REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/782089629
RESUMO
Este trabalho aborda a importância das expressões idiomáticas no ensino da Língua Portuguesa no Ensino Fundamental II, ressaltando seu papel como elementos culturais e linguísticos que enriquecem a habilidade de leitura e contribuem para o desenvolvimento crítico dos estudantes. A metodologia adotada neste trabalho foi de abordagem qualitativa e bibliográfica, consistindo na análise de livros didáticos e observações da prática docente durante o Estágio Supervisionado, com base em autores como Paulo Freire (1989), Bakhtin (1997) e Antunes (2003). A investigação parte da premissa de que a compreensão da realidade deve estar integrada à leitura dos textos, valorizando a linguagem dinâmica presente em diferentes gêneros textuais, como crônicas, canções e textos jornalísticos. A análise de livros didáticos revelou diferentes formas de abordagem em relação às expressões idiomáticas, evidenciando lacunas que destacam a necessidade de práticas pedagógicas mais contextualizadas e interativas. A partir da prática docente, observou-se que o trabalho com essas estruturas linguísticas favorece maior participação dos alunos, amplia o vocabulário e contribui para uma educação mais inclusiva e significativa, que reconhece a diversidade cultural e linguística como elemento fundamental na formação cidadã.
Palavras-chave: Expressões idiomáticas; Ensino de Língua Portuguesa; Competência leitora.
ABSTRACT
This study addresses the importance of idiomatic expressions in the teaching of Portuguese Language in Elementary School II, highlighting their role as cultural and linguistic elements that enrich reading skills and contribute to the critical development of students. The methodology adopted was qualitative and bibliographic, consisting of the analysis of textbooks and observations of teaching practice during the Supervised Internship, based on authors such as Paulo Freire (1989), Bakhtin (1997), and Antunes (2003). The investigation is grounded on the premise that the understanding of reality must be integrated into text reading, valuing the dynamic language present in different textual genres, such as chronicles, songs, and journalistic texts. The analysis of textbooks revealed different approaches to idiomatic expressions, exposing gaps that emphasize the need for more contextualized and interactive pedagogical practices. From teaching practice, it was observed that working with these linguistic structures fosters greater student participation, expands vocabulary, and contributes to a more inclusive and meaningful education that recognizes cultural and linguistic diversity as a fundamental element in civic formation
Keywords: Idiomatic expressions; Portuguese Language teaching; Reading competence.
1. INTRODUÇÃO
A linguagem, em sua expressão dinâmica e presente no cotidiano, configura-se como um espaço essencial de produção de significados e de conexão entre o indivíduo e a realidade. Entre os diversos elementos que integram essa estrutura, as expressões idiomáticas assumem um papel particular, pois sintetizam aspectos culturais, formas de pensamento e vivências coletivas que vão além do sentido literal das palavras. Entretanto, apesar de sua importância, essas expressões ainda são pouco trabalhadas no ensino formal da Língua Portuguesa, o que pode prejudicar tanto a compreensão textual quanto o desenvolvimento do pensamento crítico dos estudantes. Nesse cenário, surge a questão orientadora desta pesquisa: de que maneira evidenciar a importância das expressões idiomáticas no ensino da Língua Portuguesa, contribuindo para a formação crítica e para o aprimoramento da competência leitora dos alunos do Ensino Fundamental II?
A escolha do tema surgiu a partir do contato na sala de aula durante o Estágio Supervisionado, quando foi possível perceber que muitos alunos do 9º ano apresentavam dificuldades na interpretação contextualizada de expressões idiomáticas em produções literárias, jornalísticos e até mesmo na comunicação cotidiana. Essa limitação não apenas compromete a interpretação dos textos, mas também afasta os estudantes dos diferentes gêneros discursivos presentes na sociedade. Em diversas situações, observou-se que os alunos demonstravam insegurança diante de expressões como “ficar de molho” ou “ficar a ver navios”, por não compreenderem seus sentidos figurados. No entanto, práticas pedagógicas contextualizadas e interativas evidenciaram que, ao reconhecerem essas expressões em músicas, memes, tirinhas ou no convívio familiar, os estudantes passaram a compreender melhor os significados e a se envolver nas aulas com mais autonomia e interesse. Essa percepção dos alunos evidencia a importância do ensino da língua deve partir da realidade dos alunos, valorizando a linguagem em uso e suas diferentes formas de expressão, em consonância com a perspectiva crítica defendida por Paulo Freire (1989) segundo a qual a leitura da palavra deve estar sempre associada à leitura do mundo.
Dessa forma, este trabalho tem como objetivo central desenvolver a competência leitora e compreender a realidade, valorizando a linguagem do cotidiano através do ensino das expressões idiomáticas. Para atingir esse propósito, foram estabelecidos alguns objetivos específicos: examinar a função das expressões idiomáticas na construção de sentidos em textos como crônicas, músicas e textos jornalísticos; reconhecer estratégias pedagógicas que integrem essas expressões ao contexto sociocultural dos alunos e investigar sua presença (ou ausência) nos livros didáticos. Tais objetivos estão articulados à análise de materiais didáticos e na experiência de sala de aula, durante o Estágio em diálogo com autores como Freire (1989), Antunes (2003) e Bakhtin (1997). Ao considerar essas contribuições, busca-se não apenas destacar a importância das expressões idiomáticas na produção de sentido, mas também evidenciar as lacunas no ensino da língua materna, propondo reflexões que possam contribuir para práticas pedagógicas mais relevantes e significativas.
Dessa forma, o presente artigo reafirma a importância de um ensino de Língua Portuguesa que dialogue com o dia a dia dos alunos, reconheça a pluralidade da linguagem utilizada no cotidiano e promova uma educação mais humana, inclusiva e transformadora. Ao valorizar as expressões idiomáticas como elementos legítimos da cultura e da comunicação, abre-se espaço para uma formação crítica que ultrapassa a decodificação das palavras e alcança a compreensão dos múltiplos sentidos que atravessam a linguagem articulada à vida em sociedade.
A estrutura de trabalho está organizada em quatro seções principais. A primeira apresenta uma abordagem teórica sobre a interação humana via linguagem, destacando o seu papel como mediadora da experiência e da construção de sentidos. Em seguida, a segunda seção discute as expressões idiomáticas como manifestações culturais e linguísticas, abordando suas implicações no processo de ensino-aprendizagem. A terceira seção traz a análise dos livros didáticos selecionados, articulando os dados observados com a prática docente. Por fim, a última seção apresenta as considerações finais, apontando caminhos para práticas pedagógicas mais significativas e contextualizadas.
A seguir, será apresentada a seção que evidencia a linguagem como elemento constitutivo das relações sociais e históricas, essencial à constituição dos sujeitos e à mediação das relações humanas. A partir do pensamento de Paulo Freire, essa discussão busca evidenciar como o exercício de ler e escrever nasce da própria experiência vivida, a linguagem não apenas instrumento de comunicação, mas expressão de existência.
2. A INTERAÇÃO HUMANA VIA LINGUAGEM
A linguagem, para Paulo Freire, é mais que um instrumento de comunicação, ela expressa uma forma de vivenciar o mundo. Em sua obra, o autor mostra que ler e escrever estão intimamente ligados à experiência humana de interpretar a realidade. Assim, o entendimento da linguagem escrita depende da interpretação do mundo vivido, ou seja, pela capacidade de compreender criticamente o contexto social, histórico e cultural no meio em que está inserido (Freire, 1989).
Essa perspectiva rompe com a visão tradicional da linguagem entendida como um código neutro e universal. Ao afirmar que “a leitura do mundo precede a leitura da palavra” (Freire, 1989, p. 9) o autor propõe uma pedagogia baseada na escuta e na valorização dos saberes populares, reconhecendo que os sujeitos já interpretam o mundo antes mesmo de serem formalmente alfabetizados. Assim, a linguagem é percebida como expressão das práticas sociais que carregada de intencionalidade, ideologia e história.
A pedagogia freiriana, portanto, propõe uma prática educativa dialógica, em que o professor passa a ser reconhecido como mediador do conhecimento e passa a atuar como um mediador, aprendendo com os alunos e suas vivências. Nesse contexto, a linguagem é concebida como manifestação social e política, capaz de revelar e transformar a realidade. A alfabetização supera a simples leitura de signos, alcançando sentidos mais profundos, ela envolve a construção de sentidos a partir da experiência concreta dos sujeitos. Essa visão é especialmente relevante para o ensino de expressões idiomáticas, pois essas formas linguísticas carregam marcas culturais, históricas e afetivas que só podem ser interpretadas a partir do contexto social de sua produção. Ao trabalhar com expressões idiomáticas a partir da leitura do mundo dos alunos, o professor incorpora a linguagem viva que circula em músicas, memes, conversas familiares e outros gêneros discursivos do cotidiano, promovendo a aprendizagem significativa e crítica.
Autores como Britto e Setton (2022) também reforçam essa visão ao destacar que a leitura de mundo, na obra de Freire, não é uma metáfora, mas uma prática concreta de interpretação da realidade. Compreender a linguagem é compreender o mundo, e vice-versa. Assim, o ensino da Língua Portuguesa deve estar comprometido com a formação de sujeitos críticos, capazes de ler e interagir no mundo em que vivem.
Essa concepção freiriana dialoga com os estudos de Bakhtin, especialmente quanto à linguagem como fenômeno social e dialógico. Para Bakhtin (1997) todo enunciado é produzido em um contexto de interação e está atravessado por vozes sociais:
todo enunciado desde a breve réplica até o romance ou o tratado científico comporta um começo absoluto e um fim absoluto: antes de seu início, há os enunciados dos outros; depois de seu fim, há os enunciados-resposta dos outros (ainda que seja como uma compreensão responsiva ativa muda ou como um ato-resposta baseado em determinada compreensão). O locutor termina seu enunciado para passar a palavra ao outro ou para dar lugar à compreensão responsiva ativa. O enunciado não é uma unidade convencional, mas uma unidade real, estritamente delimitada pela alternância dos sujeitos falantes, e que termina por uma transferência da palavra ao outro, por algo como um mudo dixi percebido pelo ouvinte, como sinal de que o locutor terminou. (Bakhtin, 1997, p. 294).
Essa visão complementa a proposta freiriana ao reforçar que o sentido das palavras não está apenas em sua forma, mas também na forma como se relacionam com o meio social e com os sujeitos ao seu redor. A palavra, segundo Bakhtin, é sempre responsiva, nunca neutra, nunca isolada. Ela carrega ecos de outras vozes, de outras consciências e de outros tempos. O dialogismo reforça a ideia de que o significado das palavras nasce da interação social e da multiplicidade de vozes que as constituem.
Ao aproximar Freire e Bakhtin, percebe-se que ambos defendem uma concepção linguística que privilegia a experiência dos indivíduos, o contexto e a diversidade de sentidos. Essa perspectiva é essencial para o ensino de expressões idiomáticas, pois permite que o educador as reconheça como manifestações culturais vivas, presentes em conversas familiares, músicas, memes e outros gêneros discursivos do cotidiano.
A linguagem ao ser compreendida como atividade social e historicamente construída, entender que ela não se restringe às regras normativas, o que amplia a visão sobre o processo de ensino e aprendizagem, o uso da linguagem é constantemente influenciado pelos contextos em que ocorre com relação ao sentidos e relações humanas. Diante desse contexto, torna-se necessário se aprofundar nos documentos oficiais, como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), orienta a prática pedagógica voltada para os gêneros textuais no Ensino Fundamental II, especialmente no que diz respeito às expressões idiomáticas e à valorização linguística em sala de aula.
3. A BNCC E OS GÊNEROS TEXTUAIS
O ensino de expressões idiomáticas, quando articulado à Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e ao trabalho com gêneros textuais, revela-se como uma prática que ultrapassa a simples transmissão de conteúdos linguísticos. Trata-se de inserir o estudante em um universo cultural e discursivo, no qual a língua é compreendida como prática social e histórica. A BNCC reconhece essa dimensão da linguagem ao propor que o ensino de Língua Portuguesa seja orientado pelas práticas de linguagem, e coloca os gêneros textuais como eixo estruturante, o que favorece o trabalho com expressões idiomáticas em contextos concretos de interação, evitando seu tratamento descontextualizado.
A BNCC (Brasil, 2017) prevê na habilidade EF67LP38 a compreensão dos sentidos gerados pelas figuras de linguagem. Já a habilidade EF69LP54 propõe a análise das relações entre os recursos linguísticos e os sentidos produzidos nos textos. Essas diretrizes mostram que o ensino da linguagem não é apenas desejável, mas necessário para a formação de leitores críticos e sensíveis à linguagem.
Marcuschi (2003, p.19) lembra que os gêneros textuais são “eventos textuais altamente maleáveis, dinâmicos e plásticos”, o que significa que eles se transformam conforme as necessidades comunicativas e culturais. Essa perspectiva é fundamental para compreender que as expressões idiomáticas, ao aparecerem em crônicas, contos populares, textos jornalísticos ou propagandas, não são apenas ornamento estilísticos, mas recursos que carregam sentidos coletivos e modos de ver o mundo.
Ao diferenciar tipos textuais de gêneros, Marcuschi (2003) enfatiza que os gêneros devem ser entendidos por seus aspectos sociocomunicativos e funcionais, e não apenas por suas estruturas formais. Ou seja, pode-se considerar que o gênero textual é o espaço em que o texto se materializa e ganha vida social, enquanto o tipo textual é apenas uma sequência teórica de traços linguísticos. Essa distinção é crucial para o ensino, pois permite que o professor trabalhe expressões idiomáticas como parte integrante de práticas discursivas concretas, e não como listas descontextualizadas.
Nesse sentido, a BNCC destaca a importância de que o ensino de língua se volte para situações autênticas de comunicação. Ao propor que os alunos desenvolvam as práticas de leitura, escrita e oralidade a partir dos gêneros, a BNCC abre caminho para que o ensino de expressões idiomáticas seja realizado em contextos reais de uso. Como destaca Bakhtin (1997, p. 299) todo enunciado “é um elo na cadeia da comunicação verbal”, e é nesse elo que as expressões idiomáticas ganham sentido, pois são fruto de práticas sociais e culturais.
Do ponto de vista educacional, o professor pode explorar expressões idiomáticas em diferentes gêneros, mostrando como elas funcionam em contextos variados. Em uma crônica, por exemplo, podem reforçar a oralidade e a proximidade com o leitor; em propaganda, podem ser usadas de forma criativa para persuadir; em textos jornalísticos, podem dar impacto e expressividade. Além de ampliar o repertório linguístico dos alunos, essa abordagem promove autonomia e desenvolvimento de uma consciência crítica acerca da linguagem.
Marcuschi (2003, p. 19) ainda observa que os gêneros textuais são “fruto de trabalho coletivo”, é justamente nesse caráter coletivo que as expressões idiomáticas se inserem. Elas não pertencem a um indivíduo, mas à comunidade linguística, funcionando como marcas culturais que atravessam gerações. Ao serem ensinadas em sala de aula, ultrapassam o ensino da língua, ao englobarem cultura, identidade e modos de interação.
Em síntese, o ensino de expressões idiomáticas, considerando a BNCC, e o trabalho com gêneros textuais devem ser entendidos como práticas discursivas situadas. Essas práticas valorizam a língua em uso e favorecem a construção de uma postura crítica e criativa nos estudantes. Mais do que decorar frases, o aluno aprende a reconhecer e a usar expressões idiomáticas em diferentes contextos. De acordo com os princípios da BNCC, ao compreender os gêneros como construções coletivas e dinâmicas, o ensino de linguagem passa a valorizar a diversidade discursiva e a ampliar a competência comunicativa dos alunos. Nesse cenário, as expressões idiomáticas aparecem como elementos linguísticos que condensam sentidos culturais compartilhados, funcionando também como marcas identitárias de uma comunidade. Assim, entender o papel das expressões idiomáticas na construção de sentidos é essencial para aprofundar o trabalho com os gêneros, tema que será explorado na próxima seção.
3.1. As Expressões Idiomáticas: Definição e Construção de Sentidos
As expressões idiomáticas condensam sentidos culturais, históricos e afetivos, funcionando como marcadores de identidade e recursos de construção de sentido nos textos. No ambiente escolar, especialmente no ensino de Língua Portuguesa no Ensino Fundamental II, compreendê-las é essencial para o processo de desenvolver competências voltadas para a leitura e interpretação.
Segundo Xatara (1998) essas expressões idiomáticas são unidades fraseológicas que apresentam valor conotativo e estrutura fixa, cuja significação não pode ser deduzida pela simples soma dos significados das palavras que as compõem. Essa particularidade as torna especialmente complexas para os aprendizes, demandando não apenas domínio linguístico, mas também experiência cultural e sensibilidade contextual. Em outro estudo, Xatara (2000) aprofunda essa análise ao mostrar que tais expressões são sistematizáveis e que seu ensino deve ser valorizado, pois revelam aspectos da cultura e da cognição dos falantes.
No ato da leitura, essas expressões desempenham um papel fundamental na construção de sentido, pois mobilizam lembranças, vivências e repertórios culturais. Como destaca (Koch; Travaglia, 1997) a coerência textual não está apenas no texto, mas também na relação que se dá entre o leitor e o seu repertório sociocognitivo. Assim, interpretar uma expressão como “ficar com a pulga atrás da orelha” exige mais do que conhecer o significado literal das palavras, requer o reconhecimento do sentido figurado de desconfiança ou de suspeita.
Essas expressões aparecem com frequência em diversos gêneros textuais, especialmente os que circulam no cotidiano dos alunos, como crônicas, músicas, notícias e memes. Marcuschi (2008, p. 155) afirma que “os gêneros textuais são formas de ação social e não apenas estruturas linguísticas”, o que significa que o ensino da linguagem deve considerar os textos reais que os sujeitos leem e produzem em suas práticas sociais. Ao explorar esses gêneros em sala de aula, o professor favorece à aprendizagem significativa, conectada à realidade linguística dos estudantes.
Um exemplo expressivo é a crônica “Antigamente”, de Carlos Drummond de Andrade, em que o autor escreve:
“[...] antigamente, certos tipos faziam negócios e ficavam a ver navios; outros eram pegos com a boca na botija, contavam tudo tintim por tintim e iam comer o pão que o diabo amassou, lá onde Judas perdeu as botas. Uns raros amarravam cachorro com linguiça. E alguns ouviam cantar o galo, mas não sabiam onde [...]” (Drummond, Quadrante I, 1962, p. 97-98).
Nesta passagem, Drummond emprega uma sucessão de expressões idiomáticas que retratam circunstâncias de perda, engano, sofrimento, esperteza e confusão. “Ficar a ver navios” indica frustração ou decepção; “com a boca na botija” sugere ser pego em flagrante; “contar tudo tintim por tintim” indica detalhar algo minuciosamente; “comer o pão que o diabo amassou” expressa sofrimento intenso; “onde Judas perdeu as botas” remete a um lugar muito distante; “amarrar cachorro com linguiça” indica ingenuidade; e “ouvir cantar o galo, mas não saber onde” aponta para alguém que tem uma informação vaga ou incompleta. A riqueza dessas expressões evidencia como o texto constrói sentido por meio de referências culturais compartilhadas, o que exige do leitor uma leitura inferencial e sensível ao contexto.
Outro exemplo pode ser observado em gêneros jornalísticos, como a notícia publicada no portal G1 (Online, 2023) intitulada “Acabou em pizza: população come pizza na Câmara após vereadores rejeitarem denúncia contra prefeito que não é visto há 8 meses”. A expressão idiomática “acabar em pizza” indica que uma situação problemática terminou sem punição ou consequência, especialmente em contextos políticos. Nesse caso, a expressão foi utilizada tanto no título quanto na ação dos moradores, que comeram pizza como forma de protesto, reforçando o duplo sentido, figurado e literal. Esse uso evidencia como o jornalismo recorre a expressões idiomáticas para comunicar críticas sociais de forma acessível e culturalmente situada, conforme observam Xatara (1998) e Marcuschi (2008).
Na música popular, as expressões idiomáticas também são recorrentes. Na canção “Deixa a vida me levar”, de Zeca Pagodinho, o refrão diz: “Deixa a vida me levar / Vida leva eu...”. Essa construção apresenta um sentido figurado de entrega ao acaso e de aceitação dos rumos da vida, um significado que só pode ser compreendido em um contexto cultural e emocional. Esse tipo de leitura exige do aluno sensibilidade para os sentidos implícitos e para os efeitos de sentido que a linguagem pode produzir, como defendem Antunes (2003) e Faraco (2009).
Portanto, ao examinar a função das expressões idiomáticas na produção de sentidos, é imprescindível reconhecer que elas não são meros adornos estilísticos, mas componentes centrais da linguagem em uso. Trabalhar com essas expressões em gêneros textuais reais significa promover uma educação linguística crítica, sensível e conectada ao mundo dos alunos.
3.1.1. Sentido Conotativo nas Expressões Idiomáticas
Ao aprofundar a discussão sobre o papel das expressões idiomáticas na construção de sentidos, é essencial situá-las no campo da linguagem figurada. Essas unidades não se compreendem por meio de uma leitura literal, porque seus significados dependem do contexto em que são usadas, do repertório cultural e da experiência sociocognitiva dos falantes. Por isso, não devem ser interpretadas de forma direta: elas funcionam com base na conotação, isto é, no sentido simbólico, subjetivo e figurado das palavras. Assim, exigem do leitor uma leitura inferencial, atenta aos efeitos de sentido.
Enquanto Xatara (1998) aponta para a estabilidade das expressões idiomáticas como traço definidor, Riva e Camacho (2013) aprofundam e descrevem essas unidades como complexas, consolidadas pelo uso constante e semanticamente indivisível, reforçando seu caráter não literal e socialmente compartilhado. Lodi (2014) propõe, sob uma perspectiva cognitiva, que o significado das expressões idiomáticas está fortemente ligado a mecanismos como metáfora e metonímia, os quais permitem condensar vivências culturais em formas linguísticas. Assim, a metáfora, sendo a mais recorrente, estabelece uma relação implícita entre dois elementos, criando uma transferência de sentido. Deixando de ser apenas um enfeite do discurso, passa a ser entendida como um modo de pensar e representar o mundo, projetando um domínio de experiência sobre outro e produzindo sentidos figurados compartilhados em uma comunidade linguística.
Além da metáfora, outras figuras de linguagem também podem fazer parte de expressões idiomáticas, como comparações, hipérboles e metonímias. Isso reforça a expressividade dessas unidades e a forma como elas podem marcar avaliações e pontos de vista. Na maioria das vezes, a metáfora aparece junto com exageros (hipérboles) ou com comparações mais explícitas, geralmente introduzidas pelos conectivos “como” ou “que”, o que intensifica o efeito de sentido. É o que acontece em “vestir a camisa”, que associa a ideia de comprometimento e lealdade (metáfora) ao mesmo tempo em que representa o grupo como um todo, ou seja, a parte pelo todo (metonímia). Outro exemplo é “mais perdido que cego em tiroteio”, que intensifica o estado de desorientação de alguém (hipérbole) ao compará-lo a uma situação extrema de perigo e confusão. Nesses casos, entender a expressão exige acionar conhecimentos culturais compartilhados, indo além do sentido literal das palavras.
Entender expressão idiomática, portanto, não depende apenas do conhecimento das regras da língua, mas também da ativação de saberes de mundo, memórias e inferências construídas na experiência social do sujeito. Essa ideia se aproxima da concepção de coerência textual como um fenômeno construído na interação entre o texto e o repertório sociocognitivo do leitor (Koch; Travaglia, 1997). Ler uma expressão idiomática significa, nesse sentido, articular forma linguística, contexto de uso e conhecimento de mundo para reconstruir o efeito de sentido pretendido pelo falante.
Do ponto de vista pedagógico, reconhecer as expressões idiomáticas como parte da linguagem figurada amplia as possibilidades de trabalho em sala de aula. Ao relacionar o estudo dessas expressões à metáfora, à metonímia e à outras figuras de linguagem, o professor pode integrar análise linguística, leitura crítica e produção textual, ajudando os estudantes a perceberem a língua como espaço de construção e negociação de sentidos (Lodi, 2014). Nessa perspectiva, trabalhar com expressões idiomáticas não se reduz a ensinar “jeitos de falar”, mas oportunidade de ler o mundo, a cultura e as relações sociais que se manifestam nessas formas cristalizadas de linguagem.
Entender o sentido conotativo das expressões idiomáticas não só mostra a riqueza semântica da língua, mas também destaca sua dimensão cultural e simbólica. Ao ir além do significado literal, essas expressões evocam conhecimentos de mundo, experiências sociais e inferências que são compartilhadas por todos, atuando como marcas de identidade de grupos e contextos. É essa característica conotativa que faz das expressões idiomáticas ferramentas tão poderosas no ensino e aprendizado. Elas permitem que o professor explore não apenas os aspectos linguísticos, mas também os culturais e discursivos. Assim, valorizar as expressões idiomáticas vai além da gramática normativa, entrando em uma abordagem que vê a linguagem como uma prática social, proporcionando espaço para reflexões críticas e significativas sobre o uso da língua em diversos contextos.
3.1.2. A valorização das Expressões Idiomáticas
As expressões idiomáticas, durante muito tempo, ficaram em segundo plano no ensino de Português, aparecendo apenas em exemplos esporádicos em livros didáticos ou como notas de rodapé em exercícios de interpretação. Isso é bastante diferente do papel importante que elas desempenham na comunicação do dia a dia, na literatura e na cultura popular. Valorizar essas expressões no ensino significa reconhecer que a língua não é apenas um conjunto de regras gramaticais, mas também um espaço de criação, memória e identidade.
Segundo Cunha (2012) as expressões idiomáticas são superimportantes para aumentar o vocabulário e conectar o falante à língua que está em uso. Essa visão mostra que trabalhar com essas unidades não deve ser visto como algo secundário, mas sim como parte essencial da formação linguística dos alunos. Quando são usadas em atividades de leitura e produção de texto, essas expressões ajudam a ampliar o repertório vocabular e melhoram a compreensão de significados implícitos, o que é crucial para a habilidade de leitura.
Carvalho Júnior (2018) analisou livros didáticos e notou que as expressões idiomáticas são exploradas de maneira superficial, sem realmente aproveitar o que elas podem oferecer em termos pedagógicos. Isso mostra que é essencial que os professores assumam um papel ativo para valorizar essas expressões, trazendo-as para o foco das aulas. Fernandes (2011) também aponta que o ensino de expressões idiomáticas deve ser visto como parte da competência comunicativa. Ao perceber que cada comunidade linguística tem suas próprias maneiras de se expressar, o professor ajuda na formação de indivíduos críticos e que reconhecem a diversidade da língua portuguesa.
A valorização não se limita apenas ao âmbito educacional. A literatura brasileira é um espaço privilegiado em que as expressões idiomáticas se manifestam como recurso estilístico e cultural. Autores como Mário de Andrade, Aluísio Azevedo e Machado de Assis incorporaram essas construções em suas obras, aproximando a escrita da oralidade e da cultura popular. Em
Macunaíma, Mário de Andrade recorreu a ditos populares para caracterizar o herói sem caráter. Em determinado momento, o narrador afirma que Macunaíma estava “botando os bofes pela boca” (Andrade, 2022, p. 256). A expressão idiomática “botar os bofes pela boca” significa passar mal, vomitar ou em alguns contextos, ficar extremamente cansado, ofegante. A presença dessa expressão na obra reforça o caráter de fragilidade física do protagonista, aproximando a narrativa da fala popular brasileira.
Aluísio Azevedo, em O Cortiço, também utilizou expressões idiomáticas para retratar o cotidiano urbano carioca do século XIX. Ao descrever Leandra, o narrador comenta que ela “não pregou o olho a noite toda” (Azevedo, 2022, p. 172). A expressão “não pregar o olho” significa não conseguir dormir, e nesse contexto reforça o estado emocional da personagem, como de angústia e aflição, além de aproximar a linguagem literária da oralidade popular.
O uso de termos idiomáticos é um recurso que Machado de Assis explorou em Dom Casmurro para elevar a carga emocional da trama. Em certa parte da narrativa, Bento Santiago relata a experiência da despedida entre ele e sua amada, Capitu. “Entre luz e fusco, tudo há de ser breve como esse instante” (Assis, 2022, p.97). A expressão “entre luz e fusco” significa rápido, transitório, que dura pouco. Ou seja, é uma brevidade de um momento importante. A utilização dessa expressão idiomática revela a frustração do personagem diante da ausência de Capitu, trazendo uma sensibilidade ao instante, tom melancólico e romantizado, aproximando a narrativa romântica da linguagem popular.
Torna-se evidente que a prática de utilizar expressões idiomáticas de autores renomados para revigorar suas narrativas ressalta a inconsistência de relegar tais elementos à periferia do ensino educacional. Dado que a literatura constitui um componente substancial dos currículos acadêmicos e estima essas expressões como indicadores de identidade cultural e estética, é imperativo que as instituições educacionais as reconheçam como componentes integrais do desenvolvimento linguístico dos alunos. Consequentemente, o envolvimento com textos literários que incorporam expressões idiomáticas não apenas ajuda a ampliar o repertório de vocabulário, mas também melhora a compreensão dos significados implícitos e promove uma conexão mais profunda entre os alunos e o uso prático da linguagem.
É perceptível que a adoção de termos idiomáticos de escritores célebres para conferir vitalidade às suas obras evidencia a contradição em manter esses recursos à margem do sistema de ensino. Considerando que os estudos literários ocupam um lugar central na formação acadêmica e valorizam tais expressões como marcas de identidade e estilo, as escolas precisam tratá-las como peças-chave na evolução linguística dos estudantes. Portanto, a análise de textos literários ricos em idiomatismos não só amplia o vocabulário, como também aperfeiçoa a interpretação de nuances e fortalece a relação prática entre o aluno e o idioma.
4. O PRECONCEITO LINGUÍSTICO E A DIVERSIDADE CULTURAL
O ensino da Língua Portuguesa, especialmente quando falamos de expressões idiomáticas, precisa estar conectado com o contexto social e cultural das pessoas que falam o idioma. Nesse sentido, é fundamental considerar o preconceito linguístico e a diversidade cultural para entender por que essas expressões são tão importantes nas escolas.
O preconceito linguístico vai muito além de simples opiniões sobre o que é certo ou errado na fala; ele reflete, principalmente, as desigualdades sociais que existem. Marcos Bagno (1999) nos lembra que a língua não é um fenômeno isolado, mas está intrinsecamente ligada às condições históricas, culturais e sociais de quem a fala. Portanto, quando certas formas de expressão são menosprezadas, não se trata apenas de desvalorizar a linguagem, mas também de excluir os grupos sociais que a utilizam. Esse tipo de preconceito aparece em vários contextos, como nas escolas, na mídia e nas interações do dia a dia. A valorização excessiva da norma padrão em detrimento das variantes populares da língua ajuda a perpetuar as hierarquias sociais e reforça a exclusão de pessoas que não tiveram as mesmas oportunidades de acesso à educação formal. Chamar a fala popular de “errada” é ignorar a diversidade cultural e linguística que existe na sociedade e ainda perpetuar estigmas ligados às classes sociais menos favorecidas. Quando essa visão é refletida no ambiente escolar, fica mais difícil para os alunos reconhecerem a riqueza que há em suas próprias formas de expressão, prejudicando uma aprendizagem mais inclusiva e significativa.
Por outro lado, Leite e Callou (2002) destacam que a diversidade cultural é constitutiva da língua e deve ser reconhecida como riqueza. A diversidade cultural constitui um dos aspectos mais característicos da sociedade brasileira e se manifesta de forma intensa na língua. Cada região, cada grupo social e cada comunidade imprime na linguagem suas próprias marcas, criando modos de expressão que revelam visões de mundo e experiências coletivas. Compreender a diversidade cultural é reconhecer que a língua não se apresenta de forma homogênea, mas resultado de múltiplas vozes que convivem e se entrelaçam. Valorizar essa pluralidade significa também valorizar os diferentes modos de expressão que compõem a identidade nacional.
No campo educacional, a diversidade cultural impõe o desafio de superar práticas que privilegiam apenas as normas cultas e invisibilizam outras formas legítimas de expressão. Quando a escola reconhece e trabalha essa pluralidade, promove não apenas o aprendizado da língua, mas também o respeito às identidades culturais dos alunos. Isso significa que o ensino precisa ir além da correção gramatical e abrir espaço para que os estudantes percebam a língua como reflexo da sociedade em que vivem, marcada por contrastes, histórias e tradições.
A diversidade cultural também se revela na produção artística e literária, presente na música, nas celebrações populares e nas tradições orais. Cada umas dessas manifestações contribuem para a construção de um repertório coletivo que fortalece a identidade brasileira. Ao serem incorporadas ao ensino, essas práticas ajudam a combater preconceitos e a promover uma educação mais inclusiva, que reconhece a riqueza das diferenças.
As expressões idiomáticas, nesse sentido, são manifestações culturais que condensam valores e tradições em pequenas unidades linguísticas. Reconhecê-las no espaço escolar significa valorizar a pluralidade e aproximar os estudantes da realidade cultural que os cerca. Por sua natureza, carregam marcas sociais que não se enquadram na rigidez da gramática normativa. Ao serem ensinadas apenas sob o viés da “correção” formal, corre-se o risco de invisibilizar o modo como diferentes grupos sociais constroem sentidos e significados. É nesse ponto que o combate ao preconceito linguístico se torna essencial: valorizar a diversidade linguística é também valorizar a identidade dos alunos. Como afirma Bagno (1999) não existe língua errada, o que existe é língua diferente. Essa afirmação reforça que o papel da escola deve ser o de ampliar horizontes, e não o de restringi-lo.
No ensino das expressões idiomáticas, é superimportante que o professor reconheça e valorize a forma de se comunicar dos estudantes, mostrando que essas expressões são partes vivas da língua, e não simples desvios. Assim, enfrentar o preconceito linguístico nas aulas de expressões idiomáticas vai além de uma questão pedagógica; é também uma questão política e social. É fundamental entender que a língua é plural, dinâmica, viva e intimamente conectada às experiências humanas. Ao valorizar essa diversidade, a escola ajuda a formar cidadãos mais conscientes de sua identidade e mais respeitosos com a diversidade cultural ao seu redor.
Ao discutir o preconceito linguístico e a valorização da diversidade cultural, torna-se evidente a necessidade de abordagens pedagógicas que reconheçam a linguagem como prática social, dinâmica e situada. Essa perspectiva abre caminho para uma reflexão mais ampla sobre o ensino da Língua Portuguesa, que não se limita à norma padrão, mas considera os usos reais da linguagem em diferentes contextos. É nesse cenário que as contribuições da Linguística Cognitiva ganham relevância, ao propor um Ensino Funcional que valorize a construção de sentidos, os processos inferenciais e o repertório sociocognitivo dos alunos como elementos centrais na aprendizagem da língua.
5. CONTRIBUIÇÕES DA LINGUÍSTICA COGNITIVA E O ENSINO FUNCIONAL DA LÍNGUA PORTUGUESA
O Ensino de Língua Portuguesa, quando pensado em diálogo com a realidade sociocultural dos estudantes, ganha força e significado. As expressões idiomáticas, por sua natureza, são construções que refletem modos de viver, pensar e sentir de uma comunidade. Ao serem trabalhadas em sala de aula, elas permitem que os alunos reconheçam na língua não apenas um instrumento de comunicação, mas também um espaço de identidade e pertencimento.
Para Lakoff e Johnson (1980) na Linguística Cognitiva as metáforas não são apenas figuras de linguagem, mas sim estruturas fundamentais do pensamento humano. Essa perspectiva é aprofundada por Paiva (1998) que organiza estudos sobre como as metáforas do cotidiano revelam esquemas mentais e cultuais que moldam a forma como os sujeitos interpretam o mundo. Ao trazer essas metáforas para o ambiente escolar, o ensino da língua torna-se mais expressivo, pois conecta o conteúdo à experiência dos alunos, valorizando suas vivências e repertórios linguísticos.
A Linguística Funcional traz uma visão de ensino que vê a linguagem como uma prática social, contextualizada e situada. Marcuschi (2008, p. 17) ressalta que “a língua é uma atividade social e histórica, situada e contextualizada”, o que evidencia a importância de ligar o ensino às práticas diárias dos alunos. Fuzer e Neves (2014) aprofundam essa perspectiva ao apresentar os fundamentos da Gramática sistêmico-funcional de Halliday (1985) aplicada à Língua Portuguesa. Para esses estudiosos, o ensino funcional da língua deve valorizar os contextos reais de uso e as funções comunicativas dos textos, legitimando as experiências dos alunos e promovendo uma rica diversidade linguística. Nesse sentido, trazer para a sala de aula expressões que circulam em músicas, redes sociais, conversas familiares ou no ambiente comunitário é uma forma de legitimar suas vivências e de valorizar a diversidade linguística.
É importante lembrar que, como já discutido em seção anterior, a imposição exclusiva da norma culta pode gerar exclusão e desvalorização das variedades linguísticas utilizadas pelos alunos em seu cotidiano. Aqui, o foco não é retomar o debate sobre preconceito linguístico, mas mostrar como o ensino das expressões idiomáticas pode ser um caminho para superar barreiras e reconhecer a pluralidade cultural que compõe a língua.
Integrar expressões idiomáticas ao ensino não é apenas uma escolha metodológica, mas uma postura ética e política. Significa reconhecer que a linguagem dos alunos com suas metáforas, regionalismos e construções figuradas é rica, complexa e digna de estudo.
Cavalcante e Silva (2010) defendem que essas unidades fraseológicas não devem ser tratadas como curiosidades linguísticas, mas como elementos que revelam aspectos culturais, históricos e cognitivos dos falantes. Segundo as autoras, “o ensino das expressões idiomáticas pode contribuir para o desenvolvimento da competência comunicativa e para a ampliação do repertório linguístico dos alunos” (Cavalcante; Silva, 2010, p. 89) desde que esteja articulado ao contexto sociocultural em que estão inseridos.
Além disso, Antunes (2003) lembra que o ensinar a língua é ensinar o seu uso em situações reais de interação, o que amplia a perspectiva de que o trabalho com expressões idiomáticas deve estar vinculado às práticas sociais dos estudantes. Ao aplicar essa visão, o professor não apenas explica significados, mas promove reflexões sobre como tais expressões revelam valores culturais e históricos.
Para que essa integração ocorra de forma efetiva, é necessário que o professor desenvolva estratégias didáticas que articulem teoria e prática, linguagem e cultura, norma e uso. Algumas propostas pedagógicas que podem ser incorporadas ao cotidiano escolar incluem: Projeto “Expressão em Movimento”: produção de pequenos vídeos ou podcasts em que os alunos explicam e dramatizam expressões idiomáticas, conectando linguagem, tecnologia e cultura; Entrevistas comunitárias: os alunos entrevistam familiares, vizinhos ou pessoas da comunidade sobre expressões idiomáticas que utilizam no dia a dia, trazendo para a sala de aula a memória cultural e aproximando escola e comunidade; Mapeamento regional: construção de um mural ou mapa interativo com expressões idiomáticas típicas de diferentes regiões do Brasil, evidenciando a diversidade linguística e cultural do país; Glossários coletivos: organização colaborativa de expressões idiomáticas por temas, regiões ou gêneros textuais, sistematizando o conhecimento de forma crítica; Produções criativas: elaboração de tirinhas, memes ou pequenos textos narrativos que utilizem expressões idiomáticas contextualizadas, estimulando autoria e reflexão sobre sentidos conotativos.
Essas práticas, além de promoverem o letramento crítico, permitem que os estudantes se reconheçam como sujeitos de linguagem, capazes de interpretar e produzir sentidos a partir de suas próprias referências. Ao adotar abordagens pedagógicas que valorizem as expressões idiomáticas no contexto sociocultural dos alunos, o professor não apenas amplia a competência leitora, mas também contribui para uma educação mais humana, inclusiva e transformadora.
6. METODOLOGIA
Essa pesquisa é uma abordagem qualitativa e bibliográfica que foca em como as expressões idiomáticas aparecem em textos literários, músicas e materiais didáticos. O objetivo é entendê-las à luz das teorias linguísticas e das diretrizes da educação brasileira.
O método começa com um levantamento da literatura de autores importantes na Linguística e na Educação, como Freire, Bakhtin, Antunes, Marcuschi, Bagno e Koch. Também consultei a BNCC (2017) para relacionar as habilidades requeridas no ensino dessas expressões. Depois, selecionei textos literários e músicas que apresentam expressões idiomáticas em contextos variados, analisando-os pela lente da teoria linguística e da sua relevância cultural.
Além disso, examinei livros didáticos de Língua Portuguesa utilizados no Ensino Fundamental para verificar como as expressões idiomáticas são tratadas e se estão alinhadas às orientações da BNCC. Essa análise permitiu observar a presença, a ausência ou o modo como essas expressões são abordadas no ambiente escolar.
O desenvolvimento da monografia envolveu uma leitura crítica, fichamento e uma análise comparativa das obras e documentos pesquisados. A avaliação das fontes foi contínua, garantindo que apenas materiais relevantes e consistentes fossem utilizados. Assim, a metodologia garantiu uma coerência entre os objetivos específicos e as etapas realizadas, permitindo uma análise profunda e humanizada do tema.
7. AS EXPRESSÕES IDIOMÁTICAS NOS LIVROS DIDÁTICOS
A investigação dos livros didáticos adotados no Ensino fundamental II foi uma etapa importante para compreender como o ensino da Língua Portuguesa tem tratado as expressões idiomáticas. Esses materiais, além de orientarem o planejamento docente, refletem concepções de linguagem e práticas pedagógicas que impactam diretamente na formação leitora dos alunos. Avaliar a presença (ou ausência) dessas expressões nos livros permite identificar se há espaço para a linguagem figurada e culturalmente situada no ensino formal, ou se ainda predomina uma abordagem normativa e descontextualizada. Para esta análise, foram selecionados três livros didáticos amplamente utilizados na rede pública, quais sejam:
BELTRÃO, Elaina Santos; GORDILHO, Tereza. A conquista língua portuguesa: 9º ano. São Paulo: FTD, 2022.
CEREJA, William; VIANNA, Carolina Dias. Português: linguagens: 9º ano. 11. ed. São Paulo: Saraiva Educação S.A., 2022.
PAIVA, Andressa Munique (ed.). Araribá conecta português: 9º ano: manual do professor. 1. ed. São Paulo: Moderna, 2022.
A análise concentrou-se nos capítulos voltados à leitura, interpretação e produção textual, bem como nas seções de estudo da linguagem. Os critérios observados foram: presença explícita ou ausência de expressões idiomáticas, como foi abordado o assunto e a relevância.
A obra didática A conquista língua portuguesa: 9º ano, da Editora FTD Educação, apresenta uma abordagem significativa e contextualizada das expressões idiomáticas, especialmente na Unidade 4 – Mídias, vozes e ruídos, na seção “Linguagem e sentidos”, nas páginas 160 a 162 do livro impresso.
Logo no início da seção, o livro traz o título “Expressões Idiomáticas” e logo depois apresenta a definição, além das construções formadas por duas ou mais palavras que, juntas, adquirem um significado próprio, diferente do sentido literal de seus termos. Essa explicação é clara e acessível, destacando que a tradução literal dessas expressões para outros idiomas não faz sentido, o que reforça sua natureza cultural e contextual. A abordagem se dá por meio de trechos jornalísticos, artigos de opinião e tirinhas, que trazem expressões como “bode expiatório”, “engolir sapos”, “à flor da pele”, “arregaçar as mangas” “sem pés nem cabeça”. Essas expressões são utilizadas para provocar reflexão sobre o uso figurado da linguagem, o humor, a ironia e os efeitos de sentido que elas produzem na comunicação cotidiana e midiática. As atividades propostas incentivam os alunos a: identificar expressões idiomáticas em textos reais, interpretar seus significados com base no contexto, reconhecer o uso de linguagem conotativa e refletir sobre como expressões revelam atitudes, emoções, intenções dos autores. Além disso, há uma atividade complementar interdisciplinar que propõe a tradução dessas expressões para o inglês, promovendo uma comparação entre os usos idiomáticos nas duas línguas. Essa proposta amplia o repertório linguístico dos estudantes e favorece à compreensão intercultural.
A abordagem adotada pelo livro é humanizada e crítica, pois não trata as expressões idiomáticas como meras curiosidades linguísticas, mas como elementos vivos da língua, que circulam em diferentes esferas sociais e comunicativas. Ao trabalhar com textos autênticos e situações do cotidiano, o material aproxima o ensino da realidade dos alunos, valorizando a leitura inferencial e a construção de sentidos.
Em suma, o material didático reconhece a importância dessas construções linguísticas para a formação crítica dos estudantes, impulsionando a construção da competência leitora e a ampliação do repertório cultural. Ao inserir as expressões em textos reais e propor atividades que estimulam a interpretação e o diálogo entre linguagens, o livro contribui para uma prática pedagógica significativa, que valoriza a língua como instrumento de expressão, interação e transformação social.
O livro Português: linguagens: 9º ano, Editora Saraiva, apresenta uma organização bastante sólida em torno dos gêneros textuais, da leitura crítica e da gramática normativa. A obra é estruturada em unidades temáticas, como a Unidade 3 – Ser jovem, que reúne capítulos voltados para questões da adolescência, consumo e conflitos de gerações. Nesses capítulos, os autores exploram textos literários, jornalísticos e de opinião, além de propor atividades de interpretação e produção escrita.
Apesar dessa organização consistente, nota-se que as expressões idiomáticas não são tratadas como tópicos específicos. Elas surgem apenas de forma indireta, que discutem o contraste entre o sentido literal e figurado ou em exemplos de linguagem conotativa. Em seções como “A língua em foco”, o livro aborda figuras de linguagem e semântica, mas as expressões idiomáticas aparecem apenas como ilustrações pontuais, sem receber explicações detalhada ou atividades próprias que explorem sua dimensão cultural e cotidiana. Essa presença esporádica pode ser observada em alguns momentos concretos: na página 73, por exemplo, há uma tirinha que utiliza a expressão “dar bola”. Contudo, sua ocorrência não está relacionada ao estudo de efeitos de sentido, mas aparece de forma inevitável, já que o exercício trata de pronomes relativos. Outro caso ocorre na página 200, onde surge a expressão “entrar pelo cano”. Nesse contexto, ela aparece em outra tirinha de um texto dissertativo-argumentativo, não para discutir efeitos de sentido, mas como parte de desenvolvimento da argumentação.
Essa ausência de aprofundamento revela uma abordagem superficial do tema. Embora o material seja consistente em trabalhar gêneros textuais e figuras de linguagem, ele não valoriza as expressões idiomáticas como recurso linguístico e cultural. O estudante entra em contato com elas apenas de maneira superficial, sem compreender plenamente como essas construções fazem parte da comunicação diária e da identidade cultural da Língua Portuguesa.
Do ponto de vista pedagógico, essa escolha limita o repertório linguístico dos alunos e reduz a possibilidade de desenvolver uma leitura mais crítica e inferencial. Diferente de outras coleções que dedicam seções inteiras às expressões idiomáticas, o Português: linguagens opta por priorizar a gramática normativa e os gêneros textuais, deixando o tema em segundo plano. Ao analisar o Araribá conecta português, 9º ano, da Editora Moderna e aprovado pelo PNLD 2024, observa-se que o livro organiza seu conteúdo em oito unidades temáticas, cada uma estruturada em torno de gêneros textuais, conhecimentos linguísticos e gramaticais, oralidade e produção escrita. No que se refere às expressões idiomáticas, não há uma unidade ou seção específica dedicada exclusivamente a esse tema. O sumário evidencia capítulos voltados para figuras de linguagem, questões de língua e marcas de oralidade, mas não há menção direta a “expressões idiomáticas” como conteúdo formal. Apesar disso, as expressões idiomáticas aparecem de forma contextualizada, em alguns momentos. Um exemplo encontra- se na Unidade 8 – Os menores frascos, na seção Conhecimentos linguísticos e gramaticais1- Figuras de linguagem (3), página 295. Nessa parte, o livro apresenta a expressão idiomática “somos gotas de água no oceano” como exemplo metáfora, sem, contudo, explicitar que se trata também de uma expressão idiomática. O termo “expressão idiomática” só é mencionado posteriormente, em uma sugestão de atividade produtiva destinada ao professor, na qual se propõe que os alunos coletem metáforas, metonímias ou fraseologias brasileiras, incluindo ditos populares e expressões idiomáticas nacionais.
Essa abordagem revela que o livro reconhece a existência das expressões idiomáticas, mas não abre espaço para um entendimento mais aprofundado sobre o que elas são, nem para uma sistematização conceitual. Elas aparecem vinculadas às figuras de linguagem ou como exemplos em atividades complementares, sem serem tratadas como um conteúdo autônomo. Essa escolha editorial limita a possibilidade de os estudantes compreenderem plenamente a natureza das expressões idiomáticas, restringindo-as ao campo de metáfora ou da metonímia, quando, na realidade, constituem um fenômeno linguístico e cultural mais amplo. Portanto, conclui-se que no livro Araribá conecta português, as expressões idiomáticas surgem de maneira incidental, ora em textos literários e humorísticos, ora em atividades sugeridas, mas sem aprofundamento conceitual. A relevância pedagógica está justamente nessa inserção indireta: ao lidar com textos que mobilizam expressões idiomáticas, o aluno é incentivado a compreender o valor figurado da linguagem, embora não receba uma explicação sistemática sobre o tema.
Em síntese, a análise documental evidenciou que os livros didáticos apresentam abordagens distintas em relação às expressões idiomáticas: enquanto a coleção da FTD Educação as contempla de maneira sistemática e crítica, as obras da Saraiva e da Moderna tratam-nas apenas de forma incidental, sem aprofundamento conceitual ou atividades específicas. Essa constatação dialoga diretamente com os referenciais teóricos que destacam a importância da linguagem como prática social e cultural, ressaltando que o ensino da língua portuguesa não deve ficar restrita à gramática normativa, mas precisa considerar os usos reais da língua e seus efeitos de sentido.
Durante o Estágio Supervisionado, ao lecionar sobre expressões idiomáticas, foi percebido que os alunos não conheciam o termo “expressão idiomática”, nem compreendiam que se tratavam de construções culturais. Muitos reconheciam algumas expressões isoladas, mas não dominavam seus significados. Esse cenário reforça a lacuna identificada nos materiais didáticos, ou seja, a ausência de um trabalho sistemático sobre o tema contribui para que os estudantes não desenvolvam consciência crítica acerca da dimensão cultural da língua.
No entanto, ao contextualizar as expressões idiomáticas com situações do cotidiano dos alunos, houve maior engajamento e participação, inclusive de estudantes que geralmente se mostravam pouco ativos nas aulas. As atividades dinâmicas, como jogo de “caça-expressão” (imagem relacionada à expressão idiomática), produções orais e discussões coletivas, favoreceram à compreensão e despertaram o interesse deles. Essa experiência confirma a relevância da perspectiva defendida pelos teóricos que enfatizam a necessidade de práticas pedagógicas significativas, capazes de aproximar o conteúdo escolar da realidade dos estudantes.
A BNCC, por sua vez, já prevê desde o 6º ano habilidades relacionadas à análise dos efeitos de sentido de figuras de linguagem. Entretanto, a prática em sala de aula revelou que, embora essa competência esteja formalmente prevista, ela não se concretiza de maneira efetiva nos livros didáticos analisados. Evidencia-se, então, um ponto crítico pois, a lacuna de aprendizagem parece estar relacionada à forma como os materiais didáticos priorizam gêneros textuais e gramática normativa, relegando as expressões idiomáticas à segundo plano.
Assim, a articulação entre análise documental, teoria e prática docente evidenciaram que o ensino das expressões idiomáticas, quando realizado de forma contextualizada e participativa, contribui para ampliar o repertório linguístico dos alunos e para desenvolver uma leitura mais crítica e inferencial. A ausência dessa abordagem nos livros didáticos limita a formação integral do estudante, reforçando a necessidade de práticas pedagógicas que valorizam a língua em sua dimensão cultural e cotidiana.
8. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A presente pesquisa partiu da questão norteadora: como destacar a relevância das expressões idiomáticas no ensino da Língua Portuguesa, de modo a contribuir para a formação crítica e o desenvolvimento da competência leitora dos alunos do Ensino Fundamental II? Ao longo do trabalho, foi possível evidenciar que tais expressões não se limitam a recursos estilísticos, mas constituem elementos fundamentais da linguagem viva, carregados de sentidos culturais e sociais que aproximam o estudante de sua realidade.
O objetivo geral, de promover a competência leitora e a leitura de mundo por meio do ensino de expressões idiomáticas, mostrou-se alcançado na medida em que o trabalho com elas revelou o potencial dessas expressões para ampliar o repertório linguístico e favorecer a interpretação crítica dos textos pelos alunos. Os objetivos específicos também foram contemplados: verificou-se o papel das expressões idiomáticas na construção de sentido em diferentes gêneros textuais; identificaram-se abordagens pedagógicas que valorizam a inserção dessas expressões no contexto sociocultural dos alunos e, ainda, constatou-se a presença limitada das expressões idiomáticas nos livros didáticos, o que reforça a necessidade de práticas pedagógicas significativas e contextualizadas.
A análise fundamentada na prática docente, em diálogo com pensadores como Freire e Antunes, nos fez perceber que o ensino da língua portuguesa deve transcender a mera decifração das palavras, promovendo oportunidades de reflexão e transformação social. Nesse cenário, as expressões idiomáticas surgem como ferramentas valiosas que conectam a linguagem escolar à linguagem do dia a dia, ajudando a criar uma educação mais sensível, inclusiva e transformadora.
Conclui-se, assim, que o trabalho com expressões idiomáticas, quando fundamentado em práticas pedagógicas interativas e contextualizadas, contribui de maneira significativa para o desenvolvimento do pensamento crítico dos alunos e para o aprimoramento de sua competência leitora, reforçando a necessidade de um ensino de língua portuguesa que dialogue com a realidade e com os diversos sentidos da linguagem.
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1 Professora Associada II, lotada no Centro de Ciências Humanas, Sociais e Letras (CCHSL), da Universidade Estadual da Região Tocantina do Maranhão (UEMASUL), no Campus de Imperatriz. É Diretora do Curso de Letras Licenciatura em Língua Inglesa e Literaturas. É Coordenadora Geral do Programa de Formação de Professores Caminhos do Sertão. É Advogada. Graduou-se em Letras, pelo Centro de Estudos Superiores de Imperatriz CESI/UEMA (1994), fez Mestrado em Ciências da Educação pelo Instituto Pedagógico Latino Americano e Caribenho - IPLAC (1999) cujo título foi revalidado pela Universidade Estadual do Pará (UEPA) e fez Doutorado em Ciencias de la Educacion, pela Universidad del Norte (UNINORTE), em 2008,cujo título foi revalidado pela Universidade do Estado do Amazonas. Integra os seguintes Grupos de Pesquisa: GEPLALA Grupo de Estudos e Pesquisas em Linguística Aplicada e Literaturas Anglófonas e o Grupo de Estudos em Práticas Educativas e Formação de Professores (GEPEFP).Tem experiência na área de Letras, Educação e Metodologia da Pesquisa Científica, ministrando aulas e desenvolvendo pesquisas sobre as seguintes temáticas: Letras, ensino-aprendizagem de Língua Inglesa, formação docente, Literatura anglófona, Ensino Médio, Estágio Supervisionado de Língua inglesa, Educação, Direitos Humanos, Letramentos, políticas públicas de educação, escola pública e qualidade na educação. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Graduanda em Licenciatura em Letras Língua Portuguesa. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail