REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/783118327
RESUMO
Este artigo analisa a representação da violência de gênero na teledramaturgia brasileira, compreendendo as telenovelas como importantes dispositivos de mediação cultural e produção de sentidos sobre as relações sociais. Considerando o lugar central que esse gênero televisivo ocupa na formação do imaginário coletivo, o estudo tem como objetivo analisar de que forma as telenovelas brasileiras representam as múltiplas formas de violência contra personagens femininas, identificando como essas narrativas reproduzem, legitimam ou problematizam as relações de poder, as desigualdades de gênero e os mecanismos de dominação patriarcal ao longo do período de 2000 a 2025. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, de caráter retrospectivo, analítico-descritivo e interpretativo, fundamentada na análise de conteúdo de quinze telenovelas exibidas pela Rede Globo, selecionadas a partir de critérios de relevância social, repercussão pública e presença de situações de violência contra personagens femininas. A análise foi organizada em categorias temáticas relacionadas às diferentes manifestações da violência de gênero, às representações midiáticas e aos discursos narrativos, considerando os contextos das agressões, as relações entre vítimas e agressores e seus desdobramentos na narrativa. Os resultados evidenciam que a violência física raramente é apresentada de forma isolada, estando articulada às violências psicológica, moral, patrimonial, sexual e simbólica, compondo um ciclo de violência que reflete e reforça estruturas patriarcais. Observa-se, contudo, uma evolução na abordagem do tema, especialmente em consonância com avanços legislativos e transformações sociais, embora permaneçam ambiguidades, como a reprodução de estereótipos de gênero, a individualização da violência e a limitada problematização de suas causas estruturais. Conclui-se que as telenovelas desempenham papel relevante na construção do imaginário social sobre a violência de gênero, configurando-se simultaneamente como espaços de reprodução e de contestação das desigualdades, o que reforça a importância de narrativas comprometidas com a promoção dos direitos das mulheres, da equidade de gênero e da conscientização social.
Palavras-chave: Gênero e Saúde; Meios de Comunicação; Televisão; Violência contra a Mulher.
ABSTRACT
This article analyzes the representation of gender-based violence in Brazilian television drama, understanding soap operas as important mechanisms of cultural mediation and the production of meanings about social relations. Considering the central role that this television genre plays in shaping the collective imagination, the study aims to analyze how Brazilian soap operas portray the multiple forms of violence against female characters, identifying how these narratives reproduce, legitimize, or challenge power relations, gender inequalities, and patriarchal domination between 2000 and 2025. This qualitative study adopts a retrospective, analytical-descriptive, and interpretative approach, based on content analysis of fifteen soap operas broadcast by Rede Globo, selected according to their social relevance, public impact, and the presence of violence against female characters. The analysis was organized into thematic categories related to the different manifestations of gender-based violence, media representations, and narrative discourse, considering the contexts of the aggressions, the relationships between victims and perpetrators, and their narrative developments. The findings reveal that physical violence is rarely portrayed in isolation, but rather intertwined with psychological, moral, economic, sexual, and symbolic violence, constituting a cycle of violence that reflects and reinforces patriarchal structures. Nevertheless, the analysis indicates a progressive shift toward a more critical treatment of the issue, particularly in line with legal advances and social changes, although ambiguities remain, such as the reproduction of gender stereotypes, the individualization of violence, and the limited discussion of its structural causes. It is concluded that Brazilian soap operas play a significant role in shaping the social imaginary surrounding gender-based violence, functioning simultaneously as spaces for the reproduction and contestation of gender inequalities. This highlights the importance of narratives committed to promoting women's rights, gender equality, and social awareness.
Keywords: Gender and Health; Mass Media; Television; Violence Against Women.
1. INTRODUÇÃO
A violência de gênero constitui um dos mais persistentes problemas sociais contemporâneos, expressando relações historicamente desiguais entre homens e mulheres e manifestando-se em diferentes dimensões, como a violência física, psicológica, moral, patrimonial, sexual e simbólica. Mais do que um conjunto de atos individuais, trata-se de um fenômeno estrutural, sustentado por relações de poder e por mecanismos de dominação patriarcal que atravessam instituições, práticas sociais e produções culturais. Nesse contexto, os meios de comunicação desempenham papel estratégico na construção do imaginário social, uma vez que não apenas refletem a realidade, mas também produzem, legitimam e ressignificam discursos sobre gênero, violência e direitos das mulheres.
No Brasil, a televisão consolidou-se, desde a segunda metade do século XX, como um dos principais meios de comunicação de massa, exercendo ampla influência sobre a formação de valores, identidades e representações sociais. Em razão de sua expressiva penetração nos lares brasileiros, tornou-se um espaço privilegiado de circulação de narrativas capazes de reproduzir, naturalizar ou problematizar fenômenos sociais (Hamburger, 2005). Entre seus diversos produtos culturais, as telenovelas ocupam posição de destaque, especialmente no horário nobre, constituindo-se como um dos gêneros de maior alcance e impacto na indústria audiovisual brasileira.
Segundo Lopes (2009), as telenovelas caracterizam-se como um gênero híbrido que articula entretenimento, melodrama e temas extraídos da realidade social, estabelecendo um diálogo permanente com o cotidiano dos espectadores. Essa característica permite que questões relacionadas às desigualdades sociais, às relações familiares, à saúde, aos direitos humanos e às relações de gênero sejam incorporadas às narrativas ficcionais, ampliando sua capacidade de influenciar debates públicos e de produzir sentidos sobre experiências coletivas. Dessa forma, a ficção televisiva ultrapassa a dimensão do entretenimento e passa a exercer uma relevante função social, tornando-se um espaço de visibilidade para conflitos e transformações presentes na sociedade brasileira.
Sob a perspectiva das mediações culturais, Martín-Barbero (2009) argumenta que os meios de comunicação não devem ser compreendidos apenas como transmissores de mensagens, mas como instâncias nas quais significados são produzidos, negociados e ressignificados pelos diferentes sujeitos sociais. Nessa perspectiva, as representações da violência contra a mulher nas telenovelas não constituem meros recursos narrativos, mas discursos que podem contribuir tanto para a reprodução quanto para o questionamento das desigualdades de gênero. Ao representar determinadas formas de violência, essas produções participam da construção de percepções sociais acerca das relações entre homens e mulheres, influenciando processos de naturalização, reconhecimento ou enfrentamento dessas práticas.
Essa compreensão aproxima-se das contribuições de Saffioti (2015), para quem a violência contra a mulher constitui um mecanismo de controle social destinado à manutenção da ordem patriarcal. Trata-se de uma violência que extrapola a agressão física, manifestando-se também por meio de práticas psicológicas, morais, sexuais, patrimoniais e institucionais que restringem a autonomia feminina e reproduzem relações assimétricas de poder. Nesse processo, destaca-se a violência simbólica, conceituada por Bourdieu (2012) como uma forma de dominação invisível, legitimada pelas próprias estruturas sociais e culturais, capaz de transformar relações de desigualdade em situações percebidas como naturais, aceitáveis ou inevitáveis.
Embora a literatura brasileira apresente importantes contribuições sobre a função social das telenovelas e sobre as representações de gênero na mídia, ainda são relativamente escassos os estudos que investigam, de forma retrospectiva e longitudinal, como as múltiplas formas de violência contra personagens femininas são construídas nas narrativas televisivas e de que maneira essas representações dialogam com transformações sociais, culturais e legais ocorridas nas últimas décadas. Essa lacuna torna-se especialmente relevante diante do papel desempenhado pela teledramaturgia brasileira na formação do imaginário coletivo e na circulação de discursos sobre direitos das mulheres e igualdade de gênero.
Nesse sentido, este estudo contribui para ampliar o debate acerca das interfaces entre comunicação, gênero e violência ao analisar um conjunto de telenovelas exibidas entre 2000 e 2025, período marcado por importantes avanços nas políticas públicas de enfrentamento à violência contra a mulher e pela crescente visibilidade social do tema. Ao examinar essas produções sob a perspectiva das representações midiáticas, busca-se compreender como a ficção televisiva participa da reprodução, da legitimação ou da contestação das estruturas patriarcais presentes na sociedade brasileira.
Diante desse contexto, o objetivo deste artigo é analisar como a teledramaturgia brasileira representa as múltiplas formas de violência contra personagens femininas, identificando de que maneira essas narrativas reproduzem, legitimam ou problematizam as relações de poder, as desigualdades de gênero e os mecanismos de dominação patriarcal no período compreendido entre 2000 e 2025.
2. METODOLOGIA
Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa qualitativa, de caráter exploratório, descritivo e interpretativo, fundamentada na análise de conteúdo de um corpus audiovisual composto por telenovelas brasileiras exibidas pela Rede Globo de Televisão. A abordagem qualitativa é adotada por permitir a compreensão dos sentidos, discursos e construções simbólicas presentes nas narrativas televisivas, considerando a ficção como um espaço privilegiado de produção de representações sociais sobre gênero e violência.
O recorte temporal compreende o período de 2000 a 2025, possibilitando a análise de permanências e transformações nas formas de representação da violência contra personagens femininas ao longo de diferentes contextos históricos, sociais e legais, especialmente em um cenário de ampliação dos debates públicos e das políticas de enfrentamento à violência de gênero no Brasil.
Tabela 1. Teledramaturgias, ano e horário de exibição e personagens em ordem cronológica
Novela | Ano Horário | Personagem / Atriz | Tipo de violência |
Mulheres Apaixonadas | 2003 / 21h | Raquel (Helena Ranaldi) | Física, psicológica e moral |
Senhora do Destino | 2004–2005 / 21h | Rita (Adriana Lessa) | Física, psicológica e moral |
A Favorita | 2008 / 21h | Catarina (Lilia Cabral) | Física, psicológica e moral |
Insensato Coração | 2011 / 21h | Cecília (Giovanna Lancellotti) | Física, psicológica e sexual |
Fina Estampa | 2011 / 21h | Celeste (Dira Paes) | Física, psicológica e moral |
Salve Jorge | 2012 / 21h | Morena (Nanda Costa) e Lívia (Claudia Raia) | Física, psicológica, sexual e tráfico de pessoas |
A Regra do Jogo | 2015 / 21h | Domingas (Maeve Jinkings) | Física, psicológica e moral |
O Outro Lado do Paraíso | 2017 / 21h | Clara (Bianca Bin) | Física, psicológica e sexual |
Segundo Sol | 2018 / 21h | Nice (Kelzy Ecard) | Física e psicológica |
O Sétimo Guardião | 2018 / 21h | Afrodite(Carolina Dieckmann) | Física, psicológica e moral |
Amor de Mãe | 2019–2021 / 21h | Edilene (Beatrice Sayd) | Física e psicológica |
Pantanal | 2022 / 21h | Maria Bruaca (Isabel Teixeira) | Física, psicológica, moral e patrimonial |
Terra e Paixão | 2023 / 21h | Aline (Bárbara Reis) | Física e psicológica |
Vai na Fé | 2023 / 19h | Sol (Sheron Menezzes) e Clara (Regiane Alves) | Física, psicológica e moral |
Dona de Mim | 2025 / 19h | Kami (Giovanna Lancellotti) | Psicológica, sexual e stalking |
Fonte: Autoria Própria (2026)
O corpus audiovisual é composto por quinze telenovelas selecionadas por amostragem intencional, com base nos seguintes critérios: (I) ampla repercussão nacional e elevado alcance de audiência; (II) relevância social das temáticas abordadas; e (III) presença de representações significativas de violência contra personagens femininas, seja em núcleos centrais ou secundários das narrativas. As obras analisadas seguem o padrão crescente da cronologia temporal: Mulheres Apaixonadas (2003), Senhora do Destino (2004–2005), A Favorita (2008), Insensato Coração (2011), Fina Estampa (2011), Salve Jorge (2012), A Regra do Jogo (2015), O Outro Lado do Paraíso (2017), Segundo Sol (2018), O Sétimo Guardião (2018), Amor de Mãe (2019–2021), Pantanal (2022), Terra e Paixão (2023), Vai na Fé (2023) e Dona de Mim (2025).
A análise dos dados foi realizada por meio da Análise de Conteúdo proposta por Bardin (2016), desenvolvida em três etapas: pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados com inferência e interpretação. Na primeira etapa, foram identificadas e selecionadas cenas, sequências e núcleos narrativos relacionados à violência contra personagens femininas. Na segunda etapa, realizou-se a codificação do material, com organização em categorias analíticas previamente definidas a partir do referencial teórico sobre violência de gênero e representação midiática. Na terceira etapa, os dados foram interpretados, buscando identificar recorrências, padrões e transformações nas formas de representação da violência ao longo do corpus analisado.
As categorias analíticas contemplaram: (a) tipologia da violência (física, psicológica, moral, sexual, patrimonial e simbólica); (b) contexto de ocorrência das agressões; (c) relação entre vítima e agressor; (d) justificativas narrativas atribuídas à violência; (e) consequências para as personagens femininas; e (f) posicionamento da narrativa frente à violência, considerando processos de naturalização, legitimação ou problematização.
A interpretação dos dados foi orientada pela articulação entre diferentes referenciais teóricos: a perspectiva das mediações culturais de Martín-Barbero (2009), a teoria da violência simbólica de Bourdieu (2012), a compreensão da violência de gênero como fenômeno estrutural proposta por Saffioti (2015) e a abordagem dialógica de Bakhtin (2016). Sob essa última, as telenovelas são compreendidas como enunciados discursivos constituídos por múltiplas vozes sociais em interação, que dialogam com discursos midiáticos, jurídicos, morais e políticos, permitindo analisar não apenas os eventos narrados, mas também os sentidos e posicionamentos ideológicos produzidos sobre a violência contra a mulher.
No que se refere aos aspectos éticos, a pesquisa baseia-se exclusivamente na análise de obras audiovisuais de acesso público, não envolvendo seres humanos nem coleta de dados pessoais. Dessa forma, encontra-se dispensada de apreciação por Comitê de Ética em Pesquisa, conforme a Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde (Brasil, 2016).
3. RESULTADOS E DISCUSSÕES - ANÁLISE DOS DADOS
A representação da violência de gênero na teledramaturgia brasileira evidencia a articulação entre gênero, classe social, raça e poder econômico, indicando que a violência contra mulheres se constitui como fenômeno estrutural, interseccional e socialmente situado. No recorte temporal de 2003 a 2025, observa-se que a violência física dirigida a personagens femininas assume configurações distintas conforme o posicionamento socioeconômico das mulheres representadas, variando entre o espaço doméstico da classe média, contextos de vulnerabilidade social e ambientes de elite marcados por mecanismos de invisibilização e impunidade.
Os dados indicam que a violência de gênero atravessa diferentes estratos sociais, sendo modulada pelas condições materiais e simbólicas de cada contexto narrativo. Em Mulheres Apaixonadas (2003), a violência doméstica na classe média urbana evidencia que capital econômico e cultural não funcionam como proteção, podendo inclusive favorecer o silenciamento das vítimas em função da preservação da imagem social. Em Senhora do Destino (2004–2005) e A Regra do Jogo (2015), a violência se intensifica em contextos de vulnerabilidade econômica, nos quais a dependência financeira e afetiva contribui para a permanência no ciclo de abuso. Assim, a classe social não determina a violência, mas condiciona suas formas de expressão, visibilidade e ruptura.
No que se refere à masculinidade hegemônica e ao ciclo da violência, observa-se sua centralidade como eixo estruturante das narrativas analisadas. Os agressores são reiteradamente construídos como sujeitos que exercem controle, posse e autoridade sobre as mulheres, legitimando a violência como tecnologia de poder. Em Insensato Coração (2011), Fina Estampa (2011) e O Outro Lado do Paraíso (2017), a violência manifesta-se de forma física, psicológica e sexual, compondo um ciclo recorrente de agressão, reconciliação e repetição. Esse padrão evidencia que a violência não se configura como evento isolado, mas como processo contínuo de dominação relacional sustentado por estruturas patriarcais. À luz de Bourdieu (2012), tal dinâmica se ancora na violência simbólica, que naturaliza e torna socialmente aceitável a dominação masculina.
A partir da promulgação da Lei nº 11.340/2006 (Lei Maria da Penha), identifica-se uma inflexão nas representações da violência de gênero na teledramaturgia. Narrativas anteriores ao marco legal tendem a enquadrar a violência como questão privada, marcada pela invisibilidade institucional. Já produções posteriores incorporam com maior frequência discursos de denúncia, responsabilização e acionamento de redes institucionais de proteção. Em Amor de Mãe (2019–2021), Terra e Paixão (2023) e Dona de Mim (2025), observa-se a presença de dispositivos jurídicos e institucionais, como polícia e medidas protetivas, evidenciando a articulação entre ficção televisiva e políticas públicas. Esse deslocamento indica a teledramaturgia como instância de mediação entre o campo jurídico e o imaginário social, ampliando a visibilidade da violência de gênero.
Paralelamente, constata-se que a violência de gênero extrapola a dimensão física, manifestando-se também por meio de violência simbólica, psicológica, moral e patrimonial. Essas formas operam como mecanismos de controle menos visíveis, porém estruturantes, que sustentam relações assimétricas de poder. Em Pantanal (2022), a trajetória de Maria Bruaca evidencia a articulação entre violência psicológica e patrimonial, na qual o controle econômico e a desqualificação simbólica produzem condições de subordinação. Sob a perspectiva de Bourdieu (2012), tais mecanismos contribuem para a naturalização das hierarquias de gênero e para a reprodução da dominação masculina no cotidiano social.
Observa-se ainda uma transformação progressiva nas formas de representação da violência de gênero ao longo do corpus. Enquanto produções mais antigas enfatizam o sofrimento e a denúncia, narrativas recentes incorporam elementos de conscientização, redes de apoio e protagonismo feminino. Em Vai na Fé (2023) e Dona de Mim (2025), destaca-se a transição da figura da mulher como vítima para sujeitos com maior agência social, articulados a processos de denúncia e ruptura do ciclo de violência. Nesse sentido, a teledramaturgia brasileira configura-se como dispositivo de pedagogia social, capaz de reproduzir, tensionar e reconfigurar normas de gênero.
Como limitação, destaca-se que a pesquisa se concentra exclusivamente em telenovelas exibidas pela Rede Globo, o que restringe a análise a uma parcela específica da produção audiovisual brasileira, excluindo outras emissoras e plataformas de streaming que também contribuem para a construção contemporânea das representações de gênero. Além disso, o recorte analítico privilegia a interpretação qualitativa das narrativas, não incorporando dados de recepção do público, o que limita a compreensão sobre como essas representações são efetivamente interpretadas, apropriadas ou ressignificadas pelos espectadores. Soma-se a isso o fato de que a análise se baseia em um corpus intencionalmente selecionado, o que, embora adequado ao desenho metodológico proposto, não permite generalizações estatísticas, mas sim inferências interpretativas sobre padrões narrativos e discursivos. Ainda assim, tais limitações não comprometem os resultados obtidos, mas delimitam seu alcance analítico no campo das representações midiáticas da violência de gênero.
De forma transversal, os resultados evidenciam que a teledramaturgia brasileira constrói a violência de gênero como fenômeno estrutural, multifacetado e interseccional, articulado às dimensões de classe, poder simbólico e institucionalidade. A violência contra mulheres não se apresenta como evento isolado, mas como processo contínuo de produção social sustentado por relações patriarcais naturalizadas. Assim, as telenovelas operam simultaneamente como espaços de reprodução e contestação das desigualdades de gênero, refletindo tensões entre permanências estruturais e transformações sociais e jurídicas no enfrentamento da violência contra a mulher.
4. CONCLUSÃO
À luz das discussões apresentadas, o estudo evidencia que a televisão brasileira, especialmente por meio das telenovelas, desempenha papel central na mediação simbólica de temas sociais sensíveis, como a violência de gênero. Ao articular entretenimento e crítica social, a teledramaturgia configura-se como espaço privilegiado de circulação de discursos que tanto podem reproduzir estruturas históricas de dominação quanto tensionar desigualdades entre homens e mulheres.
A análise das narrativas selecionadas demonstra que a violência física contra mulheres raramente se apresenta de forma isolada, estando articulada a dimensões psicológicas, morais, sexuais e simbólicas que sustentam relações assimétricas de poder. Nesse contexto, a agressão física emerge como manifestação visível de um sistema estrutural mais amplo, ancorado em lógicas patriarcais de controle sobre o corpo e a subjetividade feminina.
Observa-se que, nas últimas duas décadas, as telenovelas passaram a incorporar de forma mais explícita o debate sobre violência de gênero, em consonância com transformações sociais, avanços legislativos — especialmente a Lei Maria da Penha — e a atuação dos movimentos feministas. Essas mudanças contribuíram para ampliar a visibilidade do fenômeno, reforçar sua compreensão como violação de direitos humanos e deslocá-lo progressivamente do âmbito privado para a esfera pública.
Entretanto, os resultados indicam a persistência de ambiguidades nessas representações. Embora a teledramaturgia possua potencial pedagógico e de sensibilização, ainda reproduz estereótipos de gênero, por vezes romantiza relações abusivas e, em determinados casos, individualiza a violência, obscurecendo suas determinações estruturais. Tal ambivalência evidencia que a mídia não opera de forma neutra, mas participa ativamente de disputas simbólicas que refletem contradições da sociedade brasileira contemporânea.
Conclui-se que as telenovelas constituem dispositivos culturais centrais na construção do imaginário social sobre a violência contra a mulher, atuando na produção e circulação de sentidos sobre gênero, poder e desigualdade. Sua análise crítica permite compreender o papel da mídia não apenas como espelho social, mas como agente ativo na constituição de representações sociais.
Dessa forma, reforça-se a relevância de narrativas midiáticas comprometidas com a problematização estrutural da violência de gênero, contribuindo para a ampliação do debate público e para a promoção de relações sociais mais equitativas. Nesse sentido, a teledramaturgia permanece como campo estratégico de disputa simbólica e de produção de sentidos sobre cidadania, direitos e justiça social.
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1 Pós-doutorado em Linguística, Doutor e Mestre em Promoção de Saúde (UNIFRAN). Bacharel em Serviço Social (UNISANTA), Fisioterapia, Letras Português e Inglês, Pedagogia (UNIFRAN) (UNIFRAN). Pesquisador e docente do Programa de Doutorado e Mestrado em Linguística (UNIFRAN). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Pós-Doutorando em Linguística, Doutor e Mestre em Linguística pela Universidade de Franca (UNIFRAN) MBA em Gestão Acadêmica e Universitária pela Faculdade Arnaldo, Especialista em Metodologia do Ensino de Língua Portuguesa, Literatura e Redação pelo Claretiano - Centro Universitário. Licenciado em Letras pela mesma Instituição. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
3 Mestra em História Econômica (FFLCH/USP) e Bacharela em Serviço Social (Centro Universitário UniFMU-SP). Coordenadora de cursos e docente do Grupo Cruzeiro do Sul Educacional. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
4 Mestranda em Linguística (UNIFRAN). Licenciada em Letras Português e Inglês (UNIFACEF) e em Pedagogia (UNIFRAN). Docente em escolas de idioma e na rede de ensino pública. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
5 Pós-doutorado, doutora e mestra em Linguística (UNIFRAN). Possui Graduação em Letras Habilitação em Português e Inglês e Pedagogia (UNIFRAN) e bacharelado em Direito pela Faculdade de Direito de Franca. Pesquisadora e docente do Programa de Doutorado e Mestrado em Linguística (UNIFRAN). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
6 Pós-doutorado pelo Departamento de Educação, Informação e Comunicação, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto - Universidade de São Paulo (USP). Doutora em Linguística e Língua Portuguesa (UNESP/FCLAr), Mestra em Linguística e graduada em Letras – Português, Inglês e Pedagogia (UNIFRAN). Líder do GEBGE – Grupo de Pesquisas Estudos Bakhtinianos dos Gêneros do Discurso (CNPq). Professora permanente e vice-coordenadora do Programa de mestrado e doutorado em Linguística (UNIFRAN). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail