VOZES DE RESISTÊNCIA: LETRAMENTO RACIAL E AS NARRATIVAS DE MULHERES PRETAS NAS RELAÇÕES DE PODER CONSTRUÍDAS EM PERFIS DO INSTAGRAM

VOICES OF RESISTANCE: RACIAL LITERACY AND THE NARRATIVES OF BLACK WOMEN WITHIN POWER RELATIONS CONSTRUCTED ON INSTAGRAM PROFILES

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/782845236

RESUMO
Este trabalho analisa como o letramento racial se manifesta nos discursos digitais de mulheres pretas com visibilidade no Instagram, evidenciando práticas de resistência e tensionamento das estruturas de poder. A pesquisa se fundamenta na análise do discurso francesa, especialmente na perspectiva arquegenealógica de Michel Foucault, que permite compreender os discursos como práticas sociais atravessadas por relações de poder, jogos de verdade e resistência, e como espaços de constituição do sujeito. O estudo articula essa base foucaultiana com as contribuições de Ladson-Billings(1995) e Gomes(2012) sobre letramento racial, entendendo-o como prática pedagógica, política e discursiva que possibilita a leitura crítica das narrativas raciais e a produção de contradiscursos. A análise dos perfis digitais evidencia que as mulheres pretas utilizam suas vozes para afirmar identidades, desestabilizar estereótipos e criar novas formas de subjetivação, tornando o Instagram um espaço de disputa simbólica e resistência.
Palavras-chave: Letramento racial; Foucault; poder e resistência; mulheres pretas; Instagram.

ABSTRACT
This study analyzes how racial literacy manifests in the digital discourses of Black women with visibility on Instagram, highlighting practices of resistance and the tensioning of power structures. The research is grounded in the French discourse analysis tradition, especially Michel Foucault’s archegenealogical perspective, which understands discourse as a social practice shaped by power relations, truth games, resistance, and as a space for subject constitution. This theoretical foundation is articulated with the contributions of Ladson-Billings (1995) and Gomes(2012) on racial literacy, conceived as a pedagogical, political, and discursive practice that enables critical reading of racial narratives and the production of counter-discourses. The analysis of digital profiles shows that Black women use their voices to affirm identities, destabilize stereotypes, and create new forms of subjectivation, making Instagram a symbolic arena of dispute and resistance.
Keywords: Racial literacy; discourse analysis; Foucault; power and resistance; Black women; Instagram.

1. INTRODUÇÃO

O Instagram, enquanto plataforma digital de ampla circulação, tornou-se um espaço privilegiado de visibilidade e disputa simbólica, onde diferentes sujeitos constroem narrativas que tensionam ou reforçam estruturas sociais. Nesse cenário, as mulheres pretas emergem como protagonistas de discursos que desafiam estereótipos e produzem novas formas de resistência, afirmando identidades e questionando regimes de verdade historicamente impostos. A relevância deste estudo reside justamente em compreender como essas narrativas se articulam no ambiente virtual, revelando práticas discursivas que se inscrevem no campo do letramento racial e que, ao mesmo tempo, expõem as relações de poder que atravessam a sociedade contemporânea.

A justificativa para esta pesquisa encontra-se na necessidade de analisar como mulheres pretas constroem discursos de resistência em meio às dinâmicas de poder que operam tanto no espaço físico quanto no digital. O corpus selecionado — perfis de mulheres pretas com visibilidade no Instagram — permite observar como suas vozes se constituem em práticas discursivas que ora se afirmam como resistência, ora se veem tensionadas por discursos de subserviência, revelando o caráter ambivalente das relações de poder. A problemática que orienta este trabalho pode ser formulada da seguinte maneira: de que forma os discursos de mulheres pretas no Instagram, atravessados por práticas de letramento racial, configuram estratégias de resistência frente às narrativas hegemônicas e como essas vozes se inscrevem nas redes de poder que estruturam o espaço digital?

O objetivo central é analisar os discursos produzidos por mulheres pretas em perfis do Instagram, identificando práticas de letramento racial e estratégias de resistência que se manifestam em suas narrativas. Para tanto, adota-se como metodologia a análise arquegenealógica foucaultiana, que possibilita compreender os discursos não apenas como representações, mas como práticas que produzem saberes e sujeitos. A perspectiva foucaultiana, especialmente desenvolvida em Microfísica do Poder (1979), permite observar como o poder se exerce de forma difusa e capilar, atravessando os corpos e as linguagens, e como, nesse mesmo movimento, emergem resistências que desestabilizam os discursos dominantes. Assim, este trabalho busca contribuir para o campo dos estudos sobre letramento racial e análise do discurso, evidenciando o papel das narrativas digitais de mulheres pretas como práticas de resistência e afirmação identitária.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

Este estudo se fundamenta na tradição da análise do discurso francesa, especialmente na perspectiva arquegenealógica de Michel Foucault. A arqueologia, conforme apresentada em A Arqueologia do Saber (1969), busca descrever as condições de possibilidade dos discursos, identificando as formações discursivas que delimitam o que pode ser dito em determinado momento histórico. Já a genealogia, inspirada em Nietzsche e sistematizada por Foucault em Microfísica do Poder (1979), evidencia como os discursos são atravessados por relações de poder, jogos de verdade e práticas de resistência. Para Foucault, “o poder produz realidade; produz domínios de objetos e rituais de verdade” (FOUCAULT, 1979, p. 29), o que significa que os discursos não apenas refletem a realidade, mas a constituem, produzindo sujeitos e saberes.

A análise arquegenealógica permite compreender que o sujeito não é dado de forma natural, mas se constitui no interior dos discursos, sendo simultaneamente efeito e condição das práticas discursivas. Como afirma Foucault em A Ordem do Discurso (1971), o discurso é aquilo por meio do qual se luta e se exerce poder. Nesse sentido, os discursos digitais das mulheres pretas no Instagram podem ser lidos como práticas que tanto revelam a inscrição do poder quanto produzem resistências, desestabilizando regimes de verdade e criando novas formas de subjetivação. Gregolin (2007) reforça essa perspectiva ao destacar que o discurso é atravessado por memórias sociais, funcionando como espaço de disputa simbólica. Navarro (2009) acrescenta que, na análise foucaultiana, o sujeito se constitui nas práticas discursivas, mas pode reposicionar-se, criando fissuras que abrem espaço para resistências. Cleudemar Fernandes (2005) e Vanise Sargentini (2010) também enfatizam que o discurso é lugar de tensão, onde se materializam relações de poder e contra-poder.

Articulado a essa base foucaultiana, o conceito de letramento racial torna-se essencial para compreender os discursos digitais de mulheres pretas. Gloria Ladson-Billings (1995) define o letramento racial como a capacidade de reconhecer, interpretar e responder criticamente às estruturas de racismo que permeiam a sociedade, transformando a leitura da realidade em prática política. No Brasil, Nilma Lino Gomes (2012) amplia essa discussão ao afirmar que o letramento racial é uma prática pedagógica e política que possibilita aos sujeitos negros desenvolverem consciência crítica sobre o racismo estrutural e produzirem narrativas de resistência. Essa perspectiva dialoga com Lélia Gonzalez (1988), que destacou a importância da consciência racial como prática de enfrentamento às estruturas coloniais e patriarcais, e com Sueli Carneiro (2005), que enfatiza o papel da linguagem e da representação na manutenção e contestação do racismo.

Dessa forma, o estudo se desenvolve a partir da articulação entre a análise arquegenealógica foucaultiana e a teoria do letramento racial. A primeira fornece instrumentos para compreender como os discursos digitais se constituem em práticas de poder, jogos de verdade e resistência, enquanto a segunda ilumina como mulheres pretas produzem narrativas que afirmam identidades e tensionam estruturas de dominação. Ao analisar perfis de mulheres pretas no Instagram, este trabalho evidencia que o discurso digital é um espaço de constituição do sujeito, em que o letramento racial se manifesta como prática discursiva capaz de desestabilizar estereótipos e criar novas formas de subjetivação e resistência.

2.1. Instagram Como Arena Discursiva e Letramento Racial

O Instagram, enquanto espaço digital, não pode ser reduzido apenas a uma rede de entretenimento ou exposição pessoal: ele se configura como uma arena discursiva contemporânea, na qual circulam narrativas que produzem sujeitos e identidades em constante disputa. A análise foucaultiana permite compreender que, nesse ambiente, os discursos são atravessados por relações de poder, constituindo jogos de verdade que delimitam o que pode ser dito, quem pode falar e quais vozes são legitimadas. Como afirma Foucault em A Ordem do Discurso (1971), o discurso é aquilo por meio do qual se luta e se exerce poder, e, portanto, o Instagram torna-se um espaço privilegiado para observar como práticas discursivas se materializam em formas de dominação e resistência.

Nesse cenário, a presença das mulheres pretas revela a interseccionalidade entre raça, gênero e mídia. A visibilidade digital dessas mulheres não é neutra: ela se inscreve em um campo de tensões em que estereótipos historicamente atribuídos à negritude e ao feminino são reproduzidos, mas também contestados. Lélia Gonzalez (1988) já apontava para a importância de compreender a articulação entre racismo e sexismo na constituição das identidades negras femininas, destacando que a resistência se dá justamente na produção de novas narrativas que desestabilizam os lugares de subalternidade.

O letramento racial é central para compreender como essas disputas se manifestam. Ladson-Billings (1995) define-o como a capacidade de reconhecer e responder criticamente às estruturas de racismo que permeiam a sociedade, transformando a leitura da realidade em prática política. Gomes (2012) amplia essa perspectiva ao afirmar que o letramento racial é também uma prática pedagógica e política que possibilita aos sujeitos negros desenvolverem consciência crítica sobre o racismo estrutural e produzirem narrativas de resistência. Ao serem transpostas para o espaço digital, essas concepções revelam como mulheres pretas utilizam suas vozes para questionar regimes de verdade e afirmar identidades em meio às disputas simbólicas do Instagram.

Por fim, o papel da linguagem é decisivo na manutenção e contestação das estruturas de poder. Carneiro (2005) enfatiza que a linguagem é um dos principais dispositivos de exclusão, mas também pode ser apropriada como instrumento de resistência e afirmação identitária. Assim, ao ocupar o Instagram, mulheres pretas não apenas se inserem em um espaço de visibilidade, mas transformam a linguagem em prática política, constituindo sujeitos que resistem e reconfiguram sentidos historicamente atribuídos à negritude e ao feminino.

3. METODOLOGIA

A presente pesquisa adota como abordagem metodológica a análise arquegenealógica foucaultiana, que possibilita compreender os discursos não apenas como representações, mas como práticas que produzem saberes, sujeitos e relações de poder. A arquegenealogia, tal como desenvolvida por Michel Foucault, articula dois movimentos complementares: a arqueologia, voltada para a descrição das condições de possibilidade dos discursos, e a genealogia, que busca evidenciar os jogos de poder e resistência que atravessam tais discursos. Essa perspectiva permite observar como os enunciados se constituem historicamente e como se inscrevem em redes de poder que não são centralizadas, mas capilares, difusas e presentes nas práticas cotidianas.

O corpus da pesquisa é composto por perfis públicos de mulheres pretas com visibilidade no Instagram, selecionados a partir de critérios como engajamento, relevância social e produção discursiva voltada para questões raciais e de gênero. nesse trabalho dois perfis são analisados: Barbara Carine -denominado uma intectual diferetona e da Jojo todynho, denominada de uma mulher real . A escolha do Instagram como espaço de análise se justifica por sua centralidade na cultura digital contemporânea, funcionando como arena discursiva em que circulam narrativas hegemônicas e contra-hegemônicas. Nesse ambiente, as mulheres pretas produzem discursos que podem ser lidos como práticas de resistência, tensionando estereótipos e afirmando identidades.

O procedimento de análise seguirá três etapas principais. Na primeira, será realizada a coleta e organização do corpus, reunindo postagens, legendas e interações discursivas presentes nos perfis selecionados. Na segunda etapa, será feita a descrição arqueológica, identificando os enunciados, as formações discursivas e os regimes de verdade que atravessam os discursos dessas mulheres. Por fim, na terceira etapa, será conduzida a análise genealógica, voltada para compreender como esses discursos se relacionam com as dinâmicas de poder e resistência, evidenciando práticas de letramento racial que emergem no espaço digital.

A metodologia arquegenealógica se mostra adequada porque permite compreender os discursos não como simples reflexos da realidade, mas como práticas que produzem efeitos de verdade e configuram modos de subjetivação. Nesse sentido, a análise dos perfis de mulheres pretas no Instagram possibilita observar como o poder se exerce e como, simultaneamente, emergem resistências que desestabilizam narrativas dominantes. Como afirma Foucault em Microfísica do Poder (1979), o poder não é algo que se possui, mas algo que se exerce, e é justamente nesse exercício que se abrem brechas para a resistência. Assim, a metodologia adotada busca evidenciar como as vozes dessas mulheres se constituem em práticas discursivas que desafiam e reconfiguram as relações de poder no espaço digital.

4. ANÁLISE E DISCUSSÃO

O Instagram, como arena discursiva contemporânea, revela-se um espaço em que diferentes vozes disputam sentidos e visibilidades. Ao observar os perfis de mulheres pretas com relevância na plataforma, é possível identificar tanto práticas de resistência quanto discursos que, em determinados momentos, podem ser lidos como subserviência às narrativas hegemônicas. Essa ambivalência confirma a perspectiva foucaultiana de que o poder não é algo centralizado, mas se exerce em múltiplas direções, atravessando corpos e linguagens, e que, nesse mesmo movimento, abre brechas para resistências. Como afirma Foucault em Microfísica do Poder (1979), “onde há poder, há resistência”.

No caso de Jojo Todynho, sua presença digital é marcada por uma performance que oscila entre afirmação e reprodução de estereótipos. Embora sua visibilidade seja significativa e sua voz alcance milhares de seguidores, parte de seu discurso pode ser interpretado como alinhado a narrativas de subserviência, na medida em que reforça representações que historicamente foram atribuídas às mulheres pretas em contextos de objetificação e exotização. A arqueologia do discurso evidencia que tais enunciados não surgem de forma isolada, mas se inscrevem em formações discursivas que atravessam a história da representação da mulher negra no Brasil. A genealogia, por sua vez, permite compreender como esses discursos se articulam às redes de poder que naturalizam estigmas e limitam a potência de resistência.

Em contraste, o perfil de uma intelectual negra “diferentona”, que se posiciona criticamente e produz conteúdo voltado para debates acadêmicos, políticos e sociais, apresenta uma narrativa que se inscreve diretamente no campo da resistência. Seus enunciados tensionam discursos dominantes, promovem práticas de letramento racial e evidenciam a consciência crítica sobre as estruturas de poder que atravessam a vida das mulheres pretas. Nesse caso, a análise arquegenealógica revela como sua voz se constitui em contra-discursos, desestabilizando regimes de verdade e afirmando novas possibilidades de subjetivação. Como lembra Foucault em A Ordem do Discurso (1971), o discurso não é apenas aquilo que traduz lutas ou sistemas de dominação, mas aquilo por meio do qual se luta e se exerce poder.

Vejamos a partir das falas da professora, dançarina, mulher negra empoderada, baiana, e de seu perfil no Instagram, como ela vem produzindo subjetividades e desconstruindo regimes de verdade e lugares de exclusão para e da mulher negra.

Uma análise discursiva, (AD), permite compreender o perfil apresentado não apenas como um conjunto de informações biográficas, mas como um espaço de construção identitária e de posicionamento social. O perfil de Bárbara Carine se inscreve em uma formação discursiva ligada ao campo acadêmico, educativo e militante. Ao se apresentar como “Mãe”, “Professora Dra UFBA”, “Idealizadora da Escola Maria Felipa” e “Escritora – Prêmio Jabuti Educação 2024”, ela constrói um ethos discursivo de autoridade intelectual e legitimidade social. Esse ethos não é neutro: ele se ancora em valores de reconhecimento institucional (universidade, prêmio literário) e em práticas de resistência (escola com nome de referência histórica da luta negra).

Denominar de uma intelectual diferentona já propõe um novo lugar. Ao denominar-se intelectual, já propõe um lugar de poder e empoderamento regido por regimes de verdades que não pertencem no geral a mulher negra, causando assim um impacto ao leitor, quebrando com jogos de verdades por muito tempo direcionados apenas aos branços (mulheres brancas). Essa articulação entre poder e resistência abre espaço para compreender como o letramento racial se manifesta nos discursos digitais. Gloria Ladson-Billings (1995) define o letramento racial como a capacidade de reconhecer, interpretar e responder criticamente às estruturas de racismo que permeiam a sociedade, transformando a leitura da realidade em prática política. Ao ser transposto para o espaço digital, esse conceito ilumina como mulheres pretas utilizam suas vozes para questionar regimes de verdade e afirmar identidades em meio às disputas simbólicas do Instagram. No contexto brasileiro, Nilma Lino Gomes (2012) amplia essa discussão ao destacar que o letramento racial é uma prática pedagógica e política que possibilita aos sujeitos negros desenvolverem consciência crítica sobre o racismo estrutural e produzirem narrativas de resistência. Assim, o diálogo entre Ladson-Billings e Gomes evidencia que o letramento racial, tanto em sua formulação internacional quanto em sua adaptação brasileira, é fundamental para compreender como mulheres pretas constroem discursos digitais que afirmam identidades e tensionam estruturas de poder.

Nessa perspectiva, o letramento racial, como prática discursiva que possibilita às mulheres pretas ler criticamente os enunciados que circulam no espaço digital e produzir narrativas que afirmam identidades e resistem às formas de silenciamento. Gregolin (2007) destaca que o discurso é sempre atravessado por memórias sociais, e nesse sentido, o letramento racial funciona como memória de resistência que reconfigura sentidos historicamente atribuídos à negritude. Para tanto, as estratégias de resistência se manifestam na produção de conteúdos que desconstroem estereótipos e afirmam a potência das mulheres pretas, desse modo permite compreender como sujeitos se constituem em práticas de resistência, deslocando os lugares de subalternidade. No caso da intelectual negra, sua produção discursiva se inscreve como contra-hegemônica, tensionando os regimes de verdade que sustentam o racismo estrutural. Segundo Navarro (2009) os sujeitos constituem lugares de poder e resistências à medida que faz ecoar dizeres outros àqueles pré-construídos.

Vejamos a fala da professora Carine- uma intelectual diferentona faz emergir uma rede de discussões sobre essa nova mulher negra que se empodera de um discurso acadêmico e intelectual para combater o preconceito e racismo estrutural que assola nossa sociedade desde a época da colonização. As falas da professora e dançarina é, respectivamente em comentário a entrevista da Shayane ( exparticipante do BBB 206 a Ana Maria Braga (apresentadora do programa da Globo) e homenagem ao músico Emílio Santiago, cantor e compositor negro brasileiro. Data dos vídeos é de 06 de abril de 2026

(06-04-2026)

Em suas falas, em ambos os vídeos são travessados por um discurso do conhecimento para o empoderado da pessoa negra em nosso país. A quebra dos esreotipos e preconceito com o povo negra passa tanto por conhecer a sua proporia cultura, raízes como pela inserção em práticas de conhecimento privilegiados da cultura, no geral, branca como ela bem específica pela formação do cantor Emílio Santiago.

Essa fala de empoderamento de” lugar ao sol da mulher negra que valoriza sua raça, sua cultura e seu povo, colocada pela professora Carine se ratifica nas falas da cantora Jojo Todinho, conhecida como pouco empoderada de sua cor, e valorização de sua raça, ao contrário, é um mal exemplo da mulher negra que nega sua proporia cor e raça, sua história de luta e racismo vivido no Brasil.

Jojo Todynho enfrentou críticas após o Carnaval de Salvador, quando se autodenominou “Capitã do Mato”. A expressão, carregada de conotações históricas negativas, remete a figuras negras que atuavam na perseguição de escravizados fugidos, o que provocou forte reação contrária de movimentos negros.

Analisemos ainda o perfil de jojotodynho.

Seguindo a perspectiva da Análise do Discurso francesa, podemos compreender o perfil de Jojo Todynho como um contra-discurso em relação ao de Bárbara Carine, a “intelectual diferentona”. Enquanto Bárbara Carine constrói um ethos de intelectualidade acadêmica e militante, Jojo Todynho se apresenta como “Artista”, “Uma mulher real e “Palestrante”. Aqui, o ethos não se ancora na legitimidade acadêmica, mas na autenticidade e na experiência vivida. O termo “mulher real” funciona como marca discursiva de resistência contra padrões de representação idealizados, reforçando uma identidade popular e acessível.

O perfil de Jojo Todynho mobiliza discursos do entretenimento, da cultura popular e da autoafirmação. Ao se declarar “mulher preta de direita” em outros contextos, ela tensiona o campo discursivo das expectativas sociais sobre sujeitos negros, produzindo efeitos de sentido que desafiam a hegemonia de um discurso progressista associado à negritude. Esse gesto funciona como contra-discurso frente à posição de Carine, que se inscreve em uma tradição de resistência negra vinculada à esquerda e à educação crítica.

Além disso, a artista declarou-se uma “mulher preta de direita”, enfatizando sua autonomia de pensamento. Essa posição política gerou ataques racistas nas redes sociais, onde foi alvo de ofensas como ser chamada de “macaca” e receber mensagens mandando que “comesse banana”. O episódio evidencia não apenas o choque entre identidade racial e posicionamento político no debate público, mas também como figuras negras que se alinham à direita enfrentam tanto resistência dentro de movimentos sociais quanto manifestações explícitas de racismo. A controvérsia revela tensões profundas sobre representatividade, liberdade de expressão e os limites da crítica política em um país marcado por desigualdades históricas.

O contra-discurso de Jojo, portanto, não nega a importância da intelectualidade, mas desloca o foco para a experiência vivida e para a liberdade de posicionamento político, ainda que isso provoque rejeição ou polêmica. Jojo Todynho tensiona os modos de legitimação da voz negra no espaço público: esses discursos de mulheres negras, com milhares de seguidores nas redes sociais, produzem de um lado, a intelectualidade acadêmica como empoderamento da mulher negra em uma sociedade racista e misógina; de outro, a autenticidade popular e midiática.

O discurso como espaço de poder e contra-poder é central para compreender essa disputa. Para Fernandes (2005) o poder não é apenas repressivo, mas produtivo, e que os discursos funcionam como dispositivos que produzem sujeitos e saberes. No Instagram, essa dinâmica se torna visível: Jojo Todynho, em determinados momentos, reproduz discursos que reforçam estigmas, enquanto a intelectual negra produz contra-discursos que afirmam resistência. Vanise Sargentini (2010) aponta que o discurso é lugar de tensão, onde se inscrevem tanto práticas de dominação quanto de resistência.

Por fim, os deslocamentos de sentido e afirmação identitária são fundamentais para compreender como as mulheres pretas reconfiguram narrativas no espaço digital. Ao afirmar identidades, elas desestabilizam discursos que historicamente as reduziram a estereótipos. A genealogia foucaultiana permite observar como esses deslocamentos não são apenas individuais, mas coletivos, constituindo práticas de resistência que se inscrevem em redes de poder. Como afirma Foucault em Microfísica do Poder (1979), “o poder produz realidade; produz domínios de objetos e rituais de verdade”. Nesse contexto, as narrativas digitais das mulheres pretas produzem novas realidades discursivas, afirmando identidades e resistindo às formas de subserviência.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este estudo buscou analisar como o letramento racial se manifesta nos discursos digitais de mulheres pretas com visibilidade no Instagram, evidenciando práticas de resistência e tensionamento das estruturas de poder. A partir da perspectiva arquegenealógica foucaultiana, foi possível compreender que os discursos não se limitam a representar realidades, mas produzem sujeitos, saberes e identidades, configurando-se como espaços de poder e contra-poder. Com milhões de seguidores, ambas operam como sujeitos discursivos coletivos: suas falas não apenas representam trajetórias individuais, mas moldam imaginários sociais, influenciam percepções e criam comunidades de identificação ou rejeição. Enquanto Carine reafirma a centralidade da luta negra vinculada à crítica social e à esquerda, Jojo desestabiliza esse lugar ao se afirmar como “preta de direita”, provocando fissuras nas expectativas de unidade discursiva da negritude

As contribuições deste trabalho se inscrevem nos debates sobre letramento racial e análise do discurso ao articular teorias internacionais, como as de Gloria Ladson-Billings, com reflexões brasileiras, como as de Nilma Lino Gomes. Essa articulação amplia a compreensão do letramento racial como prática discursiva que não apenas denuncia o racismo estrutural, mas também cria novas formas de subjetivação e resistência. Além disso, ao aplicar a análise foucaultiana ao ambiente digital, o estudo reforça a importância de compreender as redes sociais como arenas discursivas em que se produzem regimes de verdade e contra-discursos.

As implicações sociais e políticas da valorização das narrativas digitais de mulheres pretas são significativas. Ao ocupar espaços de visibilidade como o Instagram, essas vozes desestabilizam estereótipos historicamente atribuídos à negritude e afirmam identidades que resistem às práticas de silenciamento. Essa valorização contribui para a construção de uma esfera pública mais plural, em que discursos de resistência ganham força e legitimidade, impactando debates sobre igualdade racial, gênero e cidadania. Como lembra Foucault em Microfísica do Poder (1979), o poder produz realidades, e nesse sentido, as narrativas digitais das mulheres pretas produzem novas realidades discursivas que desafiam estruturas de dominação e ampliam horizontes de emancipação.

Os perfis de Bárbara Carine e Jojo Todynho exemplificam como, na contemporaneidade, as redes sociais funcionam como arenas discursivas em que diferentes lugares de fala produzem identidades, constroem regimes de verdade e desestabilizam discursos hegemônicos. A disputa entre intelectualidade acadêmica e autenticidade popular revela que não há uma única forma legítima de ser mulher negra no espaço público: há múltiplas vozes, múltiplas verdades e múltiplas estratégias de resistência.

Por fim, este trabalho abre caminhos para futuras pesquisas. Sugere-se a ampliação do corpus para incluir diferentes plataformas digitais, como TikTok e YouTube, a fim de compreender como o letramento racial se manifesta em múltiplos ambientes virtuais. Também se recomenda investigar a recepção desses discursos por parte dos seguidores, analisando como práticas de resistência se articulam com processos de identificação e mobilização coletiva. Outra possibilidade é aprofundar o diálogo entre a análise do discurso foucaultiana e a teoria da interseccionalidade, explorando como raça, gênero e classe se entrecruzam nas narrativas digitais das mulheres pretas. Assim, este estudo reafirma que o letramento racial, articulado à análise do discurso, é uma ferramenta potente para compreender e valorizar as vozes de resistência que emergem no espaço digital, contribuindo para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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1 Professora Dra da pós-graduação Unisca 

2 Professora Doutora /Secretaria de Educação da Paraíba