REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/784419909
RESUMO
Este artigo examina a cadeia produtiva da ovinocultura de corte no Estado do Piauí no período 2020-2024, com base em microdados da Pesquisa da Pecuária Municipal (PPM) do IBGE. Mobilizam-se três lentes teóricas complementares: a abordagem dos sistemas agroindustriais brasileiros, a economia da coordenação setorial e das estratégias de diferenciação, e a teoria do desenvolvimento territorial. Os resultados mostram que o rebanho ovino piauiense cresceu 8,40%, passando de 1.705.154 para 1.848.381 cabeças, consolidando o Estado como quinto maior produtor nacional. A aplicação da metodologia de Garagorry revela um dos padrões de concentração espacial mais agudos entre as cadeias agropecuárias estaduais: dez municípios respondem por 25,61% do rebanho, enquanto 155 municípios somam, juntos, pouco menos de 25%. Jacobina do Piauí lidera tanto em volume quanto em densidade técnica (91,52 cabeças/km2, 12,5 vezes a média estadual), ancorando um eixo gravitacional onde três territórios concentram mais de 40% do rebanho (Vale do Guaribas, Chapada Vale do Itaim e Serra da Capivara). Estimativas próprias indicam Valor Bruto de Produção próximo de R$ 700 milhões anuais. Uma correlação de 0,89 entre crescimento do rebanho e de propriedades revela padrão de crescimento horizontal que precisa agora transitar para intensificação vertical. Conclui-se que essa transição exige políticas públicas territorialmente diferenciadas e ação coordenada entre os setores público e privado.
Palavras-chave: ovinocultura de corte; cadeia produtiva; Piauí; concentração espacial; semiárido; metodologia de Garagorry.
ABSTRACT
This article examines the meat sheep production chain in the State of Piauí over the 2020-2024 period, based on microdata from IBGE's Municipal Livestock Survey (Pesquisa da Pecuária Municipal - PPM). Three complementary theoretical lenses are mobilized: the Brazilian agroindustrial systems approach, the economics of sectoral coordination and differentiation strategies, and territorial development theory. The results show that Piauí's sheep herd grew by 8.40%, rising from 1,705,154 to 1,848,381 head, consolidating the State as the fifth largest national producer. The application of the Garagorry methodology reveals one of the most acute spatial concentration patterns among the state's agricultural production chains: ten municipalities representing 25.61% of the herd, while 155 municipalities collectively contribute marginally less than 25%. Jacobina do Piauí leads both in volume and technical density (91.52 head/km2, 12.5 times the state average), anchoring a gravitational axis in which three territories concentrate more than 40% of the herd (Vale do Guaribas, Chapada Vale do Itaim and Serra da Capivara). Own estimates indicate a Gross Production Value of approximately R$700 million per year. A correlation of 0.89 between herd growth and growth in the number of properties reveals a horizontal growth pattern that must now shift toward vertical intensification. The article concludes that this transition requires territorially differentiated public policies and coordinated action between the public and private sectors.
Keywords: meat sheep farming; production chain; Piauí; spatial concentration; semi-arid region; Garagorry methodology.
1. INTRODUÇÃO
A ovinocultura constitui, no semiárido brasileiro, uma das atividades agropecuárias de maior densidade histórica e sociocultural que vai além de um rebanho: é tradição, calendário ritual, base alimentar e moeda de troca. No Estado do Piauí, essa presença secular convergiu, nas últimas décadas, em fenômeno produtivo de proporções notáveis: a consolidação de um dos maiores rebanhos ovinos do Brasil, ancorado em cinturão geográfico claramente delimitado e ainda em expansão. Os dados consolidados da Pesquisa da Pecuária Municipal (PPM) do IBGE, referentes a 2024, posicionam o Piauí como quinta maior força nacional da ovinocultura, com efetivo de 1.848.381 cabeças, crescimento de 8,40% sobre o quinquênio 2020-2024 e desempenho que reposiciona o setor na agenda do desenvolvimento estadual.
A ovinocultura brasileira ocupa posição particular no concerto mundial. País de dimensões continentais e vocação agropecuária amplamente reconhecida, o Brasil figura como décimo oitavo no ranking dos maiores rebanhos ovinos mundiais, com participação inferior a dois por cento do efetivo planetário, e é importador líquido de carne ovina, suprindo parte de sua demanda interna com produtos do Uruguai e do Chile. Essa configuração paradoxal decorre de dualidade geográfica e produtiva nítida: no Sul, particularmente no Rio Grande do Sul, desenvolveu-se ovinocultura de tradição europeia voltada à produção de lã, hoje em retração após o colapso do mercado lanífero; no Nordeste, consolidou-se ovinocultura de corte ancorada em raças deslanadas adaptadas à Caatinga (Santa Inês, Morada Nova, Somalis Brasileira), desenvolvida majoritariamente em bases familiares.
O Piauí ocupa, nessa dinâmica regional, posição singular. Localizado na transição entre o semiárido propriamente dito e os domínios dos cerrados do Meio-Norte, o Estado combina elementos edafoclimáticos favoráveis (extensas áreas de Caatinga, regime pluviométrico irregular, vegetação rústica) com tradição produtiva ancestral sedimentada em práticas pastoris de gerações sucessivas de produtores familiares. A esses elementos soma-se adensamento institucional recente: a Câmara Setorial da Ovinocaprinocultura, instalada em 2003, mantém atuação continuada; o Acordo de Cooperação Técnica FAPEPI-Embrapa nº 06/2025 viabilizou o Projeto PIAUIPEC, dedicado à caracterização e à proposição de estratégias para a cadeia estadual; e universidades públicas piauienses - Universidade Federal do Piauí (UFPI), Instituto Federal do Piauí (IFPI) e Universidade Estadual do Piauí (UESPI) - mantêm linhas de pesquisa sobre o setor, em interlocução com a Embrapa Caprinos e Ovinos (Sobral-CE) e a Embrapa Meio-Norte (Teresina-PI); O Sebrae e o Senar desenvolvem ações de capacitação em gestão e assistência técnica, em parceria com a SADA e a Adapi.
Apesar desse adensamento institucional, a ovinocultura piauiense convive com gargalos estruturais bem documentados: a difusão de raças deslanadas de elevado mérito genético (Santa Inês, Dorper) nos plantéis comerciais ainda é restrita, com predomínio de cruzamentos aleatórios; verminoses gastrintestinais, especialmente as causadas por Haemonchus contortus, respondem por mortalidade significativa de cordeiros; a malha de abatedouros com inspeção sanitária é insuficiente para absorver a oferta dos polos produtivos; as linhas de crédito raramente se ajustam aos ciclos produtivos da atividade; e a presença massiva de atravessadores compromete a captura de valor pelo produtor primário.
Diante desse quadro, este artigo tem como objetivo central examinar a cadeia produtiva da ovinocultura de corte no Piauí no quinquênio 2020-2024, à luz de três lentes teóricas complementares: a abordagem dos sistemas agroindustriais brasileiros; a economia da coordenação setorial e das estratégias de diferenciação; e a teoria do desenvolvimento territorial; com aplicação da metodologia de Garagorry para diagnóstico da concentração espacial da atividade nos 224 municípios piauienses. Especificamente, busca-se: (i) caracterizar a trajetória recente do rebanho ovino estadual e sua inserção nos cenários nacional e internacional; (ii) identificar o padrão de concentração territorial da atividade, seus municípios-motores e o eixo gravitacional que a organiza; (iii) mapear os gargalos e as potencialidades dos principais elos da cadeia produtiva; e (iv) propor diretrizes estratégicas capazes de transformar o crescimento quantitativo recente - majoritariamente horizontal, como se verá - em desenvolvimento qualitativo sustentado.
O artigo está estruturado em cinco seções, além desta introdução. A Seção 2 apresenta o enquadramento teórico. A Seção 3 descreve os procedimentos metodológicos. A Seção 4 apresenta e discute os resultados, articulando o panorama global e nacional, a trajetória piauiense, a metodologia de Garagorry, o Eixo Gravitacional Territorial, o Valor Bruto de Produção, o paradoxo do crescimento horizontal, os elos da cadeia e as diretrizes estratégicas e cenários futuros. A Seção 5 tece as considerações finais.
2. ENQUADRAMENTO TEÓRICO
A análise de uma cadeia produtiva com as características da ovinocultura piauiense, que se caracteriza por ser atividade fortemente territorializada, com baixa estruturação industrial e elevada dependência da agricultura familiar, exige instrumentos conceituais capazes de articular três dimensões interdependentes: a estrutura sistêmica da cadeia, os mecanismos de coordenação entre seus agentes e a inscrição espacial da atividade. Este artigo mobiliza três campos teóricos complementares.
2.1. A Perspectiva dos Sistemas Agroindustriais Brasileiros
A noção de sistema agroindustrial (SAG), desenvolvida pela escola brasileira inaugurada por Zylbersztajn e Neves, concebe o agronegócio como conjunto articulado de operações de produção, transformação, distribuição e consumo, mediado por instituições reguladoras, organizações de apoio e estruturas de governança (NEVES, 2018). Aplicada à ovinocultura, essa perspectiva permite identificar sete elos verticais: insumos, genética, produção primária, assistência técnica, abate e processamento, distribuição e comercialização, e consumo final; e quatro estruturas transversais: o aparato regulatório sanitário, o sistema de crédito rural, as organizações representativas e as políticas públicas setoriais. A obra coletiva organizada por Batalha (2016) sobre gestão agroindustrial oferece método sistemático para essa análise, sustentado em mapeamento de agentes, fluxos e gargalos estruturais.
Contribuição relevante para a aplicação dessa abordagem à pecuária familiar nordestina vem de Caleman e Zylbersztajn (2012), que demonstram que, em cadeias com baixa estruturação industrial, a relação entre elos não se dá predominantemente por contratos formais, mas por arranjos institucionais informais cuja eficiência depende de mecanismos sociais de reputação, redes de confiança e proximidade geográfica. Este é um achado que tem implicação direta para a ovinocultura piauiense à medida em que a substituição de arranjos informais por estruturas mais formalizadas não pode prescindir da consideração dos custos de transição entre os dois modelos, sob pena de gerar desestruturação setorial em vez de modernização.
2.2. Coordenação Setorial e Estratégias de Diferenciação
O segundo eixo conceitual concerne aos mecanismos de coordenação entre agentes e às estratégias de diferenciação competitiva. Farina (1999) argumenta que, em cadeias agroalimentares contemporâneas, a competitividade não decorre apenas da eficiência produtiva isolada de cada agente, mas sobretudo da qualidade da coordenação entre os elos. A ovinocultura piauiense, no seu estado atual, opera com baixíssima coordenação - produtores não se articulam sistematicamente com abatedouros, que não se articulam com distribuidores -, configurando o que se poderia chamar de cadeia sem espinha dorsal, cuja consequência mais visível é a captura de margens significativas por atravessadores.
Saes (2009) demonstra que, em mercados de commodities, os produtores capturam parcela diminuta do valor gerado pela cadeia, com a maior parte do excedente apropriada por intermediários e varejistas; a construção de estratégias de diferenciação por meio de denominação de origem, indicações geográficas e marcas territoriais permite reposicionar produtos primários em segmentos de maior valor agregado. A ovinocultura piauiense, hoje posicionada como produtora de commodity indiferenciada, dispõe de espaço considerável para essa movimentação. Bialoskorski Neto (2014) identifica três funções centrais dos arranjos cooperativos em cadeias com baixa estruturação industrial: agregação de oferta, internalização de elos e construção coletiva de capital social. Estas estratégias já estão sendo experimentadas pontualmente no Piauí (Coovita, QCordeiro, Ascobina, Ascobetânia, Apicovi) e já demonstram ser viáveis, ainda que de alcance limitado.
2.3. Desenvolvimento Territorial e a Metodologia de Garagorry
O terceiro eixo situa-se no desenvolvimento territorial rural. A virada territorial dos estudos sobre desenvolvimento rural no Brasil deslocou o foco analítico das atividades isoladas para os espaços em que se inscrevem, concebendo o território como construção social ativa, dotada de história, identidade e capital social (SCHNEIDER; CAZELLA, 2018). No Piauí, essa perspectiva ganha materialidade legal na divisão do Estado em 12 Territórios de Desenvolvimento, instituída pela Lei Complementar nº 87/2007 e ratificada pela Lei nº 6.967/2017.
Para operacionalizar essa perspectiva, mobiliza-se a metodologia de Garagorry e Chaib Filho (2008), que ordena os municípios pelo tamanho do rebanho, em ordem decrescente, agrupando-os em quatro quartis, cada qual reunindo o conjunto de municípios necessário para somar aproximadamente 25% da produção total. Em cadeias espacialmente concentradas, poucos municípios formam o primeiro quartil; em cadeias dispersas, muitos municípios são necessários para alcançar o limiar. Aplicada à ovinocultura piauiense, a metodologia revelará padrão de concentração espacial dos mais agudos em cadeias agropecuárias estaduais, resultado detalhado na Seção 4. A coincidência entre a geografia do bioma Caatinga e a geografia dos polos ovinos mais densos do Estado não é casual, mas resulta de longa história de coadaptação entre raças deslanadas e o ambiente semiárido, processo que produziu animais rústicos, resistentes a parasitas e capazes de extrair valor nutricional de pastagens nativas (NOGUEIRA FILHO; KASPRZYKOWSKI, 2018).
3. METODOLOGIA
Trata-se de estudo descritivo-analítico, de natureza quantitativa e qualitativa, sobre a cadeia produtiva da ovinocultura de corte no Estado do Piauí, no quinquênio 2020-2024. A principal base de dados é a Pesquisa da Pecuária Municipal (PPM) do IBGE, em suas edições de 2020 a 2024, com dados consolidados divulgados em 2025. Complementarmente, recorreu-se ao Censo Agropecuário 2017, à base FAOSTAT e a estudos técnicos da Embrapa Caprinos e Ovinos e do Banco do Nordeste do Brasil.
A unidade de análise territorial adotada são os 12 Territórios de Desenvolvimento do Piauí, instituídos pela Lei Complementar nº 87/2007, em consonância com a prática de planejamento do Governo do Estado. As análises por Território resultam de cruzamento próprio entre os microdados municipais da PPM e o mapa territorial vigente da Secretaria de Estado do Planejamento do Piauí (SEPLAN-PI).
Para o diagnóstico da concentração espacial da atividade, aplicou-se a metodologia de Garagorry (GARAGORRY; CHAIB FILHO, 2008) aos 224 municípios piauienses, com base nos dados da PPM 2024, classificando-os em quatro quartis por contribuição acumulada ao rebanho estadual. Complementarmente, calculou-se a densidade técnica (cabeças por quilômetro quadrado) de cada município, cruzando o efetivo da PPM 2024 com a área territorial oficial do IBGE. Estimou-se, ainda, o Valor Bruto de Produção (VBP) da cadeia a partir do efetivo total e de preço de referência regional para ovino vivo (R$ 350,00 por cabeça, peso médio de 35 kg), e calculou-se o coeficiente de correlação entre o crescimento do efetivo e o crescimento do número de estabelecimentos produtivos no quinquênio, a partir dos microdados municipais da PPM e do Censo Agropecuário do IBGE, para diagnosticar o padrão de crescimento horizontal versus vertical da atividade.
A análise dos elos da cadeia produtiva seguiu abordagem qualitativa, sistematizando informações de fontes secundárias (relatórios técnicos da Embrapa, do Banco do Nordeste do Brasil e da Câmara Setorial da Ovinocaprinocultura do Piauí) sobre insumos, genética, sanidade, assistência técnica, crédito, abate e comercialização. As diretrizes estratégicas e os cenários futuros foram construídos por triangulação entre o diagnóstico quantitativo, a literatura especializada e as demandas historicamente reiteradas pelos agentes da cadeia, organizadas em dois blocos de atores (setor público e iniciativa privada) e três horizontes temporais (curto, médio e longo prazo).
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
4.1. Panorama Global e Nacional da Ovinocultura de Corte
O rebanho ovino mundial (Tabela 1) ultrapassa a marca de 1,3 bilhão de cabeças, com a China consolidada como maior efetivo do planeta (183 milhões de cabeças em 2023), seguida por Índia, Austrália, Irã e Nigéria - cinco países que, juntos, detêm cerca de 45% do efetivo mundial (FAO, 2024). O Brasil, com 21,9 milhões de cabeças em 2024, figura como 18º produtor mundial, participação inferior a 1,7% do rebanho global, e mantém-se importador líquido de carne ovina, suprido majoritariamente por Uruguai, Chile e Argentina. A Austrália, líder mundial em exportações - mais de 70% do comércio global em conjunto com a Nova Zelândia -, oferece modelo institucional relevante: a Meat & Livestock Australia (MLA), corporação financiada por contribuição compulsória de produtores e processadores, demonstra que coordenação setorial robusta pode ser construída em cadeias amplas mediante arranjos institucionais bem desenhados, ainda que sem estrutura oligopolizada.
Tabela 1. Efetivo de rebanho ovino nos principais países produtores do mundo (cabeças) - 2010-2023
País | 2010 | 2012 | 2014 | 2015 | 2016 | 2023 |
China | 134.021.218 | 139.615.720 | 150.017.440 | 158.490.227 | 162.062.703 | 183.000.000 |
Índia | 67.744.000 | 65.069.189 | 63.000.000 | 62.216.630 | 63.016.181 | 115.000.000 |
Austrália | 68.085.496 | 74.721.552 | 72.612.000 | 70.909.812 | 67.543.092 | 79.300.000 |
Irã | 47.591.000 | 46.212.000 | 31.420.569 | 44.731.757 | 42.501.987 | 53.800.000 |
Nigéria | 35.519.760 | 39.335.424 | 41.284.022 | 41.632.158 | 42.091.042 | 52.100.000 |
Chade | - | - | - | - | - | 45.200.000 |
Turquia | 21.794.508 | 25.031.564 | 29.284.247 | 31.140.244 | 31.507.934 | 44.100.000 |
Etiópia | 25.509.004 | 25.489.204 | 29.332.382 | 28.892.380 | 30.697.942 | 41.100.000 |
Sudão | 14.816.887 | 15.700.000 | 39.846.000 | 40.210.000 | 40.552.860 | 40.700.000 |
Paquistão | 27.757.000 | 28.418.000 | 29.095.000 | 29.440.000 | 29.800.000 | 32.700.000 |
Brasil | 17.380.581 | 16.789.492 | 17.614.454 | 18.410.551 | 18.433.810 | 21.900.000 |
Fonte: Dados 2010-2016 adaptados de Embrapa/CIM; dados 2023 compilados de FAOSTAT/World Population Review (2023). Nota: (-) indica ausência de dados históricos comparáveis.
No plano nacional, a Região Nordeste concentra 73,52% do rebanho ovino brasileiro em 2024, ante 70,59% em 2020, ao passo que o Rio Grande do Sul, historicamente líder, recuou de 18,73% para 17,48% no mesmo período, inversão de tendências com implicações estratégicas relevantes. A Tabela 2 detalha essa dualidade regional.
Tabela 2. Efetivo de ovinos por Grande Região - Brasil - 2020 e 2024
Região | Rebanho 2020 (cab.) | % 2020 | Rebanho 2024 (cab.) | % 2024 |
Nordeste | 14.561.928 | 70,59 | 16.073.727 | 73,52 |
Sul | 3.864.369 | 18,73 | 3.821.746 | 17,48 |
Centro-Oeste | 1.014.619 | 4,92 | 762.551 | 3,49 |
Sudeste | 616.517 | 2,99 | 533.970 | 2,44 |
Norte | 571.266 | 2,77 | 670.332 | 3,07 |
Brasil (Total) | 20.628.699 | 100,00 | 21.862.326 | 100,00 |
Fonte: IBGE, Pesquisa da Pecuária Municipal (PPM), Tabela 3939, 2020 e 2024.
No ranking estadual, Bahia (23,51%), Pernambuco (18,02%), Rio Grande do Sul (13,61%), Ceará (12,35%) e Piauí (8,45%) concentram, juntos, mais de 65% do rebanho nacional em 2024. A Tabela 3 detalha os cinco maiores produtores.
Tabela 3. Os cinco maiores estados produtores de ovinos - Brasil - 2020 e 2024
Estado | Rebanho 2020 (cab.) | % 2020 | Rebanho 2024 (cab.) | % 2024 |
Bahia | 4.703.343 | 22,80 | 5.140.794 | 23,51 |
Pernambuco | 3.300.592 | 16,00 | 3.940.562 | 18,02 |
Rio Grande do Sul | 2.949.904 | 14,30 | 2.975.221 | 13,61 |
Ceará | 2.454.815 | 11,90 | 2.700.000 | 12,35 |
Piauí | 1.712.182 | 8,30 | 1.848.381 | 8,45 |
Fonte: IBGE, Pesquisa da Pecuária Municipal (PPM), dados consolidados por estado, 2020 e 2024.
A comparação entre os quatro estados líderes revela diferença qualitativa relevante: Bahia e Pernambuco investiram, ao longo das últimas décadas, em maior profissionalização, com centros de melhoramento genético consolidados; o Rio Grande do Sul enfrenta retração estrutural da ovinocultura lanígera; e o Ceará conta com proximidade institucional da Embrapa Caprinos e Ovinos. O Piauí, em contraste, apresenta plantéis ainda predominantemente tradicionais, com infraestrutura de abate insuficiente e baixa estruturação cooperativa, mas dispõe de ativo territorial particular que o singulariza. Significa dizer que enquanto Bahia e Pernambuco apresentam rebanhos amplamente distribuídos por seus territórios, o Piauí concentra parcela substancial de sua produção em corredor geográfico claramente delimitado, com epicentro no Eixo Gravitacional Territorial (Vale do Guaribas, Chapada Vale do Itaim, Vale do Canindé e Serra da Capivara), ativo estratégico central para as diretrizes propostas neste artigo.
4.2. Trajetória e Distribuição Territorial do Rebanho Piauiense
A trajetória recente da ovinocultura piauiense é de aceleração contínua: o efetivo estadual passou de 1.705.154 cabeças em 2020 para 1.848.381 em 2024, incremento acumulado de 143.227 cabeças, ou 8,40% no quinquênio, expansão ligeiramente superior à observada na caprinocultura piauiense no mesmo período (7,82%), sugerindo dinâmica de mercado ligeiramente mais robusta para a carne ovina, notadamente na categoria do cordeiro (Tabela 4).
Tabela 4. Série histórica do efetivo ovino do Piauí (2020-2024)
Ano | Efetivo (cabeças) | Variação anual |
2020 | 1.705.154 | - |
2021 | 1.737.799 | 1,91% |
2022 | 1.772.628 | 2,00% |
2023 | 1.809.805 | 2,10% |
2024 | 1.848.381 | 2,13% |
Fonte: IBGE/PPM, 2020-2024.
O crescimento estadual sintetiza trajetórias territorialmente diferenciadas (Grafico 1). Todos os 12 Territórios de Desenvolvimento cresceram no quinquênio, com taxas entre 7,50% (Vale dos Rios Piauí e Itaueira) e 9,37% (Carnaubais), mas quatro Territórios contíguos (Vale do Rio Guaribas, Serra da Capivara, Vale do Canindé e Chapada Vale do Itaim) concentram, em 2024, mais de 64% do rebanho estadual, configurando o que se pode chamar de cinturão ovino piauiense, eixo geográfico contínuo que atravessa o coração do semiárido estadual. Em contraste, a Planície Litorânea responde por apenas 1,61% do rebanho e os Tabuleiros do Alto Parnaíba por 0,43%, territórios de vocação voltada a outras cadeias (pesca, fruticultura, grãos).
Gráfico 1. Série histórica do efetivo ovino no Piauí (2020-2024)
4.3. A Metodologia de Garagorry: Hiperconcentração Espacial
Aplicada aos 224 municípios piauienses com base na PPM 2024, a metodologia de Garagorry produz a distribuição apresentada na Tabela 5, um dos padrões de concentração espacial mais agudos em cadeias agropecuárias estaduais.
Tabela 5. Distribuição dos municípios piauienses por quartil de Garagorry - ovinos (PPM 2024)
Quartil | Nº de municípios | Efetivo acumulado | % do Estado |
Q1 (Especializados) | 10 | 473.349 | 25,61 |
Q2 (Consolidados) | 21 | 464.742 | 25,14 |
Q3 (Intermediários) | 38 | 450.127 | 24,35 |
Q4 (Dispersos) | 155 | 460.163 | 24,90 |
TOTAL | 224 | 1.848.381 | 100,00 |
Fonte: Elaboração própria a partir de IBGE/PPM 2024, com aplicação da metodologia de Garagorry.
Apenas 10 municípios (4,5% do total) produzem mais de um quarto do rebanho ovino estadual, enquanto 155 municípios (69,2% do total) somam, conjuntamente, apenas outro quarto, ou seja, cada município do Q1 produz, em média, o equivalente a aproximadamente 16 municípios do Q4. Essa concentração pode ser lida também pela dimensão territorial: os 10 municípios do Q1 ocupam apenas 18.500 km2 (7,3% do território estadual), enquanto os 155 municípios do Q4 ocupam cerca de 145.000 km2 (57% do território) - parcela do território correspondente a 7% concentra a mesma produção que parcela equivalente a 57%. Em comparação com a caprinocultura piauiense, em que o Q1 reúne 12 municípios e o Q4 reúne 153, a ovinocultura apresenta concentração ainda mais aguda, com epicentros mais nítidos e periferias mais marginais. Este achado sugere que a focalização territorial das ações é particularmente promissora nessa cadeia. A Tabela 6 detalha os dez municípios do Quartil 1.
Tabela 6. Quartil 1: os dez municípios-motores da ovinocultura piauiense (PPM 2024)
Município | Território de Desenvolvimento | Efetivo (cab.) | % Est. |
Jacobina do Piauí | TD12 - Chapada Vale do Itaim | 72.531 | 3,92 |
Paulistana | TD12 - Chapada Vale do Itaim | 68.221 | 3,69 |
Dom Inocêncio | TD8 - Serra da Capivara | 60.320 | 3,26 |
Acauã | TD12 - Chapada Vale do Itaim | 53.442 | 2,89 |
Pio IX | TD6 - Vale do Rio Guaribas | 43.184 | 2,34 |
Queimada Nova | TD12 - Chapada Vale do Itaim | 39.394 | 2,13 |
Dirceu Arcoverde | TD8 - Serra da Capivara | 37.409 | 2,02 |
Simões | TD6 - Vale do Rio Guaribas | 37.094 | 2,01 |
Campo Maior | TD3 - Carnaubais | 31.309 | 1,69 |
Caridade do Piauí | TD6 - Vale do Rio Guaribas | 30.445 | 1,65 |
TOTAL DO Q1 | - | 473.349 | 25,61 |
Fonte: Elaboração própria a partir de IBGE/PPM 2024 e SEPLAN-PI.
Quatro padrões merecem destaque. O primeiro é a liderança absoluta e singular de Jacobina do Piauí: com 72.531 cabeças (3,92% do rebanho estadual), o município combina volume expressivo com densidade técnica extrema (91,52 ovinos por quilômetro quadrado em apenas 792,5 km2, 12,5 vezes a média estadual de 7,34 cabeças/km2), patamar raramente observado em cadeias ovinas estaduais brasileiras. O segundo padrão destacado é a concentração geográfica do Q1 em apenas quatro Territórios: dois municípios na Serra da Capivara (Dom Inocêncio, Dirceu Arcoverde), quatro na Chapada Vale do Itaim (Jacobina do Piauí, Paulistana, Acauã, Queimada Nova), três no Vale do Rio Guaribas (Pio IX, Simões, Caridade do Piauí) e um único no Carnaubais (Campo Maior). Nenhum dos demais oito Territórios alcança o Quartil 1.
O terceiro padrão é a contiguidade espacial que configura o Eixo Gravitacional Territorial: dois municípios, separados por apenas 25 km em linha reta, respondem conjuntamente por 140.752 cabeças (7,61% do rebanho estadual) em área de apenas 2.500 km2 (cerca de 1% do território estadual). Em torno desse eixo configurou-se constelação de municípios de elevada densidade (Acauã, Queimada Nova, Caridade do Piauí, Betânia do Piauí), que somados totalizam aproximadamente 287.000 cabeças (15,5% do rebanho estadual) em pequena fração do território, e a microrregião ampliada de quatro Territórios contíguos (Vale do Guaribas, Vale do Itaim, Vale do Canindé e Serra da Capivara) concentra isoladamente cerca de 779.329 cabeças, ou 42,16% do rebanho ovino estadual, o que permite afirmar a existência de uma verdadeira microrregião ovina dentro do Piauí. Os fatores explicativos são edafoclimáticos (vegetação de Caatinga típica, relevo plano a suavemente ondulado), histórico-culturais (tradição colonial transmitida intergeracionalmente), socioeconômicos (baixa diversificação econômica local) e de mercado (proximidade com Paulistana, Picos e São João do Piauí).
O quarto padrão é a exceção de Campo Maior, único município do Q1 fora do cinturão sudeste, situado no Território Carnaubais, em ambiente de transição cerrado-caatinga e tradição produtiva ancorada na bovinocultura, evidência de que a ovinocultura piauiense, embora concentrada no semiárido sudeste, dispõe de núcleos de expressão em outras regiões. Esse eixo gravitacional tem implicações estratégicas diretas: viabiliza investimentos focalizados em abatedouros e centros de melhoramento genético, permite construção de identidade territorial (marca como cordeiro da Caatinga e/ou da Serra da Capivara) e facilita arranjos cooperativos de escala, dada a proximidade física dos produtores.
4.4. Densidade Técnica e o Paradoxo da Extensão Territorial
A análise por densidade técnica qualifica o diagnóstico por volume absoluto. Jacobina do Piauí lidera também nessa dimensão (91,52 cabeças/km2), mas Dom Inocêncio, terceiro maior produtor estadual em volume, com 60.320 cabeças, sequer figura entre os dez municípios de maior densidade, com apenas 15,58 cabeças/km2, reflexo de sua vasta extensão territorial (3.870 km2, quase cinco vezes a área de Jacobina). O volume absoluto, isoladamente considerado, pode ser indicador enganoso da intensidade produtiva real: municípios com territórios reduzidos, como Caridade do Piauí (décimo em volume, mas segundo em densidade, com 68,83 cabeças/km2 em apenas 442 km2), revelam padrão que se poderia chamar de microconcentrado, distinto do padrão extensivo de Dom Inocêncio. A totalidade dos dez municípios de maior densidade situa-se no semiárido sudeste, confirmando, por via complementar, a centralidade desse corredor geográfico para a ovinocultura estadual.
4.5. O Impacto Financeiro: Valor Bruto de Produção
Uma dimensão frequentemente ausente das análises setoriais é a estimativa do Valor Bruto de Produção (VBP), montante financeiro total movimentado anualmente pela cadeia. Considerando o efetivo de 1.848.381 cabeças e preço médio regional de referência de R$ 350,00 por cabeça viva (peso médio de 35 kg), obtém-se VBP da ordem de R$ 646,9 milhões, aproximando-se da casa dos R$ 700 milhões anuais quando se consideram variações de preço por categoria animal e sazonalidade de mercado. Se trata de uma cadeia produtiva que movimenta, portanto, montante financeiro expressivo em economias interioranas de pequeno porte.
A relevância desse número está, sobretudo, em sua distribuição territorial: o capital gerado circula quase exclusivamente no comércio interiorano dos municípios do eixo Jacobina, Paulistana, Betânia do Piauí, Acauã, Dirceu Arcoverde e Dom Inocêncio, atuando como âncora financeira de comunidades rurais com poucas alternativas de geração de renda. Esse VBP, contudo, é capturado de modo desigual pelos elos da cadeia: estimativas conservadoras sugerem que o produtor primário captura entre 30% e 40% do valor final do produto, proporção inferior à observada em cadeias mais estruturadas, com a diferença apropriada por atravessadores, abatedouros informais, distribuidores e varejistas. Complementarmente, a média estadual de aproximadamente 30 cabeças por estabelecimento contrasta com municípios líderes como Jacobina do Piauí (cerca de 87 cabeças/estabelecimento), Acauã (77) e Dirceu Arcoverde (69), pontos fora da curva que sinalizam transição gradual do perfil de subsistência para o perfil comercial nos polos especializados.
4.6. O Paradoxo 0,89: Crescimento Horizontal Versus Vertical
Uma das constatações analiticamente mais relevantes sobre a ovinocultura piauiense no quinquênio refere-se ao padrão de seu crescimento. Análises de correlação a partir dos microdados municipais da PPM e do Censo Agropecuário revelam coeficiente de aproximadamente 0,89 entre o aumento de cabeças e o aumento do número de propriedades ovinas. Ou seja, o crescimento do rebanho decorreu majoritariamente do aumento do número de estabelecimentos produtivos, e não do aumento do tamanho médio dos plantéis existentes.
Esse padrão comporta dupla leitura, com implicações estratégicas em sentidos opostos. De um lado, dimensão positiva: a ovinocultura tem atuado como mecanismo efetivo de inclusão produtiva no semiárido, atraindo novas famílias e contribuindo para a fixação da população rural em regiões historicamente sujeitas a êxodo. De outro, dimensão crítica: o crescimento majoritariamente horizontal implica que ganhos por intensificação tecnológica (peso médio de carcaça, redução da idade ao abate, taxa de natalidade, qualidade genética por hectare) permanecem comparativamente modestos. A ovinocultura piauiense expandiu-se mais por extensão que por aprofundamento, e o próximo ciclo de desenvolvimento deverá pautar-se prioritariamente pela intensificação vertical, sem prejuízo da continuidade do crescimento horizontal característico da agricultura familiar.
4.7. Os Elos da Cadeia Produtiva: Gargalos e Potencialidades
A análise funcional dos elos da cadeia ovina piauiense revela quadro heterogêneo, em grande medida análogo ao observado na caprinocultura estadual, mas com particularidades próprias da espécie que merecem tratamento diferenciado. Essa heterogeneidade não é apenas descritiva: ela reflete uma lógica de desenvolvimento desigual em que os elos mais próximos da produção primária (insumos, genética) avançaram de forma mais consistente do que os elos a jusante (processamento, comercialização), configurando um padrão de "gargalo de saída" que penaliza desproporcionalmente os produtores dos Territórios de Desenvolvimento mais distantes dos polos de abate.
No elo de insumos, a dependência de milho e farelo de soja para complementação alimentar em períodos de estiagem esbarra na volatilidade de preços internacionais desses commodities, volatilidade que se transmite ao custo de produção do cordeiro com maior intensidade nos municípios de Q3 e Q4, onde a menor escala de produção reduz o poder de barganha dos criadores junto a fornecedores. Essa vulnerabilidade sistêmica reforça a centralidade de estratégias de autossuficiência alimentar baseadas em recursos locais: investimentos em armazenamento de forragem (silagem, fenação, bancos de proteína com leguminosas como leucena e gliricídia) e em infraestrutura hídrica (cisternas, açudes, barreiros) constituem agenda prioritária não apenas por razão técnica, mas como mecanismo de desacoplamento parcial da cadeia produtiva local frente a choques de preço externos.
No elo de genética, a Santa Inês constitui base predominante dos rebanhos comerciais, com penetração crescente da Dorper em cruzamentos que produzem cordeiros de ganho de peso mais acelerado e maior rendimento de carcaça, atributos que respondem diretamente à demanda de mercados que remuneram peso de carcaça e precocidade de abate. Persiste, contudo, predominância de animais sem padronização racial (SRD) nos municípios do Q3 e Q4, configurando um duplo obstáculo: de um lado, a heterogeneidade genética compromete a padronização do produto final exigida por circuitos comerciais mais estruturados; de outro, a transferência efetiva da genética melhorada aos rebanhos comerciais esbarra em custo de aquisição e necessidade de acompanhamento técnico especializado, o que tende a aprofundar - e não reduzir - a distância produtiva entre polos de Q1 e periferias de Q4, caso a política pública não seja deliberadamente redistributiva. Nesse sentido, o programa estadual Mais Genética, em execução, carece ainda de conexão sistemática com os elos de sanidade e nutrição: sem manejo sanitário e nutricional adequado, o ganho genético potencial não se converte em ganho zootécnico efetivo, e o investimento em melhoramento corre o risco de gerar retorno decrescente.
No elo sanitário, o desafio central é o controle das verminoses gastrintestinais causadas por Haemonchus contortus, agravado pela resistência crescente aos anti-helmínticos convencionais decorrente do uso indiscriminado de vermífugos sem rotação de princípios ativos, um problema que se autorreforça, já que o insucesso terapêutico costuma induzir o produtor a aumentar a frequência de aplicação, acelerando a seleção de populações parasitárias resistentes. A reversão desse quadro exige manejo integrado de parasitas (monitoramento com técnica FAMACHA, tratamento seletivo, rotação de princípios ativos, manejo de pastagens), abordagem que demanda capacitação técnica continuada e, por isso, depende diretamente da capilaridade da assistência técnica, elo que, como discutido adiante, é hoje o mais frágil da cadeia. O Piauí mantém status de Estado Livre de Febre Aftosa com Vacinação, ativo institucional relevante para inserção em mercados externos ao Estado, embora esse status sanitário macro não elimine os desafios de sanidade intra-rebanho que afetam diretamente a produtividade e a mortalidade de cordeiros.
No elo de assistência técnica, a EMATER, recentemente incorporada pela SADA, opera com quadro técnico insuficiente para os 224 municípios, o que se traduz em cobertura desigual que tende a coincidir, não por acaso, com a própria estratificação em quartis: municípios de Q1 e Q2, por concentrarem maior efetivo e maior organização produtiva, tendem também a atrair prioritariamente a atenção técnica disponível, em um ciclo que retroalimenta a assimetria territorial. A solução mais promissora permanece o arranjo híbrido entre setor público, prestadores privados e terceiro setor (SEBRAE, SENAR, SESCOOPI), capaz de multiplicar a capilaridade da assistência sem depender exclusivamente da expansão do quadro estatal, modelo que exige, todavia, coordenação institucional ainda incipiente no Estado.
No elo de crédito, o ciclo produtivo mais curto do cordeiro (abate entre 5 e 8 meses) representa vantagem técnica ainda pouco aproveitada pelos produtos financeiros disponíveis, dimensionados para ciclos típicos de bovinocultura ou lavouras. Essa incompatibilidade entre o desenho dos instrumentos de crédito rural e o ciclo real da atividade gera um descasamento de prazos e carências que penaliza especificamente o pequeno produtor ovinocultor, forçando-o a recorrer a capital de giro informal ou a postergar investimentos em melhoria genética e sanitária, reforçando, por via financeira, os mesmos gargalos já identificados nos elos anteriores.
O elo de abate e processamento permanece o mais crítico da cadeia: a infraestrutura credenciada é subdimensionada nos polos do Quartil 1, o que obriga parte da produção a ser comercializada informalmente ou a percorrer distâncias que corroem a margem do produtor. A configuração geográfica concentrada do eixo gravitacional dos 4 territórios de desenvolvimento favorece, entretanto, a viabilidade técnica e econômica de uma rede regional de abate e não apenas de unidades isoladas, o que justifica a priorização conferida pela Câmara Setorial a Betânia do Piauí para instalação de frigorífico de médio porte, em fase de conclusão, complementar ao abatedouro já em operação em Queimada Nova, distante 130 km. A lógica de rede, em vez de unidades dispersas, é relevante porque permite economias de escala na logística de coleta e maior poder de negociação conjunta junto a compradores institucionais.
No elo de comercialização, circuitos informais ainda dominam, com atravessadores desempenhando funções logísticas e financeiras que, em cadeia mais estruturada, seriam absorvidas por cooperativas, como demonstram as experiências da Coovita, da QCordeiro, da Ascobina, da Ascobetânia, da Apicovi e da Ascamcco (Campo Maior). A permanência do atravessador não deve ser lida apenas como falha de mercado, mas como resposta funcional a uma lacuna real de crédito, logística e informação de preços que as cooperativas ainda não conseguem preencher em escala suficiente, o que aponta para a necessidade de políticas de fortalecimento cooperativo que ataquem diretamente essas três lacunas, e não apenas a dimensão associativa formal.
Por fim, a Câmara Setorial da Ovinocaprinocultura, instalada em 2003, constitui elo transversal cuja consolidação institucional é condição para que os demais elos avancem de modo coordenado. Sua atuação recente na priorização de Betânia do Piauí para o novo frigorífico é indicativa do potencial de coordenação intersetorial que a instância pode exercer, desde que dotada de capacidade técnica e orçamentária permanente, e não apenas de caráter consultivo esporádico.
4.8. Temáticas Emergentes: Clima, Bem-Estar Animal e Digitalização
Três temáticas emergentes devem reposicionar a ovinocultura piauiense nas próximas décadas e o fazem por razões que se articulam entre si: a crise climática redefine o valor estratégico da espécie; a agenda de bem-estar animal redefine seu valor de mercado; e a digitalização redefine sua capacidade de acesso a mercados mais exigentes. Tomadas em conjunto, essas três forças convergem para um mesmo vetor: o de transformar a ovinocultura piauiense de atividade tradicionalmente marginal em ativo estratégico de adaptação territorial e inserção comercial qualificada.
A crise climática, com intensificação de estiagens projetada para o Nordeste, reposiciona conceitualmente a ovelha deslanada, historicamente adaptada à irregularidade pluviométrica da Caatinga, passando de atividade marginal para atividade estratégica de adaptação. Essa reavaliação não é meramente simbólica: ela tem implicação direta sobre a alocação de investimento público, já que justifica tratar sistemas silvopastoris (gliricídia, leucena, palma forrageira, moringa) não como tecnologia acessória, mas como infraestrutura produtiva de primeira ordem, capaz de sustentar a atividade justamente nos cenários climáticos mais adversos em que outras cadeias pecuárias tendem a perder competitividade relativa. Há, nesse sentido, uma oportunidade de posicionamento da ovinocultura piauiense como resposta regional a um problema que tende a se agravar, e não a se estabilizar, ao longo da próxima década.
A agenda de bem-estar animal e sustentabilidade encontra, na ovinocultura piauiense - predominantemente extensiva, sem confinamento intensivo, com baixo uso de antibióticos -, um perfil produtivo que já nasce alinhado a padrões contemporâneos valorizados por mercados premium, sem que isso exija reconversão radical do sistema produtivo vigente, ao contrário do que ocorreria em cadeias intensivas que precisariam se adaptar retroativamente a essas exigências. Esse alinhamento espontâneo constitui vantagem competitiva pouco explorada, sobretudo quando associado ao potencial de aproveitamento integral do animal (carne, peles para a tradicional indústria coureira piauiense, vísceras para culinária regional, esterco), que amplia a rentabilidade por cabeça abatida e reforça a sustentabilidade econômica da cadeia sem depender exclusivamente do preço da carne.
Por fim, a digitalização e a rastreabilidade permanecem incipientes, restritas a pioneirismos pontuais em Betânia do Piauí, Jacobina do Piauí, Paulistana e Acauã, e dependem de investimentos em conectividade rural que extrapolam a governança setorial da ovinocaprinocultura e remetem a políticas mais amplas de infraestrutura digital no interior do Estado. Essa é, entre as três temáticas emergentes, a que apresenta o maior descompasso entre potencial e realidade corrente: enquanto a adaptação climática e o bem-estar animal já encontram na ovinocultura piauiense condições estruturais favoráveis, a digitalização exige construção de capacidade praticamente do zero. A urgência dessa agenda é particularmente relevante dado que mercados internacionais de maior poder aquisitivo (Estados Unidos, União Europeia, mercado Halal do Oriente Médio) exigem sistemas de rastreabilidade plenamente operacionais como condição de acesso, o que significa que, sem avanço nesse elo, os ganhos obtidos nos demais elos da cadeia (genética, sanidade, bem-estar) permanecerão confinados ao mercado interno, incapazes de se traduzir em prêmio de preço nos mercados externos que mais valorizariam justamente esses atributos.
4.9. Diretrizes Estratégicas e Cenários Futuros
A convergência das análises anteriores sustenta diretrizes estratégicas organizadas em dois blocos de agentes e três horizontes temporais. No bloco público, destacam-se: programa estadual de melhoramento genético ovino, com banco de reprodutores das raças Santa Inês e Dorper com prioridade inicial para o eixo gravitacional composto pelos territórios TD6, TD7, TD8, TD12; modelo territorialmente diferenciado de ATER, com conteúdo técnico específico (manejo nutricional semiárido, controle integrado de parasitas, manejo reprodutivo estacionário); rede estadual de abatedouros credenciados, com prioridade para o Eixo Gravitacional Territorial e unidades complementares em Picos, São Raimundo Nonato e Floriano; linhas de crédito específicas, com prazos compatíveis ao ciclo do cordeiro; inclusão sistemática da carne ovina em compras governamentais; e construção da identidade territorial, com possibilidade de pleito de Indicação Geográfica para o “Cordeiro do Piauí” ou “Cordeiro do “Sertão.
No bloco privado, destacam-se o fortalecimento da Câmara Setorial, a expansão e profissionalização de cooperativas (com atenção particular aos municípios do Q3 e Q4), a atração de empresas-âncora no segmento de frigoríficos, e o investimento em diferenciação e agregação de valor, incluindo a articulação entre a cadeia ovina e a cadeia coureira piauiense, ainda subaproveitada. O Quadro 1 sintetiza a hierarquização temporal dessas diretrizes.
Quadro 1. Hierarquização temporal das diretrizes estratégicas
Horizonte | Principais diretrizes |
Curto prazo (até 2 anos) | Estruturação institucional do programa genético; modelo de ATER; linhas de crédito; compras governamentais (fase inicial); fortalecimento da Câmara Setorial |
Médio prazo (3 a 5 anos) | Operação plena do programa genético; escalabilidade da ATER; implantação de abatedouros; consolidação do crédito; construção da marca Cordeiro da Caatinga; expansão das organizações de produtores; atração de empresas-âncora |
Longo prazo (acima de 5 anos) | Consolidação operacional dos abatedouros; consolidação da marca e pleito de Indicação Geográfica; consolidação das empresas-âncora; diferenciação e agregação de valor |
Fonte: Elaboração própria.
A confrontação entre dois cenários projetados para a próxima década ilumina o que está em jogo nessas escolhas. No cenário tendencial, mantém-se a trajetória atual de crescimento moderado (1,5% a 2,5% ao ano), alcançando entre 2,2 e 2,4 milhões de cabeças em 2034, com perpetuação do paradoxo 0,89 configurando o predomínio do crescimento horizontal sobre o vertical e da infraestrutura de abate evoluindo lentamente: é o cenário do crescimento sem desenvolvimento.
No cenário virtuoso, a implementação consistente da agenda de diretrizes produz transformação qualitativa: o efetivo pode alcançar 2,5 a 2,8 milhões de cabeças em 2034, com rede de abatedouros consolidada, genética transformada por programa estadual de melhoramento, marca “Cordeiro do Piauí” ou “Cordeiro do Sertão” consolidada em circuitos urbanos e mercados premium, e exportações iniciais para mercados do Oriente Médio (com certificação Halal) e da União Europeia. A escolha entre os dois cenários concretiza-se em três pontos de inflexão interdependentes: a estruturação do programa de melhoramento genético, a construção da rede de abatedouros credenciados no Eixo Gravitacional Territorial e a consolidação da identidade territorial, com perspectiva de futura Indicação Geográfica. A postergação simultânea da implantação destes instrumentos mantém a atividade prisioneira do padrão de crescimento horizontal que tem caracterizado o quinquênio recente.
5. CONCLUSÃO
Este artigo examinou a cadeia produtiva da ovinocultura de corte no Estado do Piauí no quinquênio 2020-2024, mobilizando microdados oficiais da Pesquisa da Pecuária Municipal do IBGE, a metodologia de Garagorry da Embrapa e referencial conceitual que articula sistemas agroindustriais, coordenação setorial e desenvolvimento territorial. Seis achados centrais emergem da análise.
O primeiro é que a ovinocultura piauiense atravessa ponto de inflexão histórico: o efetivo estadual cresceu 8,40% entre 2020 e 2024, alcançando 1.848.381 cabeças e consolidando a quinta posição nacional e a quarta no Nordeste. O segundo é o padrão de hiperconcentração espacial: apenas 10 municípios respondem por mais de 25% do rebanho estadual, enquanto 155 municípios somam apenas outro quarto. O terceiro é a identificação do Eixo Gravitacional Territorial (TD 6, TD12, TD7 e TD8) como núcleo absoluto da atividade, respondendo por aproximadamente 42% do rebanho estadual. O quarto é a posição singular de Jacobina do Piauí como líder absoluto e simultâneo em volume e densidade técnica (91,52 cabeças/km2, 12,5 vezes a média estadual), caso de estudo com lições potencialmente replicáveis em outros polos. O quinto é a estimativa do Valor Bruto de Produção, próximo de R$ 700 milhões anuais, capital que circula predominantemente no comércio interiorano do semiárido, fortalecendo economias municipais de pequeno porte. O sexto, talvez o mais analiticamente significativo, é o paradoxo 0,89 consubstanciado no predomínio do crescimento horizontal sobre o vertical, sintetizando o ponto de inflexão estratégico em que se encontra a atividade.
Em termos de lacunas, o presente artigo, como o Documento técnico que lhe deu origem, não esgota o quadro da ovinocultura piauiense: pesquisas complementares sobre os elos de comercialização, agregação de valor e exportação são desejáveis, assim como estudos de caso aprofundados sobre o Eixo Gravitacional Territorial e investigação empírica mais fina sobre os determinantes do paradoxo 0,89 em nível de estabelecimento. Em termos de desafios, a transição da ovinocultura piauiense de um padrão de crescimento horizontal para um padrão de intensificação vertical não se realizará automaticamente, pois depende de três pontos de inflexão interdependentes: melhoramento genético, rede de abatedouros credenciados e identidade territorial, cuja postergação simultânea perpetuará o cenário de crescimento sem desenvolvimento qualitativo.
Em termos de oportunidades, a atividade dispõe de bases já consolidadas sobre as quais construir um eixo geográfico em condição de plataforma estratégica, polos densos distribuídos por cinco Territórios de Desenvolvimento, uma Câmara Setorial com mais de duas décadas de existência continuada, instituições de pesquisa e ensino qualificadas, cooperativas e associações pioneiras, um Valor Bruto de Produção que já ultrapassa a casa dos setecentos milhões de reais anuais, e agendas emergentes de adaptação climática, bem-estar animal e digitalização ainda pouco exploradas.
Conclui-se que a próxima fase do desenvolvimento da ovinocultura piauiense exige a superação do paradigma da expansão horizontal, mediante intensificação produtiva nos polos consolidados, agregação de valor por meio de produtos diferenciados e construção de identidade territorial que articule o ovino piauiense aos atributos da Caatinga, tudo isso sustentado por políticas públicas territorialmente diferenciadas, capazes de tratar de modo distinto o eixo gravitacional especializado e os municípios dispersos, e por articulação interinstitucional sustentada entre governos, setor privado, instituições de pesquisa e organizações de produtores ao longo de sucessivos ciclos políticos. A escolha entre o cenário tendencial e o cenário virtuoso não compete a um único agente, mas ao conjunto dos atores da cadeia ovina piauiense, portanto, da qualidade das decisões tomadas no horizonte imediato depende o destino da atividade na década que se inicia.
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2 Eng. Agrônomo, Dr. Economia Aplicada, Pesquisador da Embrapa Caprinos e Ovinos. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-8816-7056. Embrapa Caprinos e Ovinos, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail