A MERCANTILIZAÇÃO E ESPETACULARIZAÇÃO DO CARNAVAL EM SÃO LUÍS DO MARANHÃO: UMA REVISÃO DE LITERATURA

THE COMMODIFICATION AND SPECTACULARIZATION OF CARNIVAL IN SÃO LUÍS DO MARANHÃO: A LITERATURE REVIEW

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/784410523

RESUMO
O presente estudo analisa os impactos da mercantilização e da espetacularização do carnaval de São Luís (MA). Parte-se da compreensão de que o Carnaval ludovicense passou por um processo de reconfiguração marcado pela crescente centralidade dos grandes circuitos de entretenimento, especialmente aqueles estruturados em torno dos trios elétricos, em detrimento de manifestações historicamente vinculadas à identidade cultural da cidade, como os blocos tradicionais, escolas de samba, tribos de índio, blocos afros e demais expressões populares. A pesquisa tem como base a abordagem qualitativa, de caráter descritivo e exploratório, fundamentada em revisão de literatura. Os resultados indicam que a priorização dos circuitos de trios elétricos, associada à concentração de investimentos, infraestrutura e estratégias de comunicação governamental, tem contribuído para a redução da visibilidade das manifestações tradicionais, para a reconfiguração dos espaços historicamente ocupados por essas expressões e para o fortalecimento de um modelo carnavalesco orientado pela lógica do espetáculo e do consumo. Conclui-se que a mercantilização e a espetacularização não representam, por si sós, um problema para o Carnaval de São Luís. Contudo, quando acompanhadas por processos de seletividade institucional, tendem a produzir desigualdades na distribuição de recursos, na visibilidade e no reconhecimento das diferentes manifestações culturais que compõem a festa, comprometendo a diversidade e o patrimônio cultural carnavalesco ludovicense.
Palavras-chave: Carnaval; Mercantilização; Espetacularização; São Luís.

ABSTRACT
This study analyzes the impacts of the commodification and spectacularization of the Carnival in São Luís (Maranhão). It proceeds from the understanding that the local Carnival has undergone a reconfiguration process marked by the growing centrality of major entertainment circuits—particularly those structured around trios elétricos (mobile sound stages)—at the expense of manifestations historically linked to the city's cultural identity, such as blocos tradicionais, samba schools, tribos de índio (Indigenous-themed troupes), blocos afros, and other popular expressions. The research employs a qualitative approach—descriptive and exploratory in nature—grounded in a literature review. The results indicate that prioritizing trio elétrico circuits, combined with the concentration of investments, infrastructure, and government communication strategies, has contributed to reducing the visibility of traditional manifestations, reconfiguring the spaces historically occupied by these expressions, and reinforcing a Carnival model driven by the logic of spectacle and consumption. The study concludes that commodification and spectacularization do not, in themselves, constitute a problem for the São Luís Carnival. However, when accompanied by processes of institutional selectivity, they tend to generate inequalities regarding the distribution of resources and the visibility and recognition of the various cultural manifestations that make up the festival, thereby compromising the diversity and cultural heritage of the local Carnival.
Keywords: Carnival; Commodification; Spectacularization; São Luís.

1. INTRODUÇÃO 

O Carnaval constitui uma das mais importantes manifestações culturais brasileiras, reunindo diferentes formas de expressão artística, identidades coletivas e tradições populares construídas ao longo da história.

Em São Luís do Maranhão, essa diversidade manifesta-se por meio de blocos tradicionais, escolas de samba, tribos de índio, blocos afros, fofões e outras expressões que conferem singularidade ao carnaval ludovicense. Entretanto, nas últimas décadas, observa-se uma reconfiguração da festa, marcada pela expansão do modelo de carnaval de trios elétricos, pela ampliação de grandes circuitos de shows e pela crescente inserção de interesses econômicos e turísticos na organização do evento.

Esse processo está relacionado aos fenômenos da mercantilização e da espetacularização da cultura, por meio dos quais as manifestações culturais passam a integrar estratégias de promoção territorial, atração turística e produção de grandes eventos. Embora tais processos possam contribuir para ampliar investimentos, infraestrutura e visibilidade das festividades, eles também podem provocar uma valorização seletiva de determinadas manifestações culturais, alterando a dinâmica da festa e influenciando a distribuição dos recursos públicos, dos espaços de apresentação e da atenção midiática.

Toda investigação segundo Minayo (2001) se inicia por um problema, com uma dúvida ou com uma pergunta que é articulada a conhecimentos anteriormente obtidos e podem demandar a criação de novos referenciais que surgem a partir do objeto investigado devido à ampliação do conhecimento adquirido mediante os estudos.

Nesse sentido, a presente pesquisa parte do seguinte problema: de que forma a priorização do carnaval de trios elétricos pelo poder público tem contribuído para a desvalorização e invisibilização das manifestações tradicionais do Carnaval de São Luís (MA)?

O estudo tem como objetivo geral analisar de que forma a mercantilização e a espetacularização do carnaval de trios elétricos, impulsionadas pelo poder público, têm impactado as manifestações tradicionais do Carnaval de São Luís. Como objetivos específicos, busca-se investigar o processo de expansão e consolidação desse modelo carnavalesco na cidade; analisar o papel da mídia governamental na promoção dos diferentes circuitos da festa; examinar a distribuição dos investimentos públicos e da infraestrutura destinada aos diversos formatos carnavalescos; e identificar os impactos desse processo sobre as manifestações tradicionais.

A realização desta pesquisa justifica-se pela importância de compreender as transformações que vêm ocorrendo no Carnaval de São Luís, uma das principais manifestações culturais do Maranhão. Embora o carnaval ludovicense seja reconhecido pela diversidade de suas expressões culturais, observa-se que diferentes formas de “brincar” a festa têm recebido níveis distintos de visibilidade e apoio institucional. Diante desse cenário, torna-se relevante investigar de que maneira as políticas públicas e os processos de mercantilização e espetacularização influenciam a preservação das manifestações tradicionais, contribuindo para o debate sobre a valorização do patrimônio cultural imaterial.

2. SOBRE A HISTÓRIA DO CARNAVAL DE SÃO LUÍS

As práticas carnavalescas de São Luís têm suas origens no carnaval português e carioca, recebendo posteriormente influências do modelo baiano. A primeira manifestação trazida pelos portugueses foi o entrudo, caracterizado por brincadeiras populares em espaços públicos envolvendo água, lama, música e dança (QUEIROZ, 1999).

Com a chegada da família real portuguesa ao Brasil, o Carnaval passou por um processo de refinamento. O entrudo, considerado violento e inadequado pelas elites, foi gradualmente substituído por bailes de máscaras, clubes e corsos, inspirados nos modelos europeus. Enquanto isso, nas camadas populares surgiram os ranchos e, posteriormente, as escolas de samba, que conquistaram espaço e se consolidaram como uma das principais manifestações carnavalescas do país (QUEIROZ, 1999).

Essas transformações também alcançaram São Luís. Embora o entrudo tenha permanecido na cidade até a década de 1970, outras manifestações ganharam destaque, como os cordões, o congo, a chegança, o fandango e o caninha-verde, praticados principalmente pelas camadas populares, mas apreciados por diferentes grupos sociais (MARTINS, 2013). Ao longo do século XX, essas brincadeiras deram origem aos atuais blocos tradicionais, tribos de índio, blocos afros e escolas de samba, organizados, em sua maioria, por moradores de bairros tradicionais e periféricos.

A partir do final da década de 1980, o Carnaval de São Luís passou a sofrer forte influência do modelo baiano, baseado nos trios elétricos e nos grandes shows. Durante a década de 1990, esse formato ganhou destaque junto ao público, à mídia e aos patrocinadores, concentrando-se principalmente na região litorânea da cidade. Apesar disso, as manifestações tradicionais continuaram mobilizando grande parte da população. Em resposta ao avanço desse novo modelo, lideranças culturais e o poder público promoveram ações voltadas à valorização do carnaval tradicional, contribuindo para sua permanência até meados da década de 2010 (ASSUNÇÃO, 2000).

Como resultado desse processo histórico, o Carnaval de São Luís consolidou-se como uma manifestação marcada pela diversidade cultural e pela forte participação comunitária. Entre suas principais expressões destacam-se os blocos tradicionais, as escolas de samba, os blocos de charanga, as tribos de índio, os blocos afros, o fofão e o tambor de crioula, manifestações que serão caracterizadas a seguir.

.2.1. Surgimento e Crescimento do Circuito da Litorânea e a Mudança no Perfil da Festa.

A partir da década de 1990, com a chegada dos trios elétricos e a influência do modelo baiano, o Carnaval de São Luís passou por uma importante reconfiguração. Até então, as principais transformações estavam relacionadas à institucionalização dos desfiles de passarela inspirados no carnaval carioca. Com a introdução dos trios elétricos, um novo circuito passou a disputar espaço com as manifestações tradicionais (ASSUNÇÃO, 2000).

No final da década de 1990, o carnaval ludovicense já se encontrava organizado em diferentes circuitos. Enquanto o Anel Viário concentrava os desfiles de passarela e bairros como a Madre Deus preservavam o carnaval de rua com blocos tradicionais, escolas de samba, blocos de charanga e outras manifestações populares, a Avenida Litorânea consolidava-se como espaço dos grandes eventos (ASSUNÇÃO, 2000).

Nesse contexto surgiu, em 1995, o Marafolia, primeira micareta do estado, inspirada nos carnavais fora de época e realizada na Avenida Litorânea. O evento alcançou grande sucesso, reunindo milhares de foliões, atraindo artistas nacionais e contribuindo para transformar a orla no principal polo carnavalesco da cidade (ASSUNÇÃO, 2000; O IMPARCIAL, 2017).

A consolidação desse modelo fortaleceu uma lógica baseada em grandes shows, trios elétricos, abadás, camarotes e patrocínios, aproximando o Carnaval de São Luís da dinâmica do espetáculo e do consumo cultural (CANCLINI, 2010; DEBORD, 2003; SERPA, 2007). Como consequência, houve crescente concentração de investimentos, visibilidade midiática e apoio institucional nesse circuito, enquanto as manifestações tradicionais passaram a enfrentar maiores dificuldades para manter espaço, recursos e reconhecimento (ASSUNÇÃO, 2000; MENEZES, 2022).

Assim, o carnaval ludovicense passou a se organizar em circuitos distintos e desiguais, evidenciando a coexistência de diferentes modelos de festa. Ao mesmo tempo em que o circuito da Litorânea ampliou o potencial turístico e econômico do Carnaval, intensificou-se a tensão entre tradição e mercado, tema que será aprofundado no capítulo seguinte, dedicado à mercantilização e à espetacularização do Carnaval de São Luís.

3. METODOLOGIA

Ao apresentar a metodologia que compõe determinada pesquisa, busca-se apresentar o “caminho do pensamento” e a “prática exercida” na apreensão da realidade, e que se encontram intrinsecamente constituídos pela visão social de mundo veiculada pela teoria da qual o pesquisador se vale. O processo de apreensão e compreensão da realidade inclui as concepções teóricas e o conjunto de técnicas definidos pelo pesquisador para alcançar respostas ao objeto de estudo proposto. É a metodologia que explicita as opções teóricas fundamentais, expõe as implicações do caminho escolhido para compreender determinada realidade e o homem em relação com ela (MINAYO,1994, p. 22).

Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa qualitativa, de natureza exploratória e descritiva. A pesquisa qualitativa nos conceitos de Minayo (2001) responde a questões muito particulares, se preocupa, nas ciências sociais, com um nível de realidade que não pode ser quantificado, ou seja, trabalha com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis.

A opção pela abordagem qualitativa justifica-se pela necessidade de compreender os processos de mercantilização e espetacularização do Carnaval de São Luís e seus impactos sobre as manifestações tradicionais, considerando seus aspectos históricos, culturais, sociais e políticos.

Quanto aos procedimentos metodológicos, a pesquisa fundamentou-se em revisão bibliográfica e pesquisa documental. A leitura da bibliografia deve ser um exercício de crítica, na qual devem ser destacadas as categorias usadas pelos diferentes autores. Este é, segundo Goldenberg (2007, p. 79), “um exercício de compreensão fundamental para a definição da posição que o pesquisador irá adotar”.

A pesquisa documental foi desenvolvida por meio da análise de documentos oficiais, editais, portarias, contratos administrativos, dados do Portal da Transparência do Estado do Maranhão e do Diário Oficial do Município de São Luís, além de reportagens publicadas em veículos de comunicação, como Agência Brasil, G1, Imirante e O Imparcial. Esses documentos permitiram identificar investimentos públicos, ações institucionais, políticas de fomento, organização dos circuitos carnavalescos e aspectos relacionados à valorização e à visibilidade das diferentes manifestações culturais.

A coleta dos dados foi realizada integralmente em ambiente digital, mediante consulta a bases de dados acadêmicas, bibliotecas virtuais, portais institucionais e páginas oficiais de órgãos públicos, bem como aos documentos e notícias pertinentes ao objeto de estudo.

4. OS ACHADOS DA PESQUISA

Para fundamentar a presente pesquisa, foi realizada uma revisão de literatura a partir de materiais como livros, artigos científicos, dissertações e teses que abordam a história do Carnaval de São Luís, a mercantilização da cultura, a espetacularização, as políticas culturais e as transformações das manifestações populares. As principais obras utilizadas encontram-se sistematizadas no Quadro 1.

Quadro 1. Fontes utilizadas na Revisão de Literatura

Fonte

Ano

Autoria

Tema

Carnaval Brasileiro

1999

Maria Isaura Pereira de Queiroz

Origem e evolução do Carnaval brasileiro

Carnavais de São Luís

2013

Ananias Martins

História do Carnaval de São Luís

Resgatando o carnaval de rua: a pujança maranhense contra a homogeneização nacional-global

2000

Matthias Assunção

Transformações do Carnaval ludovicense e influência dos trios elétricos

A festa carnavalesca em São Luís e os blocos tradicionais

2023

Euclides Barbosa Moreira Neto

Blocos tradicionais e Carnaval de São Luís

Nas ruas, nos clubes e na passarela: a trajetória dos blocos tradicionais no Carnaval de São Luís

2022

André Araújo de Menezes

Evolução histórica dos blocos tradicionais

Carnaval de Charangas: um estudo dos blocos organizados de São Luís

2019

Honilton Nunes Filho

Organização dos blocos carnavalescos

Consumidores e Cidadãos

2010

Néstor García Canclini

Mercantilização da cultura e consumo cultural

A Sociedade do Espetáculo

2003

Guy Debord

Espetacularização da cultura

Cultura de massa versus cultura popular na cidade do espetáculo e da retradicionalização

2007

Angelo Serpa

Cidade, cultura e espetacularização

A cultura como mercadoria

2019

Luciane Silvestre Girelli

Mercantilização cultural

Não Lugares

2005

Marc Augé

Espaço, identidade e memória urbana

Morfologia Urbana e Desenho da Cidade

2010

José Manuel Lamas

Organização do espaço urbano

O Bairro Folia

2018

Nathélia Rocha e Antonio Cordeiro Feitosa

Madre Deus e territorialidade cultural

Fonte: Elaborado pela autora, 2026.

Além da revisão de literatura, a pesquisa utilizou documentos oficiais e reportagens jornalísticas para complementar a análise e confrontar as discussões teóricas com dados e informações sobre a organização e o financiamento do Carnaval. As principais fontes documentais encontram-se apresentadas no Quadro 2.

Quadro 2. Fontes documentais consultadas

Documento/Fonte

Ano

Instituição

Finalidade na pesquisa

Diário Oficial do Município de São Luís (editais, contratos e inexigibilidades)

2024–2026

Prefeitura de São Luís

Identificar investimentos públicos no Carnaval

Portal da Transparência do Estado do Maranhão

2026

Governo do Maranhão

Levantar gastos estaduais com o Carnaval

Agência Brasil

2024

EBC

Caracterização do Carnaval contemporâneo

O Imparcial

2017 e 2024

Jornal O Imparcial

Histórico do Marafolia e do Cidade do Carnaval

G1 Maranhão

2013 e 2024

Grupo Globo

Informações sobre o Marafolia e a programação carnavalesca

Imirante

2006

Imirante

Histórico da chegada dos trios elétricos

Portal Cultura MA

2023

Governo do Maranhão

Programação oficial do Carnaval

ArchDaily

2022

ArchDaily Brasil

Reforma da Praça da Saudade

Fonte: Elaborado pela autora, 2026.

As transformações no Carnaval de São Luís não podem ser compreendidas apenas a partir das mudanças nos espaços urbanos ou da reorganização dos circuitos festivos como mostram as fontes citadas nos quadros acima.

É necessário considerar também os processos econômicos, políticos e culturais que influenciaram a produção e a valorização das diferentes manifestações carnavalescas (CANCLINI, 2010).

A partir desse conjunto de materiais dos Quadros 01 e 02, esta parte do trabalho analisa a seguir como a mercantilização e a espetacularização contribuíram para a reconfiguração do Carnaval de São Luís, abordando, inicialmente, os conceitos que sustentam essa discussão; em seguida, as transformações urbanas da Madre Deus e seus reflexos sobre as manifestações tradicionais; o contraste entre os investimentos destinados aos grandes espetáculos e ao carnaval tradicional; e, por fim, os impactos da seletividade institucional e da lógica mercadológica sobre a cultura, a tradição e os sujeitos sociais que mantêm vivo o Carnaval ludovicense.

4.1. Mercantilização, Espetacularização e Reconfiguração do Carnaval

As transformações observadas no Carnaval de São Luís podem ser compreendidas a partir dos processos de mercantilização e espetacularização da cultura, que alteram a forma como as manifestações culturais são produzidas, promovidas e apropriadas socialmente (GIRELLI, 2019; SERPA, 2007). A mercantilização corresponde à incorporação das expressões culturais à lógica do mercado, atribuindo-lhes também valor econômico e turístico, enquanto a espetacularização privilegia a dimensão visual e midiática das festas, orientando sua organização para a atração de grandes públicos, investimentos e visibilidade (GIRELLI, 2019; SERPA, 2007; SILVA, 2013).

Esses processos ajudam a compreender as transformações recentes do Carnaval ludovicense. Historicamente, a Madre Deus consolidou-se como um dos principais territórios da cultura popular em São Luís, reunindo manifestações como blocos tradicionais, escolas de samba, blocos afros, fofões, tambor de crioula e bumba-meu-boi. Nesse contexto, a Praça da Saudade tornou-se um espaço de convivência, memória e fortalecimento dos vínculos comunitários, evidenciando a relação entre território e identidade cultural descrita por Lamas (2010) e Tuan (2012) (ROCHA; FEITOSA, 2018).

A reforma da Praça da Saudade, iniciada em 2019, modificou características do espaço historicamente utilizado pelas manifestações culturais locais. Embora a intervenção tenha buscado requalificar a área, a reorganização do espaço reduziu condições anteriormente favoráveis à permanência e à realização dessas atividades. À luz do conceito de "não-lugar", de Augé (2005), essa transformação pode ser interpretada como parte de um processo de enfraquecimento dos vínculos identitários e das formas tradicionais de apropriação do espaço público.

Com a retomada do Carnaval, em 2023, o circuito da Madre Deus deixou de integrar a programação oficial, enquanto áreas como a Avenida Litorânea passaram a concentrar investimentos, infraestrutura e maior visibilidade institucional (CULTURA.MA.GOV.BR, 2023; ASSUNÇÃO, 2000). Esse deslocamento evidencia uma reconfiguração territorial da festa, na qual espaços historicamente vinculados às manifestações populares perdem centralidade em favor de circuitos orientados pela lógica do espetáculo (SERPA, 2007).

Assim, a reconfiguração do Carnaval de São Luís não se restringe às mudanças físicas dos espaços urbanos. Ela expressa um processo mais amplo de reorganização da festa, em que critérios de visibilidade, consumo e atração turística passam a influenciar a valorização de determinados circuitos carnavalescos, produzindo novas formas de ocupação do espaço e diferentes condições de reconhecimento das manifestações tradicionais.

4.2. Seletividade Institucional e Investimentos Públicos

O fortalecimento dos trios elétricos, a partir do final do século XX, alterou significativamente a organização do Carnaval de São Luís. Impulsionado pela influência de modelos carnavalescos de outras regiões e pelo potencial de atração de público e investimentos, esse formato passou a ocupar posição de destaque na programação oficial, reduzindo a centralidade dos circuitos tradicionais de rua e de passarela (ASSUNÇÃO, 2000; MOREIRA NETO, 2023; MENEZES, 2022).

Esse processo ocorreu paralelamente à crescente valorização da cultura como estratégia de promoção turística e desenvolvimento econômico (CANCLINI, 2010; GIRELLI, 2019). Nesse contexto, o poder público passou a investir tanto na preservação de manifestações tradicionais quanto na consolidação de grandes circuitos voltados ao entretenimento de massa. Inicialmente, esses modelos coexistiram, com apoio estatal às manifestações populares e participação mais intensa da iniciativa privada nos eventos ligados aos trios elétricos (ASSUNÇÃO, 2000).

Entretanto, a partir da década de 2010, observa-se uma reorientação dos investimentos públicos. Após o encerramento do Marafolia, em 2013, o Estado assumiu maior protagonismo na organização dos circuitos de trios elétricos, enquanto os grandes eventos passaram a concentrar estrutura, divulgação e programação oficial (SERPA, 2007; VIACORDI; SOTTOMI; SILVA, 2013).

A pesquisa documental realizada evidencia essa tendência. Em 2023, o circuito da Madre Deus, tradicional espaço dos blocos carnavalescos, não integrou a programação oficial. No ano seguinte, foi criado o circuito Cidade do Carnaval, destinado a grandes shows e atrações nacionais, enquanto diversas manifestações tradicionais passaram a ocupar principalmente a programação do pré-carnaval ou datas posteriores ao período oficial da festa.

Os documentos oficiais também demonstram diferenças na destinação dos recursos públicos. Em 2024, a Prefeitura de São Luís destinou R$ 6.998.731,60 para as atividades do pré-carnaval e carnaval, dos quais R$ 3.901.000,00 foram destinados às manifestações culturais locais, valores distribuídos entre dezenas de grupos e agremiações. Paralelamente, apenas três atrações nacionais contratadas para o circuito Cidade do Carnaval consumiram aproximadamente R$ 1,25 milhão em cachês.

Situação semelhante foi observada na esfera estadual. Os dados do Portal da Transparência indicam que, em 2026, foram destinados mais de R$ 31 milhões para a produção e operacionalização do pré-carnaval e do carnaval oficial, com significativa concentração de recursos na infraestrutura, logística e contratação de atrações dos grandes circuitos.

Esses resultados indicam uma seletividade institucional na distribuição dos investimentos públicos. Embora as manifestações tradicionais continuem recebendo apoio financeiro, os recursos destinados aos grandes eventos apresentam maior concentração, visibilidade e capacidade de mobilização turística, reforçando a lógica da mercantilização e da espetacularização discutida anteriormente (CANCLINI, 2010; SERPA, 2007; DEBORD, 2003).

4.3. Impactos Sobre as Manifestações Tradicionais e Seus Sujeitos Sociais

Os resultados apresentados evidenciam que a mercantilização e a espetacularização do Carnaval de São Luís produzem impactos que ultrapassam a dimensão econômica, alcançando aspectos culturais, sociais e simbólicos das manifestações tradicionais. Conforme discutem Serpa (2007) e Girelli (2019), a transformação da cultura em mercadoria amplia sua visibilidade e potencial turístico, mas também favorece processos de padronização, seleção e hierarquização das expressões culturais.

Essa seletividade institucional não significa a ausência de investimentos no Carnaval, mas a priorização de determinados formatos festivos em detrimento de outros. Enquanto grandes circuitos recebem maior infraestrutura, divulgação e investimentos, manifestações historicamente ligadas à identidade ludovicense, como os blocos tradicionais, os fofões e outras brincadeiras populares, passam a ocupar posição secundária na programação oficial (MOREIRA NETO, 2023; NUNES FILHO, 2019).

Conforme observa Serpa (2007), esse processo produz uma memória cultural seletiva, na qual determinadas manifestações são promovidas como símbolos da identidade local, enquanto outras permanecem à margem das políticas culturais e da visibilidade midiática. No contexto maranhense, esse fenômeno evidencia que a valorização do Carnaval não ocorre de maneira homogênea, mas por meio da escolha de quais expressões culturais serão privilegiadas pelo poder público e pelo mercado.

Os impactos dessa dinâmica atingem diretamente os sujeitos responsáveis pela continuidade dessas tradições. Brincantes, mestres, músicos e artesãos passam a enfrentar maiores dificuldades para manter seus grupos, dependendo do esforço das comunidades e de recursos limitados para garantir a continuidade das manifestações (MOREIRA NETO, 2023; COSTA, 2022). Paralelamente, observa-se o enfraquecimento dos espaços historicamente ocupados por essas práticas culturais, reduzindo sua presença na paisagem urbana e na memória coletiva.

Essas transformações também repercutem sobre a população local. Conforme destacam Maia (2001) e Pestana (2011), cultura e tradição constituem elementos fundamentais para a construção da identidade, da memória e do sentimento de pertencimento. Quando determinadas manifestações perdem espaço, diminui-se também a possibilidade de diferentes grupos sociais vivenciarem experiências culturais construídas coletivamente ao longo das gerações.

Nessa perspectiva, a lógica da sociedade do espetáculo, discutida por Debord (2003), contribui para que a experiência carnavalesca seja progressivamente orientada por critérios de visibilidade, consumo e entretenimento. Embora esse modelo fortaleça o turismo e amplie a circulação econômica da festa, também pode produzir processos de invisibilização de manifestações tradicionais, reconfigurando o Carnaval de São Luís segundo interesses mercadológicos e reduzindo a diversidade cultural que historicamente caracterizou a celebração.

Dessa forma, a análise realizada demonstra que a mercantilização e a espetacularização do Carnaval ludovicense constituem processos ambíguos. Longe de serem fenômenos intrinsecamente prejudiciais, podem contribuir para a valorização econômica e turística da festa. Contudo, quando apropriadas de maneira seletiva pelas políticas públicas, privilegiando determinados modelos carnavalescos em detrimento de outros, passam a reforçar desigualdades na distribuição de investimentos, infraestrutura e visibilidade, comprometendo o reconhecimento e a continuidade das manifestações tradicionais que compõem o patrimônio cultural de São Luís.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente estudo teve como objetivo analisar de que forma a mercantilização e a espetacularização do carnaval de trios elétricos, impulsionadas pela atuação do poder público, têm impactado as manifestações tradicionais do Carnaval de São Luís (MA). Para isso, foram realizadas pesquisa bibliográfica e pesquisa documental, fundamentadas em autores que discutem cultura, espaço urbano, patrimônio cultural, sociedade do espetáculo e políticas culturais, bem como na análise de documentos oficiais, editais, dados de investimentos públicos e materiais de divulgação institucional.

Os resultados obtidos evidenciam que as transformações observadas no Carnaval ludovicense não decorrem apenas das mudanças naturais pelas quais passam as manifestações culturais ao longo do tempo, mas também das escolhas institucionais relacionadas à organização da festa. A análise dos documentos e do referencial teórico demonstrou que, nas últimas décadas, houve uma crescente priorização dos circuitos de trios elétricos por parte do poder público, refletida na concentração de investimentos financeiros, infraestrutura, estratégias de comunicação e promoção turística.

Nesse contexto, verificou-se que a mercantilização e a espetacularização do Carnaval não constituem, por si mesmas, processos necessariamente prejudiciais. Ao contrário, quando acompanhadas por políticas públicas equilibradas, podem contribuir para ampliar a visibilidade das manifestações culturais, fortalecer o turismo e dinamizar a economia local. O problema identificado nesta pesquisa reside na forma seletiva como esses processos vêm sendo conduzidos em São Luís. Ao privilegiar o carnaval de trios elétricos como principal produto cultural da festa, o poder público acaba direcionando recursos, visibilidade e infraestrutura para um único modelo carnavalesco, reduzindo o espaço ocupado por manifestações tradicionais que historicamente construíram a identidade do Carnaval ludovicense.

Essa seletividade institucional manifesta-se em diferentes dimensões analisadas ao longo do estudo. A reorganização dos circuitos carnavalescos, a reconfiguração de espaços tradicionalmente associados às manifestações populares, como a Madre Deus, a concentração dos investimentos públicos em grandes eventos e a predominância da divulgação institucional dos circuitos voltados ao entretenimento de massa evidenciam uma mudança nas prioridades das políticas culturais. Como consequência, manifestações tradicionais passam a ocupar posições secundárias na programação oficial e na memória coletiva produzida sobre o Carnaval da cidade.

Os impactos desse processo ultrapassam a esfera econômica. A redução da visibilidade institucional compromete a capacidade dessas manifestações de atrair novos brincantes, formar novas gerações, mobilizar patrocinadores e garantir condições para sua continuidade. Embora muitas delas permaneçam vivas graças ao esforço de seus integrantes e das comunidades onde estão inseridas, a ausência de políticas de valorização compatíveis com sua importância histórica pode contribuir, a longo prazo, para seu enfraquecimento e até mesmo para o desaparecimento de parte desse patrimônio cultural imaterial.

Dessa forma, conclui-se que o desafio não consiste em substituir o carnaval de trios elétricos pelas manifestações tradicionais, nem em impedir os processos de mercantilização e espetacularização da festa. O que se evidencia é a necessidade de políticas culturais mais equilibradas, capazes de compatibilizar o potencial turístico e econômico do Carnaval com a preservação de sua diversidade cultural. Valorizar os grandes circuitos não deve significar invisibilizar as demais expressões que historicamente constituíram o Carnaval de São Luís.

Por fim, espera-se que esta pesquisa contribua para ampliar o debate acerca das políticas culturais voltadas ao Carnaval maranhense, incentivando reflexões sobre formas mais democráticas de distribuição de investimentos, de ocupação dos espaços públicos e de promoção institucional. Além disso, pretende-se que este estudo sirva de subsídio para futuras pesquisas sobre a relação entre cultura, mercado e poder público, reforçando a importância da preservação das manifestações tradicionais como parte fundamental da memória, da identidade e do patrimônio cultural de São Luís.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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