A PRAGMÁTICA COMO FERRAMENTA PARA O ENSINO DE INTERPRETAÇÃO DE TEXTO EM LÍNGUA PORTUGUESA

PRAGMATICS AS A TOOL FOR TEACHING TEXT INTERPRETATION IN THE PORTUGUESE LANGUAGE

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/792103381

RESUMO
O ensino da leitura e da interpretação de textos no Ensino Fundamental ainda se mostra fortemente voltado à gramática e à decodificação literal, o que limita o desenvolvimento de leitores críticos e reflexivos. Essa realidade motivou a presente pesquisa, cuja questão norteadora indaga de que maneira os conceitos da Pragmática podem contribuir para aprimorar o ensino da interpretação textual. O estudo tem como objetivo geral analisar como implicatura, pressuposição e intencionalidade discursiva podem ser incorporadas às práticas de leitura em sala de aula, buscando desenvolver a competência leitora dos estudantes. Amparada teoricamente em Fiorin (2010) e Pinto (2004), a pesquisa, de natureza qualitativa e caráter bibliográfico e documental, analisa livros didáticos de Língua Portuguesa, aprovados pelo PNLD. Os resultados indicam que, embora os materiais apresentem gêneros textuais que exigem conhecimentos pragmáticos como tirinhas e charges, não exploram explicitamente esses conceitos. Assim, constata-se a importância de integrar a Pragmática ao ensino da língua, favorecendo a leitura contextualizada, crítica e significativa.
Palavras-chave: Pragmática; Ensino de Língua Portuguesa; Ensino Fundamental; Leitura crítica.

ABSTRACT
The teaching of reading and interpretation of texts in Elementary School is still strongly focused on grammar and literal decoding, which limits the development of critical and reflective readers. This reality motivated the present research, whose guiding question asks how the concepts of Pragmatics can contribute to improve the teaching of textual interpretation. The general objective of the study is to analyze how implicature, presupposition and discursive intentionality can be incorporated into reading practices in the classroom, seeking to develop students' reading competence. Theoretically supported by Fiorin (2010) and Pinto (2004), the research, of a qualitative nature and bibliographic and documentary character, analyzes Portuguese language textbooks approved by the PNLD. The results indicate that, although the materials present textual genres that require pragmatic knowledge such as comic strips and cartoons, they do not explicitly explore these concepts. Thus, the importance of integrating Pragmatics into language teaching is verified, favoring contextualized, critical and meaningful reading.
Keywords: Pragmatics; Portuguese Language Teaching; Elementary School; Critical reading.

1. INTRODUÇÃO

Incentivar a leitura crítica entre crianças e adolescentes tornou-se uma das necessidades mais urgentes da educação atual e um grande desafio enfrentado, especialmente quando colocamos nosso olhar no ensino de Língua Portuguesa, na qual percebemos como o ensino ficou mecânico e apenas focado em uma nota no final. Percebe-se, nas salas de aula dos Anos Finais, a dificuldade por parte dos alunos em interpretar sentidos implícitos, identificar as intenções e realizar inferências, capacidades fundamentais para uma leitura crítica e para um novo olhar diante da sociedade. Na maior parte dos casos, certos impedimentos estão relacionados às abordagens centradas apenas na estrutura gramatical e no significado literal das palavras, não considerando seus aspectos contextuais e interacionais na linguagem, que a Pragmática leva em consideração.

Nesse cenário, a Pragmática, um ramo da Linguística que estuda o uso da linguagem em contextos reais de comunicação, se mostra uma ferramenta teórica e metodológica poderosa para entender não só o significado das palavras, mas também os efeitos de sentido gerados pela interação entre enunciador e interlocutor. O estudo de implicatura, pressuposição, Atos de Fala e do princípio de cooperação permite a formação de leitores que compreendem os efeitos de sentido que vão além do nível explícito das palavras. Isso os capacita a analisar ironias, subentendidos e outros aspectos fundamentais para uma leitura crítica e esclarecedora. Assim, o presente artigo tem por objetivo geral analisar de que maneira os conceitos pragmáticos mencionados podem ser incorporados ao ensino da interpretação textual, visando ao aprimoramento dos estudantes do Ensino Fundamental II, e contribuindo para que ingressem no Ensino Médio com uma nova construção da competência leitora.

O interesse por esta temática surgiu a partir da trajetória da pesquisadora como professora estagiária de Língua Portuguesa, dos anos finais do Ensino Fundamental, em que percebi, na prática, os limites das abordagens tradicionais da leitura. Vivenciei situações em que os estudantes demonstravam dificuldades em compreender textos com ironias, ambiguidade ou intencionalidade implícita especialmente em gêneros como tirinhas, memes, crônicas, o que me levou a ir além do que estava apenas nos livros didáticos. Durante a minha formação em Letras, especificamente na disciplina de Semântica, tive contato com os fundamentos da Pragmática e passei a compreender de forma mais sistematizada os desafios enfrentados no processo de ensino-aprendizagem da leitura inferencial. A escolha do tema, portanto, parte de uma inquietação profissional e de uma convicção pessoal quanto à importância de um ensino de língua mais crítico, contextualizado e reflexivo.

A relevância desta pesquisa manifesta-se em diferentes dimensões. Em nível pessoal e profissional, ela representa a consolidação de uma prática docente comprometida com a formação de leitores autônomos e conscientes. Em nível social, busca-se colaborar com a superação de um ensino centrado na decodificação, contribuindo para práticas pedagógicas que promovam o protagonismo leitor dos estudantes. No contexto acadêmico, a pesquisa busca suprir deficiências formativas ao integrar, de maneira organizada, os princípios da Pragmática à didática da leitura no Ensino Fundamental, auxiliando os professores.

Assim, o estudo adota uma abordagem qualitativa de natureza exploratória e interpretativa. Como instrumentos metodológicos, serão empregadas a revisão bibliográfica, fundamentada em autores como Fiorin (2010), Pinto (2004) e Grice (1982), e a análise documental de livros didáticos de Língua Portuguesa usados no 7º e 8º anos do Ensino Fundamental, das editoras Ática e SM. O objetivo é analisar como os conceitos da Pragmática aparecem (ou não) nas atividades de leitura propostas e, com base nessa análise, propor estratégias didáticas que estimulem uma interpretação mais crítica e inferencial dos textos.

O presente artigo está organizado em seis seções principais. Após esta introdução, a fundamentação teórica é dividida em três seções específicas: a primeira apresenta um breve histórico da Pragmática; a segunda aborda os Atos de Fala e o princípio de cooperação, conceitos essenciais para a compreensão do uso da linguagem em contextos comunicativos; e a terceira discute o ensino de Língua Portuguesa a partir da perspectiva Pragmática. A seção metodológica descreve a abordagem qualitativa adotada, bem como os procedimentos utilizados na análise documental. Na sequência, a seção de análise e discussão dos dados é subdividida em três subtópicos: os critérios de análise, a discussão dos resultados e a proposta de uma sequência didática elaborada a partir das observações realizadas. Por fim, as considerações finais retomam os pontos centrais da pesquisa, destacando suas contribuições para o ensino da Língua Portuguesa e sugerindo desdobramentos futuros.

Esta pesquisa tem como objetivo contribuir significativamente para a formação de leitores mais críticos e sensíveis às nuances da linguagem; especialmente, no âmbito local, em que o ensino de leitura ainda é caracterizado por abordagens fragmentadas e pouco interativas. Este estudo, ao sugerir uma combinação entre a teoria Pragmática e a prática pedagógica, contribui para o esforço de criar uma educação linguística mais relevante, que considera contexto e a intenção.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

A seção está estruturada em três eixos principais. O primeiro traça um breve panorama histórico da Pragmática, desde suas origens filosóficas até sua consolidação como campo autônomo da Linguística. O segundo discute os Atos de Fala e o princípio de cooperação como instrumentos centrais para a construção de sentido nas interações linguísticas. Por fim, o terceiro aborda a aplicação desses fundamentos no ensino da Língua Portuguesa, destacando como a perspectiva Pragmática pode potencializar o desenvolvimento da competência leitora e a formação de leitores críticos.

2.1. A Constituição da Pragmática Como Campo de Estudo Linguístico

A Pragmática surgiu no século XX como uma área complementar aos estudos estruturais e gerativistas, voltando-se especificamente para os aspectos contextuais e interacionais da linguagem que aqueles modelos não priorizavam, que se mostravam insuficientes para explicar os diversos significados atribuídos às palavras em contextos reais de uso. Ao deslocar o foco da linguagem como sistema para a linguagem como ação situada, a Pragmática deu início a uma nova maneira de compreender os sentidos e as relações comunicativas (Fiorin, 2010).

Inicialmente, a Pragmática esteve associada aos estudos da enunciação. Com o tempo, passou a tratar da linguagem em seu contexto de uso, considerando as relações entre o que é dito, como é dito e em que circunstâncias. Essa abordagem privilegia a intenção do falante, o conhecimento compartilhado entre os interlocutores e os efeitos de sentido inferidos a partir do contexto, estabelecendo uma ruptura com os modelos que valorizavam apenas a dimensão formal da linguagem.

Segundo Plaza Pinto (2004, p. 47–48):

Haberland & Mey (1977), editores do Journal of Pragmatics, na primeira edição desse periódico, afirmam que a Pragmática analisa, de um lado, o uso concreto da linguagem, com vistas em seus usuários e usuárias, na prática linguística; e, de outro lado, estuda as condições que governam essa prática. Assim, em primeiro lugar, a Pragmática pode ser apontada como a ciência do uso linguístico.

As contribuições de Austin e Searle, com a Teoria dos Atos de Fala, e de Grice, com a Teoria das Implicaturas Conversacionais, foram fundamentais para a consolidação do campo. Tais autores demonstraram que a linguagem não apenas descreve o mundo, mas também realiza ações e estabelece relações sociais, sendo atravessada por estratégias, inferências e intenções (Pinto, 2004; Fiorin, 2010).

2.2. Atos de Fala e Princípio de Cooperação

Entender um texto necessita mais do que a decodificação de sua estrutura gramatical: exige a capacidade de interpretar intenções, inferir sentidos implícitos e reconhecer a linguagem como prática social. Nessa perspectiva, a Teoria dos Atos de Fala e o Princípio de Cooperação, desenvolvidos pela Pragmática, contribuem significativamente para ampliar a competência interpretativa no ensino de Língua Portuguesa.

Segundo Austin, ao utilizarmos a linguagem, não apenas descrevemos fatos, mas também realizamos ações. Essas ações são classificadas em três níveis: o ato locucionário (relativo ao conteúdo literal da enunciação), o ato ilocucionário (intenção do falante, como afirmar, ordenar ou prometer) e o ato perlocucionário (efeitos provocados no interlocutor). Essa compreensão transforma a leitura em um processo de interação, em que o contexto e os objetivos comunicativos são elementos centrais (Fiorin, 2010).

Segundo Fiorin, a Linguística convencional considerava as afirmações apenas como descrições de estados de coisas, passíveis de serem verdadeiras ou falsas. No entanto, Austin demonstra que há dois tipos de afirmações: as constativas, que descrevem estados de coisas, e as performativas, que não descrevem nada e, portanto, não são nem verdadeiras nem falsas, mas realizam ações ao serem enunciadas.

Segundo Fiorin (2010, p. 170):

Até então, a Linguística pensava que as afirmações serviam para descrever um estado de coisas e, portanto, eram verdadeiras ou falsas. [...] Toma, então, certos enunciados na forma afirmativa, na primeira pessoa do singular do presente do indicativo da voz ativa, com as seguintes características: a) não descrevem nada e, por conseguinte, não são nem verdadeiros nem falsos; b) correspondem, quando são realizadas, à execução de uma ação. A essas afirmações vai chamar performativas. Quando se observa uma frase como ‘Ordeno que você saia daqui’, verifica-se que o ato de ordenar se realiza ao se enunciar a afirmação.

Além disso, o filósofo Paul Grice contribui para a compreensão do funcionamento da linguagem na interação verbal ao propor o Princípio de Cooperação, que organiza a comunicação com base em quatro máximas: quantidade (fornecer informação suficiente, nem mais nem menos), qualidade (dizer a verdade, evitando afirmar o que se sabe ser falso ou sem evidência), relação (ser relevante para o contexto da interação) e modo (ser claro, evitando ambiguidades e obscuridades). A violação intencional dessas máximas pode produzir efeitos como ironia, humor ou subentendidos, levando o interlocutor a recorrer ao contexto para inferir o sentido pretendido (Grice apud Fiorin, 2010).

A Pragmática também explica como certos conteúdos implícitos são transmitidos nos enunciados por meio de pressupostos e subentendidos. Os pressupostos são informações veiculadas pelo próprio enunciado e assumidas como verdadeiras pelo falante e pelo ouvinte, independentemente da situação concreta. Por exemplo, ao dizer “Pedro parou de comer doce”, está explícito que ele não come doce atualmente, mas pressupõe-se que ele comia antes. Já os subentendidos dependem do contexto comunicativo e permitem que o falante sugira algo sem se comprometer diretamente; por exemplo, ao afirmar “Alguns alunos finalmente entregaram a atividade”, o falante sugere que a maioria não o fez, sem declarar isso de modo explícito (Fiorin, 2010).

Essas noções, quando aplicadas ao ensino, tornam-se ferramentas poderosas para desenvolver a competência Pragmática dos estudantes. Ao compreender que a linguagem é ação e construção de sentido, os alunos passam a interpretar os textos com maior criticidade, reconhecendo os efeitos de sentido gerados por intenções, contexto e inferências implícitas, desenvolvendo, assim, uma leitura mais completa e interativa.

2.3. O Ensino de Língua Portuguesa na Perspectiva da Pragmática

O ensino de Língua Portuguesa, sobretudo no Ensino Fundamental, tem buscado se atualizar diante das transformações sociais, tecnológicas e comunicativas da contemporaneidade. No entanto, embora a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) proponha o trabalho com diversos gêneros textuais e semióticos como tirinhas, charges, HQs, memes e gifs, sua abordagem ainda se mostra insuficiente para promover uma leitura verdadeiramente crítica e inferencial, pois carece de uma perspectiva Pragmática sistematizada.

Nos componentes curriculares voltados aos anos finais do Ensino Fundamental, a BNCC prevê habilidades como a EF69LP05 que orienta o aluno a inferir e justificar efeitos de humor e ironia em textos multissemióticos. Ainda que essa habilidade exija certo grau de inferência, o documento não explicita, em nenhum momento, fundamentos teóricos da Pragmática, como implicatura, pressuposição ou intencionalidade discursiva. Essa ausência revela uma lacuna formativa importante: a capacidade de compreender os sentidos implícitos e os efeitos de linguagem gerados nas relações entre texto, contexto e intenção do enunciador.

Como destacam Pinto (2004) e Fiorin (2010), a linguagem só pode ser plenamente compreendida se considerada em uso, no contexto da interação comunicativa. Assim, ensinar Língua Portuguesa com base em uma abordagem Pragmática significa ir além da gramática e da estrutura textual para explorar a dimensão interacional da linguagem aspecto essencial para a leitura de gêneros que circulam com frequência no cotidiano dos estudantes, como memes, tirinhas e charges cuja força de sentido está, muitas vezes, no não dito, na ironia ou na ambiguidade.

Ao incorporar a Pragmática no ensino da leitura e da interpretação textual, especialmente nos anos finais do Ensino Fundamental, o professor oferece aos alunos ferramentas para compreender os múltiplos sentidos que um texto pode assumir em diferentes contextos. Isso é particularmente relevante quando se trabalha com textos multimodais como os indicados pela própria BNCC que exigem sensibilidade à linguagem verbal e não verbal, às inferências culturais e aos efeitos de sentido provocados por imagens, linguagem coloquial ou jogos de palavras.

Na seção seguinte, discutimos a proposta metodológica da pesquisa.

3. METODOLOGIA

Esta pesquisa se encontra como um estudo bibliográfico de cunho qualitativo, com caráter exploratório e interpretativo, orientado pela análise crítica de materiais teóricos e didáticos. A proposta é compreender como os conceitos da Pragmática podem ser aplicados no ensino da leitura, contribuindo para o desenvolvimento da competência interpretativa dos estudantes.

3.1. Caracterização da Pesquisa

A presente pesquisa adota uma abordagem qualitativa, considerando que os fenômenos linguísticos e educacionais envolvem dimensões subjetivas, culturais e interpretativas que não podem ser quantificadas. Além disso, trata-se de uma pesquisa bibliográfica, fundamentada em fontes teóricas e materiais didáticos amplamente utilizados no contexto escolar brasileiro.

Como explica Paiva (2019, p. 59-60),

Trato da pesquisa bibliográfica entendida prioritariamente como revisão de literatura e parte essencial de qualquer modalidade de pesquisa. A pesquisa bibliográfica tem por objetivo contextualizar uma pesquisa e mostrar o que já existe sobre o objeto investigado. [...] A pesquisa bibliográfica é um tipo secundário porque utiliza estudos já publicados em livros e artigos acadêmicos, além de informações encontradas em relatórios, podcasts, páginas na web, blogs, vídeos, bancos de dados, apresentações digitais, gravações de palestras, folhetos etc. Mas ela vai além da mera busca de informações e não é uma simples compilação dos resultados dessas buscas. Apesar de não trazer nenhum conhecimento novo, o pesquisador deve resumir essas informações, avaliando-as, relacionando-as de forma coesa e crítica, adicionando explicações, sempre que necessário.

Assim, a pesquisa bibliográfica, além de reunir informações relevantes, busca analisá-las criticamente, dialogando com diferentes perspectivas teóricas. Essa abordagem permitirá compreender como os conceitos da Pragmática podem ser aplicados ao ensino da leitura, relacionando teoria e prática pedagógica.

3.2. Procedimentos de Análise de Dados

A análise documental terá como foco duas coleções de livros didáticos de Língua Portuguesa, Serão analisados os seguintes livros didáticos: Teláris Essencial: Português – 7º e 8º anos (Editora Ática,2022) e Geração Alpha: Língua Portuguesa – 7º e 8º anos (Editora SM,2022). Ambos aprovadas pelo Programa Nacional do Livro e do Material Didático(PNLD).

Serão analisadas as tirinhas e charges presentes nessas coleções, com foco em verificar como as atividades de leitura exploram (ou deixam de explorar) elementos pragmáticos. Ressalta-se que, de forma direta, os conceitos da Pragmática como implicatura, pressuposição e intencionalidade discursiva não são explicitamente trabalhados nas tirinhas e charge, o que reforça a necessidade de uma abordagem que valorize a dimensão inferencial e os sentidos implícitos desses textos.

A análise qualitativa buscará identificar nos livros tirinhas e charges que permitam a interpretação de ironia, humor, ambiguidade e intencionalidades, mesmo quando não há referência explícita à Pragmática. Com base nos resultados, será elaborada uma sequência didática fundamentada nos conceitos pragmáticos, utilizando as próprias tirinhas e charges dos livros como ponto de partida para desenvolver estratégias que ampliem a leitura crítica e inferencial dos alunos.

4. ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS DADOS

A análise a seguir utiliza como corpus tirinhas e charges selecionadas nos livros Teláris Essencial: Português – 7º ano (Editora Ática) e Geração Alpha: Língua Portuguesa – 7º ano (Editora SM), ambas coleções aprovadas pelo PNLD. A escolha desse material deve-se à frequência com que esses gêneros aparecem nos livros didáticos e pela relevância que possuem no cotidiano dos estudantes, já que exploram recursos multimodais, humorísticos e inferenciais que exigem do leitor uma competência Pragmática mais elaborada.

A proposta é examinar como os conceitos de pressuposição, implicatura, intencionalidade discursiva, Atos de Fala e princípio de cooperação manifestam-se nos textos selecionados e de que maneira as atividades propostas pelos livros possibilitam (ou não) o desenvolvimento da leitura crítica e inferencial.

4.1. Critérios de Análise

A análise das tirinhas e charges será conduzida com base em critérios que permitem articular a teoria Pragmática com a prática de leitura crítica dos alunos. Por meio do estudo de elementos como implicatura, pressuposição, Atos de Fala e princípio de cooperação, busca-se compreender como os textos promovem a percepção de sentidos que vão além do nível explícito das palavras.

Os critérios de análise considerados são: Contexto Comunicativo - identificação da situação representada, personagens, elementos visuais e interações entre interlocutor e interlocucionário; Categoria Pragmática em destaque - observação de pressuposições, implicaturas, Atos de Fala, subentendidos e possíveis violações das máximas de conversação e Contribuição Linguística - análise de como a atividade proposta no livro favorece ou limita a compreensão inferencial e o desenvolvimento de competências de leitura além do literal.

Além disso, os critérios estabelecidos servirão de base para a elaboração de uma sequência didática voltada aos professores, possibilitando que eles compreendam como explorar de forma prática e sistemática os elementos pragmáticos no ensino de Língua Portuguesa, incentivando atividades que promovam leitura crítica e reflexão sobre sentidos implícitos nos textos.

4.1.1. Análise de Tirinhas do Livro 1 (Editora SM)

Figura 1. (Livro SM, 7° ano);

Mapa  O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.
Fonte: Costa; Nogueira; Marchetti, 2022, p.xcv.

Na tirinha, dois pescadores estão conversando durante uma pescaria. Um deles narra sua experiência de forma exagerada, afirmando ter visto um peixe enorme capaz de engolir até um “homenzarrão e um rapagão”, enquanto o outro, de imediato, rebate dizendo: “Você aumenta tudo, compadre!”. O humor da cena resulta da contradição entre o relato fantasioso e a resposta crítica do interlocutor, que revela o exagero típico das histórias de pescador. Assim, o contexto comunicativo envolve dois personagens em interação em um ambiente cotidiano, construindo sentidos a partir do exagero e da ironia.

Do ponto de vista pragmático, a análise evidencia um ato de fala ilocucionário de afirmar, cujo conteúdo improvável gera no interlocutor o efeito perlocucionário de descrença. Nota-se também a presença de uma pressuposição culturalmente compartilhada a de que pescadores aumentam suas histórias e a violação da máxima da qualidade, segundo Grice, pois a informação fornecida não é verdadeira, mas cumpre a função de produzir humor. Dessa forma, a categoria Pragmática em destaque envolve a implicatura e a quebra do princípio de cooperação, aspectos que direcionam a interpretação crítica do leitor.

No conhecimento linguístico pragmático, a atividade proposta no livro pode ser explorada a partir de questionamentos que incentivem a reflexão, como: “Por que o interlocutor não acredita na história do compadre?” ou “Que efeito de sentido é produzido pelo exagero na fala do pescador?”. Esse encaminhamento amplia a compreensão inferencial dos estudantes e os convida a refletir criticamente sobre o uso da linguagem em situações de comunicação, fortalecendo, assim, sua competência Pragmática e interpretativa. Além disso, chama a atenção para o uso do aumentativo, recurso empregado de forma intencional e lógica, a fim de convencer o interlocutor, evidenciando como escolhas linguísticas constroem sentidos e estratégias de persuasão no discurso.

Figura 2. (Livro SM, 7° ano);

Diagrama
Fonte: Costa; Nogueira; Marchetti, 2022, p.xciv.

A tirinha retrata uma cena em sala de aula, em que a professora conduz o canto coletivo da música infantil “A dona aranha”. Durante a atividade, um aluno interrompe o momento para levantar uma dúvida: “Quem a chuva forte derrubou? A dona aranha ou a parede?”. O contexto comunicativo mostra a interação entre professora e alunos, destacando-se a quebra de expectativa: enquanto a professora valoriza o aspecto lúdico da canção, o estudante a interpreta de forma literal, gerando humor e provocando reflexão sobre o uso da linguagem.

Na dimensão Pragmática, observa-se o ato de fala interrogativo do aluno, que questiona a letra da música. Há uma pressuposição implícita de que a letra descreve um fato lógico, quando, na verdade, a canção não possui tal compromisso. Esse questionamento revela também uma implicatura: a letra contém ambiguidade por meio do pronome oblíquo “a”, que deixa dúbia a compreensão em relação à parede ou à aranha. A intervenção do aluno rompe o fluxo planejado pela professora, configurando uma violação da máxima da relevância, já que a pergunta, embora coerente do ponto de vista literal, não corresponde ao objetivo comunicativo inicial da atividade.

No campo linguístico pragmático, a tirinha constitui um recurso valioso para discutir pressuposições, implicaturas, Atos de Fala e ambiguidades. Em sala de aula, pode ser explorada em atividades que incentivem a inferência, a reflexão sobre os usos da linguagem e a distinção entre sentido literal e figurado. Dessa forma, contribui para o desenvolvimento de competências de leitura crítica, articulando a teoria Pragmática à prática pedagógica de modo acessível e significativo.

Figura 3. (Livro SM, 7° ano);

Mapa  O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.
Fonte: Costa; Nogueira; Marchetti, 2022, p. xciv.

A tirinha apresenta a interação entre Jon, tutor do gato Garfield, e o próprio personagem. Jon afirma: “Você é a criatura mais preguiçosa do mundo”, ao que Garfield, deitado, responde em pensamento: “Sim!”. Na sequência, ele completa: “Eu comemoraria, mas isso me custaria minha posição”. O contexto comunicativo revela uma situação cotidiana marcada pela ironia: o dono critica a preguiça do gato, enquanto este a confirma de forma cômica, reforçando seu traço característico.

Na esfera Pragmática, observa-se o ato de fala assertivo de Jon, que funciona como avaliação negativa, contrastando com a reação de Garfield. A pressuposição implícita é a de que Garfield, de fato, é extremamente preguiçoso algo que nem mesmo ele contesta. A implicatura surge no desfecho, quando Garfield afirma que não comemoraria para não perder sua posição de descanso, revelando um humor baseado na contradição: reconhecer a crítica como verdadeira e, ao mesmo tempo, reafirmar seu desleixo. Nota-se ainda uma violação da máxima da relevância (Grice), pois a expectativa de resposta mais engajada é substituída por um comentário irônico que reforça a inatividade.

Do ponto de vista linguístico pragmático o texto pode ser utilizado em sala de aula para explorar Atos de Fala, pressuposições e implicaturas, bem como para trabalhar a noção de violação das máximas conversacionais. A tirinha favorece a compreensão inferencial de modo lúdico e acessível, ajudando os alunos a reconhecerem diferentes camadas de sentido e a desenvolver competências de leitura crítica e reflexiva.

4.1.2. Análise de Charge do Livro 2 (Editora Ática)

Figura 4. (Livro Ática, 7° ano);

Diagrama  O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.
Fonte: Trinconi; Bertin; Marchezi, 2022, p.42.

A charge apresenta dois personagens em uma parada de ônibus, em situação de vulnerabilidade social, comentando sobre a dificuldade de comemorar o aumento do salário-mínimo. Um deles afirma: “Impossível comemorar”, ao que o outro acrescenta: “Comer e morar então...”. O contexto comunicativo evidencia a relação entre a notícia sobre o reajuste salarial da época e a realidade de pessoas em condição precária, explorando a ironia e a crítica social.

Do ponto de vista Pragmático, observa-se um ato de fala ilocucionário de avaliação (“impossível comemorar”), seguido pelo complemento do interlocutor, que reforça a descrença e a indignação. A pressuposição subjacente é a de que o salário-mínimo deveria garantir condições básicas de sobrevivência, como alimentação e moradia, mas não cumpre essa função. Há também uma implicatura crítica de que não há motivos para comemorar o reajuste, muito menos há condições para viver dignamente. Esse efeito revela uma violação da máxima da relevância, uma vez que a promessa implícita de um “mínimo” digno não se concretiza, gerando ironia e crítica social.

No contexto linguístico pragmático, uso dessa charge em sala de aula possibilita a elaboração de atividades que incentivem a inferência e a análise crítica por meio de perguntas formuladas pelo professor, por exemplo: “O que significa dizer que é impossível comemorar o aumento do salário-mínimo?” ou “Qual crítica social está implícita na fala dos personagens?”. Essas questões ampliam a compreensão inferencial e desenvolvem competências de leitura além do nível literal, articulando o ensino da Língua Portuguesa à formação cidadã e crítica dos estudantes.

4.2. Discussão dos Resultados

A análise das tirinhas e charges presentes nas coleções Teláris Essencial: Português – 7º ano (Editora Ática, 2022) e Geração Alpha: Língua Portuguesa – 7º ano (Editora SM, 2022) permitiu observar que, embora esse gênero seja amplamente utilizado nos livros didáticos por seu potencial lúdico e comunicativo, os conceitos da Pragmática como implicatura, pressuposição e intencionalidade raramente são abordados de forma explícita nas atividades propostas. Essa constatação evidencia uma lacuna entre o potencial interpretativo desses textos e o tratamento pedagógico que recebem nas práticas de leitura escolar.

Os resultados indicam que as tirinhas e charges analisadas oferecem múltiplas possibilidades de exploração inferencial e crítica, pois mobilizam elementos linguísticos e extralinguísticos que exigem do leitor a capacidade de interpretar sentidos implícitos, reconhecer ironias, ambiguidades e compreender a intencionalidade discursiva dos personagens. No entanto, as atividades que acompanham essas tirinhas, em sua maioria, restringem-se à identificação de informações literais, à descrição de personagens e à observação de aspectos gramaticais ou lexicais, sem conduzir o estudante à reflexão sobre os efeitos de sentido construídos pelo uso da linguagem em contexto.

Assim, os resultados apontam para a importância de uma abordagem que valorize os aspectos Pragmáticos da linguagem no ensino de Língua Portuguesa. O uso de tirinhas e charges, quando orientado por princípios da Pragmática, pode contribuir significativamente para o desenvolvimento da competência comunicativa e interpretativa dos alunos, tornando as práticas de leitura mais dinâmicas, reflexivas e contextualizadas. Dessa forma, confirmamos a relevância de integrar os estudos Pragmáticos ao currículo escolar, conforme defendem Pinto (2004) e Fiorin (2010), para que o ensino da leitura ultrapasse o nível da decodificação e alcance a dimensão dos sentidos construídos no uso real da linguagem.

5. PROPOSTA DE SEQUÊNCIA DIDÁTICA

A presente sequência didática foi elaborada com base na proposta de Rildo Cosson ([2012],2025) sobre o trabalho com leitura literária, adaptada para a análise de gêneros multimodais (tirinhas e charges) sob a perspectiva da Pragmática. Essa adaptação visa articular leitura, reflexão linguística e produção de sentido, tomando como referência os conceitos de Atos de Fala, pressuposição e máximas conversacionais de Grice (1982 apud Fiorin, 2010). A proposta é indicada para turmas do 7º e 8º anos do Ensino Fundamental, de modo a promover a compreensão crítica e contextual da linguagem.

Tirinha 1

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Fonte: Trinconi; Bertin; Marchezi, 2022, p.68.

Introdução:

  • Fazer perguntas sobre o que os alunos veem nas tirinhas a fim de ativar seus conhecimentos prévios;

  • Na sequência destacar (visualmente) os prontos principais de ações e comportamentos em cada tirinha.

Leitura:

  • Ler na íntegra em voz alta as tirinhas para os alunos e na sequência estabelecer 10 minutos para eles lerem silenciosamente e destacarem o que mais chamou a atenção deles no que diz respeito às falas das personagens, comportamentos e os aspectos semióticos (tamanho das letras, disposição dos objetos nas cenas, etc.)

Interpretação:

  • Nessa etapa entra a mediação do professor para estabelecer as relações entre os elementos, as características de cada tirinha e os conceitos pragmáticos para ter a compreensão crítica do que está sendo de fato abordado em cada tirinha.

  • Na interpretação da primeira tirinha temos o ruído/falta de entendimento na fala das duas personagens no primeiro quadrinho, haja vista que, isso é comprovado quando uma das personagens expressa no segundo quadrinho “Você não entendeu!” e a explicação vem por meio da cena no próximo quadrinho, ou seja, por meio do visual e não pela fala, quando aparece a vovó literalmente dormindo em cima da televisão. Dessa forma, os Atos de Fala fazem parte da realização da linguagem e, também efetivam ações/ atitudes/comportamentos, isto é, o personagem só compreendeu o que outro havia dito, quando entrou na sala e viu a cena da avó dormindo em cima da televisão. Então, cabe aos professores explicarem isso para os seus alunos, pois a todo momento realizamos falas que nem sempre ficam compreendidas pela fala em si e que, só serão entendidas por meio de ações e isso é abordado pelos Atos de Fala que já foi mencionado. Tirinha 2

Uma imagem contendo Texto  O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.
Fonte: Trinconi; Bertin; Marchezi, 2022, p.70.

Introdução:

  • Iniciar a atividade fazendo perguntas que estimulem a ativação dos conhecimentos prévios dos alunos, como: “O que significa ser vegetariano?”, “O que esperamos encontrar em um restaurante vegetariano?” e “Há algo curioso ou incoerente na imagem?”

  • Em seguida, destacar (visualmente) os pontos principais da tirinha: o nome do restaurante, o cardápio apresentado e a fala do atendente, conduzindo os estudantes à percepção da contradição entre o discurso verbal e o contexto da situação comunicativa.

Leitura:

  • Realizar a leitura integral da tirinha em voz alta, promovendo a escuta atenta de todos.

  • Conceder cerca de 10 minutos para a leitura silenciosa e observação detalhada da imagem.

  • Solicitar que os alunos identifiquem o que mais chamou atenção nas falas dos personagens e nos elementos não verbais (como o cardápio, a expressão facial e a postura dos personagens);

Interpretação:

  • Nessa etapa, cabe ao professor mediar a análise, relacionando os elementos linguísticos e visuais aos conceitos pragmáticos como implicatura, pressuposição e intencionalidade discursiva de modo a favorecer a compreensão crítica do texto.

  • A tirinha apresenta um caso de violação da máxima da relação, pois o atendente, ao afirmar “Só servimos carne de animais vegetarianos!”, produz uma resposta incoerente, gerando efeito humorístico pela contradição lógica. Além disso, há uma ruptura clara da expectativa da cliente: ao ver a palavra “Vegetariano” na fachada, pressupõe que encontrará alimentos sem carne, conforme o entendimento socialmente compartilhado do termo. No entanto, ao entrar e se deparar com o cardápio, percebe-se que o conceito foi distorcido, quebrando a expectativa não apenas da personagem, mas de qualquer leitor que compartilhe essa mesma compreensão. Essa contradição intensifica a violação da máxima de relevância/relação, pois o nome do estabelecimento não corresponde ao que se espera em termos de sentido e contexto. Trata-se de um uso intencional da linguagem para provocar ironia e humor, exigindo do leitor uma interpretação que ultrapasse o sentido literal. Por isso, o ensino da Pragmática torna-se fundamental, pois desenvolve a competência comunicativa dos alunos.

Tirinha 3

Diagrama  O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.
Fonte: Trinconi; Bertin; Marchezi, 2022, p.105.

Introdução:

  • Iniciar a aula com perguntas que estimulem os conhecimentos prévios dos alunos sobre o contexto da tirinha: “O que está acontecendo nesta cena?”, “Como podemos descrever o comportamento de Calvin?”, “O que a fala dele pode significar além do que está sendo dito?”. Essas perguntas ajudam a ativar o repertório dos alunos e a direcionar a leitura para aspectos inferenciais e críticos.

  • Em seguida, destacar (visualmente) os elementos principais da tirinha: o cenário familiar, a posição dos personagens, as expressões corporais e o diálogo entre eles. Essa observação inicial favorece a compreensão do contexto comunicativo e das intenções discursivas envolvidas.

Leitura:

  • Ler a tirinha em voz alta, com entonação expressiva, para evidenciar as nuances das falas. Após a leitura, conceder cerca de 10 minutos para que os alunos façam uma leitura silenciosa, destacando o que mais chamou sua atenção seja nas falas, nas atitudes dos personagens ou nos elementos visuais (a poltrona, o televisor, as expressões faciais, etc.).

  • Estimular a observação de aspectos semióticos, como o enquadramento e o foco nas falas, que colaboram para a criação do efeito de humor e reflexão.

Interpretação: 

  • Nessa etapa, o professor atua como mediador, ao responder “Matando tempo enquanto espero a vida derramar sabedoria e felicidade sobre mim”, Calvin utiliza uma fala figurada e irônica, criando uma implicatura conversacional que indica inércia e desânimo, e não, de fato, uma espera pela sabedoria. Essa fala rompe com a máxima da qualidade, pois expressa algo que não corresponde à realidade. Além disso, também se observa a violação da Máxima de modo, uma vez que sua resposta é prolixa e evasiva, fugindo do objetivo da pergunta feita por Haroldo. Em vez de responder de forma clara e direta, Calvin recorre a um enunciado ambíguo e exageradamente filosófico, o que dificulta a compreensão e rompe com a expectativa de cooperação na conversa.

  • A fala seguinte de Haroldo “Espero que a poltrona seja confortável” reforça o humor, pois interpreta a ironia de Calvin de forma literal, mantendo a quebra do princípio de cooperação proposto por Grice. Por fim, quando Calvin diz “Você bem que podia trazer alguma coisa pra eu comer”, observa-se uma clara intencionalidade discursiva: ele

busca obter algo do interlocutor, revelando como os Atos de Fala também funcionam como ações sociais. Assim, a tirinha é um excelente recurso didático para explorar rupturas das máximas conversacionais, mostrando aos alunos como o humor e a ironia são construídos por meio da quebra das expectativas comunicativas.

A aplicação dos conceitos pragmáticos Atos de Fala, pressuposição e máximas de Grice revela-se essencial para o desenvolvimento da competência comunicativa dos alunos, pois permite compreender a linguagem como ação e interação. Os textos selecionados possibilitam explorar não apenas o conteúdo explícito, mas, principalmente, o implícito, o qual é mais complexo e exige mais atenção e outros conhecimentos linguísticos, além do que está posto na superfície do texto, estimulando a leitura inferencial e a análise crítica das intenções discursivas. Dessa forma, o aluno passa a reconhecer a importância do contexto e das relações interlocutivas na construção dos sentidos, ampliando sua competência linguística.

Além disso, durante a análise dos livros didáticos do 8º ano das editoras selecionadas, constatamos a ausência de gêneros como tirinha, meme e charge, os quais são fundamentais para o trabalho com a Pragmática, sobretudo no que diz respeito à ironia, às inferências e aos efeitos de sentido. Observamos que esses gêneros estão presentes mais nos materiais do 6º e 7º anos, o que reforça a necessidade de propor uma sequência didática específica para os 7º e 8º anos, a fim de garantir que os alunos tenham contato com esses recursos discursivos e possam desenvolver consciência crítica sobre os usos da linguagem em diferentes suportes e contextos.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Levando-se em conta o que foi observado ao longo deste estudo, podemos afirmar que a Pragmática constitui uma ferramenta fundamental para aprimorar o ensino da interpretação de textos em Língua Portuguesa. Quando, trabalhados em sala de aula de forma integrada às práticas de leitura, contribuem significativamente para o desenvolvimento da competência leitora dos estudantes, favorecendo uma leitura crítica, reflexiva e contextualizada.

Quanto à questão norteadora desta pesquisa: De que maneira a Pragmática pode ser incorporada ao ensino da interpretação textual? Verificamos que a resposta está na adoção de uma perspectiva de ensino que ultrapasse o enfoque meramente estrutural da língua e valorize os aspectos interacionais e inferenciais do discurso. Dessa forma, o professor de Língua Portuguesa assume o papel de mediador do processo de leitura, guiando o aluno na construção de sentidos que ultrapassam o nível literal do texto.

Com base nos argumentos apresentados, é possível compreender que a Pragmática oferece um caminho promissor para a formação de leitores mais autônomos e críticos, capazes de compreender as múltiplas intenções comunicativas que permeiam os textos. Esse conjunto de ideias apresentadas reforça a necessidade de que os livros didáticos e as práticas pedagógicas contemplem, de forma explícita, atividades que envolvam as noções Pragmáticas, tendo em vista que, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) não apresenta diretamente dentre as várias habilidades apontadas esse ensino pragmático.

Portanto, tendo em vista os aspectos abordados e os resultados alcançados, entendemos que o ensino da língua portuguesa deve considerar o texto como um ato de comunicação situado, no qual o sentido é construído a partir da interação entre autor, leitor, texto e contexto. Assim, é possível pensar que a inserção dos estudos pragmáticos na escola não apenas amplia a compreensão textual, mas também forma sujeitos mais conscientes de seu papel discursivo e social. Nesse sentido, esta pesquisa se mostra relevante tanto para professores de Língua Portuguesa quanto para graduandos do curso de Letras, pois evidencia as teorias Pragmáticas e a importância de o docente desenvolver a competência comunicativa dos alunos por meio da integração entre língua e linguagem.

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