REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/785819416
RESUMO
A curricularização da extensão tem assumido papel estratégico na educação superior brasileira em razão das exigências regulatórias e das transformações que impactam a profissão contábil, marcadas pela digitalização, automação de processos e ampliação das demandas relacionadas à sustentabilidade e à governança. No campo da educação contábil, contudo, ainda são escassas evidências empíricas que demonstrem, de forma sistemática, como experiências extensionistas contribuem para o desenvolvimento de competências profissionais e para a geração de valor às organizações atendidas. Este estudo objetiva analisar as evidências de desenvolvimento de competências decorrentes da implementação de uma Ação Curricular de Extensão e Cultura (ACEC) no curso de Ciências Contábeis de uma universidade pública estadual do Paraná. A pesquisa, de abordagem qualitativa, natureza exploratória e descritiva, adotou a estratégia de estudo de casos múltiplos. Participaram 52 estudantes do terceiro ano, organizados em grupos que atuaram junto a nove organizações contábeis da região. Os dados foram coletados por meio de relatórios técnicos, registros institucionais e feedback dos gestores participantes, sendo analisados por análise de conteúdo temática com triangulação de fontes. Os resultados evidenciam o desenvolvimento de competências cognitivas, interpessoais e estratégicas, além da validação externa da utilidade organizacional das propostas apresentadas. Com base nos achados, propõe-se um modelo de formação do contador empreendedor por extensão aplicada, estruturado em cinco etapas integradas. O estudo contribui para a literatura ao apresentar evidências de impacto formativo e organizacional na educação contábil, fortalecendo o debate sobre desenvolvimento de competências profissionais.
Palavras-chave: Educação contábil; Curricularização da extensão; Competências profissionais.
ABSTRACT
Integrating extension activities into the curriculum has assumed a strategic role in Brazilian higher education due to regulatory requirements and transformations impacting the accounting profession—specifically digitalization, process automation, and expanding demands regarding sustainability and governance. However, in the field of accounting education, empirical evidence systematically demonstrating how extension experiences contribute to professional competency development and value creation for the organizations served remains scarce. This study aims to analyze evidence of competency development resulting from the implementation of a Curricular Extension and Culture Initiative (ACEC) within the Accounting Sciences program at a state public university in Paraná. Adopting a qualitative approach and an exploratory-descriptive nature, the research employed a multiple-case study strategy. Fifty-two third-year students participated, organized into groups that worked with nine accounting organizations in the region. Data were collected via technical reports, institutional records, and feedback from participating managers, and were analyzed using thematic content analysis with source triangulation. The results demonstrate the development of cognitive, interpersonal, and strategic competencies, as well as external validation of the organizational utility of the proposals presented. Based on these findings, a model for training entrepreneurial accountants through applied extension is proposed, structured into five integrated stages. The study contributes to the literature by presenting evidence of the formative and organizational impact of such initiatives in accounting education, thereby strengthening the debate on professional competency development.
Keywords: Accounting education; Integration of extension activities into the curriculum; Professional competencies.
1. INTRODUÇÃO
A profissão contábil tem atravessado profundas transformações estruturais nas últimas décadas, impulsionadas pela digitalização dos processos organizacionais, pela automação de rotinas operacionais, pela incorporação de tecnologias de análise de dados e pela crescente centralidade de agendas relacionadas à sustentabilidade e governança. Esse cenário redefine o perfil do contador contemporâneo, deslocando-o de uma atuação predominantemente normativa e operacional para uma posição estratégica, analítica e consultiva. A geração, interpretação e comunicação de informações relevantes para tomada de decisão passam a exigir competências que extrapolam o domínio técnico tradicional.
No entanto, a formação em Ciências Contábeis ainda carrega traços históricos de forte ênfase tecnicista, centrada na execução normativa e na conformidade fiscal. Embora tais competências sejam indispensáveis, a literatura nacional e internacional aponta a necessidade de reconfiguração curricular orientada ao desenvolvimento de pensamento crítico, julgamento profissional, habilidades interpessoais e capacidade de adaptação às transformações tecnológicas. As Normas Internacionais de Educação (IFAC, 2019) reforçam essa perspectiva ao enfatizar a integração entre competências técnicas, profissionais e éticas.
Nesse contexto, a curricularização da extensão emerge como estratégia potencialmente transformadora. Ao institucionalizar a integração entre universidade e sociedade, por meio de experiências formativas aplicadas, a extensão curricularizada possibilita a imersão dos estudantes em contextos organizacionais reais, promovendo aprendizagem experiencial, reflexão crítica e construção colaborativa de soluções. Mais do que cumprir exigência normativa, tal abordagem pode constituir mecanismo estruturado de desenvolvimento de competências alinhadas às demandas contemporâneas da profissão.
Apesar desse potencial, ainda são limitadas as evidências empíricas que examinem, de forma sistemática, os impactos concretos da extensão curricularizada na formação contábil e na geração de valor às organizações envolvidas. Parte significativa das pesquisas concentra-se na percepção discente ou em análises normativas, havendo lacuna quanto à validação externa dos resultados formativos e à articulação conceitual entre aprendizagem experiencial, educação empreendedora e desenvolvimento de competências profissionais.
Diante desse cenário, este estudo busca responder à seguinte questão de pesquisa: como a curricularização da extensão contribui para o desenvolvimento de competências profissionais na formação em Ciências Contábeis? Este estudo tem como objetivo analisar como a curricularização da extensão, estruturada como prática de aprendizagem experiencial, contribui para o desenvolvimento de competências profissionais na formação em Ciências Contábeis.
O estudo contribui em três dimensões principais. No plano teórico, integra referenciais de aprendizagem experiencial, reflexão profissional e educação empreendedora, propondo modelo formativo aplicado à educação contábil. No plano metodológico, adota estratégia de casos múltiplos com triangulação de fontes e validação organizacional externa. No plano prático, oferece subsídios para implementação estruturada da curricularização da extensão como instrumento de desenvolvimento de competências alinhadas à transformação digital e às demandas por sustentabilidade na profissão contábil.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA
2.1. Aprendizagem Experiencial e Formação Profissional
A formação em Ciências Contábeis tem sido tensionada por transformações estruturais decorrentes da digitalização de processos, da ampliação de exigências regulatórias e da crescente complexidade organizacional. Nesse contexto, a literatura internacional tem destacado a necessidade de reconfiguração dos modelos pedagógicos tradicionais, historicamente centrados na transmissão de conteúdos técnicos, para abordagens orientadas ao desenvolvimento de competências analíticas, estratégicas e relacionais (IFAC, 2019; Lawson et al., 2014). Essa transição implica reconhecer que o domínio técnico, embora necessário, é insuficiente para responder às demandas contemporâneas da profissão.
