A CULTURA DA MAGREZA NAS REDES SOCIAIS: POSSÍVEIS REPERCUSSÕES PARA O SOFRIMENTO PSÍQUICO EM MULHERES

THINNESS CULTURE ON SOCIAL MEDIA: POSSIBLE REPERCUSSIONS FOR PSYCHOLOGICAL DISTRESS IN WOMEN

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/793687577

RESUMO
A cultura da magreza corresponde à valorização de corpos magros como referência de beleza e aparência ideal, influenciando a maneira como as mulheres percebem e avaliam seus próprios corpos. Nas redes sociais, a exposição frequente a conteúdos relacionados à aparência e a padrões corporais idealizados pode favorecer a comparação social, a insatisfação corporal e o sofrimento psíquico. Nesse contexto, este estudo teve como objetivo analisar as relações entre a cultura da magreza difundida nas redes sociais, a imagem corporal, a autoestima e a subjetividade das mulheres, considerando suas possíveis repercussões para o sofrimento psicológico e os comportamentos alimentares. Especificamente, buscou-se compreender a construção histórica e sociocultural dos padrões de beleza e da valorização da magreza; analisar as relações entre a exposição a padrões corporais idealizados, a comparação social e a percepção da imagem corporal; e identificar possíveis repercussões desse fenômeno para o sofrimento psíquico e os comportamentos relacionados ao controle do corpo. Trata-se de uma pesquisa bibliográfica, de abordagem qualitativa e caráter exploratório e descritivo, fundamentada em revisão narrativa da literatura científica, com consulta a livros, artigos científicos, dissertações e outras produções acadêmicas. Os resultados indicaram que a valorização de padrões corporais idealizados está associada à pressão para adequação a determinados modelos de aparência. A literatura também apontou relações entre a exposição a conteúdos sobre corpo e aparência, a comparação social, a insatisfação corporal, a baixa autoestima e o sofrimento psicológico. Em relação aos comportamentos alimentares e aos transtornos alimentares, foram identificadas associações entre pressão estética, preocupação com o peso e práticas de controle corporal, sem que os achados permitam estabelecer uma relação causal direta. Conclui-se que a cultura da magreza, quando difundida e reforçada nas redes sociais, constitui um fenômeno relevante para compreender a insatisfação corporal, a relação das mulheres com a própria aparência e manifestações de sofrimento psicológico.
Palavras-chave: Autoestima; Cultura da magreza; Imagem corpora; Redes sociais; Sofrimento psicológico.

ABSTRACT
The culture of thinness refers to the valorization of thin bodies as a standard of beauty and ideal appearance, influencing how women perceive and evaluate their own bodies. On social media, frequent exposure to appearance-related content and idealized body standards may encourage social comparison, body dissatisfaction, and psychological distress. In this context, this study aimed to analyze the relationships between the culture of thinness disseminated on social media, body image, self-esteem, and women's subjectivity, considering its possible implications for psychological distress and eating disorders. Specifically, it sought to understand the historical and sociocultural construction of beauty standards and the valorization of thinness; analyze the relationships between exposure to idealized body standards, social comparison, and body image perception; and identify the possible implications of this phenomenon for psychological distress and behaviors related to body control. This study employed a qualitative bibliographic research design with an exploratory and descriptive approach, based on a narrative review of the scientific literature, drawing on books, scientific articles, dissertations, and other academic publications. The findings indicated that the valorization of idealized body standards is associated with pressure to conform to specific appearance ideals. The literature also identified relationships between exposure to body- and appearance-related content, social comparison, body dissatisfaction, low self-esteem, and psychological distress. Regarding eating behaviors and eating disorders, associations were identified between aesthetic pressure, weight-related concerns, and body control practices, although the findings do not allow a direct causal relationship to be established. It is concluded that the culture of thinness, when disseminated and reinforced on social media, constitutes a relevant phenomenon for understanding body dissatisfaction, women's relationships with their own appearance, and manifestations of psychological distress.
Keywords: Body image; Psychological distress; Social media; Self-esteem; Thinness culture.

1. INTRODUÇÃO

A cultura da magreza está relacionada à valorização de corpos magros como referência de beleza, saúde e aceitação social. Na contemporaneidade, esse ideal é amplamente difundido nas redes sociais, que favorecem a circulação de imagens, discursos e conteúdos relacionados à aparência e aos padrões corporais. A exposição frequente a modelos idealizados pode favorecer a comparação social e a busca por adequação a determinados padrões de beleza. Nesse contexto, a preocupação com o peso e a forma corporal pode estar associada à insatisfação com a própria aparência e à adoção de práticas voltadas ao controle e à modificação do corpo, como dietas restritivas, além de possíveis repercussões na autoestima e no bem-estar psicológico.

A discussão desse fenômeno é especialmente relevante no contexto da experiência feminina, considerando a permanência de exigências sociais relacionadas à aparência das mulheres. A circulação de imagens de corpos e estilos de vida apresentados como referências de beleza, saúde e sucesso pode intensificar a avaliação da própria aparência e influenciar a construção da imagem corporal. Nesse processo, a percepção que as mulheres desenvolvem sobre seus corpos pode ser atravessada por padrões socialmente valorizados e por expectativas de adequação a esses modelos. Compreender essas relações permite discutir de que maneira a cultura da magreza se insere na experiência feminina e pode estar associada a manifestações de sofrimento psíquico.

A relevância deste estudo consiste em aprofundar a compreensão das relações entre a valorização da magreza, a exposição a padrões corporais idealizados nas redes sociais e o sofrimento psíquico em mulheres. A literatura científica possibilita discutir aspectos envolvidos nesse fenômeno, como a comparação social, a insatisfação corporal e os comportamentos direcionados ao controle do corpo. A análise dessas dimensões pode contribuir para a compreensão da pressão estética e de suas possíveis repercussões psicológicas, considerando as influências sociais e culturais que participam da construção da relação com a própria aparência.

Diante desse contexto, o estudo parte do seguinte problema de pesquisa: quais relações são apontadas pela literatura entre a cultura da magreza difundida nas redes sociais e o sofrimento psíquico em mulheres? O objetivo geral consiste em analisar, a partir da literatura, as relações entre a cultura da magreza difundida nas redes sociais, a imagem corporal e o sofrimento psíquico em mulheres. Como objetivos específicos, busca-se compreender a construção histórica e sociocultural dos padrões de beleza e da valorização da magreza; analisar as relações entre a exposição a padrões corporais idealizados nas redes sociais, a comparação social e a imagem corporal; e identificar possíveis repercussões da cultura da magreza para o sofrimento psíquico e para os comportamentos relacionados ao controle do corpo.

Para alcançar esses objetivos, realizou-se uma pesquisa bibliográfica, de abordagem qualitativa e caráter exploratório e descritivo, fundamentada em uma revisão narrativa da literatura científica. Foram consultados livros, artigos científicos, dissertações e outras produções acadêmicas relacionadas à cultura da magreza, aos padrões de beleza, às redes sociais, à imagem corporal e ao sofrimento psíquico em mulheres. A revisão possibilitou reunir e discutir contribuições científicas sobre as relações entre a valorização de padrões corporais idealizados, a percepção da própria imagem e as experiências de sofrimento psíquico.

Entre as limitações do estudo, destaca-se seu caráter bibliográfico, que não contempla pesquisa de campo nem coleta direta de dados com mulheres. Desse modo, as discussões se restringem às evidências identificadas na literatura consultada, não permitindo estabelecer relações causais diretas entre a exposição aos padrões corporais difundidos nas redes sociais e o sofrimento psíquico. Além disso, as experiências relacionadas à aparência e à percepção do próprio corpo envolvem diferentes aspectos individuais, sociais e culturais, que devem ser considerados na interpretação dos achados da literatura.

Diante disso, o artigo busca contribuir para a compreensão das relações entre a cultura da magreza difundida nas redes sociais, a imagem corporal e o sofrimento psíquico em mulheres. Ao discutir essas relações, pretende-se favorecer uma reflexão sobre a pressão estética e os efeitos potenciais da valorização de padrões corporais idealizados na experiência feminina, bem como sobre a importância de considerar as influências socioculturais na elaboração de estratégias de apoio e intervenções psicossociais voltadas a essa temática.

2. CULTURA DA MAGREZA, REDES SOCIAIS E SOFRIMENTO PSÍQUICO FEMININO

2.1. Contexto Histórico e Sociocultural dos Padrões de Beleza

Os padrões de beleza sofreram transformações ao longo da história, acompanhando mudanças sociais, culturais e econômicas. A valorização de determinadas características corporais esteve relacionada aos significados atribuídos ao corpo em cada contexto. Enquanto em determinados períodos corpos com maior volume eram associados à beleza e à condição social, em outros a magreza passou a ocupar posição de destaque entre os atributos desejáveis. Essa transformação evidencia o caráter histórico e sociocultural dos padrões de beleza, construídos e modificados de acordo com os valores predominantes em cada sociedade (Costa et al., 2015; Goetz; Camargo, 2014; Polli et al., 2018).

A relação entre corpo, valores sociais e padrões de beleza pode ser observada desde o início da Idade Moderna, quando práticas relacionadas à alimentação e à aparência passaram a adquirir significados associados à disciplina e à moralidade. O jejum, por exemplo, era incentivado em determinados contextos religiosos e podia ser relacionado à elevação espiritual, enquanto corpos considerados volumosos passaram a ser representados negativamente em diferentes manifestações culturais (Vigarello, 2012). Assim, a aparência ultrapassava a dimensão estética e também expressava características consideradas moralmente desejáveis, envolvendo práticas de controle e adequação do corpo aos valores de cada época.

Essa busca por adequação também se manifestou por meio de práticas de modelagem corporal. A utilização de recursos como os espartilhos demonstra como a aparência feminina foi submetida a mecanismos de controle e transformação, utilizados para modificar a silhueta e destacar determinadas formas corporais (Moreno, 2008). Dessa maneira, a modelagem do corpo integrou um processo histórico no qual a aparência feminina passou a ser constantemente avaliada e ajustada, evidenciando que a valorização de determinados corpos também envolve práticas que orientam como eles devem ser apresentados socialmente.

Essa lógica de adequação ganhou novas características ao longo do século XX, período em que a magreza feminina passou a ocupar espaço cada vez mais significativo nos padrões de beleza. As mudanças nas referências corporais foram acompanhadas pelo aumento da preocupação com o peso e as medidas, especialmente no contexto norte-americano, no qual a magreza passou progressivamente a ser apresentada como característica desejável da aparência feminina (Stearns, 2002). Esse processo esteve relacionado às transformações culturais e à expansão dos meios de comunicação, que ampliaram a circulação de modelos de aparência.

Nesse processo, moda, publicidade, cosméticos e cinema passaram a desempenhar papel importante na difusão de padrões corporais. A indústria cultural ampliou a exposição a imagens que apresentavam determinadas formas corporais como referências de beleza e associavam a aparência a práticas de cuidado, disciplina e controle. Após a Segunda Guerra Mundial, a publicidade passou também a aproximar os cuidados com o corpo de discursos relacionados à saúde, ao controle do peso e ao aperfeiçoamento da aparência (Giddens, 1997 apud de Castro Costa, 2004).

A valorização da magreza continuou a assumir diferentes formas nas décadas seguintes, acompanhando as transformações da indústria cultural e das tendências estéticas. Na década de 1990, por exemplo, a tendência denominada heroin chic difundiu uma representação marcada pela extrema magreza e por uma aparência fragilizada, especialmente no universo da moda. Essa estética demonstra que o ideal de magreza não permaneceu estático, mas foi continuamente ressignificado de acordo com as tendências culturais e os modelos de aparência difundidos em cada período (Smith et al., 2023).

Nesse contexto, o corpo passou a ser cada vez mais compreendido como algo que pode ser modificado, aperfeiçoado e apresentado de acordo com padrões socialmente valorizados. A expansão de produtos, serviços e práticas direcionados à transformação corporal reforçou a relação entre corpo, consumo e aparência, contribuindo para a manutenção de expectativas relacionadas à adequação estética (Santos, 2008). Desse modo, as formas de controle e modelagem corporal assumiram diferentes configurações ao longo do tempo, permanecendo relacionadas à necessidade de adequação aos valores sociais. A consolidação da magreza como importante referência estética na contemporaneidade resulta, portanto, de um processo histórico e cultural de construção e legitimação de determinados modelos corporais.

2.2. Redes Sociais, Pressão Estética e Transtornos Alimentares

Na contemporaneidade, as redes sociais ampliaram a circulação de imagens e discursos relacionados à aparência, contribuindo para a disseminação de padrões corporais idealizados. A exposição frequente a esses conteúdos pode favorecer processos de comparação social e insatisfação com a própria imagem. Watanabe e Wichoski (2022) apontam que a pressão midiática pela adequação a um corpo considerado ideal pode estimular a busca pela redução de peso, enquanto Mallaram et al. (2023) relacionam esse contexto a repercussões sobre a autoestima, o bem-estar emocional e a saúde mental.

A maneira como esses padrões são apresentados nas redes sociais pode reforçar a associação entre magreza, beleza, saúde e aceitação social. Lima e Silva (2021), ao analisarem postagens do Instagram relacionadas a um perfil feminino voltado ao estilo de vida fitness e a outro perfil de uma mulher plus size, observaram que, embora existam conteúdos voltados à valorização da diversidade corporal, ainda permanecem representações que associam o corpo magro e definido a determinados ideais de saúde e beleza.

A exposição frequente a esses modelos pode favorecer sua internalização e intensificar a comparação social. Fagundes et al. (2020) apontam que a comparação com padrões considerados socialmente desejáveis pode estar relacionada à insatisfação corporal e à percepção de inadequação. A valorização de corpos magros e de uma aparência padronizada pode, portanto, contribuir para a construção de um modelo de beleza rígido, no qual os corpos são avaliados conforme sua aproximação ou distância do padrão socialmente valorizado (Alves; Lazzarini, 2020; Silva; Neves; Japur, 2018).

A percepção de inadequação pode intensificar a pressão estética e favorecer a busca por aprovação e validação nas redes sociais. Segundo Moreno (2008), é válido pontuar que curtidas, comentários e outras avaliações externas podem influenciar a maneira como as mulheres percebem sua aparência e reforçar a preocupação com a forma como o corpo é apresentado socialmente. Como consequência, essa preocupação pode estar relacionada à maior vigilância e ao controle do próprio corpo, por meio de práticas como dietas restritivas, exercícios físicos excessivos e outras estratégias de modificação corporal (Mallaram et al., 2023).

A intensificação da preocupação com o peso, a alimentação e a imagem corporal permite ainda discutir os transtornos alimentares. Nesse sentido, esses transtornos são caracterizados por alterações no comportamento alimentar e podem produzir prejuízos físicos e psicológicos significativos. Embora os aspectos socioculturais relacionados ao corpo e à aparência possam participar desse contexto, esses quadros envolvem diferentes fatores e não devem ser compreendidos exclusivamente a partir dos padrões de beleza (Associação Americana de Psiquiatria, 1994; Ribeiro, 2016; Claudino, 2002).

Entre os transtornos alimentares, a bulimia nervosa envolve episódios de compulsão alimentar acompanhados por comportamentos compensatórios, enquanto a anorexia nervosa caracteriza-se pela restrição alimentar, medo de ganhar peso e alterações na percepção corporal (Borges et al., 2006; Cordás; Claudino, 2004; Andrade; Bossi, 2003). Ambos podem envolver preocupações com o peso, a alimentação e a imagem corporal, embora apresentem diferentes fatores em seu desenvolvimento e não possam ser atribuídos exclusivamente aos padrões estéticos (Wright, 2010; Coras; Araújo, 2011; Associação Americana de Psiquiatria, 1994).

Considerando esses aspectos, a cultura da magreza e a pressão estética podem estar relacionadas à maneira como as mulheres percebem e controlam seus corpos, incluindo experiências de insatisfação corporal e sofrimento psicológico. Entretanto, essas influências não explicam isoladamente o desenvolvimento dos transtornos alimentares, que envolvem diferentes fatores e apresentam características clínicas específicas (American Psychiatric Association, 2023). A discussão sobre a cultura da magreza permite, assim, compreender o contexto social e psicológico no qual preocupações com a aparência, o peso e o controle corporal podem se manifestar.

2.3. Cultura da Magreza e Possíveis Repercussões para o Sofrimento Psíquico Feminino

A supervalorização da magreza como ideal de beleza, amplamente reforçada pelas redes sociais, tem contribuído para a construção de padrões estéticos muitas vezes inalcançáveis. A exposição frequente a conteúdos que associam o corpo considerado ideal à beleza, à saúde, ao sucesso e à aceitação social pode influenciar a maneira como as mulheres percebem a própria aparência. Nesse contexto, a pressão para corresponder a esses padrões pode favorecer sentimentos de inadequação e insatisfação com o próprio corpo, repercutindo na forma como as mulheres se relacionam consigo mesmas (Easton et al., 2018; He; Yang, 2022; Mallaram et al., 2023).

Lira et al. (2017) destacam que, na era digital, a mídia pode assumir um papel de referência diante das inquietações e insatisfações relacionadas à aparência. Diante disso, a exposição a imagens de corpos idealizados pode favorecer a internalização desses padrões, fazendo com que sejam incorporados como referências para a avaliação do próprio corpo. Quando a aparência real é percebida como distante do modelo valorizado socialmente, podem surgir sentimentos de inadequação e frustração.

A internalização dos padrões estéticos pode estar relacionada à comparação social, uma vez que as redes sociais ampliam o contato com diferentes representações de aparência. Silva (2021) destaca que essas referências participam da construção da autoimagem, influenciando a maneira como o indivíduo avalia o próprio corpo. Essa perspectiva se aproxima das considerações de Paula et al. (2023), que apontam possíveis relações entre a comparação social, a baixa autoestima e as alterações na percepção da própria imagem. Consequentemente, a comparação com padrões estéticos idealizados pode contribuir para a insatisfação corporal, especialmente quando a aparência individual é percebida como distante das referências socialmente valorizadas.

Lemes DCM et al. (2018) apontam que a valorização de determinados ideais de beleza pode estar relacionada à adoção de práticas voltadas ao controle e à transformação da aparência, especialmente entre as mulheres. Desse modo, é necessário pontuar que a busca pela adequação corporal pode envolver investimentos em mudanças físicas, associados à percepção de que é necessário aproximar-se de um padrão considerado socialmente desejável. Consequentemente, os padrões estéticos podem ultrapassar a maneira como o corpo é percebido e também se relacionar às práticas utilizadas para modificá-lo.

A busca pela adequação aos padrões estéticos pode ainda favorecer uma relação de vigilância permanente com o próprio corpo. Medeiros (2022) ressalta que a objetificação corporal contribui para que a aparência seja constantemente observada e avaliada a partir de referências estéticas idealizadas. Dessa forma, o corpo pode passar a ser percebido como algo que precisa ser controlado, corrigido e aprimorado continuamente, favorecendo a autocrítica e a preocupação excessiva com a aparência.

Frota et al. (2023) apontam que a busca por aprovação nas redes sociais pode tornar o indivíduo mais suscetível às avaliações externas relacionadas à aparência. Sob essa perspectiva, é importante pontuar que as curtidas, os comentários e outras formas de interação podem ser percebidos como indicadores de aprovação ou rejeição da imagem apresentada, fazendo com que a aparência adquira um papel relevante na busca por validação social. Paralelamente, críticas e julgamentos relacionados ao corpo podem estar associados à autoestima e à percepção que o indivíduo constrói de si.

O Transtorno Dismórfico Corporal (TDC), também denominado dismorfia corporal, caracteriza-se por uma preocupação excessiva com defeitos ou falhas percebidos na aparência física, que geralmente são pouco perceptíveis ou inexistentes para outras pessoas. De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR), o TDC integra a categoria dos transtornos obsessivo-compulsivos e relacionados, sendo caracterizado pela preocupação com um ou mais defeitos percebidos na aparência, acompanhada de comportamentos repetitivos ou atos mentais em resposta a essa preocupação (American Psychiatric Association, 2023).

Sob essa ótica, é válido salientar que os impactos do TDC não se restringem à preocupação com a aparência. Conforme o DSM-5-TR (2022), o transtorno pode produzir sofrimento clinicamente significativo e prejuízos no funcionamento social, ocupacional ou em outras áreas da vida. Entre as manifestações associadas ao quadro, destacam-se ansiedade, humor deprimido, baixa autoestima, perfeccionismo e esquiva de situações sociais, especialmente quando o indivíduo teme ser observado ou julgado em razão de sua aparência.

Além dos prejuízos diretamente relacionados à preocupação com a aparência, o TDC pode apresentar associação com outros quadros psiquiátricos. Entre eles estão o Transtorno Obsessivo-Compulsivo, transtornos de ansiedade, transtorno depressivo maior e transtorno de ansiedade social. Dessa forma, a avaliação clínica deve considerar a intensidade das preocupações relacionadas à aparência, os comportamentos associados e os prejuízos provocados na vida do indivíduo, possibilitando diferenciar a preocupação comum com a aparência de manifestações que produzem sofrimento clinicamente significativo (Bonfim et al., 2016 apud Mufaddel et al., 2013; Moriyama; Amaral, 2007).

3. CONSIDERAÇÕES E RESULTADOS

A análise da literatura permitiu compreender que a cultura da magreza ultrapassa a valorização de um padrão estético, envolvendo expectativas sociais que podem influenciar a maneira como as mulheres percebem e avaliam seus próprios corpos. Os estudos analisados apontam possíveis relações entre a exposição a padrões corporais idealizados, especialmente nas redes sociais, e processos como a comparação social, a insatisfação corporal e a preocupação com a aparência.

Sob esse panorama, a literatura analisada também aponta possíveis relações entre esses processos e aspectos como a autoestima, a subjetividade e o sofrimento psicológico, envolvendo sentimentos de inadequação, angústia e insatisfação com a própria aparência. Os estudos ainda indicam que a busca pela adequação aos padrões de magreza pode estar relacionada a práticas de controle e modificação corporal, como dietas restritivas, que, na literatura, aparecem associadas a comportamentos alimentares disfuncionais e a transtornos alimentares. Entretanto, os estudos ressaltam que esses transtornos envolvem múltiplos fatores e, portanto, não devem ser compreendidos como consequência exclusiva da cultura da magreza ou das redes sociais.

Dessa forma, a compreensão conjunta dos aspectos identificados na literatura permite considerar que a cultura da magreza pode estar relacionada a diferentes experiências de sofrimento psicológico entre mulheres, especialmente quando associada à comparação social, à insatisfação corporal e à vigilância da própria aparência. Os estudos também apontam que as redes sociais podem ampliar a circulação de conteúdos que associam determinados padrões corporais à beleza, à saúde e à aceitação social. Assim, a análise permite compreender esse fenômeno para além da dimensão estética, considerando suas possíveis relações com a autoestima, a subjetividade e o bem-estar psicológico, sem estabelecer uma relação causal direta entre a cultura da magreza, as redes sociais e o adoecimento psicológico.

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1 Acadêmica do Curso de Psicologia da Faculdade de Educação Santa Terezinha-FEST, Imperatriz, MA. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Professora Especialista do Curso de Psicologia da Faculdade de Educação Santa Terezinha-FEST, Imperatriz, MA. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail