A RELEVÂNCIA NA IDENTIFICAÇÃO, DESCRIÇÃO E COMPREENSÃO DO OBJETO DE MARX NO PRIMEIRO VOLUME DE O CAPITAL

THE RELEVANCE OF THE IDENTIFICATION, DESCRIPTION AND UNDERSTANDING OF MARX’S OBJECT IN VOLUME ONE OF CAPITAL

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/787893789

RESUMO
Introdução: Este artigo propõe uma identificação, descrição e análise do objeto de estudo de Karl Marx no primeiro volume de O Capital. Em sua obra principal, O Capital, Marx busca descrever as condições que possibilitam a existência e o crescimento do capital em sua totalidade, contudo, a complexidade e contínuo movimento do mesmo exigem do autor um modus operandi único. O volume 1 d’O Capital destaca-se por descrever categorias abstratas do capital, aplicando-as ao seu movimento e pavimentando o caminho para a análise de suas determinações mais concretas desenvolvidas nos volumes que o sucedem. Este artigo discute tais categorias, acompanhando o percurso do autor para entender a complexidade de seu objeto. Para tanto utiliza-se uma análise sistêmica e do Procedimento de Interpretação Conceitual de Texto (PICT). Discussão: Propõe-se compreender como as categorias mais abstratas descritas inicialmente por Marx, concatenam-se em movimentos complexos desembocando em seu objeto de estudo. Busca-se assimilar como a composição de tais categorias tornam este objeto singular e, de tal modo, como sua abordagem deve ser igualmente singular. Leituras contemporâneas demonstram a importância de compreender o objeto em suas particularidades e seus movimentos, em detrimento de conceitos estáticos e gerais. Conclusão: Sustenta-se que o rigor descritivo objetal do autor não foi uma escolha, mas uma necessidade atrelada às características de seu objeto. Marx ao compreender e singularizar adequadamente seus procedimentos ao objeto estudado, foi capaz de produzir descrições objetais precisas e singulares. Conclui-se que o percurso adotado pelo autor não constitui uma metodologia, mas um percurso específico para as particularidades de seu objeto.
Palavras-chave: Capital; Objeto; Identificação; Descrição; Compreensão.

ABSTRACT
Introduction: This article proposes an identification, description, and analysis of Karl Marx’s object of study in the first volume of Capital. In his major work, Capital, Marx seeks to describe the conditions that enable the existence and growth of capital in its totality; however, its complexity and continuous movement require a unique modus operandi from the author. Volume One of Capital stands out for describing abstract categories of capital, applying them to its movement and paving the way for the analysis of its more concrete determinations developed in subsequent volumes. This article discusses these categories, tracing the author’s trajectory to understand the complexity of his object. To this end, a systemic analysis and the Conceptual Text Interpretation Procedure (CTIP / Procedimento de Interpretação Conceitual de Texto - PICT) are employed. Discussion: The objective is to understand how the more abstract categories initially described by Marx concatenate into complex movements that unfold into his object of study. It seeks to assimilate how the composition of such categories makes this object unique and, consequently, why its approach must be equally singular. Contemporary readings demonstrate the importance of understanding the object through its particularities and movements, rather than through static and general concepts. Conclusion: It is argued that the author’s object-based descriptive rigor was not a choice, but a necessity bound to the characteristics of his object. By properly understanding and adapting his procedures to the object studied, Marx was able to produce precise and unique object-based descriptions. It is concluded that the trajectory adopted by the author does not constitute a methodology, but rather a specific path tailored to the particularities of his object.
Keywords: Capital; Object; Identification; Description; Understanding.

1. INTRODUÇÃO

Em sua obra principal, O Capital, dividida em três volumes, Marx busca descrever criticamente o modo de produção da sociedade capitalista. Bellofiore e Taylor (2004, p. 12) descrevem que tais escritos objetivam compreender as condições que possibilitam a existência e o crescimento do capital e, portanto, apenas uma análise numérica ou padronizada deste objeto não bastaria. A complexidade e contínuo movimento do mesmo exigiam do autor um modus operandi único. Contudo, embora o objetivo de Marx seja a descrição crítica do modo de produção da sociedade capitalista, a definição precisa de seu objeto de estudo é complexa. Reduzi-lo a “sociedade capitalista” ou “o capital” simplifica excessivamente a questão, ocultando tanto a natureza do objeto, quanto a forma de estudo que foi, necessariamente, desenvolvida para descrevê-lo.

O volume um d’O Capital, destaca-se por descrever categorias mais fundamentais e abstratas do capital, pavimentando o caminho para a análise de suas determinações mais concretas desenvolvidas nos volumes que o sucedem. Deste modo, o conteúdo da obra em questão torna-se a melhor fonte de estudos para compreender a estruturação em torno da lógica tanto do objeto marxiano, quanto de como o autor manejou-o. Segundo o autor (MARX, 2011, p. 77), a análise das categorias partiu das categorias concretas, observáveis e se dirigiu às categorias simples, e, então retornou às concretas de forma a compor uma rica totalidade de determinações e relações, sem se pautar, como ponto de partida da análise, na complexidade da materialidade. Deste modo, o trabalho com o volume em que as categorias do autor encontram-se na sua forma mais simples torna-se menos uma escolha e mais uma necessidade.

Ainda assim, definida a obra, por que o objeto e seu manejo por parte do autor seria tão relevante? Marx (2011, p. 84) indica que categorias muito abstratas e genéricas são limitadas para descrever fenômenos concretos. Sendo produtos de relações históricas específicas, a validade destas categorias restringe-se ao interior destas mesmas relações. Portanto, o que o autor realiza, e o que pretende-se demonstrar neste artigo é um modo de agir singular, utilizando-se de níveis de abstrações das categorias do capital, contudo, fazendo isso para expor o movimento do sistema capitalista que, como descrito, parte do complexo, em direção ao simples que retorna ao complexo em unidade (BELLOFIORE; TAYLOR, 2004) .

Para tanto, pretende-se uma pesquisa conceitual, utilizando O Capital como bibliografia principal. Almeja-se uma análise sistêmica, concatenando conceitos e noções em vistas a criar redes conceituais para resultar na identificação, descrição e compreensão do objeto do autor nesta obra. A interpretação do texto será norteada pelo entendimento de que o significado do texto se constrói a partir da inter-relação entre autor, leitor e texto (LAURENTI; LOPES; ARAUJO, 2016, p. 50). O presente artigo utiliza-se do Procedimento de Interpretação Conceitual de Texto (PICT), como descrito por Laurenti, Lopes e Araujo (2016, p. 55) para atingir tais objetivos.

2. DISCUSSÃO

Publicado em 1867, o primeiro volume da obra O Capital, de Karl Marx, objetiva ser uma descrição crítica do modo de produção da sociedade capitalista burguesa. Para executá-la, o autor utiliza-se de categorias que descrevem os fenômenos presentes na sociedade em questão, buscando sua forma mais elementar de existência e permite, então, que estas se desdobrem com base na realidade da sociedade e da teoria disponível, demonstrando o funcionamento e contradições do modelo capitalista.

É primordial, para uma análise que se propõe compreender as características do objeto marxiano, compreender primeiramente como se construiu esta forma de manejo de categorias. Isto pois, compreendendo as especificidades que levaram o autor a desenvolver tão singular percurso, pretende-se compreender as particularidades do objeto que demandou tamanho esforço.

Inicialmente, o autor, observando a realidade da sociedade burguesa, identifica, na complexidade de seu funcionamento, uma coisa fundamental e irredutível: a mercadoria. Segundo Marx (2013, p. 157), a mercadoria individual constitui a forma unitária de um conjunto, que representa a riqueza da sociedade capitalista quando em sua totalidade. O autor ainda define a mercadoria enquanto um objeto externo à um sujeito, que satisfaz as necessidades humanas, de qualquer tipo, por meio de suas propriedades, e é fruto do trabalho humano. 

Duas características compõem este elemento basal da sociedade capitalista, postos em destaque durante a circulação de mercadorias: o valor de uso e o valor de troca. O valor de uso, condicionado pelo corpo da mercadoria, constitui a utilidade da coisa, e se efetiva em seu consumo. Na forma da sociedade burguesa, o valor de uso é uma relação qualitativa e, também, o suporte material para o valor de troca. O qual, por sua vez, caracteriza-se fundamentalmente por uma relação quantitativa na qual os valores de uso são trocados por outros valores de uso. Por fim, o valor de troca existe somente em relação à outra mercadoria, jamais ocorrendo de forma isolada.

Mais à frente na obra, Marx introduz a propriedade socialmente atribuída e validada à mercadoria por meio da qual ela será comparada com as demais:

Consideremos agora o resíduo dos produtos do trabalho. Deles não restou mais do que uma mesma objetividade fantasmagórica, uma simples geleia [Gallerte] de trabalho humano indiferenciado, i.e., de dispêndio de força de trabalho humana, sem consideração pela forma de seu dispêndio. Essas coisas representam apenas o fato de que em sua produção foi despendida força de trabalho humana, foi acumulado trabalho humano. Como cristais dessa substância social que lhes é comum, elas são valores – valores de mercadorias.
Na própria relação de troca das mercadorias, seu valor de troca apareceu-nos como algo completamente independente de seus valores de uso. No entanto, abstraindo-se agora o valor de uso dos produtos do trabalho, obteremos seu valor como ele foi definido anteriormente. O elemento comum, que se apresenta na relação de troca ou valor de troca das mercadorias, é, portanto, seu valor (MARX, 2013, p. 161).

Concebendo os frutos do trabalho como mercadoria, destaca-se a magnitude do valor, em detrimento do valor de uso. Nesse processo, o trabalho introjetado nesta mercadoria, é então, lido como trabalho humano genérico, significando que, o ato laboral específico que produziu aquele objeto específico não tem mais tanta relevância, quanto o fato de ter havido um trabalho em geral. O resultado desta relação é que, este trabalho em geral determina a magnitude do valor em vista a quantidade de trabalho socialmente necessário para produzir a mercadoria em questão.

Da identificação de uma categoria fundamental, Marx permite que elas se desdobrem, através da análise e descrição da realidade da sociedade burguesa, em demais categorias, iniciando o processo descritivo crítico que aqui busca-se esmiuçar. Ainda, contudo, não é possível identificar o objeto com o qual o autor está lidando. Ainda que a mercadoria seja fundamental para a compreensão da referida sociedade, ou que valor e valor de uso sejam categorias que se relacionam à mercadoria de modo a dar início ao movimento da estrutura proposta, quanto mais o autor descreve e amplifica sua rede de categorias, mais é possível compreender que identificar e relacionar categorias é a forma singular de descrever este objeto e não o objeto em si.

Partindo da descrição construída, o autor, então, coloca tais categorias em movimento. Ora, para que o trabalho origine a mercadoria é preciso que ele seja reconhecido como útil. Este fato gera uma dupla relação: as mercadorias só podem confrontar-se entre si se forem qualitativamente distintas e, somente o são, se os trabalhos que as constituírem forem, do mesmo modo, qualitativamente distintos. É justamente da característica qualitativa da mercadoria, assim como, do trabalho que a produziu, de que trata o valor de uso. A magnitude do valor, contudo, trata da quantidade de trabalho, pois ele torna-se reduzido ao trabalho humano simples. Este é o duplo caráter do trabalho que, quando em maior quantidade, produz maior riqueza material, porém tal riqueza material demasiada pode acarretar em queda do preço, ou seja, da expressão monetária do valor.

A forma de valor simples (x mercadoria A = y mercadoria B) origina-se desta relação, por meio da qual Marx demonstra como se faz possível a comparação direta de duas mercadorias, mesmo quando suas naturezas são completamente distintas. Destacam-se, também, as formas de valor total (z mercadoria A = u mercadoria B, ou v mercadoria C, ou w mercadoria D, etc),  e a forma de valor universal (y produto B, z produto C, w produto D = x produto A). Ressalta-se, desta última, o desdobramento em mercadoria universal, a qual pode ser usada como medida de valor para todas as demais mercadorias, e, fundamentalmente, atuando como mercadoria-dinheiro, sendo o ouro, seu maior representante (MARX, 2013, p. 174 - 196).

2.1. A Troca Simples

Incapazes de interação autônoma, as mercadorias dependem da relação entre seus proprietários. Marx (2013, p. 219) define como troca o ato voluntário em que esses sujeitos alienam suas mercadorias mutuamente. Nesta “mudanças de mãos” das mercadorias, elas realizam-se tanto como valores, quanto como valores de uso, no caso do primeiro quando são trocadas, no caso do segundo, quando consumidas. O processo de troca depende desta ordem, pois a grandeza de valor é determinada pelo acúmulo de trabalho (MARX, 2013, p. 162-163) percebido como valor de uso enquanto trabalho útil. Se consumida anteriormente à troca, a mercadoria perde seu valor e não é capaz de ingressar no processo de troca.

Neste ponto da descrição, o sistema, outrora estático, agora mostra-se dinâmico, e o diferencial da descrição marxiana torna-se mais evidente: há um movimento entre as categorias sendo construído. Este movimento desenvolvido pelo autor, calcado essencialmente na descrição da materialidade da sociedade burguesa e na crítica da literatura de economia política até então existente, advém essencialmente da relação existente entre as próprias categorias, sem propor leis gerais, conceitos abstraídos da sociedade em questão ou critérios pressupostos. A base da descrição marxiana é partir da descrição material do modo de produção da sociedade burguesa e, partindo de seu funcionamento, descrevê-la.

Com a repetição das trocas, elas transformam-se em um processo social regular, fazendo com que uma parcela da produção passe à ser, então, destinada à troca. Este processo torna evidente o reflexo do duplo aspecto da mercadoria na produção: o valor de uso, enquanto utilidade para a necessidade imediata e a grandeza do valor, enquanto utilidade para troca. 

Na medida em que múltiplas trocas ocorrem no meio social uma determinada mercadoria acaba por ser excluída enquanto equivalente universal, na qual todas as outras são comparadas, expressando seu valor. Esta mercadoria tornou-se dinheiro (MARX, 2013, p. 222). O preço (forma-dinheiro) de uma mercadoria diferencia-se de sua forma material, corpórea, assim como seu valor, sendo uma representação, uma forma ideal, contudo, está visceralmente ligado ao material real ao qual o dinheiro se constitui. Os resultados acerca da expressão do valor variam, em proporções diferentes, em relação ao material utilizado, como ouro, prata ou cobre.

Os nomes dados às medidas de peso dos materiais usados como dinheiro são separadas das denominações monetárias dos pesos por processos históricos, como introdução de dinheiro em povos pouco desenvolvidos; perda da função de medida de valor, do metal menos nobre para o metal mais nobre, em função do desenvolvimento da riqueza; e falsificação do dinheiro (MARX, 2013, p. 235-236) . Deste modo, o padrão monetário é, por um lado, puramente convencional, mas, por outro, carece de validade universal, sendo necessária sua regulação por lei.

Os preços expressam-se em denominações contábeis legalmente válidas do padrão de medida do ouro. Neste momento, nota-se o quão relevante é a compreensão das especificidades históricas para a análise marxiana. Marx propõe uma forma de descrição da sociedade capitalista; portanto não é prudente, ou sequer possível, estendê-la para compreender quaisquer outros modelos de sociedade.

Ao modelo construído, agora com suas categorias e um movimento, soma-se a caracterização deste dinamismo, descrevendo a troca como metabolismo social, na medida em que ela transfere mercadorias de onde são não valores de uso para onde o são. Isso porque, no momento em que se torna valor de uso, a mercadoria transloca-se da esfera da troca para a do consumo. Marx descreve este processo como:

Inicialmente, as mercadorias entram no processo de troca sem serem douradas, nem açucaradas, mas tal como vieram ao mundo. Esse processo gera uma duplicação da mercadoria em mercadoria e dinheiro, uma antítese externa, na qual elas expressam sua antítese imanente entre valor de uso e valor. Nessa antítese, as mercadorias, como valores de uso, confrontam-se com o dinheiro, como valor de troca. Por outro lado, ambos os polos da antítese são mercadorias, portanto, unidades de valor de uso e valor. (...) A mercadoria é realmente [reell] valor de uso; seu valor se manifesta apenas idealmente [ideell] no preço, que a reporta ao ouro, situado no polo oposto, como sua figura de valor real. Inversamente, o material do ouro vale apenas como materialidade de valor [Wertmateriatur], dinheiro. Ele é, por isso realmente valor de troca. Seu valor de uso aparece apenas idealmente na série das expressões relativas de valor na qual ele se relaciona com as mercadorias a ele contrapostas, como o círculo de suas figuras reais de uso. Essas formas antitéticas das mercadorias são as formas efetivas de movimento de seu processo de troca (MARX, 2013, p. 241-242).

O processo ocorre, neste sentido, por meio de duas metamorfoses, a mercadoria convertendo-se, primeiramente, em dinheiro e, depois, o dinheiro reconverte-se em mercadoria: M-D-M.

O autor, prossegue em sua descrição:

O vendedor tem sua mercadoria substituída pelo ouro, e o comprador tem seu ouro substituído por uma mercadoria. O fenômeno que aqui se evidencia é a mudança de mãos ou de lugar entre a mercadoria e o ouro, entre 20 braças de linho e £2, isto é, sua troca. Mas pelo que se troca a mercadoria? Por sua própria figura geral de valor. E pelo que se troca o ouro? Por uma figura particular de seu valor de uso. Por que o ouro se defronta com o linho como dinheiro? Porque seu preço de £2 ou a denominação monetária do linho já o coloca em relação com o ouro como dinheiro. A alienação [Entäusserung] da forma original da mercadoria se consuma mediante a venda [Veräusserung] da mercadoria, isto é, no momento em que seu valor de uso atrai efetivamente o ouro que, em seu preço, era apenas representado. Desse modo, a realização do preço ou da forma de valor apenas ideal da mercadoria é, ao mesmo tempo e inversamente, a realização do valor de uso apenas ideal do dinheiro, a conversão de mercadoria em dinheiro e, simultaneamente, de dinheiro em mercadoria. Trata-se de um processo bilateral: do polo do possuidor de mercadorias é venda; do polo do possuidor de dinheiro, compra. Ou, em outras palavras, venda é compra, e M-D é igual a D-M (MARX, 2013, p. 246-247).

Portanto, todo o processo da troca envolve 4 extremos e 3 personagens: primeiro o dinheiro se vai de encontro com a mercadoria, enquanto sua figura de valor, analogamente,  o possuidor de dinheiro se defronta com o possuidor de mercadorias. Posteriormente, o dinheiro torna-se o ponto de chegada da primeira metamorfose e o ponto de partida da segunda, e, portanto, o vendedor da primeira “cena” transmuta-se em comprador na segunda, na qual um terceiro possuidor de mercadorias confrontar-se-á com ele enquanto vendedor. Esta totalidade é categorizada por Marx como circulação de mercadorias (Marx, 2013, p. 251).

Postulado o objetivo do autor em uma descrição crítica do modo de produção da sociedade capitalista burguesa, seu objeto de estudo deve se apresentar enquanto fundamento deste modo de produção social e, nesta etapa, Marx traz mais um grau de complexidade à sua exposição. A circulação de mercadorias constitui o movimento fundamental que, como será percebido, caracteriza o modo de produção da sociedade capitalista.

Circulação e troca de mercadorias diferem-se tanto na forma como em essência. Na circulação, B substitui a mercadoria de A, mas A e B não, necessariamente, trocam suas mercadorias de forma mútua. É possível que A e B comprem um do outro, mas essa relação não é condicionada a tal resultado, como ocorre na troca direta. Portanto, por um lado, a circulação de mercadorias expande-se para além do indivíduo e do local que ocorre, por outro, o ciclo de conexões desenvolvido impõe-se como natural e foge ao controle dos seus agentes. 

2.2. A Circulação de Mercadorias

Diferentemente da troca, a circulação não se encerra com a mudança de mãos dos valores de uso. Ao final do processo, o dinheiro não se extingue; ele se precipita em outros pontos da circulação, ocupando espaços deixados pelas mercadorias consumidas, em um ciclo incessante. Enquanto o movimento da mercadoria descreve um ciclo que se inicia e retorna a um ponto como valor de uso, o movimento do dinheiro opera de forma distinta, afastando-se do ponto de origem sem a ele retornar.

Esse movimento contínuo do dinheiro, distanciando-se constantemente de seu ponto de partida, Marx (2013, p. 255) denomina de curso do dinheiro. O autor demonstra, desta forma, que o dinheiro obtido em uma segunda transação não é o mesmo utilizado em uma primeira. Assim, um vendedor que recebe dinheiro por uma venda e, posteriormente, gasta-o em outra, não está operando com as mesmas moedas da transação anterior. O distanciamento constante e a substituição da moeda neste movimento social são os elementos definidores da natureza do curso do dinheiro

O produto gerado pela circulação de mercadorias, portanto, é o dinheiro, como descreve Marx (2013, pp. 289-290), e ele é a primeira forma de manifestação do capital. Todo novo capital insere-se no mercado como dinheiro, que deve transmutar-se em capital mediante um processo de produção e reprodução, no caso, do capital. Deste modo, dinheiro enquanto dinheiro e dinheiro enquanto capital são diferenciados pelo percurso percorrido, o primeiro operando por M-D-M, vendendo para comprar, e o segundo, por D-M-D, comprando para vender.

Este movimento, D-M-D, é a metamorfose do dinheiro em mercadoria e sua subsequente reconversão em dinheiro, tornando a compra, não mais o fim, mas o meio para a venda, obtendo-se ao fim do processo, novamente, o dinheiro. Quando analisada sem seu intermédio, o procedimento inicia-se e termina em dinheiro, D-D, evidentemente que, o dinheiro ao final do processo não almeja ser, quantitativamente, o mesmo que o original, pois, assim sendo, o processo todo careceria de sentido. O dinheiro que retorna pretende ser maior que o originalmente lançado no mercado. Portanto, a forma do processo apresenta-se como D-M-D’, sendo D’= D + ΔD, ou seja, a quantidade inicial adicionada de mais uma parte, esta, denominada por Marx (2013, p. 294) como mais-valor.

O movimento do dinheiro, iniciando-se em um valor, modificando-se com um acréscimo de mais-valor, é quando torna-se forma do capital. O dinheiro, porém, por si só não constitui ou se transforma em capital; ele é apenas a expressão monetária de um processo de valorização O capital consiste, precisamente, no movimento incessante de expansão por meio da adição de mais-valor.

Enquanto na venda para a compra (M-D-M) o resultado do processo é externo a ele (o consumo da mercadoria), aqui, na compra para a venda (D-M-D’), ou seja, no movimento do capital, início e fim tornam-se um: o dinheiro, o valor de troca, um ciclo infinito. Entretanto, a recíproca permanece verdadeira, se o dinheiro que movimenta-se de tal modo torna-se capital, o capital que é usado como dinheiro, ou seja, se retirado da circulação, ele enrijece e estagna como tesouro, não recebendo os acréscimos que lhes são característicos e, portanto, deixando de ser capital.

Quadro 1. Comparação entre Troca Simples e Circulação de Mercadorias (Continua)

Critério de Comparação

Troca Simples

Circulação de Mercadorias

Agentes

Dois agentes

Dois ou mais agentes

Destino do dinheiro

Extingue-se ao final

Precipita-se em outro ponto da circulação

Natureza do processo

Voluntário; visa consumo

Necessário; visa acúmulo de capital

Finalidade do ciclo

Retornar à mercadoria (consumo do valor de uso)

Retorna com montante diferente (valorização do valor)

Fórmula

M-D-M

D-M-D'

Resultado

Consumo

Capital

Fonte: O próprio autor (2026) baseado em Marx (2013)

Diferentemente da troca voluntária anterior, na qual atuavam portadores de dinheiro autônomos, o portador de dinheiro atua aqui como um capitalista consciente. Suas finanças tornam-se o ponto de partida e o destino do ciclo do capital. Sua finalidade subjetiva deixa de ser o consumo dos valores de uso e passa a ser a valorização do valor, obtida através do conteúdo objetivo da circulação, e, somente enquanto este for seu objetivo, é que ele se caracteriza como capitalista, pois encarna o movimento do capital. O valor de uso e o lucro isolado jamais são seu objetivo, este é o incessante movimento de lucro.

Surge, da dinâmica apontada, uma lacuna fundamental: a origem do acréscimo ao valor, o mais-valor. Na circulação, ocorre a simples metamorfose do valor de uso da mercadoria, mantendo-se o mesmo valor, e, portanto, qualquer mudança de valor seria limitada à forma-dinheiro da mercadoria. O autor aponta ainda que a origem do mais-valor não pode ser o fato de alguns venderem mercadorias acima ou comprarem abaixo de seu valor, pois posteriormente, quando os papéis forem invertidos, eles comprariam ou venderiam com alteração, respectivamente, igualando a situação. Segundo Marx (2013, p. 308), o mais-valor não pode advir nem da circulação, tampouco da troca, pois ele não altera o valor em circulação, mas sim, sua distribuição. Havendo mais-valor para um, há menos-valor para outro.

Dado que a circulação não cria o mais-valor, algo fora dela deve originar este acréscimo ao valor da força de trabalho. Contudo, o valor também não pode valorizar-se fora da circulação, pois, nestas circunstâncias, o possuidor de mercadorias relaciona-se apenas com sua própria mercadoria, e nesta relação, como afirma Marx:

No que diz respeito a seu valor, essa relação se limita ao fato de que a mercadoria contém uma quantidade de seu próprio trabalho, quantidade que é medida segundo determinadas leis sociais. Tal quantidade de trabalho se expressa na grandeza de valor de sua mercadoria e, uma vez que a grandeza de valor se exprime em moeda de conta, num preço de, por exemplo, £10. Porém, seu trabalho não se expressa no valor da mercadoria acompanhado de um excedente acima de seu próprio valor, num preço de £10 que é, ao mesmo tempo, um preço de £11, isto é, num valor que é maior do que ele mesmo. O possuidor de mercadorias pode, por meio de seu trabalho, criar valores, mas não valores que valorizam a si mesmos (MARX, 2013, p. 310-311).

Deste modo, nota-se uma dupla negativa: o capital não pode ser gerado na circulação, contudo tampouco o pode fora dela. Resta apenas uma origem igualmente dual, precisa ser originado dentro e fora da circulação ao mesmo tempo. A mudança de valor pode, tampouco, ocorrer no mesmo dinheiro que recebe o acréscimo, pois este apenas realiza o preço da mercadoria. Ela também não pode ocorrer como produto da revenda (segunda metamorfose), pois ela é somente a mudança da forma natural da mercadoria em sua forma-dinheiro. Portanto, deve ocorrer na primeira etapa, D-M, mas não em seu valor, pois a troca ainda deve ser entre equivalentes.

Esta mudança de valor deve ocorrer no valor de uso como tal, portanto, em seu consumo. A única forma de extrair valor do consumo é o possuidor de mercadorias encontrar uma mercadoria cujo valor de uso é  capaz de produzir valor, ou seja, uma mercadoria que, ao ser usada, seja fonte de valor. Esta mercadoria apresenta-se como a capacidade ou a força de trabalho, definida pelo autor como as capacidades físicas e mentais corpóreas da vida de uma pessoa, posta em movimento sempre que produz valores de uso (MARX, 2013, p. 312). E, como toda mercadoria, o valor da força de trabalho é determinado pelo trabalho socialmente necessário para sua produção, ou seja, para sua reprodução.

O tempo necessário para produzir a força de trabalho é o tempo de trabalho socialmente necessário para produzir os meios de sua subsistência. A quantidade destes meios deve manter o trabalhador em condições de sustentar o constante desempenho de trabalho e, diferentemente de outras mercadorias, faz-se necessário perpetuar esta força de trabalho, repondo as mortas ou gastas, tendo em vista a mortalidade do trabalhador. Os meios de subsistência devem, portanto, incluir a capacidade de gerar seus filhos.

A magnitude do valor da força de trabalho já encontra-se definida quando ela adentra a circulação, visto que uma quantidade de trabalho foi despendida para sua produção, porém, o valor de uso desta mercadoria só é presente na sua exteriorização (o ato de trabalhar). Consequentemente, a alienação da força de trabalho e sua exteriorização são temporalmente apartadas, fazendo com que o dinheiro caracterize-se como meio de pagamento. Portanto, o trabalhador adianta ao capitalista o valor de uso de sua força de trabalho, sendo pago por ela somente depois de já tê-la exercido pelo período fixado no contrato da compra. Deriva-se desta dinâmica que o consumo da força de trabalho produz, simultâneamente, a mercadoria e o mais-valor, outrossim, o consumo da força de trabalho, como toda mercadoria, localiza-se fora da circulação ou do mercado.

2.3. A Reprodução do Capital

Ainda que o mercado, como descrito outrora, não dependa mais da vontade de seus agentes, as mercadorias permanecem seres inertes, portanto, faz-se necessário compreender como se reproduzem os agentes que as põem em movimento. O trabalhador, como apontado, produz tanto o mais-valor, quanto o fundo de seu próprio pagamento, antes que retorne à ele sob forma de salário. Este retorno contínuo ao trabalhador sob a forma-salário é apenas uma parte do produto continuamente produzido pelo próprio trabalhador, como demonstrado. Portanto, sob esta forma-salário a classe capitalista entrega à classe trabalhadora, títulos de seu próprio trabalho, os quais são utilizados para sobrevivência desta classe, obtendo produtos de sua subsistência.

Desta forma, o trabalhador é forçado a utilizar o salário, que equivale à magnitude de valor de sua força de trabalho, para consumir seus meios de subsistência, retornando esta parcela à classe capitalista. Seu consumo, portanto, opera em via dupla, ele consome meios de produção em seu trabalho, transformando-os em valor maior que o capital constante adiantado, o chamado consumo produtivo, por outro lado, no consumo individual, ele gasta o dinheiro pago pela compra da força de trabalho para subsistir.

A classe capitalista, ao converter capital em força de trabalho, valoriza-o com a exploração da força de trabalho e, por meio da venda da mercadoria, realiza a valorização, pois a compra dos meios de subsistência retornará esta parcela da produção ao capitalista enquanto classe. Neste sentido, o consumo individual da classe trabalhadora é a reconversão dos meios de subsistência, alienados pelo capital em troca de força de trabalho, em nova força de trabalho à ser explorada, sendo a reprodução do próprio trabalhador (MARX, 2013, p. 788). Desdobra-se disso que todo consumo do trabalhador que seja para seu mero prazer é improdutivo, pois não implica na perpetuação do trabalhador enquanto classe, devendo ser, da perspectiva do capitalista, desincentivado.

Desaparece, portanto, o cenário de escolha de compra e venda. O trabalhador é forçado a retornar constantemente ao mercado, enquanto vendedor de sua própria força de trabalho, convertendo seu produto em meio de compra, isso pois sua sobrevivência depende disso. O capital, deste modo, detém o trabalhador antes mesmo que essa venda sua força de trabalho ao capitalista e, a renovação periódica da venda de si mesmo, assim como as mudanças constantes de preços que a acompanha, mascara esta coerção estrutural. Observa-se que o processo de produção e reprodução capitalista não produz apenas o mais-valor, mas também a própria relação da sociedade capitalista: de um lado a classe capitalista e do outro a classe trabalhadora.

Figura 1. Produção e Reprodução do Sistema Capitalista

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Fonte: O próprio autor (2026) baseado em Marx (2013)

Torna-se claro, finalmente, o objeto de Marx no primeiro volume de O Capital: o incessante movimento do capital que produz a si mesmo, estrutura a produção da sociedade burguesa e define seus agentes. Compreender essa relação exige apreender a natureza do objeto marxiano. O objeto não é moldado pelo método; contrariamente, é o objeto que impõe sua forma de manejo. Não se busca, portanto, definir o objeto por conceitos abstratos ou estáticos. O objetivo é fundamentar categorias dinâmicas a partir da descrição real do modo de produção da sociedade capitalista. Deste modo, permite-se que a lógica do capital construa seu funcionamento, tal qual ocorre na realidade.

O autor, neste sentido, não propõe um método, isto é, uma forma de análise de qualquer objeto, um caminho a se seguir para chegar a descrições concretas. Ele propõe uma forma de descrever um objeto em específico, que possui um movimento específico, e que, dentro destas especificidades, pode ser analisado a partir da identificação e do movimento de suas categorias internas. Marx não escolhe esta forma de descrever a sociedade capitalista; antes, não podia fazê-lo senão por este caminho, tamanha a singularidade de seu objeto de estudo. Do mesmo modo, não se pode realizar uma análise fragmentada da obra, visto que, como aponta Carcanholo (2011, p. 22), a teoria do valor, ou teoria dialética do valor-trabalho é ela mesma a teoria de Marx quanto ao modo de produção da sociedade capitalista, incluindo aspectos econômicos e não econômicos, pois não se consegue realizar esta divisão arbitrária para analisar este objeto.

3. CONCLUSÃO

O objetivo deste artigo foi identificar o objeto de Marx no primeiro volume de O Capital, descrevê-lo e analisá-lo, de modo a compreender quais os motivos que levaram o autor a percorrer o caminho específico necessário para manusear tal objeto. Neste sentido, a compreensão do objeto marxiano - o próprio movimento de produção e reprodução do capital - não se dissocia da exposição desenvolvida na obra. As categorias, ao se desdobrarem das mais abstratas para mais concretas, movimentando-se, revelam o objeto em sua totalidade apenas quando percorridas conforme a descrição desenvolvida pelo autor.

Pretendeu-se demonstrar que o objeto de Marx não se restringe a uma categoria isolada, ou um conceito estático de capital, mas trata-se do movimento  que constitui o modo de produção da sociedade capitalista. Consequentemente, tornam-se inadequadas metodologias pautadas em abstrações universais e padronizações, visto que tais abordagens falham em descrever a relação material específica que a obra busca descrever (MARX, 2011, p. 84). Deste modo, parte-se para uma análise que limita-se à compreensão deste objeto em específico, calcado em suas relações particulares, como elas se constroem e se reconstroem nesta sociedade.

Compreende-se, outrossim, que, enquanto o movimento - objeto - permanecer na sociedade, a análise em questão permanecerá válida. Está questão é fundamental, também, pois, aos que entendem que o ponto central da análise marxiana seria um conceito específico e estático, quando ele sofresse as alterações devidas do tempo, a descrição crítica proposta talvez, de fato, tornar-se-ia desatualizada. Pretendeu-se demonstrar, contudo, ser o exato oposto. O foco no movimento destas categorias encadeadas, permite que a leitura se adeque à manifestação daquelas categorias para aquele período, contanto que estejamos, ainda, falando da sociedade capitalista, que é onde este movimento ocorre.

Nesse sentido, Carcanholo (2011, p. 19) sustenta que a dinâmica do capital financeiro contemporâneo evidencia algo como uma maturidade do movimento autônomo descrito por Marx. Para o autor, o capital - que instrumentaliza o capitalista para garantir sua perpetuação ao materializar-se no dinheiro - encontra no cenário atual a expressão de seus fundamentos originais. Trata-se, portanto, de um desdobramento da lógica de reprodução do valor descrita no século XIX, e não de uma ruptura com sua natureza material.

As características de movimento descritas por Marx permanecem. Contudo, na atualidade, marcada pela hegemonia do capital financeiro, acentua-se a aparência de abstração do capital, distanciando-o de sua base material direta. Não significa dizer, contudo, que o capital tenha se tornado imaterial. O que se observa hoje não é, portanto, uma ruptura com a necessidade de materialidade, mas uma mediação cada vez mais complexa que mascara a exploração fundamental que sustenta o sistema. Tal leitura somente torna-se viável ao reconhecer como objeto do autor, justamente, este movimento descrito.

Leituras sociais contemporâneas tentam compreender o dinamismo social cada dia mais frenético, mais desgastante, mais exaustivo, como se uma “força sobrenatural” forçasse o rumo da humanidade ao abismo do desgaste e do esgotamento. Tais análises, contudo, descartam, sob o pretexto de estar obsoleto, a leitura marxiana do movimento capitalista, como se tal análise coubesse, apenas, para a sociedade pós-revolução industrial. 

Enquanto isso ocorre, os sintomas apresentados pelo mundo contemporâneo refletem perfeitamente o movimento do capital que, como descrito por Marx (2013, p.789), limita-se à destinar aos trabalhadores apenas o necessário para a reprodução da força de trabalho, limitando ao máximo o consumo improdutivo. O capital que descreve Carcanholo (2011, p. 19), que mascara sua necessidade de base material - sobre a qual será viabilizada a exploração - é justamente a causa da pressão social, que quase que coincidentemente, direciona a humanidade para o ápice do desgaste e da “produtividade”.

Este erro evidente de leitura de contexto é, fundamentalmente, um erro de entendimento de objeto. A análise d’O Capital enquanto um texto datado, ultrapassado e sem qualquer ligação com a realidade presente somente pode ser concebida por aquele que não compreende as bases epistemológicas da qual parte Marx em sua análise. 

Postular a descrição marxiana como datada ou ineficaz atualmente seria admitir que a dinâmica descrita de reprodução do capital - ou seja, o próprio objeto do autor - deixou de ser a espinha dorsal da sociedade atual, o que, seria, por consequência, conceber uma sociedade não mais capitalista. O movimento pode ter, como aponta a literatura atual, tomado outros caminhos para se concretizar, mas ele ainda permanece, reproduzindo a classe capitalista e a classe trabalhadora, o capital permanece sendo a centralidade dos objetivos transacionais desta primeira, e a sobrevivência permanece sendo o objetivo da segunda.

Identificar o objeto de estudo de Marx é fundamental para apreender a extensão e profundidade de sua obra. Para tal, é necessário compreender todo o movimento de categorias construído, de modo que, para compreender a peça central desta obra, faz-se necessário compreendê-la por completa, não sendo viável reparti-la ou selecionar conceitos e categorias específicas e, com base nelas, deslocadas de seu contexto e relação com as demais, buscar compreender a descrição crítica do autor (Peto, 2025).

Naturalmente que o modelo utilizado pelo autor limita-se ao seu objeto. Não pretende-se alegar que tal modelo de descrever e analisar um objeto deva, ou possa, ser transferido diretamente para demais objetos. O mecanismo desenvolvido por Marx para conduzir seu estudo sobre a sociedade burguesa limita-se a tal. Demonstra, sim, a necessidade de compreender seu objeto para poder descrevê-lo com rigor. Contudo, esta abordagem não pretende ser uma regra geral, ou metodologia no sentido de caminho lógico a se seguir identicamente para todos os objetos trabalhados, mas uma forma de tratar deste objeto específico.

DECLARAÇÃO DE USO DE IA

O autor informa que utilizou ferramentas de inteligência artificial para sugestões de melhorias estéticas no Quadro 1, na Figura 1 e para correções ortográficas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

______. O capital: crítica da economia política: Livro I: o processo de produção do capital. Tradução de Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2013.

BELLOFIORE, Riccardo; TAYLOR, Nicola (ed.). The Constitution of Capital: Essays on Volume I of Marx's Capital. Houndmills; New York: Palgrave Macmillan, 2004.

CARCANHOLO, Reinaldo A. (org.). Capital: essência e aparência. 1. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2011. v. 1.

LAURENTI, Carolina; LOPES, Carlos E.; ARAUJO, Saulo F. Pesquisa Teórica em Psicologia: Aspectos Filosóficos e Metodológicos. [S. l.]: Hogrefe, 2016.

MARX, Karl. Grundrisse: manuscritos econômicos de 1857-1858: esboços da crítica da economia política. Tradução de Mario Duayer e Nélio Schneider. São Paulo: Boitempo; Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2011.

PETO, Lucas Carvalho. A crítica de Marx ao “método econômico-metafísico” em Miséria da Filosofia (1847). Germinal: marxismo e educação em debate, v. 17, n. 1, p. 271–287, 2025. DOI: 10.9771/gmed.v17i1.64474


1 Graduado em psicologia pela Faculdade de Ciências e Letras - Unesp, Campus de Assis. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail