ABUTRES NÃO EDUCAM: ADULTIZAÇÃO PRECOCE E A INFÂNCIA VIOLENTADA ENTRE O MEDO, O SEGREDO E A RESISTÊNCIA PELA EDUCAÇÃO

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REGISTRO DOI: 10.5281/zenodo.18675777


Iolanda Cordeiro Barbosa1


RESUMO
Este estudo apresenta uma narrativa autobiográfica que analisa os impactos da adultização precoce, da violência doméstica e da exclusão escolar na trajetória educacional da autora, compreendendo a educação como prática de resistência e emancipação. O objetivo geral consiste em analisar de que modo essas experiências interferem no percurso formativo, especialmente no âmbito da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Como objetivos específicos, busca-se identificar práticas naturalizadas de adultização e silenciamento no contexto familiar; compreender seus impactos emocionais, sociais e escolares; problematizar o papel ambíguo da família como espaço de proteção e violação; e analisar a EJA como política pública de reconstrução de trajetórias interrompidas. A fundamentação teórica dialoga com Azevedo e Guerra (2000), Furniss (1993), Saffioti (2004) e Minayo (2006), ao abordar violência e relações de poder; com Bourdieu (2007), ao discutir violência simbólica; com Arroyo (2014) e Di Pierro (2010), sobre exclusão escolar e EJA; e com Freire (1996), que sustenta a educação como prática de liberdade. A pesquisa adota abordagem qualitativa, de natureza autobiográfico-narrativa, articulada à revisão bibliográfica e à análise de conteúdo temática (Bardin). Espera-se evidenciar a educação como instrumento de ressignificação, fortalecimento da autoestima, protagonismo e reconstrução da dignidade, reafirmando a EJA como espaço de inclusão e justiça social.
Palavras-chave: Adultização precoce; Violência doméstica; Exclusão escolar; Educação de Jovens e Adultos; Narrativa autobiográfica.

ABSTRACT
This study presents an autobiographical narrative that analyzes the impacts of early adultification, domestic violence, and school exclusion on the author's educational trajectory, understanding education as a practice of resistance and emancipation. The general objective is to analyze how these experiences interfere with the formative path, especially within the scope of Youth and Adult Education (EJA). Specific objectives include identifying naturalized practices of adultification and silencing in the family context; understanding their emotional, social, and school impacts; problematizing the ambiguous role of the family as a space of protection and violation; and analyzing EJA as a public policy for reconstructing interrupted trajectories. The theoretical framework engages with Azevedo and Guerra (2000), Furniss (1993), Saffioti (2004), and Minayo (2006) when addressing violence and power relations; and with Bourdieu (2007) when discussing symbolic violence. This research draws on Arroyo (2014) and Di Pierro (2010) regarding school exclusion and adult education; and on Freire (1996), who argues that education is a practice of freedom. The research adopts a qualitative approach, of an autobiographical-narrative nature, articulated with bibliographic review and thematic content analysis (Bardin). It is expected to highlight education as an instrument of re-signification, strengthening self-esteem, protagonism, and reconstruction of dignity, reaffirming adult education as a space for inclusion and social justice.
Keywords: Early adultification; Domestic violence; School exclusion; Adult Education; Autobiographical narrative.

INTRODUÇÃO

A problemática da adultização precoce, especialmente quando atravessada por violências simbólicas, morais e afetivas no interior da própria família, exige uma leitura crítica ancorada em referenciais teóricos consistentes. Philippe Ariès (1981), ao historicizar a noção de infância, demonstra que ela não é uma categoria natural e imutável, mas uma construção social que varia conforme os contextos históricos e culturais. Nesse sentido, a adultização representa a ruptura do direito à infância, impondo à criança responsabilidades, silenciamentos e expectativas que não lhe cabem. Tal processo, longe de ser episódico, inscreve-se em relações de poder que naturalizam desigualdades e obscurecem sofrimentos, demandando uma análise que articule história, sociologia e educação.

Sob a perspectiva das relações de poder, Michel Foucault (1979) contribui para compreender como discursos e práticas produzem subjetividades marcadas pela vigilância, pelo controle e pela internalização da culpa. A violência simbólica, conceito desenvolvido por Pierre Bourdieu (1998), ajuda a evidenciar como determinadas agressões não se expressam apenas no plano físico, mas operam por meio da imposição de significados, da desqualificação e da inferiorização do sujeito, levando a vítima a introjetar narrativas que a desautorizam. No contexto das relações de gênero, Heleieth Saffioti (2004) amplia esse debate ao evidenciar como estruturas patriarcais sustentam práticas de dominação e silenciamento, especialmente sobre meninas e mulheres, perpetuando ciclos de opressão que atravessam gerações.

Entretanto, romper o silêncio constitui um ato político e emancipatório. Paulo Freire (1996) afirma que a conscientização é um processo de leitura crítica do mundo que possibilita ao sujeito transformar sua realidade. Ao acessar a formação acadêmica e desenvolver uma “visão de águia” metáfora da ampliação da consciência crítica, a vítima ressignifica sua trajetória e desloca-se da condição de objeto da violência para sujeito de sua própria história. Assim, esta reflexão propõe analisar o percurso da dor ao protagonismo, compreendendo a educação como prática de liberdade e como caminho de reconstrução identitária, dignidade e justiça social.

PROBLEMA DA PESQUISA

A adultização precoce e a violência doméstica, frequentemente naturalizadas nas relações familiares, configuram violações dos direitos da infância e produzem impactos profundos nas trajetórias educacionais de crianças e adolescentes. Marcadas pelo silenciamento, pela exploração e pelo controle simbólico e material, essas experiências contribuem para a exclusão escolar, a evasão e o afastamento da educação formal. Embora a escola possa constituir-se como espaço de proteção e emancipação, muitas vezes reproduz lógicas excludentes, deixando de reconhecer e enfrentar as marcas dessas violências. Nesse cenário, a educação emerge como possibilidade de resistência e reconstrução de percursos interrompidos, especialmente por meio da Educação de Jovens e Adultos (EJA), que acolhe sujeitos historicamente marginalizados pelo sistema educacional.

Diante desse contexto, questiona-se: como processos de adultização precoce, violência simbólica e silenciamento na infância interferem na constituição subjetiva, na autoestima, na sociabilidade e na permanência escolar, produzindo marcas que atravessam a vida adulta? Sendo que a educação atua como instrumento de emancipação e ressignificação dessas trajetórias. Parte-se da compreensão de que tais práticas muitas vezes naturalizadas no âmbito familiar operam como formas sutis de dominação que incidem sobre o corpo, a identidade e o direito de aprender.

O debate fundamenta-se em Pierre Bourdieu (1998), ao tratar da violência simbólica como mecanismo de dominação legitimado pelas estruturas sociais, e em Michel Foucault (1979), ao analisar os dispositivos de poder que disciplinam e controlam corpos e subjetividades nos espaços doméstico e escolar. Esses referenciais permitem compreender como desigualdades são reproduzidas e internalizadas, ao mesmo tempo em que apontam para a necessidade de práticas educativas comprometidas com a ruptura do silêncio e a reconstrução da dignidade.

JUSTIFICATIVA

A violência doméstica e a adultização precoce configuram graves violações dos direitos da criança e do adolescente, cujos efeitos extrapolam o espaço familiar e incidem diretamente nas trajetórias educacionais. Frequentemente naturalizadas, tais práticas comprometem o desenvolvimento integral, produzindo marcas emocionais, cognitivas e sociais que favorecem a exclusão escolar, a evasão e o afastamento da educação formal. Apesar de sua relevância, essas experiências ainda são pouco analisadas na pesquisa educacional sob a perspectiva das trajetórias de vida e da educação como prática de resistência.

No âmbito da Educação de Jovens e Adultos (EJA), muitos estudantes retornam à escola após percursos marcados por violências, silenciamentos e negação de direitos. Compreender os impactos da adultização e da violência doméstica nesses trajetos é essencial para o fortalecimento de práticas pedagógicas humanizadoras e para a consolidação da EJA como política pública de inclusão e reconstrução de projetos de vida. A articulação entre esses fenômenos e referenciais da educação crítica amplia o debate sobre exclusão escolar e desigualdades estruturais.

A relevância social e acadêmica do estudo reside na necessidade de problematizar como processos de silenciamento e responsabilização precoce moldam subjetividades e limitam oportunidades educacionais. Philippe Ariès (1981) evidencia que a infância é uma construção histórica, o que permite compreender a adultização como fenômeno socialmente produzido. Saffioti (2004) demonstra como estruturas patriarcais naturalizam violências contra meninas e mulheres, enquanto Paulo Freire (1996) defende a educação como prática de liberdade. Nessa perspectiva, a escola pode tanto reproduzir opressões quanto constituir-se como espaço de escuta, consciência crítica e emancipação, especialmente quando vinculada à formação superior e à ampliação do horizonte de possibilidades.

OBJETIVOS

Geral

Analisar de que modo a adultização precoce e a violência doméstica impactam as trajetórias educacionais de sujeitos que vivenciaram tais experiências, compreendendo a educação especialmente no âmbito da Educação de Jovens e Adultos (EJA) como um espaço de resistência, ressignificação de vivências traumáticas e reconstrução da dignidade, da autonomia e do direito à aprendizagem.

Específicos

  • Identificar práticas de adultização precoce e violência doméstica presentes em contextos familiares, analisando como essas ações são historicamente naturalizadas e reproduzidas sob o discurso de cuidado, disciplina ou responsabilidade precoce;

  • Compreender os impactos emocionais, sociais e educacionais da adultização precoce na constituição subjetiva de crianças e adolescentes, evidenciando suas consequências nas trajetórias escolares e na relação com o aprender;

  • Problematizar o papel da família enquanto espaço ambíguo de proteção e violação de direitos, promovendo uma reflexão crítica que contribua para a conscientização de práticas familiares que operam como mecanismos de silenciamento e exploração infantil;

  • Analisar a educação com ênfase na Educação de Jovens e Adultos (EJA) como espaço de resistência, acolhimento e reconstrução de trajetórias marcadas pela violência, pelo abandono e pela exclusão escolar;

  • Contribuir para a sensibilização de famílias, educadores e formuladores de políticas públicas quanto à necessidade de romper ciclos de adultização e violência, fortalecendo práticas educativas baseadas na proteção integral, na escuta sensível e no respeito aos direitos da infância.

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA: VIOLÊNCIA SEXUAL INFANTIL, ADULTIZAÇÃO PRECOCE E SILENCIAMENTO

A violência sexual infantil é grave violação de direitos humanos, historicamente invisibilizada, sobretudo quando ocorre no âmbito familiar. Manifesta-se não apenas pelo abuso direto, mas também por práticas de adultização precoce, exploração do trabalho infantil, silenciamento e naturalização da submissão (AZEVEDO; GUERRA, 2000). Essas situações se estruturam em relações assimétricas de poder, nas quais adultos utilizam sua autoridade para dominar e controlar crianças em condição de vulnerabilidade, produzindo marcas psíquicas duradouras que repercutem na autoestima, na sociabilidade e no desempenho escolar.

Furniss (1993) destaca o “segredo” como elemento central da dinâmica abusiva, sustentado por medo, culpa e dependência emocional, fatores que dificultam a denúncia e prolongam o sofrimento. Saffioti (2004) analisa essa violência como expressão do patriarcado e das desigualdades de gênero, evidenciando maior vulnerabilidade de meninas, especialmente em contextos de pobreza. Minayo (2006) amplia a discussão ao compreender a violência como fenômeno estrutural, articulado a desigualdades sociais e à negação de direitos, entre eles o direito à educação.

No campo educacional, Arroyo (2014) argumenta que a escola frequentemente não reconhece as trajetórias de sofrimento que atravessam seus estudantes, podendo reproduzir silenciamentos. Freire (1996) oferece base para pensar a educação como prática de liberdade, fundada no diálogo e na dignidade humana. Sob a perspectiva dos direitos, Faleiros (2009) enfatiza a responsabilidade do Estado na proteção integral, enquanto Del Priore (2010) evidencia a permanência histórica da violência contra crianças no Brasil. Já Bourdieu (2007; 1998) contribui ao conceituar a violência simbólica como forma de dominação internalizada, que leva a vítima a naturalizar o sofrimento.

A adultização precoce, nesse contexto, retira da criança o direito à infância ao impor responsabilidades e sexualizações incompatíveis com seu desenvolvimento, frequentemente associadas ao trabalho doméstico invisibilizado. Tais processos repercutem na exclusão escolar, seja pelo afastamento físico, seja pela permanência marcada por fracasso e sofrimento. Na Educação de Jovens e Adultos (EJA), muitos estudantes retornam após trajetórias interrompidas por violências múltiplas. Di Pierro (2010) destaca a EJA como espaço de reconstrução identitária; Nogueira (2012) e Pitano (2021) relacionam evasão e infrequência a desigualdades estruturais, e não a escolhas individuais.

À luz de Foucault (1979), os discursos moralizadores sobre sexualidade funcionam como dispositivos de poder que produzem vergonha e disciplinamento. O silenciamento prolongado pode ser compreendido como efeito da violência simbólica (BOURDIEU, 1998), operando sem coerção explícita. Romper esse silêncio, conforme Freire (1987), constitui ato político de conscientização e afirmação da humanidade negada, reafirmando a educação como caminho de resistência e emancipação.

METODOLOGIA

Este estudo adota abordagem qualitativa, de natureza autobiográfica, fundamentada no método narrativo articulado à revisão bibliográfica crítica. A opção metodológica justifica-se pela necessidade de compreender, em profundidade, as experiências de adultização precoce e violência doméstica na infância e seus impactos nas trajetórias educacionais, considerando subjetividade, memória e contexto sociocultural. A pesquisa qualitativa possibilita acessar sentidos e significados construídos ao longo da vida, especialmente em contextos marcados por silenciamento e exclusão.

O método autobiográfico-narrativo constitui a estratégia central de investigação, ao reconhecer o relato de vida como fonte legítima de conhecimento e como instrumento de conscientização. A narrativa permite reconstruir experiências atravessadas por violência, exclusão escolar e resistência, evidenciando suas implicações no percurso educativo e na relação com a aprendizagem. Conforme Josso (2004), a narrativa de si é também processo de formação e autoformação, articulando experiência individual e dimensões históricas e sociais.

Complementarmente, realiza-se revisão bibliográfica sistematizada com base em produções nacionais e internacionais sobre violência infantil, adultização, exclusão escolar, Educação de Jovens e Adultos (EJA) e educação emancipatória. Foram selecionados livros, artigos e documentos legais que discutem proteção integral, impactos da violência no desenvolvimento humano e o papel da educação como prática de resistência. A revisão estabelece diálogo entre experiência narrada e campo teórico, fortalecendo a análise crítica.

O procedimento metodológico compreende três etapas: (1) organização e sistematização da narrativa autobiográfica, com atenção aos cuidados éticos; (2) análise temática, identificando categorias como adultização, violência doméstica, silenciamento, exclusão escolar, resistência e emancipação; e (3) articulação entre narrativa e literatura científica, evidenciando convergências e contribuições para o campo educacional. A análise orienta-se pela perspectiva da análise de conteúdo temática, conforme Bardin, permitindo interpretação sistemática dos sentidos presentes nos relatos.

Do ponto de vista ético, a pesquisa pauta-se na dignidade humana e na não revitimização, evitando descrições sensacionalistas. A escrita assume caráter político-pedagógico, comprometida com a problematização de práticas que naturalizam a exploração infantil, reafirmando a educação como instrumento de proteção, resistência e justiça social.

ANÁLISE E DISCUSSÃO

Desde a infância, a aprendizagem esteve associada ao medo e à punição. O erro era tratado como falha moral, não como parte do processo educativo, produzindo insegurança e sentimento de inadequação ao longo da trajetória escolar. A adultização precoce intensificou esse quadro, gerando silenciamento e isolamento. A escola, que poderia representar proteção, muitas vezes reforçou a exclusão e o não pertencimento, tornando o estudo um desafio emocional marcado pelo receio constante de fracassar.

O ingresso no ensino superior constituiu ponto de inflexão. A formação em Pedagogia possibilitou compreender a educação como prática de acolhimento, reconstrução subjetiva e fortalecimento da autonomia. A aprendizagem deixou de ser mecanismo de medo para tornar-se estratégia de enfrentamento da dor e ressignificação da própria história. Essa experiência dialoga com a realidade de muitos estudantes da EJA, que buscam na escola não apenas certificação, mas dignidade e reescrita de trajetórias interrompidas. A experiência relatada evidencia três dimensões centrais, dentre elas:

  • A adultização como ruptura da infância: A acusação moral deslocou para a criança a responsabilidade por uma situação que não compreendia. Essa inversão produz culpa internalizada, conforme analisa Saffioti (2004);

  • A disciplina pelo medo: A educação doméstica marcada por punição física e sabatinas revela práticas disciplinares descritas por Foucault (1975), nas quais o corpo é treinado sob vigilância e controle;

  • A universidade como espaço de libertação: O ingresso na UFBA representou o rompimento com o silêncio. Em consonância com Freire (1996), a palavra pronunciada torna-se ato de libertação.

Assim, a trajetória demonstra que a educação pode tanto reproduzir opressões quanto promover emancipação. A análise da trajetória evidencia como adultização e violência doméstica operam como fatores de exclusão educacional, corroborando estudos que apontam a infância como etapa decisiva para o desenvolvimento integral (Hirschfeld, 2018; Fonseca, 2020). Situações de exploração doméstica, isolamento e responsabilização precoce produzem impactos duradouros na autoestima e no pertencimento escolar. A disciplina rígida e o controle pelo medo aproximam-se das práticas descritas por Foucault (1975), enquanto a culpabilização da criança reflete dinâmicas analisadas por Saffioti (2004).

A exclusão vivenciada no espaço escolar pode ser compreendida à luz de Bourdieu (1989), que evidencia a reprodução das desigualdades nos sistemas educacionais. Nesse contexto, a EJA assume papel reparador, como destacam Arroyo (2010) e Di Pierro (2014), ao oferecer condições de retomada dos estudos e reconstrução identitária. A integração das tecnologias e da cultura digital, conforme Lévy (1999) e Kenski (2017) ampliam possibilidades de inclusão e participação social.

Os efeitos da violência e da adultização não se restringem à infância, prolongando-se na vida adulta. Contudo, o acesso à universidade especialmente à Licenciatura em Pedagogia funcionou como agente de transformação, promovendo consciência crítica e autonomia (Almeida & Valente, 2013; Brito & Costa, 2020). Em consonância com Freire (1996), a palavra pronunciada rompe o silêncio e inaugura um movimento de libertação. Assim, a trajetória demonstra que a educação pode tanto reproduzir opressões quanto constituir-se como espaço de emancipação e afirmação de direitos.

RESULTADOS ESPERADOS

A partir da análise da trajetória de vida marcada por adultização precoce e violência doméstica, espera-se que o estudo evidencie transformações emocionais, cognitivas e sociais desencadeadas pela ruptura do silêncio após décadas de sofrimento. As experiências de exploração, isolamento e culpabilização produziram marcas de medo, vergonha e inadequação que atravessaram infância e vida adulta. Contudo, o ingresso na Licenciatura em Pedagogia na UFBA configurou-se como ponto de inflexão, favorecendo autoconhecimento, reconstrução identitária e ampliação de perspectivas. Espera-se, inicialmente, o resgate da autoestima e a superação de padrões internalizados de inferioridade. A releitura crítica das vivências possibilita reconhecer a violência sofrida e compreender os mecanismos de opressão familiar, transformando culpa e silêncio em consciência e autonomia. A metáfora da “visão de águia” simboliza essa ampliação do olhar: a capacidade de analisar o passado com distanciamento crítico, identificar estruturas de abuso e afirmar-se como sujeito de direitos.

Também se projeta o fortalecimento do protagonismo e da capacidade de intervenção social. A formação acadêmica, articulada à reflexão sobre a própria história, potencializa a atuação como agente de conscientização e prevenção de práticas adultizadoras. Nessa perspectiva, a educação consolida-se como prática de liberdade e emancipação, conforme defendem Freire (1996) e Di Pierro (2014), permitindo romper ciclos de silenciamento. No campo pedagógico, espera-se a incorporação de práticas inclusivas e acolhedoras, especialmente na Educação de Jovens e Adultos (EJA), reconhecendo que muitos estudantes carregam trajetórias atravessadas por violências. A experiência vivida pode contribuir para ações baseadas na escuta, na valorização das histórias de vida e na promoção da dignidade.

Em síntese, os resultados esperados incluem: (1) reconstrução da identidade e da autoestima; (2) fortalecimento do protagonismo; (3) contribuição para práticas pedagógicas humanizadoras; (4) ampliação do debate sobre políticas públicas de proteção à infância; e (5) reafirmação da educação como instrumento de resistência e emancipação. Tais achados evidenciam que, mesmo diante de experiências traumáticas, a formação crítica possibilita transformação pessoal e compromisso social.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A trajetória apresentada evidencia que a educação assume sentidos ambíguos: pode ser instrumento de controle e punição, mas também de libertação e emancipação. Experiências de adultização precoce, violência doméstica e exclusão escolar deixam marcas profundas que atravessam toda a vida. A Educação de Jovens e Adultos (EJA), nesse contexto, se configura como espaço de resistência, possibilitando o rompimento do silêncio, a reconstrução da autoestima e a afirmação do direito à educação. Buscar a escolarização constitui, assim, um ato político de resistência e reafirma que ninguém deve ser descartado pelo sistema educacional. Orientada por princípios de inclusão, justiça social e acolhimento, a educação tem o poder de transformar vidas e devolver o direito de sonhar.

A análise evidencia que os efeitos da violência e da adultização não se restringem ao passado, mas atravessam a constituição subjetiva, interferindo na autoestima, nos vínculos e na relação com o aprender. O rompimento do silêncio, especialmente por meio da educação superior, revela a potência transformadora da palavra.

Segundo Freire (1996), “ninguém se liberta sozinho”. A escuta acadêmica permitiu que a narrativa se convertesse de dor isolada em consciência crítica. A trajetória analisada demonstra que a educação humanizadora transforma medo em conhecimento, silêncio em voz e sofrimento em resistência.

A universidade tornou-se espaço de fala, escuta e libertação. Pela primeira vez, consegui transformar silêncio em palavra. A partir daí, iniciei um processo de reconstrução interior. Hoje, não me reconheço mais como alguém aprisionada à dor que me foi imposta. Sinto-me em processo de libertação. A adultização trava a vida de quem a sofre, paralisa sonhos, compromete vínculos e silencia vozes. Persisti e continuo persistindo nos estudos, mesmo movida pelo medo e pela ausência de acolhimento. Meu pai, com poucos anos de escolaridade, foi exemplo de disciplina e perseverança. Faleceu sem saber do que vivi (adultizada pela cunhada dele e suas duas sobrinhas), mas foi por meio da educação aquilo que ele tanto valorizava que encontrei minha própria emancipação. Minha trajetória, marcada por desafios familiares, sociais e educacionais, moldou minha compreensão da educação como instrumento de resistência e transformação.

A minha mãe, mulher analfabeta que aprendeu a ler sozinha, foi exemplo de força silenciosa. Essa vivência fundamenta minha reflexão acadêmica: experiências de adultização, violência doméstica e exclusão escolar impactam profundamente as trajetórias educacionais. Nesse contexto, a Educação de Jovens e Adultos (EJA) emerge como política pública essencial para reconstruir histórias interrompidas. Estudos como os de Nogueira (2012) e Pitano (2021) evidenciam que evasão e infrequência na EJA refletem desigualdades sociais históricas, reforçando a urgência de práticas educativas inclusivas, humanizadoras e comprometidas com a dignidade humana. Se hoje posso narrar minha história vivenciada, é porque a educação deixou de ser apenas disciplina e sim tornando sempre uma forma de libertação.

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