A CONSTRUÇÃO DA SUBJETIVADE E AS MARCAS DISCURSIVAS NA TOADA DE BUMBA-MEU-BOI DE MARACANÃ

THE CONSTRUCTION OF SUBJECTIVENESS AND THE DISCURSIVE MARKS IN THE TOADA OF BUMBA-MEU-BOI MARACANÃ

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/780602874

RESUMO
Este artigo apresenta uma análise discursiva, na perspectiva do texto e discurso, sobre o universo da construção da subjetividade do sujeito. O sujeito ao submeter-se à língua e história, apresenta-se livre e interpelado pela ideologia, acreditando ser dono do que enuncio o indivíduo é livre para que se submeta às ordens do sujeito, tornando o assujeitado. (BRANDÃO, 2004, p.79). Nesse sentido, elencamos alguns questionamentos: Que fatores influenciam na constituição da subjetividade do sujeito na toada de bumba-meu-boi e qual o processo que o sujeito segue para constituir-se como tal? Logo, temos como objetivo para esta pesquisa, compreender de que maneira o sujeito, na toada de bumba-meu-boi de Maracanã, manifesta suas marcas discursivas e constrói sua subjetividade no discurso. Especificamente, outros objetivos complementam este estudo são: (i) identificar as marcas discursivas, pelo cantador (autor-sujeito), deixados na toada “boi de maracanã”; (ii) verificar as mudanças de postura pelo cantador (autor) no decorrer do processo investigativo; (iii) analisar a construção da subjetividade do sujeito na toada. Para tanto, dialogamos com autores, como: Foucault (2009); Orlandi (2009); Benveniste (2005); Pêcheux (1997); Marcuschi (2008). Em seguida, a análise e apresentação da construção da subjetividade do sujeito, e as devidas conclusões.
Palavras-chave: Subjetividade; marcas discursivas; sujeito; texto e discurso.

ABSTRACT
This article presents a discursive analysis, from the perspective of text and discourse, on the universe of the construction of the subject's subjectivity. The subject, by submitting to language and history, presents himself as free and interpellated by ideology, believing himself to be the owner of what he enunciates; the individual is free to submit to the orders of the subject, thus becoming subjugated (BRANDÃO, 2004, p. 79). In this sense, we list some questions: What factors influence the constitution of the subject's subjectivity in the bumba-meu-boi song, and what process does the subject follow to constitute himself as such? Therefore, the objective of this research is to understand how the subject, in the bumba-meu-boi song of Maracanã, manifests his discursive marks and constructs his subjectivity in discourse. Specifically, other objectives complementing this study are: (i) to identify the discursive marks left by the singer (author-subject) in the song “boi de maracanã”; (ii) to verify the changes in posture by the singer (author) during the investigative process; (iii) to analyze the construction of the subject's subjectivity in the song. To this end, we engage in dialogue with authors such as: Foucault (2009); Orlandi (2009); Benveniste (2005); Pêcheux (1997); Marcuschi (2008). Following this, the analysis and presentation of the construction of the subject's subjectivity, and the corresponding conclusions, will be presented.
Keywords: Subjectivity; discursive marks; subject; text and discourse.

1. A SUBJETIVIDADE NA LINGUAGEM

A linguagem é vista como qualquer ato de fala realizado no plano da oralidade entre sujeitos, locutor e interlocutor, trazendo como objetivo a comunicação, assim, apresenta um ato natural de comunicação do indivíduo. Logo, esse ato faz automaticamente produções de atos discursivos, como uma atividade comunicativa, portadora de sentidos, que são articulados pelo locutor/interlocutor apresenta através de tal atividade discursiva a construção enunciativa, fazendo assim, não apenas o ato de falar com o outro, mas envolve no campo do contexto discursivo.

Segundo Maingueneau (2008), não podemos confundir discurso, com frase, língua e texto, quando empregados de forma arbitrária. O discurso só terá sentido no seu contexto de produção, tendo em vista, algo ou sentido contextualizado e produzido por um sujeito, tornando assim, uma atividade discursiva, articulada e produzida, por meio de dois sujeitos eu/tu – locutor/interlocutor, num espaço de interativo, representado e marcado pelo tempo e referências.

Ainda na perspectiva do pesquisador o discurso é ainda regido pelo princípio do diálogo, pois o indivíduo traz em sua fala, ideologia corroborada pelo o discurso do outro, construindo assim uma rede de discurso e palavras. Logo, podemos definir o sujeito como principal articulado falante e produtor do discurso a partir da subjetividade, no campo discursivo, bem como também em outras teorias, como sujeito falante, contudo nesta abordagem de trabalho, o sujeito é abordado tanto na construção da subjetividade, quanto na linha de estudo da análise do discurso, em que é definido em algumas das fases no seu percurso de formação. Tendo em vista que o indivíduo interpelado, não apresenta pela voz e visto meramente como reprodutor de ideologias e pensamentos.

Conforme Pêcheux (1997, p. 161) “os indivíduos são interpelados em sujeito falantes (em sujeitos do discurso), assim, em sua formação discursiva a linguagem dar-se nas formações ideológicas ali correspondente. Assim, tomando o sujeito, assujeitados, sem voz, pois o sujeito que fala no discurso, não são os sujeitos, são formas submetidas pelo poder das instituições que pertencem.

Para Foucault (2009) “o sujeito em vez de direcionar a um princípio de unidade, acaba apresentando em diversos modos, lugares posições que recebe ou exerce, um discurso através do plano de onde fala” (Foucault. 2009, p. 61). Assim, o sujeito pode ocupar papéis diversos, em sua formação discursiva, mas continua assujeitado perante as forças ideológicas. Nesse sentido, podemos entender que o sujeito é constitutivamente heterogêneo, assim, como também o discurso o é.

Nesse sentido, devemos entender e relacionar os estudos da linguagem, através das leituras teóricas de Authier-Revez (1982), que nos direcionar para uma leitura e conceitos sobre subjetividade do discurso do sujeito. E que a partir das noções apresentada, também, por Bakhtin na linha do dialogismo e da abordagem psicanalítica do sujeito, por meio do conceito de heterogeneidade aqui apresentado mais acima, tornando, assim, a linguagem como pratica social.

Para Authier-Revez, a forma dialógica da língua, considera a existência de um espaço interacional, partindo entre o eu e tu, tomando as palavras dos outros neutra, mas carregada de vivencias existentes do indivíduo em sua prática social discursiva. Para a teórica, o enunciado apresenta-se a heterogeneidade, através das marcas, e por outro lado as marcas não apresentáveis.

Assim, o discurso do sujeito deixa de ser centralizado, passando a constituição heterogênea. O sujeito obtém a base da fonte do seu preparo discursivo, apresentando o discurso do inconsciente, do interdiscurso, e por sua vez abre acesso para o outro discurso. Para Authier-Revez (2004), o entendimento da polifonia do discurso a qual é corroborado para a teoria da análise do discurso, nos mostra o sujeito por meio do seu dizer e a concepção de interdiscurso, tornando a construção do discurso, através da presença do outro.

A construção da subjetividade apresenta-se através do contexto sócio-histórico, que devemos relacionar o sujeito e a história, para a compreensão da construção da subjetividade, uma vez que o sujeito é livre, mas submisso a atos de fala do outro.

Logo, podemos compreender e direcionar nossa ótica, para o entendimento da construção subjetiva do sujeito, que por sua vez determina sua fala, estabelece relação com a exterioridade, e nos mostra claramente o sujeito sendo influenciado na sua construção ideológica, através da relação histórica e construção de sua ideologia construída ao longo de sua existência, relação com o outro, com o ato social e histórico. Para Orlandi (2009) a construção da subjetividade é,

Não podemos reduzir pois a questão da subjetividade ao linguístico; fazemos entrar em conta também sua dimensão histórica e psicanalítica. Embora a subjetividade repouse na possibilidade de mecanismos linguísticos específicos, não se pode explicá-la estritamente por eles. (p. 50).

Nesse sentido, podemos compreender como se constitui a subjetividade do sujeito, não podemos reduzi-lo unicamente a linguagem. É necessário relacioná-lo com o contexto sócio-histórico, vivencias, relação com o outro, formação e construção de ideias. É na relação do sujeito com o outro que se constrói a subjetividade, através de suas marcas deixadas na sua fala, corroborado na construção do seu ideológico e fatores externos na sua prática sócio-histórica e atuação reflexiva no contato social.

2. A SUBJETIVIDADE DO SUJEITO NA TOADA DE BUMBA-MEU-BOI DE MARACANÃ

É no estado do Maranhão, que o Bumba-meu-boi tem maior representativa cultural artística, a festa ocorre no estado nos meses de junho e julho em comemoração aos santos populares da religião católica (São Antonio, São João, São Pedro e São Marçal). E para além de sua apresentação de festejo e devoção aos santos, é que apresentamos aqui uma tentativa de mostrar ao longo da toada selecionada – Maranhão, Meu tesouro, Meu torrão - Boi de Maracanã, escrita por Humberto Da Ilha Maracanã.

A análise parte, também, das referências ideológicas do homem, da natureza, da fé, devoção, religião e de herança, marcadas pelo sujeito ao longo do discurso. Partindo dos estudos teóricos expostos nesta pesquisa, assim, faremos um percurso de analise nas estrofes da toada a seguir:

Na toada analisada, o sujeito autor se faz presente enaltecendo o Estado do Maranhão, através de marcas lexicais, e que em sua fala a representação e relação com o outro, reflete no sentido e construção da subjetividade, exposta em sua referencias e classificações para a personificação de reverencia ao seu estado de origem e formação cidadã, a relação obtida, pelo pronome possessivo “meu”, configura uma exterioridade de devoção e gratidão ao território de luta pela sobrevivência, demonstração de amor, e que ao longo da história até chegar aos dias atuais, pode apresenta o amor e devoção ao seu estado que tem representatividade histórica e social do homem humilde e que luta pela sua sobrevivência.

Maranhão, meu tesouro, meu torrão
Fiz esta toada pra ti, Maranhão

Na segunda estrofe, o uso da expressão "meu tesouro, meu torrão" associado possessivamente em referência ao estado do Maranhão traz um sentido de valoração da terra espaço que representa o lugar, a região que é citada. Tesouro do dicionário remete a valor, a brilho, a preciosidade.

A relação com a natureza, no processo de sobrevivência de um povo, em uma terra rica pelo trabalho do campo, o homem diante dessa enunciação, mostra que ele acionou a memória discursiva (traz no discurso formação e representativa internalizado e influenciada ao longo de vivencias do sujeito) ou o interdiscurso, uma terra que por muito tempo teve sua natureza abundante e rica de frutos, para a sobrevivência do homem do campo. O homem entende, que no seu discurso, parte do outro através de seus antepassados ao contar e falar de contos e história de que aquela terra existia um rei. Sua fala se torna externa ao recontar e direcionar a ideia de reinado em uma terra farta. A palavra “palmeira nativa”, mostra na subjetividade, uma planta vista com representação maior de riquezas e frutos naturais de sobrevivência do homem deixada ao longo do tempo e que é encontrada apenas naquele território.

Terra do babaçu que a natureza cultiva
Esta palmeira nativa é que me dá inspiração
Na praia dos lençóis tem um touro encantado
E o reinado do rei Sebastião

Na estrofe a seguir, a expressão terra do babaçu”, dar-se referência ao estado do Maranhão, conhecido pela sua natureza e plantas nativas, como é o caso, das palmeiras de babaçu. O sujeito apresenta no uso do substantivo “inspiração” a referência a natureza e forma de vida que ela oferta ao homem, temos aí, a subjetividade do sujeito, no espaço em que o eu encontra-se com o outro, que passa assumir a representação subjetiva da fé através da festa da colheita, que o home faz todo ano, para sua sobrevivência, o entendimento que o outro no seu discurso corrobora para prática social do indivíduo (homem do campo) apresenta para os demais no sentido de forma e deixar de herança a comemoração marcada por um momento de festejo e compartilhamento por um fruto deixado e cultivado pelos que ali encontram-se.

Sereia canta na proa
Na mata o guriatã
Terra da pirunga doce
E tem a gostosa pitombotã
E todo ano, a grande festa da Juçara
No mês de outubro no Maracanã

Na quarta estrofe, o sujeito representa na sua fala, as várias falas dos outros, no contexto da manifestação da dança, da fé e devoção aos santos que intercedem de forma simbólica ao sustento do homem, o sujeito “outro” fala que a festa deve acontecer, e ter o formato de devoção e características de submissão aquilo que lhe foi dito e concedido, através do ideal de atender aos seus anseios e pedidos, por uma vida melhor para o homem do campo. Logo, na estrofe o sujeito utiliza de dispositivos (escolhas lexicais, personificação) que marcam a construção subjetiva de que desse sempre manter a festa e devoção aos santos que lhe ajudam na sua lida de vida.

No mês de junho tem o bumba-meu-boi
Que é festejado em louvor a São João
O amo canta e balança o maracá
A matraca e pandeiro é que faz tremer o chão

E na última estrofe, o sujeito constrói seu discurso através do outro (intradiscurso: o encontro e formação discursiva dos locutários) ao entender que toda herança, formação, modelo de vivencia, postura ideológica, deve ser cultiva, passada e repassada as gerações, na demonstração de fé e devoção, para ter uma vida digna e a ideia de que somente na sua terra, o estado do Maranhão, o homem sujeito encontrar a riqueza e sobrevivência para sua presente e futura geração, possibilitando que o sujeito constrói e reconstrói discurso por meio de interação viva entre locutor/interlocutor e obtendo heterogeneidade no discurso.

Esta herança foi deixada por nossos avós
Hoje cultivada por nós
Pra compor tua história Maranhão

Composição: Humberto Da Ilha Maracanã.

CONCLUSÃO

Finalizando a conversa, o estudo desenvolvido permitiu compreender os fatores que influenciam a constituição da subjetividade do sujeito na toada de bumba-meu-boi, bem como os processos pelos quais esse sujeito se constitui discursivamente por meio de suas escolhas lexicais e de suas práticas de linguagem. Concluímos que todo discurso elaborado e enunciado é atravessado por outros discursos, os quais colaboram para a construção dos sentidos e para a formação subjetiva do sujeito.

Nesse contexto, percebe-se que essa constituição está diretamente relacionada ao intradiscurso e às múltiplas vozes que se entrecruzam na relação entre eu e tu, locutor e interlocutor.

Nesse sentido, observamos que, na análise aqui apresentada, o sujeito da toada representado pelo homem catador manifesta ideologias construídas ao longo de sua trajetória histórica, social e cultural. Tais ideologias são produzidas e reforçadas pelos discursos que atravessam sua experiência de vida e se revelam em seus atos de fala, em sua maneira de agir, pensar e representar a realidade.

A toada, portanto, apresenta um sujeito marcado pela heterogeneidade discursiva e pela subjetividade, evidenciando que sua fala não é neutra, mas permeada por valores, memórias e posicionamentos sociais.

Entendemos, ainda, que a formação discursiva e a construção da subjetividade permitem compreender a exterioridade como elemento constitutivo do discurso. A heterogeneidade mostrada na toada de bumba-meu-boi apresenta marcas subjetivas que revelam a presença do outro na constituição do dizer.

Assim, tanto o sujeito quanto o discurso podem ser caracterizados como heterogêneos, uma vez que são atravessados por diferentes vozes, saberes e experiências que se articulam continuamente no processo enunciativo.

Na toada analisada, observamos que o discurso se organiza no plano da linguagem como espaço de produção de sentidos, no qual o sujeito assume diferentes posições de subjetividade. Ao enunciar, ele não apenas expressa sua visão de mundo, mas também revela conflitos, resistências, pertencimentos e relações sociais construídas historicamente. Dessa forma, o discurso ultrapassa a simples função comunicativa e passa a constituir um espaço de representação cultural e identitária.

Além disso, a análise da toada de bumba-meu-boi evidencia a importância da cultura popular como lugar de memória, resistência e construção de identidades sociais. O bumba-meu-boi, enquanto manifestação cultural, não apenas preserva tradições, mas também produz sentidos sobre a realidade vivida pelos sujeitos que dela participam. Por meio da oralidade, da musicalidade e da performance, as toadas expressam experiências coletivas e individuais, permitindo que diferentes vozes sociais sejam legitimadas no espaço discursivo.

Desse modo, compreendemos que o sujeito, embora atravessado por ideologias dominantes e pelas condições sócio-históricas em que está inserido, encontra na linguagem a possibilidade de significar sua existência e representar seu universo de vivências e sobrevivência. A interação discursiva presente na toada demonstra que o sujeito se constitui continuamente na relação com o outro, em um movimento dinâmico e inacabado de produção de sentidos.

Portanto, o estudo realizado permite concluir que a toada de bumba-meu-boi apresenta uma multiplicidade de sentidos que atravessam o campo da subjetividade e das experiências humanas. O sujeito constitui sua subjetividade por meio de um processo heterogêneo, marcado pela presença de diferentes discursos, memórias e vozes sociais que se manifestam em seu dizer. Assim, o discurso revela-se como espaço de construção identitária, cultural e social, no qual o eu se forma sempre em relação ao outro e às condições históricas que o cercam.

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1 Doutorando em Letras – Estudos da Linguagem, Universidade Federal do Rio Grande – FURG. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Graduanda em Letras – Inglês/Português e Literaturas, Universidade Estadual do Maranhão –UEMA. E-mail. [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail