equilíbrio e controle dos movimentos.

A ‘dinâmica da bexiga’3, por exemplo, contribuiu para reduzir a ansiedade associada ao contato físico e ao receio de receber golpes durante as atividades. Com isso, os alunos puderam concentrar sua atenção no desenvolvimento da coordenação motora, da percepção espacial e da estratégia corporal. Nessa perspectiva, a luta deixa de ser compreendida como um ato de agressão e passa a ser percebida como uma forma de interação corporal mediada por estímulos e respostas, na qual cada movimento do parceiro exige uma reação adequada.

Assim, as situações de oposição vivenciadas nas aulas podem ser compreendidas como formas de diálogo corporal, nas quais os estudantes respondem aos estímulos do oponente por meio de movimentos estratégicos. Essa dinâmica contribui para deslocar a compreensão da luta da lógica da violência para uma perspectiva de comunicação corporal, na qual ataque, defesa e esquiva configuram diferentes formas de linguagem corporal.

3.3. Capoeira, Cultura e Identidade

A etapa dedicada à capoeira apresentou um elevado nível de engajamento por parte dos estudantes, destacando-se como um dos momentos mais significativos da intervenção pedagógica. A presença de elementos históricos, culturais e musicais despertou grande interesse entre os alunos, favorecendo a compreensão da capoeira como uma manifestação cultural brasileira que integra luta, dança e expressão corporal.

Durante essa fase, os estudantes tiveram contato com movimentos fundamentais, como ginga, cocorinha, armada, meia-lua de frente, au e negativa. A vivência da primeira sequência de Mestre Bimba possibilitou a sistematização de movimentos de ataque e defesa em uma sequência estruturada, contribuindo para o desenvolvimento da lateralidade, da coordenação motora e do ritmo corporal.

A realização da roda de capoeira ao final da unidade didática representou um momento de síntese das aprendizagens construídas ao longo das aulas. Mais do que um momento de demonstração técnica, a roda constituiu um espaço de interação coletiva e de expressão corporal, no qual os estudantes puderam integrar os conhecimentos motores, culturais e sociais desenvolvidos durante o processo.

3.4. Avaliação Formativa e Construção de Valores

O processo avaliativo, conduzido de forma processual e formativa, permitiu identificar avanços não apenas no desempenho motor dos estudantes, mas também em aspectos relacionados à postura ética, ao respeito mútuo e à cooperação entre os colegas.

A observação da frequência e do engajamento revelou um alto nível de participação nas atividades propostas, indicando que a diversidade de experiências corporais contribuiu para manter o interesse dos alunos ao longo das quatro semanas de intervenção. Além disso, as situações coletivas, como a organização das saudações das artes marciais e a participação na roda de capoeira, favoreceram a construção de um ambiente de respeito e colaboração entre os estudantes.

Os momentos de autoavaliação também possibilitaram que os alunos refletissem sobre suas próprias experiências durante as aulas, reconhecendo dificuldades iniciais, superações pessoais e mudanças na forma de compreender o objeto de conhecimento lutas. Em alguns casos, estudantes relataram a superação do receio inicial relacionado ao contato corporal, evidenciando o papel da prática pedagógica na construção de relações de confiança entre os participantes.

No contexto específico do Colégio Militar de Salvador, observou-se ainda uma aproximação entre os valores institucionais de disciplina, respeito e hierarquia e os princípios filosóficos presentes em diversas tradições das artes marciais. A incorporação de elementos como a saudação inicial e o respeito ao parceiro de prática foi assimilada de forma natural pelos alunos, contribuindo para fortalecer valores importantes para a convivência escolar.

3.5. Síntese dos Resultados

No âmbito do currículo de Educação Física do Sistema Colégio Militar do Brasil observa-se uma orientação pedagógica que valoriza a diversidade das manifestações da cultura corporal de movimento como objeto de ensino. Essa perspectiva reconhece que práticas corporais como jogos, esportes, danças, ginásticas e lutas constituem expressões culturais relevantes para a formação integral dos estudantes, articulando dimensões motoras, cognitivas e socioculturais. Nesse contexto, o ensino das lutas pode ser compreendido como um objeto de conhecimento que favorece o desenvolvimento de competências relacionadas à cooperação, ao respeito às regras, ao autocontrole e à resolução de situações-problema presentes nas interações sociais. Ao promover vivências fundamentadas em princípios de oposição, estratégia e equilíbrio, o trabalho com lutas no 6º e no 7º ano do Ensino Fundamental contribui para ampliar o repertório cultural dos alunos e fortalecer processos educativos voltados à compreensão crítica das práticas corporais no ambiente escolar (BRASIL, 2020).

A análise comparativa entre a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e o Plano de Sequências Didáticas (PSD) do Sistema Colégio Militar do Brasil evidencia convergências na organização do ensino da Educação Física. Ambos os documentos situam o componente curricular na área de Linguagens e adotam a cultura corporal de movimento como referência para a seleção dos conteúdos. Nessa perspectiva, as lutas são reconhecidas como práticas corporais historicamente construídas que expressam valores culturais, sociais e educativos. Sua inserção nas aulas de Educação Física nos anos finais do Ensino Fundamental possibilita aos estudantes vivenciar diferentes formas de expressão corporal, desenvolver habilidades motoras e refletir sobre princípios éticos como respeito, disciplina e autocontrole, contribuindo para a formação integral dos sujeitos (BRASIL, 2017; BRASIL, 2018).

De modo geral, os resultados da intervenção indicam que a abordagem pedagógica adotada contribuiu para ampliar o repertório motor dos estudantes e favorecer uma compreensão mais ampla das lutas enquanto manifestações da cultura corporal de movimento. Além disso, a diversificação das experiências corporais, associada ao uso de estratégias lúdicas e à valorização de aspectos culturais das práticas de combate, mostrou-se uma alternativa pedagógica pertinente para a inserção desse conteúdo no contexto da Educação Física Escolar.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A experiência pedagógica relatada neste estudo evidencia que o ensino das lutas no contexto da Educação Física Escolar é possível e pedagogicamente relevante. Quando estruturadas a partir de princípios educativos e estratégias metodológicas adequadas, as lutas podem contribuir significativamente para o desenvolvimento motor, cognitivo, socioemocional e cultural dos estudantes, ampliando as possibilidades formativas no ambiente escolar.

No contexto específico do Colégio Militar de Salvador, a inserção das lutas no sistema de rodízio de modalidades mostrou-se uma estratégia eficaz para diversificar as experiências corporais oferecidas aos alunos dos 6º e 7º anos do Ensino Fundamental. Essa organização curricular possibilita que os estudantes tenham contato com diferentes manifestações da cultura corporal de movimento ao longo do ano letivo, favorecendo a ampliação do repertório motor e cultural.

A proposta pedagógica fundamentada no conceito de lutas em sentido ampliado revelou-se particularmente adequada para o contexto escolar analisado. Ao priorizar princípios estruturais comuns às diferentes lutas — como oposição, equilíbrio, ataque, defesa e estratégia — a abordagem permitiu organizar uma progressão didática que articulou jogos de oposição, vivências de artes marciais e a capoeira como manifestação cultural brasileira.

Os resultados da intervenção indicam que a diversificação de experiências corporais, mesmo em um cronograma didático relativamente enxuto de quatro semanas, pode contribuir para a ressignificação das lutas no imaginário dos estudantes. Ao longo das aulas, foi possível observar uma redução das associações iniciais entre luta e violência, bem como o reconhecimento dessas práticas como formas de interação mediadas por regras, respeito mútuo e autocontrole.

Além disso, a diversidade de atividades propostas favoreceu a participação de estudantes com diferentes características físicas e níveis de habilidade motora, possibilitando que cada aluno encontrasse formas de engajamento com o Objeto de Conhecimento. Esse aspecto reforça o potencial inclusivo das lutas quando abordadas pedagogicamente a partir de jogos, dinâmicas cooperativas e práticas culturalmente contextualizadas.

No ambiente institucional do Colégio Militar de Salvador, observou-se também uma aproximação entre os princípios presentes nas tradições das artes marciais — como disciplina, respeito ao adversário e autocontrole — e os valores formativos valorizados pela instituição, tais como hierarquia, responsabilidade e ética nas relações interpessoais. Essa convergência contribuiu para fortalecer o caráter educativo das atividades desenvolvidas com essa sequência didática.

Diante desses resultados, entende-se que o ensino das lutas pode constituir um importante recurso pedagógico para a Educação Física Escolar, tanto pela diversidade de experiências motoras que proporciona, quanto pelo potencial de promover valores relacionados à convivência, ao respeito e à compreensão das diferentes manifestações da cultura corporal.

Por fim, destaca-se a importância de ampliar as investigações e experiências pedagógicas relacionadas ao ensino das lutas na escola, especialmente no que se refere à formação docente, à elaboração de propostas de intervenção didáticas e à produção de conhecimento na área. Tais iniciativas podem contribuir para consolidar esse conteúdo como parte integrante e significativa do currículo da Educação Física Escolar.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: Ministério da Educação, 2018. Disponível em: https://www.gov.br/mec. Acesso em: 23 mar. 2026.

BRASIL. Exército Brasileiro. Departamento de Educação e Cultura do Exército. Diretoria de Educação Preparatória e Assistencial. Plano de Sequências Didáticas: Ensino Fundamental – 6º ano – Educação Física. Brasília, DF: DECEx/DEPA, 2017.

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BRASIL. Exército Brasileiro. Departamento de Educação e Cultura do Exército. Diretoria de Educação Preparatória e Assistencial. Educação Física – 6º e 7º anos do Ensino Fundamental: currículo revisado. Brasília: DEPA, 2020.

COLÉGIO MILITAR DE SALVADOR. Plano de Sequência Didática (PSD): Educação Física – Ensino Fundamental II. Salvador: Colégio Militar de Salvador, 2025.

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OLIVIER, Jean-Claude. As lutas na escola. Porto Alegre: Artmed, 2000.

SISTEMA COLÉGIO MILITAR DO BRASIL. Plano de Sequência Didática (PSD): Educação Física – Ensino Fundamental (6º e 7º anos). Brasília: Diretoria de Educação Preparatória e Assistencial, Exército Brasileiro, 2020.

SOARES, Carmen Lúcia et al. Metodologia do ensino de educação física. São Paulo: Cortez, 1992.


1 Discente do programa de Mestrado Profissional em Educação Física – ProEF na UESB, Professor de Educação Física e Judô do Colégio Militar de Salvador, Integrante do núcleo de estudo, pesquisa e extensão em lutas, artes marciais e esportes de combate vinculado à UNEB e do Núcleo de estudos sobre a prática pedagógica em educação física e suas representações sociais vinculado à UESB.

2 Capitão do mato é o nome dado a uma brincadeira historiada onde o professor vai contando fatos da história do brasil, sobre tudo acerca do período de escravização do negros e o surgimento de movimentos de resistência como a capoeira, intercalado a essa contação de história é feita uma brincadeira de pega-pega utilizando, progressivamente, movimentos da capoeira.

3 A dinâmica da bexiga consiste em aplicar golpes de socos e chutes na bexiga. Essa atividade é feita em dupla e os estudantes precisam aplicar as técnicas ensinadas alternando a vez de golpear a bexiga.