REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/781324501
RESUMO
O presente artigo tem como objetivo analisar o pensamento pedagógico de Célestin Freinet e sua inserção no contexto das teorias pedagógicas praticadas no Brasil. A pesquisa discute a trajetória histórica do educador francês, suas influências filosóficas e políticas, bem como os princípios que fundamentam sua proposta educacional. Destaca-se a relação entre a pedagogia freinetiana e as tendências pedagógicas progressistas, especialmente a tendência libertária, evidenciando sua contribuição para a construção de práticas educativas democráticas, cooperativas e socialmente comprometidas. O estudo demonstra que a pedagogia de Freinet permanece atual, influenciando documentos educacionais brasileiros e práticas pedagógicas voltadas à formação crítica e participativa dos estudantes.
Palavras-chave: Célestin Freinet; Pedagogia Freinetiana; Tendências Pedagógicas; Educação Crítica; Educação contemporânea.
ABSTRACT
This article aims to analyze the pedagogical thought of Célestin Freinet and its insertion in the context of educational theories adopted in Brazil. The research discusses the historical trajectory of the French educator, his philosophical and political influences, as well as the principles that support his educational proposal. The study highlights the relationship between Freinetian pedagogy and progressive pedagogical trends, especially the libertarian tendency, demonstrating its contribution to democratic, cooperative and socially committed educational practices. The results indicate that Freinet's pedagogy remains current and continues to influence Brazilian educational policies and pedagogical practices.
Keywords: Célestin Freinet; Freinet Pedagogy; Educational Trends; Critical Education; Contemporary education.
1. INTRODUÇÃO
A educação tem sido historicamente marcada por diferentes concepções pedagógicas que refletem contextos sociais, políticos e econômicos específicos. No Brasil, as tendências pedagógicas foram amplamente estudadas por autores como Libâneo (1992), que as classificou em correntes liberais e progressistas, distinguindo-as a partir de seus objetivos, métodos de ensino, papel da escola e relações entre professores e alunos.
Nesse cenário, destaca-se a contribuição de Célestin Freinet (1896-1966), educador francês cuja proposta pedagógica revolucionou a prática educativa ao defender uma escola voltada para a vida, para o trabalho cooperativo e para a formação de sujeitos críticos e participativos. Sua pedagogia surge como alternativa à educação tradicional e apresenta forte compromisso com as classes populares.
O presente artigo busca compreender a inserção do pensamento de Freinet nas tendências pedagógicas brasileiras, analisando suas bases filosóficas, políticas e metodológicas, bem como suas contribuições para a educação contemporânea.
2. METODOLOGIA
Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa bibliográfica de natureza qualitativa. Foram analisadas obras de Célestin Freinet, estudos de sua trajetória educacional e produções acadêmicas que discutem sua inserção nas tendências pedagógicas contemporâneas.
A pesquisa fundamenta-se principalmente nas contribuições de Libâneo (1992), Oliveira (1995), Freinet (1974) e Élise Freinet (1978; 1979), permitindo a compreensão das bases históricas, filosóficas e metodológicas da Pedagogia Freinet.
3. REVISÃO DE LITERATURA
3.1. As Tendências Pedagógicas e a Inserção de Freinet
As tendências pedagógicas representam diferentes formas de compreender a educação e o papel da escola na sociedade. Segundo Libâneo (1992), elas podem ser classificadas em liberais e progressistas.
No âmbito das tendências progressistas, Freinet é frequentemente associado à tendência libertária devido à valorização da autogestão, da cooperação e da participação ativa dos educandos na construção do conhecimento.
Sua proposta rompe com o modelo tradicional de ensino, centrado na autoridade do professor e na transmissão passiva de conteúdos, defendendo uma escola democrática capaz de promover a emancipação dos sujeitos.
A pedagogia freinetiana compreende a educação como prática social transformadora, articulando aprendizagem, participação coletiva e compromisso com a realidade vivida pelos estudantes.
3.2. Freinet e as Tendências Pedagógicas Progressistas
A proposta freinetiana é também associada às tendências pedagógicas progressistas, especialmente à tendência libertária descrita por Libâneo (1992). Essa aproximação ocorre porque Freinet concebe a educação como prática social transformadora, baseada na cooperação, na autonomia e na participação dos sujeitos nos processos educativos.
Para Oliveira (1995), as influências marxistas presentes na trajetória de Freinet contribuíram para a construção de uma pedagogia comprometida com as classes populares e com a democratização do acesso ao conhecimento. Nessa perspectiva, a escola não deve reproduzir desigualdades sociais, mas constituir-se como espaço de emancipação humana.
Freinet defendia que a educação deveria promover a formação integral do indivíduo, considerando suas dimensões intelectual, social, cultural e política. Essa concepção aproxima-se das discussões contemporâneas sobre educação integral, cidadania e justiça social, fortalecendo sua relevância para os desafios educacionais atuais.
3.3. Bases Filosóficas e Políticas da Pedagogia Freinetiana
A trajetória de Freinet foi fortemente influenciada pelo pensamento marxista e pelos movimentos sociais que emergiram na Europa durante o século XX. Conforme Oliveira (1995), o pensamento marxista forneceu ao educador instrumentos para compreender as desigualdades sociais e fortalecer seu compromisso com as classes populares.
Sua aproximação com o Partido Comunista Francês contribuiu para consolidar uma concepção de educação voltada à transformação social. Entretanto, mesmo após seu afastamento partidário, Freinet manteve o compromisso com uma educação popular e democrática.
A pedagogia freinetiana parte do princípio de que não existe neutralidade na educação. A escola está inserida em um contexto social e econômico que influencia diretamente suas práticas e objetivos. Por essa razão, Freinet defendia uma educação comprometida com a realidade concreta dos estudantes e com a construção de uma sociedade mais justa.
3.4. Freinet e o Movimento da Escola Nova
Freinet aproximou-se inicialmente do movimento da Escola Nova devido às críticas que este realizava à escola tradicional. Influenciado por autores como Adolphe Ferrière, Roger Cousinet e Profit, incorporou elementos importantes de suas propostas pedagógicas.
Entre essas influências destacam-se:
A valorização da atividade da criança;
O trabalho em grupo;
A cooperação escolar;
A aprendizagem por meio da experiência;
A participação ativa dos estudantes.
Entretanto, Freinet também identificou limitações na Escola Nova. Para ele, muitas de suas propostas exigiam recursos materiais inacessíveis às escolas populares. Sua experiência como professor em uma escola rural francesa levou-o a desenvolver técnicas pedagógicas adaptadas à realidade das classes trabalhadoras.
Dessa forma, Freinet elaborou uma pedagogia voltada para o povo, fundamentada na utilização dos recursos disponíveis no cotidiano escolar e na valorização das experiências concretas dos estudantes.
3.5. Freinet e as Influências da Pedagogia Libertária
A literatura especializada indica que o pensamento pedagógico de Célestin Freinet foi influenciado por correntes progressistas e libertárias que circulavam na Europa no final do século XIX e início do século XX. Embora Freinet não tenha se definido como anarquista, diversos pesquisadores identificam aproximações entre sua proposta educacional e os princípios da pedagogia libertária desenvolvidos por autores como Pierre-Joseph Proudhon, Mikhail Bakunin, Piotr Kropotkin, Paul Robin, Sébastien Faure e Francisco Ferrer y Guardia.
Esses educadores e pensadores defendiam uma educação voltada para a emancipação humana, para a autonomia dos indivíduos e para a construção de relações sociais baseadas na cooperação e na solidariedade, em oposição a modelos autoritários e hierarquizados de ensino. Tais princípios encontram significativa correspondência na obra de Freinet, especialmente em sua crítica à escola tradicional, à disciplina rígida e à transmissão passiva do conhecimento.
Entre as influências mais evidentes destaca-se o pensamento de Piotr Kropotkin (2009), que enfatiza o apoio mútuo como elemento fundamental para o desenvolvimento humano e para a organização da vida social. A valorização da cooperação presente na Pedagogia Freinet aproxima-se dessa perspectiva ao defender práticas educativas baseadas no trabalho coletivo, na ajuda recíproca e na construção compartilhada do conhecimento.
Da mesma forma, as experiências educacionais desenvolvidas por Francisco Ferrer y Guardia (2014) na Escola Moderna, na Espanha, apresentam importantes convergências com a proposta freinetiana. Ferrer defendia uma educação racional, científica e libertadora, capaz de formar sujeitos críticos e conscientes de sua realidade social. Embora Freinet tenha desenvolvido uma metodologia própria, ambos compartilhavam a defesa de uma escola comprometida com a transformação social e com a formação democrática dos estudantes.
A influência da pedagogia libertária também pode ser observada na valorização da autogestão escolar e da participação dos estudantes nos processos decisórios. As assembleias de classe, os conselhos cooperativos e as práticas de gestão compartilhada propostas por Freinet refletem uma concepção de educação democrática que busca superar relações autoritárias de poder presentes na escola tradicional.
Segundo Elias (2010), a cooperação constitui um dos pilares centrais da proposta freinetiana, sendo compreendida não apenas como estratégia metodológica, mas como princípio ético e político. Nessa perspectiva, a escola torna-se espaço de aprendizagem da democracia, da responsabilidade coletiva e da participação cidadã.
Essa aproximação com os princípios libertários contribui para compreender por que a Pedagogia Freinet permanece atual diante dos desafios contemporâneos relacionados à inclusão, à justiça social e à formação para a cidadania. Ao valorizar a autonomia, a livre expressão e a cooperação, Freinet propõe uma educação comprometida com a emancipação dos sujeitos e com a construção de uma sociedade mais democrática e solidária.
Assim, embora sua obra não possa ser reduzida ao pensamento anarquista, é possível afirmar que Freinet dialogou com importantes ideias da tradição libertária, incorporando elementos que contribuíram para a construção de uma pedagogia centrada na participação, na cooperação e na transformação social.
4. PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DA PEDAGOGIA FREINET
4.1. A Escola Como Espaço de Vida
Freinet defendia que a escola deveria estar profundamente conectada à realidade dos estudantes, rompendo com práticas artificiais de ensino. Conforme afirma:
A escola de amanhã girará em torno da criança, membro da comunidade. De suas necessidades essenciais, em função das necessidades da sociedade a que pertence, decorrerão as técnicas manuais e intelectuais, a vida disciplinada e harmoniosa da escola. Não se trata de preparar a criança para a vida, mas de fazê-la viver plenamente sua vida de criança (FREINET, 2004, p. 15).
Essa concepção evidencia a crítica freinetiana à escola tradicional e fundamenta a ideia de uma educação centrada na experiência, na participação e no protagonismo infantil.
Para Freinet, a escola não deve preparar para a vida futura, mas constituir-se como espaço de vida presente. A aprendizagem ocorre por meio da participação ativa dos estudantes em situações reais e significativas.
4.2. O Trabalho Como Princípio Educativo
O trabalho é concebido por Freinet como elemento central do desenvolvimento humano e da aprendizagem significativa. Nesse sentido, o autor afirma:
O trabalho será o grande princípio, o motor e a filosofia da pedagogia popular. É por meio dele que a criança se realiza, constrói sua personalidade, desenvolve sua inteligência e prepara-se para assumir seu lugar na comunidade social (FREINET, 1998, p. 34).
Essa perspectiva afasta-se da concepção de trabalho meramente produtivista, compreendendo-o como atividade criadora capaz de favorecer a autonomia, a responsabilidade e a participação social.
O trabalho ocupa posição central em sua teoria. Não se trata apenas de atividade produtiva, mas de ação humana capaz de promover desenvolvimento, responsabilidade e participação social.
4.3. A Cooperação
A cooperação ocupa lugar central na pedagogia de Célestin Freinet, constituindo não apenas uma técnica pedagógica, mas um princípio ético, social e político que orienta toda a organização da vida escolar. Para Freinet, a escola deveria romper com as práticas individualistas e competitivas presentes na educação tradicional, transformando-se em uma verdadeira comunidade de trabalho, na qual crianças e educadores participassem ativamente da construção coletiva do conhecimento.
Nesse sentido, a cooperação é compreendida como uma experiência concreta de vida democrática. Por meio das cooperativas escolares, assembleias de classe, jornais escolares, correspondências interescolares e projetos coletivos, os estudantes aprendem a tomar decisões, compartilhar responsabilidades, resolver conflitos e atuar em benefício do grupo. Essas experiências favorecem o desenvolvimento da autonomia, do senso crítico, da solidariedade e da participação cidadã, elementos fundamentais para a formação integral dos sujeitos.
Freinet defendia que a aprendizagem se fortalece quando ocorre em um ambiente de colaboração e ajuda mútua. Ao trabalhar coletivamente, as crianças não apenas constroem conhecimentos, mas também desenvolvem valores humanos essenciais para a convivência social. A cooperação, portanto, ultrapassa a dimensão metodológica e assume um papel formativo, contribuindo para a constituição de sujeitos capazes de agir de maneira consciente e responsável na sociedade.
Em sua obra Para uma Escola do Povo, Freinet destaca a importância da organização cooperativa da escola ao afirmar que a cooperativa escolar deve constituir-se como uma "verdadeira sociedade de crianças capaz de administrar a quase totalidade da vida escolar" (FREINET, 1969, p. 149). Essa concepção evidencia que a participação ativa dos estudantes não deve ser simbólica, mas efetiva, permitindo que eles assumam responsabilidades reais na gestão do cotidiano escolar.
A cooperação também está intimamente relacionada ao conceito de autogestão presente na pedagogia freinetiana. Segundo estudos sobre sua obra, a livre cooperação, o trabalho coletivo e a participação democrática constituem fundamentos essenciais para a construção da autonomia individual e coletiva, caracterizando a escola como um espaço de emancipação humana e transformação social.
No contexto contemporâneo, os princípios cooperativos defendidos por Freinet dialogam diretamente com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e com o Currículo da Cidade de São Paulo, que valorizam a participação ativa das crianças, a construção coletiva do conhecimento, a convivência democrática e o protagonismo infantil. Dessa forma, a cooperação permanece como um princípio pedagógico atual e relevante, contribuindo para a formação de sujeitos críticos, participativos e comprometidos com a justiça social.
A cooperação é um dos pilares da pedagogia freinetiana. O trabalho coletivo favorece o desenvolvimento da autonomia, da solidariedade e do senso de responsabilidade compartilhada.
4.4. A Livre Expressão
A livre expressão constitui um dos pilares da Pedagogia Freinet, sendo fundamental para a construção da autonomia e da identidade dos estudantes. Segundo o educador:
A criança tem necessidade de se exprimir, de comunicar seus pensamentos, seus sentimentos e suas descobertas. Quando a escola impede essa expressão, ela cria um obstáculo ao desenvolvimento natural da personalidade infantil (FREINET, 1975, p. 52).
A valorização da expressão oral, escrita, artística e cultural encontra correspondência nas atuais propostas curriculares brasileiras, especialmente nos direitos de aprendizagem previstos pela BNCC.
Freinet valorizava a expressão oral, escrita, artística e cultural dos estudantes. Técnicas como o texto livre, o jornal escolar e a correspondência interescolar buscavam ampliar as possibilidades de comunicação e participação.
4.5. O Respeito à Realidade da Criança
A criança é compreendida como sujeito histórico e social, inserido em um contexto cultural específico. A educação deve partir de suas experiências, interesses e necessidades concretas.
Nas concepções freinetianas, a criança é entendida como um sujeito ativo, histórico e social, que aprende por meio da experiência, da cooperação e do contato com seu meio. A criança é compreendida como sujeito histórico e social, inserido em um contexto cultural específico. A educação deve partir de suas experiências, interesses e necessidades concretas, respeitando seu desenvolvimento natural e sua capacidade de agir sobre o mundo (FREINET, 2004).
5. RESULTADOS E DISCUSSÃO
A análise da literatura permitiu identificar que os princípios da Pedagogia Freinet apresentam significativa consonância com as diretrizes que orientam a Educação Infantil brasileira contemporânea. Os estudos revisados demonstram que as propostas desenvolvidas por Célestin Freinet permanecem atuais e contribuem para a construção de práticas pedagógicas centradas na participação das crianças, na cooperação e na transformação social.
5.1. Relação entre Freinet e a BNCC
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) (BRASIL, 2018) reconhece a criança como sujeito histórico, social e cultural, capaz de participar ativamente dos processos de aprendizagem. Essa concepção aproxima-se diretamente dos pressupostos freinetianos, que defendem uma escola baseada na experiência, na investigação e na participação efetiva dos estudantes.
Os direitos de aprendizagem e desenvolvimento estabelecidos pela BNCC — conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se — dialogam profundamente com a proposta de Freinet, especialmente no que se refere à valorização da livre expressão, da cooperação e da aprendizagem construída a partir das vivências das crianças. Para Freinet (1975), o conhecimento não deve ser transmitido de forma mecânica, mas construído por meio da ação, da observação e da interação com o meio.
Além disso, os Campos de Experiência previstos pela BNCC encontram correspondência nas práticas freinetianas. O campo “O eu, o outro e o nós” relaciona-se aos princípios de cooperação e convivência democrática, enquanto “Escuta, fala, pensamento e imaginação” e “Traços, sons, cores e formas” aproximam-se da defesa da livre expressão infantil presente na obra do autor.
5.2. Relação entre Freinet e o Currículo da Cidade de São Paulo
O Currículo da Cidade de São Paulo para a Educação Infantil (SÃO PAULO, 2019) reforça princípios como escuta ativa das crianças, participação, investigação, protagonismo infantil, documentação pedagógica e construção coletiva das aprendizagens. Esses elementos apresentam forte convergência com a Pedagogia Freinet.
As rodas de conversa, os registros das experiências, os projetos investigativos e as assembleias de classe, amplamente defendidos por Freinet, encontram espaço nas orientações curriculares paulistanas. Ambas as propostas compreendem a criança como produtora de cultura e participante ativa do processo educativo, valorizando suas hipóteses, descobertas e formas de expressão.
Essa aproximação evidencia que os fundamentos freinetianos permanecem relevantes para a organização das práticas pedagógicas na Educação Infantil, especialmente em contextos que buscam promover uma educação participativa e democrática.
5.3. Protagonismo Infantil e Aprendizagem Significativa
Um dos aspectos mais evidentes na literatura analisada refere-se à valorização do protagonismo infantil. Freinet defendia que a criança deveria assumir papel ativo na construção do conhecimento, participando das decisões, formulando perguntas, investigando situações e compartilhando descobertas.
Essa perspectiva encontra respaldo tanto na BNCC quanto no Currículo da Cidade de São Paulo, que reconhecem as crianças como protagonistas de seus processos de aprendizagem. Nesse contexto, o professor atua como mediador, organizando experiências que favoreçam a curiosidade, a autonomia e a construção coletiva do conhecimento.
Segundo Freinet (2004), a aprendizagem torna-se significativa quando está relacionada às experiências reais vividas pelos estudantes. Ao partir dos interesses e necessidades das crianças, o processo educativo adquire sentido, favorecendo maior envolvimento, participação e desenvolvimento integral. Dessa forma, a aprendizagem deixa de ser mera reprodução de informações para constituir-se como construção ativa e contextualizada do conhecimento.
Estudos recentes sobre Educação Infantil corroboram essa concepção ao demonstrar que práticas investigativas, projetos pedagógicos e metodologias participativas favorecem o desenvolvimento cognitivo, social e emocional das crianças, fortalecendo sua autonomia e capacidade crítica.
5.4. Educação Democrática, Inclusão e Justiça Social
Outro aspecto central identificado na análise refere-se à dimensão democrática da Pedagogia Freinet. O autor defendia uma escola baseada na cooperação, no diálogo e na participação coletiva, princípios que continuam sendo fundamentais para a educação contemporânea.
As assembleias de classe, os conselhos cooperativos, rodas de conversa e os processos coletivos de tomada de decisão constituem exemplos de práticas que favorecem a vivência da democracia no cotidiano escolar. Ao participar dessas experiências, as crianças aprendem a ouvir diferentes opiniões, respeitar o outro, negociar conflitos e assumir responsabilidades coletivas.
Além disso, a proposta freinetiana contribui para a construção de uma educação inclusiva e socialmente comprometida. Ao reconhecer as singularidades das crianças e valorizar diferentes formas de expressão e aprendizagem, Freinet promove práticas pedagógicas mais equitativas e acolhedoras.
A defesa da escola popular realizada pelo educador francês também dialoga com os princípios da justiça social presentes nas políticas educacionais atuais. Sua proposta busca garantir que todas as crianças tenham acesso a experiências educativas significativas, independentemente de suas condições sociais, econômicas ou culturais.
Nesse sentido, a inclusão não se limita ao acesso à escola, mas envolve a participação efetiva de todas as crianças nos processos de aprendizagem, respeitando suas diferenças e potencialidades. Tal perspectiva está alinhada aos princípios da educação inclusiva defendidos pela BNCC e pelo Currículo da Cidade de São Paulo.
Portanto, os resultados desta revisão evidenciam que a Pedagogia Freinet permanece atual e relevante para a Educação contemporânea. Seus princípios dialogam diretamente com as orientações da BNCC e do Currículo da Cidade de São Paulo, contribuindo para o fortalecimento do protagonismo infantil, da aprendizagem significativa, da educação democrática, da inclusão e da justiça social. Dessa forma, o legado freinetiano continua oferecendo importantes referenciais para a construção de práticas pedagógicas humanizadoras, participativas e comprometidas com a formação integral das crianças.
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O pensamento pedagógico de Célestin Freinet constitui uma das mais importantes contribuições para a educação contemporânea. Sua proposta ultrapassa a dimensão metodológica e apresenta uma concepção de educação comprometida com a transformação social, a participação democrática e a valorização da experiência humana e da participação e atuação politica na sociedade.
Ao defender a cooperação, a livre expressão, o trabalho como princípio educativo e a escola como espaço de vida, Freinet construiu uma pedagogia que permanece relevante diante das demandas educacionais do século XXI.
Sua influência pode ser observada em práticas pedagógicas e políticas educacionais que buscam formar sujeitos críticos, autônomos e capazes de atuar na transformação da realidade social em que estão inseridos.
A permanência do pensamento freinetiano nas discussões educacionais atuais demonstra a força de uma pedagogia construída a partir da realidade social e das necessidades humanas. Como sintetiza Freinet:
A educação verdadeira não é a que dita e impõe, mas a que desperta, estimula e faz nascer o desejo de conhecer, compreender e transformar o mundo (FREINET, 2004, p. 112).
Essa perspectiva continua inspirando práticas pedagógicas comprometidas com a democracia, a inclusão, a participação e a formação integral das crianças.
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1 Pedagoga/UNIFESP. Especialista Psicopedagogia Clínica e Institucional – FACUMINAS. Mestranda -FORMEP/PUC-SP. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail