REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/778776949
RESUMO
Este ensaio teórico-conceitual explora a profunda conexão histórica e simbólica entre a Serra da Barriga, em Alagoas, e a comunidade quilombola do Muquém. A Serra, consagrada como o epicentro do Quilombo dos Palmares, emerge como um símbolo central da resistência negra no Brasil, enquanto a comunidade do Muquém representa a continuidade e a ressignificação desse legado. A análise é sustentada por um arcabouço teórico que articula as contribuições de Clifford Geertz sobre a cultura como teia de significados, Henri Lefebvre sobre a produção social do espaço e Milton Santos sobre o território usado. Através da revisão bibliográfica e documental, o trabalho demonstra que a Serra da Barriga e o Muquém constituem um complexo simbólico que materializa a luta por autonomia, a preservação da memória e a afirmação da identidade afro-brasileira. A compreensão dessa interconexão é indispensável para a valorização do patrimônio cultural quilombola e para a construção de políticas públicas que reconheçam e protejam essas comunidades.
Palavras-chave: Serra da Barriga; Muquém; Simbolismo; Território; Resistência; Memória Quilombola.
ABSTRACT
This theoretical-conceptual essay explores the profound historical and symbolic connection between the Serra da Barriga, in Alagoas, and the quilombola community of Muquém. The Serra, consecrated as the epicenter of the Quilombo dos Palmares, emerges as a central symbol of Black resistance in Brazil, while the Muquém community represents the continuity and re-signification of this legacy. The analysis is supported by a theoretical framework that articulates the contributions of Clifford Geertz on culture as a web of meanings, Henri Lefebvre on the social production of space, and Milton Santos on the territory used. Through bibliographic and documentary review, the work demonstrates that the Serra da Barriga and Muquém constitute a symbolic complex that materializes the struggle for autonomy, the preservation of memory, and the affirmation of Afro-Brazilian identity. Understanding this interconnection is indispensable for valuing quilombola cultural heritage and for building public policies that recognize and protect these communities.
Keywords: Serra da Barriga; Muquém; Symbolism; Territory; Resistance; Quilombola Memory.
1. INTRODUÇÃO
A Serra da Barriga, localizada no município de União dos Palmares, Alagoas, transcende sua condição geográfica para se afirmar como um monumento essencial na história da resistência negra no Brasil. Reconhecida como o berço do Quilombo dos Palmares, a maior e mais duradoura expressão de autonomia de africanos escravizados e seus descendentes nas Américas, a Serra é um pilar da memória coletiva nacional. A luta que ali se travou por quase um século deixou um legado que reverbera nas discussões contemporâneas sobre direitos, reconhecimento e reparação histórica para as comunidades quilombolas (REIS, 1991).
Nesse contexto, a comunidade quilombola do Muquém, adjacente à Serra, desempenha um papel crucial. Ela não é apenas um eco do passado, mas a encarnação da continuidade histórica de Palmares. O Muquém funciona como um espaço de preservação da herança ancestral, onde tradições, saberes e uma cosmovisão de matriz africana resistiram à violência colonial e se mantêm vivos (ARRUTI, 2006). A conexão entre a Serra da Barriga e o Muquém, portanto, ultrapassa a proximidade física, tecendo uma complexa rede simbólica que une o passado de luta à persistência da identidade no presente.
O simbolismo que emana desses dois locais é multifacetado e profundamente enraizado na experiência afro-brasileira. A Serra da Barriga materializa a resiliência, a capacidade de organização e a busca incessante por liberdade de um povo que, mesmo sob a égide da escravidão, erigiu um projeto de sociedade autônoma (FREITAS, 1973). O Muquém, por sua vez, representa a tenacidade dessa herança, um território onde a memória de Palmares é cotidianamente celebrada e a identidade quilombola é reafirmada por meio de práticas culturais, sociais e religiosas. Manifestações como a cerâmica tradicional, as danças e a própria relação com a terra são veículos dessa memória viva (ALMEIDA, 2002).
Este ensaio objetiva analisar essa interconexão histórica e simbólica, investigando como a Serra se consolidou como marco da resistência negra e de que forma o Muquém perpetua e ressignifica esse legado. A análise será aprofundada pela discussão sobre os múltiplos símbolos que constituem esse universo, desde a figura heroica de Zumbi dos Palmares, um ícone da luta antirracista, até as práticas culturais como o jongo e o tambor de crioula, que funcionam como atos de resistência e afirmação identitária (FIGUEIREDO, 2010).
Para tanto, o estudo se apoia em um arcabouço teórico que dialoga com as perspectivas de Clifford Geertz (1989), para quem a cultura é um sistema de significados partilhados; Henri Lefebvre (2006), que concebe o espaço como um produto social; e Milton Santos (2006), que define o território como um campo de dinâmicas identitárias. A metodologia adotada é a revisão bibliográfica e documental, que permite uma análise aprofundada das fontes acadêmicas e documentos históricos relacionados ao tema, garantindo o rigor científico necessário para uma reflexão teórica de qualidade.
2. O UNIVERSO SIMBÓLICO DE PALMARES: TERRITÓRIO, CORPO E MEMÓRIA
A compreensão da relação entre a Serra da Barriga e a comunidade do Muquém exige uma imersão em seu denso universo simbólico. Os símbolos, aqui, não são meros adornos, mas elementos constitutivos da realidade social, que organizam a experiência, informam a identidade e motivam a ação coletiva. Este universo pode ser decomposto em várias camadas interligadas, que vão desde a materialidade do território até as expressões imateriais da cultura.
2.1. A Serra Como Símbolo Material: Fortaleza e Liberdade
A própria geografia da Serra da Barriga é um símbolo potente. Seu relevo acidentado, com vales profundos e vegetação densa, não foi apenas um obstáculo para as expedições coloniais, mas a própria materialização da possibilidade de refúgio e autonomia. A Serra, como fortaleza natural, representa a capacidade de transformar o ambiente em um aliado na luta pela liberdade. Para Lefebvre (2006), o espaço é uma produção social, e em Palmares, a natureza foi ativamente produzida como um espaço de resistência. Cada trilha, cada esconderijo e cada campo de cultivo representava uma subversão da lógica espacial do latifúndio e da senzala, constituindo um novo território de existência.
A materialidade da Serra não é, portanto, um simples cenário geográfico. É um espaço que foi transformado pela ação humana, que foi apropriado e significado pela comunidade palmarina como um lugar de liberdade. Essa apropriação do espaço é um ato político, uma recusa da lógica colonial que tentava reduzir os africanos escravizados a corpos sem direito ao espaço, sem direito à territorialidade. A Serra, nesse sentido, é um símbolo da possibilidade de existência autônoma, de um povo que, mesmo sob opressão, conseguiu criar seu próprio espaço de vida.
2.2. Zumbi dos Palmares: O Herói e o Símbolo da Resistência Inflexível
Nenhuma figura condensa tão poderosamente o simbolismo de Palmares quanto Zumbi. Elevado à condição de herói nacional e ícone do movimento negro, Zumbi representa a resistência inflexível contra a opressão. Sua recusa em aceitar um acordo de paz que não contemplasse a liberdade de todos os palmarinos o transformou no símbolo da luta por uma liberdade plena e inegociável (GOMES, 2005). A construção de Zumbi como símbolo transcende o personagem histórico, tornando-se uma ideia, um valor que inspira a luta contínua por justiça social.
A historiografia sobre o movimento negro contemporâneo demonstra que a substituição simbólica da Princesa Isabel por Zumbi no imaginário da abolição representa a troca de uma narrativa de concessão por uma de conquista e protagonismo (MOURA, 1972). Enquanto a Princesa Isabel é associada a uma abolição concedida de cima para baixo, Zumbi é o símbolo de uma liberdade conquistada pela luta, pela resistência, pela recusa em aceitar a opressão. Essa mudança de narrativa é profundamente significativa, pois reposiciona os africanos escravizados não como vítimas passivas, mas como agentes ativos de sua própria libertação.
A figura de Zumbi também encarna a complexidade da liderança quilombola. Ele não era apenas um guerreiro, mas um administrador, um político que conseguiu manter a coesão de uma comunidade heterogênea por décadas. Sua morte, em 1695, não marcou o fim de Palmares como símbolo, mas o seu apogeu. A morte de Zumbi transformou-o em mártir, em um símbolo ainda mais poderoso de resistência. Sua cabeça, exibida em praça pública, pretendia ser um aviso; tornou-se, porém, um ícone da resistência que atravessa séculos.
2.3. Práticas Culturais Como Símbolos Vivos: O Corpo em Resistência
Se a Serra é o corpo geográfico da resistência e Zumbi seu espírito, as práticas culturais são a sua alma viva. Manifestações como o jongo, o tambor de crioula, a capoeira e a cerâmica são muito mais do que folclore; são linguagens simbólicas que carregam a memória e a filosofia de um povo. Nelas, o corpo se torna um arquivo vivo da história, e o ritmo, um veículo de transmissão de saberes ancestrais.
O jongo, com seus pontos enigmáticos cantados ao som de tambores, era uma forma de comunicação cifrada entre os escravizados, um ato de resistência cultural que permitia a expressão de crítica, resistência e afirmação identitária sem a repressão direta dos senhores (FIGUEIREDO, 2010). Os pontos do jongo funcionavam como uma linguagem codificada, onde metáforas e enigmas permitiam que os escravizados se comunicassem sobre sua condição, sua dor e sua esperança. Essa prática cultural não era meramente recreativa; era um ato de resistência simbólica, uma forma de manter a dignidade e a identidade em um contexto de desumanização.
O tambor de crioula, praticado principalmente no Maranhão, representa outra forma de resistência cultural através do corpo e do ritmo. A dança circular de mulheres, acompanhada por percussão de tambores, expressa uma forma de sociabilidade e de celebração que remonta a tradições africanas. Essa prática, embora tenha sido parcialmente incorporada ao catolicismo popular (com louvor a santos), mantém sua essência de expressão de identidade e de resistência cultural (CARNEIRO, 2003).
A cerâmica do Muquém, com suas formas e técnicas passadas de geração em geração, não é apenas um utensílio, mas um elo material com o passado, um símbolo da identidade que se molda e se fortalece no presente. Cada pote, cada forma, cada técnica carrega em si a memória de gerações de mulheres que moldaram o barro e, ao fazê-lo, moldaram também a identidade da comunidade. A cerâmica é um arquivo material da história, um texto que pode ser lido por aqueles que sabem interpretar seus símbolos e formas.
2.4. A Memória Como Símbolo: Transmissão Oral e Ancestralidade
A memória funciona como um símbolo fundamental na constituição das comunidades quilombolas. Diferentemente da memória institucionalizada em monumentos e documentos, a memória quilombola é transmitida oralmente, através de narrativas que conectam o presente ao passado ancestral. Esta forma de transmissão de conhecimento, enraizada em tradições africanas, permite que a história de Palmares não seja apenas recordada, mas vivenciada e ressignificada em cada geração (CARNEIRO, 2003).
A oralidade, portanto, não é uma deficiência, mas uma estratégia de resistência que mantém a história viva e adaptável às circunstâncias contemporâneas. Quando um ancião do Muquém conta a história de Palmares para as crianças, ele não está simplesmente repetindo fatos históricos; está realizando um ato de transmissão de identidade, de valores, de uma forma de estar no mundo. A narrativa oral permite que a história seja recontada, reinterpretada, ressignificada de acordo com as necessidades e as realidades de cada momento.
A memória, nesse sentido, é um símbolo vivo que conecta o passado ao presente e ao futuro. Ela é o fio que une Zumbi aos moradores contemporâneos do Muquém, que une a luta de Palmares às lutas atuais por direitos territoriais e reconhecimento. A memória é o que torna possível a continuidade da identidade quilombola, apesar de séculos de opressão e marginalização.
3. CONTEXTO HISTÓRICO: A SERRA DA BARRIGA E O QUILOMBO DOS PALMARES
A Serra da Barriga, situada em União dos Palmares, Alagoas, é um lugar de grande importância histórica para o Brasil. Sendo reconhecida como o berço do Quilombo dos Palmares, este quilombo floresceu durante os séculos XVII e XVIII, constituindo-se como um dos maiores e mais duradouros centros de resistência de africanos escravizados e seus descendentes nas Américas (REIS, 1991).
A formação e a sobrevivência do quilombo foram facilitadas pela geografia acidentada da Serra, que oferecia abrigo natural e dificultava o acesso das expedições coloniais. A luta em Palmares ia além da busca pela liberdade individual; era um esforço para construir uma sociedade autônoma, com suas próprias leis, cultura e organização social. Palmares representava um verdadeiro projeto de nação no contexto colonial (FREITAS, 1973). A memória de Palmares e de seu líder, Zumbi, ultrapassa o tempo e o espaço, tornando-se um símbolo universal de resistência contra a opressão e a escravidão.
Historicamente, a Serra da Barriga foi o centro de uma confederação de mocambos, com destaque para Cerca do Macaco, que funcionava como a capital de Palmares. A geografia do local, com suas trilhas sinuosas e a dificuldade de acesso, transformou-a em uma fortaleza natural, permitindo que o quilombo prosperasse por quase um século, resistindo a inúmeras expedições militares coloniais (REIS, 1991). Durante esse período, Palmares desenvolveu uma estrutura administrativa sofisticada, com leis próprias, sistema de defesa e uma economia baseada na agricultura e no artesanato.
A importância de Palmares foi oficialmente reconhecida com o tombamento da Serra da Barriga pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 1986, consolidando seu status como um local de memória e de celebração da resistência afro-brasileira. Esse tombamento, embora importante, também representa uma certa apropriação estatal do símbolo de Palmares, transformando-o em patrimônio nacional, o que pode, em alguns aspectos, deslocar o significado original de resistência para uma narrativa mais domesticada de memória histórica.
4. A COMUNIDADE QUILOMBOLA DO MUQUÉM: CONTINUIDADE E RESSIGNIFICAÇÃO
Adjacente à Serra da Barriga, a comunidade quilombola do Muquém surge como um elo importante na história da resistência negra. Considerada uma continuação direta do Quilombo dos Palmares, o Muquém é muito mais do que apenas um lugar para viver; é um espaço vibrante que preserva a herança ancestral dos palmarinos. Após o declínio de Palmares, muitos de seus habitantes se dispersaram, dando origem a várias comunidades quilombolas, e o Muquém se destaca entre elas por manter vivas as tradições, os saberes e a cosmovisão que resistiram à opressão colonial (ARRUTI, 2006).
A conexão entre a Serra da Barriga e a comunidade quilombola do Muquém, portanto, vai além da proximidade geográfica; ela simboliza a continuidade da luta, a perpetuação da identidade e a ressignificação de um passado que se manifesta no presente através das práticas culturais e sociais da comunidade. O Muquém atua como um guardião da memória de Palmares, celebrando-a e reafirmando a identidade quilombola no cotidiano.
A comunidade do Muquém é um exemplo vivo da capacidade de adaptação e persistência cultural, onde a história é recontada e vivenciada no dia a dia. As manifestações culturais no Muquém são ricas e diversas, refletindo a fusão de elementos africanos, indígenas e brasileiros. A cerâmica, por exemplo, é uma arte tradicional que se transmite de geração em geração, sendo um importante veículo de preservação da memória e da identidade quilombola. A comunidade mantém uma forte ligação com a terra e com as práticas agrícolas, que são fundamentais para sua subsistência e para a reprodução de seu modo de vida.
A luta pela titulação de suas terras é um desafio contemporâneo que o Muquém enfrenta, buscando garantir a permanência e a reprodução social e cultural do quilombo (ARRUTI, 2006). A proximidade geográfica e a conexão histórica com a Serra da Barriga fazem do Muquém um local privilegiado para o estudo da perpetuação da cultura e da resistência quilombola no Brasil, demonstrando como a luta iniciada na Serra encontra sua continuidade e ressignificação no cotidiano do Muquém.
5. ARCABOUÇO TEÓRICO: GEERTZ, LEFEBVRE E SANTOS
A análise da interconexão entre a Serra da Barriga e a comunidade quilombola do Muquém é enriquecida pela aplicação de um arcabouço teórico multidisciplinar, que integra as perspectivas de Clifford Geertz, Henri Lefebvre e Milton Santos.
5.1. Clifford Geertz e a Cultura Como Teia de Significados
Clifford Geertz (1989), com sua abordagem interpretativa da cultura, permite compreender a cultura como um sistema de significados compartilhados, onde os símbolos e rituais adquirem sentido para os indivíduos e a comunidade. Para Geertz (1989), a cultura não é um fenômeno biológico ou psicológico, mas um sistema de símbolos que permite aos seres humanos comunicar, perpetuar e desenvolver seu conhecimento sobre a vida e suas atitudes diante dela. Nesse sentido, a Serra da Barriga e o Muquém podem ser interpretados como complexos sistemas simbólicos que expressam a identidade e a resistência afro-brasileira.
Os símbolos presentes nesses espaços não são arbitrários, mas profundamente enraizados na experiência histórica de seus habitantes. A Serra, como símbolo de liberdade e resistência, adquire seu significado através da história de Palmares, da luta que ali se travou e da memória que persiste. O Muquém, como símbolo de continuidade, adquire seu significado através da persistência das práticas culturais e da manutenção da identidade quilombola. Esses símbolos não existem isoladamente, mas em uma rede complexa de significações que se reforçam mutuamente.
5.2. Henri Lefebvre e a Produção Social do Espaço
Henri Lefebvre (2006), por sua vez, oferece a lente da produção do espaço, que concebe o espaço não como um mero palco neutro para as ações humanas, mas como um produto social, resultado de relações de poder, práticas sociais e representações. Para Lefebvre (2006), o espaço é simultaneamente um espaço concebido (planejado, representado), um espaço vivido (experimentado, apropriado) e um espaço percebido (observado, interpretado).
A Serra da Barriga, enquanto fortaleza natural e espaço de resistência, é um exemplo claro de como o espaço é ativamente produzido e ressignificado pelas comunidades. O espaço concebido da Serra era o da colônia, um espaço a ser explorado e dominado. O espaço vivido de Palmares era o da resistência, um espaço apropriado e transformado em um projeto de liberdade. O espaço percebido da Serra, hoje, é o de um patrimônio histórico, um monumento à resistência negra.
A comunidade quilombola do Muquém, como território de reprodução cultural e social, é também um exemplo de produção social do espaço. O espaço do Muquém é produzido através das práticas cotidianas, das relações sociais, das manifestações culturais e da luta pela titulação territorial. A compreensão do espaço como produzido socialmente é crucial para entender a dinâmica de ocupação e resistência desses locais.
5.3. Milton Santos e o Território Como Campo de Dinâmicas Identitárias
Milton Santos (2006), com sua vasta obra sobre o espaço geográfico, a globalização e o território, complementa essa análise ao enfatizar o território como palco de dinâmicas identitárias e de poder. Para Santos (2006), o território é um espaço vivido e usado, onde se manifestam as contradições e as lutas sociais. O território não é apenas um espaço geográfico, mas um espaço político, onde se expressam as relações de poder e as identidades.
A Serra da Barriga e a comunidade quilombola do Muquém, sob essa ótica, representam territórios de resistência, onde a identidade afro-brasileira é constantemente reafirmada e onde se confrontam diferentes lógicas de apropriação e valoração do espaço. A persistência de comunidades como o Muquém demonstra a força da territorialidade e da cultura na construção de alternativas à lógica hegemônica. O território, para Santos (2006), é um campo de forças, onde diferentes agentes (Estado, mercado, comunidades locais) lutam pela apropriação e significação do espaço.
A integração dessas três perspectivas teóricas permite uma análise multidimensional da interconexão entre a Serra da Barriga e o Muquém. Geertz oferece a lente para compreender os símbolos e significados; Lefebvre oferece a lente para compreender a produção social do espaço; e Santos oferece a lente para compreender as dinâmicas territoriais e identitárias. Juntas, essas perspectivas revelam a complexidade e a profundidade da conexão entre esses dois espaços.
6. OS MÚLTIPLOS SÍMBOLOS: UMA ANÁLISE INTEGRADA
A conexão entre a Serra da Barriga e a comunidade quilombola do Muquém pode ser compreendida através de uma análise integrada de seus múltiplos símbolos. Esses símbolos não funcionam isoladamente, mas em uma rede complexa de significações que se reforçam mutuamente, criando um universo simbólico denso e multifacetado.
6.1. A Dimensão Heroica: Zumbi Como Ícone Transhistórico
A figura de Zumbi dos Palmares transcende o contexto histórico específico do século XVII para se tornar um símbolo que ressoa em diferentes momentos e contextos. Sua recusa em aceitar uma paz parcial, sua liderança durante décadas de resistência e sua morte trágica o transformaram em um ícone que encarna valores de liberdade, dignidade e resistência inflexível (GOMES, 2005). Na comunidade do Muquém, a memória de Zumbi não é apenas histórica, mas viva, presente nas narrativas que conectam os moradores ao passado heroico de seus ancestrais.
A construção de Zumbi como símbolo não foi um processo natural ou espontâneo, mas resultado de um trabalho de ressignificação realizado pelo movimento negro, por intelectuais e por historiadores. A redescoberta de Zumbi como herói nacional, particularmente a partir da década de 1970, representou uma mudança significativa na narrativa histórica brasileira. Antes disso, Zumbi era praticamente desconhecido ou era apresentado como um vilão nas narrativas oficiais. A transformação de Zumbi em ícone de resistência foi, portanto, um ato de ressignificação simbólica que reposicionou a história da resistência negra no Brasil.
6.2. A Dimensão Imaterial: Práticas Culturais Como Resistência
As práticas culturais que persistem no Muquém funcionam como símbolos vivos de resistência. O jongo, com seus pontos cifrados, era uma forma de comunicação entre escravizados que permitia a expressão de crítica, resistência e afirmação identitária sem a repressão direta dos senhores (FIGUEIREDO, 2010). Os pontos do jongo, muitas vezes enigmáticos e metafóricos, criavam um espaço de liberdade simbólica dentro de um contexto de opressão material.
A cerâmica, transmitida de geração em geração, mantém técnicas e formas que remetem a tradições africanas, funcionando como um arquivo material da memória. Cada pote, cada forma, cada técnica carrega em si a memória de gerações de mulheres que moldaram o barro e, ao fazê-lo, moldaram também a identidade da comunidade. A cerâmica não é apenas um objeto utilitário, mas um texto cultural que pode ser lido e interpretado por aqueles que sabem reconhecer seus símbolos.
Essas práticas não são relíquias do passado, mas expressões vivas de uma cultura que continua a se renovar. Elas não são estáticas, mas dinâmicas, adaptando-se às circunstâncias contemporâneas enquanto mantêm sua essência e sua conexão com o passado. A persistência dessas práticas culturais é um ato de resistência contra a homogeneização cultural e a imposição de uma lógica hegemônica que busca apagar as diferenças e particularidades.
6.3. A Dimensão Territorial: Espaço, Poder e Identidade
A luta pela titulação das terras do Muquém é, fundamentalmente, uma luta simbólica. O reconhecimento legal do território quilombola é o reconhecimento de que aquele espaço é produtor de identidade, de que a vida ali vivida é portadora de significado e de direitos. Para Lefebvre (2006), o espaço é um campo de lutas, e a titulação territorial é uma vitória nessa luta. O Muquém, ao afirmar seu direito ao território, afirma também seu direito de existir como comunidade, de perpetuar suas práticas e de transmitir sua herança.
A dimensão territorial da resistência quilombola é frequentemente subestimada em análises que focam apenas na resistência armada ou cultural. Porém, a luta pela terra é uma luta pela possibilidade de existência, pela possibilidade de reproduzir um modo de vida que é fundamentalmente diferente da lógica capitalista de exploração. A terra, para as comunidades quilombolas, não é apenas um recurso econômico, mas um espaço de identidade, de memória e de reprodução cultural.
6.4. A Dimensão Temporal: Passado, Presente e Futuro
A conexão entre a Serra da Barriga e o Muquém é também uma conexão temporal. A Serra representa o passado, a história de Palmares e da resistência negra. O Muquém representa o presente, a continuidade viva dessa história. Mas essa conexão não é apenas retrospectiva; ela também é prospectiva, apontando para um futuro onde a identidade quilombola continue a ser afirmada e celebrada.
A memória, nesse sentido, não é apenas um olhar para trás, mas um projeto para o futuro. Quando os moradores do Muquém contam a história de Palmares, eles não estão apenas recordando o passado; estão afirmando um projeto de futuro onde a liberdade, a autonomia e a identidade quilombola continuem a ser valores centrais. A memória é, portanto, um ato de resistência que conecta o passado ao presente e ao futuro.
7. DISCUSSÃO: IMPLICAÇÕES E DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS
A análise da interconexão simbólica entre a Serra da Barriga e a comunidade quilombola do Muquém tem implicações importantes para a compreensão da história, da identidade e da resistência afro-brasileira. Ela também levanta questões importantes sobre como essas comunidades são representadas, reconhecidas e protegidas pelo Estado e pela sociedade.
7.1. A Patrimonialização Como Apropriação e Reconhecimento
O tombamento da Serra da Barriga pelo IPHAN em 1986 foi um momento importante de reconhecimento oficial da importância histórica de Palmares. Porém, esse processo de patrimonialização também representa uma certa apropriação estatal do símbolo de Palmares. Quando o Estado transforma a Serra em patrimônio nacional, ele também transforma o significado de Palmares, de um símbolo de resistência contra o Estado para um símbolo de identidade nacional.
Essa transformação não é necessariamente negativa, mas é importante reconhecer as tensões envolvidas. A patrimonialização permite que a Serra seja protegida e que sua importância histórica seja reconhecida. Porém, ela também pode domesticar o significado revolucionário de Palmares, transformando-o em uma narrativa de memória histórica que não questiona as estruturas de poder contemporâneas.
7.2. A Invisibilidade do Muquém e a Necessidade de Reconhecimento
Enquanto a Serra da Barriga é um patrimônio nacional amplamente reconhecido, a comunidade quilombola do Muquém permanece em grande medida invisível nas narrativas públicas. Essa invisibilidade é problemática porque reforça a separação entre a história (representada pela Serra) e a vida contemporânea (representada pelo Muquém). A Serra torna-se um monumento ao passado, enquanto o Muquém torna-se um lugar esquecido no presente.
O reconhecimento do Muquém como comunidade quilombola e a titulação de suas terras são passos importantes para corrigir essa invisibilidade. Porém, é necessário ir além do reconhecimento legal e criar políticas públicas que apoiem a reprodução social e cultural do Muquém. Isso inclui investimentos em educação, saúde, infraestrutura e, especialmente, apoio às práticas culturais que são fundamentais para a manutenção da identidade quilombola.
7.3. A Ressignificação Contínua da Memória
A memória de Palmares não é fixa ou imutável; ela é continuamente ressignificada de acordo com as necessidades e as realidades de cada momento. A forma como a Serra da Barriga é compreendida e celebrada hoje é diferente da forma como era compreendida há cinquenta anos. Da mesma forma, a forma como o Muquém mantém e ressignifica a herança de Palmares é um processo dinâmico e contínuo.
Essa ressignificação contínua é importante porque permite que a memória de Palmares permaneça viva e relevante. Não é uma memória cristalizada em um passado distante, mas uma memória que continua a informar as lutas e as identidades do presente. A ressignificação também permite que novas gerações encontrem significado na história de Palmares, conectando-a às suas próprias experiências e lutas.
8. CONCLUSÃO
A interconexão histórica e simbólica entre a Serra da Barriga e a comunidade quilombola do Muquém revela uma paisagem de resistência que é, ao mesmo tempo, monumento e movimento, memória e vida. Este ensaio demonstrou que os dois espaços, embora distintos em sua materialidade e reconhecimento público, formam uma unidade indissociável na construção da identidade afro-brasileira e na perpetuação da luta por autonomia e dignidade.
A Serra, como epicentro de Palmares, funciona como o símbolo seminal, a matriz de significados que encontra na comunidade do Muquém sua expressão contínua e ressignificada. A análise, amparada pelas teorias de Geertz, Lefebvre e Santos, permitiu desvelar as camadas de significado que constituem esse complexo simbólico. A cultura, como teia de significados, manifesta-se na forma como a memória de Palmares é tecida no cotidiano do Muquém. O espaço, como produto social, evidencia-se na transformação da Serra em fortaleza e, hoje, em patrimônio, enquanto o Muquém se afirma como território da vida comunitária. O território, por fim, emerge como o palco onde essa identidade é usada, vivida e defendida contra as pressões da homogeneização cultural e da expropriação.
A discussão sobre os múltiplos símbolos que constituem essa interconexão—desde a figura heroica de Zumbi até as práticas culturais vivas do Muquém—revelou a complexidade e a profundidade dessa relação. Os símbolos não funcionam isoladamente, mas em uma rede complexa de significações que se reforçam mutuamente, criando um universo simbólico denso e multifacetado que encarna a resistência, a memória, a identidade, o território e a cultura afro-brasileira.
As implicações deste trabalho apontam para a necessidade urgente de políticas de memória e patrimônio que superem a visão monumentalista e fragmentada da história. É imperativo que o reconhecimento da Serra da Barriga se estenda, de forma efetiva, às comunidades que são suas herdeiras diretas, como o Muquém. Isso implica não apenas em maior visibilidade, mas em ações concretas que garantam a titulação de seus territórios, o fomento de suas práticas culturais e a melhoria de suas condições de vida.
Valorizar o Muquém não é apenas um ato de justiça social, mas uma condição para que o símbolo de Palmares permaneça vivo e pulsante. Enquanto a Serra da Barriga permanece como um monumento ao passado, o Muquém é a prova viva de que a luta de Zumbi não terminou em 1695; ela continua em cada pote de cerâmica moldado, em cada toque de tambor, em cada palmo de terra cultivado e defendido pelos seus descendentes. Compreender essa continuidade é compreender que a história não é apenas algo que aconteceu no passado, mas algo que continua a acontecer no presente, em comunidades como o Muquém, que mantêm viva a chama da resistência e da liberdade.
Para futuras pesquisas, sugere-se aprofundar a análise através de estudos etnográficos no Muquém, investigando com maior detalhe as narrativas locais, as práticas rituais e as estratégias cotidianas de resistência. Estudos comparativos com outras comunidades remanescentes de Palmares poderiam enriquecer a compreensão sobre as diferentes formas de apropriação e ressignificação desse legado. Pesquisas sobre as políticas públicas de reconhecimento territorial e cultural também seriam valiosas para compreender os desafios e as possibilidades de proteção e valorização dessas comunidades no contexto contemporâneo.
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1 Mestrando pelo Programa de Pós-graduação em Dinâmicas Territoriais e Cultura – ProDiC - da Universidade Estadual de Alagoas – UNEAL, Arapiraca-AL e Bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas – Fapeal. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Professor Dr. de Licenciatura em Geografia e do Programa de Pós-graduação em Dinâmicas Territoriais e Cultura – ProDiC - da Universidade Estadual de Alagoas – UNEAL. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail