REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/792904330
RESUMO
A alienação parental constitui uma situação de conflito familiar que pode comprometer a convivência e os vínculos estabelecidos entre pais e filhos, produzindo repercussões emocionais e psicológicas para os envolvidos. Nesse contexto, a experiência da mãe afastada do convívio com o filho pode envolver sofrimento decorrente da ruptura ou fragilização do vínculo materno-filial, além de desafios relacionados à manutenção e à reconstrução dessa relação. Diante da relevância da temática para a Psicologia e para o campo jurídico, o presente estudo tem como objetivo analisar os impactos psicológicos vivenciados por mães em situações de afastamento ou ruptura do vínculo materno-filial associadas à alienação parental, bem como identificar, na literatura científica, estratégias de intervenção e possibilidades de reconstrução desse vínculo. Para alcançar esse objetivo, foi realizada uma revisão bibliográfica, de abordagem qualitativa, com levantamento e análise de produções científicas relacionadas à alienação parental, aos genitores-alvo, aos impactos psicológicos e à reconstrução dos vínculos familiares, priorizando publicações dos últimos cinco anos. A análise permitiu identificar repercussões emocionais, relacionais e sociais associadas à experiência de afastamento, além da importância de estratégias de comunicação, acompanhamento psicológico e processos graduais de reconstrução do vínculo. Conclui-se que a experiência da mãe afastada do filho deve ser compreendida considerando as particularidades de cada contexto familiar e que a atuação psicológica pode contribuir para a escuta, a compreensão do sofrimento e a construção de possibilidades de cuidado e reconstrução do vínculo materno-filial.
Palavras-chave: Alienação parental; Estratégias de intervenção; Maternidade; Psicologia jurídica; Vínculo materno-filial.
ABSTRACT
Parental alienation is a situation of family conflict that may compromise the coexistence and bonds established between parents and children, producing emotional and psychological repercussions for those involved. In this context, the experience of a mother separated from her child may involve suffering resulting from the rupture or weakening of the maternal-filial bond, as well as challenges related to maintaining and rebuilding this relationship. Given the relevance of this issue to Psychology and the legal field, this study aims to analyze the psychological impacts experienced by mothers in situations of separation or rupture of the maternal-filial bond associated with parental alienation, as well as to identify intervention strategies and possibilities for rebuilding this bond in the scientific literature. To achieve this objective, a qualitative literature review was conducted, based on the collection and analysis of scientific publications related to parental alienation, targeted parents, psychological impacts, and the reconstruction of family bonds, prioritizing publications from the last five years. The analysis identified emotional, relational, and social repercussions associated with experiences of separation, as well as the importance of communication strategies, psychological support, and gradual processes of bond reconstruction. It is concluded that the experience of a mother separated from her child should be understood in light of the particularities of each family context and that psychological practice may contribute to listening, understanding suffering, and developing care and intervention possibilities aimed at rebuilding the maternal-filial bond.
Keywords: Intervention strategies; Legal psychology; Maternal-filial bond; Motherhood; Parental alienation.
1. INTRODUÇÃO
A família constitui um importante espaço de construção de vínculos afetivos e de desenvolvimento das relações entre seus integrantes. Entretanto, em contextos marcados por separações conjugais conflituosas, as relações entre pais e filhos podem sofrer alterações significativas, especialmente quando os conflitos existentes entre os adultos passam a interferir na convivência familiar. Nesse cenário, a alienação parental tem sido discutida tanto no campo jurídico quanto na Psicologia, em razão da complexidade das relações envolvidas e das possíveis repercussões psicológicas e familiares decorrentes dessas situações (Martins et al., 2022; Benvegnú; Detoni; Saldanha, 2022).
Entre as diferentes experiências relacionadas à alienação parental, destaca-se neste estudo a situação da mãe que vivencia o afastamento ou a fragilização da convivência com o filho. A literatura científica utiliza frequentemente a expressão genitor-alvo para se referir ao pai ou à mãe que relata ser alvo de comportamentos de alienação parental. Estudos realizados com esses genitores apontam repercussões relacionadas ao bem-estar emocional, às relações familiares e sociais e às estratégias desenvolvidas para enfrentar o afastamento dos filhos (Tavares; Crespo; Ribeiro, 2021). Dessa forma, embora nem todas as pesquisas disponíveis sejam direcionadas exclusivamente às mães, seus resultados contribuem para a compreensão dos aspectos psicológicos envolvidos nesse tipo de experiência.
A escolha do tema justifica-se pela necessidade de ampliar a compreensão acerca do sofrimento psicológico relacionado ao afastamento materno-filial e das possibilidades de reconstrução desse vínculo. Além disso, trata-se de uma temática relevante para a Psicologia Jurídica, considerando que conflitos familiares dessa natureza podem chegar ao sistema de Justiça e demandar avaliação e intervenção de diferentes profissionais. A literatura brasileira destaca a importância de compreender essas situações de maneira contextualizada, evitando interpretações simplificadoras e a redução de conflitos familiares complexos a explicações exclusivamente individuais ou patológicas (Martins et al., 2022; Dourado Rocha, 2023).
A ruptura ou o enfraquecimento do vínculo entre mãe e filho pode envolver diferentes repercussões emocionais e relacionais. Tavares, Crespo e Ribeiro (2021), ao investigarem as experiências de genitores-alvo no contexto da alienação parental, identificaram impactos sobre o bem-estar dos participantes, alterações nas relações familiares e sociais e diferentes estratégias de enfrentamento. Esses resultados demonstram a importância de investigar não apenas o afastamento em si, mas também a maneira como essa experiência repercute na vida do genitor afastado e nas possibilidades de manutenção ou reconstrução da relação com o filho.
Ao mesmo tempo, a reconstrução dos vínculos familiares apresenta-se como um processo complexo. Matthewson et al. (2023), ao analisarem experiências de reunificação a partir das perspectivas de filhos adultos e genitores-alvo, identificaram aspectos relacionados à comunicação, à terapia e a outros fatores envolvidos na retomada das relações. Os resultados indicam que a reconstrução do vínculo pode ocorrer gradualmente e apresentar diferentes movimentos ao longo do tempo, o que reforça a necessidade de considerar as particularidades de cada família.
Diante dessas questões, estabelece-se como problema de pesquisa: quais são os principais impactos psicológicos vivenciados por mães em situações de afastamento ou ruptura do vínculo materno-filial associadas à alienação parental e quais estratégias podem contribuir para a reconstrução desse vínculo?
O presente estudo tem como objetivo geral analisar os impactos psicológicos vivenciados por mães em situações de afastamento ou ruptura do vínculo materno-filial associadas à alienação parental, bem como identificar estratégias e possibilidades de reconstrução desse vínculo. Como objetivos específicos, pretende-se compreender os aspectos psicológicos relacionados à experiência do afastamento; identificar repercussões emocionais e relacionais associadas à ruptura da convivência materno-filial; discutir a contribuição da Psicologia diante dessas situações; e analisar estratégias de intervenção e possibilidades de reconstrução do vínculo entre mãe e filho.
Quanto aos procedimentos metodológicos, o estudo caracteriza-se como uma revisão bibliográfica, de abordagem qualitativa, desenvolvida a partir da análise de produções científicas relacionadas à alienação parental, aos genitores-alvo, aos impactos psicológicos decorrentes do afastamento e à reconstrução dos vínculos familiares. Foram priorizadas produções científicas publicadas nos últimos cinco anos, buscando reunir estudos recentes e pertinentes aos objetivos propostos.
Como limitação, considera-se que parte da produção científica disponível aborda a experiência dos genitores-alvo de maneira geral, não apresentando resultados exclusivamente referentes às mães afastadas dos filhos. Por esse motivo, os achados provenientes desses estudos foram analisados respeitando a população investigada por cada pesquisa, evitando atribuir especificamente às mães resultados obtidos com diferentes configurações parentais.
Para melhor organização, o artigo foi estruturado inicialmente com a discussão da alienação parental e da ruptura dos vínculos familiares, seguida pela análise dos impactos psicológicos relacionados ao afastamento materno-filial. Posteriormente, foram discutidas a atuação da Psicologia e as estratégias apresentadas pela literatura para a reconstrução do vínculo entre mãe e filho, permitindo, ao final, uma análise integrada dos estudos consultados.
2. ALIENAÇÃO PARENTAL E RECONSTRUÇÃO DO VÍNCULO MATERNO-FILIAL
2.1. Alienação Parental e Conflitos Familiares
A alienação parental precisa ser compreendida dentro de um contexto familiar marcado por conflitos, principalmente quando a separação dos pais não é acompanhada por uma reorganização saudável da convivência com os filhos. Nesses casos, o conflito entre os adultos pode ultrapassar a relação conjugal e atingir a relação parental. Martins et al. (2022), em revisão sistemática sobre os aspectos psicológicos e jurídicos envolvidos na alienação parental, destacam que o fenômeno é estudado a partir de diferentes dimensões e que as respostas jurídicas, por si só, não dão conta de toda a complexidade psicológica presente nesses conflitos.
É importante, portanto, evitar uma leitura simplificada do problema. Nem todo conflito familiar ou toda resistência de uma criança ao contato com um dos pais pode ser automaticamente compreendido como alienação parental. A análise precisa considerar a história da família, as relações anteriores, possíveis situações de violência, as condições da separação e as experiências da própria criança. A produção científica recente também demonstra que o tema envolve debates conceituais e metodológicos, sendo necessário cuidado na avaliação de cada caso (Harman; Maniotes; Grubb, 2021).
Outro aspecto importante é a presença de relações de poder dentro da família. Harman, Maniotes e Grubb (2021) discutem que a dinâmica de poder pode interferir na forma como os conflitos são vivenciados e como os integrantes da família conseguem se posicionar diante deles. Isso mostra que a ruptura do vínculo não deve ser analisada somente como um problema individual da mãe, do pai ou do filho, mas como parte de uma dinâmica relacional mais ampla.
Quando a convivência entre mãe e filho é prejudicada de forma prolongada, podem surgir sentimentos de perda, impotência, insegurança e frustração. Tavares, Crespo e Ribeiro (2021) identificaram, em relatos de genitores-alvo, experiências relacionadas ao sofrimento emocional, às dificuldades nas relações familiares e sociais e à necessidade de desenvolver formas de enfrentamento. Esses resultados ajudam a compreender por que o afastamento pode ser vivido como uma experiência de grande impacto na vida do genitor que perde ou tem reduzida a convivência com o filho.
2.2. A Experiência da Mãe Afastada e os Impactos Psicológicos
Neste trabalho, o foco está na mãe que vivencia o afastamento ou a fragilização do vínculo com o filho. É necessário deixar claro que parte das pesquisas encontradas trabalha com a categoria mais ampla de genitor-alvo. Por isso, os resultados desses estudos são utilizados como apoio para a discussão, sem afirmar que todas as experiências descritas acontecem da mesma forma com todas as mães.
A experiência do afastamento pode atingir diferentes áreas da vida. Tavares, Crespo e Ribeiro (2021) observaram que os genitores-alvo relatam mudanças no bem-estar, nas relações familiares e sociais e na maneira como enfrentam a situação. O sofrimento pode estar relacionado não apenas à ausência física do filho, mas também à sensação de perda de um papel que antes fazia parte da rotina. Para uma mãe, essa mudança pode ser acompanhada por dúvidas sobre sua própria atuação, preocupação com o filho e dificuldade para encontrar maneiras de manter algum tipo de contato.
Os resultados de estudos recentes também mostram que os efeitos podem permanecer por períodos prolongados. Matthewson et al. (2023), ao investigarem experiências de reunificação entre filhos adultos e genitores-alvo, encontraram relatos de processos que levaram anos e, em alguns casos, décadas. Os participantes descreveram períodos de aproximação e afastamento, demonstrando que a reconstrução da relação não acontece necessariamente de maneira rápida ou linear.
Outro ponto que merece atenção é o desgaste provocado pelos conflitos judiciais e familiares. No estudo de Matthewson et al. (2023), os genitores-alvo relataram que as disputas e tentativas de reconstrução da relação poderiam produzir consequências emocionais e financeiras importantes. Alguns participantes também relataram dificuldades de saúde e de organização da própria vida durante esse processo. Esses dados ajudam a compreender que o sofrimento relacionado ao afastamento pode ser acompanhado por outras perdas e dificuldades.
Em uma perspectiva mais ampla, Hine et al. (2025), ao investigarem comportamentos de alienação parental entre pais separados no Reino Unido, analisaram sua relação com saúde mental e outras formas de abuso. O estudo reforça a necessidade de observar os comportamentos e o contexto em que eles aparecem, principalmente porque a situação pode estar relacionada a outras formas de conflito e violência familiar. Dessa maneira, a avaliação psicológica precisa ser cuidadosa e não pode partir de uma única explicação antes de conhecer a história da família.
2.3. O Vínculo Materno-Filial e as Consequências do Afastamento
O vínculo entre mãe e filho é construído ao longo do tempo por meio da convivência, da comunicação, do cuidado e das experiências compartilhadas. Quando essa relação é interrompida ou enfraquecida, não se perde apenas a convivência cotidiana. Também podem ser afetados os momentos de troca, as referências familiares e a possibilidade de acompanhar diferentes etapas do desenvolvimento do filho.
Harman, Matthewson e Baker (2022) discutem as perdas vivenciadas por crianças que são afastadas de um dos pais e mostram que essas perdas podem envolver não apenas a relação com o próprio genitor, mas também outras relações e formas de apoio social. Embora o estudo tenha como foco principal a experiência das crianças, seus resultados são relevantes para este trabalho porque mostram que a ruptura de um vínculo parental pode produzir efeitos que ultrapassam a relação entre duas pessoas.
Miralles, Godoy e Hidalgo (2023), em uma revisão sistemática sobre as consequências emocionais de longo prazo da exposição à alienação parental, identificaram associações com dificuldades emocionais e relacionais na vida adulta. Entre os aspectos descritos estão sentimentos de perda e abandono, dificuldades nos relacionamentos e problemas relacionados à autoestima e ao apego. Esses resultados não significam que todos os indivíduos submetidos a esse tipo de experiência terão as mesmas consequências, mas demonstram a importância de considerar os possíveis efeitos prolongados das rupturas familiares.
Para a mãe afastada, a fragilização do vínculo também pode provocar uma sensação de interrupção da própria história familiar. A mulher pode continuar exercendo internamente o papel materno, mesmo quando a convivência concreta foi reduzida. Por isso, a escuta psicológica precisa considerar tanto aquilo que aconteceu objetivamente quanto a maneira como a mãe atribui significado à perda da convivência e às possibilidades de retomada da relação.
Outro cuidado necessário é não transformar a mãe em responsável individual por toda a reconstrução do vínculo. O relacionamento entre mãe e filho depende de diferentes fatores, incluindo a idade do filho, o contexto familiar, a disponibilidade dos envolvidos, as decisões judiciais quando existentes e as condições emocionais de cada pessoa. A literatura sobre reunificação aponta que a retomada da relação é um processo que exige tempo, comunicação e disponibilidade de ambas as partes (Matthewson et al., 2023).
2.4. A Atuação da Psicologia Jurídica
A Psicologia Jurídica ocupa um espaço importante em situações de conflito familiar porque pode contribuir para a compreensão dos aspectos psicológicos presentes nos processos judiciais. A atuação profissional, entretanto, não deve se limitar a confirmar a versão de uma das partes. É necessário avaliar o contexto familiar, ouvir os envolvidos e considerar diferentes hipóteses para compreender como o conflito se desenvolveu.
Martins et al. (2022) apontam que a existência de instrumentos jurídicos não é suficiente para resolver todos os aspectos psicológicos envolvidos na alienação parental. A revisão realizada pelos autores destaca a utilização de alternativas de resolução de conflitos e a necessidade de intervenções que considerem as dimensões psicológicas e relacionais. Nesse sentido, a Psicologia pode contribuir para além da elaboração de documentos, oferecendo espaço de escuta e avaliação técnica.
Em casos que envolvem alegações de alienação parental, a avaliação psicológica precisa ser realizada com responsabilidade. É fundamental diferenciar situações de interferência na relação parental de casos em que o afastamento pode estar relacionado a experiências de violência, medo, negligência ou outras razões concretas. Uma interpretação precipitada pode aumentar o conflito e produzir novos danos nas relações familiares. Quadra (2024), em revisão sistemática sobre a perícia psicológica e a identificação de aspectos psicológicos e sociais relacionados à alienação parental, reforça a necessidade de uma análise técnica que considere os diferentes elementos presentes no caso.
Birnbaum e Bala (2025), ao estudarem as experiências de profissionais jurídicos e de saúde mental em casos envolvendo alegações de alienação parental em Ontário, demonstraram que esses casos apresentam dificuldades para diferentes profissionais. Os autores destacam a complexidade dos problemas de contato entre pais e filhos e a necessidade de conhecimento especializado para lidar com essas situações.
Assim, a atuação da Psicologia Jurídica deve buscar uma postura técnica, ética e cuidadosa. No caso da mãe afastada, isso significa reconhecer seu sofrimento sem transformar esse sofrimento, sozinho, em prova de uma determinada dinâmica familiar. A avaliação deve considerar documentos, entrevistas, história familiar e demais informações disponíveis, sempre respeitando os limites técnicos da profissão.
2.5. Estratégias para Reconstrução do Vínculo Materno-Filial
A reconstrução do vínculo materno-filial é uma das questões centrais deste trabalho. Os estudos recentes indicam que a reunificação não deve ser entendida como um acontecimento imediato, mas como um processo que pode apresentar avanços, recuos e diferentes ritmos. Matthewson et al. (2023) observaram que os participantes descreviam a reunificação como um processo demorado, no qual a comunicação e a terapia apareciam como elementos importantes.
Uma primeira estratégia é favorecer formas de comunicação que não aumentem o conflito. Mensagens, cartas, contatos graduais e outras formas de aproximação podem ser utilizadas de acordo com as condições específicas de cada família. O objetivo não deve ser pressionar o filho a escolher um lado, mas criar possibilidades para que a relação possa ser retomada de maneira segura e respeitosa.
Outra estratégia é o acompanhamento psicológico. Matthewson et al. (2023) identificaram que alguns genitores buscaram aconselhamento e apoio especializado durante o processo de reunificação. O acompanhamento pode ajudar a mãe a compreender seus próprios sentimentos, desenvolver estratégias de enfrentamento e lidar com possíveis frustrações durante a retomada da convivência.
O apoio da família e da rede social também pode ser relevante. No estudo de Matthewson et al. (2023), os genitores relataram que conversar com outras pessoas que haviam vivido experiências semelhantes, participar de grupos de apoio e receber auxílio emocional e prático ajudava no processo. Isso demonstra que a mãe não precisa enfrentar a situação de maneira isolada.
Também é necessário respeitar o tempo e as condições do filho. A reconstrução do vínculo não pode ser baseada somente na vontade do adulto. O estudo de Matthewson et al. (2023) mostrou que a reunificação pode ser conduzida pelo próprio filho e que a relação pode passar por períodos de aproximação e afastamento. Portanto, estratégias muito rígidas podem não produzir o resultado esperado.
Em situações nas quais existem alegações de violência ou outros fatores de risco, a reconstrução do vínculo precisa ser analisada com ainda mais cuidado. Não se trata de defender a retomada da convivência a qualquer custo, mas de avaliar quais condições são necessárias para que qualquer aproximação ocorra de maneira segura. Esse ponto é fundamental para uma atuação psicológica responsável.
3. CONSIDERAÇÕES E RESULTADOS
A presente revisão bibliográfica teve como objetivo analisar os impactos psicológicos vivenciados por mães em situações de afastamento ou ruptura do vínculo materno-filial associadas à alienação parental, bem como identificar estratégias de intervenção e possibilidades de reconstrução desse vínculo. A análise realizada permitiu compreender que o afastamento parental pode estar acompanhado de repercussões emocionais e relacionais importantes, especialmente quando a convivência entre mãe e filho é interrompida ou fragilizada.
Os resultados indicaram que a experiência dos genitores afastados pode envolver sofrimento emocional, alterações nas relações familiares e sociais e necessidade de desenvolvimento de estratégias de enfrentamento. No caso das mães, esses aspectos precisam ser compreendidos considerando a particularidade de cada história familiar. A literatura analisada também mostrou que os efeitos dos conflitos podem ultrapassar o momento da separação e permanecer relacionados às experiências familiares ao longo do tempo.
Em relação à reconstrução do vínculo, verificou-se que não existe uma estratégia única que possa ser aplicada a todas as famílias. A comunicação, o acompanhamento psicológico, o apoio da rede social e a retomada gradual da convivência aparecem como possibilidades que precisam ser avaliadas de acordo com as condições de cada caso. A reconstrução deve respeitar o tempo dos envolvidos e não pode ser tratada apenas como uma determinação de retorno à convivência anterior.
Quanto à atuação da Psicologia Jurídica, os resultados reforçam a necessidade de uma prática técnica, ética e contextualizada. O profissional precisa considerar diferentes informações sobre a família, evitar conclusões precipitadas e reconhecer que conflitos de contato entre pais e filhos podem envolver fatores distintos. Dessa forma, o sofrimento apresentado pela mãe deve ser acolhido, mas não pode ser analisado de maneira isolada das demais relações familiares.
O problema de pesquisa pode ser respondido, portanto, pela compreensão de que mães afastadas dos filhos em contextos associados à alienação parental podem vivenciar repercussões emocionais e relacionais significativas, enquanto a reconstrução do vínculo depende de processos graduais e individualizados. A Psicologia pode contribuir para a escuta, avaliação e construção de estratégias de cuidado, considerando tanto a experiência materna quanto as necessidades e condições dos demais envolvidos.
Como limitação, destaca-se que parte dos estudos analisados investiga genitores-alvo de maneira geral ou concentra-se na experiência de filhos e adolescentes. Assim, ainda existe necessidade de ampliar pesquisas especificamente voltadas às mães que vivenciam o afastamento dos filhos. Novos estudos poderão aprofundar essa experiência e contribuir para a construção de intervenções mais específicas e adequadas à realidade dessas famílias.
Conclui-se que a dor vivenciada pela mãe diante do afastamento do filho precisa ser compreendida dentro da complexidade das relações familiares. A reconstrução do vínculo materno-filial não deve ser tratada como um processo automático, mas como uma possibilidade que depende das condições concretas, emocionais e relacionais de cada situação. Nesse cenário, a Psicologia pode exercer papel importante na compreensão do sofrimento e na construção de caminhos de cuidado que favoreçam relações familiares mais seguras e respeitosas.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BENVEGNÚ, S. C.; DETONI, P. P.; SALDANHA, O. M. de F. L. Estudos da psicologia em situações de alienação parental: uma revisão sistemática. Psi Unisc, v. 6, n. 1, p. 125-140, 2022. DOI: 10.17058/psiunisc.v6i1.14831.
BIRNBAUM, R.; BALA, N. “Parental alienation” cases: experiences of Ontario legal and mental health professionals. Family Court Review, v. 63, n. 3, p. 491-515, 2025. DOI: 10.1111/fcre.70001.
HARMAN, J. J.; MANIOTES, C. R.; GRUBB, C. Power dynamics in families affected by parental alienation. Personal Relationships, v. 28, n. 4, p. 883-906, 2021. DOI: 10.1111/pere.12392.
HARMAN, J. J.; MATTHEWSON, M. L.; BAKER, A. J. L. Losses experienced by children alienated from a parent. Current Opinion in Psychology, v. 43, p. 7-12, 2022. DOI: 10.1016/j.copsyc.2021.05.002.
HINE, B.; HARMAN, J.; LEDER-ELDER, S.; BATES, E. A. Examining the prevalence and impact of parental alienating behaviors (PABs) in separated parents in the United Kingdom. Journal of Family Violence, 2025. DOI: 10.1007/s10896-025-00910-4.
MARTINS, P. B.; LIMA, Q. H. S.; SÁ, P. A. R.; VASCONCELOS, T. T. de. Aspectos psicológicos e jurídicos envolvidos na alienação parental: uma revisão sistemática. Revista de Psicologia, v. 13, n. 2, p. 26-40, 2022. DOI: 10.36517/10.36517/revpsiufc.13.2.2022.2.
MATTHEWSON, M. L.; BOWRING, J.; HICKEY, J.; WARD, S.; DIERCKE, P.; VAN NIEKERK, L. A qualitative exploration of reunification post alienation from the perspective of adult alienated children and targeted parents. Frontiers in Psychology, v. 14, 1189840, 2023. DOI: 10.3389/fpsyg.2023.1189840.
MIRALLES, P.; GODOY, C.; HIDALGO, M. D. Long-term emotional consequences of parental alienation exposure in children of divorced parents: a systematic review. Current Psychology, v. 42, p. 12055-12069, 2023. DOI: 10.1007/s12144-021-02537-2.
QUADRA, F. Perícia psicológica e a identificação de aspectos psicológicos e sociais da alienação parental: uma revisão sistemática da literatura. Revista Latino-Americana de Estudos Científicos, v. 5, n. 26, 2024. DOI: 10.55470/relaec.45147.
TAVARES, A.; CRESPO, C.; RIBEIRO, M. T. What does it mean to be a targeted parent? Parents’ experiences in the context of parental alienation. Journal of Child and Family Studies, v. 30, p. 1370-1380, 2021. DOI: 10.1007/s10826-021-01914-6.
1 Acadêmica do Curso de Psicologia da Faculdade de Educação Santa Terezinha – FEST, Imperatriz-MA. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Professora Especialista do Curso de Psicologia da Faculdade de Educação Santa Terezinha – FEST, Imperatriz-MA. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail