REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/778206372
RESUMO
Objetivo: O presente artigo tem como objetivo realizar uma revisão integrativa da literatura acerca das contribuições da Análise do Comportamento Aplicada (ABA) para o processo de aprendizagem de crianças com Transtorno Espectro Autista (TEA), com ênfase nas principais técnicas utilizadas. Métodos: Trata-se de um estudo de abordagem qualitativa, desenvolvido por meio de revisão integrativa da literatura. A busca foi realizada nas bases de dados PubMed e SciELO, utilizando os descritores “autismo AND ABA” e “aprendizagem AND autismo”, contemplando produções publicadas entre os anos de 2013 e 2025, em língua portuguesa. Foram adotados critérios de inclusão e exclusão previamente definidos, com posterior análise crítica dos estudos selecionados. Resultados: Os achados indicam que intervenções baseadas na ABA, especialmente quando planejadas de forma individualizada, apresentam maior eficácia no desenvolvimento de habilidades cognitivas, comunicativas e sociais em crianças com TEA. Evidenciou-se, ainda, que a ABA se configura como uma das abordagens mais consistentes em termos de resultados positivos no processo de ensino-aprendizagem desse público. Conclusões: Conclui-se que o processo de aprendizagem de crianças com TEA demanda intervenções estruturadas, individualizadas e fundamentadas em evidências científicas. Destaca-se a importância da atuação de profissionais qualificados, bem como do envolvimento da família no processo terapêutico, favorecendo a generalização de comportamentos adaptativos. Embora a ABA se mostre eficaz, ressalta-se a necessidade de ampliação da formação e capacitação dos profissionais envolvidos, visando à qualificação das práticas interventivas.
Palavras-chave: Análise do Comportamento Aplicada (ABA); Transtorno do Espectro Autista (TEA); Aprendizagem.
ABSTRACT
Objective: This article aims to conduct an integrative literature review on the contributions of Applied Behavior Analysis (ABA) to the learning process of children with Autism Spectrum Disorder (ASD), emphasizing the main techniques used and the available scientific evidence. Methods: This is a qualitative study, developed through an integrative literature review. The search was conducted in the PubMed and SciELO databases, using the descriptors "autism AND ABA" and "learning AND autism," encompassing publications between 2013 and 2025, in Portuguese. Predefined inclusion and exclusion criteria were adopted, followed by a critical analysis of the selected studies. Results: The findings indicate that ABA-based interventions, especially when planned individually, are more effective in developing cognitive, communicative, and social skills in children with ASD. It was also evident that ABA is one of the most consistent approaches in terms of positive results in the teaching-learning process of this population. Conclusions: It is concluded that the learning process of children with ASD demands structured, individualized interventions based on scientific evidence. The importance of the work of qualified professionals, as well as the involvement of the family in the therapeutic process, favoring the generalization of adaptive behaviors, is highlighted. Although ABA proves to be effective, the need to expand the training and qualification of the professionals involved is emphasized, aiming at the qualification of intervention practices.
Keywords: Applied Behavior Analysis (ABA); Autism Spectrum Disorder (ASD); Learning.
1. INTRODUÇÃO
A compreensão dos processos de aprendizagem de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) tem se consolidado como um campo de crescente relevância nas áreas da educação, psicologia e saúde, especialmente diante do aumento nos diagnósticos e da necessidade de práticas interventivas baseadas em evidências. Desta forma, o 5ª Edição (DSM-5), ressalta que o TEA se caracteriza por alterações no desenvolvimento da comunicação, na interação social e pela presença de padrões comportamentais restritos e repetitivos, impactando diretamente as formas pelas quais a criança aprende e interage com o ambiente, conforme aponta APA (2014). Nesse contexto, torna-se fundamental a adoção de abordagens que considerem as especificidades desse público, promovendo estratégias eficazes de ensino e desenvolvimento
Dentre as abordagens mais reconhecidas, destaca-se a Análise do Comportamento Aplicada (ABA), fundamentada nos pressupostos do behaviorismo, especialmente nas contribuições de B. F. Skinner (1953), que compreende o comportamento como resultado da interação entre o indivíduo e o ambiente. A ABA propõe intervenções sistemáticas, baseadas em evidências, voltadas para o desenvolvimento de habilidades cognitivas, sociais, comunicativas e adaptativas, sendo amplamente utilizada no atendimento a crianças com TEA. Estudos de Ivar Lovaas (1987), pioneiro na aplicação da ABA ao autismo, bem como as contribuições de Cooper, Heron e Heward (2007), reforçam a eficácia dessa abordagem no contexto educacional e terapêutico.
Diante desse cenário, emerge a seguinte pergunta-problema: de que maneira a Análise do Comportamento Aplicada (ABA) contribui para o processo de aprendizagem de crianças com Transtorno do Espectro Autista, conforme evidenciado na produção científica recente?
Para responder a essa questão, o presente artigo tem como objetivo geral analisar, por meio de uma revisão integrativa da literatura, as contribuições da ABA no processo de aprendizagem de crianças com TEA. Como objetivos específicos, busca-se: investigar o desenvolvimento de crianças atípicas na aprendizagem; denotar como a ciência a ABA intervêm no déficit de habilidades do desenvolvimento.
Trata-se de uma revisão integrativa de abordagem qualitativa, que permite a síntese de resultados de pesquisas anteriores de forma sistematizada e crítica. Com base em Antônio Carlos Gil (2007), a revisão integrativa de abordagem qualitativa, do tipo pesquisa bibliográfica.
Nesse caminho, o percurso metodológico dialoga com autores clássicos e contemporâneos. No campo da análise do comportamento, destacam-se Skinner (1953), Lovaas (1987) e Cooper, Heron e Heward (2007), que fundamentam os princípios e práticas da ABA. No que se refere à revisão integrativa, o estudo apoia-se em Whittemore e Knafl (2005), que propõem etapas como identificação do problema, busca, avaliação, análise e síntese dos dados.
A relevância deste estudo reside na necessidade de consolidar conhecimentos científicos que orientem práticas pedagógicas e terapêuticas mais eficazes e inclusivas para crianças com TEA. Ao sistematizar evidências sobre a ABA, o artigo contribui para a formação de profissionais da educação, psicologia e áreas afins, além de subsidiar a tomada de decisões baseada em evidências.
A justificativa para a realização desta pesquisa está ancorada tanto no crescimento do número de diagnósticos de TEA quanto na demanda por intervenções que promovam o desenvolvimento integral dessas crianças, de acordo com Censo Demográfico de 2022 do IBGE. Apesar da ampla utilização da ABA, ainda se faz necessário reunir e analisar criticamente as produções científicas disponíveis, a fim de compreender seus alcances, limitações e potencialidades no processo de aprendizagem. Dessa forma, este estudo busca contribuir para o avanço do conhecimento na área e para a promoção de práticas mais qualificadas e humanizadas.
2. METODOLOGIA
Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa bibliográfica de abordagem qualitativa, ancorada na análise de produções científicas que versam sobre as contribuições da Análise do Comportamento Aplicada (ABA) no processo de aprendizagem de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Conforme destaca Antônio Carlos Gil (2007), a pesquisa bibliográfica é desenvolvida a partir de materiais já elaborados, como livros e artigos científicos, constituindo-se como etapa fundamental para a construção do referencial teórico e para a compreensão aprofundada de determinado fenômeno.
No que se refere à abordagem qualitativa, Gil (2007) enfatiza que esse tipo de investigação privilegia a interpretação e a compreensão dos fenômenos sociais em sua complexidade, não se restringindo à mensuração de dados, mas buscando identificar significados, relações e padrões presentes na literatura analisada. Nesse sentido, a escolha por uma abordagem qualitativa mostra-se pertinente ao objetivo deste estudo, uma vez que permite examinar criticamente as evidências científicas sobre a eficácia e as especificidades das intervenções baseadas na ABA no contexto do TEA.
Para a constituição do corpus de análise, foram realizadas buscas nas bases de dados PubMed e SciELO, utilizando os descritores “autismo AND ABA” e “aprendizagem AND autismo”. O recorte temporal compreendeu o período de 2013 a 2025, com a seleção de estudos publicados em língua portuguesa. Os critérios de inclusão envolveram a relevância temática, a atualidade das publicações e a contribuição teórica e empírica para a compreensão do objeto investigado, foram excluídos deste estudo artigos duplicados e no idioma espanhol.
Por conseguinte, foi procedida à leitura analítica e interpretativa dos materiais selecionados, visando à sistematização e à síntese crítica dos achados, em consonância com os pressupostos da pesquisa bibliográfica qualitativa propostos por Gil (2007), essa pesquisa caracteriza-se como exploratória, por contemplar de maneira contextualizada uma análise global da ciência ABA e o processo de aprendizagem de pessoas com TEA.
Figura 01: Fluxograma do processo de seleção dos dados para análise conforme critérios de inclusão e exclusão.
3. O PROCESSO DE APRENDIZAGEM DE CRIANÇAS COM TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um transtorno do desenvolvimento que afeta a capacidade de comunicação, socialização e comportamento. Sua prevalência tem crescido nos últimos anos, o que torna urgente a necessidade de abordagens eficazes para apoiar o desenvolvimento e a inclusão educacional de indivíduos com autismo.
O TEA é caracterizado por dificuldades em três áreas principais: interação social, comunicação e comportamentos repetitivos. Essas características impactam diretamente o desempenho escolar de crianças com autismo, que muitas vezes apresentam dificuldades em acompanhar o ritmo das atividades propostas em sala de aula, além de desafios no que se refere à socialização com os colegas e ao cumprimento de regras e rotinas, destacados por Camargo (2020).
As avaliações são importantes para o conhecimento de como o cérebro da criança processa as informações e lida com elas, para traçar estratégias que desenvolvam novas funções no cérebro, pela sua plasticidade, através de tratamentos terapêuticos. Contudo, para o profissional ter certeza de que realmente a criança está progredindo em seu desenvolvimento e se pode continuar com a estratégia traçada, gerando novos desafios ou reformulá-la para novas adaptações, avaliações precisam ser refeitas periodicamente, com base nos princípios da ciência (Fernandes, 2013).
Pessoas com TEA, possuem inúmeras dificuldades de aprendizagem de habilidades e aprendizagem. Assim, necessita de ferramentas distintas para esse processo. Dessa forma, podemos destacar a comunicação alternativa, elaboração das atividades adaptadas ao repertório do aluno, construção do Plano de Ensino Individualizado (PEI) e aplicações de programas educativos, que se estruturam como estratégias significativas para avanço na aprendizagem. Desta forma, a atuação conjunta de psicólogos, pais, equipe gestora e professores passa a ser indispensável na organização de condições que favoreçam o desenvolvimento desse grupo de sujeitos em sua completude com eficácia no processo educativo, apontados por Nascimento (2017).
Percebe-se com base nos estudos que, desenvolver habilidades e distintas aprendizagem acerca de conteúdos formais e habilidades sociais deve ser algo estruturado, analisado e necessário para pessoas com TEA. Assim, a análise do comportamento aplicada denota-se eficiente para esse processo.
4. ABA E AS INTERVENÇÕES NO DÉFICIT DO DESENVOLVIMENTO INFANTIL
A Análise do Comportamento Aplicada (ABA) constitui-se como uma abordagem científica fundamentada nos princípios do behaviorismo radical, cujo principal expoente é B. F. Skinner (1953). Essa perspectiva teórica compreende o comportamento humano como resultado da interação entre o indivíduo e o ambiente, sendo possível sua modificação por meio da manipulação de variáveis ambientais, especialmente antecedentes e consequências. Nesse sentido, a ABA se dedica à aplicação sistemática desses princípios com o objetivo de promover mudanças em comportamentos socialmente relevantes (Skinner, 1953).
De acordo com Cooper, Heron e Heward (2007), a ABA caracteriza-se por ser uma ciência aplicada que utiliza métodos experimentais para avaliar intervenções e produzir mudanças significativas no comportamento. Para os autores, trata-se de uma abordagem baseada em evidências, cuja eficácia está diretamente relacionada à mensuração contínua dos comportamentos e à adaptação das estratégias conforme a resposta do indivíduo. Entre as principais técnicas utilizadas destacam-se o reforçamento positivo, a modelagem, o encadeamento de tarefas e o ensino por tentativas discretas (Discrete Trial Training – DTT).
No contexto do Transtorno do Espectro Autista (TEA), a ABA tem sido amplamente empregada como uma das intervenções mais eficazes para o desenvolvimento de habilidades cognitivas, comunicativas, sociais e adaptativas. Estudos clássicos, como o de Ivar Lovaas (1987), demonstraram que intervenções intensivas baseadas na ABA podem promover avanços significativos no funcionamento intelectual e no comportamento de crianças com autismo.
Nesse sentido, destaca-se a seguinte citação de Cooper, Heron e Heward (2007), que sintetiza os fundamentos da ABA:
A Análise do Comportamento Aplicada é a ciência na qual procedimentos derivados dos princípios do comportamento são sistematicamente aplicados para melhorar comportamentos socialmente significativos, e a experimentação é utilizada para identificar as variáveis responsáveis pela mudança no comportamento (Cooper; Heron; Heward, 2007, p. 20).
No que se refere ao processo de aprendizagem, a ABA contribui ao propor um ensino estruturado, baseado na análise funcional do comportamento e na individualização das estratégias pedagógicas. Isso implica considerar as características específicas de cada criança, seus repertórios prévios, interesses e necessidades, evitando abordagens padronizadas. Conforme apontam Cooper, Heron e Heward (2007), a aprendizagem ocorre de maneira mais eficaz quando as contingências de reforço são cuidadosamente planejadas e ajustadas ao desempenho do aprendiz.
É importante ressaltar que no contexto da Análise do Comportamento Aplicada (ABA), diferentes estratégias são utilizadas para favorecer a aprendizagem de forma gradual, estruturada e adaptada às necessidades do indivíduo. Entre essas estratégias, destaca-se a modelagem, que consiste no reforço de aproximações sucessivas até que o comportamento-alvo seja plenamente adquirido. (Smith, 2001).
Nesse processo, o aprendiz é incentivado a emitir respostas cada vez mais próximas do comportamento desejado, sendo reforçado a cada avanço, o que torna a aprendizagem progressiva e motivadora. Outra estratégia amplamente empregada é o encadeamento de tarefas, que se refere à divisão de atividades mais complexas em etapas menores, organizadas de forma sequencial. Essa técnica possibilita que o indivíduo aprenda cada parte da tarefa de maneira isolada, facilitando a compreensão e a execução do todo. À medida que cada etapa é dominada, elas são integradas, promovendo a realização completa da atividade. Heward (2007)
Além disso, a ABA utiliza os chamados prompts (ajudas), que são pistas ou auxílios oferecidos para aumentar a probabilidade de respostas corretas. Esses auxílios podem ser físicos, verbais, gestuais ou visuais, sendo fundamentais especialmente no início do processo de aprendizagem. Com o avanço do desempenho do indivíduo, esses prompts são gradualmente retirados, favorecendo a autonomia e a independência na execução das habilidades. (Skinner, 1953).
Por fim, a generalização é um dos objetivos centrais das intervenções em ABA, pois diz respeito à capacidade de transferir as habilidades aprendidas para diferentes contextos, pessoas e situações. Isso significa que não basta aprender um comportamento em um ambiente controlado; é necessário que ele seja funcional e aplicável no cotidiano. Dessa forma, a generalização garante que a aprendizagem seja significativa e útil para a vida do indivíduo, ampliando sua autonomia e participação social. (Cooper, 2007)
Cabe mencionar que a ABA enfatiza a importância da generalização e manutenção dos comportamentos aprendidos, ou seja, a capacidade de a criança aplicar habilidades adquiridas em diferentes contextos e situações do cotidiano. Esse aspecto é fundamental no trabalho com crianças com TEA, uma vez que a dificuldade de generalização é uma característica frequentemente observada nesse público. Nesse sentido, a participação da família e de outros contextos sociais torna-se essencial para a consolidação da aprendizagem (Smith, 2001).
Entretanto, é importante destacar que, apesar de sua eficácia, a aplicação da ABA no processo de aprendizagem não deve ser compreendida como um modelo rígido ou universal. Pelo contrário, sua efetividade está justamente na flexibilidade e na capacidade de adaptação às singularidades do sujeito, respeitando a heterogeneidade característica do TEA. Assim, a ABA se apresenta como uma ferramenta potente, desde que utilizada de forma ética, contextualizada e fundamentada em uma compreensão ampliada do desenvolvimento humano. (Camargo, 2020).
Vale ressaltar que, devido ao aumento de crianças com TEA matriculadas nas redes de ensino, tem-se discutido muitas formas de intervenções que efetivem o processo de ensino-aprendizagem, dentre as intervenções possíveis, a análise do comportamento aplicada (Applied Behavior Analysis – ABA) tem ganhado relevância nesse contexto, especialmente por sua prática ser baseada em evidência. A ABA exige a consideração minuciosa dos fatores ambientais e de sua funcionalidade nos comportamentos da criança com TEA, objetivando a identificação dos fatores que resultam nos comportamentos e dos que provavelmente farão esses comportamentos se repetirem. Tais informações são de extrema importância para o planejamento e readaptação dos processos de intervenção (Fernandes e Amato, 2013, p. 290).
A ciência ABA com a aplicação adequada, proporciona saltos significativos nos processos de aprendizagem dos autista: a ABA (Análise Aplicada do Comportamento). A terapia ABA, criada em 1968 a partir de uma abordagem psicológica, tem tido excelentes resultados, pois “utiliza” a observação e avaliação do comportamento do indivíduo, para melhorar a aprendizagem e promover o seu desenvolvimento e autonomia (Neto et al., 2013).
Além dessas possibilidades, existe ainda as estratégias pedagógicas conhecidas como a estimulação sensorial e o uso de tecnologia assistida. A estimulação multissensorial, faz uso da utilização de recursos que estimulem múltiplos sentidos tem mostrado benefícios no desenvolvimento de habilidades cognitivas e motoras de crianças com autismo. Já o uso das tecnologias assistidas, utiliza as ferramentas tecnológicas, como softwares educativos e dispositivos de comunicação aumentativa, pode facilitar a aprendizagem de crianças com TEA, promovendo a autonomia e a comunicação eficaz. (BOSSA, 2000)
Assim, ABA se concentra na análise funcional do comportamento e na aplicação de estratégias sistemáticas para o ensino de habilidades e redução de comportamentos inadequados. Necessita de uma atuação integrada para favorecer a elaboração de planos de intervenção mais completos, que consideram tanto o desenvolvimento acadêmico quanto aspectos comportamentais, emocionais e neurológicos do indivíduo. Além disso, o trabalho colaborativo entre esses profissionais potencializa a generalização das habilidades aprendidas em diferentes contextos, como escola, clínica e ambiente familiar, promovendo uma aprendizagem mais significativa e o desenvolvimento global da pessoa com TEA.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise dos estudos evidencia que o processo de aprendizagem de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) não pode ser compreendido a partir de modelos engessados ou universalizantes, uma vez que se trata de um fenômeno profundamente heterogêneo, marcado por singularidades no desenvolvimento, nas formas de interação e nas respostas às intervenções.
Os resultados desta revisão indicaram, de modo consistente, que intervenções baseadas na Análise do Comportamento Aplicada (ABA), especialmente quando planejadas de forma individualizada, favorecem significativamente o desenvolvimento de habilidades cognitivas, comunicativas, sociais e adaptativas. Estudos clássicos e contemporâneos, como os de Ivar Lovaas (1987) e Cooper, Heron e Heward (2007), evidenciam que a aplicação sistemática de princípios comportamentais, associada à intensidade e à precocidade das intervenções, está relacionada a avanços significativos no desempenho e na autonomia de crianças com TEA.
Nesse contexto, a ABA destaca-se como uma abordagem relevante, sobretudo por sua ênfase na individualização das estratégias, no uso de evidências científicas e na adaptação contínua das intervenções às necessidades específicas de cada criança. Os achados apontam que a eficácia das intervenções está diretamente relacionada à capacidade de considerar as particularidades do sujeito, o que reforça a importância de planejamentos flexíveis e dinâmicos, em oposição a protocolos rígidos e padronizados. Ademais, conforme discutido por Tristram Smith (2001), estratégias como o ensino por tentativas discretas demonstram resultados positivos quando integradas a contextos que favorecem a generalização das habilidades aprendidas.
Além disso, os estudos analisados ressaltam o papel fundamental da atuação de profissionais qualificados e do envolvimento familiar, elementos essenciais para a promoção da generalização de habilidades e para o fortalecimento de comportamentos adaptativos em diferentes contextos. Tais evidências corroboram a literatura que aponta que a aprendizagem no TEA não se restringe ao ambiente terapêutico, exigindo uma abordagem articulada entre diferentes contextos sociais.
Por fim, embora a ABA apresente resultados consistentes no campo da aprendizagem de crianças com TEA, este estudo evidencia a necessidade de ampliação de pesquisas que contemplem a diversidade do espectro autista, bem como de investimentos na formação continuada de profissionais. Assim, reafirma-se que práticas educativas e terapêuticas eficazes devem ser, sobretudo, sensíveis à complexidade e à singularidade dos processos de aprendizagem no TEA, evitando generalizações e priorizando intervenções contextualizadas e centradas no sujeito.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AMERICAN Psychiatric Association. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.
BRASIL. Lei nº 12.764, de 27 de dezembro de 2012. Institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista; e altera o § 3o do art. 98 da Lei no 8.112, de 11 de dezembro de 1990. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Poder Executivo, Brasília, DF, 27 dez. 2012.
BOSSA, Nadia A. A psicopedagogia no Brasil: contribuições a partir da prática. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2000.
CAMARGO, Síglia Pimentel Höher; SILVA, Gabrielle Lenz da; CRESPO, Renata Oliveira; OLIVEIRA, Calleb Rangel de; MAGALHÃES, Suelen Lessa. Desafios no processo de escolarização de crianças com autismo no contexto inclusivo: diretrizes para formação continuada na perspectiva dos professores.
Educação em Revista, Belo Horizonte, v. 36, e214220, 2020.
COSTA, D S; SCHMIDT C; CAMARGO, S P H. Plano Educacional Individualizado: implementação e influência no trabalho colaborativo para a inclusão de alunos com autismo. Revista Brasileira de Educação. Rio Grande do Sul, v. 28 e280098, 2023.
COOPER, John O.; HERON, Timothy E.; HEWARD, William L. Applied Behavior Analysis. 2. ed. Upper Saddle River: Pearson, 2007.
GIKOVATE, C.G. Autismo: compreendendo para melhor incluir. Rio de Janeiro, 2009. Disponível em: http://www.carlagikovate.com.br/aulas/autismo.pdf. Acesso em: 01 de out de 2024.
GIL, Antônio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2007.
FERNANDES, FDM; AMATO, CAH. Análise de Comportamento Aplicada e Distúrbios do Espectro do Autismo: revisão de literatura. CoDAS, São Paulo, v. 25, n. 3, p. 289–296, 2013.
FIGUEIREDO, J. P.; COSTA, J. P.; DIAS, S. L. Autismo e Inclusão Escolar: um Olhar Para as Práticas Pedagógicas. Serra, 2018. Disponível em: https://encurtador.com.br/aenCO. Acesso em: 20 de mar. 2026.
LOVAAS, O. Ivar. Behavioral treatment and normal educational and intellectual functioning in young autistic children. Journal of Consulting and Clinical Psychology, Washington, v. 55, n. 1, p. 3–9, 1987.
NASCIMENTO, F. F.; CRUZ, M. M. da; B., Patrícia. Escolarização de pessoas com transtorno do espectro do autismo a partir da análise da produção científica. Disponível na Scielo-Brasil (2005-2015). Arquivos Analíticos de Políticas Educativas, Vol. 25, n. 125. 2017. Disponível em: https://www.redalyc.org/pdf/2750/275043450111.pdf>. Acesso em: 20 mar. 2026.
NETO, O. P. da S.; et al, G-TEA: Uma ferramenta no auxílio da aprendizagem de crianças com Transtorno do Espectro Autista, baseada na metodologia ABA. SBC – Proceedings of SBGames 2013. Disponível em: http://www.sbgames.org/sbgames2013/proceedings/cultura/Culture-18_full_G-TEA.pdf. Acesso em: 02 abr. 2026.
SANTOS, F. D, dos. Autismo e psicologia clínica de abordagem dinâmica numa sala. In: TEACCH: reflexões e partilha duma prática. Revista Portuguesa de Psicossomática. Vol. 7, n. 1-2. 2005. Disponível em: https://www.redalyc.org/pdf/287/28770216.pdf>. Acesso em: 03 abr. 2026.
SKINNER, Burrhus Frederic. Science and Human Behavior. New York: Macmillan, 1953.
SMITH, Tristram. Discrete trial training in the treatment of autism. Focus on Autism and Other Developmental Disabilities, Austin, v. 16, n. 2, p. 86–92, 2001.
WHITTEMORE, Robin; KNAFL, Kathleen. The integrative review: updated methodology. Journal of Advanced Nursing, Oxford, v. 52, n. 5, p. 546–553, 2005.
1 Orientadora