REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/787697003
RESUMO
O objetivo deste estudo foi identificar a produção científica sobre o conhecimento de idosos sobre a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (SIDA); descrever o perfil sociodemográfico dos idosos investigados e perceber o domínio dos idosos em relação a SIDA no que diz respeito aos âmbitos de conceito, transmissão, prevenção, vulnerabilidade e tratamento. Trata-se de um estudo exploratório e descritivo a partir de uma revisão bibliográfica. As buscas ocorreram nas bases de dados Lilacs (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde), BDENF (Base de Dados de Enfermagem) e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS). Para o critério de inclusão foram considerados estudos primários em português dos últimos cinco anos e disponíveis na íntegra. Foram excluídos os estudos duplicados, teses e dissertações e os artigos que não respondiam ao objetivo do estudo. Dos 126 estudos encontrados, 16 foram selecionados. Foi possível identificar nos estudos uma compreensão abrangente da prevalência do Virus da Imunodeficiência Humana (HIV) em idosos, mostrando um crescimento significativo no número de casos. Além disso, os resultados indicam que os idosos estão se tornando um grupo cada vez mais vulnerável à infecção pelo HIV. Como resultado deste trabalho, fica um sentimento de que existe um longo e árduo caminho a percorrer no que tange à saúde da pessoa idosa com HIV/AIDS, espera-se que os profissionais de saúde percebam o quão essencial é abordar a saúde da pessoa idosa de uma forma mais ampla.
Palavras-chave: AIDS; Idosos; HIV; Terceira Idade.
ABSTRACT
The objective of this study was to identify scientific literature regarding the knowledge elderly people have about Acquired Immunodeficiency Syndrome (AIDS); to describe the sociodemographic profile of the elderly subjects studied; and to assess their understanding of AIDS regarding concepts, transmission, prevention, vulnerability, and treatment. This is an exploratory, descriptive study based on a literature review. Searches were conducted in the LILACS (Latin American and Caribbean Health Sciences Literature), BDENF (Nursing Database), and Virtual Health Library (VHL) databases. Inclusion criteria covered primary studies published in Portuguese within the last five years and available in full text. Duplicate studies, theses, dissertations, and articles that did not address the study's objective were excluded. Of the 126 studies found, 16 were selected. The studies made it possible to identify a comprehensive understanding of the prevalence of Human Immunodeficiency Virus (HIV) among the elderly, revealing a significant increase in the number of cases. Furthermore, the results indicate that the elderly are becoming an increasingly vulnerable group regarding HIV infection. This study leaves the impression that there is a long, arduous road ahead concerning the health of elderly individuals with HIV/AIDS; it is hoped that healthcare professionals will recognize the vital importance of addressing elderly health in a broader context.
Keywords: AIDS; Elderly; HIV; Older Adults.
1. INTRODUÇÃO
Nas últimas décadas têm-se presenciado maior preocupação em estudar e compreender, de forma mais intensa o processo de envelhecimento e suas implicações. Esse processo iniciou-se em países desenvolvidos e tem constituído, contemporaneamente, um dos maiores desafios para saúde pública, principalmente em países subdesenvolvidos que ainda apresentam situações de pobreza e desigualdades sociais (Fagundes et al., 2017).
O envelhecimento populacional é um fenômeno mundial de ritmo acelerado que ocasiona consequências profundas nas sociedades devido aos desafios a serem enfrentados para a formulação de políticas públicas que supram as necessidades dessa população (OMS, 2015).
Com o aumento da expectativa de vida, aliado ao envelhecimento saudável, a população idosa tem mantido laços sociais através da participação ativa em atividades de lazer, favorecendo a inclusão social, reduzindo o abandono e exclusão, situação rotineira entre os idosos que não possuem vínculos sociais. Desse modo, os idosos vivenciam diversas transformações ao longo de sua vida, as quais envolvem uma série de mudanças sociais, psicológicas e físicas, de modo a enfrentar múltiplos desafios e necessidades, como a sexualidade, que é algo que faz parte da vida do indivíduo (Luz et al., 2015).
Um dos reflexos da maior longevidade que chama atenção é a mudança no perfil epidemiológico, levando a um aumento da prevalência de doenças crônico-degenerativas, próprias do envelhecimento, que são mais complexas e mais dispendiosas (Campos; Gonçalves, 2018). Todavia, vem sendo observado também uma elevada vulnerabilidade às Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST’s), como a do Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV), configurando uma nova característica do perfil epidemiológico de idosos no Brasil (Bastos et al., 2018; Ferreira et al., 2019; Vieira et al., 2021). Em 2024, estimou-se aproximadamente 1,3 milhão de novas infecções pelo HIV e cerca de 630 mil óbitos decorrentes da aids (Naco, 2024). No Brasil, o cenário segue preocupante sendo que em 2023, foram notificados 46.495 casos, dos quais 8,8% ocorreram em pessoas com 50 anos ou mais (Brasil, 2024).
Essa crescente proporção de pessoas idosas vivendo com HIV está relacionada a três fatores principais: i) o sucesso da terapia antirretroviral (TARV), prolongando a vida das pessoas infectadas pelo HIV; ii) o fato de pessoas com 60 anos ou mais exibir comportamentos de risco semelhantes aos mais jovens; e iii) ao incremento da notificação de infecção pelo HIV após os 60 anos (Carvalho et al., 2017; Knight et al., 2018). Porém, embora o número de pessoas idosas com HIV esteja aumentando, insuficientes estratégias de combate à infecção pelo HIV concentram-se, explicitamente, nessa população anteriormente excluída.
Dentro deste contexto, compreende-se que a relevância do presente trabalho está associada a discussão deste assunto possibilitando assim a desconstrução de estigmas atrelados aos mitos e tabus que cercam a pessoa idosa e a sua sexualidade, beneficiando também profissionais de saúde, no sentido de arraigar e instrumentalizar nestes uma visão mais verídica do contexto social em que o idoso se insere na atualidade, possibilitando desta forma uma assistência que permita disseminar informações necessárias para uma profilaxia efetiva no que diz respeito às IST.
Sendo assim, considerando este contexto e visando qualificar a assistência de saúde da população idosa, o objetivo deste estudo foi identificar a produção científica sobre o conhecimento de idosos sobre a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (SIDA); descrever o perfil sociodemográfico dos idosos investigados nos artigos selecionados e perceber o domínio dos idosos em relação a SIDA no que diz respeito aos âmbitos de conceito, transmissão, prevenção, vulnerabilidade e tratamento.
2. METODOLOGIA
Trata-se de um estudo exploratório e descritivo a partir de revisão bibliográfica, este tipo de pesquisa baseia-se na análise crítica de um tema ou questão através da reunião e síntese sistemática dos resultados de outras pesquisas sobre este assunto (Mendes; Silveira; Galvão, 2008).
As buscas ocorreram nas bases de dados Lilacs (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde), BDENF (Base de dados de Enfermagem) e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), além de sites e publicações institucionais do Ministério da Saúde, Organização Mundial da Saúde.
No que tange aos critérios de inclusão e exclusão, foram incluídos estudos primários em português, com recorte temporal dos últimos cinco anos (2020-2026), artigos que estavam disponíveis na íntegra e que abordavam a temática da revisão. Foram excluídos estudos duplicados, teses e dissertações e os que não respondiam ao objetivo do estudo devido a fatores como a presença de temáticas distintas e o recorte populacional diferente da desenvolvida no estudo, ou seja, pessoas com idade menores de 60 anos. Visando conferir sensibilidade aos resultados do estudo, utilizaram-se os seguintes descritores: terceira idade e HIV; AIDS e idosos; HIV e idosos. Os artigos foram obtidos na integra por meio de busca ativa nos periódicos incluídos no estudo.
Dessa forma, com a aplicação da estratégia de busca obteve-se um total de 126 estudos. Para a seleção dos artigos, foi realizada a leitura prévia dos títulos e resumos encontrados, de acordo com a sua elegibilidade para com esta pesquisa e após a aplicação dos critérios de inclusão e de exclusão foram selecionados 30 estudos para a leitura na íntegra. Com isso, visando a coleta de dados, foi feita uma leitura minuciosa dos estudos e então 16 foram selecionados para compor a amostra da revisão.
Após a leitura de cada artigo, deu-se início à fase de análise, buscando os seguintes aspectos: autoria, ano de publicação, título do estudo, periódico de publicação, objetivo e conclusão do estudo.
Como este estudo trata-se de uma revisão bibliográfica, não houve a necessidade de submissão ao Comitê de Ética e Pesquisa (CEP), contudo, estão sendo respeitados os aspectos éticos no que tange à integridade das fontes citadas.
3. RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS
Por meio desta revisão foi possível analisar a produção científica sobre o conhecimento de idosos sobre a SIDA. Assim, com base nos critérios de inclusão, foram selecionados 16 artigos, os quais foram analisadas informações primordiais, como autor, ano de publicação, título do estudo, periódico de publicação, objetivo e conclusão, conforme apontado no Quadro 1.
Quadro 1. Sinopse das principais informações dos 16 estudos incluídos na pesquisa
Autor | Ano | Título | Periódico | Objetivo | Conclusão |
Carvalho, M. R.; Santos, A. C. M | 2020 | Revisão integrativa sobre o conhecimento de idosos em relação a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (SIDA) | Diversitas Journal | Identificar na literatura sobre o conhecimento de idosos em relação a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (SIDA). | A partir da análise dos estudos obteve-se das amostras um perfil sociodemográfico composto em sua maior parte por mulheres, de baixa escolaridade e renda, sobre as quais foi possível observar um número significativo de erros nos domínios conceito e transmissão do HIV, sendo possível concluir através dessa realidade que embora exista um conhecimento por parte destes idosos em relação a SIDA, este ainda se apresenta como incipiente e fragmentado. |
Araujo, W. J. S. et al. | 2020 | Intervenção educativa com idosos sobre HIV/AIDS: um estudo quase experimental | Texto & Contexto Enfermagem | Analisar o conhecimento dos idosos atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) acerca da infecção do HIV/aids numa unidade de saúde, antes e após intervenção educativa. | Constatou-se que a intervenção educativa contribuiu para o aprimoramento de conhecimentos sobre HIV/Aids na população idosa. Com isso, reafirma-se que a política de promoção da saúde encontra nas estratégias de educação em saúde seu alicerce essencial. |
Costa, J.N. et al. | 2020 | Transmissão e prevenção do HIV/Aids: qual o conhecimento dos idosos sobre a temática? | Revista de Enfermagem da UFPI | Analisar o conhecimento dos idosos sobre a transmissão e a prevenção do HIV/aids. | Nota-se à necessidade de elaboração de campanhas voltadas ao público abordado com um direcionamento mais específico para a temática estudada, buscando que os mesmos se identifiquem como indivíduos potencialmente em risco. As informações sobre a transmissão e prevenção para este grupo devem englobar todas as formas de transmissão, partindo do pressuposto que mesmo que o idoso não esteja exposto a todas as formas, o mesmo pode transmiti-las a outros. |
Oliveira, P. R. S. P. et al. | 2021 | Sexualidade de idosos participantes de um centro de convivência | Cuidado é fundamental | Analisar o comportamento sexual de idosos participantes de um centro de convivência | Os idosos apresentam dificuldades no ato sexual, não usam preservativos, porém, têm desejo sexual. Há necessidade de implementar intervenções para promoção da saúde sexual na velhice. |
Araújo, K. M. S. T. et al. | 2022 | Qualidade de vida segundo comorbidades mais prevalentes em idosos com vírus da imunodeficiência adquirida | Cuidado é fundamental | Avaliar a qualidade de vida segundo as comorbidades mais prevalentes em idosos com HIV | Osteoporose e osteoartrose são as comorbidades que tem impacto em mais dimensões da qualidade de vida. |
Loeblein, A. et al. | 2022 | Idosos vivendo com HIV/ AIDS: uma revisão integrativa da literatura | Recima 21 | Identificar nas literaturas nacionais e internacionais, o conhecimento sobre a sexualidade entre idosos que vivem com HIV, suas bases ideológicas, seu perfil sociodemográfico, conhecimento frente a doença e a experiência do envelhecimento com o diagnóstico de HIV. | Percebeu-se que parte dos idosos não tinham conhecimento sobre o HIV e em grande parte eram assintomáticos. O perfil epidemiológico mostrou prevalência de homens com idades entre 60 e 70 anos com nível de escolaridade incompleto. Entende-se que a escolaridade e a falta de conhecimento sobre a doença facilitam a maior disseminação do vírus nesta faixa etária, assim sendo, é clara a necessidade de políticas públicas voltadas para esta faixa etária, além do reforço sobre as medidas de forma preventiva e educação em saúde |
Ramos, V. F. et al. | 2023 | Assistência de enfermagem a idosos portadores de HIV/AIDS: revisão integrativa | Research, Society and Development | Analisar a produção científica brasileira nos últimos cinco anos acerca da assistência de enfermagem prestada aos idosos portadores de HIV (Vírus da Imunodeficiência Humana) /AIDS (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida) | É imprescindível o conhecimento e capacitação das equipes multiprofissionais acerca das vulnerabilidades vivenciadas pelos idosos. Além disso, nota-se a necessidade de criação de políticas públicas, programa projetos, com o intuito de identificar precocemente e dirimir as consequências da infecção do HIV/AIDS nos idosos. |
Souza, K. O. C. et al. | 2023 | Uma análise espaço temporal da mortalidade em pessoas idosas que vivem com HIV/AIDS no estado de São Paulo, Brasil | Revista Brasileira de Epidemiologia | Analisar a distribuição espaço-temporal da mortalidade em idosos que vivem com HIV/ AIDS no estado de São Paulo, Brasil. | O grupo etário em que ocorreu maior tendência de crescimento da mortalidade por HIV/AIDS durante o período de 2010–2020 foi o de pessoas idosas com mais de 69 anos. Os aglomerados das altas taxas de mortalidade foram localizados em regiões mais ao sul e norte do estado, onde se concentram locais de maiores desigualdades sociais |
Souza, L. P. M. et al. | 2023 | A Incidência da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS) em idosos brasileiros | Brazilian Journal of Health Review | Analisar as causas relacionadas ao aumento da incidência nesta população, bem como reconhecer medidas para prevenção de novos casos. | O presente estudo evidenciou relação direta entre o aumento do índice de AIDS em idosos e a falta de informação direcionada a esta parcela da população a respeito da doença e suas formas de prevenção. Além disso, a precariedade na atenção primária à saúde a este grupo também corrobora com as estatísticas. Faz-se necessária, portanto, maior atenção e conscientização da sexualidade ativa da terceira idade, tanto pelos próprios idosos, quanto pelos profissionais da saúde, a fim de reduzir a incidência de doenças sexualmente transmissíveis neste grupo. |
Silva, E. F. O. et al. | 2023 | Fatores associados ao aumento de infecções sexualmente transmissíveis no público idoso | Revista Eletrônica Acervo Saúde | Identificar quais são os fatores associados ao aumento de Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST’s) na população idosa. | Considera-se que tais evidências contribuirão para melhor compreensão da complexa relação entre os fatores culturais, modelos assistenciais e estigmatização da sexualidade deste público com o aumento das IST’s. O reconhecimento destes fatores é imprescindível para ampliação do acesso à informação, práticas educativas equânimes e capacitação dos profissionais de saúde, possibilitando efetivação de políticas públicas emancipatórias. |
Soares, T. E. C. et al. | 2024 | Prevalência de HIV/AIDS no idoso: desafio para o enfermeiro frente à prevenção na atenção primária à saúde | Revista Ft | Investigar a prevalência do HIV/AIDS entre idosos e os desafios enfrentados pelos enfermeiros na prevenção e tratamento dessa população. | Conclui-se que intervenções multifacetadas, considerando as necessidades específicas dos idosos com HIV/AIDS, são essenciais para garantir acesso à saúde e bem-estar. |
Martini, T.A. et al. | 2024 | Perfil epidemiológico de idosos vivendo com HIV em uma cidade do interior de Santa Catarina | ACM – Arquivos Catarinenses de Medicina | Reconhecer o perfil epidemiológico dos idosos que vivem com HIV, acima dos 60 anos de idade, que estão em tratamento no Centro de Triagem e Aconselhamento (CTA) numa cidade no interior de Santa Catarina, entre janeiro de 2013 e dezembro de 2023. | A liberdade frente à sexualidade nesta faixa etária pode ser a responsável pela continuidade do HIV, juntamente com a falta de informação. Não são realizadas campanhas educativas sobre doenças sexualmente transmissíveis voltadas especialmente para a terceira idade. Ainda, há uma carência em formação continuada para profissionais da saúde, tanto na abordagem ao assunto sobre sexualidade, quanto para orientação da população idosa. |
Maia, M. C. G. et al. | 2025 | Desafios e perspectivas do HIV nos idosos no Brasil: um estudo epidemiológico | Contribuciones a Las Ciencias Sociales | Analisar a incidência de HIV/AIDS na população idosa brasileira, no período de 2013 a 2023. | É necessária a ampliação de estratégias de prevenção nessa população e uma melhor manutenção da vigilância epidemiológica. |
Silva, A. C. T. et al. | 2025 | Desafios e Estratégias da prevenção e impacto psicossocial do HIV/AIDS em idosos | PPC – Políticas Públicas & Cidades | Este estudo teve como objetivo analisar os principais obstáculos e estratégias relacionadas à prevenção e aos impactos psicossociais do HIV/AIDS em idosos. | Conclui-se que a construção de políticas públicas inclusivas, campanhas educativas específicas e a capacitação de profissionais são medidas fundamentais para a promoção de um cuidado integral e livre de estigmas para a população idosa vivendo com HIV/AIDS. |
Silva, W. F. da; Duarte, L. S.; Silva, J. F. | 2026 | Características epidemiológicas de idosos diagnosticados com HIV em unidade de Infectologia | BJHIS | Descrever o perfil epidemiológico, demográfico, socioeconômico e clínico de pessoas idosas vivendo com HIV/aids atendidas em uma unidade de referência em Infectologia no estado de Goiás. | O HIV/aids entre pessoas idosas representa uma realidade emergente que requer atenção contínua. Torna-se fundamental fortalecer políticas p ̇blicas de prevenção, diagnóstico precoce e adesão o ao tratamento, além de desenvolver estratégias de cuidado específicas voltadas ‡ população idosa vivendo com HIV/aids, a fim de reduzir a vulnerabilidade, melhorar a qualidade de vida e promover o envelhecimento saudável. |
Lima, B. A. et al. | 2026 | O aumento dos casos de HIV na terceira idade e a importância da assistência preventiva na saúde pública | Revista Tópicos | O presente artigo analisa o crescimento da incidência de infecções pelo HIV entre indivíduos com 60 anos ou mais, investigando os fatores de vulnerabilidade, barreiras ao diagnóstico e tratamento, impactos psicossociais e a eficácia das estratégias de assistência preventiva. | Conclui-se que a capacitação dos profissionais de saúde, a adaptação das estratégias preventivas e a implementação de políticas públicas inclusivas são fundamentais para mitigar a transmissão e garantir a qualidade de vida da população idosa soropositiva. |
Fonte: elaborado pelas autoras, 2026.
4. DISCUSSÃO
Os estudos analisados foram compreendidos no período de 2020 a 2026, com diferentes delineamentos, sendo todos eles voltados a identificar na literatura científica o conhecimento de idosos em relação ao HIV/AIDS; descrever o perfil sociodemográfico dos idosos investigados nos artigos selecionados e perceber o domínio dos idosos em relação a SIDA no que diz respeito aos âmbitos de conceito, transmissão, prevenção, vulnerabilidade e tratamento. Sendo assim, é notório que os artigos se concentram em debater o conhecimento dos idosos, principalmente, sobre prevenção, diagnóstico e tratamentos do HIV/AIDS.
Nota-se, que alguns avanços científicos contribuíram para a população idosa, a exemplo de melhores desempenhos da prática sexual e maiores prazeres durante o ato sexual, entretanto, a prevenção contra as IST’s para este público não acompanhou o ritmo dessa evolução. As dificuldades de implantar medidas preventivas a este grupo, e principalmente fazer uso de preservativos, ainda são grandes e perceptíveis no meio social (Andrade, et al., 2017; Silva, et al., 2018). A ausência de conhecimentos da doença e as formas de transmissão do vírus, em conjunto com as percepções e crenças equivocadas, por não considerar as pessoas idosas suscetíveis a adquirir a doença, correlacionada com as práticas de condutas errôneas, insere-os no comportamento de risco e os expõe a vulnerabilidades (Cerqueira; Rodrigues, 2016).
Os estudos analisados ofereceram uma compreensão abrangente da prevalência de HIV em idosos, abrangendo distintos períodos e regiões do Brasil, mostrando um crescimento significativo no número de casos entre idosos. Além disso, os resultados indicam que os idosos estão se tornando um grupo cada vez mais vulnerável à infecção pelo HIV.
Entre as características analisadas nos estudos, verificou-se que a maioria dos idosos com HIV/AIDS pertencia ao sexo masculino. Segundo Vieira et al. (2021), a predominância de casos de HIV/AIDS entre idosos, especialmente em homens, está relacionada ao preconceito contra o uso de serviços de saúde e preservativos, além de comportamentos de risco como relações sexuais desprotegidas, os idosos muitas vezes não se percebem vulneráveis ao HIV. Desta forma, os idosos em sua maioria justificam a ausência de utilização de prática de sexo seguro a questão voltada a parceiros fixos, além das crenças culturais que destacam que a utilização de preservativos pode prejudicar o prazer nas relações sexuais (Ferreira et al., 2021).
Em relação à cor/raça, observou-se predomínio expressivo da população parda, seguida por brancos e pretos (Silva; Duarte; Silva, 2026). Ao que tange à escolaridade, verificou-se que a maior parte dos indivíduos possuíam ensino fundamental incompleto, seguido por ensino médio completo. Os grupos analfabetos, ensino fundamental completo e ensino médio incompleto apresentaram proporções semelhantes (Santos et al., 2021; Vieira et al., 2021; Silva; Duarte; Silva, 2026).
A faixa etária de 60 a 69 anos é a mais afetada pelo HIV/AIDS entre os idosos, contradizendo estereótipos e destacando a existência de uma vida sexual ativa nesse grupo. Contudo, a maior taxa de crescimento nos novos casos de HIV/AIDS ocorre na faixa etária de 80 anos ou mais, seguida pela faixa de 70 a 79 anos, enquanto a faixa de 60 a 69 anos mostra uma estabilidade relativa. Tal fato, se denota que com o envelhecimento da população, proporcionando maior longevidade, em que a sexualidade está cada vez mais presente dentre os idosos, cabe destacar que o incentivo à proteção sexual deverá se tornar uma prioridade na educação em saúde (Santos et al., 2021; Vieira et al., 2021).
Já Nierotka; Ferretti (2022), destacam que a negligência no uso de preservativos é um fator crucial para a incidência de infecções por HIV entre idosos. Isso reforça a urgência de campanhas de conscientização sexual voltadas especificamente para essa faixa etária. A confiança em parceiros fixos e a busca pelo prazer imediato foram identificadas como principais motivos para a não utilização de preservativos entre os idosos (Nierotka; Ferretti, 2022; Maia et al., 2025).
Embora a epidemiologia do HIV tenha historicamente demonstrado maior concentração em homens, dados recentes indicam um preocupante fenômeno de feminização da infeção entre as mulheres idosas. Este aumento da incidência feminina está frequentemente relacionado à infeção por meio de parceiros estáveis que mantém relações extraconjugais com múltiplas parceiras. Essa causalidade pode ser explicada também pela vulnerabilidade social, cultural e religiosa que coloca a mulher em posição inferior ao homem e de submissão quanto às práticas sexuais, que prejudicam o uso de medidas preventivas (Silva; Duarte; Silva, 2026).
Diante do exposto, Loeblein et al. (2022) apontaram em seus estudos que a maior parte dos idosos não possuem o menor conhecimento das formas que possibilitaram a infecção pelo vírus HIV, ratificando as pesquisas anteriores da ausência de informação dos cuidados para a prevenção, mesmo, a priori, não se tratando de um grupo considerado sexualmente ativo, mas que se tornam propensos à contaminação.
Vale destacar, que os idosos ainda atrelam às dificuldades na assistência à saúde, a situação de esconder de seus familiares a condição de soropositivos, demonstrando o sentimento de vergonha desencadeado pelo diagnóstico, tornando o enfrentamento mais complicado, conforme propõem Silva et al. (2017). Além disso, Saldanha; Felix e Araújo (2008), apontam que além de toda a carga sócio moral que carrega um soropositivo, ocorrendo na velhice, acabam por gerar maior dificuldades, em razão do contexto social atribuído ao idoso. Assim, o medo da rejeição social, faz com que muitos idosos não busquem formas de prevenção e conscientização que a doença não afeta um público exclusivamente em razão da idade e sim que os idosos também podem se contaminar sexualmente (Duarte et al., 2021).
Dentro deste contexto, Silva et al. (2020) enfatizam que os métodos empregados pelos profissionais de saúde desempenham um papel proeminente no cuidado prestado, não se limitando apenas a assistência, mas também exercendo o papel de educador, uma vez que, a educação em saúde não se resume simplesmente à transmissão de dados, já que cada idoso traz consigo suas próprias convicções, apreensões e anseios, influenciados pelo ambiente sociocultural ao qual pertencem. Isso implica na necessidade de capacitar esses profissionais para que compreendam as complexidades envolvidas no cuidado aos idosos, e adotem uma abordagem colaborativa com outros especialistas, visando aprimorar o suporte oferecido a esses usuários.
Outro grande desafio é o acesso aos serviços de saúde. Em áreas rurais, a escassez de unidades de saúde e a falta de transporte dificultam a realização de testes, o recebimento de aconselhamento e o acesso ao tratamento para o HIV. Barreira financeiras, como os custos de consultas e medicamentos, também limitam o acesso dos idosos aos cuidados necessários. Os estudos de Costa et al. (2020) e Pimentel et al. (2020), pontuam que essas limitações geográficas podem resultar em diagnósticos tardios e tratamento inadequado, exacerbando a vulnerabilidade dos idosos ao HIV (Costa et al., 2020; Pimentel et al., 2020).
O estigma e a discriminação associados ao HIV impedem muitos idosos de buscar ajuda e realizar testes. A falta de sensibilidade cultural dos profissionais de saúde também pode dificultar o cuidado individualizado. Ainda, dificuldades de comunicação, como déficits auditivos ou visuais, exigem adaptações nos métodos de comunicação para garantir a compreensão das informações (Costa et al., 2020; Pimentel et al., 2020; Nierotka; Ferretti, 2022).
Cabe destacar ainda, a presença de comorbidades e a polifarmácia entre idosos que exigem um cuidado individualizado na avaliação dos riscos e das interações medicamentosas relacionadas ao HIV e à profilaxia pré-exposição (PrEP). Comorbidades como hipertensão, diabetes e doenças cardiovasculares são comuns entre idosos e podem complicar o tratamento do HIV. A polifarmácia, caracterizada pelo uso simultâneo de múltiplos medicamentos, aumenta o risco de interações adversas, comprometendo a eficácia do tratamento e a qualidade de vida dos pacientes (Lima, et al.,2021; Nierotka; Ferretti, 2022; Silva et al., 2025).
Ainda, Estudos de Lima et al. (2021) e Nierotka; Ferretti (2022) destacam a necessidade de um acompanhamento cuidadoso e integrado por parte dos profissionais de saúde, que devem revisar continuamente todas as medicações para evitar efeitos colaterais graves e garantir a adesão ao tratamento (Lima, et al.,2021; Nierotka; Ferretti, 2022; Silva et al., 2025).
No que tange à assistência de enfermagem aos idosos portadores de HIV/AIDS pode observar nos estudos incluídos ações como a educação em saúde, estratégias para a disseminação de conhecimentos entre os idosos referente a vida sexual e suas vulnerabilidades e capacitação/treinamento dos profissionais atuantes na saúde.
Assim, de maneira geral, os estudos examinados convergem na crítica à invisibilidade social dos idosos soropositivos e à omissão de seus direitos no campo da saúde pública. A revisão evidencia uma lacuna estrutural entre os discursos inclusivos das políticas nacionais e a realidade vivenciada por essa população nos serviços de base.
Portanto, o enfrentamento do HIV/AIDS entre idosos demanda de um fortalecimento de estratégias de rastreamento precoce, educação em saúde e ações preventivas voltadas especificamente para essa população, a fim de reduzir as desigualdades no cuidado, prevenir complicações e favorecer melhores desfechos clínicos neste grupo.
5. CONCLUSÃO
A epidemia por HIV/AIDS, da década de 1980 até hoje, passou por mudanças significativas. A implantação do acesso universal à terapia antirretroviral em 1996 resultou em queda na mortalidade e, em consequência, no aumento da sobrevida das pessoas acometidas pela infecção por HIV. Todavia, também se verificou uma alteração nos grupos etários suscetíveis, observando-se um aumento na incidência da infecção em pessoas com idade de 60 anos ou mais. Diversos fatores contribuíram para tornar as pessoas idosas suscetíveis à AIDS, destacando-se a concepção errônea que se tem sobre a assexualidade das pessoas com idade mais avançada, que leva a realização de diagnóstico tardio, além do fato de alguns sintomas iniciais da AIDS serem comuns a outras doenças da terceira idade. Deve-se, ainda, destacar que a abordagem sobre a sexualidade entre idosos ainda se configura como um desafio a ser enfrentado pelos serviços de saúde e se torna ainda mais preocupante em virtude de acentuar a vulnerabilidade de adoecimento a IST’s.
Como resultado deste trabalho, fica um sentimento de que existe um longo e árduo caminho a percorrer no que tange à saúde da pessoa idosa com HIV/AIDS, espera-se que os profissionais de saúde percebam o quão essencial é abordar a saúde da pessoa idosa de uma forma mais ampla. E para que esse objetivo seja alcançado, os profissionais precisam conhecer os aspectos socioculturais que envolvem os idosos, seja nos motivos que levam à resistência ao uso do preservativo, ou no nível de conhecimento em relação a doença. Além disso, é preciso conhecer o contexto familiar que o idoso está inserido, porque isso reflete na sua adesão ao tratamento e nas suas condições fisiológicas e mentais, que já estão acometidas pelo processo natural do envelhecimento.
Por fim, como limitações do estudo pôde-se apontar o próprio delineamento da pesquisa. Sugere-se novos estudos acerca da temática são imprescindíveis para fundamentar ações guiadas por evidências científicas, tão necessárias ao ser que envelhece convivendo com HIV/AIDS.
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1 Enfermeira Especialista em Saúde Coletiva com Ênfase em Programa de Saúde da Família. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Enfermeira Especialista em Saúde do Trabalhador. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
3 Enfermeira Especialista em MBA em Gestão Hospitalar. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
4 Graduação em Processos Gerenciais. Especialista em Enfermagem do Trabalho. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
5 Doutorado em Distúrbios da Comunicação Humana/ UFSM. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail