A MÚSICA COMO FERRAMENTA PEDAGOGICA PARA O DESENVOLVIMENTO COGNITIVO COM ALUNOS DO ENSINO FUNDAMENTAL DA ESCOLA MUNICIPAL AQUILINO DA MOTA DUARTE NO MUNICIPIO DE BOA VISTA – RORAIMA, NO ANO 2019.

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REGISTRO DOI: 10.5281/zenodo.10676730


Kaline Rodrigues Barroso1


RESUMO
É uma concepção unânime o fato de que a criança é um ser único, que interage como o meio, carrega ideologias, emoções e história. Nesse sentido, a música atrai e motiva as crianças, tornando-as mais atentas ao que o professor transmite no decorrer da sua aprendizagem. A música eleva o nível cultural, consola e alegra, favorece a sensibilidade, a inteligência, a criatividade e outros fatores importantes para o desenvolvimento intelectual e cognitivo. Essa relação da educação da criança com a música despertou o interesse investigativo, base do presente trabalho. Partiu-se de uma pergunta problematizadora central: Qual é a realidade da utilização da música na Escola Municipal Aquilino da Mota Duarte e sua inserção no processo de aprendizagem, considerando-a como ferramenta para formação do educando? No que toca à relevância dos estudos em torno da música e da Educação, ressalta-se que a música merece ocupar na educação um lugar importante, uma vez que é capaz de enriquecer o ser humano através do som e do ritmo, mas também pelas virtudes da melodia e da harmonia. Nesse sentido, pode-se depreender que o presente estudo aborda um tema amplo e capaz de explorar diversas possibilidades para educandos e educadores. Todos esses fatores associados tornam-se justificativa para a realização da presente investigação, devido à colaboração que se pode aportar no âmbito acadêmico, mas, principalmente, por que este trabalho envolve o lado social e a formação plena dos estudantes. Metodologicamente, esta pesquisa possui abordagem qualitativa, exploratória e descritiva, além da utilização de pesquisa bibliográfica e pesquisa de campo, com utilização de questionário semiestruturado. O objetivo geral foi diagnosticar a realidade da utilização da música, entendendo-a como instrumento de suporte no desenvolvimento das habilidades dos educandos, no escopo da Escola Municipal Aquilino da Mota. Os objetivos específicos foram: apontar a perspectiva histórica da utilização da música no desenvolvimento do processo de ensino-aprendizagem; analisar a música como ferramenta pedagógica, atrelando brevemente a legislação e as políticas educacionais aos processos de formação docente e formas de utilização da música em sala de aula; apresentar o posicionamento dos profissionais participantes da pesquisa com relação às concepções do uso da música em sala de aula, da estrutura das escolas para uma abordagem metodológica que associe a música. Os resultados indicaram que há alguns professores que utilizam a música como suporte para a alfabetização e para as questões linguísticas, mas, ainda assim, a música não está inserida, de fato, na escola em questão; e mesmo que os professores e o gestor entendam sua importância no processo de aprendizagem, considerando-a como ferramenta para o desenvolvimento dos estudantes, as iniciativas são poucas, a disponibilidade de materiais é pequena, a motivação dos professores e do gestor não fomenta a aprendizagem musical no espaço da unidade educacional, e não há indicação de projetos e planejamentos voltados para momentos musicais na escola. Pode-se concluir, de uma forma mais generalizada, que o que acontece na Escola Municipal Aquilino da Mota Duarte segue o mesmo padrão da maioria das escolas brasileiras, ou seja, gestores educacionais e docentes não enfatizam a música como instrumento facilitador e estimulador da aprendizagem e desenvolvimento das capacidades cognitivas dos estudantes.
Palavras-chaves: Educação. Música. Ensino e Aprendizagem.

ABSTRACT
It is a unanimous conception that the child is a unique being, who interacts as the medium, carries ideologies, emotions and history. In this sense, music attracts and motivates children, making them more attentive to what the teacher conveys during their learning. Music raises the cultural level, comforts and rejoices, favors sensitivity, intelligence, creativity and other important factors for intellectual and cognitive development. This relationship between the child's education and music aroused the investigative interest, the basis of the present work. It was based on a central questioning question: What is the reality of the use of music in Aquilino da Mota Duarte Municipal School and its insertion in the learning process, considering it as a tool for the formation of the student? Regarding the relevance of studies around music and education, it is emphasized that music deserves to occupy an important place in education, since it is capable of enriching the human being through sound and rhythm, but also by virtues. of melody and harmony. In this sense, it can be inferred that the present study addresses a broad theme and able to explore various possibilities for students and educators. All these associated factors become justification for this research, due to the collaboration that can be brought in the academic field, but mainly because this work involves the social side and the full formation of students. Methodologically, this research has a qualitative, exploratory and descriptive approach, in addition to the use of bibliographic research and field research, using a semi-structured questionnaire. The general objective was to diagnose the reality of the use of music, understanding it as a support instrument in the development of students' skills, within the scope of Aquilino da Mota Duarte Municipal School. The specific objectives were: to point out the historical perspective of the use of music in the development of the teaching-learning process; analyze music as a pedagogical tool, briefly linking the legislation and educational policies to the processes of teacher education and ways of using music in the classroom; to present the position of the professionals participating in the research regarding the conceptions of the use of music in the classroom, from the school structure to a methodological approach that associates music. The results indicated that there are some teachers who use music as a support for literacy and language issues, but even so, music is not actually inserted in the school in question; and even if teachers and the manager understand its importance in the learning process, considering it as a tool for student development, there are few initiatives, the availability of materials is small, the motivation of teachers and the manager does not encourage learning. musical space within the educational unit, and there is no indication of projects and planning for musical moments in school. It can be concluded, more generally, that what happens at Aquilino da Mota Duarte Municipal School follows the same pattern as most Brazilian schools, that is, educational managers and teachers do not emphasize music as a facilitating and stimulating instrument for learning and development of students' cognitive abilities.
Keywords: Education. Music. Teaching and learning

INTRODUÇÃO

Esta pesquisa tem como temática central a relação da aprendizagem de crianças do Ensino Fundamental com a utilização da música nas escolas. A criança é um ser único, não estático, interage como o meio em que convive, traz consigo ideologias, emoções e história. Sousa (2003, p. 21) considera que, quando “a criança canta, grita, ri, bate palmas, com os pés, corre, salta e dança, efetua estas atividades porque disso tem necessidade. Há uma força motivacional que a impele para tal”, ou seja, “os jogos musicais e corporais das crianças, espontâneos e simultâneos têm a sua razão psicobiológica”.

Também não se pode esquecer, como já apontado por Souza (2003) e corroborado por Brito (2003, p. 35), que antes mesmo de seu nascimento a criança já está em contato com o universo sonoro, “pois na fase intrauterina os bebês já convivem com um ambiente de sons provocados pelo corpo da mãe, como o sangue que flui nas veias, a respiração e a movimentação dos intestinos. A voz materna também constitui material sonoro especial e referência afetiva para eles”.

Teixeira (2017) acrescenta que a música faz parte espontaneamente da criança, que, por sua vez, deseja se tornar um ser sonoro. Quando se auxilia na expansão dessa musicalidade interna, além de proporcionar que a criança seja uma pessoa mais nobre, proporciona também felicidade.

Tratando-se de educação, a música é uma ferramenta fundamental “para alfabetizar, resgatar a cultura e ajudar na construção do conhecimento pela criança” (SILVA, 2012, p. 36, apud TEIXEIRA, 2017, p. 5). A música não só atrai a criança como a motiva, tornando-a mais atenta ao que o professor pretende. Para Sousa (2003, p. 21), “em educação pela arte, não se considera que a fala ou a leitura pertençam à área de «português» ou de «letras», mas à área da música. A fala é a criação pura de sons através do mais aperfeiçoado e do mais belo dos instrumentos – a voz”.

Souza (2003) considera que a música é a arte que permite obter conjuntos de sons que são entendidos não como resultados do acaso, mas como estruturados numa dada forma, e, da sua percepção, nasce o prazer, sensível, afetivo ou intelectual. Como várias outras artes, a música é considerada uma linguagem universal, encontrada na história da humanidade desde tempos imemoriais.

Diante desse contexto, foi despertado o interesse investigativo, base do presente trabalho, analisando alguns pontos significativos na relação aprendizagem de crianças do Ensino Fundamental com a música. Essa escolha se fundamenta no fato de que atuo profissionalmente desde o ano de 2002 como professora de canto coral, e desde 2014 como arte educadora na Prefeitura Municipal de Boa Vista, Roraima. Antes do ano de 2014, também já atuava em sala de aula, no ensino regular, com turmas de 2º ano do Ensino Fundamental, e vivia uma forte pressão por parte dos gestores educacionais, que mantinham o discurso voltado para: “professora, ainda há 10 criança que não sabem ler na sua turma”, ou “professora, todos eles têm que saber escrever até julho”. A alfabetização se mostrava um obstáculo quando optei por utilizar a música como estratégia de alfabetização, obtendo bons resultados.

Essas dúvidas fomentaram a necessidade de se analisar, em campo, as razões que levam os educadores a não utilizar a música no Ensino Fundamental. Percebi que os professores não utilizavam a música como ferramenta porque não sabiam o que fazer e nem como fazer. Não consegui caminhar nessa direção da pesquisa porque os docentes não se mostraram receptivos. Foi então que mudei a perspectiva, e resolvi falar sobre a importância da música na aprendizagem dos estudantes de Ensino Fundamental, a partir de um diagnóstico de como a música vem sendo usada em um determinado espaço educacional. Tornou-se importante para os meus estudos verificar por que os professores só utilizam a música na hora do lanche, ou na entrada, ou, ainda, em datas comemorativas; ou quais são as dificuldades metodológicas dos educadores para a utilização da música como instrumento de melhoria na qualidade da aprendizagem e da formação individual dos alunos.

Nessa conjuntura, considerando a necessidade de delimitação do escopo da investigação, e tendo em vista o acesso a instituições de educação que poderiam colaborar com esta pesquisa, foi determinada a seleção de uma escola municipal instalada no centro da cidade de Boa Vista, capital do estado de Roraima, localizado na região Norte do Brasil, estado dividido em 15 municípios, com uma extensão territorial de 224.298,980 km² e com a menor população do país. O Estado de Roraima está localizado no extremo Norte do Brasil. Seus limites geográficos encontram a Venezuela ao Norte e Noroeste, o estado do Amazonas ao Sul e Sudeste, a Guiana Inglesa ao Leste, o estado do Pará ao Sudeste (IBGE, 2019).

A escola em questão, Escola Municipal Aquilino da Mota Duarte, especificamente de Ensino Fundamental, teve 400 matrículas no ano de 2018, 66 alunos do 1º ano do ciclo Fundamental I, 102 no segundo ano, 73 no 3º ano, 88 no 4º ano, e 68 no 5º ano do Ensino Fundamental I, conforme os dados da Fundação Lemann (QEDU, 2019).

A partir desse cenário, associando as questões relativas à utilização da música em sala de aula, surgiu a pergunta norteadora da presente investigação, ou sua problemática central:

Qual é a realidade da utilização da música na Escola Municipal Aquilino da Mota Duarte, localizada em Roraima, Boa Vista, em 2019, e sua inserção no processo de aprendizagem, considerando-a como ferramenta para formação do educando?

Surgiram, além disso, alguns outros questionamentos iniciais, que despertaram tal interesse, tendo partido de indagações como:

  • De que forma se dá a música como ferramenta pedagógica na sala de aula, na Escola Municipal Aquilino da Mota Duarte, localizada em Roraima, Boa Vista, em 2019?

  • Como acontece a utilização da música no desenvolvimento do processo de ensino-aprendizagem na Escola Municipal Aquilino da Mota Duarte, localizada em Roraima, Boa Vista, em 2019?

  • Qual a representação mental / posicionamento dos profissionais participantes da pesquisa com relação ao uso da música em sala de aula na Escola Municipal Aquilino da Mota Duarte, localizada em Roraima, Boa Vista, em 2019?

Sabemos que a musicalidade é explorada na Educação Infantil, mas um fator que se tornou intrigante foi o porquê de esse procedimento ser quase completamente substituído por metodologias pedagógicas expositivas e menos atraentes, deixando de ser uma ferramenta útil para professores e alunos; especialmente por que a música seria um meio que, em conjunto com outros, contribuiria para o enriquecimento pessoal e desenvolvimento da personalidade.

Iniciando as investigações, foi possível perceber que há estudiosos que se dedicaram ao tema da música em seus trabalhos acadêmicos, como Faria (2001), Camargo (2009), Machado (2012), Loewenstein (2012), Medeiros (2013) e Teixeira (2017), dentre outros. Entretanto, a perspectiva dessas pesquisas se voltava mais para a Educação Infantil, ou para a aprendizagem de línguas estrangeiras, não abordando a questão do Ensino Fundamental e esse abandono da música nessa etapa da vida das crianças, quando as aulas assumem um caráter mais expositivo.

Franco e Ament (2017, 105), abordando a importância dos benefícios da música na educação, afirmaram que

No Brasil, após um longo recesso, a música volta a ser incluída no curriculum nacional de educação por meio da Lei nº 11.769/083, sancionada pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e desde então há um enorme esforço de educadores musicais em efetivar a Educação Musical no Ensino Básico, tendo em vista que não é tarefa fácil, pois poucas são as diretrizes que orientam como deverá ser ordenada a grade curricular da disciplina, e até mesmo há dú­vida sobre quem deve ministrar as aulas. Sendo assim, em meio a essa verdadeira revolução, educadores por vezes se deparam com dificuldades práticas até mesmo no momento de ministrar as aulas de música, mesmo em locais já determinados a receberem a disci­plina.

O objetivo geral desta pesquisa, diante dos pontos expostos, foi:

  • Analisar a realidade da utilização da música na Escola Municipal Aquilino da Mota Duarte, localizada em Roraima, Boa Vista, em 2019, e sua inserção no processo de aprendizagem, considerando-a como ferramenta para formação do educando.

Ademais, foram adotados objetivos específicos, que direcionaram toda a investigação:

  • Apresentar a música como ferramenta pedagógica na sala de aula, na Escola Municipal Aquilino da Mota Duarte, localizada em Roraima, Boa Vista, em 2019;

  • Descrever a utilização da música no desenvolvimento do processo de ensino-aprendizagem na Escola Municipal Aquilino da Mota Duarte, localizada em Roraima, Boa Vista, em 2019;

  • Apresentar a representação mental ou posicionamento dos profissionais participantes da pesquisa com relação ao uso da música em sala de aula na Escola Municipal Aquilino da Mota Duarte, localizada em Roraima, Boa Vista, em 2019.

Nesse contexto, no que toca à relevância dos estudos em torno da música e da Educação, é importante ressaltar que Willems (1970, p. 12) considera que a música merece ocupar na educação um lugar importante, uma vez que “enriquece o ser humano pelo poder do som e do ritmo, pelas virtudes próprias da melodia e da harmonia; eleva o nível cultural pela nobre beleza que emana das obras-primas; dá consolação e alegria ao ouvinte, ao executante e ao compositor”. Para o autor, a música “favorece o impulso da vida interior e apela para as principais faculdades humanas: vontade, sensibilidade, amor, inteligência e imaginação criadora” (WILLEMS, 1970, p. 12).

Conforme Teixeira (2017), nenhum trabalho voltado para a utilização da música na formação e educação dos sujeitos apresenta pontos negativos desse processo. Nesse sentido, pode-se depreender que “este é um tema amplo e existem ainda várias possibilidades para o seu estudo e melhor compreensão do tema, devido à importância dos benefícios que a música pode ter para educadores e educandos” (TEIXEIRA, 2017, p. 15).

Ademais, “além do entendimento da música como prática social e de seus benefícios, poderíamos também pensar que temos que integrar a música na escola porque existe uma lei federal, número 11.769, aprovada em 2008 [...], que determina seu ensino” (MOREIRA; SANTOS; COELHO, 2014, p. 49); e, ainda, “é necessário que os professores se reconheçam como sujeitos mediadores de cultura dentro do processo educativo e que levem em conta a importância do aprendizado das artes no desenvolvimento e formação das crianças”, especialmente porque “no contexto escolar a música também ensina o indivíduo a ouvir e a escutar de maneira ativa e refletida” (MOREIRA; SANTOS; COELHO, 2014, p. 49).

Deve-se considerar, ainda, conforme apontam Franco e Ament (2017, p. 1-5-106), que

falta por vezes aos docentes de música um pleno entendimento da importância da educação musical com subsídios científicos que comprovem os benefícios nas diversas áreas, como social, cultural, psicomotricidade e até mesmo no desenvolvimento neurológico. Estar munido desses conceitos, benefícios e provas científicas não é apenas imprescindível para um melhor desempenho e consci­ência nas práticas docentes, como também são de grande utilidade, pois ajudam na argumentação, persuasão e defesa do trabalho de educação musical.

Todos esses fatores associados tornam-se justificativa para a realização da presente investigação, devido à colaboração que se pode aportar no âmbito acadêmico, no que diz respeito à Educação, mas, principalmente, por que este trabalho envolve o lado social e a formação plena dos educandos, para que se tornem cidadãos críticos e dinâmicos em uma sociedade que tende cada vez mais às transformações, a partir do posicionamento e das ações dos educadores e de todos que estão atrelados às mais diversas formas de educação.

Desse modo, este trabalho se divide em capítulos, para além da introdução e das considerações finais, sendo que o capítulo I apresenta uma análise de como a música influencia o corpo humano ou como age sobre ele, ou seja, de que forma a música atua na percepção da realidade, no jogo das emoções, no processo de aprendizagem, e isso, partindo, ainda, da perspectiva histórica da música e as metodologias a ela atreladas. O capítulo II aborda o universo escolar, legislação relativa à música, a questão da formação de professores e autonomia didática, ademais das maneiras de utilizar a música em sala de aula como ferramenta pedagógica e as possibilidades alternativas de envolvimento da música no espaço educacional. O capítulo III traz a abordagem metodológica da qual esta pesquisa partiu. E o capítulo IV aporta os resultados e a discussão pertinentes para se responder à questão problematizadora desta investigação, contrapondo o que os participantes da pesquisa contestaram com o que os autores e estudiosos da área acreditam e já afirmaram em torno da educação musical, da aprendizagem e da música na escola.

CAPÍTULO I: PERSPECTIVA HISTÓRICA DA MÚSICA – APRENDIZAGEM ESTIMULADA PELA MÚSICA

Como afirma Candé (1994), a música sempre fez parte da história do homem, e, mesmo antes do conhecimento acerca das primeiras civilizações, é bastante provável que os primitivos associassem a música a situações míticas e de reverência a deuses, assim como acontecia durante a Antiguidade. Nas palavras de Franco e Ament (2017, p. 106), “a música está na vida do ser humano desde a concepção da espécie, ela é reflexo direto do ser humano, das sociedades, das cul­turas e até mesmo dos pensamentos filosóficos durante os séculos”.

Silva (2012) acrescenta que, para além da utilização da música como fonte de ligação com a espiritualidade, também os homens a atrelavam à cura de doenças, à fertilidade, ao nascimento, casamento e morte, atuando, inclusive, na transmissão oral de cultura. Nesse contexto, Barro, Marques e Tavares (2018, p. 2) apontam que a música é

um dos instrumentos imprescindíveis para a compreensão da evolução das sociedades. Ao lado das demais expressões artísticas, fornece à História registros notadamente importantes das manifestações da cultura de cada povo, registrando seus hábitos, emoções, religiosidade, mitos, e o processo educativo.

Apresentando a questão com palavras poéticas, Uriarte (2004, p. 246) afirma que

o homem nasceu num mundo repleto de sons. O trovão, amedrontando-o, tornou-se símbolo dos poderes celestiais. Os habitantes do litoral conheciam o bom ou o mau humor dos deuses pelo bramir das águas. Os ecos eram oráculos e as vozes dos animais, revelações.

Esses fatores são demonstrados em imagens rupestres de diversas cavernas, imagens nas quais as pessoas são identificadas cantando, dançando e tocando instrumentos. De acordo com as hipóteses levantadas, embora não haja comprovações maiores que as expostas nas pinturas rupestres, na Pré-História, os homens, então, utilizavam-se da música e produziam sons a partir daquilo que encontravam na natureza. Candé (1994) acrescenta que no meio dos historiadores ainda não encontraram vestígios mais sólidos em torno das manifestações iniciais do uso e das criações musicais como arte, mas sempre atrelada aos ritos religiosos.

Moreira, Santos e Coelho (2014, p. 43) corroboram essa perspectiva, afirmando que “a música, como qualquer outra arte, acompanha historicamente o desenvolvimento da humanidade. Antes mesmo do descobrimento do fogo, o ser humano já se comunicava por meio de sinais e sons rítmicos”.

No decorrer da Antiguidade, já se pode encontrar sinais dessas manifestações, imagens de instrumentos, e até mesmo indicações de partituras nas culturas grega, egípcia, romana e na Mesopotâmia. Embora não haja explicações claras sobre como eram produzidos os instrumentos, muito se associava suas criações aos próprios deuses. Filósofos como Sócrates, Aristóteles e Platão declaravam que as artes atuam na formação dos cidadãos da Grécia Antiga e Clássica. Pitágoras, no século VI a.C. estudou profundamente os sons e as produções musicais, relacionando a música com a matemática, como uma chave de indicação de todos os segredos do universo, afirmando, inclusive, que todos os astros etéreos produzem sons em tonalidades harmônicas e diferentes (CANDÉ, 1994); e “no Império Romano, sob influência da cultura helenística, a música foi valorizada a ponto de ocupar um lugar como ciência entre as “artes liberales”” (URIARTE, 2004, p. 246).

De acordo com Moreira, Santos e Coelho (2014, p. 41), “a importância da música como disciplina é um assunto relevante desde a antiguidade, pois a formação musical oferece o auxílio ideal para o desenvolvimento psíquico e emocional de crianças e jovens”. Franco e Ament (2017, p. 105) acrescentam que

A Música tem sua importância e seus benefícios defendidos e afirmados desde os tempos da antiga Grécia, em que, no conjun­to de matérias da educação da época, conhecidos como Trivium (Gramática, Retórica, Dialética) e Quadrivium (Aritmética, Geo­metria e Música) [...], já estavam os ensinos mu­sicais inseridos como disciplina componente formal da educação.

E, ademais, Silva (2012) declara que no decorrer da história da humanidade, pessoas envolvidas nas mais diversas áreas do saber teorizaram acerca da música e de sua forte influência na aprendizagem, podendo-se incluir psicólogos e pedagogos mais atualmente, mas também filósofos e pensadores, desde os pré-socráticos na Grécia Antiga. Esses filósofos pré-socráticos acreditavam que a música era parte da constituição essencial do universo, capaz de harmonizar o caos.

Provavelmente, Pitágoras foi o primeiro a utilizar a música pedagogicamente, e, já que em seu cotidiano, consolidou o conceito da música como arte e como extensão da matemática, tendo influenciado o desenvolvimento do ensino da música durante a Idade Média. Nesse período, conforme Candé (1994), a Igreja Católica, com sua postura controladora das normas sociais, políticas e culturais, estabeleceu a música como uma demonstração de amor a Deus por meio dos cantos gregorianos, que, obrigatoriamente, faziam parte dos cultos religiosos, promovendo uma intensa divulgação desse tipo de música e do conhecimento dos instrumentos musicais, o que, nos séculos XV e XVI, representava intelectualidade, aceitação nas elites da sociedade, e elegância. Já em meados do século XVII e início do XVIII surgiram as músicas barrocas, um reflexo do intuito social de distanciamento da hegemonia Católica, buscando-se um estilo mais elaborado, dramático, ligado à vida dos homens, suas emoções, e à natureza.

Esse momento histórico da música é a semente de músicos como Monteverdi com o surgimento da ópera, além de Johann Sebastian Bach, falecido em 1.750. A música que nasceu a partir dessa época, clássica ou erudita, representava a mais alta casta social, e o novo estilo germinou, na entrada da Idade Moderna, as orquestras, destacando-se Ludwig Van Beethoven e Wolfgand Amadeus Mozart como os mais célebres compositores. Para Moreira, Santos e Coelho (2014, p. 44), “com o decorrer do tempo e com a modificação no espaço geográfico o homem tornou-se civilizado descobrindo a linguagem e a escrita, mas, apesar disso, a música faz parte de seu contexto histórico na modernidade e na contemporaneidade”.

É importante para o presente trabalho apontar que, mesmo que na Idade Média a música tenha sido associada à riqueza e luxuosidade, também se percebe que esteve atrelada a questões religiosas, assim como aconteceu na Pré-História a na Antiguidade. Sobretudo, deve-se ter em mente que, apesar dessa ligação com a espiritualidade humana, o que foi o mote da importância da música como elevação social, já que a Igreja Católica mantinha uma postura hegemônica e controladora e disseminava um novo estilo musical e a utilização cultural de instrumentos, também a música foi associada à intelectualidade, ao conhecimento, à inteligência, desde Pitágoras. Desse modo, entende-se que o uso da música na aprendizagem e no desenvolvimento do conhecimento não é uma novidade. Nesse sentido, é importante analisar essa relação da música com a aprendizagem e como a música pode interferir e auxiliar na aquisição de conhecimentos.

1.1 A MÚSICA E O SER HUMANO

Marinheiro e Pereira (2017), ao analisarem os benefícios da música no escopo do desenvolvimento mental infantil apresentam alguns pontos relevantes:

  • A sensibilidade se vê aflorada, e o confronto dos problemas cotidianos se torna mais fácil, especialmente com relação aos sentimentos mantidos por pessoas próximas.

  • A fluência de ideias e da noção espacial aceleram o pensamento, levando-o a alcançar soluções mais rápidas e livres, menos condicionadas, o que se atrela a qualquer âmbito da vida da criança.

  • A flexibilidade e adaptação a diferentes situações do dia-a-dia também é fortalecida, promovendo um ajuste criativo mais eficiente; o que se associa à melhoria na capacidade de reorganização e redefinição acerca do aprendizado de qualquer ordem.

  • A abstração é favorecida, na medida em que o contato com a música, ou com qualquer arte, fomenta a análise cerebral das várias partes de uma situação problema, conectando relações específicas entre elas.

  • A organização, ou seja, a reunião em arranjo lógico de todas as partes de alguma composição qualquer, é desenvolvida, principalmente considerando os avanços da neurociência, e a identificação de uma pluralidade de inteligências.

Ainda segundo Marinheiro e Pereira (2017), um professor ou educador que busque desenvolver tais pontos e promover esses benefícios deve se relacionar com recursos pedagógicos alternativos, que promovam a convivência harmoniosa, e, além disso, apresenta metodologias e linguagens diversificadas, incentivando, inclusive, os estudantes que se mostram mais dispersos, já que a música é uma ferramenta interessante e capaz de eliminar o sentimento de que a aprendizagem é enfadonha. Enquanto recurso pedagógico, ela desenvolve a produção do conhecimento e do progresso individual nas áreas cognitivas, culturais, social, etc.

Para Franco e Ament (2017, p. 107), a música “não só deve ser apreciada como um modo de entretenimento em seus contextos estéticos e emocionais, mas principalmente deve ser utilizada como ferramenta fundamental no pleno desenvolvimento educacional do ser humano”. Franco e Ament (2017, p. 108) apontam:

A música, de modo interativo, se relaciona nos campos inte­lectual, emocional, afetivo e no âmbito motor. No contexto intelec­tual, justifica-se em função da nossa percepção musical estética e estrutural, pois é necessário que ocorram processos intelectuais de raciocínio e decodificação; no campo afetivo psíquico, pelo fato de que a música mexe com nosso tempo e espaço; e, no âmbito motor, porque a música é intrínseca aos movimentos, seja para quem ouve, seja pra quem toca.

No que tange à neurociência, embora ainda seja uma área de estudo que pode ser entendida como recente, há investigações em torno dos efeitos da música no cérebro humano, efeitos em pessoas que estão ou não expostas à aprendizagem musical, ao ouvir e ao fazer música, ao tocar, se expressar por meio dela ou compor sons. Ainda que os resultados não possam ser considerados como absolutamente conclusivos, Franco e Ament (2017) afirmam que o processamento cerebral relacionado com a música é intenso e magnífico. As novas descobertas nesse campo têm demonstrado que há milhares de neurônios atrelados a esse universo, em muitas partes distintas do cérebro, comprovando uma multiplicidade de raciocínios e processor envolvidos.

Os neurocientistas divergem em alguns pontos, no que se refere a essas partes do cérebro que são afetadas ou movimentadas por meio da música, sendo que há estudiosos que declaram associação da música com partes cerebrais voltadas para a decodificação e áreas mais estruturais, e outros que defendem a atuação do sistema límbico, atrelado à memória, emoções e aprendizagem. Segundo apontam Franco e Ament (2017), o cerebelo, responsável pela concepção temporal e coordenação motora, também demonstra uma atuação intensa relacionada com a música. Algumas pesquisas laboratoriais já constataram que apenas ao ouvir músicas, essa parte do cérebro se manifesta, algo que não ocorria quando essas mesmas pessoas ouviam sons desorganizados, aleatórios ou ruídos. Além disso, foi constatado que quando uma música emociona o ouvinte, a partir da atuação do cerebelo, são processados neurotransmissores que promovem o bem-estar, como a dopamina e a noradrenalina. A dopamina é um dos grandes responsáveis pelo funcionamento saudável do cérebro, e a noradrenalina ativa a amígdala, que processa e condiciona as emoções.

O neurologista Gottfried Schlaug (2011, apud FRANCO; AMENT, 2017, p. 109) declara: “Praticamente não existe nenhuma outra habilidade, nenhu­ma ação humana que precise de tanta atividade cerebral. A pergunta que se deveria fazer é: que partes do cérebro não estão ativas quando se toca um instrumento musical?” Ainda segundo Franco e Ament (2017), outro neurologista, Oliver Sacks, é categórico ao afirmar que o funcionamento cerebral de músicos e não músicos é visivelmente diferente, é notável. É de se ressaltar que Oliver Sacks (2011, apud FRANCO; AMENT, 2017, p. 110)

exibe casos de pacientes incapazes até mesmo de se lembrar dos parentes mais próximos, mas que se lembram com precisão de músicas que ouviam há décadas atrás, ou ainda o caso de uma paciente que tem sua memória completamente deteriorada, afetando até mesmo as funções mais básicas do cére­bro, mas que, ao sentar-se no piano, lembra e toca com perfeição obras de música erudita de grande complexidade. Estes são fatos que comprovam que a música tem proprie­dades e benefícios que vão muito além do mero entretenimento e, embora seja um grande universo a ser descoberto, há a certeza de que é uma possível fonte de recursos contra males da vida muito maior do que se imagina.

Como continuam Franco e Ament (2017), a inteligência hoje é dividida em sete tipos diferentes: lógico matemática, naturalista, intra e interpessoal, cinestésica corporal, musical, espacial, e linguística ou verbal. Para cada uma delas, há momentos considerados mais oportunos para seu desenvolvimento durante a infância, o que os especialistas denominam janela das oportunidades, e, até os 10 anos de idade, essas janelas estão mais abertas, o que significa que o desenvolvimento de todas as inteligências é mais facilmente elaborado pela criança. Embora todas as inteligências possam ser desenvolvidas no decorrer de toda a vida, acredita-se que há momentos nos quais os estímulos são mais bem recebidos pelo cérebro, o que se daria até essa idade, segundo os estudos já apresentados pela neurociência.

De acordo com Miranda (2013), a música desencadeia diferentes tipos de emoções ou de estados emocionais, tema amplamente discutido em muitas áreas de conhecimento, como a própria neurociência, a psicologia, a fisiologia, a psicanálise, a filosofia, entre outras. A música, nesse sentido, tende a possibilitar que algumas emoções específicas sejam evocadas por meio dos intervalos melódicos, da harmonia escolhida, dos registros agudos ou graves, do andamento, tempo, das dissonâncias e consonâncias. Todos esse fatores são capazes de provocar emoções específicas e comuns a todas as pessoas, ainda que uma mesma música também possa estimular emoções diferentes em pessoas diferentes, o que poderia significar, e isso ainda está em estudo pelos especialistas da neurociência, que a emoção provocada pela música pode estar associada às vivências anteriores de cada sujeito, ou, até mesmo, ao seu contexto social e cultural.

Ademais, independentemente da letra (da expressão verbal da música) e do conhecimento ou não do seu teor por parte do ouvinte, essas questões são evidentes. Ou seja, mesmo ouvindo uma música em outra língua e não entendendo o que está sendo dito, a música provoca emoções e reações, conferindo à música um valor muitas vezes simbólico atrelado à melodia. Por exemplo, ao conhecer uma pessoa, uma música que estiver sendo tocada ao fundo pode se tornar um gatilho da lembrança daquela pessoa para sempre, consolidando uma relação afetiva da música com algo específico (MIRANDA, 2013).

Miranda (2013) acrescenta que há muitos estudos sendo realizados em torno dos tipos de emoções que podem ser provocados pelos diferentes tipos de música, partindo-se de teorias também diferentes. Há os que adotam a postura chamada absolutista, para os quais as emoções oriundas da música são consequências de julgamentos racionais, estéticos e intelectuais (associados apenas à estrutura cerebral voltada para a decodificação) – a emoção seria uma recompensa dessa decodificação –, e há os que acreditam na capacidade da música para evocar emoções rotineiras como medo, alegria, tristeza, ou seja, atuando no sistema límbico, no processamento das emoções. Nesse contexto,

Como as emoções em geral, a emoção musical procede de uma dinâmica de forças, como no campo da física, e a conduta do homem tomado pela emoção se caracteriza como um fenômeno tanto orgânico quanto psíquico. O resultado é uma forma de comportamento, e, como tal, pessoal. Envolvendo um conteúdo ativo (motor), intelectual (mental), afetivo(psicológico) e tributário dos sistemas de percepção (auditivo, sistema de percepção interna, sistema tátil, visual), tanto quanto da relação do sistema nervoso com o endócrino, o conteúdo ativo se traduz, na emoção musical, numa reação ao objeto apresentado ou representado (formas sonoras em movimento); o conteúdo intelectual diz respeito ao conhecimento, objeto da emoção, e o afetivo remete a emoção propriamente dita, exprimindo na acepção ampla desse termo os valores que a situação vivenciada significa para o sujeito (SEKEFF, 2007, p. 60, apud MIRANDA, 2013, p. 16).

Conforme Miranda (2013), os nervos se excitam devido à ação de alguns fenômenos físicos e outros psíquicos, e a emoção que se sente por meio da música fomenta respostas do organismo. Assim, o som, fenômenos físicos e acústicos, a matéria primordial da música age sobre o sistema nervoso autônomo, sustentação das reações emocionais. As respostas fisiológicas que o organismo dá a esses impulsos está atrelada às relações sonoras, associando, evocando, integrando timbres, altura, duração, intensidade, relaxamento e tensão, densidade e rarefação, e outros elementos dessas substâncias acústicas, podendo alcançar até o tálamo. Além disso, é importante ressaltar que as definições métricas das músicas também podem, já comprovadamente, desencadear emoções, a partir da pulsação esperada pelo ouvinte.

Por outro lado, o cerebelo é uma parte cerebral associada com o tempo e os movimentos do corpo. A filogenética já comprovou que, no que toca à evolução humana, essa é a uma das partes mais antigas do corpo, e, agindo como regente das fibras nervosas, apresenta reações intensas e fortes quando em contato com sons harmônicos, em contraposição com sons confusos ou ruídos, quando permanecem inativados. Essa parte do cérebro está intimamente ligada a outras que também atuam sobre as emoções, como a amígdala e o lobo frontal, que planeja e controla impulsos. Na ação musical, o cerebelo ajuda no acompanhamento do tempo, na constância, mas, ainda, atua na produção e na liberação de neurotransmissores que promovem a sensação de bem-estar.

Figura 1: Localização do cerebelo

Fonte: Miranda (2013, p. 18)

Miranda (2013, p. 21) acrescenta que o cerebelo apresenta forte ação

mesmo que o ouvinte não possua os conhecimentos musicais necessários para reconhecer seu valor estético, pois pelo seu caráter ambíguo, a música estimula inúmeros modos de apreensão de seus sentidos. Mas com certeza, ele se beneficiaria muito mais se possuísse a capacidade de reconhecer os códigos, a trama, a alternância entre sons e silêncios, as dissonâncias, ou seja, o reconhecimento intelectual de uma determinada peça.

De acordo com Mónico, Santos-Luiz e Souza (2015), para além desses fatores emocionais, há muitas pesquisas desenvolvidas e que já podem comprovar alguma relação entre a aprendizagem e a música. Alunos que têm experiências musicais ou educação musical tendem a notas mais elevadas do que os que não são expostos a esse contato. Há estudos, inclusive, que indicam uma relação entre o tempo de educação musical em horas por semana, e a diferença de notas entre estudantes. Quanto mais tempo se está em contato com a música, mais altas são as notas dos alunos. Existem estudos cujos resultados não são conclusivos, mas muitos deles ainda buscam demonstrar cientificamente esses benefícios acadêmicos promovidos ou associados à música.

Ainda segundo Mónico, Santos-Luiz e Souza (2015), suas pesquisas indicaram que há disciplinas cujos professores apontam índices mais elevados de melhorias na capacidade cognitiva dos estudantes, sendo que em História e Português, os avanços dos alunos foram mais notáveis, seguindo-se a Matemática, as Ciências Naturais, a Geografia e a Físico-Química. Os benefícios não foram apenas percebidos nas notas dos alunos, mas em suas maneiras de discutir os problemas escolares que lhes foram propostos, e o desenvolvimento pessoal global também se viu bastante modificado, junto à melhorias nos trabalhos em equipe, motivação, disciplina e comportamento de um modo geral, responsabilidade, sensibilidade e autonomia em sala de aula.

Para que todos esses fatores sejam alcançados no desenvolvimento humano, Miranda (2013) acrescenta que o processamento da música acaba exigindo a utilização de áreas muito vastas do cérebro, responsáveis por questões muito diferentes, atingindo desde a saúde metal até a saúde física dos sujeitos.

Um mapeamento realizado pela neurociência aponta a atividade neurológica com apenas a audição de músicas, mostrando imagens diversas de acordo com timbres, ritmos, altura, métrica e melodias das canções. Algumas atividades cerebrais complexas são ativadas pela música de maneira simultânea e bastante difusa. Miranda (2013) afirma que essas atividades cerebrais demonstradas abarcam desde a memória à linguagem, desde a motricidade às emoções, desde a cognição à sensação mais superficial, e outras reações processadas do lado direito do cérebro. Há, ainda, alguns parâmetros para essas percepções estimuladas e estimuláveis: o andamento, o contorno, a duração, a intensidade, a altura, o timbre, a localização espacial e a reverberação da música. Desse modo, pode-se entender que ouvir música, assim como fazer música, é uma ação que requer esforço e intensa atividade de todo o cérebro, levando a que se entenda a música como uma combinação de 3 tarefas. Essa intensa atividade cerebral pode ser observada na figura 2, a seguir, indicando, para além do cerebelo, outros pontos que atuam em função da música:

Figura 2: Atividade cerebral relacionada à música