A aprendizagem experiencial fundamenta-se na premissa de que o conhecimento é construído por meio da transformação da experiência. Segundo Kolb (1984), “learning is the process whereby knowledge is created through the transformation of experience”, estruturando-se em um ciclo composto por experiência concreta, observação reflexiva, conceitualização abstrata e experimentação ativa. Esse modelo rompe com abordagens instrucionais centradas na transmissão de conteúdo e desloca o foco para o protagonismo do estudante no processo formativo.
Dewey (1938) já defendia que a educação deve estar ancorada na experiência vivida, enfatizando que a aprendizagem ocorre quando o indivíduo estabelece conexões significativas entre ação e reflexão. Para o autor, a experiência só se torna educativa quando integrada a um processo reflexivo sistemático, capaz de reorganizar significados e orientar ações futuras. Essa concepção amplia a compreensão da aprendizagem para além da simples exposição a situações práticas.
Schön (1983), ao desenvolver o conceito de “profissional reflexivo”, argumenta que a formação profissional exige a capacidade de refletir na ação e sobre a ação, especialmente em contextos marcados por incerteza e complexidade. No campo contábil, onde decisões envolvem julgamento profissional, interpretação normativa e análise estratégica, a competência reflexiva torna-se elemento central. A formação baseada exclusivamente em conteúdos normativos tende a produzir profissionais tecnicamente habilidosos, porém com limitações na resolução de problemas não estruturados.
Estudos contemporâneos em educação contábil têm destacado a necessidade de metodologias ativas que promovam aprendizagem aplicada e desenvolvimento de competências transversais, como pensamento crítico, comunicação e trabalho em equipe (Lima & Bruni, 2020; Nossa, 2021). A incorporação de experiências reais no processo formativo permite a mobilização integrada de conhecimentos técnicos e habilidades socioemocionais, aproximando a formação acadêmica das demandas do mercado.
Nesse sentido, a aprendizagem experiencial fornece arcabouço teórico consistente para fundamentar práticas extensionistas estruturadas. Ao integrar experiência concreta, reflexão sistemática e validação prática, cria-se ambiente propício ao desenvolvimento de competências profissionais alinhadas às diretrizes internacionais de formação contábil.
Além disso, a literatura contemporânea sobre aprendizagem experiencial tem destacado que o ciclo proposto por Kolb (1984) não deve ser compreendido como sequência linear rígida, mas como processo dinâmico e iterativo, no qual experiência e reflexão retroalimentam continuamente a construção do conhecimento. Em contextos profissionais complexos, como a Contabilidade, essa característica assume relevância particular, uma vez que os problemas enfrentados não são totalmente estruturados nem apresentam soluções previamente definidas.
A aprendizagem situada, conforme discutida por Billett (2011), reforça que o conhecimento profissional é desenvolvido no contexto de sua aplicação, sendo moldado pelas interações sociais, pelas demandas organizacionais e pelas restrições institucionais. Assim, a experiência extensionista não representa apenas aplicação prática de conteúdos previamente aprendidos, mas constitui espaço de reconstrução do conhecimento à luz das contingências organizacionais.
No campo contábil, a interpretação normativa, a análise de cenários e a tomada de decisão envolvem julgamento profissional, o que exige articulação entre conhecimento técnico e sensibilidade contextual. A vivência concreta em organizações reais permite que o estudante compreenda as ambiguidades inerentes à prática, desenvolvendo competências metacognitivas associadas à autorregulação e à reflexão crítica.
Portanto, a aprendizagem experiencial fornece a base epistemológica que sustenta a formação por competências ao afirmar que o conhecimento profissional emerge da interação reflexiva entre ação, contexto e problematização crítica. Nessa perspectiva, o desenvolvimento de competências não se restringe à aquisição de conteúdos técnicos, mas envolve a mobilização integrada de conhecimentos, habilidades e atitudes diante de situações concretas e contextualizadas. Assim, a articulação entre teoria e prática deixa de ser um ideal pedagógico abstrato para constituir-se como processo estruturante da formação profissional, especialmente em áreas aplicadas como a Contabilidade.
2.2. Curricularização da Extensão e Indissociabilidade Ensino–Pesquisa–Extensão
A curricularização da extensão foi consolidada nacionalmente a partir da Resolução CNE/CES nº 7/2018, que estabelece a obrigatoriedade de integralização mínima de 10% da carga horária total dos cursos de graduação em atividades extensionistas. Tal normatização reforça o princípio constitucional da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, previsto no artigo 207 da Constituição Federal.
De acordo com o Fórum de Pró-Reitores de Extensão (FORPROEX, 2012), a extensão universitária deve ser compreendida como “processo interdisciplinar, educativo, cultural, científico e político que promove a interação transformadora entre universidade e outros setores da sociedade”. Essa concepção desloca a extensão de uma lógica assistencialista ou de prestação de serviços para uma perspectiva formativa estruturante, com impacto bidirecional: a universidade transforma a realidade social e é simultaneamente transformada por ela.
Freire (1996) enfatiza que a educação deve ocorrer em diálogo com a realidade concreta, defendendo uma pedagogia da práxis, na qual ação e reflexão constituem movimento dialético inseparável. A curricularização da extensão aproxima-se dessa perspectiva ao inserir o estudante em contextos reais e ao exigir reflexão crítica sobre os desafios enfrentados.
No campo da educação contábil, a integração universidade–empresa assume relevância estratégica, uma vez que a profissão é orientada à geração, análise e interpretação de informações para tomada de decisão. Estudos recentes indicam que a aproximação sistemática com organizações reais contribui para o desenvolvimento de competências aplicadas e melhora a empregabilidade dos egressos (Silva & Ott, 2022). Entretanto, desafios institucionais persistem, como a necessidade de planejamento pedagógico estruturado, capacitação docente e definição de critérios de avaliação compatíveis com a natureza extensionista.
A indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão também pode ser analisada sob a perspectiva da produção social do conhecimento. Ao interagir com organizações reais, a universidade não apenas transfere saberes, mas também coleta evidências empíricas que podem retroalimentar pesquisas e aperfeiçoar práticas pedagógicas. Esse movimento fortalece a função social da universidade pública e amplia sua legitimidade institucional.
Sob a ótica da accountability educacional, a curricularização da extensão pode ser compreendida como mecanismo de demonstração de impacto social, aproximando-se de modelos internacionais que enfatizam a responsabilidade das instituições de ensino superior perante a sociedade. No campo da Contabilidade, essa dimensão assume caráter simbólico adicional, uma vez que a própria profissão está associada à transparência, governança e prestação de contas.
Adicionalmente, a extensão curricularizada favorece a interdisciplinaridade, pois problemas organizacionais raramente se restringem a uma única dimensão técnica. Ao lidar com desafios relacionados à gestão, tecnologia e estratégia, o estudante é levado a integrar conhecimentos diversos, ampliando sua capacidade de análise sistêmica.
A curricularização da extensão também pode ser compreendida como mecanismo de accountability social da universidade pública, ao demonstrar retorno concreto à sociedade por meio da formação profissional qualificada e da geração de soluções aplicadas. Dessa forma, a extensão curricularizada transcende dimensão normativa e assume papel estratégico na consolidação da relevância social do ensino superior.
2.3. Educação Empreendedora e Competências Profissionais em Contabilidade
A transformação digital e a crescente complexidade regulatória têm redefinido o perfil do contador contemporâneo. A International Federation of Accountants (IFAC, 2019), por meio das International Education Standards (IES), destaca que a formação contábil deve contemplar competências técnicas, habilidades profissionais, valores éticos e pensamento crítico. Entre as habilidades profissionais, enfatizam-se comunicação, resolução de problemas, julgamento profissional e capacidade de adaptação a mudanças tecnológicas.
Nesse cenário, a educação empreendedora emerge como abordagem capaz de estimular autonomia, inovação e visão estratégica (Neck & Greene, 2011). Ao enfatizar resolução de problemas reais, experimentação e criação de valor, essa perspectiva amplia o escopo tradicional da formação contábil, tradicionalmente centrada em conformidade normativa.
A educação empreendedora, entendida como abordagem orientada à ação, experimentação e resolução de problemas reais, dialoga diretamente com a necessidade de reconfiguração do perfil do profissional contábil. Ao deslocar o foco da mera execução técnica para a identificação de oportunidades, análise crítica e proposição de soluções, essa perspectiva contribui para formação de um contador com postura estratégica e consultiva. Assim, o desenvolvimento de mentalidade empreendedora não se limita à criação de novos negócios, mas abrange a capacidade de gerar valor organizacional por meio da interpretação qualificada de informações e da intervenção fundamentada em contextos complexos.
Além disso, a transformação digital exige postura proativa diante da inovação tecnológica. O contador empreendedor não apenas utiliza ferramentas digitais, mas compreende seus impactos estratégicos e identifica oportunidades de melhoria informacional. Assim, a educação empreendedora articulada à extensão possibilita desenvolvimento de competências adaptativas essenciais no cenário contemporâneo.
A literatura recente aponta que o contador vem assumindo papel de business partner nas organizações, atuando como consultor estratégico e agente de apoio à tomada de decisão. Tal mudança exige competências que extrapolam o domínio técnico, incluindo capacidade analítica avançada, visão sistêmica e compreensão de modelos de negócio. A incorporação de ferramentas como Business Model Canvas, Design Thinking e análise de dados amplia o repertório formativo e favorece desenvolvimento de competências estratégicas.
No contexto brasileiro, Marion (2018) e Nossa (2021) argumentam que a formação contábil precisa superar o paradigma operacional para consolidar perfil consultivo e empreendedor. A educação empreendedora, quando articulada à aprendizagem experiencial e à curricularização da extensão, cria ambiente propício para o desenvolvimento dessa identidade profissional ampliada.
Assim, a integração entre aprendizagem experiencial, extensão curricularizada e educação empreendedora configura modelo formativo alinhado às demandas contemporâneas da profissão contábil, contribuindo para a formação de profissionais reflexivos, estratégicos e socialmente comprometidos.
2.4. Competências Profissionais e Modelo Baseado em Competências
A discussão sobre competências profissionais na educação superior ganhou centralidade nas últimas décadas, especialmente diante da transição de modelos curriculares baseados em conteúdo para modelos orientados a resultados de aprendizagem. No campo da Contabilidade, esse movimento é fortemente influenciado pelas International Education Standards (IES), que enfatizam a necessidade de desenvolvimento integrado de competências técnicas, profissionais e éticas (IFAC, 2019).
A literatura sobre competências distingue conhecimento (saber), habilidades (saber fazer) e atitudes (saber ser), ressaltando que o desempenho profissional resulta da mobilização integrada desses elementos em situações concretas (Le Boterf, 2003). Sob essa perspectiva, o desenvolvimento de competências exige exposição a contextos complexos e ambíguos, nos quais o estudante precise tomar decisões, negociar soluções e lidar com incertezas.
No âmbito da educação contábil, estudos têm apontado que a predominância de metodologias expositivas limita a consolidação de competências estratégicas e consultivas, favorecendo perfil operacional (Arquero & Tejero, 2011). A adoção de metodologias ativas, incluindo projetos aplicados e experiências reais, contribui para reduzir essa lacuna formativa.
Assim, a curricularização da extensão pode ser compreendida como mecanismo estruturado de desenvolvimento de competências, ao inserir o estudante em ambiente organizacional real, exigindo mobilização integrada de conhecimentos técnicos, habilidades interpessoais e capacidades analíticas.
Modelos baseados em competências enfatizam que a aprendizagem deve ser avaliada não apenas pela aquisição de conhecimento declarativo, mas pela capacidade de mobilizá-lo em situações concretas. Essa mobilização envolve integração de saberes técnicos, habilidades comunicacionais e atitudes profissionais, configurando desempenho contextualizado.
No caso da formação contábil, a exposição a ambientes organizacionais reais permite verificar a capacidade do estudante de traduzir linguagem técnica para interlocutores não especializados, adaptar recomendações às restrições do contexto e sustentar argumentação fundamentada. Tais elementos constituem evidências práticas de desenvolvimento de competência.
A curricularização da extensão, portanto, pode ser interpretada como ambiente avaliativo autêntico, no qual o desempenho discente é observado em situação próxima à prática profissional, ampliando consistência formativa.
A transformação digital tem alterado significativamente a dinâmica da profissão contábil, com crescente utilização de sistemas integrados, automação de processos e análise de dados. Estudos recentes indicam que tarefas operacionais tendem a ser automatizadas, deslocando o foco do contador para funções analíticas e estratégicas (Susskind & Susskind, 2015).
Paralelamente, a incorporação de agendas de sustentabilidade e relatórios ESG amplia o escopo da atuação contábil, exigindo compreensão sistêmica dos impactos econômicos, sociais e ambientais das organizações. Nesse contexto, o contador deixa de ser mero registrador de eventos passados para assumir papel de agente informacional estratégico.
A literatura internacional sobre accounting education reform destaca a necessidade de currículos que integrem competências digitais, pensamento crítico e capacidade de adaptação a ambientes complexos (Albrecht & Sack, 2000; IFAC, 2019). A extensão curricularizada, ao expor estudantes a desafios reais de transformação organizacional, pode funcionar como laboratório formativo para desenvolvimento dessas competências emergentes.
As transformações tecnológicas, regulatórias e organizacionais que caracterizam o cenário contemporâneo da Contabilidade têm ampliado a complexidade das demandas profissionais, exigindo competências que transcendem o domínio técnico tradicional. A digitalização de processos e o uso intensivo de sistemas informacionais deslocam o foco da atividade contábil da execução operacional para análise interpretativa e suporte à tomada de decisão. Nesse contexto, a formação acadêmica precisa incorporar experiências que desenvolvam pensamento crítico, visão sistêmica e capacidade consultiva, sob pena de manter desalinhamento entre formação universitária e prática profissional.
Dessa forma, a articulação entre aprendizagem experiencial, educação empreendedora e extensão curricularizada apresenta-se como resposta pedagógica alinhada às transformações tecnológicas e às demandas por sustentabilidade na prática contábil contemporânea.
A transformação digital tem sido apontada como um dos principais vetores de mudança na profissão contábil. Tecnologias como inteligência artificial, automação robótica de processos (RPA), análise de big data e sistemas integrados têm redefinido as atividades tradicionais do contador (Richins et al., 2017; Kokina & Davenport, 2017).
Relatórios recentes destacam que o contador contemporâneo precisa desenvolver competências analíticas e tecnológicas para atuar como business partner estratégico (IFAC, 2019). A literatura aponta que currículos excessivamente focados em normativas fiscais tendem a se tornar obsoletos diante da automação de rotinas operacionais.
Nesse cenário, experiências extensionistas que expõem estudantes a desafios reais de digitalização organizacional funcionam como ambientes de experimentação prática, permitindo que compreendam a aplicação estratégica da tecnologia na geração de valor informacional.
A crescente incorporação de relatórios ESG (Environmental, Social and Governance) e padrões internacionais de sustentabilidade amplia o escopo da atuação contábil. A informação contábil passa a abranger dimensões socioambientais, exigindo visão sistêmica e capacidade de mensuração não financeira (Gray, 2010; Adams, 2017).
A formação contábil, portanto, precisa preparar profissionais capazes de interpretar indicadores de sustentabilidade, integrar dados financeiros e não financeiros e comunicar desempenho organizacional de forma transparente. A literatura recente sugere que abordagens baseadas em problemas reais favorecem maior compreensão da complexidade inerente à sustentabilidade corporativa (Guthrie & Parker, 2016).
A extensão curricularizada, ao inserir estudantes em contextos organizacionais reais, cria oportunidade concreta para que percebam desafios relacionados à governança, transparência e responsabilidade socioambiental, fortalecendo alinhamento entre formação acadêmica e demandas contemporâneas.
A convergência entre transformação digital, sustentabilidade e redefinição do papel do contador reforça a necessidade de modelos formativos que integrem teoria e prática de maneira estruturada. A automação de rotinas operacionais tende a deslocar o foco da profissão para atividades de maior valor agregado, como análise estratégica, interpretação de dados e suporte à tomada de decisão.
Paralelamente, a ampliação das exigências relacionadas a relatórios ESG e governança corporativa exige compreensão sistêmica das organizações e capacidade de mensuração integrada de desempenho. Nesse contexto, a formação baseada exclusivamente em conteúdos normativos mostra-se insuficiente para preparar profissionais aptos a atuar em ambientes complexos e dinâmicos.
A articulação entre aprendizagem experiencial, educação empreendedora e extensão curricularizada apresenta-se, portanto, como resposta pedagógica coerente às transformações estruturais da profissão contábil. Ao proporcionar vivência prática supervisionada, reflexão crítica e validação externa das propostas desenvolvidas, cria-se ambiente propício à consolidação de competências alinhadas ao futuro da prática contábil.
3. METODOLOGIA
3.1. Abordagem Epistemológica e Delineamento da Pesquisa
Este estudo adota abordagem qualitativa de natureza exploratória e descritiva, adequada quando o objetivo é compreender fenômenos complexos inseridos em contextos sociais específicos e interpretar significados atribuídos pelos participantes (Creswell & Creswell, 2018). A opção pela abordagem qualitativa justifica-se pela necessidade de analisar o desenvolvimento de competências profissionais em situação real de aprendizagem, considerando sua dimensão contextual, processual e interpretativa.
Do ponto de vista epistemológico, a pesquisa insere-se em perspectiva interpretativista, na medida em que busca compreender como a experiência extensionista contribui para a construção de competências profissionais, a partir da interação entre estudantes e organizações. Nessa perspectiva, a realidade é compreendida como socialmente construída, sendo necessário analisá-la à luz das experiências vivenciadas e das evidências produzidas no campo empírico.
A estratégia metodológica adotada foi o estudo de casos múltiplos, conforme proposto por Yin (2015), apropriado quando se pretende investigar fenômenos contemporâneos em profundidade, dentro de seu contexto real, especialmente quando as fronteiras entre fenômeno e contexto não estão claramente definidas. A escolha por casos múltiplos, em vez de caso único, permite identificar padrões convergentes e fortalecer a validade analítica do estudo.
3.2. Unidade de Análise e Contexto da Pesquisa
A unidade de análise compreende as intervenções extensionistas desenvolvidas por estudantes do terceiro ano do curso de Ciências Contábeis de uma universidade pública estadual do Paraná, no âmbito de disciplina obrigatória estruturada como Ação Curricular de Extensão e Cultura (ACEC).
Participaram da experiência 52 estudantes, organizados em grupos de trabalho, que atuaram junto a nove organizações contábeis da região. As organizações foram selecionadas por adesão voluntária e apresentavam características típicas de escritórios de contabilidade de pequeno e médio porte, com desafios relacionados à gestão interna, transformação digital e posicionamento estratégico.
Cada organização foi tratada como unidade de caso, permitindo análise intra-caso e posterior comparação inter-casos, conforme recomenda Yin (2015).
3.3. Procedimentos de Coleta de Dados
A coleta de dados ocorreu ao longo do semestre letivo e envolveu múltiplas fontes de evidência, estratégia recomendada para estudos qualitativos com o objetivo de aumentar robustez analítica (Flick, 2009). As principais fontes foram:
Relatórios técnicos elaborados pelos estudantes, contendo diagnóstico organizacional, análise crítica e propostas de intervenção;
Registros institucionais da disciplina, incluindo orientações metodológicas e critérios de avaliação;
Feedback qualitativo dos gestores das organizações participantes, obtido ao final das apresentações das propostas.
A utilização de múltiplas fontes permitiu triangulação dos dados, reduzindo vieses associados à análise baseada em única perspectiva e aumentando a consistência interpretativa.
3.4. Procedimentos de Análise dos Dados
A análise foi conduzida por meio de análise de conteúdo temática, conforme Bardin (2011), seguindo três etapas principais:
Pré-análise: organização do corpus documental, leitura flutuante e definição das unidades de registro;
Exploração do material: codificação aberta das evidências textuais, identificação de categorias emergentes e agrupamento temático;
Tratamento e interpretação: articulação das categorias identificadas com o referencial teórico, permitindo análise interpretativa dos resultados.
As categorias analíticas emergiram tanto de forma indutiva (a partir dos dados empíricos) quanto dedutiva (a partir das dimensões teóricas de competências profissionais e aprendizagem experiencial). Essa combinação favoreceu maior profundidade analítica.
3.5. Critérios de Validade e Confiabilidade
Para assegurar rigor metodológico, foram observados critérios de qualidade recomendados para estudos de caso (Yin, 2015):
Validade construtiva: utilização de múltiplas fontes de evidência e estabelecimento de encadeamento lógico entre dados e conclusões;
Validade interna: busca por padrões convergentes entre os casos analisados;
Validade externa: utilização da lógica de replicação analítica, permitindo generalização teórica (e não estatística);
Confiabilidade: sistematização do processo de coleta e análise, possibilitando replicação lógica do procedimento.
A triangulação de dados, conforme Flick (2009), contribuiu adicionalmente para fortalecer a credibilidade dos achados.
3.6. Aspectos Éticos
Foram observados princípios éticos aplicáveis à pesquisa em ambiente educacional e organizacional. As organizações participantes aderiram voluntariamente à atividade extensionista e foram informadas sobre os objetivos acadêmicos da intervenção. Para preservar anonimato, as organizações foram identificadas por letras (Organização A - I), evitando qualquer possibilidade de identificação direta.
Os dados analisados restringem-se a registros institucionais e relatórios produzidos no âmbito da disciplina, respeitando a confidencialidade das informações organizacionais.
3.7. Síntese do Desenho Metodológico
A adoção de estudo de casos múltiplos, com triangulação de fontes e análise temática estruturada, permitiu examinar de forma aprofundada como a experiência extensionista contribuiu para o desenvolvimento de competências profissionais. O delineamento metodológico adotado busca equilibrar rigor acadêmico e aderência ao contexto formativo real, fortalecendo a consistência interpretativa dos resultados apresentados na seção seguinte.
Para assegurar maior rigor analítico, adotou-se procedimento sistemático de categorização temática conforme orientações de Bardin (2011). Inicialmente, realizou-se leitura flutuante dos relatórios discentes e dos feedbacks organizacionais, seguida de codificação aberta das unidades de sentido relacionadas ao desenvolvimento de competências. Posteriormente, as categorias emergentes foram agrupadas em dimensões analíticas previamente definidas a partir do referencial teórico.
Com o objetivo de aumentar a confiabilidade interpretativa, procedeu-se à triangulação de fontes, confrontando evidências provenientes dos relatórios acadêmicos com os registros institucionais e as manifestações qualitativas dos gestores das organizações participantes. Esse procedimento permitiu validar externamente as evidências formativas identificadas.
Ainda que a pesquisa não tenha adotado dupla codificação formal, buscou-se garantir consistência analítica por meio de revisões iterativas do processo de categorização e confronto constante entre dados empíricos e constructos teóricos, conforme recomendado na literatura qualitativa contemporânea.
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS
4.1. Desafios Organizacionais Identificados nos Casos
Foram analisadas intervenções desenvolvidas em nove organizações contábeis da região, identificadas como Organização A a Organização I.
Os diagnósticos realizados evidenciaram padrões recorrentes de desafios: falhas de gestão interna; baixa maturidade digital; ineficiências operacionais; e dificuldades estratégicas relacionadas à precificação e posicionamento.
A recorrência desses desafios entre organizações distintas é sintetizada na Tabela 1, que apresenta o perfil dos casos analisados e o foco das intervenções realizadas.
Tabela 1. Perfil dos Escritórios Atendidos e Foco das Intervenções
Escritório / Município | Principais Problemas Identificados | Foco da Intervenção Desenvolvida | Tipo de Inovação |
Organização A | Centralização de informações, falhas de comunicação e retrabalho. | Estruturação de canais formais de comunicação e documentação de processos. | Inovação em processos |
Organização B | Dificuldade de demonstrar valor dos serviços ao cliente. | Relatórios gerenciais e estratégias de educação do cliente. | Inovação em serviços |
Organização C | Retrabalho e uso limitado de ferramentas tecnológicas. | Uso de dashboards e melhoria da comunicação estratégica. | Transformação digital |
Organização D | Processos não padronizados e dependência da liderança. | Organização processual e preparação para automação. | Inovação organizacional |
Organização E | Falta de planejamento e gestão do tempo. | Definição de responsabilidades e controle de demandas. | Inovação gerencial |
Organização F | Ausência de planejamento estratégico e precificação estruturada. | Programa de gestão integrada e revisão de processos. | Inovação estratégica |
Organização G | Baixa visibilidade digital e captação de clientes. | Planejamento de presença digital e conteúdo estratégico. | Inovação de mercado |
Organização H | Necessidade de valorização e retenção de colaboradores. | Programa de capacitação e reconhecimento profissional. | Inovação em gestão de pessoas |
Organização I | Baixa conversão de presença digital em novos clientes. | Estratégia de marketing e geração de leads. | Inovação de mercado |
Fonte: Elaborada pelos autores, 2026.
A tabela apresenta a caracterização dos escritórios participantes da ação extensionista, bem como os principais focos das intervenções desenvolvidas pelos estudantes no contexto organizacional.
Esses achados sugerem que os estudantes enfrentaram dinâmicas estruturais comuns ao modelo tradicional de prestação de serviços contábeis.
As soluções propostas pelos grupos foram classificadas em quatro categorias:
Inovação em processos internos
Transformação digital e automação
Posicionamento estratégico e relacionamento com clientes
Gestão de pessoas e desenvolvimento organizacional
Observou-se que as intervenções extrapolaram o escopo técnico-operacional, abrangendo dimensões estratégicas e organizacionais.
À luz da aprendizagem experiencial, verifica-se que a imersão nas organizações representou a experiência concreta; a análise diagnóstica promoveu reflexão; a construção de propostas representou conceitualização; e a validação com gestores configurou experimentação ativa.
4.2. Desenvolvimento de Competências Profissionais
A análise qualitativa evidenciou o desenvolvimento de competências em três dimensões principais:
Competências cognitivas: pensamento crítico, diagnóstico organizacional, capacidade analítica.
Competências interpessoais: comunicação profissional, escuta ativa, negociação.
Competências estratégicas: visão sistêmica, formulação de soluções inovadoras, orientação consultiva.
Essas competências estão alinhadas às diretrizes internacionais de formação contábil, reforçando a importância de abordagens ativas no ensino superior.
4.3. Implicações Formativas: Desenvolvimento de Competências Profissionais
As percepções dos empresários participantes corroboram os efeitos formativos observados, conforme sintetizado na Tabela 2.
As evidências qualitativas reforçam que a aprendizagem ocorreu em ambiente de validação profissional real.
Tabela 2. Evidências Qualitativas de Impacto Percebido (Voz do Campo)
Tipo de Impacto Percebido | Síntese do Depoimento dos Empresários | Interpretação para a Formação em Contabilidade |
Clareza Diagnóstica | Os gestores relataram que o trabalho permitiu visualizar problemas organizacionais com maior objetividade. | Fortalece a competência analítica dos estudantes na identificação de problemas reais. |
Aplicabilidade das Soluções | As propostas apresentadas foram consideradas viáveis e passíveis de implementação gradual. | Demonstra aprendizagem orientada à prática profissional e à tomada de decisão. |
Valorização do Serviço Contábil | As intervenções contribuíram para evidenciar o valor estratégico da contabilidade junto aos clientes. | Amplia a visão do estudante para atuação consultiva e não apenas operacional. |
Inovação Organizacional | Os empresários destacaram que as ideias trouxeram novas perspectivas de gestão e inovação. | Estimula pensamento empreendedor e capacidade de proposição de melhorias. |
Integração Universidade–Empresa | A parceria foi percebida como positiva para troca de conhecimentos e desenvolvimento regional. | Reforça o papel social da formação contábil e da extensão universitária. |
Desenvolvimento Profissional dos Estudantes | Os participantes reconheceram o preparo, organização e comprometimento dos alunos durante o projeto. | Evidencia formação baseada em competências profissionais reais. |
Fonte: Elaborada pelos autores, 2026.
A tabela sintetiza as percepções dos empresários participantes acerca das contribuições das atividades desenvolvidas pelos estudantes, evidenciando impactos cognitivos, práticos e relacionais decorrentes da interação universidade–empresa.
Um dos achados mais relevantes foi a validação externa das propostas. Os gestores relataram maior clareza diagnóstica, aplicabilidade prática das soluções e intenção de implementá-las.
Diferentemente de pesquisas centradas apenas na percepção discente, este estudo apresenta evidências de utilidade organizacional validadas pelos gestores participantes.
O desenvolvimento de competências interpessoais, como comunicação profissional e negociação, emerge como um dos achados mais relevantes. A interação com gestores reais exigiu postura profissional, escuta ativa e adaptação de linguagem técnica para contexto organizacional.
Esses resultados reforçam a literatura que aponta lacuna histórica na formação contábil quanto às soft skills (Arquero & Tejero, 2011). A experiência extensionista funcionou como ambiente de treinamento relacional, favorecendo consolidação de identidade profissional.
Os resultados indicam que a exposição dos estudantes a problemas reais de gestão, digitalização e posicionamento estratégico favoreceu a construção de competências alinhadas às transformações contemporâneas da profissão contábil. Ao lidar com demandas relacionadas à organização de processos, melhoria da comunicação com clientes e proposição de soluções estratégicas, os estudantes atuaram além do escopo tradicional operacional.
Sob a perspectiva da transformação digital, observa-se que a experiência permitiu compreensão prática da necessidade de integração tecnológica e otimização de processos, competências consideradas essenciais na literatura recente (Richins et al., 2017). Ainda que as intervenções não tenham envolvido tecnologias avançadas, o exercício de diagnóstico organizacional já representa etapa fundamental de maturidade digital.
Adicionalmente, a interação com gestores revelou que lacunas estratégicas frequentemente coexistem com limitações estruturais, evidenciando a importância do contador como agente de organização informacional e melhoria de governança. Tal constatação reforça a necessidade de formação orientada ao pensamento sistêmico e à geração de valor, e não apenas à conformidade normativa.
Os achados desta pesquisa não apenas evidenciam o desenvolvimento de competências técnicas e comportamentais, mas também confirmam pressupostos centrais da aprendizagem experiencial. Conforme proposto por Kolb (1984), a aprendizagem ocorre pela transformação reflexiva da experiência. Observou-se que a imersão dos estudantes em contextos organizacionais reais desencadeou processos de problematização e reconstrução do conhecimento, superando a mera aplicação mecânica de conteúdos previamente assimilados.
Os resultados também dialogam com a noção de aprendizagem situada (Billett, 2011), ao demonstrar que o desenvolvimento de competências ocorreu no contexto concreto de práticas organizacionais específicas. As soluções propostas pelos grupos variaram conforme as contingências institucionais, indicando mobilização contextualizada do conhecimento, elemento central nos modelos contemporâneos de formação profissional.
No âmbito da educação empreendedora, os dados corroboram a perspectiva de Neck e Greene (2011), segundo a qual o empreendedorismo pode ser ensinado como prática baseada em ação e experimentação. A postura consultiva assumida pelos estudantes, ao diagnosticar processos e propor melhorias organizacionais, evidencia internalização de mentalidade orientada à geração de valor.
Adicionalmente, os achados ampliam a literatura ao sugerir que a curricularização da extensão pode funcionar como ambiente estruturado de desenvolvimento de competências estratégicas no campo contábil, contribuindo para transição do perfil técnico-operacional para perfil analítico-consultivo, em consonância com as demandas associadas à transformação digital e à ampliação das exigências de sustentabilidade organizacional.
Em síntese, os resultados indicam que a curricularização da extensão, quando estruturada de forma intencional e metodologicamente orientada, pode operar como dispositivo formativo de transição paradigmática na educação contábil. Mais do que aproximar universidade e sociedade, a experiência analisada demonstrou capacidade de reconfigurar o papel do estudante, deslocando-o da posição de receptor de conteúdos para agente ativo de diagnóstico, proposição e geração de valor organizacional.
Essa dinâmica evidencia que a extensão curricularizada não se limita a um complemento formativo, mas assume função estruturante no desenvolvimento de competências estratégicas, especialmente aquelas relacionadas à atuação consultiva, à análise crítica e à tomada de decisão em contextos reais e incertos. Tal constatação reforça a compreensão de que a formação contábil contemporânea demanda experiências autênticas de aprendizagem que articulem teoria, prática e reflexão crítica.
Desse modo, os achados sugerem que a integração entre aprendizagem experiencial, educação empreendedora e formação por competências pode constituir eixo estruturante para redefinição do perfil do egresso em Ciências Contábeis, alinhando-o às transformações tecnológicas, regulatórias e organizacionais que caracterizam o cenário atual da profissão.
Em conjunto, os resultados indicam que a curricularização analisada operou menos como atividade complementar e mais como ambiente estruturado de aprendizagem profissional, no qual o estudante experimenta, reflete e valida sua atuação em condições análogas às do exercício da profissão.
4.4. Proposição de Um Modelo Formativo
Com base nos achados, propõe-se o seguinte modelo formativo:
Modelo de Formação do Contador Empreendedor por Extensão Aplicada
Fundamentação teórica
Imersão organizacional
Cocriação de soluções
Validação com o mercado
Reflexão crítica
Esse ciclo integra teoria, prática e identidade profissional, contribuindo para a formação de contadores com perfil empreendedor.
A identificação de falhas estruturais nas organizações atendidas — especialmente relacionadas à gestão interna e à maturidade digital — revelou que os estudantes foram expostos a problemas complexos e não estruturados. Sob a perspectiva de Schön (1983), tais situações configuram contextos típicos de “zonas indeterminadas da prática”, nas quais soluções padronizadas não são suficientes.
A mobilização de competências cognitivas, como diagnóstico organizacional e análise crítica, evidencia processo de reflexão-na-ação, elemento central da aprendizagem experiencial. Ao propor soluções estratégicas, os estudantes ultrapassaram o escopo operacional tradicional, aproximando-se do perfil consultivo defendido por Marion (2018) e Nossa (2021).
A proposição de soluções relacionadas à transformação digital e posicionamento estratégico demonstra que os estudantes foram capazes de operar em nível analítico superior ao meramente operacional. Tal evidência aproxima-se das diretrizes da IFAC (2019), que destacam pensamento crítico e julgamento profissional como competências essenciais.
Além disso, a validação externa das propostas reforça que a aprendizagem gerou impacto organizacional tangível, ampliando o debate sobre mensuração de resultados na educação contábil.
5. CONCLUSÃO
Os resultados deste estudo evidenciam que a curricularização da extensão, quando estruturada de forma intencional e articulada a metodologias ativas, contribui de maneira significativa para o desenvolvimento de competências profissionais na formação em Ciências Contábeis. A experiência analisada demonstrou que a imersão em contextos organizacionais reais favorece a mobilização integrada de conhecimentos técnicos, habilidades interpessoais e competências estratégicas, superando abordagens tradicionais centradas exclusivamente na transmissão normativa.
A validação das propostas pelos gestores participantes constitui um dos principais achados da pesquisa, pois indica que a aprendizagem extrapolou o plano acadêmico, gerando utilidade percebida pelas organizações atendidas. Essa evidência externa amplia o debate sobre avaliação de práticas extensionistas na educação contábil, sugerindo que indicadores de impacto organizacional podem complementar métricas tradicionais baseadas apenas na percepção discente.
Do ponto de vista teórico, o estudo contribui ao articular três vertentes conceituais frequentemente analisadas de forma isolada: a aprendizagem experiencial (Kolb, 1984), a reflexão profissional (Schön, 1983) e a educação dialógica (Freire, 1996). Ao integrá-las em um modelo aplicado à formação contábil, a pesquisa oferece uma proposta conceitual estruturada — o Modelo de Formação do Contador Empreendedor por Extensão Aplicada — que explicita etapas formativas e mecanismos de desenvolvimento de competências. Tal integração amplia a literatura sobre educação contábil ao propor uma estrutura analítica que conecta teoria pedagógica, prática extensionista e demandas profissionais contemporâneas.
Metodologicamente, a adoção de estudo de casos múltiplos com triangulação de fontes fortalece a validade analítica dos achados e demonstra a viabilidade de investigar impactos formativos em contextos extensionistas reais.
Sob a perspectiva prática e institucional, os resultados reforçam a curricularização da extensão como política pública educacional com potencial formativo tangível, desde que implementada com planejamento pedagógico estruturado, critérios claros de avaliação e alinhamento às competências profissionais exigidas por organismos internacionais. A aproximação sistemática entre universidade e organizações contribui não apenas para a formação discente, mas também para o fortalecimento do papel social da universidade pública.
Do ponto de vista teórico, o estudo contribui ao integrar aprendizagem experiencial, educação empreendedora e formação por competências no contexto específico da educação contábil, oferecendo evidências empíricas que sustentam a extensão curricularizada como dispositivo estruturado de desenvolvimento profissional. A proposição do modelo formativo apresentado amplia o debate ao sistematizar etapas replicáveis para implementação institucional.
Os resultados sugerem que a curricularização da extensão pode contribuir para alinhamento entre formação acadêmica e transformações estruturais da profissão contábil, especialmente no que se refere à digitalização, à ampliação de demandas por governança e à necessidade de atuação consultiva.
Como limitações, destacam-se a natureza qualitativa da pesquisa, o recorte regional da amostra e o período restrito de observação. Pesquisas futuras podem adotar métodos mistos, ampliar o número de instituições investigadas e acompanhar longitudinalmente os egressos para avaliar efeitos de longo prazo sobre inserção profissional e desempenho organizacional.
Pesquisas futuras podem avançar em diferentes direções: (i) adoção de métodos quantitativos ou mistos para mensurar impacto em desempenho acadêmico e inserção profissional; (ii) estudos longitudinais que acompanhem egressos ao longo de sua trajetória; (iii) análises comparativas entre instituições públicas e privadas; e (iv) investigações que explorem a integração entre extensão curricularizada e tecnologias digitais aplicadas à contabilidade, especialmente no contexto de transformação digital e sustentabilidade organizacional.
Em síntese, os resultados demonstram que a curricularização da extensão pode constituir-se em um dispositivo pedagógico estruturante para a formação em Ciências Contábeis, ao integrar aprendizagem experiencial, resolução de problemas reais e validação profissional em contextos organizacionais concretos. Ao evidenciar empiricamente a articulação entre desenvolvimento de competências, prática reflexiva e demandas contemporâneas da profissão, o estudo contribui para o avanço das discussões sobre inovação curricular na educação contábil e oferece um referencial analítico e operacional passível de replicação em diferentes contextos institucionais, fortalecendo a aproximação entre formação acadêmica e transformação do exercício profissional.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Adams, C. A. (2017). The sustainable development goals, integrated thinking and the integrated report. Accounting, Auditing & Accountability Journal, 30(7), 1652–1673. https://doi.org/10.1108/AAAJ-05-2017-2921
Albrecht, W. S., & Sack, R. J. (2000). Accounting education: Charting the course through a perilous future. American Accounting Association.
Arquero, J. L., & Tejero, C. (2011). Student effort and learning outcomes in the first year of university accounting. Accounting Education, 20(4), 353–371. https://doi.org/10.1080/09639284.2011.598789
Billett, S. (2011). Vocational education: Purposes, traditions and prospects. Springer.
Fleming, J., & Haigh, N. (2017). Examining and challenging the intentions of work-integrated learning. Higher Education Research & Development, 36(2), 397–409. https://doi.org/10.1080/07294360.2016.1228418
Freire, P. (1996). Pedagogia da autonomia: Saberes necessários à prática educativa. Paz e Terra.
Gray, R. (2010). Is accounting for sustainability actually accounting for sustainability… and how would we know? Accounting, Organizations and Society, 35(1), 47–62. https://doi.org/10.1016/j.aos.2009.04.006
Guthrie, J., & Parker, L. D. (2016). Whither the accounting profession, accountants and accounting researchers? Accounting, Auditing & Accountability Journal, 29(1), 2–10. https://doi.org/10.1108/AAAJ-10-2015-2263
IFAC – International Federation of Accountants. (2019). Handbook of international education pronouncements. IFAC.
Jackson, D. (2018). Developing graduate career readiness in Australia: Shifting from extra-curricular internships to work-integrated learning. Higher Education Research & Development, 37(3), 615–629. https://doi.org/10.1080/07294360.2018.1453296
Kokina, J., & Davenport, T. H. (2017). The emergence of artificial intelligence: How automation is changing auditing. Journal of Emerging Technologies in Accounting, 14(1), 115–122. https://doi.org/10.2308/jeta-51730
Kolb, D. A. (1984). Experiential learning: Experience as the source of learning and development. Prentice Hall.
Le Boterf, G. (2003). Desenvolvendo a competência dos profissionais. Artmed.
Marion, J. C. (2018). Contabilidade empresarial (18ª ed.). Atlas.
Nossa, V. (2021). Educação contábil e desenvolvimento de competências profissionais: Avanços e desafios. Revista de Educação e Pesquisa em Contabilidade, 15(3), 1–15.
Richins, G., Stapleton, A., Stratopoulos, T. C., & Wong, C. (2017). Big data analytics: Opportunity or threat for the accounting profession? Journal of Information Systems, 31(3), 63–79. https://doi.org/10.2308/isys-51805
Schön, D. A. (1983). The reflective practitioner: How professionals think in action. Basic Books.
Susskind, R., & Susskind, D. (2015). The future of the professions: How technology will transform the work of human experts. Oxford University Press.
1 Docente do Curso Superior de Ciências Contábeis da Universidade Estadual do Paraná Campus Apucarana. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Docente do Curso Superior de Ciências Contábeis da Universidade Estadual do Norte do Paraná Campus Cornélio Procópio. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
3 Docente do Curso Superior de Ciências da Computação da Universidade Estadual do Note do Paraná Campus Apucarana. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
4 Docente no Centro de Integração Empresa Escola Santa Catarina - Superintendência. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
5 Docente do Curso Superior de Administração da Universidade Federal de Santa Catarina. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
6 Docente do Curso Superior de Ciências Contábeis da Universidade Estadual do Note do Paraná Campus Apucarana. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
7 Docente do Curso Superior de Ciências Contábeis da Universidade Estadual do Note do Paraná Campus Apucarana. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail