A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE NO TRANSTORNO DE PERSONALIDADE BORDERLINE: IMPLICAÇÕES PSICOLÓGICAS NA AUTOIMAGEM E NO COMPORTAMENTO

THE CONSTRUCTION OF IDENTITY IN BORDERLINE PERSONALITY DISORDER: PSYCHOLOGICAL IMPLICATIONS FOR SELF-IMAGE AND BEHAVIOR

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/793921139

RESUMO
O Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) é caracterizado por dificuldades relacionadas à regulação emocional, à autoimagem, aos relacionamentos interpessoais e aos padrões comportamentais. Entre os aspectos centrais do transtorno, destaca-se a instabilidade da identidade, que pode repercutir na forma como o indivíduo percebe a si mesmo, estabelece vínculos e responde às situações emocionais. Nesse contexto, o presente estudo tem como objetivo analisar, a partir da perspectiva psicodinâmica, a construção da identidade em indivíduos com Transtorno de Personalidade Borderline, compreendendo suas implicações psicológicas na autoimagem e no comportamento. Trata-se de uma pesquisa de abordagem qualitativa, de caráter exploratório e descritivo, desenvolvida por meio de revisão bibliográfica, com buscas realizadas nas bases SciELO, PePSIC e Google Scholar. Foram consideradas produções científicas relacionadas ao TPB, à identidade, à autoimagem, ao comportamento, ao sofrimento psíquico e às intervenções psicológicas, priorizando materiais que possibilitassem o diálogo com a perspectiva psicodinâmica. A análise da literatura permitiu compreender que a fragilidade da identidade pode estar relacionada a sentimentos de vazio, medo de abandono, instabilidade emocional, dificuldades interpessoais e comportamentos impulsivos. Conclui-se que a perspectiva psicodinâmica contribui para uma compreensão mais ampla do funcionamento psíquico relacionado ao TPB, considerando a complexidade da experiência subjetiva e favorecendo uma abordagem clínica que não reduza o indivíduo às manifestações do transtorno.
Palavras-chave: Autoimagem; Comportamento; Identidade; Perspectiva psicodinâmica; Transtorno de personalidade borderline.

ABSTRACT
Borderline Personality Disorder (BPD) is characterized by difficulties related to emotional regulation, self-image, interpersonal relationships, and behavioral patterns. One of the central features of the disorder is identity instability, which may affect how individuals perceive themselves, establish relationships, and respond to emotional situations. In this context, this study aims to analyze the construction of identity in individuals with Borderline Personality Disorder from a psychodynamic perspective, examining its psychological implications for self-image and behavior. This is a qualitative, exploratory, and descriptive study conducted through a literature review, with searches carried out in the SciELO, PePSIC, and Google Scholar databases. Scientific publications addressing BPD, identity, self-image, behavior, psychological distress, and psychological interventions were considered, with priority given to materials that allowed discussion from a psychodynamic perspective. The literature analysis indicated that identity fragility may be associated with feelings of emptiness, fear of abandonment, emotional instability, interpersonal difficulties, and impulsive behaviors. It is concluded that the psychodynamic perspective contributes to a broader understanding of the psychological functioning associated with BPD, taking into account the complexity of subjective experience and supporting a clinical approach that does not reduce individuals to the manifestations of the disorder.
Keywords: Behavior; Borderline personality disorder; Identity; Self-image; Psychodynamic perspective.

1. INTRODUÇÃO

O Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) ocupa um lugar relevante nas discussões da Psicologia Clínica por envolver diferentes dimensões do funcionamento psicológico, como a regulação emocional, a percepção de si, os relacionamentos interpessoais e o controle dos impulsos. Nesse contexto, a instabilidade da autoimagem e as dificuldades na organização da identidade podem estar relacionadas ao sofrimento psíquico vivenciado por pessoas com esse transtorno (American Psychiatric Association, 2022; Leichsenring et al., 2024).

A compreensão do TPB torna-se mais ampla quando a identidade é considerada um elemento importante da organização da vida psíquica. A dificuldade em manter uma percepção relativamente estável de si pode repercutir na maneira como o indivíduo reconhece seus desejos, compreende suas experiências e estabelece relações. A literatura científica destaca a difusão da identidade como um aspecto relevante para compreender manifestações relacionadas à autoimagem, aos vínculos interpessoais e ao sofrimento psíquico (Kaufman; Meddaoui, 2021; Rivnyák et al., 2021).

Nessa perspectiva, a autoimagem não deve ser compreendida de maneira isolada, pois está relacionada à forma como o indivíduo organiza as representações que possui sobre si mesmo e sobre os outros. Quando essa organização apresenta fragilidades, podem ocorrer percepções instáveis ou contraditórias acerca da própria identidade, acompanhadas de sentimentos de vazio, vergonha, medo de abandono e dificuldades nos relacionamentos. Assim, investigar a construção da identidade permite compreender essas manifestações para além de comportamentos isolados, considerando os aspectos emocionais e relacionais envolvidos.

A perspectiva psicodinâmica oferece um recorte importante para essa discussão ao considerar a identidade e a organização do self como elementos relacionados ao funcionamento psíquico. Nessa perspectiva, os comportamentos apresentados pelo indivíduo podem ser compreendidos para além de sua manifestação imediata, considerando os processos envolvidos na constituição da identidade, nas representações de si e do outro e na dinâmica dos relacionamentos. Assim, o foco deste estudo não está apenas na descrição dos critérios diagnósticos do TPB, mas principalmente na compreensão da identidade enquanto eixo organizador das experiências psicológicas relacionadas ao transtorno (Kernberg, 1967).

A relevância do tema também está associada à necessidade de uma compreensão clínica que não reduza as pessoas com TPB a comportamentos ou características frequentemente relacionados ao transtorno. A interpretação descontextualizada de manifestações como impulsividade, instabilidade emocional e dificuldades interpessoais pode favorecer compreensões simplificadas e estigmatizantes. Por isso, investigar os processos psicológicos relacionados à identidade pode contribuir para uma compreensão mais cuidadosa do sofrimento dessas pessoas e para um manejo clínico sensível às suas necessidades.

Além disso, a instabilidade identitária pode repercutir na maneira como o indivíduo interpreta suas relações, reage ao medo de abandono e lida com situações de frustração. Nesse cenário, comportamentos impulsivos e oscilações emocionais precisam ser compreendidos em articulação com a organização da identidade e com as experiências emocionais e relacionais, evitando interpretações que considerem apenas suas manifestações imediatas.

Diante disso, o presente estudo busca responder à seguinte questão: como a perspectiva psicodinâmica compreende a construção da identidade em indivíduos com Transtorno de Personalidade Borderline e quais são suas implicações psicológicas na autoimagem e no comportamento?

O objetivo geral é analisar, a partir da perspectiva psicodinâmica, a construção da identidade em indivíduos com Transtorno de Personalidade Borderline, compreendendo suas implicações psicológicas na autoimagem e no comportamento. Como objetivos específicos, busca-se caracterizar o TPB com base em referenciais diagnósticos e científicos; examinar a relação entre difusão da identidade, fragilidade do self, representações de si e do outro e manifestações psicológicas; e discutir as implicações dessa compreensão para o contexto clínico e para as intervenções psicológicas.

Para alcançar esses objetivos, foi desenvolvida uma pesquisa de abordagem qualitativa, de caráter exploratório e descritivo, por meio de revisão bibliográfica. Foram considerados materiais científicos relacionados ao TPB, à identidade, à autoimagem, ao comportamento, aos fatores associados ao sofrimento psíquico e às intervenções psicológicas, priorizando produções que possibilitassem diálogo com a perspectiva psicodinâmica. A análise foi organizada em torno da caracterização do transtorno, da construção da identidade e da organização do self, das repercussões comportamentais e interpessoais e das possibilidades deintervenção psicológica.

A pesquisa apresenta como limitação o fato de se basear em revisão bibliográfica, sem coleta direta de dados com pessoas diagnosticadas com TPB. Desse modo, as discussões estão fundamentadas na literatura selecionada e não permitem generalizações baseadas em experiências individuais investigadas diretamente. Espera-se que o estudo contribua para ampliar a compreensão da relação entre identidade, autoimagem e comportamento no TPB, além de favorecer reflexões para pesquisas futuras e para a prática clínica.

2. TRANSTORNO DE PERSONALIDADE BORDERLINE E A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE

2.1. Transtorno de Personalidade Borderline e Aspectos Relacionados à Identidade

O Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) é caracterizado por um padrão de instabilidade que pode envolver as relações interpessoais, a autoimagem, os afetos e o controle dos impulsos. O DSM-5-TR descreve manifestações associadas ao transtorno, como medo intenso de abandono, relacionamentos instáveis, alterações na percepção de si, impulsividade, instabilidade afetiva, sentimento crônico de vazio, raiva intensa e comportamentos autolesivos ou suicidas em parte dos casos (American Psychiatric Association, 2022).

Entretanto, a compreensão do transtorno não deve se limitar à identificação de sintomas. A organização da personalidade e o funcionamento do self também são aspectos importantes para compreender como essas manifestações se relacionam. Nesse sentido, a Classificação Internacional de Doenças considera dimensões relacionadas ao funcionamento da personalidade, incluindo a identidade, a autonomia e a capacidade de estabelecer relações interpessoais (World Health Organization, 2024).

A literatura analisada destaca que características relacionadas ao TPB também podem ser identificadas em adolescentes e jovens, desde que o processo de avaliação considere o desenvolvimento e evite tanto a rotulação precipitada quanto a desconsideração do sofrimento apresentado. A identificação dessas características pode possibilitar intervenções precoces, psicoeducação e acompanhamento adequado quando existem prejuízos importantes nas relações afetivas, familiares ou escolares (Chanen et al., 2020).

Outro aspecto importante diz respeito à experiência subjetiva. Pessoas com TPB podem apresentar dificuldades para manter uma percepção relativamente estável de si mesmas, acompanhadas de mudanças na maneira como reconhecem seus objetivos, valores e desejos. Essas dificuldades podem estar relacionadas à necessidade de validação externa e à insegurança quanto ao próprio valor pessoal (Kaufman; Meddaoui, 2021; Mungo et al., 2024).

Dessa forma, a identidade ocupa uma posição central na compreensão do TPB, pois permite relacionar a autoimagem, as emoções, os comportamentos e os vínculos interpessoais. A perspectiva psicodinâmica contribui para essa discussão ao possibilitar uma análise da organização do self e da integração das representações de si e dos outros, ampliando a compreensão das experiências subjetivas associadas ao transtorno (Kernberg, 1967).

2.2. Construção da Identidade, Autoimagem e Difusão do Self no TPB

A identidade pode ser compreendida como uma organização relativamente contínua de percepções, afetos, memórias, valores e projetos que permite ao indivíduo reconhecer certa continuidade em sua própria história. Essa estabilidade não significa ausência de mudanças, mas a possibilidade de modificar desejos, valores e escolhas sem perder completamente a percepção de continuidade pessoal (Faggioli; Esposito; Stanghellini, 2024).

No Transtorno de Personalidade Borderline, essa continuidade pode apresentar fragilidades. O indivíduo pode vivenciar mudanças significativas na forma como percebe a si mesmo, especialmente diante de determinadas circunstâncias e relações interpessoais. Essas oscilações podem dificultar a manutenção de uma representação integrada e relativamente estável da própria identidade (Faggioli; Esposito; Stanghellini, 2024; Mungo et al., 2024).

Nesse contexto, a difusão da identidade constitui um conceito importante para compreender as dificuldades de integração das representações de si e dos outros. Essa dificuldade pode fazer com que aspectos positivos e negativos de uma mesma pessoa ou experiência sejam percebidos de maneira pouco integrada, favorecendo avaliações extremas e contraditórias. Assim, alguém que inicialmente é percebido como fonte de segurança pode passar a ser visto como rejeitador ou ameaçador após uma experiência de frustração (Rivnyák et al., 2021).

Essas dificuldades também podem repercutir na autoimagem. A percepção que o indivíduo possui de si mesmo pode oscilar entre sentimentos de valorização e desvalorização, pertencimento e rejeição, autonomia e dependência. Dessa forma, a instabilidade identitária pode influenciar não apenas a maneira como a pessoa se reconhece, mas também seus sentimentos, suas escolhas e seus comportamentos (Kaufman; Meddaoui, 2021; Mungo et al., 2024).

A autoimagem, portanto, precisa ser compreendida em relação à organização mais ampla da identidade. Quando o indivíduo encontra dificuldades para sustentar uma percepção coerente de si, a avaliação que faz de seu próprio valor pode tornar-se excessivamente dependente das circunstâncias e da confirmação de outras pessoas. Essa condição pode estar associada a sentimentos de vazio, insegurança e sofrimento emocional (Kaufman; Meddaoui, 2021; Mungo et al., 2024).

A perspectiva psicodinâmica permite compreender esse processo para além da descrição dos sintomas. O interesse está em compreender como diferentes representações de si e dos outros são organizadas e integradas e como essa organização influencia a maneira de estabelecer relações e interpretar experiências emocionais. Assim, a fragilidade identitária passa a ser compreendida como um elemento que atravessa diferentes manifestações do TPB (Kernberg, 1967).

A construção da identidade também envolve o reconhecimento de desejos, valores e objetivos pessoais. Quando a percepção de si é instável, escolhas e projetos podem sofrer alterações conforme as circunstâncias e as relações vivenciadas. Isso pode contribuir para a sensação de não saber exatamente quem se é ou o que se deseja, aumentando a dependência de referências externas para orientar decisões e avaliar o próprio valor (Faggioli; Esposito; Stanghellini, 2024; Mungo et al., 2024).

Dessa maneira, a relação entre identidade e autoimagem permite compreender que as manifestações do TPB não devem ser analisadas como fenômenos isolados. As dificuldades relacionadas à percepção de si, à integração de experiências contraditórias e à compreensão dos outros podem estar articuladas ao sofrimento emocional e às formas de agir e estabelecer vínculos (Kaufman; Meddaoui, 2021; Rivnyák et al., 2021).

2.3. Instabilidade Identitária e Suas Implicações no Comportamento e nas Relações Interpessoais

A instabilidade identitária pode repercutir no comportamento e nas relações interpessoais de pessoas com Transtorno de Personalidade Borderline (TPB). As relações podem ser marcadas por uma necessidade intensa de proximidade, medo de abandono e mudanças na forma de perceber as outras pessoas. Essa dinâmica pode contribuir para vínculos instáveis, nos quais momentos de aproximação são seguidos por afastamentos e conflitos (American Psychiatric Association, 2022).

Uma das manifestações relacionadas a esse funcionamento é a alternância entre idealização e desvalorização. Quando existe dificuldade para integrar aspectos positivos e negativos de uma mesma pessoa, situações de frustração podem provocar mudanças significativas na percepção do vínculo. Assim, alguém anteriormente considerado fonte de segurança pode passar a ser percebido como rejeitador ou ameaçador, intensificando o sofrimento emocional e os conflitos interpessoais (Rivnyák et al., 2021).

Essas experiências também podem influenciar a maneira como o indivíduo reage a situações frustrantes. Quando acontecimentos são interpretados como sinais de rejeição ou abandono, podem ocorrer respostas emocionais intensas e comportamentos impulsivos. Nesse sentido, as dificuldades de regulação emocional e de controle dos impulsos constituem aspectos importantes para compreender algumas manifestações comportamentais associadas ao TPB (Storebø et al., 2020; Stoffers-Winterling et al., 2022).

A relação entre identidade e comportamento também pode ser observada na dificuldade de sustentar escolhas, desejos e objetivos pessoais. Quando a percepção de si sofre influência excessiva das circunstâncias ou das relações estabelecidas, o indivíduo pode encontrar dificuldades para reconhecer suas próprias preferências e diferenciá-las das expectativas de outras pessoas. Essa instabilidade pode comprometer a continuidade dos projetos pessoais e aumentar a insegurança diante das decisões (Faggioli; Esposito; Stanghellini, 2024; Mungo et al., 2024).

Além disso, a dificuldade de regular emoções intensas pode favorecer reações imediatas diante de situações interpessoais, aumentando a possibilidade de conflitos e rupturas. Pequenos sinais de afastamento, por exemplo, podem ser interpretados como evidências de rejeição ou abandono, contribuindo para respostas emocionais desproporcionais à situação percebida. Dessa forma, os vínculos interpessoais podem se tornar contextos nos quais as dificuldades relacionadas à identidade e à autoimagem são intensificadas (American Psychiatric Association, 2022; Rivnyák et al., 2021).

Sob a perspectiva psicodinâmica, essas manifestações podem ser compreendidas considerando a maneira como o indivíduo organiza suas representações de si e dos outros e estabelece seus vínculos afetivos. Assim, determinados comportamentos e conflitos relacionais não devem ser analisados isoladamente, mas em articulação com as dificuldades de integração da identidade e de regulação emocional. Essa compreensão contribui para uma leitura mais ampla do sofrimento psíquico associado ao TPB.

2.4. Fatores Associados Ao Sofrimento Psíquico e às Relações Interpessoais

O desenvolvimento do Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) é compreendido a partir de uma perspectiva multifatorial, que considera a interação entre aspectos genéticos, neurobiológicos, temperamentais, familiares e ambientais. Dessa forma, não é adequado atribuir o desenvolvimento do transtorno a uma única experiência ou estabelecer uma relação direta e determinista entre determinados acontecimentos e suas manifestações (Bozzatello et al., 2021b; Leichsenring et al., 2024).

Entre os fatores discutidos na literatura estão as experiências de negligência, trauma, invalidação emocional e instabilidade nas relações. Esses elementos podem estar associados a dificuldades de regulação emocional e de construção de vínculos seguros, embora sua presença não determine, isoladamente, o desenvolvimento do transtorno. Por isso, é importante considerar a história de cada indivíduo e a interação entre diferentes fatores (Bozzatello et al., 2021a, 2021b).

As experiências traumáticas precoces também são discutidas em relação à desregulação emocional, à vigilância diante de possíveis situações de abandono e às dificuldades na construção de vínculos seguros (Bozzatello et al., 2021b). Essas experiências podem influenciar a maneira como acontecimentos presentes são interpretados, especialmente em situações de conflito, frustração ou afastamento. Como consequência, algumas pessoas podem apresentar maior desconfiança, medo de serem feridas e insegurança diante da possibilidade de perder relações significativas (Bozzatello et al., 2021b; Leichsenring et al., 2024).

Outro aspecto relevante é o sentimento crônico de vazio, que pode envolver uma sensação de falta de sentido e dificuldade para manter uma percepção contínua e estável de si. Essa experiência está relacionada à discussão sobre identidade, pois pode acompanhar dificuldades para reconhecer referências internas que orientem a percepção de si mesmo, os valores e os objetivos pessoais (Leichsenring et al., 2024; Faggioli; Esposito; Stanghellini, 2024).

As relações interpessoais também ocupam um lugar importante na compreensão do sofrimento psíquico associado ao TPB. A necessidade intensa de proximidade pode coexistir com dificuldades para lidar com frustrações, conflitos e afastamentos, favorecendo relações marcadas por aproximações e rupturas. Nesse contexto, a maneira como o indivíduo percebe a si mesmo pode influenciar sua interpretação das atitudes dos outros, enquanto as experiências relacionais também podem repercutir na autoimagem e na sensação de segurança pessoal (American Psychiatric Association, 2022; Leichsenring et al., 2024).

Sob a perspectiva psicodinâmica, esses aspectos podem ser compreendidos considerando a relação entre as experiências vividas, as representações internas e a construção dos vínculos. O sofrimento relacionado ao TPB, portanto, não deve ser analisado de forma fragmentada, uma vez que sentimentos de vazio, medo de abandono, instabilidade emocional e dificuldades relacionais podem estar interligados às dificuldades de integração da identidade. Essa compreensão favorece uma análise mais ampla da experiência psicológica, sem reduzir o indivíduo ao diagnóstico ou à sua história de vida (Leichsenring et al., 2024; Faggioli; Esposito; Stanghellini, 2024).

2.5. Intervenções Psicológicas e Possibilidades de Manejo Clínico

A compreensão da identidade no Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) possui implicações importantes para a intervenção psicológica. O tratamento não deve se limitar à redução dos comportamentos observáveis, mas também considerar os processos relacionados ao sofrimento psíquico, à regulação emocional, às dificuldades interpessoais e à organização da identidade (Leichsenring et al., 2024).

As intervenções psicoterapêuticas estruturadas podem contribuir para a redução dos sintomas e para a melhora do funcionamento de pessoas com TPB (Leichsenring et al., 2024; Stoffers-Winterling et al., 2022). Nesse contexto, o acompanhamento psicológico pode oferecer um espaço para compreender as emoções, reconhecer padrões de comportamento e desenvolver maneiras mais adaptativas de lidar com as experiências pessoais e relacionais.

Na perspectiva psicodinâmica, o trabalho clínico pode considerar a organização do self, as representações de si e dos outros e os padrões relacionais que emergem durante o processo terapêutico. A relação entre paciente e terapeuta pode favorecer a identificação desses padrões e a compreensão de experiências contraditórias, contribuindo para uma percepção mais integrada de si e dos vínculos estabelecidos (Leichsenring et al., 2024).

O manejo clínico também precisa considerar as manifestações relacionadas à impulsividade e às dificuldades de regulação emocional. Em vez de observar apenas o comportamento apresentado, é importante compreender as emoções e as situações interpessoais que podem estar relacionadas a essas respostas. Essa perspectiva permite reconhecer o sofrimento do indivíduo e abordar suas dificuldades sem recorrer a interpretações exclusivamente punitivas ou moralizantes (Storebø et al., 2020; Stoffers-Winterling et al., 2022).

A literatura apresenta diferentes modalidades psicoterapêuticas utilizadas no tratamento do TPB, entre elas a terapia comportamental dialética, a terapia baseada em mentalização, a psicoterapia focada na transferência e a terapia do esquema. Os estudos citados no presente trabalho discutem benefícios associados a diferentes intervenções, sem estabelecer evidências consistentes de superioridade de uma única abordagem sobre as demais (Leichsenring et al., 2024; Stoffers-Winterling et al., 2022).

Nesse contexto, a perspectiva psicodinâmica adotada neste estudo constitui um recorte para compreender a identidade como um aspecto importante do funcionamento psíquico, sem desconsiderar as contribuições de outras abordagens. Essa compreensão permite analisar como as dificuldades relacionadas à autoimagem, aos vínculos e ao comportamento podem estar associadas à maneira como o indivíduo organiza sua experiência de si (Leichsenring et al., 2024).

O trabalho terapêutico voltado à identidade pode favorecer a construção de uma percepção mais integrada de si mesmo, considerando diferentes aspectos da experiência individual, inclusive aqueles percebidos como contraditórios. A possibilidade de reconhecer e integrar essas experiências pode contribuir para uma relação mais estável consigo mesmo e com os outros (Leichsenring et al., 2024).

Dessa forma, as intervenções psicológicas precisam considerar tanto as manifestações imediatas quanto os processos relacionados ao sofrimento psíquico. A compreensão da identidade, da autoimagem e da regulação emocional contribui para uma análise mais abrangente das dificuldades interpessoais e comportamentais associadas ao TPB, enquanto os resultados das intervenções devem ser compreendidos à luz das evidências apresentadas pela literatura científica (Leichsenring et al., 2024; Stoffers-Winterling et al., 2022; Storebø et al., 2020).

3. CONSIDERAÇÕES E RESULTADOS

A partir da revisão bibliográfica realizada, foi possível compreender a relevância da construção da identidade para a discussão do Transtorno de Personalidade Borderline (TPB), considerando suas possíveis implicações na autoimagem, no comportamento e nas relações interpessoais. A literatura analisada aponta que a instabilidade identitária pode estar relacionada a dificuldades na manutenção de uma percepção relativamente estável de si, bem como a oscilações na forma como o indivíduo percebe a si mesmo e aos outros.

Também foi possível observar que essas dificuldades podem repercutir no comportamento e nos vínculos interpessoais, estando associadas a desafios na regulação emocional, à impulsividade e às oscilações na percepção das relações. Dessa forma, o comportamento não deve ser compreendido de maneira isolada, mas em articulação com as experiências emocionais, a autoimagem e os padrões de relacionamento.

A perspectiva psicodinâmica contribui para essa compreensão ao considerar os processos subjetivos envolvidos na constituição da identidade e na organização das representações de si e dos outros. Essa abordagem amplia a análise do TPB para além dos sintomas observáveis, favorecendo uma compreensão mais abrangente do sofrimento psíquico e das dificuldades vivenciadas nas relações interpessoais.

Outro resultado importante refere-se à natureza multifatorial do transtorno. Experiências de trauma, negligência, invalidação emocional e dificuldades relacionais podem estar associadas ao sofrimento psíquico, mas não devem ser consideradas causas únicas ou determinantes. A compreensão do TPB exige atenção à complexidade da história individual e à interação entre diferentes fatores.

Em relação às intervenções psicológicas, a literatura analisada destaca a importância de considerar as manifestações comportamentais em conjunto com os aspectos emocionais, identitários e relacionais. Nesse sentido, compreender as particularidades de cada indivíduo pode contribuir para o planejamento de intervenções mais adequadas às suas necessidades, sem reduzir a pessoa ao diagnóstico.

Como limitação, destaca-se que a pesquisa foi desenvolvida por meio de revisão bibliográfica, sem participação direta de pessoas diagnosticadas com TPB ou coleta de dados empíricos. Assim, os resultados estão restritos à literatura analisada e não permitem generalizações baseadas em experiências clínicas produzidas especificamente para este estudo.

Para pesquisas futuras, sugere-se aprofundar a relação entre identidade, autoimagem, regulação emocional e relações interpessoais no TPB. Estudos com participação direta de pessoas diagnosticadas com o transtorno podem contribuir para compreender como essas experiências são vivenciadas, enquanto pesquisas que comparem diferentes perspectivas teóricas podem ampliar a compreensão das contribuições de cada abordagem.

Conclui-se que a construção da identidade ocupa um lugar importante na compreensão do Transtorno de Personalidade Borderline e de suas repercussões psicológicas. A análise realizada reforça a relevância de considerar a relação entre identidade, autoimagem, comportamento e vínculos interpessoais, reconhecendo a complexidade do sofrimento psíquico e a importância de abordagens clínicas que contemplem as particularidades de cada indivíduo.

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1 Curso de Psicologia da Faculdade de Educação Santa Terezinha – FEST, Imperatriz-MA. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Professora Especialista do Curso de Psicologia da Faculdade de Educação Santa Terezinha – FEST, Imperatriz-MA. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail