ANÁLISE PSICOLÓGICA DAS COMPETÊNCIAS SOCIOEMOCIONAIS PREVISTAS NA BNCC: UM ESTUDO BIBLIOGRÁFICO

PSYCHOLOGICAL ANALYSIS OF SOCIO-EMOTIONAL COMPETENCIES AS ENVISIONED IN THE BNCC: A BIBLIOGRAPHICAL STUDY

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/791846221

RESUMO
Introdução: A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) enquanto documento obrigatório a ser seguido, agrega conhecimentos fundamentais básicos em que todos os estudantes precisam ter acesso no intuito de promover suas autonomias e protagonismos no decorrer da Educação Básica. Dentre as normativas impostas têm-se como uma das centralidades o desenvolvimento para além das competências cognitivas, voltando o olhar à necessidade de desenvolver competências socioemocionais básicas nos alunos em ambiente educacional. Objetivo: o objetivo geral desta pesquisa foi  analisar entendimentos  sobre as competências socioemocionais trazidas pela BNCC na perspectiva da psicologia. Metodologia:  tratou-se de uma revisão Integrativa da literatura, utilizando as bases de dados Scielo e CAPES. Após leitura na íntegra de 18 artigos, foram selecionados 08, publicados entre 2017 e 2025. Resultados: constatou-se que o conceito  de competências socioemocionais para a BNCC engloba inteligência emocional, regulação das emoções, criatividade emocional e habilidades sociais, tendo algumas relações com a perspectiva da Psicologia. Na sua promoção, foram identificados aspectos positivos no desenvolvimento das competências em sala de aula, mas também uma motivação por parte da BNCC alinhada à busca em moldar o sujeito às demandas do capital humano, enquanto que, na Psicologia seu propósito fundamental é promover o bem-estar pessoal e aprimorar as relações sociais. Essas competências são muitas vezes desenvolvidas através de atividades lúdicas, reflexivas e vivenciais. Conclusão: no parecer da Psicologia, as competências socioemocionais constituem um conjunto vital para o bem-estar, sendo o ambiente escolar um espaço privilegiado para seu desenvolvimento, mas que enfrenta uma tensão na  aplicação desses conhecimentos psicológicos.
Palavras-chave: competências socioemocionais; Psicologia;   BNCC; inteligência emocional; Habilidade socioemocional.

ABSTRACT
Introduction: The Brazilian National Common Curriculum Base (BNCC) is a document that establishes a set of fundamental knowledge that all students should acquire during Basic Education. In addition to cognitive competencies, the BNCC discusses the imminent need to develop some basic socio-emotional competencies. Objective: The general objective of this research was to analyze the understanding of socio-emotional competencies presented by the BNCC from a psychological perspective. Methodology: The methodology was an integrative literature review, using the Scielo and CAPES databases. After reading 18 articles in full, 8 were selected, published between 2017 and 2025. Results: It was found that the concept of socio-emotional competencies in the BNCC (Brazilian National Curriculum Base) encompasses emotional intelligence, emotion regulation, emotional creativity, and social skills, having some connections with the perspective of Psychology. In its promotion, positive aspects were identified in the development of competencies in the classroom, but also a motivation on the part of the BNCC aligned with the pursuit of shaping the individual to the demands of human capital, while in Psychology its fundamental purpose is to promote personal well-being and improve social relationships. These competencies are often developed through playful, reflective, and experiential activities. Conclusion: From a psychological perspective, socio-emotional competencies constitute a vital set for well-being, with the school environment being a privileged space for their development, but one that faces tension in the application of this psychological knowledge.
Keywords: Socio-emotional skills; Psychology; BNCC (Brazilian National Curriculum Base); emotional intelligence; socio-emotional ability.

1. INTRODUÇÃO

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) é um documento normativo que estabelece um conjunto organizado e gradativo de conhecimentos fundamentais que todos os estudantes precisam adquirir durante as fases e modalidades da Educação Básica. Isso garante que seus direitos de aprendizagem e desenvolvimento sejam respeitados, conforme estabelecido pelo Plano Nacional de Educação (PNE), além de buscar a autonomia e protagonismo do aluno no decorrer do percurso escolar.

Durante a Educação Básica, além das aquisições de conhecimento e desenvolvimento de competências cognitivas, a BNCC disserta acerca da necessidade eminente de no decorrer da vida escolar o aluno desenvolver algumas competências socioemocionais básicas, o que ela roga como dez competências gerais, essas competências representam, no contexto educacional, os direitos de aprendizagem e desenvolvimento previstos no documento (Brasil, 2018).

Nesse sentido, as competências socioemocionais são compreendidas como um grupo de aspectos que abrangem características como, postura, princípios, motivação e desejo de aprender, traços de personalidade ou comportamento, como responsabilidade e sociabilidade, elementos ligados à interação social, como capacidade de liderar, empatia e colaboração, conceitos relacionados à autoimagem, como autoconfiança e senso de identidade, práticas relacionadas ao trabalho, como dedicação, autocontrole, determinação e organização do tempo, sentimentos associados a atividades específicas, como empolgação e nervosismo (Nakano, Morais, Oliveira, 2019).

Essas habilidades envolvem tanto traços de personalidade, especialmente os descritos no modelo dos Cinco Grandes Fatores (Big Five) – sociabilidade, equilíbrio emocional, cordialidade, diligência e receptividade a novas vivências (McCrae & John, 1992) – quanto fatores comportamentais (autoimagem, confiança na própria capacidade, estímulo, preferências e convicções) e componentes relacionados à cognição (inventividade, equilíbrio emocional, modo de pensar e auto regulação mental). Além disso, incluem aptidões como iniciativa, persistência, cooperação, capacidade de adaptação, gestão das emoções e planejamento para cumprir obrigações, que integram o conjunto das competências socioemocionais (Nakano, Morais, Oliveira, 2019).

Dessa forma, a BNCC se apresenta como uma chance de revisar e reorganizar o currículo educacional, incorporando tanto as habilidades socioemocionais quanto as cognitivas de maneira mais integrada. Sob uma ótica psicológica, essa visão é fundamental, pois compreende que o aprendizado acadêmico não acontece de forma isolada — ele está profundamente conectado ao crescimento emocional, social e intelectual dos estudantes. Portanto, frente a essa realidade, a principal meta desse estudo  é analisar entendimentos  sobre as competências socioemocionais trazidas pela BNCC e pela Psicologia. Logo, os objetivos específicos foram: explorar os principais conceitos e aspectos históricos das competências socioemocionais e entender como as competências socioemocionais são promovidas e desenvolvidas na escola em conformidade à BNCC e à Psicologia. 

Sá (2024) destaca que existe a necessidade de entendimento sobre conceitos e aplicabilidade funcional de tais competências, pois uma vez medidas pela psicologia escolar, o desenvolvimento desses atributos em alunos ou pessoas em processo de escolarização, vislumbrar uma saúde mental positiva no ambiente escolar que impacta no desenvolvimento direto de todos os envolvidos nos cenários educacionais, seja a nível cognitivo, emocional ou social. 

A metodologia utilizada foi à pesquisa do tipo Revisão Integrativa, que enquanto estudo de revisão bibliográfica, é uma forma de pesquisa que utiliza como fonte de dados a literatura sobre determinado tema (Rother, 2007).

Assim, a pesquisa torna-se relevante para um melhor entendimento dos diferentes aspectos e divergência das competências socioemocionais nas áreas de análise, tendo em vista que as competências socioemocionais, bem como inteligência emocional são objetos de estudo das ciências de  Educação e da Psicologia.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA

2.1. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) E a Formação Integral na Educação Básica

A Educação Básica brasileira tem buscado responder às complexas demandas da sociedade contemporânea por meio de um modelo educacional voltado à formação humana e cidadã integral. Nesse cenário, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) consolida-se como um documento normativo fundamental que fixa o conjunto orgânico e progressivo de aprendizagens essenciais que todos os alunos devem desenvolver ao longo das diferentes etapas e modalidades de ensino (Brasil, 2018).

Em alinhamento com as metas fixadas pelo Plano Nacional de Educação (PNE), a BNCC busca assegurar os direitos universais de aprendizagem e desenvolvimento, promovendo a autonomia, a capacidade crítica e o protagonismo do estudante em seu itinerário formativo (Brasil, 2018). Para além da simples apropriação de conteúdos acadêmicos tradicionais, o documento preconiza a mobilização intencional de conhecimentos, habilidades, atitudes e valores. Essa orientação materializa-se nas dez competências gerais da educação básica, as quais articulam tanto o domínio cognitivo quanto o desenvolvimento socioemocional dos educandos (Brasil, 2018).

2.2. Conceituação e Dimensões das Competências Socioemocinais

A integração das competências socioemocionais ao ambiente escolar reflete a evolução dos conceitos de inteligência e desenvolvimento na Psicologia e na Educação. De acordo com Nakano, Morais e Oliveira (2019), as competências socioemocionais configuram um construto amplo e multifacetado, englobando posturas, princípios éticos, motivação e o interesse intrínseco pelo aprender. Tais habilidades envolvem desde atributos comportamentais e de personalidade (como a responsabilidade e a sociabilidade) até habilidades de interação interpessoal, destacando-se a liderança, a empatia e o trabalho colaborativo.

Ademais, os autores salientam que essas competências perpassam dimensões da autoimagem (autoconfiança e senso de identidade), práticas direcionadas à gestão de tarefas (organização do tempo, autocontrole, persistência e foco) e a modulação de estados afetivos frente às vivências escolares, tais como o entusiasmo e o controle da ansiedade (Nakano; Morais; Oliveira, 2019). Do ponto de vista teórico-conceitual, tais habilidades dialogam diretamente com a psicologia da personalidade, em especial com o Modelo dos Cinco Grandes Fatores (Big Five), sistematizado por McCrae e John (1992). Essa taxonomia descreve a estrutura da personalidade a partir de cinco dimensões centrais.

2.3. A Interlocução Entre Psicologia Escolar e Educação: Promoção da Saúde Mental e Práxis Pedagógica

A BNCC abre espaço para a reorganização curricular ao postular que a aprendizagem acadêmica não ocorre de forma isolada dos aspectos emocionais, sociais e intelectuais. Sob o olhar da Psicologia, compreende-se que o desempenho cognitivo e a construção de conhecimentos estão intimamente entrelaçados com a saúde emocional dos estudantes.

Nesse âmbito, Sá (2024) enfatiza que é imperativo compreender a aplicabilidade funcional e a delimitação conceitual de tais atributos. A identificação e a mensuração adequada dessas competências pela Psicologia Escolar subsidiam intervenções intencionais no cotidiano pedagógico, resultando na promoção de um ambiente escolar caracterizado pela saúde mental positiva. O investimento no desenvolvimento socioemocional impacta de forma direta todos os atores do cenário educacional, melhorando o clima escolar, as relações interpessoais e o rendimento cognitivo (Sá, 2024).

Assim, a análise conjunta das diretrizes da BNCC e dos aportes teóricos da Psicologia torna-se crucial para identificar estratégias eficazes de estímulo e promoção contínua dessas competências na rotina das instituições de ensino.

3. METODOLOGIA

A metodologia aplicada neste estudo foi a Revisão Integrativa, na qual utiliza como fonte de dados a literatura sobre determinado tema. Desse modo, esse tipo de investigação permite uma análise da literatura publicada em livros, artigos de revistas (impresso ou eletrônico), teses e dissertações na interpretação e análise crítica do autor. Os artigos da revisão integrativa são publicações amplas, usadas para descrever e discutir o desenvolvimento de um determinado assunto sob ótica teórica e contextual. (Rother, 2007)

O local para a coleta dos materiais de pesquisa foi o portal CAPES de Periódicos; Scielo; Banco de Teses e Dissertações da CAPES e a relevância da seleção levou em consideração: 1) Aproximação com o tema; 2) Citação nos textos coletados; e, experiência dos autores no tema pesquisado, avaliada através do Currículo Lattes dos mesmos.

Foram encontrados 293 artigos, sendo 268 do portal CAPES e 25 do SCIELO. Os descritores utilizados foram: competências socioemocionais, competências socioemocionais e Psicologia, competências socioemocionais e BNCC, inteligência emocional e Psicologia, Habilidade socioemocional e Psicologia. Após a leitura do título e resumo, foram selecionados 18 artigos. Logo após, feita a leitura na íntegra, foram escolhidos 10 artigos, representados em uma tabela. Os artigos apresentaram como predomínio a temática das competências socioemocionais na escola abordando práticas e conceitos que circulam essa abordagem tanto no viés da Psicologia como nas abordagens da BNCC. Ademais, os autores que apresentaram uma maior contribuição foram Angela Helena Marin, Cecília Tonial da Silva, Erica Isabel Dellatorre Andrade, Jade Bernardes, Débora Cristina Fava e Roseli Bonfante.

Com os artigos analisados, foi elaborada uma tabela, que foi utilizada na categorização dos resultados. A tabela é composta pelo título dos artigos, autores, ano, instituição, estado e os objetivos específicos da pesquisa, que são: explorar os principais conceitos e aspectos históricos das competências socioemocionais a partir da Psicologia e BNCC e entender como as competências socioemocionais são promovidas e desenvolvidas na escola em conformidade à BNCC e psicologia. Mediante a tabela, foi feita a busca dos resultados, por unidade de análise e categorização das informações tendo como base estrutural os objetivos do trabalho. Por fim, a categorização dos artigos foi feita da seguinte forma: após selecionar os 10 documentos considerados mais relevantes para as finalidades deste estudo, se relacionaram os pontos divergentes e convergentes nas literaturas encontradas, que nos proporcionou conclusões a respeito da perspectiva Psicológica e da BNCC a respeito das competências socioemocionais.

Figura 1. Fluxograma adaptado da seleção dos artigos

Fonte: autores do artigo 

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS

4.1. Conceitos e Aspectos Históricos das Competências Socioemocionais a Partir da Psicologia e da BNCC

O conceito de competência começa a ser debatido a partir dos  anos 1980, com o contexto da crise estrutural do capitalismo. Em 2014, o Ministério de Educação brasileiro (MEC) junto a  UNESCO desenvolveram um estudo denominado, “O desenvolvimento das habilidades socioemocionais como  caminho para a aprendizagem e o sucesso escolar de alunos da educação básica”, com o objetivo de desenvolvimento de políticas voltadas para a promoção das habilidades socioemocionais nas  instituições escolares, pois se instalava a percepção da necessidade de uma capacitação subjetiva das crianças e jovens para as possíveis demanda do século XXI, tendo em vista que necessitarão de um melhor tomada de decisões, trabalho em equipe, resolução de problemas, lidar com as  emoções, estabelecer objetivos e persistirem para o alcance dos mesmos. Com isso, as competências socioemocionais envolvem a  ampliação de condutas, comportamentos, competências e habilidades que auxiliam na resolução de problemas do atual estágio de desenvolvimento produtivo, garantindo a adaptação do trabalho em um mundo onde a rotina laboral está cada vez mais flexível e tecnológica. ( Ciervo, Silva, 2019; Costa,2023; Canettieri, Paranahyba, Santos, 2021)

Competências, se refere a habilidade de aplicar aprendizados, saberes, conceitos, procedimentos e conhecimentos adquiridos para a resolução de demandas diária e cotidiana, sendo necessário conhecimentos relevantes. No cenário brasileiro e de acordo com Base Nacional Comum Curricular (BNCC), as competências socioemocionais são definidas como um conceito abrangente, que engloba inteligência emocional, regulação das emoções, criatividade emocional e habilidades sociais, sendo o objetivo, ampliar competências de responsabilidade por si e pelos outros, representando um poderoso conjunto de conhecimentos, habilidades e atitudes voltados para o autoconhecimento e o relacionamento interpessoal, com o propósito essencial de elevar o bem-estar individual e transformar positivamente as relações sociais, onde envolve consciência emocional, expressão autêntica, controle eficaz e gestão estratégica das emoções (Barbosa, Silva 2023; Silva, 2022; Carneiro, Lopes; 2020)

Na perspectiva da Psicologia, competência socioemocional engloba vários outros conceitos como o de habilidades, inteligência emocional e desenvolvimento socioemocional. As habilidades sociais estariam distribuídas em categorias como, autocontrole e expressividade emocional, civilidade, empatia, assertividade, fazer amizades, solucionar problemas interpessoais e habilidades sociais acadêmicas. Categorias que se complementam mas que também são particulares em suas constituições. O uso do termo sócio emocional está relacionado a conhecimentos que são desenvolvidos nas relações interpessoais e afetivas, englobando autoconsciência, autorregulação, consciência social, tomada de decisão e relacionamento interpessoal (Marin, Silva, Andrade, Bernardes, Fava, 2017). 

Outrossim, a Psicologia aponta a inteligência emocional como a capacidade de reconhecer os próprios sentimentos e os dos outros, assim como a habilidade de lidar com eles, aptidão em  criar motivação para si mesmo, persistir no objetivo apesar das dificuldades, controlar os impulsos, adiar satisfações, ser empático, autoconfiante e conter a ansiedade. Essas habilidades,  podem ser desenvolvidas e potencializadas já com pouca idade. (Tessaro, Lampert, 2019; Bonfante, 2019; Marin, Silva, Andrade, Bernardes, Fava,2017)Logo, no panorama Psicológico a competência socioemocional é o produto da junção do desempenho sócio emocional e todas as habilidades intrínsecas a ele que influenciam em um comportamento adaptativo e eficiente, ou seja, é a habilidade de englobar recursos, aprendizagens, habilidades socioemocionais e cognitivas, aprendidos socialmente pelo indivíduo, adaptando-as e colocando-as em práticas em uma determinado contexto ou situação (Marin, Silva, Andrade, Bernardes, Fava, 2017).

4.2. Desenvolvendo as CSE Seguindo a BNCC e a Psicologia

Ainda de acordo com Ciervo e Silva (2019) a discussão sobre as competências socioemocionais na BNCC não pode se desvincular de uma análise crítica sobre as influências do neoliberalismo na educação contemporânea. Nessa perspectiva, as competências socioemocionais são frequentemente interpretadas como um resultado direto de uma lógica neoliberal que busca moldar um sujeito alinhado às demandas do capital humano (Silva, 2017). Sob esse prisma, a energia psíquica e as qualidades emocionais do indivíduo são direcionadas para a produção contínua de si mesmo como um "produto" flexível e adaptável às constantes transformações do mercado de trabalho. Essa visão não é necessariamente pejorativa, visto que a interconexão entre economia e emoções é reconhecida pela teoria psicológica, implicando que a esfera emocional não pode ser isolada do contexto social e produtivo (Laval, 2004). Desse modo, observa-se a emergência de um conjunto de técnicas que visam a produção de "eus" autônomos e responsáveis, fomentando valores como autoestima, competência e responsabilidade.

Contudo, essa abordagem desenha um sujeito contemporâneo que, imerso nas formas de governo neoliberais (Corrente de pensamento surgida a partir dos anos 1970, que sustenta a ideia de que o mercado deve funcionar com total liberdade, com o mínimo de interferência do Estado, cuja atuação deve se limitar apenas a áreas essenciais e, mesmo nessas, de forma bastante reduzida.), é constantemente instado à transformação e à flexibilidade. Como consequência, a escola é "intimada a adaptar seus alunos aos comportamentos profissionais que lhes são reclamados mais tarde" (Laval, 2004, p. 60), priorizando qualidades pessoais "empregáveis" e conferindo ao conhecimento escolar um caráter utilitário. 

Ao vincular uma educação com pressupostos emocionais à resolução de problemas complexos como obesidade, bullying, depressão ou desigualdades sociais, esvazia-se, de forma contundente, a função essencial da escolarização. Conforme Young (2016) argumenta, o propósito da escola é justamente estabelecer uma relação com o conhecimento que possibilite ao aluno transcender o cotidiano. Assim, em relação às competências socioemocionais na BNCC, é possível argumentar que elas estão sendo apresentadas como um meio de alinhar a educação ao desenvolvimento de sujeitos flexíveis e resilientes, prontos para as demandas da atualidade. 

Em termos curriculares, essa abordagem configura a organização dos conhecimentos escolares sob uma ótica psicológica, culminando no que Silva (2017) denomina emocionalização pedagógica. Esse processo pode estar intrinsecamente relacionado ao caráter utilitarista atribuído aos conhecimentos escolares contemporâneos, com o foco no desenvolvimento de competências permeando e direcionando os documentos analisados.

Segundo Barbosa e Silva (2023), em contraste com as afirmativas de Rodrigues e Silva (2019), afirma que existem alguns desafios ao fundamentar e desenhar intervenções embasadas em metodologias que contemplem diversidade de objetivos e dos diversos contextos e indivíduos, levando em consideração suas particularidades. Tal inconsistência na sistematização do conhecimento, apesar dos efeitos positivos desses programas elaborados pela BNCC, dificulta a replicação e a generalização dos achados. Silva (2022) também reforça a ideia de generalização ao afirmar que a educação é reduzida a um perigoso processo de adestramento que deve produzir reações individuais em conformidade com as expectativas sociais, portanto reações estereotipadas,visando produzir está em conformidade com as expectativas sociais.

Nesse contexto, o treinamento de competências socioemocionais parece buscar uma cisão artificial entre razão e emoção. O objetivo é moldar o indivíduo para que suas reações emocionais se alinhem com o socialmente aceitável, independentemente de sua percepção crítica da realidade. Essa conformidade será ainda mais evidente ao se identificar o modelo de personalidade que serve de referência para a seleção das competências socioemocionais a serem desenvolvidas. Assim, essas propostas de formação de competências socioemocionais expressam uma nova forma de "cativeiro", cujo objetivo final é transformar os indivíduos que, diante de injustiças, e especialmente frente à exploração capitalista do trabalho, em vez de se indignar e lutar, se conformam e se resignam, esforçando-se para suprimir qualquer insatisfação e manifestar contentamento a todo o momento.

Em consonância, Magalhães (2022) afirma que a inserção das competências socioemocionais na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) pode ser interpretada como uma resposta às demandas do empresariado nacional e às necessidades da sociabilidade inerente à lógica burguesa. Argumenta-se que essas competências operam no sentido de conformar os indivíduos às condições de vida estabelecidas pelo modo de produção capitalista e pela ideologia neoliberal vigente. Nela, cada sujeito é instado a construir e assumir um projeto de vida para alcançar uma suposta realização pessoal e profissional, o que, em última instância, centraliza neles a responsabilidade por seus êxitos ou fracassos. 

Desse modo, infere-se que, por meio do desenvolvimento das competências socioemocionais, o capital visa à padronização do comportamento e a homogeneização dos indivíduos, com o propósito de moldar personalidades e atitudes cristalizadas que facilitem a mensuração e avaliação dos alunos. Tal abordagem desconsidera as diversidades sociais e culturais dos sujeitos, suas experiências e vivências – sejam elas escolares, familiares ou sociais – assim como suas características individuais singulares, como personalidade, interesses e aspirações. O que se pretende é o inverso: formar indivíduos com personalidades, interesses e aspirações construídas pelo capital, visando o controle de comportamentos nos diversos espaços sociais, como a escola, a família e a própria sociedade. 

Costa (2023) contribui com tal perspectiva, uma vez que apresenta a ideia de que o conhecimento tem sido incorporado ao processo formativo de maneira restrita, não como saber em si, mas sim como um vetor para a produção de resultados, aplicação prática, uso e solução de problemas, entre outras formulações reducionistas. Desse modo, o conhecimento é condicionado a ser uma ferramenta para a produção de comportamentos e ações dos sujeitos, funcionando como um potencializador de um processo de subjetividade produtivista alinhado aos interesses do capital. Além disso, Canettier e Balduino (2021), em sua pesquisa sobre as habilidades socioemocionais concluem que é evidente o direcionamento dos jovens para o mundo do trabalho e planejamento de vida. Ainda que os materiais observados por elas sistematizam atividades reflexivas sobre escolhas, consequências, desejos, histórias de vida, é gritante a ausência de um pensamento crítico acerca das condições sociais que os determinam, inclusive que permitem o acesso a uma formação.

Por outro lado, a incorporação das competências socioemocionais no currículo escolar revela-se fundamental, com a sala de aula assumindo um papel proeminente no desenvolvimento de habilidades que, por diversas razões, podem não ser plenamente cultivadas no ambiente familiar. A atuação do professor, nesse cenário, torna-se essencial. Os benefícios decorrentes desse investimento pedagógico são múltiplos e significativos, abrangendo desde a prevenção de transtornos psíquicos, como depressão e ansiedade, até a diminuição da incidência de bullying, ao promover o respeito mútuo entre os pares. Adicionalmente, o fomento dessas competências capacita crianças e jovens com maior autonomia e responsabilidade. 

Nesse sentido, a aplicação estratégica das competências socioemocionais no ambiente escolar constitui um forte aliado na prevenção de transtornos mentais em crianças e adolescentes, cuja prevalência tem sido observada cada vez mais precocemente, com a ansiedade sendo um exemplo notável, frequentemente influenciada pelo ambiente e histórico familiar (Carneiro, Maria Daniele Lungas, 2020; Lopes, Cícera Alves Nunes, 2020). Em virtude dessa abordagem, Roseli Bonfante (2019) elabora que as regras sociais de expressão emocional têm aprendizado tácito a partir de sinais observados no ambiente. Perceber emoções em si própria e nos outros são habilidades importantes e necessárias para que a criança tenha boas relações sociais e essas competências devem ser estimuladas.

Tendo em vista a importância de trabalhar as habilidades socioemocionais, ainda é preciso compreender as intervenções que podem ser realizadas para tratar da temática, como atividades lúdicas, reflexivas e vivenciais podem auxiliar no desenvolvimento das habilidades referentes à inteligência emocional na escola.  O trabalho com as emoções no contexto escolar objetiva auxiliar a criança a obter comportamentos e competências que possibilitem a consciência e o manejo adequado de suas emoções e capacidade de empatia, e pode ser uma ação preventiva (Tassaro, Fernanda, 2019; Lampert, Daiane Trentin, 2019). 

Assim, o contexto escolar emerge como um ambiente fundamental para o desenvolvimento socioemocional de crianças e adolescentes, contribuindo significativamente para o aprimoramento de suas competências. Nesse cenário, a relação com o professor assume um papel central, atuando como fonte de apoio emocional e segurança, e revelando-se preditora tanto para o desenvolvimento de competências quanto para a emergência de disfunções. Adicionalmente, o clima escolar exerce influência notável sobre esse processo. Diante dessa perspectiva, programas de intervenção têm sido desenvolvidos com o objetivo de estimular a promoção e a avaliação do desenvolvimento socioemocional por meio de atividades escolares. Tais iniciativas frequentemente preveem abordagens diversificadas, que podem incluir atividades com a família, com os próprios professores ou diretamente com as crianças e adolescentes, associando ou não esses diferentes âmbitos de atuação  (Marin, Silva, Andrade, Bernardes, Fava, 2017).

Para a psicologia, as competências socioemocionais representam um complexo de conhecimentos, habilidades e atitudes sobre si e sobre os outros, cujo propósito fundamental é promover o bem-estar pessoal e aprimorar as relações sociais. Isso é alcançado por meio da consciência, expressão, regulação e administração das emoções. 

O desenvolvimento da inteligência emocional, além de cumprir o seu papel referente aos aspectos emocionais e psicológicos, atua ainda no desempenho pedagógico das crianças. As atividades lúdicas e dinâmicas podem auxiliar no desenvolvimento das habilidades referentes à inteligência emocional, de modo a abordar a consciência e estratégias de regulação emocional, visando, dentre outros objetivos, melhora na autoestima e desenvolvimento de habilidades de gerenciamento das emoções (Tassaro, Fernanda, 2019; Lampert, Daiane Trentin, 2019).

5. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este estudo teve como objetivo analisar os entendimentos acerca das competências socioemocionais abordadas pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e pela Psicologia. Para tanto, buscou-se explorar os conceitos e aspectos históricos dessas competências, bem como compreender como são promovidas e desenvolvidas no contexto escolar, em conformidade com as diretrizes da BNCC e os preceitos da Psicologia. A metodologia empregada, uma revisão integrativa da literatura, permitiu uma análise qualitativa e a identificação de padrões, convergências e divergências nos discursos acadêmicos.

Assim, ao explorar os principais conceitos e aspectos históricos das competências socioemocionais, constatou-se que a discussão sobre competências, iniciada nos anos 1980, ganhou relevância no Brasil com o estudo desenvolvido pelo Ministério da Educação e UNESCO, em 2014, impulsionando a percepção da necessidade de capacitação subjetiva para as demandas do século XXI. Com isso, a BNCC define as competências socioemocionais como um conceito abrangente, envolvendo inteligência emocional, regulação das emoções e habilidades sociais, visando o autoconhecimento e o relacionamento interpessoal. A Psicologia, por sua vez, complementa essa visão, englobando habilidades sociais, inteligência emocional (capacidade de reconhecer e lidar com sentimentos, criar motivação, persistir e conter impulsos) e o desenvolvimento socioemocional como um produto da junção de desempenho socioemocional e habilidades intrínsecas que influenciam o comportamento adaptativo e eficiente. 

Já no que tange à como as competências socioemocionais são promovidas e desenvolvidas na escola em conformidade à BNCC e psicologia, a análise revelou uma dualidade de perspectivas na literatura. Nesse sentido, por um lado, foi evidenciada uma crítica contundente à inserção dessas competências, interpretada como uma resposta às demandas do empresariado e à lógica neoliberal. Argumenta-se que o conhecimento é reduzido a um vetor de produção de resultados e comportamentos, fomentando uma subjetividade produtivista para o capital. Essa abordagem buscaria naturalizar relações historicamente produzidas, disfarçando o individualismo como projeto coletivo e consolidando a hegemonia burguesa. Além disso, tal visão poderia desconsiderar as diversidades sociais, culturais e individuais, visando padronizar e homogeneizar comportamentos. A educação, nessa leitura, seria "intimada a adaptar seus alunos aos comportamentos profissionais", priorizando qualidades "empregáveis" e conferindo ao conhecimento um caráter utilitário, esvaziando a função essencial da escolarização de transcender o cotidiano. Noutra perspectiva, o estudo também destacou os benefícios significativos do desenvolvimento socioemocional no ambiente escolar. A escola é reconhecida como uma promotora essencial dessas habilidades, muitas vezes suprindo lacunas da formação familiar. 

A relação com o professor e o clima escolar são preditores cruciais para o desenvolvimento saudável das crianças. Além disso,  sob a ótica da Psicologia, as competências socioemocionais constituem um conjunto vital de habilidades para o desenvolvimento integral e o bem-estar, com um papel crucial na promoção da saúde mental e na qualidade das relações interpessoais. O ambiente escolar e a atuação docente são, nesse sentido, reconhecidos como espaços privilegiados para seu desenvolvimento através de estratégias pedagógicas diversas. No entanto, o estudo também sublinha uma tensão fundamental na própria aplicação desses conhecimentos psicológicos no contexto educacional.

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1 Discente do Curso Superior de Psicologia da Universidade Estadual do Piauí Campus Torquato neto. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Discente do Curso Superior de de Psicologia da Universidade Estadual do Piauí Campus Torquato neto. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail