REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/791607385
RESUMO
A utilização da Inteligência Artificial (IA) no ambiente corporativo e contábil vem mudando a forma como várias atividades são realizadas, principalmente por meio da automação de tarefas, como classificação fiscal, conciliação e análise de dados. Diante disso, este estudo teve como objetivo analisar os limites e as implicações da responsabilidade do contador diante do uso da IA na elaboração de informações e demonstrações contábeis. Para isso, foi realizada uma Revisão Sistemática da Literatura (RSL), seguindo o protocolo PRISMA, juntamente com a Análise de Conteúdo de Bardin. Ao todo, foram analisados 32 artigos científicos publicados entre 2022 e 2026. Os resultados mostram que a IA não elimina a profissão contábil, mas modifica algumas das atividades realizadas pelo contador, que passa a ter maior participação em funções analíticas, consultivas e estratégicas. Apesar dos benefícios da tecnologia, também existem riscos relacionados à qualidade dos dados, aos vieses e aos erros ou informações incorretas geradas pela IA. Dessa forma, o uso da tecnologia não retira do contador sua responsabilidade profissional. A análise dos estudos indica que a responsabilidade pela confiabilidade das informações e demonstrações contábeis continua sendo do profissional, sendo necessária a supervisão humana, o julgamento profissional e a conferência das informações geradas pela IA.
Palavras-chave: Inteligência Artificial; Responsabilidade Civil; Demonstrações Contábeis; Profissão Contábil; Revisão Sistemática.
ABSTRACT
The use of Artificial Intelligence (AI) in corporate and accounting environments is transforming how various activities are performed, primarily through the automation of tasks such as tax classification, reconciliation, and data analysis. Given this context, this study aimed to analyze the limits and implications of the accountant's liability regarding the use of AI in the preparation of accounting information and financial statements. To achieve this, a Systematic Literature Review (SLR) was conducted following the PRISMA protocol, combined with Bardin's content analysis method. A total of 32 scientific articles published between 2022 and 2026 were analyzed. The results indicate that AI does not eliminate the accounting profession but rather alters the activities performed by accountants, who increasingly engage in analytical, advisory, and strategic functions. Despite the technology's benefits, there are risks associated with data quality, biases, and errors or incorrect information generated by AI. Consequently, the use of technology does not absolve the accountant of professional liability. The analysis suggests that the responsibility for the reliability of accounting information and financial statements remains with the professional, requiring human oversight, professional judgment, and verification of the information generated by AI.
Keywords: Artificial Intelligence; Civil Liability; Financial Statements; Accounting Profession; Systematic Review.
1. INTRODUÇÃO
A transformação digital tem promovido mudanças profundas na forma como as organizações produzem, processam e utilizam informações para subsidiar suas decisões (Evangelista, 2020). Entre as tecnologias que mais têm influenciado esse cenário, destaca-se a Inteligência Artificial (IA), cuja capacidade de processar grandes volumes de dados, identificar padrões e automatizar atividades anteriormente executadas por seres humanos tem alterado significativamente os modelos de gestão e a dinâmica de diversos setores econômicos (Santos, 2020). Na área contábil, esse movimento tem impulsionado a modernização de processos, ampliado a eficiência operacional e possibilitado maior rapidez na produção de informações financeiras, gerenciais e fiscais (Méo, 2022).
A incorporação da IA à prática contábil representa uma evolução decorrente do próprio desenvolvimento tecnológico experimentado pela profissão nas últimas décadas (Evangelista, 2020). Se, em um primeiro momento, a informatização concentrou-se na substituição de registros manuais por sistemas eletrônicos, atualmente observa-se uma nova etapa caracterizada pela utilização de algoritmos capazes de executar análises complexas, reconhecer padrões, realizar classificações automáticas, identificar inconsistências e apoiar o processo decisório (Santos, 2020). Dessa forma, a atuação do contador deixa de estar concentrada em atividades operacionais repetitivas e passa a exigir competências relacionadas à interpretação das informações, ao julgamento profissional e à supervisão dos resultados produzidos pelos sistemas inteligentes (Méo, 2022).
Nesse contexto, a contabilidade amplia seu papel estratégico nas organizações (Evangelista, 2020). Além de cumprir sua função tradicional de registrar, mensurar e evidenciar os fenômenos patrimoniais, passa a atuar como importante provedora de informações para o planejamento, o controle e a tomada de decisões (Santos, 2020). A crescente disponibilidade de recursos tecnológicos potencializa essa função ao permitir maior integração entre bases de dados, rapidez no processamento das informações e desenvolvimento de análises preditivas capazes de apoiar decisões empresariais com maior nível de precisão (Méo, 2022).
Os benefícios associados à utilização da Inteligência Artificial têm sido amplamente discutidos na literatura recente (Evangelista, 2020). Estudos apontam que sua aplicação pode contribuir para a redução de erros operacionais, aumento da produtividade, automação de rotinas, melhoria da qualidade das informações produzidas e fortalecimento do processo decisório, especialmente em atividades relacionadas ao tratamento de grandes volumes de dados (Santos, 2020). Na contabilidade, essas tecnologias vêm sendo incorporadas em processos como classificação de documentos, conciliações automáticas, auditoria contínua, elaboração de relatórios e apoio à preparação de informações contábeis, modificando significativamente a rotina dos profissionais da área (Méo, 2022).
Entretanto, a crescente utilização da IA também suscita desafios que extrapolam as questões tecnológicas e alcançam aspectos éticos, jurídicos e profissionais (Evangelista, 2020). Embora sistemas inteligentes sejam capazes de produzir informações com elevado grau de precisão, seus resultados permanecem condicionados à qualidade dos dados utilizados, aos critérios definidos pelos usuários e às limitações inerentes aos algoritmos empregados (Santos, 2020). Além disso, decisões automatizadas podem reproduzir vieses, gerar interpretações inadequadas ou produzir informações inconsistentes quando não submetidas à adequada supervisão humana (Méo, 2022). Nesse cenário, torna-se necessário discutir não apenas os benefícios decorrentes da automação, mas também os limites da utilização dessas tecnologias na prática profissional do contador e as responsabilidades decorrentes de sua aplicação (Evangelista, 2020).
Apesar do avanço das pesquisas sobre Inteligência Artificial aplicada à contabilidade, observa-se que a literatura tem concentrado seus esforços na investigação dos ganhos de eficiência proporcionados pela automação de processos, pela análise de dados em larga escala e pelo apoio à tomada de decisões organizacionais (Evangelista, 2020; Santos, 2020; Méo, 2022). Em contrapartida, permanecem relativamente escassos os estudos que discutem, de forma aprofundada, os limites da responsabilidade técnica, ética e jurídica do contador quando sistemas baseados em IA são utilizados na elaboração de informações e demonstrações contábeis (Evangelista, 2020). Essa lacuna torna-se ainda mais relevante diante da crescente autonomia dessas tecnologias na execução de atividades tradicionalmente desempenhadas por profissionais da contabilidade (Santos, 2020).
Embora a legislação brasileira e as normas profissionais atribuam ao contador a responsabilidade pela fidedignidade das informações contábeis produzidas e divulgadas, a utilização de sistemas inteligentes introduz novos desafios relacionados à supervisão humana, à transparência dos algoritmos, à confiabilidade dos dados processados e à rastreabilidade das decisões automatizadas (Méo, 2022). Nesse contexto, surgem questionamentos sobre até que ponto a utilização da Inteligência Artificial modifica os limites da responsabilidade profissional do contador, especialmente quando erros, inconsistências ou distorções são produzidos por sistemas automatizados (Evangelista, 2020). Assim, o avanço tecnológico exige uma reflexão que ultrapasse os aspectos operacionais da automação e alcance questões relacionadas à governança, à ética profissional e ao julgamento técnico (Méo, 2022).
Diante desse cenário, formula-se o seguinte problema de pesquisa: quais são os limites e as implicações da responsabilidade do contador quando sistemas de Inteligência Artificial são utilizados na elaboração de informações e demonstrações contábeis?
O objetivo geral deste estudo consiste em analisar os limites e as implicações da responsabilidade do contador diante da utilização da Inteligência Artificial na elaboração de informações e demonstrações contábeis. Quanto aos procedimentos metodológicos, a pesquisa caracteriza-se como uma Revisão Sistemática da Literatura, de natureza qualitativa e caráter exploratório, desenvolvida a partir da análise de estudos publicados entre 2022 e 2026, em português e inglês, que abordam a aplicação da Inteligência Artificial na contabilidade e seus reflexos sobre a responsabilidade profissional do contador.
A relevância desta pesquisa reside na contribuição para o avanço das discussões sobre a interação entre Inteligência Artificial e exercício profissional da contabilidade, tema que ganha crescente importância à medida que ferramentas inteligentes passam a integrar as rotinas organizacionais (Evangelista, 2020; Santos, 2020). Sob a perspectiva científica, o estudo contribui para ampliar o debate acerca dos limites da responsabilidade profissional em ambientes de elevada automação. Do ponto de vista prático, oferece subsídios para profissionais, empresas e instituições de ensino refletirem sobre a utilização ética, crítica e responsável da Inteligência Artificial, reforçando que o julgamento profissional, a observância das normas contábeis e a responsabilidade técnica permanecem elementos essenciais para assegurar a confiabilidade das informações produzidas, independentemente do nível de automação empregado.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
Nesta seção, são discutidos os principais assuntos relacionados ao tema do estudo. Primeiramente, expõe-se a contabilidade gerencial e sua importância nas organizações, destacando a responsabilidade do contador e sua contribuição para a tomada de decisões. Em seguida, apresenta-se o impacto da Inteligência Artificial na contabilidade, considerando as mudanças que essa tecnologia vem trazendo para a profissão contábil. Por fim, identificam-se os desafios da utilização da IA nas demonstrações contábeis, principalmente em relação à confiabilidade das informações, à responsabilidade do contador, à segurança dos dados e aos aspectos éticos e legais.
2.1. A Contabilidade Gerencial e Sua Responsabilidade nas Organizações
A contabilidade gerencial constitui um dos ramos mais estratégicos da ciência contábil, responsável por fornecer informações que respaldam as organizações na adaptação a mudanças institucionais e organizacionais, ampliando sua legitimidade perante clientes, investidores e colaboradores (Cardoso, 2022). Para tanto, o contador utiliza práticas gerenciais cada vez mais modernas, capazes de alinhar os processos internos às exigências do ambiente externo, tornando a empresa mais eficiente e competitiva (Moraes, 2007).
Originalmente concebida como ferramenta operacional, a contabilidade gerencial evoluiu para assumir papel estratégico, acompanhando a transformação das organizações e enfrentando desafios contemporâneos como diversidade, inovação, sustentabilidade e transformação digital (Pereira, 2010). Seu escopo atual abrange o suporte a decisões complexas em situações de incerteza, integrando sistemas de gestão orientados à geração de valor no longo prazo (Rodrigues, 2025).
A contabilidade gerencial apresenta informações confiáveis e relevantes para o processo decisório, incluindo dados gerais de compras, vendas, utilização de insumos e outros indicadores que norteiam a avaliação de riscos e oportunidades, o desenvolvimento de estratégias e o fortalecimento da competitividade organizacional (Cardoso, 2022).
Embora comumente associada a grandes corporações, a contabilidade gerencial é igualmente fundamental para pequenas e médias empresas, nas quais as informações contábeis constituem pilar essencial para o planejamento, o controle financeiro e a tomada de decisões, reduzindo incertezas e melhorando o desempenho organizacional (Moraes, 2007). O principal obstáculo nesse contexto é a escassez de mão de obra especializada, uma vez que muitos gestores enfrentam dificuldades para interpretar e utilizar os dados fornecidos pela contabilidade gerencial (Pereira, 2010).
Para assegurar a confiabilidade das informações, é imprescindível que a organização conte com um profissional capacitado a acompanhar as transformações organizacionais e institucionais, utilizando mecanismos capazes de atender às necessidades complexas da gestão moderna (Cardoso, 2022). As informações geradas não se limitam a dados básicos, mas promovem mudanças organizacionais e subsidiam a avaliação de desempenho, a definição de metas e a criação de estratégias alinhadas aos objetivos institucionais (Moraes, 2007).
Assim, uma organização que almeja crescer por meio da contabilidade gerencial deve priorizar a responsabilidade do contador, que precisa cuidar não apenas da entrega das informações, mas também de sua qualidade (Pereira, 2010). Para serem úteis, as informações devem ser relevantes, confiáveis e claras, permitindo que os gestores visualizem o futuro com nitidez, fortaleçam a capacidade adaptativa da empresa e integrem planejamento, execução e controle (Cardoso, 2022).
Outro papel fundamental da contabilidade gerencial reside na governança corporativa, especialmente em organizações modernas cujos sistemas aliam indicadores financeiros e não financeiros, considerando inovação, responsabilidade socioambiental, sustentabilidade e criação de valor (Moraes, 2007). Nesse cenário, a contabilidade gerencial avalia desempenhos de forma estratégica e prospectiva (Pereira, 2010).
O contador que atua na área gerencial precisa desenvolver habilidades consultivas, auxiliando na formulação de estratégias, interpretando informações, lidando com rápidas mudanças tecnológicas, utilizando Inteligência Artificial e assumindo responsabilidades analíticas, estratégicas e comunicacionais (Cardoso, 2022).
2.2. O Impacto da IA na Contabilidade
A Inteligência Artificial tem promovido transformações significativas na prática contábil, especialmente pela automatização de atividades operacionais e repetitivas (Rodrigues, 2025). Sua aplicação em escritórios de contabilidade e departamentos financeiros tem possibilitado a execução mais ágil de tarefas como classificação de documentos, conciliações bancárias, auditorias eletrônicas e processamento de informações (Santos, 2023). Com isso, observa-se redução de falhas operacionais e aumento da produtividade, permitindo que os profissionais direcionem seus esforços para atividades de maior valor agregado, como análise de dados, planejamento e consultoria estratégica (Sena, 2026).
O avanço da Inteligência Artificial também impulsionou mudanças estruturais na profissão contábil. (Rodrigues, 2025). Estudos recentes demonstram crescimento expressivo da produção científica sobre o tema, refletindo seu impacto crescente nas organizações (Rodrigues, 2025). Embora a automação substitua diversas atividades rotineiras, a profissão contábil permanece essencial, assumindo novas atribuições relacionadas à interpretação das informações, ao julgamento profissional e ao suporte estratégico aos gestores (Sena, 2026).
Sob a perspectiva da contabilidade gerencial, a IA amplia a capacidade das organizações de transformar grandes volumes de dados em informações úteis para o processo decisório (Santos, 2023). Sistemas inteligentes favorecem análises preditivas, monitoramento de indicadores de desempenho, identificação antecipada de riscos e fortalecimento do planejamento estratégico (Rodrigues, 2025). Contudo, a adoção dessas ferramentas exige atenção quanto à qualidade dos dados, à transparência dos algoritmos, à mitigação de vieses e à observância de princípios éticos (Santos, 2023). A incorporação da IA também provoca mudanças no perfil profissional do contador. As transformações decorrentes da Quarta Revolução Industrial exigem competências relacionadas ao uso de tecnologias digitais, análise de dados, pensamento crítico e capacidade de interpretar informações complexas (Sena, 2026). As atividades operacionais tendem a ser progressivamente automatizadas, enquanto o contador passa a exercer funções voltadas ao planejamento, ao assessoramento estratégico e à geração de informações que apoiem a tomada de decisões (Rodrigues, 2025; Santos, 2023; Sena, 2026)
A confiabilidade das informações produzidas por sistemas baseados em IA constitui outro aspecto relevante, apesar da elevada capacidade de processamento, a qualidade dos resultados depende diretamente da consistência dos dados utilizados e da supervisão humana (Sena, 2026). Alguns algoritmos podem reproduzir vieses existentes nas bases de dados ou gerar recomendações inadequadas quando empregados sem mecanismos eficientes de validação e governança (Rodrigues, 2025). Por essa razão, permanece indispensável a atuação do contador na interpretação dos resultados, na análise de exceções e na garantia de conformidade com os princípios éticos, legais e normativos (Santos, 2023).
Embora a IA esteja transformando profundamente a rotina das organizações, sua utilização não implica a substituição do profissional contábil (Rodrigues, 2025). Ao contrário, a tecnologia redefine sua atuação ao automatizar processos operacionais e ampliar a importância de competências humanas, como julgamento profissional, comunicação, pensamento analítico e capacidade de assessorar estrategicamente os gestores (Santos, 2023). A IA configura-se como ferramenta capaz de potencializar o desempenho do contador, fortalecendo sua participação na geração de valor para as organizações (Sena, 2026).
2.3. Desafios da Utilização da IA nas Demonstrações Contábeis
O emprego dessa tecnologia possibilita a automação de processos, a análise de grandes volumes de dados e a geração de informações com maior rapidez e precisão, contribuindo para o aperfeiçoamento da qualidade dos relatórios financeiros (Silva, 2022). Entretanto, sua implementação traz desafios relacionados à confiabilidade das informações, ao cumprimento das normas contábeis, à governança corporativa e à responsabilidade dos profissionais envolvidos (Silveira, 2024)
Os resultados produzidos pelos algoritmos dependem diretamente da consistência, integridade e atualização das informações inseridas nas bases de dados (Souza, 2023). Inconsistências, registros incompletos ou informações enviesadas podem comprometer a precisão das análises e afetar a confiabilidade das demonstrações financeiras (Silva, 2022). Além disso, a crescente complexidade dos modelos de IA torna necessária a adoção de políticas de governança de dados que garantam a rastreabilidade e a transparência durante todo o processo contábil (Souza, 2023).
Outro aspecto relevante refere-se à responsabilidade técnica do contador diante das informações produzidas por sistemas baseados em IA, embora essas ferramentas automatizem atividades rotineiras e realizem análises preditivas com elevada velocidade, elas não substituem o julgamento profissional exigido pela prática contábil (Silva, 2022). A interpretação das normas, a análise das particularidades de cada operação e a validação das informações permanecem sob responsabilidade do contador, que deve avaliar criticamente os resultados apresentados pelos sistemas antes de sua divulgação nas demonstrações financeiras (Silveira, 2024). A IA deve ser compreendida como tecnologia de apoio ao processo decisório, e não como substituta da atuação técnica e ética do profissional (Souza, 2023).
Os sistemas inteligentes processam grande quantidade de dados financeiros e estratégicos, tornando indispensável a adoção de mecanismos de proteção contra acessos não autorizados, vazamentos de informações e ataques cibernéticos (Silva, 2022). Nesse contexto, torna-se essencial que as organizações invistam em políticas de segurança da informação, controle de acessos, criptografia e monitoramento contínuo dos sistemas, garantindo a confidencialidade, integridade e disponibilidade dos dados (Silveira, 2024).
A transformação digital exige que os contadores desenvolvam competências que ultrapassam o domínio das normas contábeis tradicionais, incluindo conhecimentos sobre análise de dados, tecnologias digitais, inteligência artificial e governança da informação (Silveira, 2024). Muitas organizações ainda enfrentam dificuldades decorrentes da resistência à adoção de novas tecnologias e da escassez de profissionais qualificados para atuar em ambientes altamente digitalizados (Silveira, 2024). O investimento em formação continuada e atualização profissional torna-se condição essencial para que a IA seja utilizada de maneira eficiente e alinhada às necessidades organizacionais (Souza, 2023).
Por fim, destaca-se a dimensão ética e legal da utilização da IA, o Código de Ética do Profissional Contábil (CFC, 2020) estabelece princípios como integridade, objetividade, competência profissional e confidencialidade, que devem ser observados independentemente das ferramentas utilizadas. A utilização da IA não exime o contador de seu dever de diligência, nem transfere a responsabilidade por erros ou omissões aos sistemas automatizados (Silveira, 2024). Assim, o profissional deve assegurar que a tecnologia seja empregada em conformidade com as normas legais e regulatórias, incluindo a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e as disposições do Conselho Federal de Contabilidade sobre o uso de tecnologias digitais (Silva, 2022; Silveira, 2024).
3. METODOLOGIA
Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa de natureza qualitativa, com caráter exploratório e descritivo, realizada por meio de uma Revisão Sistemática da Literatura (RSL), cujos dados foram analisados por meio da análise de conteúdo, conforme (Bardin, 2016).
Na coleta de dados, foram adotadas as recomendações do método PRISMA (Moher et al., 2009), composto por quatro fases: (i) identificação; (ii) seleção; (iii) elegibilidade; (iv) inclusão.
A primeira fase, de identificação, foi estruturada em três etapas:(i) Questão Norteadora, (ii) Objetivo, e (iii) Protocolo de Revisão.
A questão norteadora definida para orientar a busca e a seleção dos estudos foi: "Quais as implicações da IA para a responsabilidade do contador?" O objetivo foi analisar os limites e as implicações da responsabilidade do contador diante da utilização da Inteligência Artificial na elaboração de informações e demonstrações contábeis. E, o protocolo de revisão adotado seguiu as recomendações do método PRISMA, conforme pode ser verificado na Tabela 1.
Tabela 1. Primeira fase da revisão sistemática de literatura
Identificação | ||
Etapas | Item | Descrição |
1 | Questão Norteadora | Quais as implicações da IA para a responsabilidade do contador? |
2 | Objetivo | Analisar os limites e as implicações da responsabilidade do contador diante da utilização da Inteligência Artificial na elaboração de informações e demonstrações contábeis. |
3 | Protocolo de Revisão | Método PRISMA |
Fonte: Elaborado pelas pesquisadoras (2026).
A fase de seleção foi estruturada em quatro etapas: (i) Tipo de Trabalho, (ii) Período, (iii) Idioma, e (iv) Área.
Quanto ao tipo de trabalho, foram admitidos para esta revisão somente artigos científicos revisados por pares. Em relação ao período, delimitaram-se os estudos publicados entre 2022 e 2026. O recorte temporal de 2022 a 2026 foi definido com base na relevância e na atualidade do tema, uma vez que a Inteligência Artificial ganhou maior visibilidade e avanço tecnológico a partir de 2022, com a popularização de ferramentas como o ChatGPT (um Chatbot de Inteligência Artificial generativa) e o crescimento expressivo de pesquisas aplicadas à contabilidade com a utilização dessa ferramenta. No que tange ao idioma, selecionaram-se trabalhos publicados em português ou inglês.
O inglês foi adotado por ser a língua predominante na produção científica mundial, enquanto o português garantiu o acesso a pesquisas desenvolvidas no Brasil. A utilização dos dois idiomas teve como objetivo ampliar o alcance da pesquisa e possibilitar a identificação tanto de estudos nacionais quanto internacionais relacionados à aplicação da Inteligência Artificial na contabilidade e às questões de responsabilidade profissional. Com relação à área de conhecimento, buscaram-se artigos indexados na área de Ciências Sociais Aplicadas, que abordassem, direta ou indiretamente, a aplicação da Inteligência Artificial na contabilidade e/ou aspectos relacionados à responsabilidade profissional do contador, conforme pode ser verificado na Tabela 2.
Tabela 2. Segunda fase da revisão sistemática de literatura
Seleção | ||
Etapas | item | Descrição |
1 | Tipo de Trabalho | Somente artigos científicos revisados por pares. |
2 | Período | 2022–2026, período definido pela relevância e atualidade do tema, considerando o avanço da Inteligência Artificial a partir de 2022. |
3 | Idioma | Português e Inglês. |
4 | Área | Artigos indexados na base, na área de Ciências Sociais Aplicadas, subárea de Negócios e Finanças. |
Fonte: Elaborado pelas pesquisadoras (2026).
Para a quinta etapa que compõe a seleção, quanto às bases de dados e à estratégia de busca, foram utilizados os operadores booleanos AND e OR. As pesquisas foram realizadas inicialmente no Portal da Capes, utilizando a combinação de termos em português: "responsabilidade do contador" OR "demonstrações" OR "IA". Na Web of Science, a mesma combinação de termos usada na Capes gerou um volume excessivo de resultados, inviabilizando a análise. Por isso, a estratégia de busca foi alterada, utilizando descritores em inglês com a combinação: "artificial intelligence" AND "accounting" (Tabela 3).
Tabela 3. Segunda fase da revisão sistemática de literatura
Seleção | ||||
Etapa | Base | Método de Busca | Pesquisas Adotadas | Total |
5 | Capes Web of Science | "responsabilidade do contador" OR "demonstrações" OR "IA". "artificial intelligence" AND "accounting". | 63 126 | 189 |
Fonte: Elaborado pelas pesquisadoras (2026).
Por conseguinte, a terceira fase foi composta por três etapas: (i) Análise do tema e resumo, (ii) Critérios de exclusão, e (iii) Leitura dos artigos.
Primeiramente, realizou-se a análise do tema a partir da leitura do título e do resumo de cada artigo, com o objetivo de verificar se o estudo abordava a Inteligência Artificial aplicada à contabilidade e se havia relação com a responsabilidade profissional do contador. Foram mantidos apenas os artigos que, já nessa análise inicial, apresentavam alinhamento com o tema da pesquisa.
Em seguida, aplicaram-se os critérios de exclusão: foram descartados os artigos que, embora mencionassem a contabilidade, não apresentavam uma conexão clara com a responsabilidade profissional do contador ou com as implicações da IA para a prática contábil. Não foram identificados trabalhos duplicados, mas sim estudos que não estavam diretamente relacionados ao tema investigado. Por fim, procedeu-se à leitura completa dos artigos que passaram pelas etapas anteriores, sendo excluídos aqueles que não acrescentaram contribuições relevantes para alcançar os objetivos propostos, conforme Tabela 4.
Tabela 4. Terceira fase da revisão sistemática de literatura
Elegibilidade | ||
Etapas | Item | Descrição |
1 | Análise do tema e resumo | Leitura do título e resumo para verificar alinhamento com o tema da pesquisa. |
2 | Critérios de exclusão | Foram excluídos artigos sem conexão clara com a responsabilidade profissional ou com as implicações da IA para a contabilidade. |
3 | Leitura dos artigos | Leitura dos artigos pré-selecionados, mantendo aqueles alinhados ao tema e descartando os que não contribuíram para os objetivos da pesquisa. |
Fonte: Elaborado pelas pesquisadoras (2026).
A quarta e última fase foi a de inclusão das pesquisas científicas. Essa fase consistiu na definição da amostra final de artigos que comporiam a revisão sistemática. Após a aplicação dos critérios de elegibilidade e da leitura completa dos artigos pré-selecionados, chegou-se ao total de 32 artigos incluídos, que se referem ao corpus da pesquisa.
A seleção dos estudos foi realizada em etapas, conforme recomendado pela literatura e pelo método PRISMA. O fluxograma da Figura abaixo, apresenta o processo completo, desde a identificação inicial até a inclusão final dos estudos (Figura 1).
Figura 1. Processo de seleção de estudos
Depois de coletados os dados iniciaram-se o processo de análise do corpus da pesquisa. Para a análise das informações extraídas, utilizou-se a técnica de Análise de Conteúdo (Bardin, 2016), que permite organizar e interpretar o material coletado de forma sistemática.
O processo foi conduzido em três etapas, que foram: pré-análise, que trata da leitura exploratória de todos os estudos selecionados, com o objetivo de conhecer o conteúdo e organizar o material; codificação que se refere à identificação e agrupamento das informações em unidades de registro, que deram origem às categorias temáticas; e a interpretação dos dados que é a análise aprofundada das categorias, relacionando os achados com o referencial teórico e com os objetivos da pesquisa (Bardin, 2016).
A partir da etapa de codificação, os 32 estudos que compõem o corpus da pesquisa foram agrupados em seis categorias temáticas principais, que orientam a análise dos resultados: (i) Impactos, Desafios e o Novo Perfil do Profissional Contábil; (ii) Ética, Responsabilidade Civil e Confiança; (iii) Adoção, Aceitação e Fatores Humanos; (iv) Educação e Desenvolvimento de Competências; (v) Mapeamento Científico e Agenda de Pesquisa; e (vi) Aplicações Práticas e Setoriais. Essa categorização permitiu organizar o material de acordo com as contribuições centrais de cada artigo, servindo de base para a interpretação dos dados e para a construção das seções seguintes.
Por fim, é importante salientar que por se tratar de uma revisão bibliográfica, que não envolve coleta de dados primários com seres humanos, não houve necessidade de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa. Todos os estudos citados foram devidamente referenciados, respeitando-se as normas de citação acadêmica e os direitos autorais.
Abaixo seguem os trabalhos que compõem o corpus da pesquisa:
Tabela 5. Artigos que compõem o corpus da pesquisa (2022-2026)
Item | Artigo | Autor(es) | Ano |
1 | A responsabilidade civil na era da Inteligência Artificial: automação e a segurabilidade dos riscos. | Alcian Pereira de Souza; Danielle Costa de Souza Simas; Albefredo Melo de Souza Junior; Jeibson dos Santos Justiniano; Vânia Maria do Perpétuo Socorro Marques Marinho; Alessandro de Souza Bezerra; Marcia Cristina Nery da Fonseca Rocha Medina | 2026 |
2 | Contabilidade 4.0: os desafios para profissionais contábeis | Adrian de Jesus Aparecido de Camargo; Gabrielle Pessute dos Santos Montani; Edilson Rodrigues do Prado; José Antônio Marcelino | 2022 |
3 | Inteligência Artificial e contabilidade: análise do estado da arte mediante levantamento bibliométrico | Willian José Barbieri; Giovani Gasperin | 2024 |
4 | Inteligência Artificial e contabilidade: uma aliança estratégica para o Futuro Profissional no Brasil | Palmira Leão de Souza; Angela Zechinelli Alonso; Andrezza Moreira; Carla Cristina Tasso; Ticiane Lima dos Santos | 2023 |
5 | O papel da Inteligência Artificial na contabilidade: desafios e perspectivas para o profissional contábil na cidade de Manaus. | Felipe Bazilio de Araújo; Bartolomeu Miranda Pereira; Antonio Ronaldo Madeira de Carvalho; Manoel Martins do Carmo Filho | 2025 |
6 | Contabilidade 4.0: o profissional contábil frente à contabilidade do futuro. | Emily Silva Guimarães; Pablo Roberto de Assis; Edenilton Santana; Almeciano José Maia Junior; Katianny Gomes Santana Estival; Solange Rodrigues dos Santos Corrêa | 2024 |
7 | Por trás da Inteligência Artificial: uma análise das bases epistemológicas do aprendizado de máquina. | Cristian Arão | 2024 |
8 | AI and the production of truth in accounting practices: a Foucaultian analysis. | Othmar Manfred Lehner | 2026 |
9 | Agentes de IA e ferramentas sem código em contabilidade: estudo de Caso | Miguel Resende | 2025 |
10 | The AI paradox: how AI dependence may erode accounting expertise | Dariusz Jędrzejka | 2026 |
11 | How close is AI to replacing accounting consultants? insights from a comparative study of multiple AI models and exit-level accounting. | Wayne Van Zijl; Kayleigh Burnham; Dusan Ecim | 2026 |
12 | Como a transformação digital afeta os funcionários da área contábil corporativa. | Y. Chen Et Al. | 2024 |
13 | Management accounting and Artificial Intelligence: a comprehensive literature review and recommendations for future research | Khalid Abbas | 2026 |
14 | Towards the Intelligent Automation of accounting research: systemised literature reviews | Monika Lada; Jim Haslam; Bilal | 2023 |
15 | Explorando o impacto de Inteligência Artificial sobre finanças contabilidade: oportunidades, desafios e direções futuras | Ali Khalaf Gatea | 2024 |
16 | Fatores que influenciam a aceitação de Inteligência Artificial: um modelo ampliado de aceitação da tecnologia que incorpora ansiedade e experiência tecnológica | Katarzyna Prędkiewicz; Krzysztof Biegun | 2026 |
17 | Humanos mais IA em contabilidade | Jung Ho Choi; Chloe L. Xie | 2026 |
18 | Impacto da IA na contabilidade: o novo perfil do profissional contábil | Gabriel Osti; Iago Lanza; Ana Claudia Vieira | 2025 |
19 | Impactos da Inteligência Artificial na profissão contábil: desafios e oportunidades para o futuro | João Antonio Garcia da Silva Venegas | 2024 |
20 | Inovações digitais em contabilidade como fatores de crescimento econômico de uma empresa | Liudmyla Hnatyshyn; Oksana Prokopyshyn; Olha Maletska; Taras Keleberda; Kateryna Pylypenko | 2025 |
21 | Artificial Intelligence and accounting research: a framework and agenda | Theophanis C. Stratopoulos; Victor Xiaoqi Wang | 2025 |
22 | Inteligência Artificial na contabilidade: uma análise bibliométrica | Sonia Aparecida Beato Ximenes de Melo; Elivelton Zaquimae Amajunepa; Evelyn Oliveira Cardoso Santos; André Ximenes de Melo; Graziele Oliveira Aragão Servilha; Márcio Íris de Morais | 2024 |
23 | Inteligência Artificial e contabilidade | Ron Weber | 2023 |
24 | Artificial Intelligence in accounting: a comparative analysis of adoption in accounting and non-accounting firms | Khalid Abbas; Federico de Santis; Vegard Kolbjornsrud | 2026 |
25 | Artificial Intelligence in public sector accounting: understanding the drivers of adoption readiness | Natalia Alonso-Morales; Alejandro Sáez-Martín | 2026 |
26 | Navigating the intersection of accounting and Artificial Intelligence: assessing opportunities and risks | Bhumika Gambhir; Neha Gupta; R. Srinivasan | 2023 |
27 | O impacto da Inteligência Artificial e das tecnologias de Big Data na profissão de educadores contábeis | Inta Budi Setya Nusa; Adi Rachmanto; Mahmud Hasan H. Alhilo | 2024 |
28 | Quem fala através da máquina: IA generativa como discurso e suas implicações para a gestão | Gildas Agbon | 2024 |
29 | Respostas de executivos financeiros ao uso de Inteligência Artificial em relatórios financeiros e auditoria | Paige Csere; Cassandra Estep; Emily E. Griffith; Nikki L. Mackenzie | 2024 |
30 | The evolution of accounting practice in the age of Artificial Intelligence: challenges and opportunities for higher education in public accounting | Jose Londoño-cardozo | 2025 |
31 | Bibliometric Analysis of Artificial Intelligence in accounting: trends and future directions | Haykel Tilii | 2025 |
32 | Assessing the impact of AI solutions' ethical issues on performance in managerial accounting | Anca Antoaneta Varzaru | 2022 |
Fonte: Elaborado pelas pesquisadoras (2026).
4. ANÁLISE DOS RESULTADOS
Nesta seção, são apresentados os resultados encontrados na revisão sistemática da literatura. Os 32 artigos selecionados foram organizados em seis categorias temáticas, conforme os critérios definidos na Metodologia. A seguir, são apresentados os estudos de cada categoria, juntamente com uma breve análise dos principais resultados encontrados.
4.1. Impactos, Desafios e o Novo Perfil do Profissional Contábil
Esta categoria reúne os estudos que discutem as transformações no exercício da profissão contábil decorrentes da adoção da Inteligência Artificial, bem como os desafios enfrentados pelos profissionais nesse processo de transição. A Tabela 6 apresenta um panorama dos dezesseis artigos que fundamentam esta análise, relacionando os autores e as respectivas sínteses de cada estudo (Bardin, 2016).
Tabela 6. Síntese dos artigos utilizados na análise dos impactos, desafios e o novo perfil do profissional contábil
Item | Autor(es) | Ano | Síntese |
2 | Camargo; Montani; Prado; Marcelino | 2022 | Discute os desafios da Contabilidade 4.0 e a necessidade de adaptação dos profissionais às novas tecnologias. |
3 | Barbieri; Gasperin | 2024 | Análise bibliométrica do estado da arte da IA na contabilidade, identificando tendências e lacunas de pesquisa. |
4 | Souza; Alonso; Moreira; Tasso; Santos | 2023 | Apresenta a IA como aliada estratégica para o futuro profissional contábil no Brasil. |
6 | Guimarães; Assis; Santana; Maia Junior; Estival; Corrêa | 2024 | Analisa o posicionamento do contador frente à contabilidade do futuro e as competências necessárias. |
10 | Jędrzejka | 2026 | Alerta para o paradoxo da IA: a dependência excessiva pode erodir a expertise e o julgamento profissional. |
12 | Chen et al | 2024 | Evidencia que a transformação digital reduz a proporção de contadores, mas aumenta a demanda por profissionais qualificados. |
13 | Abbas | 2026 | Revisão abrangente sobre IA na contabilidade gerencial, destacando desafios e oportunidades. |
17 | Choi; Xie | 2026 | Demonstra ganhos de produtividade e realocação do esforço humano para tarefas de maior valor agregado. |
18 | Osti; Lanza; Vieira | 2025 | Analisa o novo perfil do profissional contábil diante da IA destacando competências digitais e analíticas. |
19 | Venegas | 2024 | Investiga os impactos da IA na profissão contábil, identificando desafios e oportunidades. |
21 | Stratopoulos; Wang | 2025 | Propõe um framework para pesquisa em IA e contabilidade, mapeando oportunidades e agenda futura. |
22 | Melo et al | 2024 | Análise bibliométrica da produção científica sobre IA na contabilidade, identificando clusters temáticos. |
23 | Weber | 2023 | Discute as implicações da IA para a profissão contábil a partir de uma perspectiva filosófica. |
24 | Abbas; De Santis; Kolbjornsrud | 2026 | Análise comparativa da adoção de IA em firmas de contabilidade e empresas não contábeis. |
27 | Nusa; Rachmanto; Alhilo | 2024 | Investiga o impacto da IA e Big Data na profissão de educadores contábeis. |
30 | Londoño-Cardozo | 2025 | Analisa a evolução da prática contábil na era da IA e os desafios para a educação superior. |
Fonte: Elaborado pelas pesquisadoras (2026).
A presença da Inteligência Artificial também está mudando a forma como o trabalho contábil é realizado e as habilidades que passam a ser necessárias para o profissional. Com a IA realizando parte das tarefas mais repetitivas e operacionais, o contador pode ter mais tempo para atividades que exigem análise, interpretação e acompanhamento dos resultados (Choi; Xie, 2026; Abbas et al., 2026). Londoño-Cardozo (2025) considera essa mudança uma oportunidade para a profissão, pois a digitalização não significa o fim do trabalho do contador, mas pode contribuir para que ele assuma funções mais estratégicas dentro das organizações. Por outro lado, Jędrzejka (2026) chama atenção para o chamado “paradoxo da IA”, que ocorre quando o profissional passa a confiar excessivamente na tecnologia e pode deixar de desenvolver ou utilizar conhecimentos adquiridos com a experiência profissional. Essa situação pode ser ainda mais relevante para os profissionais que estão no início da carreira, que ainda possuem pouca experiência prática. Abbas et al. (2026) também destacam que o uso da IA está modificando a formação das equipes, aumentando a necessidade de profissionais capazes de acompanhar, conferir e validar os resultados produzidos pela tecnologia.
4.2. Ética, Responsabilidade Civil e Confiança
Esta categoria concentra-se nas implicações éticas, jurídicas e de confiança decorrentes do uso da IA na contabilidade, abordando temas como responsabilidade civil, produção da verdade e desafios éticos na delegação de decisões a algoritmos. A Tabela 7 apresenta um panorama dos cinco artigos que fundamentam esta análise.
Tabela 7. Síntese dos artigos utilizados na análise da ética, responsabilidade civil e confiança
Item | Autor(es) | Ano | Síntese |
1 | Souza; Simas; Souza Junior; Justiniano; Marinho; Bezerra; Medina | 2026 | Analisa a responsabilidade civil na era da IA abordando automação e segurabilidade dos riscos. |
8 | Lehner | 2026 | Analisa a produção da verdade nas práticas contábeis a partir de uma perspectiva foucaultiana. |
11 | Van Zijl; Burnham; Ecim | 2026 | Demonstra que a IA supera humanos em tarefas básicas, mas falha na avaliação crítica e identificação de erros. |
26 | Gambhir; Gupta; Srinivasan | 2023 | Avalia oportunidades e riscos da IA na contabilidade, destacando a importância da supervisão humana. |
32 | Varzaru | 2022 | Investiga como as questões éticas da IA impactam o desempenho na contabilidade gerencial. |
Fonte: Elaborado pelas pesquisadoras (2026).
Quando a Inteligência Artificial passa a fazer parte das atividades contábeis, também surgem questões relacionadas à responsabilidade do profissional e à confiança nos resultados apresentados pela tecnologia. Lehner (2026) destaca que, com o uso da IA, a contabilidade pode considerar não apenas os documentos e as informações disponíveis, mas também a forma como os sistemas analisam os dados e apresentam seus resultados. Souza et al. (2026) discutem a responsabilidade civil no contexto da IA considerando os efeitos da automação e os riscos relacionados ao uso dessas ferramentas. Gambhir, Gupta e Srinivasan (2023) também destacam a importância da supervisão humana diante das possibilidades e dos riscos trazidos pela Inteligência Artificial. Van Zijl, Burnham e Ecim (2026) mostram que a IA apresenta bons resultados em tarefas mais simples, mas ainda pode apresentar dificuldades em situações que exigem análise, avaliação e identificação de erros. Varzaru (2022), por sua vez, destaca que fatores como confiança, autonomia e responsabilidade também influenciam a forma como os profissionais utilizam essas ferramentas e entendem seu papel no trabalho contábil.
4.3. Adoção, Aceitação e Fatores Humanos
Esta categoria agrupa os estudos que investigam os fatores que influenciam a aceitação e a adoção da IA por profissionais da contabilidade. A Tabela 8 apresenta um panorama dos três artigos que fundamentam esta análise.
Tabela 8. Síntese dos artigos utilizados na análise de adoção, aceitação e fatores humanos
Item | Autor(es) | Ano | Síntese |
16 | Prędkiewicz; Biegun | 2026 | Identifica que a ansiedade tecnológica é barreira significativa, enquanto a experiência prévia potencializa a aceitação. |
25 | Alonso-Morales; Sáez-Martín | 2026 | Demonstra que a aceitação da IA no setor público é impulsionada pela expectativa de desempenho. |
29 | Csere; Estep; Griffith; MacKenzie | 2024 | Evidencia que executivos financeiros respondem mais favoravelmente a ajustes de auditoria quando ambos usam IA. |
Fonte: Elaborado pelas pesquisadoras (2026).
A forma como os profissionais percebem a Inteligência Artificial também influencia a maneira como essas ferramentas são aceitas e utilizadas no trabalho. Prędkiewicz e Biegun (2026) observaram que o medo e a insegurança em relação às novas ferramentas podem dificultar seu uso. Por outro lado, profissionais que já tiveram contato com ferramentas digitais tendem a lidar com a IA com mais tranquilidade e demonstram maior confiança em sua utilização. Alonso-Morales e Sáez-Martín (2026), ao analisarem o setor público, perceberam que a disposição para utilizar a IA está relacionada à expectativa de que a tecnologia facilite o trabalho e contribua para melhorar a qualidade das informações. Csere et al. (2024) também encontraram um resultado importante: executivos financeiros demonstraram maior abertura para aceitar ajustes de auditoria quando percebiam que tanto a empresa quanto o auditor utilizavam IA. Esse resultado mostra que a confiança na tecnologia também pode estar relacionada à forma como ela é utilizada e à maneira como os profissionais lidam com seus resultados.
4.4. Educação e Desenvolvimento de Competências
Esta categoria enfatiza a necessidade de adaptação dos currículos de Ciências Contábeis e o desenvolvimento de novas competências pelos profissionais. A Tabela 9 apresenta um panorama dos três artigos que fundamentam esta análise.
Tabela 9. Síntese dos artigos utilizados na análise de educação e desenvolvimento de competências
Item | Autor(es) | Ano | Síntese |
5 | Araújo; Pereira; Carvalho; Carmo Filho | 2025 | Analisa a percepção de profissionais de Manaus sobre o papel da IA e os desafios de adaptação. |
9 | Resende | 2025 | Demonstra redução de 75% no tempo de execução de análises com agentes de IA e ferramentas no-code. |
20 | Hnatyshyn; Prokopyshyn; Maletska; Keleberda; Pylypenko | 2025 | Evidencia que inovações digitais na contabilidade são fatores de crescimento econômico para as empresas. |
Fonte: Elaborado pelas pesquisadoras (2026).
As mudanças trazidas pela tecnologia também mostram a necessidade de preparar os profissionais para novas formas de trabalho. Araújo et al. (2025), ao analisarem a percepção de profissionais de Manaus, identificaram que a presença da IA traz desafios de adaptação e exige que os contadores estejam preparados para lidar com essa realidade. Resende (2025) verificou que o uso de agentes de IA junto a ferramentas que não exigem programação pode reduzir em 75% o tempo gasto em tarefas de análise. Hnatyshyn et al. (2025), por sua vez, destacam que as inovações digitais na contabilidade podem contribuir para o crescimento econômico das empresas, reforçando a importância de acompanhar o avanço dessas tecnologias e preparar os profissionais para as novas exigências do trabalho contábil.
4.5. Mapeamento Científico e Agenda de Pesquisa
Esta categoria reúne os estudos que realizam levantamentos bibliométricos, revisões sistemáticas e mapeamentos da produção científica sobre IA na contabilidade. A Tabela 10 apresenta um panorama dos três artigos que fundamentam esta análise.
Tabela 10. Síntese dos artigos utilizados na análise do mapeamento científico e agenda de pesquisa
Item | Autor(es) | Ano | Síntese |
14 | Lada; Haslam; Bilal | 2023 | Demonstra tendência à automação inteligente da pesquisa contábil com uso de big data analytics e IA. |
15 | Gatea | 2024 | Analisa o impacto da IA na contabilidade, identificando oportunidades, desafios e direções futuras. |
31 | Tilii | 2025 | Análise bibliométrica de 475 documentos, identificando três temas principais e lacunas de pesquisa. |
Fonte: Elaborado pelas pesquisadoras (2026).
A produção científica sobre Inteligência Artificial e contabilidade vem crescendo e apresenta diferentes formas de estudar o tema. Tilii (2025), ao analisar 475 documentos, identificou três temas que aparecem com maior frequência nas pesquisas: o uso da IA para melhorar os processos contábeis, os efeitos da tecnologia na auditoria e nos relatórios financeiros e a utilização da IA na área contábil. Lada, Haslam e Bilal (2023) também identificaram um aumento no uso de ferramentas de automação nas pesquisas relacionadas à contabilidade, mostrando que a tecnologia vem ganhando espaço nessa área. Gatea (2024), por sua vez, destaca que a forma como os profissionais aceitam e utilizam a IA está relacionada a questões como ética, confiança na tecnologia e preparo para lidar com essas novas ferramentas.
4.6. Aplicações Práticas e Setoriais
Esta categoria aborda aplicações específicas da IA em contextos determinados, bem como discussões epistemológicas e discursivas sobre a tecnologia. A Tabela 11 apresenta um panorama dos dois artigos que fundamentam esta análise.
Tabela 11. Síntese dos artigos utilizados na análise de aplicações práticas e setoriais
Item | Autor(es) | Ano | Síntese |
7 | Arão | 2024 | Analisa as bases epistemológicas do aprendizado de máquina, explicando limitações como vieses e alucinações. |
28 | Agbon | 2024 | Analisa a IA generativa como discurso e suas implicações para a gestão e a contabilidade. |
Fonte: Elaborado pelas pesquisadoras (2026).
Além dos impactos mais conhecidos da IA, alguns estudos também procuram entender como essa tecnologia funciona e como pode influenciar a forma de pensar e trabalhar na contabilidade. Arão (2024) explica que a IA utiliza dados, estatísticas e modelos matemáticos para analisar informações e chegar a determinados resultados. Esse funcionamento ajuda a entender tanto as possibilidades de uso da tecnologia quanto algumas de suas limitações, como os vieses nos resultados e as chamadas “alucinações”, que acontecem quando a IA apresenta informações incorretas ou que não correspondem à realidade. Agbon (2024) analisa a IA generativa e mostra que seu uso não está relacionado apenas às questões tecnológicas, mas também pode mudar a forma como as empresas trabalham e tomam decisões. O autor destaca ainda que o avanço dessa tecnologia pode trazer reflexos para a responsabilidade pelas decisões e para a própria atuação da contabilidade.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este trabalho teve como objetivo analisar os limites e as implicações da responsabilidade do contador diante do uso da Inteligência Artificial na elaboração de informações e demonstrações contábeis. Para isso, foi realizada uma revisão sistemática da literatura, seguindo o método PRISMA, que resultou na análise de 32 artigos, a partir da Análise de Conteúdo de Bardin.
A partir dos resultados, foi possível perceber que a Inteligência Artificial vem provocando mudanças na profissão contábil, principalmente na realização de atividades repetitivas e operacionais. Com a automação dessas tarefas, o contador passa a ter mais espaço para atividades que envolvem análise, interpretação das informações e apoio à tomada de decisões. Assim, a utilização da IA não representa o fim da profissão contábil, mas uma mudança na forma de atuação do profissional, que passa a ter uma participação maior na análise, validação e supervisão das informações geradas pelos sistemas.
Por outro lado, essa mudança também traz desafios relacionados à responsabilidade do contador. Mesmo com a utilização da Inteligência Artificial, a responsabilidade pelas informações contábeis continua sendo do profissional. A tecnologia pode processar dados de forma rápida e auxiliar na realização de diferentes tarefas, mas não substitui o julgamento profissional, a interpretação das normas contábeis e a análise das características de cada situação. Dessa forma, a IA deve ser entendida como uma ferramenta de apoio ao trabalho do contador, e não como substituta de sua atuação técnica e ética.
Outro ponto observado na análise foi a necessidade de garantir a confiabilidade das informações produzidas com o uso da IA. Os resultados apresentados pelos sistemas dependem da qualidade dos dados utilizados, do funcionamento dos algoritmos e da existência de mecanismos de conferência e validação. Nesse sentido, uma dependência excessiva da tecnologia, sem a devida supervisão do profissional, pode comprometer a qualidade das informações e reduzir a participação do contador no processo de análise. A segurança dos dados também se apresenta como uma preocupação importante, principalmente em relação à proteção das informações, ao controle de acesso e ao acompanhamento dos sistemas utilizados.
Diante disso, entende-se que o uso da Inteligência Artificial na contabilidade deve ocorrer de forma ética, crítica e responsável. O contador precisa participar ativamente desse processo, não apenas utilizando a tecnologia, mas também analisando, questionando e validando os resultados apresentados pelos sistemas. Mesmo diante do avanço da automação, o julgamento profissional, o conhecimento técnico e a observância das normas contábeis continuam sendo fundamentais para garantir a qualidade e a confiabilidade das informações contábeis.
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