A SUSTENTABILIDADE E PRESERVAÇÃO SIMBIÓTICA ENTRE AS QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇU E AS PALMEIRAS

THE SUSTAINABILITY AND SYMBIOTIC PRESERVATION BETWEEN THE BABASSU COCONUT BREAKERS AND THE PALM TREES

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/785340056

RESUMO
O presente estudo advém de um excerto de uma tese na Área de Ambiente e Sustentabilidade. Diante disso, o objetivo geral vem destacar a simbiose entre quebradeiras de coco de babaçu e as palmeiras através da preservação e sustentabilidade. A metodologia foi de natureza qualitativa, com aporte filosófico na fenomenologia, de abordagem bibliográfica, com a imersão no campo de pesquisa através da etnografia. Para análise dos materiais foi utilizada a abordagem de conteúdo, para geração de categorias emergentes. Os principais resultados que aportaram na relação íntima das palmeiras, como se fossem familiares, chamadas de mãe, santa, irmãs. Ademais, realizam o extrativismo dos frutos para o sustento de suas famílias. Destarte, percebe-se que as palmeiras possem uma simbiose similar a um ser vivo, que respira e sente; e que tem como guardiãs as quebradeiras de coco que preservam e passam de geração a geração a cultura do cuidado entre seus descendentes.
Palavras-chaves: Simbiose; Quebradeiras de coco babaçu; Palmeira; Guardiãs; Cuidado.

ABSTRACT
This study is an excerpt from a thesis in the field of Environment and Sustainability. The overall objective is to highlight the symbiosis between babassu coconut breakers and palm trees through preservation and sustainability. The methodology was qualitative in nature, with a philosophical contribution in phenomenology, a bibliographic approach, and immersion in the field of research through ethnography. A content approach was used to analyze the materials and generate emerging categories. The main results contributed to the intimate relationship between the palm trees, as if they were family members, called mother, saint, sisters. In addition, they extract the fruits to support their families. Thus, it is clear that palm trees have a symbiosis similar to a living being, which breathes and feels, and that their guardians are the coconut breakers who preserve and pass on the culture of care from generation to generation among their descendants.
Keywords: Symbiosis; Babaçu coconut breakers; Palm tree; Guardians; Care.

1. INTRODUÇÃO

O presente estudo é um excerto de uma tese na Área de Ambiente e Desenvolvimento, vinculado à Ecologia, dentro da linha de pesquisa de Espaço e Problemas Socioambientais, que retrata as percepções de uma pesquisadora em torno do trabalho das quebradeiras de coco babaçu.

Sobre essa temática, o Estado do Maranhão é um dos Estados mais calorosos do Brasil, no sentido de possuir uma vasta diversidade de fauna e flora. Neste espaço, há diversidade de palmeiras, como aquela que gera o coco babaçu. “O babaçu é uma palmeira que pode alcançar até 30 metros de altura e possui suas características folhas arqueadas. Pode ser encontrada não somente no Brasil, mas também em outros países da América do Sul” (Silva; Napolitano; Bastos, 2016, p.15), ocupando aproximadamente 25 milhões de hectares com expressiva frequência no Maranhão, Piauí, Pará e em Mato grosso, e em partes isoladas de outros Estados (Ibidem).

Sobre a espécie (Attalea sepeciosa Mart.ex Spreg) (Koschnitzke, 2025) algo notório chama a atenção durante as pesquisas realizadas, e a imersão da pesquisadora acerca do assunto. O fato de a palmeira de babaçu possuir uma característica ancestral, única decorrente do sustento de muitas mulheres quebradeiras de coco. Diante disso, o objetivo geral vem destacar a simbiose entre quebradeiras de coco babaçu e as palmeiras através da preservação e sustentabilidade. O problema advindo partiu da seguinte questão: Quais são as relações existentes entre as quebradeiras de coco de babaçu e as palmeiras diante da preservação e sustentabilidade?

A motivação que instigou a pesquisa partiu de observações diretas realizadas pela pesquisadora em uma região (Médio Parnaíba – Timon/MA), que envolvem o constante trabalho dessas mulheres, ligado ao pouco reconhecimento relacionado à função, e as políticas públicas que tangenciam a participação social para a apreciação de muitos dos seus trabalhos, além do olhar envolvendo a preservação e os cuidados prestados por elas à natureza.

A metodologia empregada foi de natureza qualitativa (Gil, 2021), visa descrever, com base na fenomenologia (Moraes; Galiazzi, 2016). Além disso, buscou-se através de uma abordagem bibliográfica (Gil, 2021) e anotações de campo realizadas numa tese, perpassando pelas seguintes etapas: inicialmente foram realizadas pesquisas em fontes de dados como: Biblioteca Digital Brasileira de Dissertações e Teses (BDTD), e no Scielo Brasil, com os seguintes descritores: “quebradeiras de coco babaçu”; “preservação e quebradeiras de coco babaçu”, com periodicidade de 5 anos (2020 a 2025), seguindo o escopo da pesquisa foram selecionados algumas dissertações, artigos científicos e e-books. Para análise destes materiais foi utilizada a abordagem de conteúdo (Bardin, 2016), para geração de categorias emergentes.

Após a introdução, serão abordados: o referencial teórico, com os seguintes subtítulos: considerações sobre as matas de cocais; as quebradeiras de coco babaçu e a relação com os objetivos de desenvolvimento sustentável (ODS). Em seguida, o percurso metodológico; os resultados e discussões, com o subtítulo: a simbiose entre as quebradeiras de coco babaçu e as palmeiras. Ao final são tecidas as conclusões advindas deste estudo.

2. CONSIDERAÇÕES SOBRE AS MATAS DE COCAIS

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (Brasil, 1984) historicamente o babaçu ocupava uma grande área de abrangência de nove Estados do Brasil: Maranhão, Ceará, Piauí, Mato Grosso, Amazonas, Pará, Goiás, Minas Gerais e Bahia. Sendo localizado disperso ao longo da floresta amazônica e com a derrubada desta mata, o babaçu tornou-se uma das espécies que floresceu na mata secundária, ou seja, no meio da capoeira (Brasil, 1984). Encontrado também em outros países na América do Sul, além do Brasil, tais como: na Guiana, no Suriname e na Bolívia (Correia Filho, 2011).

O Zoneamento ecológico econômico do Estado do Maranhão está associada à carta de uso e cobertura vegetal do Estado, que classifica a área de florestas abertas com presença de babaçu, tais como: “quando a presença dessa palmeira está em torno de 20% na área, utiliza-se o termo ‘com babaçu’ e, se em alta concentração, acima de 50%, utiliza-se o termo “babaçual” (Maranhão, 2002, p. 22).

A palmeira de coco babaçu (Orbignya speciosa) tem a capacidade de produzir até seis cachos de frutos por temporada, embora a quantidade de frutos em cada cacho possa variar. A colheita acontece entre agosto e janeiro, o que restringe o período de extração (Protásio, 2014).

O Estado do Maranhão em relação à extração vegetal registrou o quinto maior valor de produção nacional e o maior na região Nordeste em 2021, com R$ 318,8 milhões. Em relação aos produtos, o Maranhão foi o maior produtor nacional de babaçu (amêndoa), e o 3° maior de açaí (Maranhão, 2022).

Nessa nuance, as quebradeiras têm se mobilizado para reivindicar seus direitos e promover políticas que reconheçam a relevância do extrativismo sustentável. Essa organização é essencial para assegurar que suas práticas sejam respeitadas e valorizadas, além de desempenharem um papel de agentes de educação ambiental, disseminando conhecimentos sobre a importância da conservação dos babaçuais e do uso sustentável dos recursos naturais (Martins, 2023).

Em 2003, a publicação da Lei Federal nº 747/2003 que trata sobre a preservação e o livre acesso para as extrativistas das palmeiras de babaçu, constituiu o princípio de respeito à vida, dignidade humana representando uma distribuição justa de renda e da propriedade, modificando o acesso a propriedade privada, o que anteriormente causou diversos conflitos com donos das terras, os fazendeiros. A pesar da implantação desta lei do babaçu não garantiu para as quebradeiras a manutenção dos seus direitos e a proibição dos grileiros e fazendeiros em destruir as palmeiras (Barbosa, 2014).

2.1. As Quebradeiras de Coco Babaçu e a Relação com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)

O coco babaçu significa o alicerce das regras de conduta e das relações sociais das quebradeiras de coco, não servindo somente como fonte de sustento, tem seus direitos garantidos por Leis municipais e estaduais com o auxílio da luta política do Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB) (Gondim, 2023).

As quebradeiras criam uma relação de sociabilização nas comunidades tornando-as uma organização produtiva de cunho coletivo onde as palmeiras de babaçu servem de alicerce como fonte de trabalho. Essas mulheres extrativistas sustentam suas casas com o apurado da coleta e da quebra do coco babaçu. Estas iniciativas indicam respostas positivas à sustentabilidade, ao volume de produção de amêndoas, proporcionando uma remuneração mais justa ao trabalho do extrativismo (Loureiro, 2019).

A relação existente entre as quebradeiras de coco de babaçu e as palmeiras, fomentam um aporte teórico alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), ligada à Agenda 2030 (Cabral; Galvão, 2024, texto digital), principalmente:

ODS 1 – À erradicação da pobreza – Acabar com a pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares.

ODS 12 – Consumo e produção responsáveis – Assegurar padrões de produção e de consumo sustentáveis. [...] O ODS 12 propõe uma interconexão positiva entre as necessidades humanas e as necessidades do meio em que vivemos, de forma a gerir conscientemente recursos naturais, energéticos e infraestruturas, além de reestruturar o modelo de desenvolvimento vigente. [...]

ODS 15 – Vida terrestre – Proteger, recuperar e promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres, gerir de forma sustentável as florestas, combater a desertificação, deter e reverter a degradação da terra e deter a perda de biodiversidade.

ODS 20 – Povos originários e comunidades tradicionais – Garantir os direitos e promover a cultura dos povos originários e comunidades tradicionais.

A Agenda 2030 esclarece e estimula práticas sustentáveis para a preservação e a sustentabilidade do Planeta Terra para as gerações atuais e futuras. Os ODS 1, 12, 15 e 20, ligam-se às características comumente realizadas pelas quebradeiras de coco. Por exemplo: existe uma época específica para a coleta dos cocos; as raízes auxiliam fortalecendo o solo evitando a erosão; durante a extração dos cachos de coco há uma expertise durante a seleção dos drupáceos para que a palmeira não sofra danos ou torna-se infértil. Existindo uma relação entre outras plantações, como: “arroz, milho, feijão e mandioca e sendo viável também a pastagem de animais chamada de sistemas silvipastoris, agrossilvipastoris ou agroflorestais” (Carrazza; Ávila; Silva, 2012, p. 17).

Além disso, outras partes da planta são aproveitadas para usos variados, como: uso da folhagem para construção de materiais manufaturados; artesanatos, além do revestimento de algumas estruturas para a casa, portas, telhados e foros para o chão. Em relação à alimentação humana, a seiva e o palmito são comestíveis. E, o estipe ou caule e, pode ser usado como adubo quando está apodrecido (Lorenzi, 2002).

Apesar de se perceber que a relação existente entre os seres humanos e a natureza é incontestavelmente essencial. Alguns dados apontam, acerca da destruição dos babaçuais, que representa uma perda simbólica e material para as quebradeiras de coco, pois a palmeira ocupa um lugar personificado como mãe, virgem e viúva, em que a derrubada e queima e o envenenamento destas palmeiras figuram muito mais do que a redução dos babaçuais, marca a sua intimidade e atuam violentamente no seu trabalho e na sua vida (Taurino, 2017).

3. METODOLOGIA

A pesquisa perpassou por uma abordagem de natureza qualitativa (Gil, 2021), de cunho bibliográfico (Sousa; Oliveira; Alves, 2021), com busca em banco de dados, como: Biblioteca Digital Brasileira de Dissertações e Teses (BDTD), e no Scielo Brasil, com os seguintes descritores: “quebradeiras de coco babaçu”; “preservação e quebradeiras de coco babaçu”, com periodicidade de 5 anos (2020 a 2025), seguindo o escopo da pesquisa foram selecionados algumas teses, dissertações, artigos científicos e e-books.

Além disso, foi do tipo etnográfica, pois, seguindo Severino (2016, p. 126) “tem como objetivo entender, de forma simples e próxima do cotidiano, como acontecem os processos diários em diferentes formas, além de conhecer os modos de vida das pessoas ou dos grupos sociais”.

Para intensificar as percepções advindas da pesquisa bibliográfica, foram realizadas observações diretas em campo, através de entrevistas, com perguntas semiestruturadas, com um público de oito mulheres quebradeiras de coco babaçu adscritas na região do Médio Parnaíba, na zona rural do município de Timon, Estado do Maranhão, no período de seis meses.

As etapas para o desenvolvimento da pesquisa perpassaram pelas seguintes fases: inicialmente foram realizadas buscas em fontes de dados como: Biblioteca Digital Brasileira de Dissertações e Teses (BDTD), e no Scielo Brasil, com os seguintes descritores: “quebradeiras de coco babaçu”; “preservação e quebradeiras de coco babaçu”, com periodicidade de 5 anos (2020 a 2025). A segunda etapa concentrou-se na análise de conteúdo (Bardin, 2016), a saber: principalmente no que tange às categorizações levadas à aproximação da fenomenologia por se tratar de uma “forma de investigação que propõe uma abordagem direta dos fenômenos. Precisa partir do interior do fenômeno, da forma como este se manifesta à consciência (Moraes; Galiazzi, 2016).

O rol de fenômenos envolvendo a temática abordada, sobressaiu-se numa categoria emergente: a simbiose entre as quebradeiras de coco babaçu e as palmeiras em relação à preservação da natureza.

Sobre as considerações éticas envolvendo o estudo, destaca-se que todas as participantes da pesquisa consentiram após conhecerem e assinarem o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), de forma livre e espontânea. Recebendo uma cópia deste documento. Em seguida, para preservação da identidade, as participantes receberam os codinomes seguindo a ordem de: Entrevistada 1, 2, 3... 8.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES

4.1. A Simbiose Entre as Quebradeiras de Coco Babaçu e as Palmeiras

A imersão no contexto envolvendo a Ecologia, especificamente, a relação entre os seres humanos e a flora, no caso, as mulheres quebradeiras de coco babaçu e as palmeiras, destacou-se pelo fato de existir uma relação íntima, ou seja, as palmeiras são consideradas entes familiares, chamadas de mãe, santa. Ademais, realizam o extrativismo dos frutos para o sustento de suas famílias, momento este que se reúnem para quebrar o coco e retirar o drupáceo como fonte de renda.

A palmeira é conhecida como a mãe das quebradeiras de coco, pois dela pode-se aproveitar praticamente tudo: frutos, folhas, estipe e raízes. E cada uma dessas partes apresenta uma infinidade de usos e produtos possíveis de serem fabricados e que servem como: remédio, alimento, matéria-prima para construção e movelaria, artesanato, indústria de cosméticos, produção de biodiesel, dentre muitos outros. Para se ter uma ideia, a Comissão Europeia lista 29 substâncias químicas advindas do babaçu utilizadas como ingredientes em indústrias de cosméticos. Além disso, o babaçu é considerado a maior fonte de óleo silvestre do mundo (Silva; Napolitano; Bastos, 2016, p. 17).

Percebe-se que a simbiose, que é um processo onde existe uma relação íntima, em que ambos os seres, recebem benefícios no contexto da natureza. Esse ponto é pertinente em relação ao afeto, cuidado e aproveitamento das finalidades de cada um, pois enquanto as palmeiras de babaçu oferecem seus bens naturais, como foi mencionado; as quebradeiras de coco agem na preservação: enfrentando algumas vezes com agropecuários, evitando queimadas, como técnicas rudimentares que são eficientes transmitidas pelos seus antepassados, como os corredores de fogo (Posey, 1987), que preservam as palmeiras de práticas abusivas do fogo para preparação da terra durante o período de extrema estiagem.

Durante a busca por palmeiras nas terras e matas nativas, o percurso realizado pelas quebradeiras de coco é demarcado nas memórias, compondo as características das palmeiras – seu formato, a preservação de cachos com maior ou menor quantidade de coco; aquelas que estão próximas de outras, a qualidade dos cocos, com presença ou não de imperfeições, de parasitas – etc., até a maturação dos cocos.

A Figura 1 apresenta as facetas do cuidado desempenhado pelas quebradeiras de coco, na sua lida rotineira que chega a ser iminente, pelo fato de criarem um forte laço de pertencimento ao meio em que as palmeiras estão localizadas.

Figura 1. Relação do cuidado com a palmeira

Fonte: Autores (2025)

No decorrer da Figura 1, observa-se um ciclo de ligações pertinentes à ação extrativista desempenhada pelas mulheres, principalmente, referente ao cuidado que é incorporado pela natureza, em especial, à palmeira de coco babaçu. O que se observa é uma relação de simbiose, que de acordo com o Dictionary Cambridge Advanced (2014, texto digital), o termo simbiose é considerado “Symbiosis [noun] a mutually beneficial relationship between people or organizations”. Na Língua Portuguesa a tradução tem como significado uma relação mutuamente benéfica entre as espécies.

O termo simbiose foi translocado neste estudo, para representar a relação entre a as quebradeiras de coco babaçu e as palmeiras, quando envolve a sobrevivência, com a extração dos frutos e produtos necessários, sob medida que são juntados no dia a dia de trabalho, chegando a ser um exercício exaustivo.

A visão que se percebe é de que a palmeira não é uma “mercadoria” de serventia para lucros mercadológicos com base na extração preparatória ou cultivo em grande escala para remoção dos seus frutos. Como reitera Martins (2023), que o exercício da função fundamental na coleta e transformação do coco babaçu realizado pelas quebradeiras de coco que utilizam métodos tradicionais e saberes passados ao longo do tempo para extrair as amêndoas do coco, as quais constituem uma significativa fonte de alimentação e de renda.

Esse fato pode ser observado em algumas falas advindas das entrevistas realizadas em campo.

“Eu chamo a palmeira de coco de mamãe. Ela ainda é mamãe. Fica bem na porta do fundo da casa, junto com a casa e eu não quero matá-la. Parece que eu tô matando alguém, matando minha família, alguém da família. Porque essa palmeira de coco, ela tem história” (Entrevistada 01).

“(...) A partir de agora, aqui cada quebradeira de coco planta um pezinho de palmeira, aí dá para a gente trabalhar.  (...) A palmeira bota cinco ou seis caixas. Se ela tiver cacho e a gente cortar, no outro ano ela não bota. Ela tem que cair mesmo” (Entrevistada 02).

“(...) A palmeira bota cinco ou seis cachos. Se ela tiver cacho e a gente cortar no outro ano, ela não bota. Ela tem que cair mesmo. Aqui tá acontecendo demais cortando os cachos de coco. Aí, quando corta, não nasce mais, né? Tipo assim, se ele derrubar os cachos por ano, não nasce mais. Aí, a tendência é diminuir. No próximo ano, às vezes, dá um. Às vezes, nem dá, né? Quando corta. Atrasa as palmeiras” (Entrevistada 04). 

Outro fato marcante está ligado à conservação material ligada à ancestralidade, ou seja, tudo que aprenderam não partiu de uma “tábula rasa”, e sim das observações advindas do trabalho de outras mulheres que acabam ensinando, e selecionando as melhores palmeiras para remoção dos frutos que tem maior produtividade. Esse fato interliga-se ao ODS 20 advinda da Agenda 2030, como pode ser visualizada a seguir:

Os saberes dos povos originários e das comunidades tradicionais estão presentes na cultura da sociedade e fazem parte do nosso cotidiano, apesar da falta de reconhecimento e de valorização desses conhecimentos. Em contrapartida ao que se seria mais coerente, a garantia dos direitos destes grupos humanos tem sido negligenciada pelas sociedades e pelo poder público. Neste sentido, sofrem processos de violência estrutural e cultural contra suas culturas e contra seus territórios (Cabral; Galvão, 2024, p. 150).

A perspectiva do cuidado envolve também os elementos da natureza ligados às lembranças e memórias. Essa característica pertinente ao grupo de mulheres pode ser visualizada nas rodas de conversa, quando elas, começam a debater sobre o passado, rememorando as vivências de seus familiares que antes retiravam da natureza a maior parte do sustento, onde guardam memórias quando eram crianças, e passearam com suas mães, avós e demais parentes para a busca do coco. 

Sem saber, as quebradeiras de coco e suas crianças eram ensinadas a reconhecer as palmeiras e os locais onde se localizavam, chegando até a adentrar nas matas, em busca das palmeiras mais frondosas. E, enquanto procuravam, acabavam descansando nas sombras e brincando, ou até mesmo, se arriscando a subir nas palmeiras para alcançar os cachos. O interessante foi observar que existe uma memória viva sobre os tempos “áureos”, quando existia um manancial exuberante de palmeiras, que aos poucos sofreram com o desmatamento, como as queimadas para o plantio de grandes áreas de pastos para criação de gados.

“Meu pai foi fazer a estrada por dentro do terreno. A estrada parecia um zig-zag, para não tirar uma palmeira. Aí o carro ia, e o carro voltava, o carro ia, o carro voltava, deixou as nossas palmeiras no lugar que elas estavam. E assim ele fez essa estrada. (...) Mas depois passou a vir muita gente morar, e começaram a fazer a destruição das palmeiras, tirando o máximo que podiam” (Entrevistada 03)

Vale ressaltar que a colheita de coco babaçu em regiões afetadas por queimadas fica suspensa por um período de 2 até 3 anos, o que diminui a disponibilidade dos frutos nas localidades onde se cultivam roçados convencionais. Assim, a gestão dessas áreas deve considerar a coleta do babaçu (Gusmão; Porro, 2022).

A seguir, destaca-se a sensibilidade retratada numa homenagem às palmeiras de babaçu, através de um poema chamado “Ave Maria das Palmeiras”, por autoria da Senhora Maria do Socorro Teixeira Lima.

AVE MARIA DAS QUEBRADEIRAS
“Ave Palmeira, que sofre desgraça,
Malditos derrubam, queimam e devastam.
Bendito é teu fruto que serve de alimento
E no leito da morte ainda nos dá sustento.

Santa mãe palmeira,
Mãe de leite verdadeiro.
Em sua hora derradeira,
Rogai por nós quebradeiras”.
(Silva; Napolitano; Bastos, 2016, p. 13).

O poema “Ave Maria das Quebradeiras” é um retrato da ancestralidade que tem como base a palmeira de babaçu. As conversas, cantigas e depoimentos vistos durante o estudo destacam a forma como as palmeiras são tratadas por elas. Imbuídas de cuidados, prestígio na maneira de cada uma ver o mundo e valorizar os bens naturais.

Para muitas mulheres que adentram nas matas reconhecer a palmeira como parte da família é uma maneira gentil de retribuir toda matéria prima advinda da fauna, que é usada como componente da renda mensal. Esse envolvimento é percebido em relatos das entrevistadas 01, 04 e 07, que destacam respectivamente: tristeza decorrente da devastação das palmeiras; a descendência de mãe para filha; e a busca por um reconhecimento e espaço em meio aos demais membros da família.

“Então, pra mim, a maior tristeza é essa daí, a devastação das palmeiras. Essa questão de que a gente vai vendo a mãe natureza, a mãe palmeira morrendo, e aí a gente não vê mais essa preservação diante da realidade aqui dentro do território dos cocais” (Entrevistada 01).

“Minha mãe me ensinou, ela era quebradeira de coco. Eu tenho 4 irmãos, só um homem. São três mulheres e um homem, todos quebravam como, até o meu irmão homem quebrava coco” (Entrevistada 04); 

“Meu marido não reclama, não se mete nessa parte de eu ser quebradeira de coco porque vem de geração para geração, foi da minha avó, da minha mãe” (Entrevistada 07).

Observa-se no contexto das falas das entrevistadas o envolvimento dos movimentos nas comunidades tradicionais que recriam e reconstroem os seus territórios, vinculados ao ambiente em que vivem através de recursos naturais (França et al., 2015). Além disso, existe uma relação de pertencimento e elas se veem como parte do seu território. Consequentemente, a luta delas vai além das reivindicações por terras, da sobrevivência e da aceitação como sujeitos do local em que vivem (Souza, 2014).

Outro ponto levantado pelo estudo conduz à reflexão acerca das políticas públicas que poderiam promover uma melhor formação para as quebradeiras de coco, que lutam tanto para se tornarem vistas, assim como, para enfrentar a opressão no âmbito doméstico, por ser mulher e refém dos efeitos do machismo, que se tornam responsáveis pela casa e não como líderes políticas (Santos; Pantoja, 2021).

Em decorrência disso, abre-se o leque de possibilidades a fim de adentrar-se numa questão paradoxal: o fato de sua presença e força de trabalho serem essenciais na sustentação econômica da família; e, no entanto, não terem uma certa visibilidade, que muitas das vezes está ligada ao trabalho do campo, principalmente, por extrair o necessário e suficiente da matéria-prima, que no caso é o coco babaçu, para o sustento e comercialização. Ambos os fatos, destacam a atuação dessas mulheres que ainda têm que enfrentar na chegada às suas casas, o machismo nas relações interpessoais: seja na posição de maridos que na maioria dos casos não incorporam atribuições para compor a renda das famílias; às vezes viajam, alegando que irão em busca de empregos e retornar para dá melhor conforto de vida às famílias; ou que estão presentes na comunidade e não se mobilizam para auxiliar as mulheres na ascensão social e compartilhamento de tarefas.

5. CONCLUSÃO

Diante do exposto percebe-se um manancial de situações ligadas à participação das mulheres quebradeiras de coco babaçu em meio à relação existente entre as palmeiras que partem desde: a entradas nas matas, a sororidade envolvendo o grupo de pares, o trabalho comunitário que perpassa pela extração das amêndoas, a produção de variados materiais advindos da extração sustentável. E o “apego” pelas palmeiras como entes de valor inestimável.

Nesse espaço nota-se algumas barreiras que persistem em torno da sua posição social, como o machismo e/ou a enfraquecida força de trabalho de seus companheiros em meio às situações apresentadas. Soma-se a isto, a inobservância de políticas públicas eficazes que, de fato, possam gerar oportunidades de melhores condições de sobrevivência.

Ao direcionar respostas ao problema de pesquisa nota-se que são muitas as relações entre as quebradeiras de coco babaçu e as palmeiras que estão eminentemente ligadas à preservação, substancial a um processo de simbiose, em que ambas, ajudando-se, similar a qualquer ser vivo, que respiram e sentem. E ainda, têm na figura das mulheres, que na maioria das vezes montam em seus animais (“jumentinhos”), organizam seus materiais de trabalho (machados, macetes, cofos, etc.), vão em busca dos drupáceos. Nesse percurso, apreciam a natureza, observando suas irmãs ou mães (palmeiras), a fim de manter o cuidado, respeito e, repassar às gerações, a cultura do cuidado sustentável para que as espécies e os seres das matas possam viver em harmonia.

A denominação do ciclo do cuidado (conservação material ligada à ancestralidade; elementos da natureza ligado às lembranças, memórias; personificação em ser humano: mãe, filha, irmã; relação simbiótica) desempenha um papel fundamental para preservação das matas de babaçuais, que constantemente, são afetas por queimadas provocadas para ampliação de áreas agropecuárias, e/ou plantio de monoculturas para alicerce econômico de grandes proprietários.

Todos os pontos elencados têm suporte das ações fomentadas pela Agenda 2030, especialmente, nas ODS 1, 12, 15 e 20, que tratam respectivamente: da erradicação da pobreza; consumo e produção responsáveis; vida terrestre e povos originários e comunidades tradicionais.

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1 Doutora em Ciências: Ambiente e Desenvolvimento da Universidade do Vale do Taquari (UNIVATES), professora do IFMA. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Doutor em Ecologia pela Universidade de São Paulo. Professor Titular da Universidade do Vale do Taquari (UNIVATES). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

3 Doutora em Arqueologia pela Universidade de São Paulo. Professora titular da Universidade do Vale do Taquari (UNIVATES) . E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail