APRENDIZAGEM DE LÍNGUA INGLESA E TECNOLOGIAS DIGITAIS
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REGISTRO DOI: 10.5281/zenodo.18735859
Maria de Fátima dos Santos Martineli1
RESUMO
A integração de tecnologias digitais no ensino e aprendizagem da língua inglesa tem redefinido práticas pedagógicas, ampliado possibilidades de exposição linguística e transformado dinâmicas de interação comunicativa. Este estudo analisa criticamente a relação entre aprendizagem de língua inglesa e uso de tecnologias digitais, considerando fundamentos teóricos da aquisição de segunda língua, perspectivas socioculturais e contribuições da linguística aplicada contemporânea. Parte-se do pressuposto de que ambientes digitais potencializam input autêntico, interação síncrona e assíncrona e autonomia discente, mas também impõem desafios relacionados à superficialidade comunicativa, dispersão atencional e desigualdades de acesso. Problematiza-se, portanto, em que medida as tecnologias digitais favorecem desenvolvimento das quatro habilidades linguísticas — leitura, escrita, compreensão oral e produção oral — e como sua integração pode promover aprendizagem significativa e comunicativa. O objetivo geral consiste em examinar fundamentos teóricos da aprendizagem de língua inglesa mediada por tecnologias digitais, identificando contribuições e limitações pedagógicas. Conclui-se que o uso eficaz das tecnologias depende de planejamento didático estruturado, alinhamento a princípios da aquisição linguística e mediação docente qualificada. As tecnologias ampliam oportunidades de exposição e prática, mas não substituem interação significativa nem feedback pedagógico intencional.
Palavras-chave: Aprendizagem de língua inglesa; Tecnologias digitais; Aquisição de segunda língua; Linguística aplicada; Ensino híbrido.
ABSTRACT
The integration of digital technologies into the teaching and learning of English has reshaped pedagogical practices, expanded opportunities for language exposure, and transformed dynamics of communicative interaction. This study critically examines the relationship between English language learning and the use of digital technologies, drawing on theoretical foundations from second language acquisition, sociocultural perspectives, and contributions from contemporary applied linguistics. It assumes that digital environments can enhance authentic input, synchronous and asynchronous interaction, and learner autonomy, while also posing challenges related to superficial communication, attentional distraction, and inequalities in access. The discussion therefore problematizes the extent to which digital technologies support the development of the four language skills—reading, writing, listening comprehension, and speaking—and how their integration can foster meaningful, communicative learning. The general objective is to examine theoretical foundations of English language learning mediated by digital technologies, identifying pedagogical contributions and limitations. It concludes that effective technology use depends on structured instructional planning, alignment with principles of language acquisition, and qualified teacher mediation. Technologies expand opportunities for exposure and practice, but they do not replace meaningful interaction or intentional pedagogical feedback.
Keywords: English language learning; Digital technologies; Second language acquisition; Applied linguistics; Blended learning.
1. INTRODUÇÃO
A aprendizagem de língua inglesa no contexto contemporâneo está intrinsecamente associada às transformações tecnológicas que permeiam a comunicação global. A expansão da internet, das redes sociais, das plataformas educacionais e dos aplicativos móveis redefiniu formas de contato com a língua-alvo, ampliando oportunidades de exposição ao input autêntico e interação intercultural. Nesse cenário, as tecnologias digitais deixaram de ser recursos complementares para assumir papel central no processo de ensino e aprendizagem.
Além disso, a aprendizagem de língua inglesa no século XXI deve ser compreendida no contexto da globalização e da consolidação do inglês como língua franca internacional. O domínio do idioma ultrapassa objetivos instrumentais, assumindo papel estratégico na participação em redes acadêmicas, profissionais e culturais. Assim, a presença de tecnologias digitais não apenas amplia recursos didáticos, mas redefine a própria função social da língua inglesa, vinculando-a a práticas de mobilidade, cidadania e acesso ao conhecimento global (BYRAM, 1997; KERN, 2006).
Historicamente, o ensino de línguas estrangeiras percorreu diferentes abordagens metodológicas — do método gramática-tradução às perspectivas comunicativas e interculturais. A incorporação de tecnologias digitais adiciona nova dimensão a esse percurso, ao possibilitar ambientes multimodais, interativos e colaborativos. Entretanto, a simples presença de ferramentas digitais não garante aprendizagem eficaz; é necessário compreender como essas tecnologias dialogam com princípios da aquisição de segunda língua.
Nesse cenário, emerge o campo do Computer-Assisted Language Learning (CALL), que investiga como recursos computacionais podem apoiar processos linguísticos e pedagógicos. Desde os primeiros estudos, autores apontam que a tecnologia não deve ser tratada como solução automática, mas como ambiente mediador que precisa ser articulado a objetivos comunicativos, cognitivos e culturais. Dessa forma, a discussão desloca-se do “uso de ferramentas” para a compreensão de como práticas digitais podem promover desenvolvimento linguístico significativo (WARSCHAUER, 1996; CHAPELLE, 2001; LEVY, 1997).
A aquisição linguística envolve exposição compreensível ao input, prática significativa, interação e feedback corretivo. Ambientes digitais podem ampliar quantidade e diversidade de input disponível, por meio de vídeos, podcasts, textos autênticos e interações online. Contudo, a qualidade desse input e sua integração pedagógica constituem variáveis decisivas. A aprendizagem não decorre da exposição passiva, mas da interação estruturada com o conteúdo linguístico.
A literatura em aquisição de segunda língua também enfatiza que o processamento linguístico depende de atenção consciente a aspectos formais da língua. Schmidt (1990), ao propor a hipótese do noticing, argumenta que o aprendiz precisa perceber elementos linguísticos no input para que estes sejam incorporados ao sistema interlinguístico. Assim, ambientes digitais podem favorecer aprendizagem quando estruturam tarefas que direcionem a atenção para formas linguísticas relevantes, evitando consumo disperso de conteúdos (SCHMIDT, 1990; ELLIS, 2008).
A problemática que orienta esta investigação reside na seguinte questão: de que modo as tecnologias digitais contribuem para o desenvolvimento das habilidades linguísticas em língua inglesa e quais são seus limites pedagógicos? Essa indagação exige articulação entre teorias da aquisição de segunda língua e estudos sobre mediação tecnológica no ensino.
A perspectiva comunicativa destaca que aprendizagem ocorre quando o estudante utiliza a língua para fins reais de comunicação. Plataformas digitais oferecem oportunidades de interação síncrona e assíncrona com falantes de diferentes contextos culturais, ampliando dimensão pragmática da aprendizagem. Entretanto, a mediação docente permanece essencial para orientar uso adequado e promover reflexão metalinguística.
Outro ponto decisivo refere-se ao feedback corretivo, considerado variável central na aprendizagem de línguas. Estudos demonstram que ambientes digitais podem oferecer feedback imediato por meio de sistemas automatizados ou mediação docente em plataformas colaborativas. Entretanto, a efetividade do feedback depende de sua qualidade pedagógica e de sua integração com tarefas comunicativas autênticas, evitando correções mecânicas descontextualizadas (LONG, 1996; SWAIN, 1995).
Outro aspecto relevante refere-se à autonomia do aprendiz. Tecnologias digitais possibilitam aprendizagem autodirigida, acesso a recursos variados e monitoramento do próprio desempenho. Contudo, autonomia não se desenvolve automaticamente; requer orientação e estratégias metacognitivas. A ausência de planejamento pode resultar em consumo superficial de conteúdo linguístico.
A multimodalidade constitui característica marcante dos ambientes digitais. A combinação de texto, áudio e imagem pode favorecer compreensão e retenção, especialmente quando alinhada a princípios cognitivos. Entretanto, excesso de estímulos pode gerar sobrecarga e dispersão atencional. Assim, o design pedagógico digital deve equilibrar riqueza multimodal e clareza instrucional.
Adicionalmente, o conceito de letramentos digitais amplia a compreensão do que significa aprender inglês em ambientes contemporâneos. Ler e escrever online envolve práticas multimodais, hipertextuais e participativas, nas quais o aprendiz interage com múltiplas linguagens e gêneros discursivos. Dessa forma, aprender inglês digitalmente implica também desenvolver competências discursivas e críticas para atuar em ecossistemas comunicativos complexos (KERN, 2006; GEE, 2003).
Além disso, a aprendizagem de língua inglesa mediada por tecnologia envolve dimensões socioculturais. A língua é prática social situada; interações online possibilitam contato com diferentes variedades linguísticas e culturais. Essa diversidade amplia competência intercultural, mas também exige mediação crítica para evitar reprodução de estereótipos ou consumo acrítico de conteúdos.
No contexto escolar e universitário, políticas educacionais têm incentivado integração de tecnologias ao currículo de línguas. Contudo, persistem desafios relacionados à formação docente, infraestrutura e avaliação. A eficácia das tecnologias depende da capacidade do professor de selecionar recursos adequados e integrá-los a objetivos linguísticos claros.
Diante desse panorama, o objetivo geral deste estudo consiste em analisar criticamente a aprendizagem de língua inglesa mediada por tecnologias digitais, examinando fundamentos teóricos e implicações pedagógicas. Especificamente, busca-se: (1) discutir teorias da aquisição de segunda língua aplicáveis ao contexto digital; (2) examinar impacto das tecnologias no desenvolvimento das habilidades linguísticas; (3) analisar papel da interação online na construção de competência comunicativa; e (4) identificar desafios formativos e metodológicos.
Parte-se da premissa de que tecnologias digitais ampliam oportunidades de aprendizagem, mas sua eficácia depende de intencionalidade pedagógica fundamentada. A integração crítica entre linguística aplicada e inovação tecnológica constitui condição estratégica para promover aprendizagem significativa de língua inglesa em contextos educacionais contemporâneos.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
A aprendizagem de língua inglesa mediada por tecnologias digitais deve ser compreendida à luz das teorias da aquisição de segunda língua (ASL) e das contribuições da linguística aplicada contemporânea. Krashen (1985) propõe a hipótese do input compreensível, segundo a qual o aprendiz desenvolve competência linguística quando exposto a linguagem ligeiramente acima de seu nível atual (i+1). Ambientes digitais ampliam oferta de input autêntico, permitindo acesso a vídeos, podcasts e textos de diferentes gêneros. Entretanto, a eficácia desse input depende de mediação que assegure compreensibilidade e relevância.
Entretanto, autores como Gass (1997) argumentam que o input, embora necessário, não é suficiente por si só. Para que ocorra aquisição, o aprendiz precisa processar linguisticamente o material recebido, relacionando-o a hipóteses internas sobre funcionamento da língua. Assim, tecnologias digitais ampliam oportunidades de exposição, mas seu impacto depende de tarefas que promovam processamento ativo, atenção e construção de significado (GASS, 1997; SCHMIDT, 1990).
Long (1996) enfatiza a importância da interação para aquisição linguística, argumentando que negociação de significado favorece desenvolvimento da competência. Plataformas digitais que promovem comunicação síncrona — como videoconferências e chats — podem criar oportunidades de interação real. Contudo, interação superficial ou baseada apenas em respostas automatizadas limita construção de significado.
No contexto digital, a interação assume formas específicas, mediadas por ferramentas síncronas e assíncronas. Thorne (2008) destaca que interações online produzem novos gêneros comunicativos e novas formas de participação social, configurando ambientes de socialização linguística. Dessa maneira, o ensino digital deve considerar não apenas estruturas linguísticas, mas também práticas discursivas emergentes nas comunidades virtuais.
Swain (1995) introduz a hipótese do output, defendendo que produção linguística força o aprendiz a processar a língua de maneira mais profunda. Ferramentas digitais que incentivam produção oral e escrita — como fóruns, blogs e gravações de áudio — podem estimular reflexão metalinguística. A ausência de feedback corretivo, entretanto, reduz potencial formativo dessas atividades.
A produção linguística em ambientes digitais também se articula ao conceito de aprendizagem colaborativa, uma vez que ferramentas como wikis, fóruns e plataformas compartilhadas estimulam coautoria e negociação textual. Chapelle (2001) argumenta que tais práticas favorecem desenvolvimento de fluência e precisão, desde que acompanhadas de objetivos linguísticos claros e feedback orientador.
Vygotsky (2007), na perspectiva sociocultural, argumenta que aprendizagem ocorre na interação mediada. Tecnologias digitais podem ampliar zona de desenvolvimento proximal ao conectar aprendizes a comunidades globais. Lantolf (2000) reforça que mediação cultural e social é fundamental para aquisição linguística significativa.
Chapelle (2001) destaca que o uso de tecnologia no ensino de línguas deve ser avaliado segundo critérios de adequação pedagógica, autenticidade e interatividade. O simples uso de aplicativos não garante aprendizagem; é necessário alinhamento a objetivos linguísticos claros. Warschauer (1996) já indicava que integração tecnológica deve considerar contexto sociocultural e competências digitais do aprendiz.
Kern (2006) argumenta que letramento digital constitui dimensão central da aprendizagem contemporânea. A leitura e produção textual em ambientes online envolvem competências multimodais que extrapolam gramática tradicional. Gee (2003) acrescenta que jogos digitais podem criar comunidades de prática que favorecem desenvolvimento linguístico por meio de engajamento significativo.
Godwin-Jones (2018) observa que, mais recentemente, dispositivos móveis e redes sociais ampliaram o escopo do CALL, configurando o Mobile-Assisted Language Learning (MALL). Essas abordagens reforçam que a aprendizagem pode ocorrer em qualquer tempo e espaço, mas também levantam desafios quanto à dispersão, superficialidade e desigualdade de acesso. Assim, a inovação tecnológica deve ser acompanhada de reflexão crítica sobre seus efeitos pedagógicos e sociais.
Ellis (2008) ressalta que aprendizagem de segunda língua envolve tanto processos implícitos quanto explícitos. Tecnologias digitais podem favorecer ambos, desde que integrem exposição natural e reflexão estruturada. Dörnyei (2005) enfatiza papel da motivação; ambientes digitais interativos podem fortalecer engajamento quando promovem desafio e relevância.
Hymes (1972) introduz conceito de competência comunicativa, que vai além da competência gramatical. Interações online ampliam dimensão pragmática da aprendizagem, permitindo contato com diferentes registros e contextos culturais. Byram (1997) complementa ao discutir competência intercultural, aspecto relevante na comunicação global mediada por tecnologia.
Mayer (2020), ao tratar da aprendizagem multimídia, demonstra que integração coerente entre texto e imagem favorece retenção. No ensino de língua inglesa, recursos audiovisuais podem ampliar compreensão fonológica e pragmática, desde que organizados segundo princípios cognitivos.
Siemens (2005), ao propor o conectivismo, argumenta que aprendizagem em rede depende da capacidade de estabelecer conexões entre fontes diversas. Para aprendizes de língua inglesa, ambientes digitais permitem contato contínuo com a língua, ampliando exposição além da sala de aula.
Oxford (2011) destaca importância das estratégias de aprendizagem autorreguladas. Tecnologias digitais podem apoiar monitoramento do progresso, mas requerem orientação metacognitiva. Sem estratégias adequadas, abundância de recursos pode gerar dispersão.
Harmer (2007) observa que o papel do professor no ensino de línguas permanece central, mesmo em ambientes tecnológicos. A mediação docente orienta uso crítico dos recursos digitais e garante alinhamento entre atividade e objetivo linguístico.
Assim, o referencial teórico evidencia que tecnologias digitais oferecem potencial significativo para ampliar input, interação e produção linguística. Contudo, convergência entre autores indica que eficácia depende de planejamento pedagógico estruturado, feedback qualificado e integração às teorias da aquisição de segunda língua.
3. METODOLOGIA
A presente investigação caracteriza-se como pesquisa qualitativa, de natureza básica, desenvolvida por meio de revisão bibliográfica sistematizada com enfoque analítico-interpretativo. O delineamento adotado fundamenta-se na necessidade de examinar criticamente a relação entre aprendizagem de língua inglesa e tecnologias digitais à luz das teorias da aquisição de segunda língua e da linguística aplicada contemporânea.
A revisão foi conduzida com preocupação de sistematicidade, buscando assegurar transparência nos procedimentos de seleção e análise das fontes. Embora não se configure como revisão sistemática com protocolos quantitativos, adotou-se rastreabilidade metodológica por meio da explicitação de descritores, bases consultadas e critérios de exclusão, fortalecendo consistência interpretativa e validade acadêmica (GIL, 2019).
Conforme Gil (2019), pesquisas de natureza básica têm como objetivo aprofundar fundamentos teóricos e ampliar compreensão conceitual de fenômenos complexos. No presente estudo, buscou-se integrar referenciais da aquisição de segunda língua, estudos sobre letramentos digitais e investigações sobre ensino mediado por tecnologia, construindo uma análise articulada e fundamentada.
A abordagem é exploratório-descritiva, conforme classificação de Vergara (2016), uma vez que examina fenômeno contemporâneo — a aprendizagem de língua inglesa mediada por tecnologias digitais — sob múltiplas perspectivas teóricas, sistematizando conceitos e identificando convergências e divergências na literatura. Não houve coleta de dados empíricos; a análise concentrou-se em obras acadêmicas reconhecidas nacional e internacionalmente.
O procedimento metodológico envolveu levantamento de livros, artigos científicos e documentos acadêmicos publicados entre 2015 e 2023, período que contempla desde formulações clássicas da aquisição de segunda língua até discussões contemporâneas sobre tecnologia educacional. As bases consultadas incluíram Google Scholar, Portal de Periódicos CAPES, ERIC (Education Resources Information Center) e Scopus. Foram utilizados descritores como “second language acquisition and technology”, “digital tools in English language learning”, “computer-assisted language learning (CALL)” e “online interaction in EFL”.
Os critérios de inclusão contemplaram publicações com impacto acadêmico consolidado, autores reconhecidos no campo da linguística aplicada e estudos que articulassem tecnologia e aprendizagem linguística de maneira fundamentada. Excluíram-se textos opinativos, relatos de experiência sem embasamento teórico consistente e publicações não indexadas.
A técnica de análise adotada foi a análise temática, organizada em quatro eixos principais: (1) input e exposição linguística em ambientes digitais; (2) interação online e competência comunicativa; (3) produção linguística e feedback mediado por tecnologia; e (4) autonomia e estratégias metacognitivas no contexto digital. Cada eixo foi examinado à luz das teorias da aquisição de segunda língua e confrontado com estudos sobre tecnologia educacional.
A escolha da análise temática justifica-se por permitir identificação de padrões conceituais recorrentes e categorias interpretativas centrais na literatura. Dessa forma, o estudo organiza a discussão em torno de convergências e tensões entre teorias clássicas da aquisição linguística e desafios emergentes da mediação tecnológica (VERGARA, 2016).
O processo analítico ocorreu em três etapas: leitura exploratória para identificação das principais correntes teóricas; leitura analítica para aprofundamento conceitual e identificação de categorias; e síntese interpretativa, articulando fundamentos da linguística aplicada com implicações pedagógicas. Essa abordagem assegura coerência argumentativa e rigor teórico na construção da análise.
A metodologia adotada permite compreender de forma abrangente os impactos das tecnologias digitais na aprendizagem de língua inglesa, oferecendo subsídios para reflexão pedagógica fundamentada. Embora não inclua investigação empírica, a análise sistematizada da literatura proporciona base consistente para discussão crítica dos resultados.
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
A análise da literatura revela que as tecnologias digitais ampliam significativamente as oportunidades de exposição ao input linguístico autêntico, elemento central na aquisição de segunda língua. Krashen (1985) argumenta que o input compreensível constitui condição necessária para aquisição; ambientes digitais, ao disponibilizarem vídeos, podcasts e textos multimodais, ampliam acesso a diferentes registros e variedades do inglês. Contudo, os resultados indicam que quantidade de input não equivale automaticamente à qualidade da aprendizagem. A ausência de mediação pode transformar exposição em consumo passivo, sem processamento profundo.
Os resultados também indicam que a abundância de materiais digitais pode gerar uma ilusão de aprendizagem, na qual o aprendiz consome conteúdos em grande volume, mas sem atenção sistemática às formas linguísticas. Schmidt (1990) reforça que aquisição depende de percepção consciente de elementos relevantes, sugerindo que o professor precisa estruturar tarefas que transformem input em aprendizagem efetiva (SCHMIDT, 1990; ELLIS, 2008).
No eixo da interação, Long (1996) sustenta que negociação de significado durante a comunicação favorece desenvolvimento linguístico. Plataformas de videoconferência, fóruns e redes sociais oferecem oportunidades de interação síncrona e assíncrona. Estudos apontam que interações online podem reduzir ansiedade comunicativa e estimular participação de aprendizes mais introvertidos. Entretanto, interações baseadas em respostas automatizadas ou comentários superficiais não promovem negociação real de significado.
A produção linguística, conforme defendido por Swain (1995), desempenha papel crucial ao forçar o aprendiz a refletir sobre formas e estruturas. Ferramentas digitais como blogs, gravações de áudio e plataformas colaborativas incentivam produção escrita e oral. A análise indica que ambientes que oferecem feedback estruturado — seja automatizado, seja mediado pelo professor — potencializam aprendizagem. Em contrapartida, ausência de retorno qualitativo reduz impacto formativo das atividades.
A dimensão sociocultural também se destaca. Vygotsky (2007) argumenta que aprendizagem ocorre na interação mediada. Ambientes digitais possibilitam contato com falantes de diferentes contextos culturais, ampliando competência intercultural. Byram (1997) enfatiza que competência comunicativa inclui compreensão cultural; tecnologias podem favorecer essa dimensão quando integradas a projetos colaborativos internacionais.
No campo motivacional, Dörnyei (2005) destaca que o engajamento depende de metas claras e relevância percebida. Embora aplicativos gamificados possam estimular motivação inicial, a literatura indica que esse efeito tende a ser instável quando não há integração com objetivos comunicativos autênticos e progressão pedagógica estruturada. Assim, motivação sustentável requer desafios significativos, identidade linguística em construção e experiências reais de uso da língua (DÖRNYEI, 2005).
A multimodalidade constitui outro fator relevante. Mayer (2020) demonstra que integração coerente entre texto, áudio e imagem favorece retenção. Recursos audiovisuais no ensino de inglês ampliam compreensão fonológica e pragmática, especialmente quando acompanhados de atividades reflexivas.
Contudo, a análise também evidencia riscos. A dispersão atencional e o excesso de estímulos podem comprometer foco cognitivo. Oxford (2011) ressalta que autonomia requer estratégias metacognitivas; abundância de recursos digitais pode gerar desorientação sem orientação docente.
Outro desafio recorrente refere-se às desigualdades digitais. O acesso a tecnologias, conectividade e letramentos digitais não ocorre de maneira homogênea, o que pode ampliar disparidades educacionais. Assim, políticas de integração tecnológica precisam considerar infraestrutura, formação docente e inclusão, evitando reforço de assimetrias sociais no ensino de línguas (WARSCHAUER, 1996; KERN, 2006).
De modo geral, os resultados indicam convergência quanto ao potencial das tecnologias digitais para ampliar input, interação e produção linguística. Divergências concentram-se na extensão do impacto positivo, sugerindo que eficácia depende da qualidade da mediação pedagógica e da integração às teorias da aquisição de segunda língua.
5. CONCLUSÃO
A investigação permitiu consolidar compreensão crítica sobre a aprendizagem de língua inglesa mediada por tecnologias digitais, evidenciando que seu potencial pedagógico depende de alinhamento entre fundamentos teóricos da aquisição de segunda língua e planejamento didático estruturado. Os objetivos propostos foram alcançados ao examinar dimensões relacionadas ao input, à interação, à produção linguística e à autonomia do aprendiz.
No plano conceitual, confirmou-se que tecnologias digitais ampliam acesso à língua-alvo e favorecem interação intercultural. Entretanto, aprendizagem significativa não decorre da simples exposição a recursos digitais, mas da integração intencional dessas ferramentas a objetivos comunicativos claros. A mediação docente permanece central para orientar uso crítico e promover reflexão metalinguística.
No plano pedagógico, destaca-se a importância de oferecer feedback estruturado, promover negociação de significado e estimular produção linguística contextualizada. Ambientes digitais eficazes são aqueles que combinam multimodalidade, interação significativa e orientação estratégica.
Reconhece-se como limitação o caráter bibliográfico do estudo, que não incluiu análise empírica de desempenho de aprendizes em contextos digitais específicos. Pesquisas futuras poderão investigar impacto quantitativo de diferentes modelos tecnológicos sobre desenvolvimento das habilidades linguísticas.
Do ponto de vista educacional, conclui-se que a tecnologia deve ser compreendida como meio pedagógico e não como fim em si mesma. Seu impacto depende da articulação entre input, interação, feedback e autonomia, sustentada por teorias consolidadas da aquisição de segunda língua. Assim, a aprendizagem digital eficaz exige intencionalidade metodológica, mediação docente qualificada e integração crítica com objetivos comunicativos e interculturais.
Conclui-se que as tecnologias digitais constituem instrumentos potentes para o ensino de língua inglesa, desde que integradas a princípios sólidos da linguística aplicada e mediadas por práticas pedagógicas fundamentadas. A inovação tecnológica, quando aliada à intencionalidade didática, pode contribuir para formação de aprendizes mais autônomos, críticos e competentes comunicativamente.
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1 Graduada em Letras/Inglês pela Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT). Especialista em Metodologia e Ensino da Língua Inglesa pela Faculdade Afirmativo. Mestranda em Tecnologias Emergentes em Educação pela Must University. E-mail: [email protected]