REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/775945851
RESUMO
Esta pesquisa visa propor um estudo sobre a linguagem digital, o meme - gênero considerado um fenômeno da internet, caracterizado pela ironia e humor. À vista disso, a proposta traz a seguinte questão motriz “É possível que a linguagem digital meme alimente uma ideia de representação identitária entre os consumidores da cultura digital vigente?”. De modo a ampliar o conhecimento sobre o assunto, o objetivo geral da pesquisa é observar como os memes afetam na representação da identidade de seus usuários. Especificamente, planeja-se: i) Reconhecer a importância de novos letramentos, multimodal e multissemiótico, a fim de absorver linguagem digital dos memes; ii) Identificar as motivações para o uso de memes da internet por parte de seus consumidores nas redes sociais; iii) Compreender de que modo os memes da internet corroboram para as associações de identidade de seus usuários regulares da cultura digital e iv) Descrever de modo qualitativo o uso de memes para os sujeitos da pesquisa em suas práticas cotidianas. Tal estudo desenvolveu-se com base em levantamento e leitura da bibliografia referente ao tema nas áreas de linguagem, tecnologia e mídia. Para tanto, elegeu-se uma abordagem qualitativa de coleta e análise de dados colhidos por amostragem, através do método conhecido como “Bola de Neve”. Foram realizadas 42 entrevistas produzidas por meio de um formulário construído na Plataforma Google, tendo em vista o modo como os sujeitos sociais procedem e padecem em virtude das ações dos memes. Após observação de dados, identificou-se que o consumo de memes pode ser associado ao bem estar pessoal; ao acréscimo de humor e descontração à rotina usuário; ao manter-se informado de modo divertido e à maneira de se (auto)identificar, seja por sua maneira de posicionamento crítico, por seu modo de ser ou estilo de vida.
Palavras-chave: Memes; Linguagem; Letramento; Multimodalidade e Multissemiose; Identidade.
ABSTRACT
This research aims to propose a study on digital language, the meme - a genre considered an internet phenomenon, characterized by irony and humor. In view of this, the proposal raises the following driving question “Is it possible that the digital meme language feeds an idea of identity representation among consumers of current digital culture?”. In order to expand knowledge on the subject, the general objective of the research is to observe how memes affect the representation of their users' identity. Specifically, it is planned to: i) Recognize the importance of new literacies, multimodal and multisemiotic, in order to absorb digital language from memes; ii) Identify the motivations for the use of internet memes by consumers on social networks; iii) Understand how internet memes corroborate the identity associations of regular users of digital culture and iv) Analyze in a qualitative way the use of memes by research subjects in their daily practices. This study was developed based on a survey and reading of the bibliography relating to the topic in the areas of language, technology and media. To this end, a qualitative approach to collecting and analyzing data collected through sampling was chosen, using the method known as “Snowball”. 42 interviews were carried out using a form built on the Google Platform, taking into account the way in which social subjects proceed and suffer due to the actions of memes. After data analysis, it was identified that the consumption of memes can be associated with personal well-being; adding humor and relaxation to the user's routine; by staying informed in a fun way and by the way of (self)identifying yourself, whether through your critical positioning, your way of being or your lifestyle.
Keywords: Memes; Language; Literacy; Multimodality and Multisemiosis; Identity.
INTRODUÇÃO
Sabe-se que o ato de se comunicar é um dos fatores primordiais da existência do Homem, tão essencial quanto a invenção da roda e da escrita, pois permite que exista a troca de ideias, de informações e de emoções entre as pessoas, sendo uma habilidade fundamental capaz de conectar, assim como ajudar a compreender o mundo ao nosso redor.
De formatos diferenciados e/ou associados, a comunicação pode acontecer através da linguagem verbal, como a escrita; a linguagem corporal e por meio de sinais e símbolos. Tais estruturas permitem e, sem dúvidas, desempenham um papel importantíssimo nos percursos da vida humana, caminhando desde as interações pessoais à esfera profissional. Não se faz apenas pelo ato de emitir informações, o que provavelmente já elevaria a comunicação ao pedestal, mas também por atuar na construção de relacionamentos saudáveis e significativos.
Entretanto, cabe ressaltar que esse ato extremamente essencial para humanidade não é simples, muito menos fácil, pois nota-se que as diferenças culturais; as dificuldades linguísticas; a ausência de habilidades de comunicação e os chamados ruídos na transmissão de mensagens podem intrincar o entendimento mútuo. O que torna necessário um estado de consciência que ajude o falante a transpor tais desafios, assim como desenvolva estratégias e habilidades comunicacionais para a interação mais efetiva.
Para isso, observa-se a importância da tecnologia como uma aliada e ao mesmo tempo responsável em conduzir transformações à estrutura da comunicação, o que a destaca, tomando para si um papel significativo no processo de comunicabilidade. À vista disso, com o advento da internet, levando ao surgimento das redes sociais e dos equipamentos móveis, alargaram as perspectivas de conexão e entrosamento, o que possibilita um formato instantâneo com diferentes pessoas e aos quatro cantos do mundo, através de aplicativos de mensagens, como WhatsApp, por exemplo, capaz de enviar mensagens de texto, de áudio e de vídeo em tempo real, sucumbindo a distância física.
Outro fator preponderante que revolucionou e impulsionou essa transformação foram as redes sociais, as quais permitem a conexão, assim como o compartilhamento de notícias através das chamadas plataformas, a exemplo: Facebook, Instagram, X e LinkedIn, explorando a prática de exportar e importar conteúdos, fotos, vídeos, experiências, tendências, acontecimentos importantes e pensamentos, tornando-os públicos. Dessa forma, estreitando laços com familiares e amigos, além de criar ambientes com pessoas que desfrutam de gostos semelhantes, conexões profissionais e educacionais.
Logo, é possível identificar que com o crescimento avassalador da era digital vibrante, um recente tipo criativo de produção textual ganha espaço e reconfigura o formato tradicional de composição textual de ideias. Assim, a título de exemplo, pode-se destacar os chamados memes, configurados como responsáveis por conteúdos animados e jocosos da expressão e da cultura online, porém que vão muito além de imagens cômicas. Na verdade, esse gênero textual/digital representa uma ocorrência cultural complexa e de reação repleta de referência - seja por envio e/ou recebimento dessas mensagens - às questões críticas e sociais contemporâneas.
São eles, um acontecimento da internet, que proporcionam aos usuários da rede construir e partilhar conteúdos, produzidos por variações de meios como frases, imagens estáticas, gifs, vídeos e muitos outros; além disso são capazes de se propagar e de se reestruturar rapidamente, de acordo com as opiniões e interesses, através do universo da internet. Esse modo de atuação dos memes traduz a percepção dos indivíduos sobre os fatos que circulam em seu espaço.
Desse modo, a proposta apresentada para este artigo, compromete-se a trazer um estudo referente à linguagem que compõem esse rico gênero digital, como a multimodalidade e a multissemiose, mas que de todo modo soma-se a suas características particulares, tal como humor, ironia e crítica, que unidos, são capazes de favorecer seu constante uso. Considerando o que já foi exposto, a presente pesquisa é construída a fim de tentar responder a seguinte questão: “É possível que a linguagem digital meme alimente uma ideia de representação identitária entre os consumidores da cultura digital vigente?”
Nesse sentido, o objetivo geral da pesquisa é observar a cultura e o uso de memes da internet e como eles demonstram a representação da identidade de seus usuários. E de modo específico, planeja-se:
Reconhecer a importância de novos letramentos, multimodal e multissemiótico, a fim de absorver a linguagem digital dos memes;
Identificar as motivações para o uso de memes da internet por parte de seus consumidores nas redes sociais;
Compreender de que modo os memes da internet corroboram para as associações de identidade de seus usuários regulares da cultura digital;
Descrever de modo qualitativo o uso de memes para os sujeitos da pesquisa em suas práticas cotidianas.
Para os procedimentos metodológicos da pesquisa, a caracterização é de cunho qualitativo, através da coleta e observação de dados2, permitindo o propósito interpretativo, a fim de satisfazer os objetivos de investigação. Para isso, adotou-se a metodologia de amostragem chamada de “Bola de neve”, método não probabilístico que necessita de informações de sujeitos primários para acrescentar participantes adicionais, a fim de verificar o contexto pessoal e social que envolve a utilização de memes da internet.
Quanto a revisão bibliográfica, autores como Rojo e Moura (2012 e 2019); Dionísio (2008); Castells (2015); Hjarvard (2012) entre outros, possibilitaram elencar ideias que buscam apontar para a ampliação de conhecimento, seja sobre a comunicação; a linguagem e os novos letramentos, seja sobre a tecnologia e a mídia, através de concepções vigentes em suas obras.
No que concerne aos aspectos referentes à multimodalidade e à multissemiose, ao gênero discursivo meme, aos procedimentos metodológicos, à análise dos resultados e as considerações finais, as próximas seções dissertarão a respeito.
Por fim, a realização deste trabalho pode ser justificada pela relevância do tema na era da comunicação instantânea e da cultura digital corrente, pois percebe-se que os memes são capazes de promover a construção de laços sociais; de observar e representar a cultura; além de estimular seus usuários a (re)ações sobre questões sociais. Com isso, essa pesquisa busca ampliar as perspectivas sobre o referido gênero, mostrando que nele também existe um cenário de sociabilidade e, de certa maneira, participação na vida cotidiana. Assim, faz-se indispensável percorrer um caminho de observação com os consumidores que conhecem e publicam cotidianamente os memes, que estão além de uma linguagem não verbal engraçada.
Portanto, trazer meios que corroboram tanto para estruturar conhecimento sobre conceitos e teorias que versam sobre o tema quanto à questão empírica, como dados de usuários que fazem uso desse tipo de conteúdo, favorecerá no estado de compreensão de como os memes desempenham e impactam na representação da identidade de seus usuários.
1. MULTIMODALIDA E MULTISSEMIOSE: A NECESSIDADE DE NOVOS LETRAMENTOS PARA COMPREENDER A LINGUAGEM CONTEMPORÂNEA
Vale ressaltar, primariamente, o que é possível definir sobre comunicação para em segundo plano compreender a linguagem contemporânea. Para isso, leva-se em consideração as ideias de Castells a respeito da temática, considerando como “o compartilhamento de significado por meio de troca de informação. O processo é definido pela tecnologia da comunicação, pelas características dos emissores e receptores da informação, por seus códigos culturais de referência e pela abrangência do processo comunicativo” (Castells, 2015, p. 101). Desse modo, é notório perceber que essa relação que alinha a comunicação aos elementos que se fazem presentes ao processo, tendem a sofrer mutações. Essas transparecendo o reflexo das atualizações sofridas pelo contexto social o que, consequentemente, alterará o modo como emissores e receptores estarão interligados à mensagem.
Entre as modificações que corroboram para a evolução do modo como a comunicabilidade atua, o autor referido, traz a difusão da internet, apresentando como um formato de “comunicação interativa, caracterizada pela capacidade de enviar mensagens de muitos para muitos, em tempo real ou no tempo escolhido e, com a possibilidade de usar a comunicação entre dois pontos” (Castells, 2015, p. 101). Nesse contexto, percebe-se que a intenção do enunciador fará parte de seus objetivos, pois as características da comunicação estarão diretamente ligadas à pratica comunicativa.
Partindo das orientações trazidas por Rojo e Moura (2012), compreender também o cenário histórico que aponta para a compreensão da linguagem, em especial a contemporânea, voltada para o ambiente digital, que incorpora a necessidade de estudos sobre novos letramentos, é chegar ao surgimento do Grupo Nova Londres (GNL), que reuniu pesquisadores que versavam sobre a temática em questão no ano de 1996, declarando através do Manifesto A pedagogy of multiliteracies – designing social futures (“Uma pedagogia dos multiletramentos – desenhando futuros sociais”) , a argumentação sobre a necessidade de uma pedagogia dos multiletramentos.
Conforme os postulados trazidos pelos autores Rojo e Moura (2012), os novos letramentos devem ser desenvolvidos pela escola, naquilo que tange à multimodalidade e à multissemiose, pois a juventude, há tempos, lida com ferramentas de acesso à comunicação e à informação e de agência social (Rojo; Moura, 2012, p. 13).
Dessa maneira, é preciso destacar dois conceitos: o de multimodalidade, que é entendido pela combinação de fala, texto, gestos e processamento de imagem, em que atuem, simultaneamente, duas ou mais formas de comunicação; além disso, o de multissemioses, como a capacidade de entender os textos que apresentam recursos como ícones, desenhos e imagens, sendo constituídos por diversas linguagens, geralmente, há uma soma de elementos visuais e texto verbal.
Logo, pode-se dizer que quando direcionados para o ambiente midiático dos textos, os letramentos, configuram-se por multiletramentos, conduzindo para caminhos que levem à exigência de instrumentos e de meios pedagógicos atualizados, a começar pela instituição escolar. Assim, Rojo e Moura (2012) apresentam:
São necessárias novas ferramentas – além das da escrita manual (papel, pena, lápis, caneta, giz e lousa) e impressa (tipografia, imprensa) – de áudio, vídeo, tratamento da imagem, edição e diagramação. São requeridas novas práticas: (a) de produção, nessas e em outras, cada vez mais novas ferramentas; (b) de análise crítica como receptor (Rojo; Moura, 2012, p. 21).
Observa-se as considerações necessárias nos modelos escolares, por exemplo, principalmente, no que concerne ao ensino de linguagens. Esses quadros precisam ser trabalhados com coerência para que haja compreensão às formas de linguagem contemporânea, pois indicam suportes interativos, multissemióticos e multimodais, que facilmente conseguem unir a diversidade de culturas às imagens e às produções textuais, não renunciando o pensar crítico.
Contrariando as reais exigências, é possível visualizar um certo atraso por parte da instituição escolar, pois a concepção tradicional de letramento, sem que exista uma preocupação direcionada às alterações no formato de comunicação, trazidas pelo advento da internet, por exemplo, pode manter uma limitação de interpretação, perpetuando a sociedade a padrões e características que sejam incoerentes às exigências atuais, a da informação.
Desse modo, associar a variedade de recursos multimodais e multissemióticos, permitindo uma conciliação entre eles para criação de um conhecimento mais amplo, que vai muito além de perceber num texto as disposições, fontes, cores e tamanhos, por exemplo, mas o de analisar que os mesmos possuem recursos de significação, é guiar uma representação escolar que acolha as necessidades leitoras, sociais e reais vigentes. Ou seja, propiciar um outro padrão de letramento, o que elege o multissemiótico e multimodal como meio para atuar em sintonia com os avanços das Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação - TDICs.
Diante disso, vale considerar sim a interação da mídia com a cultura e a sociedade em seu formato mais amplo, como nas instituições escolares, por exemplo. Pensar a mídia como um formato “estanque”, sem que exista qualquer (inter)relação e efeito na nova condição social é negar a evolução da comunicação. Segundo Hjarvard (2012),
A sociedade contemporânea está permeada pela mídia de tal maneira que ela não pode mais ser considerada como algo separado das instituições culturais e sociais. Nestas circunstâncias, nossa tarefa, em vez disso, é tentar entender as maneiras pelas quais as instituições sociais e os processos culturais mudaram de caráter, função e estrutura em resposta à onipresença da mídia. (Hjarvard, 2012, p.54)
À vista disso, aponta-se para a prática de leitura, desenvolvida essencialmente pela escola, caracterizada como um aparato tanto social quanto cognitivo essencialmente harmonizados para permitir o surgimento de sentido. Todavia, tal sentido é construído a partir de vários fatores, entre eles a multimodalidade e a multissemiose, aqui já ressaltadas e, que neste estudo estarão representadas pela linguagem digital do meme, a partir da interação dessa produção imagética ao universo online. Cabe destacar que com o avanço tecnológico, assim como a consequência deixada pela mídia, a capacidade de ler e escrever, já não totaliza as oportunidades favorecidas pelo advento da tecnologia para a leitura e a produção textual, pois novas habilidades precisam ser desenvolvidas com o intuito de contemplar o indivíduo na sua totalidade.
Em consonância aos estudos de Dionísio (2008),
Imagem e palavra mantêm uma relação cada vez mais próxima, cada vez mais integrada. Com o advento de novas tecnologias, com muita facilidade se criam novas imagens, novos layouts, bem como se divulgam tais criações para uma ampla audiência. Todos os recursos utilizados na construção dos gêneros textuais exercem uma função retórica na construção de sentidos dos textos. [...] Representação e imagens não são meramente formas de expressão para divulgação de informações, ou representações naturais, mas são, acima de tudo, textos especialmente construídos que revelam as nossas relações com a sociedade e com o que a sociedade representa. (Dionísio, 2008, p. 132)
Essa ideia tende a justificar-se mais facilmente, conforme Rojo e Moura (2012), quando é deixado em evidência o processo de interação do usuário, como o de leitor/produtor com vários interlocutores - outros usuários, textos, discursos, recursos, pois
(a) Eles são interativos, mais que isso, colaborativos; (b) eles fraturam e transgridem as relações de poder estabelecidas, em especial as relações de propriedade (das máquinas, das ferramentas, das ideias, dos textos)
[...]; (c) eles são híbridos, fronteiriços, mestiços (de linguagens, modos, mídias e culturas)” (Rojo; Moura, 2012, p. 23).
Logo, perceber que há a criação de meios que favoreçam o caminho para que o indivíduo tenha a habilidade de consumir os recursos relacionados à tecnologia, mas também que esse entendimento adquirido opere sobre outros caminhos, seja pela ação e/ou reflexão, seja sobre os gêneros e/ou discursos, independentemente do cenário, físico ou digital, de modo que se observe que “os meios de comunicação são guiados por uma espécie de lógica semiótica e sua influência central consiste em que eles submetem toda a comunicação e todo discurso a um único código dominante” (Hjarvard, 2012, p.61)
Dessa maneira, avistará usuários mais reflexivos e críticos entre os veículos de comunicação, como as redes sociais, capazes de atuar nas práticas de leitura, mas também nas de escrita, intensificando uma modalidade de usuário da língua constantemente participativo, dinâmico e vivo, além de expansor da linguagem em diversos contextos de comunicação.
2. MEME: DO CONCEITO BIOLÓGICO À REPRESENTAÇÃO DE IDENTIDADE SOCIOCULTURAL
O período contemporâneo intensificou, no contexto social, a utilização das novas tecnologias da informação e comunicação (TDICs), deixando em evidência a combinação de variadas semioses em um mesmo ambiente de produção, resultando na construção de textos que somam cores, sons, imagens em movimento, gifs, além de outras características. Essa nova era traz a comunicação instantânea e a cultura digital vibrante, os memes. Esses que podem ser eleitos com maestria pelo humor e entretenimento. Porém, eles são muito mais do que simples imagens engraçadas, pois também representam um fenômeno cultural complexo e reflexivo, de modo a acomodar uma forma específica de como transmitir, compartilhar e reagir às informações globais que circulam ao nosso redor.
O gênero digital "meme" surgido no livro "O Gene Egoísta" (1976), através do biólogo Richard Dawkins, propunha descrever as unidades de informação cultural que se replicam e se propagam de pessoa para pessoa, como um par semelhante ao “gene”, ou seja, uma imitação da representação biológica natural que compõe o ser humano, sendo capaz de apresentar, com muito talento, uma forma particular para abordar questões sociais.
Para Dawkins (2007),
Exemplos de memes são melodias, ideias, slogans, as modas no vestuário, as maneiras de fazer potes ou de construir arcos. Tal como os genes se propagam no pool gênico saltando de corpo para corpo através dos espermatozoides ou dos óvulos, os memes também se propagam no pool de memes saltando de cérebro para cérebro (Dawkins, 2007, p. 330).
Logo, pode-se perceber que o meme contempla “uma forma multimodal, paródica humorista e crítica de dialogar e disseminar pontos de vistas” (Silva, 2018, p.15). É possível que, através dele, exista a junção de situações cotidianas, atualidades, filmes, séries, programas de TV, entre outros, que se adaptam e evoluem em função das habilidades necessárias para a produção de significados e composição das semioses.
Dessa maneira, olhar o meme como multissistema é uma necessidade, pois produzem um sentido e, esse é ratificado com o acréscimo de outras modalidades. Ou seja, o meme em um ambiente digital é um gênero multimodal e multissemiótico, que segue o mesmo objetivo, a salvar as suas peculiaridades, de um gênero textual escrito ou oral: o de constituir a interlocução.
A conceituação sobre multissemiose e multimodalidade no meme pode ser amparada pelo estudo de Ferreira (2012), através da sensibilidade do autor sobre a discursividade. Para o pesquisador, as práticas de linguagem transformaram-se a partir do século passado seguindo ao atual, de modo que as produções manuscritas se adaptaram à pós-modernidade, com isso, a modificação, também perpassou pelos gêneros textuais. Convém recordar aqui, a necessidade nata do ser humano, a de se comunicar, no entanto, de acordo à evolução trazida pelo século XXI.
Concernente a isso, a comunicação precisou tornar-se cada vez mais dinâmica, rápida, além de objetiva, agregada a elementos que fundamentam a ideia de que “novas habilidades são necessárias, à capacidade de compreender e promover a reflexão de um modo simples” (Ferreira, 2012, p. 5). Por conseguinte, razões sociais são intercaladas em contextos econômicos, profissionais, históricos, no qual a imagem – em destaque para o formato como o meme se apresenta em potencial – é um recurso de suma importância na construção de textos. Desse modo, exigindo a criação de novas habilidades que possibilitam compreender, refletir, produzir e reproduzir conhecimentos, hoje, cada vez mais multimodais, como adaptabilidade dos memes, por exemplo.
Quanto à representação de identidade, é fácil perceber que os memes são capazes de refletir aspectos culturais que se externalizam e também se associam na contemporaneidade no universo digital. Segundo Amaral (2016, p. 89), “virar meme’ significa, popularmente falando, tornar-se objeto de piadas que se propagam rapidamente pelas plataformas de sociabilidade online”. Quem nunca ouviu essa expressão? Devido a sua conceituação primária, trazida em 1976, por Dawkins, sendo uma unidade de informação que é capaz de se espalhar velozmente na internet, permite a incorporação de elementos da cultura local, das crenças, dos costumes, do vocabulário e dos saberes, por exemplo. Assim, essas imagens podem amparar a expressão cultural, resultando na criação de grupos que compartilham suas histórias e se registram de modo cômico e/ou reflexivo.
Em meio a um breve passeio pelas redes sociais, por exemplo, é perceptível como os memes reforçam e, ao mesmo tempo, provocam a representatividade cultural, tendo a capacidade de potencializar um espaço de diálogo e de contemplação, de crítica e de entretenimento, pois um “simples” meme pode produzir reflexões sobre questões socio-político-cultural que permeiam ideias que podem ir do jocoso à conscientização, refletindo os modos de uma representação que se modifica constantemente em uma interface de gerações, qualificada a despertar tanto a compreensão como a tensão entre elas.
Nessas circunstâncias, percebe-se o quanto essa linguagem dos memes se mostra eficaz na disseminação da notícia e conscientização sobre questões importantes, visto que quando processado no ambiente particular de cada consumidor midiático, a interpretação do conteúdo se mostra variada, e resultará nas ações futuras para o meme. Um erro, certamente, será acreditar que todos os leitores desse gênero digital chegarão ao mesmo entendimento e observação, à mesma risada e afinidade, ou se sentirão a necessidade de compartilhamento para seus pares. Tais relações serão condicionadas ao processo de leitura realizada e a afinidade do usuário em se envolver, de acordo com os modelos que lhe representam e identificam.
3. PROCEDIMENTO METODOLÓLICO E DESCRIÇÃO DOS DADOS
De acordo com a pergunta norteadora desta pesquisa: “É possível que a linguagem digital meme alimente uma ideia de representação identitária entre os consumidores da cultura digital vigente?”, busca-se descrever as razões que possam explicar a utilização dos memes da internet pelos usuários na era digital, considerando suas especificidades e, também, os significados desse consumo cultural.
Para isso, a presente pesquisa empregou a metodologia qualitativa, além de apresentar-se como descritiva em função da necessidade de descrever as características de indivíduos que apresentam interesse pelo uso da linguagem dos memes. Desse modo, a pretensão de observar o contexto motivacional e pessoal que envolve o consumo de memes. Sendo os memes o objeto desse estudo, os respondentes da pesquisa são os usuários habituais desse tipo de material.
A coleta de dados foi construída a partir de um formulário criado na plataforma google. Nele, em formato de entrevista, perguntas referentes à faixa etária, à profissão, quais acesso às redes sociais e, de modo específico, aos memes e seus usos foram realizadas. Optou-se por uma seleção intencional a fim de favorecer informações de interesse à pesquisa, deixando em evidência características específicas, ou seja, identificando elementos em que as respostas dizem respeito à intenção da pesquisa.
A seleção dos informantes realizou-se pela visualização de sujeitos que façam uso, cotidianamente, de memes, seja por meio de consumo, da observação e ou compartilhamento dessa forma de comunicação. A técnica bola de neve foi a escolhida para o procedimento metodológico desse estudo. De acordo com Patton,
a partir de um primeiro sujeito-chave, consegue-se obter a indicação de outros. O uso da técnica da bola de neve para a seleção dos entrevistados é adequado para localizar sujeitos ricos em informações de interesse da pesquisa. O processo consiste em encontrar uma primeira pessoa bem situada, o sujeito-chave, e pedir para esse sujeito indicar outras pessoas que ele acha que possam fornecer informações ricas sobre o tema que se quer investigar. Assim, através dessa cadeia de indicações, é possível identificar os casos intensos a partir de pessoas que conhecem outras pessoas que conhecem pessoas que são bons exemplos para o estudo que se quer realizar (apud Amaral, 2016, p.157)
Desse modo, a primeira entrevista foi realizada com um informante que atua profissionalmente e academicamente com a pesquisadora, logo pelo grau de proximidade, foi descartada. A partir dela, constituiu-se um corpus composto por 42 respondentes com variações geográficas. Conforme pode ser observado no gráfico 01 – Localização:
Tal participação foi proporcionada devido ao recurso virtual utilizado. Entretanto, esperava-se um número bem menor de participantes. Logo, foi possível perceber o grande interesse demonstrado pelo assunto, o que elevou a cooperação, sendo necessário encerrar o recebimento de respostas em apenas 02 dias, em virtude da repetição de respostas, conforme orienta a estrutura desenvolvida pelo procedimento metodológico já mencionado.
O Informante 0 (zero) é do sexo feminino, possui 47 anos, e atua profissionalmente como Vice-diretora Pedagógica na área metropolitana de Belém, em Marituba. Essa informante foi escolhida em razão de ser uma consumidora de memes da internet e possuir muito apreço pelo objeto de pesquisa da presente doutoranda. Consumidora assídua do gênero digital, tem o hábito de visualizar, pesquisar e compartilhar com bastante frequência o recurso de expressão em diversos formatos das redes sociais.
A participação primária desse sujeito fez com que o processo pudesse ser continuado em uma caminhada que encontrou informantes com diferentes níveis de escolaridade, do fundamental à pós-graduação, mas que não se deparou com a ausência dela. Permitindo observar a ideia democrática que o meme propaga, como pode ser comprovado no gráfico 02 – Escolaridade.
Quanto ao perfil dos participantes, a faixa-etária destaque esteve entre 45 a 54 anos – a quarta escala classificada pela pesquisa. Entretanto, o questionário contou com indivíduos mais jovens de 18 anos ao mais velho de 64 anos. Sendo entrevistados 33 mulheres e 9 homens. Vale ressaltar que a diferença correspondente ao gênero ocorre em decorrência da indicação dos sujeitos.
No que corresponde ao uso das redes sociais, todos a utilizam de algum modo, sendo o WhatsApp o principal formato, o que agrega o dado à indicação de motivação de compartilhamento de meme, pois são encontrados na internet e ressignificados em outro veículo de comunicação de acordo com a intenção do emissor. O que pode explicar as respostas do gráfico 03 – O que você acredita ser possível encontrar em um meme?
Sendo a principal referência de conhecimento sobre os memes, o humor, a proposta de valor cômico que atraem através de jogos de palavras engenhosas a ironia ou até mesmo o sarcasmo, capazes de provocar risadas. Sua linguagem própria se torna familiar para os consumidores dessa forma de comunicação, como uma escolha para diminuir a correria diária, sendo uma opção de diversão ao alcance diário, criando um espaço positivo diante das próprias mãos. Essa informação pode ser confirmada no gráfico 04, quando solicitada aos informantes que completassem a seguinte frase: “Uma pessoa que entende meme tende a ser...”
Em segundo plano, a proposta de apresentar a criticidade no ato comunicativo é uma das motivações para o consumo do gênero em questão, pois os memes apresentam-se de forma eficaz na conscientização sobre questões importantes, apontando a reflexão crítica para conseguir um olhar mais atento para questões de ordem social, política e ambiental, pois promove um largo alcance de pessoas de forma eficiente e rápida.
Nota-se que apesar da negativa trazida na oitava resposta, seu conteúdo apresenta a ideia de representatividade traduzida pelo indicativo de reação psicológica particular e percepção da realidade de forma legível, ou seja, sem que exista a manipulação de ideias, mas que reforce o contexto de apresentação do Eu. Dessa maneira, é relevante perceber que o formato expressivo dos memes possui a capacidade de unir pessoas, criando um senso de representação e de comunidade, pois haverá a conexão em torno de uma condição comum, permitindo demonstrar suas opiniões e senso de pertencimento de maneira divertida e descontraída no ambiente online.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo trouxe como objetivo geral a observação da cultura e do uso de memes da internet e como esses podem ser capazes de demonstrar a representação da identidade de seus usuários. Para isso, buscou-se de modo específico apresentar as características presentes na linguagem contemporânea, a fim de demonstrar a necessidade de novas alfabetizações para locutores e interlocutores, pois a partir do uso das tecnologias digitais de informação e comunicação, as TDICs, há a necessidade de novos saberes que agregados aos conhecimentos já assimilados, produzirão motivações e resultados mais amplos para comunicação.
Para isso, conceitos como multiletramentos e multissemioses nas construções de expressão salientaram as diversificadas estratégias para leitura de acordo com as diferentes e múltiplas associações de linguagens. Tal ocorrência justifica-se pelas constantes modificações que somadas à tecnologia, exigem da sociedade uma adaptação para o convívio social. Assim, compreende-se, por exemplo, a possibilidade de alinhamento de diversas semioses, como as imagens, para representar ou recortar o mundo real, seja através de acréscimos ou omissões de detalhes, tal como o meme.
Além disso, identificar as intenções e as características que justificam o consumo de memes da internet por parte de seus usuários do universo virtual. Logo, identifica-se, através dessa pesquisa, a enorme afinidade encontrada pelos informantes com o gênero digital, assim como sua estrita relação como a possibilidade de representação individual ou coletiva, como um grupo de amigos que compartilham de experiências comuns.
O entendimento de que o conceito de meme é rapidamente associado a aspectos humorísticos, que pode apresentar a função de entretenimento, assim como uma fonte de escapismo, apesar de estarem associados as questões sócio-políticas-culturais, mas que os mesmos são responsáveis por atenuar o estresse do dia a dia, ou consolidar uma espécie de refúgio da vida real. Assim, na percepção dos entrevistados, é uma possibilidade presente de promover uma sensação de prazer instantâneo, do mesmo modo como sendo uma fonte de informação, de socialização e identificação pessoal.
Dessa forma, através de sua popularidade e acesso de conteúdo democrático, o meme amplia variada diversidade de espaço e consumidor, podendo atingir diferente faixa etária, ocupação, orientação sexual, classe social, cultura ou rede social que possua a afinidade com essa linguagem comunicacional.
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SILVA, Zenilda Rodrigues. O gênero meme da Internet: dialogismo e semiótica na construção textual. 2018. Dissertação (Mestrado profissional) – Profletras, Universidade Estadual de Montes Claros, 2018.
O estudo estrutura-se pela necessidade de observar como o avanço tecnológico, como o gênero digital meme, por exemplo, pode ser capaz de trazer um formato de representação identitária no comportamento cultural de usuários da internet e, com isso, permitir uma ampliação das mídias sociais, assim como, modificações na maneira de se comunicar.
1 Doutoranda em Linguagem, Comunicação e Cultura pela Universidade da Amazônia - UNAMA. Mestra em Ensino de Língua Portuguesa e Suas Respectivas Literaturas pela Universidade Estadual do Pará - UEPA. Especialista em Língua Portuguesa e Análise Literária pela Universidade Estadual do Pará - UEPA. Graduada em Letras e Artes pela Universidade Federal do Pará - UFPA. E-mail: [email protected]. ORCID: https://orcid.org/0009-0005-4766-9427
2 O procedimento metodológico contou com um formulário online, construído a partir da Plataforma Google, a fim de dinamizar a coleta, o que permitiu a participação de informantes de localidades variadas do Estado do Pará. Disponível em: https://l1nk.dev/B0UQc