REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/784973417
RESUMO
O presente artigo analisa a importância da Usina da Paz (UsiPaz) do bairro do Guamá, em Belém do Pará, como equipamento público integrado de cidadania, segurança pública e transformação social, com ênfase no papel estratégico desempenhado pela Polícia Militar do Estado do Pará (PMPA) nesse processo. Inaugurada em 12 de janeiro de 2023, em celebração ao 407° aniversário de Belém, a UsiPaz Guamá constitui a 9ª unidade entregue pelo Governo do Estado no âmbito do Programa Territórios pela Paz (TerPaz) e a 5ª na capital, instalada na Avenida Bernardo Sayão, nº 4.783, em um dos bairros mais populosos e historicamente mais vulneráveis da cidade. Com capacidade para atender 1.500 pessoas por dia e oferta de mais de 70 serviços gratuitos nas áreas de saúde, educação, profissionalização, cidadania, esporte e cultura, a unidade representa uma inflexão na relação histórica entre o Estado e a população do Guamá. No campo da segurança pública, os dados da Secretaria de Inteligência e Análise Criminal (SIAC/SEGUP) documentam que o bairro registrou queda de 29% nos crimes violentos entre janeiro e outubro de 2024, queda de 42,1% nos CVLI de janeiro a novembro de 2025 em relação ao mesmo período de 2024, e redução de 74% nos crimes de roubo no comparativo entre os períodos de janeiro a agosto de 2018 e 2023. O artigo demonstra que esses resultados são produtos de uma intervenção integrada na qual a PMPA exerce papel indispensável, tanto na fase de choque operacional que precedeu a instalação da UsiPaz quanto na manutenção da presença ostensiva continuada que garante as condições de segurança para o funcionamento do equipamento. Apresenta seis gráficos originais que sistematizam os dados disponíveis e articula revisão bibliográfica sobre violência urbana, prevenção social e policiamento comunitário com análise documental de fontes verificáveis.
Palavras-chave: Usina da Paz; Guamá; TerPaz; PMPA; Cidadania; Segurança Pública; Violência Urbana; Belém.
ABSTRACT
This article analyzes the importance of the Usina da Paz (UsiPaz) in the Guamá neighborhood in Belém, Pará, as an integrated public facility for citizenship, public security, and social transformation, with emphasis on the strategic role played by the Military Police of the State of Pará (PMPA) in this process. Inaugurated on January 12, 2023, in celebration of the 407th anniversary of Belém, the UsiPaz Guamá is the 9th unit delivered by the State Government under the Territories for Peace Program (TerPaz) and the 5th in the capital, located at Avenida Bernardo Sayão, No. 4,783, in one of the most populous and historically most vulnerable neighborhoods in the city. With capacity to serve 1,500 people per day and offering more than 70 free services in the areas of health, education, professional training, citizenship, sports, and culture, the unit represents an inflection in the historical relationship between the State and the Guamá population. In the field of public security, SIAC/SEGUP data document that the neighborhood recorded a 29% drop in violent crimes between January and October 2024, a 42.1% drop in CVLI from January to November 2025 compared to the same period in 2024, and a 74% reduction in robbery crimes comparing January-August 2018 and 2023. The article demonstrates that these results are products of an integrated intervention in which the PMPA plays an indispensable role, both in the operational shock phase that preceded the installation of the UsiPaz and in maintaining continued ostensive presence that guarantees security conditions for the facility's operation. It presents six original charts systematizing available data and combines a bibliographic review on urban violence, social prevention, and community policing with documentary analysis of verifiable sources.
Keywords: Usina da Paz; Guamá; TerPaz; PMPA; Citizenship; Public Security; Urban Violence; Belém.
1. INTRODUÇÃO
O bairro do Guamá, localizado na zona sul de Belém do Pará, configura um dos territórios de maior complexidade socioespacial da capital paraense. Com aproximadamente 94 mil habitantes, o que o torna o bairro mais populoso de Belém, o Guamá concentra ao mesmo tempo uma vibrante produção cultural, forte comércio popular, a vizinhança imediata com a Universidade Federal do Pará (UFPA) e indicadores históricos de alta vulnerabilidade social que o mantiveram, ao longo das décadas de 2000 e 2010, entre os bairros de maior incidência de homicídios e de violência letal da capital (REGATEIRO; RAMOS; SOUZA, 2021; PINTO; RIBEIRO, 2022). A difusão do crime organizado, a influência de facções criminosas ligadas ao narcotráfico e a precariedade de serviços públicos estruturantes contribuíam para que o bairro figurasse, junto com Terra Firme, Jurunas e Cabanagem, no epicentro da violência urbana belenense nos anos que antecederam a implantação do Programa Territórios pela Paz (TerPaz).
A inauguração da Usina da Paz do bairro do Guamá, em 12 de janeiro de 2023, data simbólica do 407° aniversário de Belém, representou um marco institucional de singular relevância para a história do bairro. Nona unidade entregue pelo Governo do Estado no âmbito do TerPaz e quinta na capital, a UsiPaz Guamá se instalou na Avenida Bernardo Sayão, nº 4.783, em um ponto estratégico próximo ao primeiro portão da UFPA, com capacidade para receber 1.500 pessoas por dia em uma estrutura que inclui dois prédios de atendimento, quadra poliesportiva, quadra de areia, espaço multicultural, piscina semi-olímpica e sala de lutas (AGÊNCIA PARÁ, 2023a; O LIBERAL, 2023).
Somente no primeiro dia de funcionamento, mais de 500 pessoas foram atendidas na UsiPaz Guamá, evidenciando a demanda reprimida de uma comunidade historicamente subservida pelo Estado em termos de saúde, educação e serviços de cidadania. No ato inaugural, o governador Helder Barbalho declarou que, antes da chegada do TerPaz, o bairro registrava 232 casos de crimes; depois da intervenção, esse número havia diminuído para 84 — uma redução de 63,8% que evidencia o impacto da fase de choque operacional conduzida pela PMPA antes da abertura da UsiPaz (O LIBERAL, 2023).
Este artigo tem como objetivo analisar a importância da UsiPaz Guamá como política pública integrada de cidadania e segurança pública, com ênfase no papel indispensável desempenhado pela PMPA nesse processo. São objetivos específicos: (i) contextualizar o bairro do Guamá a partir de suas características histórico-geográficas e do seu perfil de vulnerabilidade; (ii) apresentar o programa TerPaz e o modelo das Usinas da Paz; (iii) analisar a atuação específica da PMPA na fase de choque operacional e na consolidação da segurança no território; (iv) examinar os resultados documentados da UsiPaz Guamá nas dimensões social, de saúde, educacional e de segurança pública; e (v) discutir os limites, as potencialidades e as perspectivas de aprimoramento da iniciativa.
2. METODOLOGIA
A pesquisa adota abordagem qualitativa e quantitativa, de natureza exploratória, analítica e descritiva. Do ponto de vista qualitativo, o estudo se orienta pela análise interpretativa de documentos e de narrativas institucionais; do ponto de vista quantitativo, mobiliza dados numéricos de fontes secundárias verificáveis para evidenciar padrões e tendências nos resultados da UsiPaz Guamá. Essa articulação metodológica segue o modelo de triangulação proposto por Minayo (2014), que combina abordagens distintas para conferir maior profundidade e completude aos achados da pesquisa.
A revisão bibliográfica foi conduzida nas bases de dados Google Acadêmico, SciELO, Portal de Periódicos CAPES, Repositório Institucional da UFPA, Revista do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) e Revista Observatorio de la Economía Latinoamericana, com os descritores: "violência Guamá Belém", "CVLI bairro Guamá", "Usina da Paz TerPaz", "policiamento comunitário Pará", "prevenção social criminalidade Belém". Seguindo os critérios de Lakatos e Marconi (2017), foram priorizadas fontes de rigor metodológico e pertinência temática, cobrindo o período de 2017 a 2026.
A análise documental, fundamentada em Cellard (2008), abrangeu: (i) artigo de Regateiro, Ramos e Souza (2021) sobre a distribuição da criminalidade em Belém no período de 2017 a 2019, publicado na Revista do SUSP; (ii) artigo publicado na Revista Observatorio de la Economía Latinoamericana (2024) sobre os CVLI no Guamá no período de 2017 a 2021; (iii) publicações da Agência Pará sobre a inauguração e os resultados da UsiPaz Guamá; (iv) publicações do O Liberal sobre os atendimentos e depoimentos de moradores na inauguração; (v) dados da SEASTER sobre reduções de CVLI e roubo nos bairros TerPaz (comparativo 2018 vs 2023); (vi) dados da SEGUP/SIAC sobre reduções de 2024 e 2025, disponíveis em Notícia Marajó (2024) e Portal Debate (2025); (vii) dados da PMPA sobre o primeiro semestre de 2025, disponíveis no portal institucional; e (viii) reportagem do Diário do Pará (2026) sobre a estrutura e os resultados acumulados das UsiPaz. A triangulação das fontes, nos termos de Denzin (1978) e Flick (2009), assegura que a análise combina produção científica, documentos institucionais e dados empíricos verificados.
Os dados quantitativos foram sistematizados e representados por meio de seis figuras originais, elaboradas com a biblioteca Matplotlib (Python 3), a partir das informações coletadas nas fontes consultadas. Todas as figuras são devidamente referenciadas no texto, seguindo as normas ABNT de apresentação de figuras em trabalhos científicos.
3. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
3.1. Vulnerabilidade Territorial e Violência Urbana no Guamá
O bairro do Guamá se distingue de outros territórios vulneráveis de Belém por sua condição paradoxal: é simultaneamente o bairro mais populoso da cidade, contíguo a uma das mais importantes universidades federais do país, e um dos territórios com maior concentração histórica de homicídios na capital paraense. Esse paradoxo é, em si mesmo, um dado analítico relevante: ele evidencia que a violência urbana não resulta simplesmente da ausência de capital humano ou educacional em uma comunidade, mas de dinâmicas territoriais específicas que combinam pobreza estrutural, tráfico de drogas e presença de facções criminosas em um contexto de insuficiente resposta estatal.
O estudo de Regateiro, Ramos e Souza (2021), publicado na Revista do SUSP, ao cartografar a distribuição da criminalidade nos bairros de Belém entre 2017 e 2019, posicionou o Guamá como um dos territórios de maior índice composto de criminalidade da cidade, considerando furtos, roubos, homicídios, latrocínios e lesões corporais seguidas de morte. Nesse mesmo período, os dados de tiroteios registrados pelo Instituto Fogo Cruzado para a Região Metropolitana de Belém indicavam o Guamá entre os bairros com maior frequência de disparos de arma de fogo, evidenciando a pervasividade do armamento ilegal no território (VERISURE, 2026).
O artigo de Pinto e Ribeiro (2022), publicado na Revista de Geografia da UFPE, aprofundou a análise da diferenciação socioespacial no Guamá, identificando que a violência se concentra nos espaços de maior precariedade habitacional e de menor acesso a serviços públicos, especialmente nas áreas de baixada e nos entornos dos igarapés que cortam o bairro. Os autores concluíram que a injustiça espacial, entendida como a distribuição desigual tanto da violência quanto dos recursos de proteção no território, é um componente estrutural da dinâmica do Guamá que demanda respostas integradas que articulem segurança pública, urbanismo e políticas sociais.
A Revista Observatorio de la Economía Latinoamericana publicou em 2024 um estudo específico sobre os CVLI no bairro do Guamá no período de 2017 a 2021, utilizando dados secundários da SIAC/SEGUP. O estudo confirmou que a difusão do crime organizado e das facções do narcotráfico na região é um dos fatores primordiais para os altos índices de violência letal observados no período, ao lado dos conflitos ambientais e fundiários e das mortes violentas intencionais que caracterizam o cenário de violência na Amazônia Legal (REVISTA OLEL, 2024). Esse diagnóstico é fundamental para contextualizar a intervenção do TerPaz: o bairro apresentava, antes da chegada das forças de segurança e da UsiPaz, uma combinação de fatores de risco que o tornava um dos territórios de maior letalidade violenta proporcional de Belém.
3.2. Prevenção Social da Criminalidade: Fundamentos Teóricos
A prevenção social da criminalidade, enquanto abordagem alternativa ao modelo reativo de policiamento, parte do reconhecimento de que a violência urbana possui determinantes estruturais que não podem ser eliminados exclusivamente por meio da repressão. Sherman et al. (1998) demonstraram, em revisão clássica sobre o que funciona em prevenção do crime nos Estados Unidos, que programas de desenvolvimento juvenil, de formação profissional e de fortalecimento familiar produzem reduções mensuráveis e duradouras na criminalidade, especialmente quando implementados em territórios de alta vulnerabilidade.
A teoria da eficácia coletiva, sistematizada por Sampson (2012) a partir de pesquisas realizadas em Chicago, identifica na capacidade de uma comunidade de regular o comportamento de seus membros o principal mecanismo de proteção contra a violência. Comunidades com altos índices de eficácia coletiva, caracterizadas pela coesão social, pela confiança entre vizinhos e pela disposição para agir em defesa do bem comum, apresentam taxas de violência letal sistematicamente menores do que territórios com características socioeconômicas similares mas baixa eficácia coletiva. As Usinas da Paz, ao fortalecerem as redes comunitárias por meio de atividades coletivas e ao promoverem a ocupação produtiva de espaços anteriormente dominados pela violência, atuam exatamente sobre esse mecanismo.
Weisburd (2015) demonstrou que o crime se concentra em microterritórios específicos, e que intervenções focalizadas nesses pontos quentes produzem reduções estatisticamente significativas nos índices de criminalidade sem o chamado efeito de deslocamento, segundo o qual a pressão policial em uma área simplesmente empurra o crime para áreas vizinhas. Essa perspectiva fornece a base teórica para a focalização territorial do TerPaz nos bairros de maior vulnerabilidade de Belém, incluindo o Guamá, e para a combinação de policiamento ostensivo intensificado com oferta de serviços sociais nos mesmos territórios.
Rolim (2006) argumenta que a segurança pública efetiva demanda a intersetorialidade como princípio organizador das intervenções: nenhuma agência isolada possui os recursos e as competências necessários para endereçar a complexidade multidimensional da violência urbana. O modelo das UsiPaz materializa exatamente esse princípio ao reunir em um mesmo espaço físico serviços de diferentes secretarias e órgãos do governo estadual, articulando saúde, educação, assistência social, cultura, esporte e cidadania em torno de uma estratégia territorial compartilhada.
3.3. A PMPA e o Policiamento Comunitário: Fundamentos para a Atuação no Guamá
A Polícia Militar do Estado do Pará opera no bairro do Guamá a partir de uma tensão histórica que é, ao mesmo tempo, um desafio e uma oportunidade: trata-se de um território onde a presença policial tradicional foi frequentemente associada, pela comunidade, a operações repressivas de alto impacto que, embora necessárias para o controle imediato da violência, produziam efeitos ambíguos na percepção de legitimidade institucional. A chegada do TerPaz representou uma oportunidade de redefinir essa relação, introduzindo um modelo de atuação policial mais próximo dos princípios do policiamento comunitário teorizado por Trojanowicz e Bucqueroux (1994).
Tyler (2004) demonstrou, por meio de pesquisas empíricas, que a percepção de legitimidade da polícia pelos cidadãos é determinada primordialmente pelo tratamento justo, respeitoso e imparcial que recebem dos agentes policiais, e que essa percepção é um preditor mais robusto da disposição para cooperar com as autoridades do que a mera efetividade repressiva. No Guamá, onde a desconfiança histórica em relação à polícia é um fator documentado pela pesquisa acadêmica, a combinação entre a presença ostensiva da PMPA e a oferta de serviços da UsiPaz cria condições para a construção progressiva de uma legitimidade renovada, ancorada não apenas na capacidade coercitiva da corporação, mas na sua contribuição visível e cotidiana para a melhoria da qualidade de vida dos moradores.
Skolnick e Bayley (2006) identificaram que as polícias com maiores índices de aprovação popular são também as mais eficazes na prevenção e no controle da criminalidade, porque a legitimidade amplifica a cooperação comunitária e, consequentemente, a capacidade de inteligência e de prevenção da instituição policial. No caso do Guamá, o incremento da confiança dos moradores na PMPA, documentado pelos depoimentos de moradores registrados pela imprensa local após a instalação da UsiPaz, é um indicador de que a estratégia integrada do TerPaz está produzindo esse efeito de fortalecimento da legitimidade institucional que potencializa a efetividade operacional da corporação.
4. O BAIRRO DO GUAMÁ: PERFIL, HISTÓRIA E ANTECEDENTES DO TERPAZ
4.1. Características Socioespaciais e Demográficas
O bairro do Guamá, cujo nome deriva do rio homônimo que o margeia ao sul, é o bairro mais populoso de Belém, com aproximadamente 94 mil habitantes segundo os dados preliminares do Censo IBGE 2022, distribuídos por uma área de 4,5 km² que confere ao território uma das maiores densidades populacionais da cidade. Sua localização na zona sul da capital, margeando a Avenida Bernardo Sayão e tendo como limite norte o campus da Universidade Federal do Pará, cria uma condição urbana singular: a coexistência imediata entre um território universitário de elevado capital cultural e social e um bairro popular marcado por condições precárias de habitabilidade em suas áreas de baixada.
O perfil socioeconômico do Guamá é caracterizado pela predominância de famílias de baixa renda, alta taxa de trabalho informal, presença significativa de habitações em áreas de baixada sujeitas a alagamentos sazonais e acesso historicamente restrito a serviços públicos de qualidade. A pesquisa publicada na Revista Observatorio de la Economía Latinoamericana (2024) destaca que a precarização nas condições de vida da população do Guamá, com deficiências em iluminação pública, saneamento e acesso a serviços públicos, é um dos determinantes estruturais que favorecem a instalação de dinâmicas criminais no território.
A Universidade Federal do Pará, com seu campus vizinho, exerce uma influência ambígua sobre o bairro: de um lado, gera fluxo econômico local, oferece serviços à comunidade por meio de projetos de extensão e contribui para a heterogeneidade cultural do território; de outro, a fronteira entre o campus e o entorno imediato do Guamá constitui uma das mais conhecidas zonas de tensão e criminalidade da capital, com registro histórico de assaltos, tráfico e conflitos envolvendo a comunidade universitária e moradores do bairro. A proximidade da UsiPaz Guamá com o portão da UFPA não é acidental: representa a intenção institucional de criar uma zona de cidadania e segurança exatamente nessa interface historicamente tensa.
4.2. O Histórico de Violência e o Choque Operacional do TerPaz
A trajetória de violência do Guamá no período de 2017 a 2021 é documentada com rigor acadêmico pelo estudo publicado na Revista OLEL (2024), que identifica os homicídios qualificados como a categoria de CVLI mais recorrente no bairro, seguidos das lesões corporais seguidas de morte. O estudo evidencia que o uso recorrente de armas de fogo nos crimes é uma das principais variáveis responsáveis pelo crescimento do CVLI no bairro, em consonância com a dinâmica mais ampla de proliferação de armamento ilegal nas periferias das capitais do Norte e Nordeste do Brasil.
O Guamá foi identificado pelo TerPaz como um dos bairros prioritários para a intervenção integrada desde a concepção do programa, ao lado de Cabanagem, Terra Firme, Jurunas, Condor e Bengui. A fase inicial de choque operacional no Guamá foi parte da Operação Polícia Mais Forte, implementada pela SEGUP em parceria com a PMPA, que intensificou o efetivo policial e as viaturas em circulação no bairro em horários estratégicos, a partir de 2019. Os dados da SEGUP divulgados em março de 2020 registraram que, no comparativo entre os primeiros meses de 2019 e 2020, o Guamá apresentou redução de 35% nos CVLI, demonstrando que a fase de choque operacional produzira resultados imediatos ainda antes da chegada da UsiPaz (SEGUP, 2020).
Essa trajetória de redução progressiva da criminalidade, iniciada pelo choque operacional da PMPA anos antes da inauguração da UsiPaz, é fundamental para a correta interpretação dos resultados atribuídos ao programa. A intervenção do TerPaz no Guamá foi um processo em etapas, no qual o trabalho policial ostensivo criou as condições mínimas de segurança necessárias para que, em seguida, os serviços sociais pudessem ser instalados e utilizados com segurança pela população. A Figura 1 deste artigo documenta essa trajetória de redução dos CVLI no bairro ao longo do período de 2017 a 2025.
4.3. O Papel da PMPA na Segurança do Guamá: Da Operação Ao Policiamento Cotidiano
A Polícia Militar do Estado do Pará desempenha papel estruturante e contínuo na dinâmica de segurança do Guamá em todas as fases da intervenção do TerPaz. Na fase de choque operacional, a corporação concentrou recursos humanos e materiais no território, com a presença intensificada de viaturas, o desenvolvimento de operações de desarticulação de grupos criminosos armados e a implementação do sistema de videomonitoramento com câmeras de tecnologia OCR no entorno do bairro (SEGUP, 2020). Esse conjunto de ações foi decisivo para reduzir a influência de facções criminosas no território e criar as condições de segurança necessárias para a instalação da UsiPaz.
Na fase subsequente, já com a UsiPaz em funcionamento desde janeiro de 2023, a PMPA manteve e aprofundou a presença ostensiva no bairro, integrando o policiamento de proximidade às demais ações do TerPaz. Moradores do Guamá relataram às mídias locais, com ênfase crescente a partir de 2023, a mudança percebida no padrão de policiamento do bairro. O estudante de jornalismo Alexandre Lopes, de 21 anos e residente no Guamá, declarou ao portal da PMPA em 2025: "Antes, dava uma certa hora e a gente já não podia mais ficar na rua. Hoje em dia, esse medo diminuiu. Tem uma viatura na esquina da minha casa, e vejo rondas constantes no bairro" (PMPA, 2025).
A presença da PMPA no entorno da UsiPaz Guamá cumpre uma função que vai além da repressão: ela sinaliza para a comunidade que o Estado está comprometido com a segurança do espaço público e que a frequência à UsiPaz é garantida sem riscos. Esse sinal é essencial para que a população mais vulnerável, que frequentemente evita circular no bairro após determinados horários por medo da violência, se sinta segura para acessar os serviços ofertados, incluindo os cursos noturnos e os atendimentos de saúde que acontecem em horários mais tardios.
O Comandante-Geral da PMPA, Coronel Dilson Júnior, avaliou em declaração divulgada pelo portal institucional da corporação que a redução dos crimes violentos no Pará resulta de uma combinação de fatores, incluindo o reforço do policiamento ostensivo, a adoção de tecnologias de monitoramento e a intensificação de operações integradas entre as forças de segurança estaduais e federais, somados ao empenho do governo do Estado em priorizar a segurança pública (PMPA, 2025). Essa declaração posiciona explicitamente o trabalho da PMPA como componente indispensável de um sistema integrado no qual as UsiPaz representam o pilar social.
5. RESULTADOS: A USIPAZ GUAMÁ EM DADOS
5.1. Estrutura, Serviços e Capacidade de Atendimento
A UsiPaz Guamá ocupa uma estrutura física de grande porte na Avenida Bernardo Sayão, composta por dois prédios principais de atendimento, uma quadra poliesportiva coberta, quadra de areia, piscina semi-olímpica, sala de lutas para treinamento de artes marciais e espaço multicultural para atividades artísticas e culturais (AGÊNCIA PARÁ, 2023a; SEAC, 2023). A localização na Avenida Bernardo Sayão, uma das principais vias de circulação do bairro, garante acessibilidade aos moradores provenientes de diferentes pontos do Guamá e dos bairros vizinhos.
A unidade funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 22h, aos sábados das 8h às 14h e aos domingos das 8h às 18h, com funcionamento por demanda da comunidade e das secretarias para a realização de eventos especiais. Essa cobertura horária estendida, que inclui período noturno nos dias úteis, é especialmente relevante para alcançar trabalhadores que não podem frequentar serviços durante o horário comercial, em um bairro com alta taxa de trabalho informal e de trabalhadores com jornadas irregulares.
Os serviços de saúde ofertados incluem atendimento médico em clínica geral, odontológico e psicológico; hidroginástica e outras atividades de reabilitação na piscina semi-olímpica; testes rápidos para IST, hepatite B e C, sífilis e outras doenças; vacinação; e encaminhamento para exames especializados por meio dos canais da SESPA. A moradora Edna Rodrigues, de 72 anos, relatou à imprensa no primeiro dia de funcionamento da unidade que havia se inscrito para a hidroginástica, ressaltando: "Essa Usina caiu do céu, a gente precisava demais. Moro há mais de 30 anos aqui e acredito que essa foi a melhor coisa que podíamos ter. No Guamá tem muita gente precisando, crianças, idosos, eu mesma quero trazer uma galera de idoso para vir fazer hidro comigo" (O LIBERAL, 2023).
Na área de educação e profissionalização, são ofertados cursos certificados de gastronomia, informática, robótica, idiomas, gestão empreendedora e múltiplas modalidades artísticas e culturais, incluindo balé, danças urbanas e dança contemporânea, cujas matrículas foram abertas já no segundo dia de funcionamento da unidade (O LIBERAL, 2023). A profissional de odontologia Conceição Cruz, atendendo pela UsiPaz, destacou o impacto social do serviço: "Nem todas as pessoas têm acesso a esse tipo de atendimento, porque não é barato, e é de suma importância" (O LIBERAL, 2023).
5.2. Resultados de Segurança Pública: Dados Verificados da SEGUP
Os resultados de segurança pública no bairro do Guamá após a implantação do TerPaz e a inauguração da UsiPaz são documentados por múltiplas fontes verificáveis e apresentam uma trajetória de redução consistente e expressiva nos indicadores de violência letal e de roubo, como documentado nas Figuras 2 e 3 deste artigo.
A Figura 6 apresenta o comparativo mais direto disponível: a declaração do governador Helder Barbalho por ocasião da inauguração, registrada pelo O Liberal (2023), indica que, antes da chegada do TerPaz ao Guamá, o bairro registrava 232 casos de ocorrências criminais violentas; depois da fase de choque operacional e da chegada da UsiPaz, esse número havia caído para 84, representando redução de 63,8%.
Os dados da SEASTER (2023), baseados em levantamento da SIAC/SEGUP, revelam que o comparativo entre os períodos de janeiro a agosto de 2018 e 2023 indicou para o Guamá: redução de 74% nos crimes de roubo e uma expressiva redução nos CVLI. Quando colocado em perspectiva com os demais bairros atendidos pelo TerPaz, como evidenciado na Figura 2, o Guamá apresenta reduções acima da média nacional para programas similares, ainda que ligeiramente inferiores às observadas em Bengui (redução acumulada de até 95% em 2025 vs 2018) e na Cabanagem (94%). Isso se deve em parte à maior complexidade territorial e ao maior volume populacional absoluto do Guamá, que naturalmente gera maior quantidade de ocorrências em números absolutos.
A Figura 3 detalha a redução nos crimes de roubo nos bairros contemplados pelo TerPaz, revelando que o Guamá e a Terra Firme registraram a mesma redução proporcional de 74% nesse indicador no comparativo 2018-2023, com o Centro de Marituba liderando com 86% e o Icuí-Guajará apresentando o menor resultado proporcional, de 62%.
Em 2024, os dados da SIAC, divulgados pela Agência Pará (2024a), indicaram que o Guamá registrou redução de 29% nos CVLI entre janeiro e outubro, em comparação com o mesmo período do ano anterior. Em 2025, os números avançaram ainda mais: o Portal Debate (2025) divulgou dados da SEGUP indicando redução de 42,1% nos CVLI no Guamá de janeiro a novembro de 2025 em relação ao mesmo período de 2024. A Figura 5 contextualiza essa trajetória de redução mensal no estado, cujo Guamá acompanha a tendência geral.
5.3. Atendimentos e Transformação Social
O volume de atendimentos realizados pela rede de UsiPaz em Belém evidencia o impacto coletivo do programa e permite estimar a dimensão do alcance da unidade do Guamá especificamente. Conforme reportagem da Agência Pará (2024b), as cinco Usinas da Paz em funcionamento na capital paraense, entre elas a do Guamá, garantiram coletivamente mais de 3,4 milhões de atendimentos à população desde a inauguração da primeira unidade em 2022. Com capacidade para atender 1.500 pessoas por dia, a UsiPaz Guamá — que funciona seis dias na semana em período estendido — pode atingir, em regime pleno, até 450 mil pessoas por ano, o que representaria, em dois anos, um volume de atendimentos da ordem de 700 mil a 800 mil, compatível com a estimativa apresentada na Figura 4.
A dimensão da transformação social promovida pela UsiPaz Guamá vai além dos números de atendimento e se manifesta em mudanças percebidas na vida cotidiana do bairro. O estudante Alexandre Lopes, de 21 anos, morador do Guamá, resumiu a transformação em depoimento ao portal da PMPA: afirmou que o bairro era diferente antes, com restrições de circulação após determinados horários por conta da violência, e que agora esse medo havia diminuído, com viaturas da PMPA em rondas constantes e a presença da UsiPaz como ponto de referência positivo para a comunidade (PMPA, 2025).
As atividades culturais, esportivas e de formação profissional da UsiPaz Guamá têm sido especialmente relevantes para os jovens do bairro, segmento etário historicamente mais vulnerável ao recrutamento por facções criminosas. Cursos de gastronomia com perspectiva de inserção no mercado de trabalho, oficinas de danças urbanas que canalizam energia e desenvolvem disciplina, aulas de artes marciais que constroem autoconfiança e respeito, e acesso à internet e à informática que abre janelas para oportunidades digitais são exemplos de como a UsiPaz atua preventivamente sobre os fatores que tornam os jovens vulneráveis à violência.
6. DISCUSSÃO
A análise dos dados disponíveis sobre a UsiPaz Guamá permite articular um conjunto de reflexões sobre a efetividade do modelo TerPaz, o papel específico da PMPA nesse processo e os desafios que precisam ser endereçados para a consolidação dos resultados alcançados.
Em primeiro lugar, os dados apresentados nas Figuras 1, 2, 3, 5 e 6 confirmam que o Guamá experimentou uma trajetória consistente de redução da violência letal e dos crimes de roubo ao longo do período de 2017 a 2025, com os resultados mais expressivos registrados a partir de 2022, em correspondência com a intensificação das ações do TerPaz e a inauguração da UsiPaz. A redução de 63,8% nas ocorrências registrada pelo governador no ato inaugural, os 29% de queda nos CVLI em 2024 e os 42,1% em 2025 constroem uma narrativa quantitativa coerente e sustentada por múltiplas fontes independentes, o que lhe confere maior credibilidade metodológica do que resultados baseados em fonte única.
Em segundo lugar, é fundamental reconhecer que a PMPA não é um agente auxiliar ou complementar nesse processo: é o agente de segurança primário sem o qual a estratégia do TerPaz não teria se viabilizado. O choque operacional que precedeu a instalação da UsiPaz Guamá, conduzido pela corporação em parceria com a Polícia Civil e outras forças de segurança, foi a condição sine qua non para a redução da influência de grupos armados no território e para a criação de um ambiente suficientemente seguro para que o equipamento público pudesse funcionar. Reconhecer esse papel é reconhecer que segurança e cidadania não são políticas alternativas, mas dimensões complementares de uma mesma estratégia de transformação territorial.
Em terceiro lugar, a teoria da eficácia coletiva de Sampson (2012) fornece uma chave interpretativa valiosa para a dinâmica do Guamá: ao criar espaços de convivência coletiva, ao fortalecer as redes comunitárias por meio de atividades compartilhadas e ao aumentar a disposição dos moradores para ocupar e reivindicar os espaços públicos, a UsiPaz contribui para o incremento da eficácia coletiva do bairro, que é o principal mecanismo de resiliência comunitária contra a violência a médio e longo prazo. Esse efeito, de difícil mensuração pelos indicadores quantitativos convencionais, é precisamente o que garante a sustentabilidade dos resultados para além dos períodos de intensificação do policiamento.
Em quarto lugar, é necessário reconhecer os limites metodológicos das evidências disponíveis. Os dados sobre atendimentos da UsiPaz Guamá especificamente são estimados a partir de dados agregados da rede belenense, não publicados de forma desagregada por unidade. As reduções de CVLI e roubo atribuídas ao bairro são verificadas por fontes confiáveis, mas a atribuição causal exclusiva à UsiPaz é metodologicamente problemática, dado que a intervenção do TerPaz combina policiamento, tecnologia, serviços sociais e múltiplos programas simultâneos. Avaliações de impacto com grupos de controle e mensuração de longo prazo seriam necessárias para estabelecer relações causais mais robustas.
Em quinto lugar, o perfil do Guamá como bairro mais populoso de Belém, com 94 mil habitantes, coloca em perspectiva os desafios de escala do programa. Com capacidade máxima de 1.500 atendimentos diários, a UsiPaz serve, em regime pleno, a cerca de 1,6% da população do bairro por dia, o que implica que o alcance efetivo da unidade depende criticamente da repetição das visitas pelos mesmos moradores ao longo do tempo. Esse dado sugere que a UsiPaz Guamá, para maximizar seu impacto, deveria ser complementada por políticas de saúde, educação e assistência social com alcance territorial mais amplo, capazes de atingir os setores mais remotos do bairro que não são alcançados pelo fluxo espontâneo de moradores à unidade.
7. CONCLUSÃO
A Usina da Paz do bairro do Guamá representa, em seus dois anos iniciais de funcionamento, uma experiência paradigmática de política pública integrada de cidadania e segurança pública. Os dados documentados evidenciam resultados expressivos: redução de 63,8% nas ocorrências registrada pelo governador em seu discurso inaugural, queda de 74% nos crimes de roubo no comparativo 2018-2023, redução de 29% nos CVLI em 2024 e de 42,1% em 2025, colocando o Guamá em trajetória de queda consistente depois de décadas como um dos bairros mais violentos de Belém.
O papel da Polícia Militar do Estado do Pará nesse processo é estruturante e indispensável. A PMPA não chegou ao Guamá com a inauguração da UsiPaz: chegou anos antes, com o choque operacional do TerPaz que reduziu a influência de facções criminosas e criou as condições mínimas de segurança para que os serviços sociais pudessem ser instalados. E permanece presente, com policiamento ostensivo continuado, tecnologia de monitoramento e presença de viaturas que os próprios moradores reconhecem como fator central na percepção de segurança renovada que experienciam. A PMPA é, no contexto da UsiPaz Guamá, o fiador permanente da possibilidade de uma vida mais segura para os 94 mil moradores do bairro.
A análise teórica mobilizada neste artigo, ancorada em Sampson (2012), Weisburd (2015), Sherman et al. (1998), Tyler (2004) e Rolim (2006), converge para a mesma conclusão central: a sustentabilidade dos resultados de segurança alcançados no Guamá depende da manutenção e do aprofundamento da intersetorialidade que caracteriza o TerPaz. Nem o policiamento ostensivo isolado nem os serviços sociais sem respaldo de segurança teriam produzido os resultados observados. É a combinação, articulada e persistente, dos dois pilares que define o modelo.
A agenda de aprimoramento da UsiPaz Guamá e do TerPaz passa por quatro eixos: o desenvolvimento de avaliações de impacto rigorosas que permitam isolar os efeitos específicos de cada componente da intervenção; a ampliação do alcance territorial dos serviços para além do entorno imediato da unidade, alcançando as áreas de baixada do bairro onde a vulnerabilidade é mais acentuada; o fortalecimento da participação comunitária no planejamento e na avaliação dos serviços, convertendo os moradores de beneficiários passivos em protagonistas da transformação; e a consolidação institucional do programa por meio de regulamentação e financiamento estáveis que garantam continuidade para além dos ciclos de gestão governamental.
Quando a Polícia Militar garante as ruas, a UsiPaz garante os sonhos. Quando a UsiPaz forma jovens, cria empregos e fortalece famílias, a PMPA encontra mais colaboração e menos resistência em seu trabalho cotidiano. Essa sinergia virtuosa é a mais importante lição que a experiência do Guamá oferece para o debate sobre segurança pública, cidadania e transformação social no Pará e no Brasil.
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