A LITERACIA EMERGENTE NA PRÉ-ESCOLA MEDIADA POR TECNOLOGIAS DIGITAIS: POSSIBILIDADES PEDAGÓGICAS E DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS

EMERGING LITERACY IN PRESCHOOL MEDIATED BY DIGITAL TECHNOLOGIES: PEDAGOGICAL POSSIBILITIES AND CONTEMPORARY CHALLENGES

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/779662547

RESUMO
Este artigo investigou a relação entre literacia emergente, tecnologias digitais e multiletramentos na educação infantil, a partir de uma perspectiva sociocultural. Discute-se como as experiências linguísticas iniciais da criança são ampliadas em contextos mediados por tecnologias digitais, destacando o papel da mediação docente na construção de aprendizagens significativas. Além disso, aborda-se o conceito de multiletramentos como fundamento para compreender as múltiplas linguagens presentes na cultura digital contemporânea. Os resultados indicam que a integração crítica e intencional das tecnologias potencializa o desenvolvimento da literacia emergente, promovendo participação, autoria e pensamento crítico desde a infância. Conclui-se que práticas pedagógicas contextualizadas são essenciais para uma educação infantil alinhada às demandas atuais.
Palavras-chave: Literacia Emergente; Educação Infantil; Tecnologias Digitais; Multiletramentos; Práticas Pedagógicas.

ABSTRACT
This article investigated the relationship between emergent literacy, digital technologies, and multiliteracies in early childhood education from a sociocultural perspective. It discusses how children's initial linguistic experiences are expanded in contexts mediated by digital technologies, highlighting the role of teacher mediation in the construction of meaningful learning. Furthermore, it addresses the concept of multiliteracies as a foundation for understanding the multiple languages ​​present in contemporary digital culture. The results indicate that the critical and intentional integration of technologies enhances the development of emergent literacy, promoting participation, authorship, and critical thinking from early childhood. It concludes that contextualized pedagogical practices are essential for early childhood education aligned with current demands.
Keywords: Emergent Literacy; Early Childhood Education; Digital Technologies; Multiliteracies; Pedagogical Practices.

1. INTRODUÇÃO

A emergência da cultura digital tem reconfigurado profundamente as formas de interação, comunicação e aprendizagem, especialmente na infância - etapa em que os sujeitos constroem suas primeiras relações com a linguagem e o mundo simbólico. Nesse contexto, a educação infantil passa a enfrentar novos desafios, uma vez que as práticas pedagógicas tradicionais já não respondem plenamente às demandas de uma sociedade marcada pela ubiquidade das tecnologias digitais. Assim, a literacia emergente deixa de ser compreendida apenas como um estágio preparatório para a alfabetização formal, passando a ser concebida como uma prática social situada, atravessada por múltiplas linguagens, mídias e formas de expressão (Soares, 2004; Street, 2020).

Paralelamente, a inserção cada vez mais precoce das crianças em ambientes digitais amplia as possibilidades de interação com textos multimodais e, ao mesmo tempo, exige da escola a ressignificação de suas práticas pedagógicas. Estudos recentes indicam que as tecnologias digitais não apenas mediam o acesso à informação, mas também reconfiguram os modos de produção de sentido, participação social e construção do conhecimento na infância (Mendes dos Santos, 2025; Cope & Kalantzis, 2021). Nesse cenário, torna-se compreender a relação entre literacia emergente, multiletramentos e cultura digital, especialmente no contexto da pré-escola.

Diante dessas transformações, coloca-se o seguinte problema de pesquisa: de que maneira as tecnologias digitais contribuem - ou limitam - o desenvolvimento da literacia emergente na pré-escola, considerando as especificidades do desenvolvimento infantil e o papel mediador das práticas pedagógicas?

A partir desse questionamento, o presente estudo tem como objetivo geral analisar criticamente as contribuições das tecnologias digitais para o desenvolvimento da literacia emergente na pré-escola. Para tanto, estabelece como objetivos específicos: (i) compreender os fundamentos teóricos da literacia emergente na educação infantil; (ii) investigar o papel das tecnologias digitais nas práticas pedagógicas contemporâneas; (iii) analisar as relações entre multiletramentos e cultura digital na infância; e (iv) identificar as potencialidades e os limites do uso pedagógico dessas tecnologias.

A relevância deste estudo justifica-se pela necessidade de aprofundar o debate sobre o uso pedagógico das tecnologias digitais na educação infantil, superando perspectivas tecnicistas ou reducionistas. Ao considerar a literacia como prática social e cultural, este trabalho contribui para a construção de abordagens mais críticas e contextualizadas, alinhadas às demandas da contemporaneidade e às diretrizes de uma educação inclusiva e significativa (Selwyn, 2021; Burnett et al., 2022). Além disso, oferece subsídios teóricos para professores e pesquisadores que atuam na interface entre infância, linguagem e tecnologia.

Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa qualitativa, de natureza bibliográfica e abordagem exploratório-analítica, orientada pela análise crítica da literatura, tanto recente quanto clássica. O levantamento bibliográfico foi realizado em bases de dados como SciELO, CAPES e periódicos indexados em estratos Qualis, priorizando estudos publicados entre 2020 e 2025, sem desconsiderar obras de referência consolidadas na área. Como critérios de seleção, adotaram-se: artigos revisados por pares, relevância temática, atualidade e impacto acadêmico.

Os dados foram analisados por meio de uma abordagem qualitativa interpretativa, com base na análise temática, organizando-se os conteúdos em três eixos centrais: (i) literacia emergente, (ii) tecnologias digitais e (iii) multiletramentos. Tal procedimento permitiu identificar convergências, tensões e lacunas na literatura, possibilitando uma compreensão mais ampla e crítica do fenômeno investigado, evitando, assim, abordagens simplificadoras ou deterministas (Creswell & Creswell, 2021).

2. LITERACIA EMERGENTE NA EDUCAÇÃO INFANTIL

A literacia emergente refere-se ao conjunto de práticas, interações e experiências linguísticas vivenciadas pela criança antes do processo formal de alfabetização. Trata-se de um período fundamental em que, inserida em contextos sociais significativos, a criança começa a atribuir sentido à linguagem escrita, ainda que não domine convencionalmente seus códigos. Nessa perspectiva, a aprendizagem da leitura e da escrita não se inicia na escola, mas se constrói progressivamente a partir das vivências cotidianas.

Segundo Magda Soares (2004), o letramento envolve práticas sociais que atribuem significado à leitura e à escrita, indo além da mera decodificação. Essa compreensão desloca o foco da alfabetização como técnica para uma visão mais ampla, na qual o sujeito se constitui leitor e produtor de sentidos em contextos culturais específicos.

Letramento é, pois, o resultado da ação de ensinar e aprender as práticas sociais de leitura e escrita; é o estado ou condição que adquire um grupo social ou um indivíduo como consequência de ter-se apropriado da escrita e de suas práticas sociais. Assim, não basta saber ler e escrever: é preciso fazer uso dessas práticas em situações reais (Soares, 2004, p. 47).

De forma indireta, compreende-se que a criança constrói hipóteses sobre a linguagem a partir de sua inserção em contextos sociais letrados, o que reforça o caráter interacional do desenvolvimento. Esse processo evidencia que a literacia emergente não ocorre de maneira isolada, mas é profundamente influenciada pelas experiências sociais e culturais que cercam a criança.

2.1. A Dimensão Sociocultural da Literacia Emergente

Essa perspectiva encontra respaldo na teoria sociocultural de Lev Vygotsky (1991), que enfatiza o papel da mediação no desenvolvimento cognitivo. Para o autor, o aprendizado ocorre por meio das interações sociais e da internalização de signos culturais, sendo a linguagem um dos principais instrumentos desse processo. De acordo com o autor:

Todas as funções no desenvolvimento cultural da criança aparecem duas vezes: primeiro, no nível social, e depois, no nível individual; primeiro, entre pessoas (interpsicológica), e depois, no interior da criança (intrapsicológica). Isso se aplica igualmente à atenção voluntária, à memória lógica e à formação de conceitos” [...] O aprendizado adequadamente organizado resulta em desenvolvimento mental e põe em movimento vários processos de desenvolvimento que, de outra forma, seriam impossíveis de acontecer. Assim, o aprendizado não é desenvolvimento, mas, corretamente organizado, conduz ao desenvolvimento mental e ativa processos que, de outra forma, não ocorreriam” (Vygotsky, 1991, pags. 75 e 101).

A partir dessa abordagem, a literacia emergente deve ser compreendida como um fenômeno socialmente situado, no qual a criança aprende por meio da interação com adultos e pares mais experientes. O conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP) evidencia que a aprendizagem ocorre quando a criança é desafiada com apoio adequado, favorecendo a ampliação de suas capacidades linguísticas e cognitivas.

A zona de desenvolvimento proximal define aquelas funções que ainda não amadureceram, mas que estão em processo de maturação, funções que amadurecerão amanhã, mas que estão presentemente em estado embrionário. Essas funções poderiam ser chamadas de ‘brotos’ ou ‘flores’ do desenvolvimento, em vez de ‘frutos’” (Vygotsky, 1991, p. 97).

Estudos recentes corroboram essa perspectiva ao apontarem que interações mediadas, como a leitura compartilhada e práticas dialógicas, favorecem significativamente o desenvolvimento da linguagem e da literacia na infância (Wasik & Hindman, 2020; Neumann, 2021).

2.2. Literacia Emergente e Múltiplas Linguagens na Contemporaneidade

No contexto contemporâneo, marcado pela presença das tecnologias digitais, a literacia emergente passa a incorporar múltiplas linguagens e formas de comunicação. As crianças interagem com textos multimodais que combinam elementos visuais, sonoros e interativos, ampliando suas possibilidades de construção de sentido.

“Os significados são construídos por meio da integração de múltiplos modos semióticos, incluindo linguagem verbal, imagem, som e gesto. Em ambientes digitais, essa integração se intensifica, exigindo dos sujeitos novas formas de leitura e produção de sentido que vão além do texto escrito tradicional” (Cope & Kalantzis, 2021, p. 35).

Pesquisas recentes evidenciam que as experiências com múltiplas linguagens - incluindo digitais - ampliam o repertório simbólico infantil, favorecendo o desenvolvimento cognitivo e comunicativo (Ferreira et al., 2025).

As práticas de literacia digital na infância não substituem as formas tradicionais de leitura e escrita, mas as expandem, criando novas oportunidades para a participação, a autoria e a construção de conhecimento em contextos multimodais e interativos (Kucirkova & Flewitt, 2020, p. 12).

Nesse cenário, a literacia assume um caráter multimodal, alinhando-se à perspectiva dos multiletramentos, que reconhece a diversidade cultural e tecnológica da sociedade contemporânea. Assim, cabe ao educador promover práticas pedagógicas que integrem diferentes linguagens, favorecendo uma aprendizagem significativa, crítica e contextualizada.

3. TECNOLOGIAS DIGITAIS NA EDUCAÇÃO INFANTIL: FUNDAMENTOS E MEDIAÇÕES

A inserção das tecnologias digitais na educação infantil deve ser analisada para além de seu caráter instrumental. Trata-se de compreender como essas tecnologias participam da construção do conhecimento, especialmente em um contexto em que as crianças já nascem imersas em uma cultura digital. Em diálogo com o capítulo anterior, observa-se que a literacia emergente, ao incorporar múltiplas linguagens, encontra nas tecnologias digitais um campo fértil para expansão das práticas de leitura, escrita e produção de sentidos.

De acordo com Seymour Papert (1980), a tecnologia deve favorecer a aprendizagem ativa, permitindo que a criança construa conhecimento de forma significativa. Sua perspectiva construcionista desloca o foco do ensino transmissivo para experiências em que a criança é protagonista do próprio processo de aprendizagem.

O papel do computador não é o de ensinar a criança, mas o de proporcionar um ambiente no qual ela possa explorar, experimentar e construir conhecimento por si mesma, desenvolvendo ideias a partir de suas próprias ações e reflexões, em um processo ativo e significativo de aprendizagem” (Papert, 1980, p. 19).

Estudos contemporâneos indicam que o uso pedagógico das tecnologias digitais possibilita novas formas de interação, exploração e autoria infantil (Lima & Simões, 2025). Nesse sentido, tais tecnologias não devem ser compreendidas apenas como ferramentas, mas como mediadoras de experiências que ampliam o repertório cultural e simbólico da criança.

Lima e Simões (2025) afirmam que as tecnologias digitais possibilitam “novas dinâmicas na rotina pedagógica da educação infantil”.

Entretanto, a literatura recente também alerta para riscos associados ao uso indiscriminado de telas, especialmente na primeira infância (Aquino et al., 2022). De forma indireta, compreende-se que a eficácia pedagógica das tecnologias digitais depende da mediação docente e da intencionalidade educativa, reforçando a necessidade de práticas conscientes e contextualizadas.

3.1. Tecnologias Digitais Como Mediadoras da Aprendizagem Infantil

Ao considerar a perspectiva sociocultural discutida anteriormente, as tecnologias digitais podem ser compreendidas como instrumentos de mediação que ampliam as possibilidades de interação e aprendizagem. Assim como a linguagem, esses recursos atuam como ferramentas culturais que possibilitam à criança interpretar, representar e transformar o mundo ao seu redor.

As tecnologias digitais, quando integradas de forma intencional às práticas pedagógicas, não apenas ampliam as oportunidades de acesso à informação, mas também transformam as formas de interação, colaboração e construção de conhecimento, permitindo que as crianças participem ativamente de processos significativos de aprendizagem” (Burnett et al., 2022, p. 78).

Nesse contexto, a criança deixa de ser apenas consumidora de conteúdos e passa a atuar como produtora, exploradora e autora. A mediação do professor torna-se central para orientar essas experiências, garantindo que o uso das tecnologias esteja alinhado aos objetivos pedagógicos e às necessidades do desenvolvimento infantil.

Além disso, o uso de recursos digitais pode potencializar práticas já consolidadas, como a contação de histórias, jogos simbólicos e atividades lúdicas, ampliando suas possibilidades expressivas. Isso reforça a ideia de continuidade com a literacia emergente, agora em um cenário multimodal e interativo.

3.2. Desafios, Limites e Intencionalidade Pedagógica no Uso das Tecnologias

Apesar das potencialidades, o uso das tecnologias digitais na educação infantil exige cautela e reflexão crítica. A exposição excessiva às telas, especialmente sem mediação adequada, pode impactar negativamente aspectos do desenvolvimento infantil, como atenção, linguagem e interação social (Aquino et al., 2022).

O uso indiscriminado de tecnologias digitais na primeira infância, sem critérios pedagógicos claros e sem a mediação de adultos, pode comprometer experiências fundamentais para o desenvolvimento integral da criança, como o brincar, a interação social e a exploração do mundo físico” (Aquino et al., 2022, p. 54).

Dessa forma, não se trata de rejeitar as tecnologias, mas de integrá-las de maneira equilibrada e significativa. A intencionalidade pedagógica emerge como elemento-chave, pois é ela que orienta o uso dos recursos digitais em favor da aprendizagem, evitando tanto o tecnicismo quanto o uso meramente recreativo e descontextualizado.

A qualidade das experiências digitais na educação infantil está diretamente relacionada à mediação do educador, que deve planejar, acompanhar e refletir sobre o uso dessas ferramentas, garantindo que elas contribuam efetivamente para o desenvolvimento cognitivo, social e emocional das crianças” (Kucirkova & Flewitt, 2020, p. 15).

Assim, o papel do professor se redefine: mais do que transmitir conteúdos, ele atua como mediador, curador e orientador das experiências digitais. Essa atuação exige formação contínua e uma compreensão crítica sobre as potencialidades e limitações das tecnologias no contexto educacional.

4. MULTILETRAMENTOS, CULTURA DIGITAL E LITERACIA EMERGENTE

A relação entre tecnologias digitais e literacia emergente pode ser aprofundada a partir do conceito de multiletramentos. Conforme discutido no capítulo anterior, as tecnologias digitais ampliam as formas de interação e construção do conhecimento; nesse sentido, o conceito de multiletramentos oferece uma base teórica consistente para compreender como essas múltiplas linguagens se articulam no desenvolvimento infantil. Segundo Roxane Rojo (2012), a leitura e a escrita contemporâneas envolvem múltiplas linguagens e modos de significação. Essa perspectiva rompe com a centralidade do texto escrito linear e reconhece a complexidade das práticas comunicativas na sociedade atual.

As práticas de leitura e escrita na contemporaneidade não se limitam ao domínio do código verbal escrito, mas envolvem a articulação de diferentes linguagens, como a visual, a sonora e a digital, exigindo dos sujeitos a capacidade de transitar entre múltiplos modos de significação em contextos sociais diversos” (Rojo, 2012, p. 23).

De forma indireta, entende-se que a cultura digital exige competências que vão além da leitura linear, incluindo interpretação de imagens, sons e interações multimodais (Rojo, 2012). Assim, a literacia emergente passa a ser compreendida como um processo ampliado, no qual a criança aprende a produzir e interpretar sentidos em diferentes formatos e plataformas.

Pesquisas recentes corroboram essa perspectiva ao destacar que os multiletramentos ampliam a participação das crianças em práticas sociais mediadas por tecnologias (Carvalho & Linhares, 2023). Carvalho e Linhares (2023) destacam que os multiletramentos promovem “novas práticas no espaço escolar relacionadas às mídias”. Além disso, estudos apontam que a cultura digital redefine a noção de literacia, incorporando dimensões críticas e participativas (Fantin, 2025), o que reforça a necessidade de práticas pedagógicas alinhadas às demandas contemporâneas.

4.1. Multiletramentos e a Ampliação das Práticas de Linguagem na Infância

A noção de multiletramentos contribui significativamente para a compreensão da literacia emergente na educação infantil, especialmente ao considerar a diversidade cultural, social e tecnológica presente no cotidiano das crianças. Diferentemente de abordagens tradicionais, essa perspectiva reconhece que a aprendizagem ocorre por meio da interação com diferentes linguagens e contextos.

A pedagogia dos multiletramentos propõe que o ensino da leitura e da escrita considere a diversidade cultural dos sujeitos e a multiplicidade de linguagens presentes na sociedade contemporânea, valorizando práticas que integrem diferentes modos de expressão e favoreçam a participação ativa dos aprendizes” (Cope & Kalantzis, 2021, p. 67).

Nesse contexto, a criança não apenas aprende a ler e escrever, mas também desenvolve habilidades para interpretar e produzir significados em ambientes multimodais. Isso inclui o uso de imagens, vídeos, jogos digitais e outras formas de comunicação que fazem parte de seu cotidiano. A articulação com o conceito de literacia emergente torna-se evidente, pois ambas as abordagens reconhecem o papel das experiências sociais e culturais no desenvolvimento da linguagem. Assim, os multiletramentos ampliam as possibilidades de aprendizagem, tornando-a mais significativa e conectada à realidade das crianças.

4.2. Cultura Digital, Participação e Formação Crítica na Infância

A cultura digital, ao transformar as formas de comunicação e interação, também redefine as práticas educativas na educação infantil. Nesse cenário, a criança deixa de ser apenas receptora de informações e passa a atuar como participante ativa na construção do conhecimento.

A inserção das crianças na cultura digital implica não apenas o acesso às tecnologias, mas a capacidade de compreender, questionar e produzir conteúdos de forma crítica, participativa e responsável, desenvolvendo competências que vão além do uso técnico dos recursos digitais” (Fantin, 2025, p. 41).

Essa perspectiva evidencia que a literacia, no contexto digital, envolve dimensões críticas, éticas e participativas. Ou seja, não basta saber utilizar tecnologias; é necessário compreender seus impactos, suas possibilidades e seus limites.

As práticas de multiletramentos na infância, quando mediadas de forma intencional, contribuem para o desenvolvimento de sujeitos críticos e participativos, capazes de atuar em diferentes contextos comunicativos e de construir sentidos de maneira autônoma e colaborativa” (Carvalho & Linhares, 2023, p. 88).

Dessa forma, o papel do educador, já discutido no capítulo anterior, torna-se ainda mais relevante. Cabe a ele criar condições para que as crianças explorem a cultura digital de maneira significativa, integrando diferentes linguagens e promovendo experiências que favoreçam a autonomia, a criatividade e o pensamento crítico.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise desenvolvida ao longo deste estudo evidenciou que a literacia emergente, as tecnologias digitais e os multiletramentos constituem dimensões interdependentes no contexto da educação infantil contemporânea. Longe de serem campos isolados, esses elementos se entrelaçam na construção de práticas pedagógicas capazes de responder às demandas de uma sociedade marcada pela diversidade cultural, pela multiplicidade de linguagens e pela presença constante das tecnologias digitais.

No capítulo 2, destacou-se que o desenvolvimento das competências linguísticas ocorre em contextos sociais significativos, sendo profundamente influenciado pelas interações e mediações vivenciadas pela criança. A partir da perspectiva sociocultural, compreendeu-se que ela não é um sujeito passivo, mas ativo na construção de hipóteses sobre a linguagem, apropriando-se progressivamente das práticas de leitura e escrita em seu meio.

Na sequência, o capítulo 3 ampliou essa discussão ao incorporar as tecnologias digitais como mediadoras da aprendizagem. Evidenciou-se que tais tecnologias, quando utilizadas de forma intencional e pedagógica, potencializam experiências de interação, autoria e construção de conhecimento. Contudo, também se ressaltou que seu uso exige criticidade, planejamento e mediação docente qualificada, de modo a evitar práticas superficiais ou prejudiciais ao desenvolvimento infantil. Assim, reforça-se que a tecnologia, por si só, não garante aprendizagem; é a intencionalidade pedagógica que a transforma em instrumento significativo.

O capítulo 4, por sua vez, aprofundou essa relação ao introduzir o conceito de multiletramentos, evidenciando que as práticas de leitura e escrita na contemporaneidade extrapolam o texto verbal e incorporam múltiplas linguagens e modos de significação. Nesse sentido, a cultura digital não apenas amplia as possibilidades de aprendizagem, mas também redefine o próprio conceito de literacia, exigindo competências críticas, participativas e multimodais desde a infância.

A articulação entre esses três eixos permite afirmar que a educação infantil precisa avançar para além de abordagens tradicionais, reconhecendo a criança como sujeito inserido em um ecossistema comunicativo complexo e dinâmico. Isso implica repensar práticas pedagógicas, currículos e processos formativos de professores, de modo a integrar, de forma equilibrada e crítica, as diferentes linguagens e tecnologias presentes no cotidiano infantil.

Desse modo, a promoção da literacia emergente na contemporaneidade requer uma abordagem que valorize tanto as interações sociais quanto as experiências digitais, compreendendo que ambas são constitutivas do desenvolvimento infantil. Ao mesmo tempo, torna-se imprescindível investir na formação docente, garantindo que educadores estejam preparados para atuar como mediadores competentes, capazes de orientar o uso significativo das tecnologias e de promover práticas alinhadas à perspectiva dos multiletramentos.

Por fim, este estudo aponta para a necessidade de futuras investigações que aprofundem as relações entre infância, cultura digital e aprendizagem, especialmente no que se refere às práticas pedagógicas inovadoras e aos impactos das tecnologias no desenvolvimento integral da criança. Em um cenário em constante transformação, compreender essas dinâmicas não é apenas um desafio acadêmico, mas uma exigência para a construção de uma educação infantil mais significativa, inclusiva e conectada com a realidade contemporânea.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Aquino, J. C. F., Caetano, L. M. D., & Aquino, C. C. F. (2022). Tecnologias digitais na primeira infância: experiências e riscos na interação com telas. Interfaces da Educação, 13(38). https://doi.org/10.26514/inter.v13i38.6081 - acesso em 22 de abril do 2026.

Aquino, M., et al. (2022). Tecnologias digitais e infância: riscos e possibilidades. (Sem DOI identificado)

Burnett, C., Merchant, G., Pahl, K., & Rowsell, J. (2022). The case of digital literacy in the early years: A critical perspective. Routledge.

Carvalho, D. B. N., & Linhares, R. N. (2023). Multiletramentos com tecnologias digitais da informação e comunicação. Revista Teiashttps://doi.org/10.12957/teias.2023.75866

Carvalho, L., & Linhares, M. (2023). Multiletramentos e práticas pedagógicas na educação infantil.

Cope, B., & Kalantzis, M. (2021). Making sense: Reference, agency, and structure in a grammar of multimodal meaning. Cambridge University Press.

Creswell, J. W., & Creswell, J. D. (2021). Research design: Qualitative, quantitative, and mixed methods approaches (6th ed.). SAGE.

Fantin, M. (2025). Cultura digital e educação infantil: desafios contemporâneos.

Fantin, M. (2025). Tecnologias digitais e inteligência artificial na infância: desafios da mídia-educação. Revista Contemporânea de Educação, 20.

Ferreira, A., et al. (2025). Literacia digital na infância: práticas e aprendizagens emergentes.

Ferreira, C. F. L., Dal Pizzol, A., & Mello, D. E. (2025). Apropriação das tecnologias digitais na educação infantil. Obutchéniehttps://doi.org/10.14393/OBv9.e2025-25

Kucirkova, N., & Flewitt, R. (2020). The future-gazing potential of digital personalization in early childhood literacy. Journal of Early Childhood Literacyhttps://doi.org/10.1177/1468798419896067

Lima, R., & Simões, A. (2025). Tecnologias digitais e rotina pedagógica na educação infantil. Revista EDaPECIhttps://doi.org/10.29276/redapeci.2025.25.222230

Lima, R., & Simões, A. (2025). Tecnologias digitais na educação infantil: práticas pedagógicas contemporâneas.

Mendes dos Santos, A. (2025). Tecnologias digitais e infância: mediações contemporâneas da aprendizagem. Revista Brasileira de Educação, 30(1), 1–15. 

Mendes dos Santos, G. (2025). Infância, linguagem e tecnologias digitais. Revista Contemporânea de Educação, 20

Neumann, M. M. (2021). Parent–child shared reading and emergent literacy. Early Childhood Research Quarterlyhttps://doi.org/10.1016/j.ecresq.2020.10.006

Papert, S. (1980). Mindstorms: Children, computers, and powerful ideas. Basic Books.

Rojo, R. (2012). Multiletramentos na escola. Parábola.

Selwyn, N. (2021). Education and technology: Key issues and debates (3rd ed.). Bloomsbury Academic. 

Soares, M. (2004). Letramento e alfabetização. Revista Brasileira de Educação, 25https://doi.org/10.1590/S1413-24782004000100002

Soares, M. (2004). Letramento: um tema em três gêneros. Autêntica.

Street, B. V. (2020). Social literacies: Critical approaches to literacy in development, ethnography and education (Updated ed.). Routledge.

Vygotsky, L. S. (1991). A formação social da mente. Martins Fontes.


1 Mestrando em Tecnologias Emergentes em Educação pela Must University. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Mestranda em Tecnologias Emergentes em Educação, pela Must University, E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

3 Mestranda em Tecnologias Emergentes em Educação, pela Must University, E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail