USO NÃO SUPERVISIONADO DE MEDICAMENTOS AGONISTAS DO GLP-1 PARA EMAGRECIMENTO: RISCOS FARMACOTERAPÊUTICOS E CONTRIBUIÇÕES DO FARMACÊUTICO

UNSUPERVISED USE OF GLP-1 RECEPTOR AGONISTS FOR WEIGHT LOSS: PHARMACOTHERAPEUTIC RISKS AND THE PHARMACIST'S CONTRIBUTIONS

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/793147644

RESUMO
O uso de agonistas dos receptores do peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1 (GLP-1) para emagrecimento tem ganhado destaque, especialmente em razão da influência das redes sociais e da disseminação de informações sobre seus efeitos. Este artigo tem como objetivo analisar os principais riscos farmacoterapêuticos associados ao uso não supervisionado desses medicamentos e discutir as contribuições do farmacêutico para a prevenção de danos e a promoção do uso racional. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, de caráter descritivo e abordagem qualitativa, com buscas realizadas em 18 de outubro de 2026 nas bases PubMed/MEDLINE, Biblioteca Virtual em Saúde e Portal de Periódicos CAPES. A análise final contemplou quatro estudos selecionados conforme sua relevância para a temática. Os resultados evidenciaram a influência das redes sociais na decisão de utilizar medicamentos para emagrecimento sem orientação profissional, bem como a circulação de conteúdos com informações imprecisas e potencialmente prejudiciais. Os estudos também destacaram a importância da atuação farmacêutica na educação em saúde, na orientação sobre o uso adequado dos medicamentos e na identificação de possíveis problemas relacionados à farmacoterapia. Conclui-se que o acompanhamento profissional, associado à divulgação de informações científicas confiáveis e à orientação farmacêutica, constitui uma estratégia relevante para ampliar a segurança do tratamento e promover o uso racional dos agonistas dos receptores de GLP-1.
Palavras-chave: Assistência Farmacêutica; Automedicação; Fármacos Antiobesidade; Obesidade; Redução de Peso.

ABSTRACT
The use of glucagon-like peptide-1 (GLP-1) receptor agonists for weight loss has gained prominence, particularly due to the influence of social media and the dissemination of information about their effects. This article aims to analyze the main pharmacotherapeutic risks associated with the unsupervised use of these medications and discuss pharmacists’ contributions to harm prevention and the promotion of rational medicine use. This is an integrative literature review with a descriptive design and qualitative approach, with searches conducted on October 18, 2026, in the PubMed/MEDLINE databases, the Virtual Health Library, and the CAPES Journals Portal. The final analysis included four studies selected according to their relevance to the topic. The findings highlighted the influence of social media on decisions to use weight-loss medications without professional guidance, as well as the circulation of inaccurate and potentially harmful content. The studies also emphasized the importance of pharmacists’ involvement in health education, guidance on the appropriate use of medications, and identification of potential drug therapy problems. It is concluded that professional follow-up, combined with the dissemination of reliable scientific information and pharmaceutical counseling, is a relevant strategy for improving treatment safety and promoting the rational use of GLP-1 receptor agonists.
Keywords: Pharmaceutical Services; Self Medication; Anti-Obesity Agents; Obesity; Weight Loss.

1. INTRODUÇÃO

A obesidade é uma condição crônica e multifatorial associada a importantes repercussões metabólicas e ao aumento do risco de doenças cardiovasculares e diabetes mellitus tipo 2. Seu tratamento pode envolver mudanças no estilo de vida, acompanhamento multiprofissional e, quando clinicamente indicado, utilização de medicamentos. Nesse contexto, os agonistas dos receptores do peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1 (GLP-1) ganharam destaque por seus efeitos no controle glicêmico e na redução do peso corporal, ampliando as possibilidades terapêuticas para pacientes que apresentam indicação para seu uso (Echeverry-Guerrero et al., 2024).

Apesar dos benefícios terapêuticos, a crescente popularidade desses medicamentos suscita preocupações quanto à utilização sem acompanhamento adequado, ao emprego fora das indicações aprovadas e à busca por resultados rápidos de emagrecimento. Echeverry-Guerrero et al. (2024) discutem os desafios relacionados ao uso inadequado dos agonistas do GLP-1, incluindo questões de segurança, automedicação e utilização motivada por finalidades predominantemente estéticas. Nesse cenário, é importante distinguir o tratamento farmacológico devidamente indicado do uso que desconsidera as condições clínicas do paciente, as orientações profissionais e as recomendações de segurança.

A divulgação de informações sobre medicamentos nas redes sociais também constitui um aspecto relevante, pois conteúdos que enfatizam resultados estéticos podem influenciar as decisões dos consumidores e favorecer o uso de medicamentos sem orientação adequada. Em estudo transversal, Sarhan, Schaalan e El-Sheikh (2025) identificaram associação entre a influência das redes sociais e comportamentos de automedicação com medicamentos para perda de peso, destacando também a contribuição da orientação farmacêutica para a segurança e a adesão ao tratamento. A utilização inadequada desses medicamentos pode comprometer a segurança do paciente, especialmente quando não são consideradas as contraindicações, as precauções, as orientações de administração e a necessidade de acompanhamento clínico. Dessa forma, a discussão sobre o uso racional desses fármacos deve considerar tanto suas indicações e seus benefícios quanto os riscos relacionados à utilização sem supervisão adequada (Sarhan; Schaalan; El-Sheikh, 2025).

Nesse contexto, o farmacêutico desempenha papel relevante na promoção do uso racional de medicamentos, por meio da orientação farmacêutica, da identificação de possíveis problemas relacionados à farmacoterapia e do esclarecimento sobre reações adversas. Sua atuação também pode contribuir para a farmacovigilância e para o encaminhamento de pacientes que necessitem de avaliação de outros profissionais de saúde. Em revisão sistemática, Alhomoud et al. (2024) observaram resultados favoráveis em diversas intervenções farmacêuticas voltadas ao controle do sobrepeso e da obesidade, embora tenham ressaltado limitações metodológicas nos estudos disponíveis e a necessidade de ensaios clínicos mais robustos. Assim, a contribuição do farmacêutico para a segurança da farmacoterapia deve ser compreendida com base nas evidências científicas e nas necessidades individuais dos pacientes.

Diante desse cenário, estabelece-se a seguinte questão de pesquisa: quais são os principais riscos farmacoterapêuticos associados ao uso não supervisionado de agonistas do GLP-1 para emagrecimento e quais intervenções farmacêuticas podem contribuir para a prevenção de danos e a promoção do uso racional desses medicamentos? A investigação justifica-se pela relevância da segurança medicamentosa e pela necessidade de fortalecer a atuação clínica do farmacêutico diante da crescente procura por tratamentos farmacológicos para perda de peso. Assim, o presente estudo tem como objetivo analisar, por meio de uma revisão integrativa da literatura, os riscos associados ao uso não supervisionado de agonistas do GLP-1 para emagrecimento e as contribuições do farmacêutico para a segurança da farmacoterapia e a promoção do uso racional desses medicamentos.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA

2.1. Agonistas do GLP-1 no Tratamento da Obesidade

A obesidade é uma condição crônica e multifatorial cujo tratamento pode envolver mudanças no estilo de vida, acompanhamento multiprofissional e, quando clinicamente indicado, farmacoterapia. Entre as opções disponíveis, destacam-se os agonistas dos receptores do peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1 (GLP-1), que atuam em mecanismos relacionados à regulação glicêmica, à saciedade e ao esvaziamento gástrico. Esses efeitos contribuem para o controle metabólico e a redução do peso corporal, conforme as características de cada medicamento e suas indicações aprovadas. Wilding et al. (2021), em ensaio clínico randomizado com adultos com sobrepeso ou obesidade, demonstraram que a semaglutida, associada a intervenções no estilo de vida, promoveu redução significativa do peso corporal em comparação ao placebo. De maneira semelhante, Jastreboff et al. (2022) observaram resultados expressivos na redução do peso com tirzepatida, medicamento que atua nos receptores dos hormônios GIP e GLP-1. Embora apresentem resultados relevantes, esses estudos não significam que os medicamentos sejam indicados indiscriminadamente para todas as pessoas que desejam emagrecer.

A Organização Mundial da Saúde (OMS, 2025) reconhece o potencial das terapias baseadas em GLP-1 para o tratamento prolongado da obesidade em adultos, mas ressalta limitações relacionadas à segurança e à eficácia em longo prazo, à manutenção dos resultados após a interrupção do tratamento, aos custos e à equidade no acesso. A organização também enfatiza que a farmacoterapia deve integrar uma abordagem abrangente, que contemple alimentação saudável, atividade física e acompanhamento profissional. Nesse sentido, Echeverry-Guerrero et al. (2024) discutem os desafios associados ao uso inadequado dos análogos do GLP-1 e a importância de considerar as condições clínicas e as indicações terapêuticas. A compreensão das diferenças entre os medicamentos, de suas indicações e dos requisitos de acompanhamento constitui, portanto, uma base necessária para analisar os riscos relacionados à utilização sem supervisão adequada.

2.2. Uso Não Supervisionado e Segurança Farmacoterapêutica

O uso não supervisionado de medicamentos para emagrecimento constitui uma preocupação para a segurança do paciente, especialmente quando a utilização ocorre sem avaliação clínica apropriada ou com base em informações incompletas. É necessário distinguir a automedicação, a utilização sem acompanhamento profissional e o emprego fora das indicações aprovadas, uma vez que essas situações apresentam características diferentes. A avaliação dos riscos deve considerar as condições de saúde do paciente, o medicamento utilizado, a dose, a procedência do produto e as orientações recebidas. Entre os aspectos relevantes para a segurança dos agonistas do GLP-1 estão as reações adversas gastrointestinais, como náuseas, vômitos e diarreia, além de outras complicações que exigem avaliação clínica. A identificação de sinais de alerta, o conhecimento das contraindicações e precauções específicas de cada produto e o acompanhamento da tolerabilidade são importantes para a condução segura da farmacoterapia.

A utilização de doses inadequadas, a alteração do esquema terapêutico sem orientação e a aquisição de produtos de procedência duvidosa podem acrescentar riscos ao tratamento. Echeverry-Guerrero et al. (2024) destacam a necessidade de atenção aos padrões de utilização dos análogos do GLP-1 e às implicações do uso inadequado. A segurança farmacoterapêutica depende não apenas das propriedades do medicamento, mas também das condições de utilização, da orientação oferecida e do acompanhamento dos resultados clínicos. Dessa forma, a promoção do uso racional desses medicamentos requer informações confiáveis, respeito às indicações aprovadas e identificação oportuna de problemas relacionados à farmacoterapia. A comunicação de suspeitas de reações adversas e o encaminhamento de pacientes para avaliação clínica, quando necessário, também integram as estratégias de prevenção de danos.

2.3. Redes Sociais, Informação em Saúde e Automedicação

As redes sociais ampliaram a circulação de informações sobre medicamentos e tratamentos para emagrecimento. Embora esses ambientes possam facilitar o acesso a conteúdos educativos, também podem disseminar recomendações sem fundamentação adequada, relatos pessoais apresentados como resultados generalizáveis e mensagens que enfatizam benefícios estéticos sem esclarecer os riscos. Essas informações podem influenciar a percepção dos consumidores sobre a necessidade de tratamento e favorecer decisões sem avaliação individualizada. Sarhan, Schaalan e El-Sheikh (2025) investigaram os padrões de utilização de medicamentos para perda de peso, a influência das redes sociais e o papel da orientação farmacêutica. Os autores identificaram associações entre a influência desses ambientes digitais e comportamentos de automedicação na população investigada. Entretanto, por se tratar de um estudo transversal, seus resultados não permitem estabelecer relações causais nem devem ser generalizados automaticamente para toda a população.

Esse contexto evidencia a importância da educação em saúde e da comunicação baseada em evidências científicas. Informações sobre indicações, contraindicações, reações adversas, necessidade de acompanhamento e procedência dos medicamentos podem contribuir para decisões mais conscientes. A avaliação crítica dos conteúdos digitais também é necessária para diferenciar informações confiáveis de recomendações que desconsideram as particularidades clínicas dos pacientes. Nesse cenário, a orientação farmacêutica pode contribuir para esclarecer dúvidas, corrigir informações equivocadas e incentivar a procura por profissionais habilitados. Essas ações são particularmente relevantes quando o interesse pelo medicamento está associado à expectativa de resultados rápidos, sem compreensão adequada dos limites e dos riscos do tratamento.

2.4. Atuação do Farmacêutico na Promoção do Uso Racional

O farmacêutico possui papel relevante na promoção do uso racional de medicamentos, na prevenção de problemas relacionados à farmacoterapia e na educação em saúde. No contexto do tratamento farmacológico da obesidade, sua atuação pode incluir orientações sobre administração e conservação dos produtos, esclarecimento sobre reações adversas, identificação de possíveis interações e problemas relacionados ao uso, acompanhamento da adesão e encaminhamento para avaliação de outros profissionais quando necessário. Alhomoud et al. (2024), em revisão sistemática sobre intervenções farmacêuticas no manejo do sobrepeso e da obesidade, reuniram evidências de intervenções relacionadas ao controle do peso e a indicadores antropométricos. Apesar dos resultados favoráveis observados em parte dos estudos, os autores apontaram limitações metodológicas e a necessidade de pesquisas mais robustas. Além disso, as evidências analisadas abrangem o cuidado do sobrepeso e da obesidade em geral, não permitindo atribuir automaticamente os mesmos resultados a intervenções especificamente voltadas aos usuários de agonistas do GLP-1.

A farmacovigilância constitui outra dimensão importante da atuação farmacêutica, pois contribui para a identificação, avaliação e notificação de suspeitas de reações adversas e outros problemas relacionados à segurança dos medicamentos. A orientação adequada e o registro das informações pertinentes podem favorecer o reconhecimento de situações que exijam intervenção e o encaminhamento oportuno do paciente. A atuação do farmacêutico deve ocorrer de forma integrada aos demais profissionais de saúde, respeitando suas competências legais e os limites de sua atuação. Sua contribuição para a segurança dos agonistas do GLP-1 envolve educação em saúde, orientação sobre o uso correto, identificação de problemas relacionados à farmacoterapia e participação nas ações de farmacovigilância.

Diante das evidências apresentadas, observa-se que os agonistas do GLP-1 representam uma importante alternativa farmacológica para pacientes com indicação clínica, mas seu uso requer atenção às condições de utilização e à segurança do tratamento. A influência das redes sociais, os comportamentos de automedicação e as limitações das evidências sobre determinadas intervenções reforçam a necessidade de aprofundar o conhecimento sobre a atuação farmacêutica nesse cenário. Assim, a análise integrada desses aspectos oferece sustentação teórica para investigar os riscos do uso não supervisionado desses medicamentos e as contribuições do farmacêutico para a promoção do uso racional.

3. METODOLOGIA

Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, de caráter descritivo e abordagem qualitativa, cujo objetivo foi analisar as evidências científicas sobre o uso não supervisionado de agonistas dos receptores do peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1 (GLP-1) para emagrecimento, com ênfase na influência das redes sociais, nos riscos farmacoterapêuticos e nas contribuições do farmacêutico para a promoção do uso racional de medicamentos. O levantamento bibliográfico foi realizado em 18 de outubro de 2026, nas fontes PubMed/MEDLINE, Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Foram consideradas publicações relacionadas à utilização de agonistas de GLP-1 para perda de peso, à automedicação, à influência das redes sociais, à segurança farmacoterapêutica e à atuação do farmacêutico no acompanhamento e na orientação dos pacientes.

A seleção dos estudos foi orientada pela pertinência ao objetivo da revisão. Foram considerados elegíveis trabalhos que abordassem diretamente pelo menos um dos seguintes aspectos: utilização de agonistas de GLP-1 sem acompanhamento profissional, influência das redes sociais na procura ou no uso desses medicamentos, riscos relacionados à utilização inadequada ou intervenções farmacêuticas relacionadas ao tratamento da obesidade. Foram excluídas publicações duplicadas, estudos sem relação direta com a questão investigada e trabalhos que não apresentassem informações suficientes para contribuir com a análise proposta.

Após a leitura das publicações e a aplicação dos critérios de elegibilidade, foram priorizados os estudos com contribuição direta para a compreensão da automedicação, da influência das redes sociais e da atuação farmacêutica. As informações relevantes foram organizadas considerando autoria, ano de publicação, objetivo, delineamento metodológico e principais contribuições para a questão de pesquisa. A análise foi conduzida de forma descritiva e interpretativa, mediante comparação dos achados e identificação de convergências, diferenças e lacunas nas evidências disponíveis. A síntese foi organizada em três eixos temáticos: uso não supervisionado de agonistas de GLP-1 para emagrecimento; influência das redes sociais na utilização desses medicamentos; e contribuições do farmacêutico para a segurança farmacoterapêutica e o uso racional.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES

4.1. Caracterização dos Estudos Selecionados

A análise das quatro publicações selecionadas permitiu identificar diferentes perspectivas sobre o uso de medicamentos para emagrecimento, a influência das redes sociais e a atuação do farmacêutico na promoção do uso racional. Os estudos apresentam delineamentos distintos e contribuem de maneira complementar para a compreensão do fenômeno investigado, abrangendo comportamentos de automedicação, qualidade das informações divulgadas em ambientes digitais e intervenções farmacêuticas relacionadas ao manejo do sobrepeso e da obesidade (Alhomoud et al., 2024; Sarhan, Schaalan e El-Sheikh, 2025; Jeljeli et al., 2026; Yoon et al., 2026).

O estudo de Sarhan, Schaalan e El-Sheikh (2025), de delineamento transversal, investigou padrões de automedicação com medicamentos para perda de peso, fatores associados à influência das redes sociais e o papel da orientação farmacêutica. Essa publicação apresenta relação direta com o objetivo desta revisão por abordar fatores comportamentais e informacionais envolvidos na utilização desses medicamentos, contribuindo para a discussão sobre a necessidade de orientação profissional e promoção do uso racional (Sarhan, Schaalan e El-Sheikh, 2025). Jeljeli et al. (2026) investigaram a influência das redes sociais na automedicação com Ozempic entre universitários dos Emirados Árabes Unidos. A publicação aproxima-se diretamente da questão central desta revisão ao abordar a utilização de semaglutida em um contexto marcado pela circulação de informações digitais. Seus resultados devem ser interpretados considerando a população estudada e as limitações próprias do delineamento observacional, sem generalização automática para outros grupos populacionais (Jeljeli et al., 2026).

Yoon et al. (2026) analisaram conteúdos curtos publicados em plataformas digitais sobre terapias incretínicas para obesidade, considerando a precisão das informações, os danos potenciais, o estigma relacionado ao peso e a influência comercial. A investigação contribui para compreender a qualidade das informações às quais os usuários podem ser expostos ao buscar conteúdos sobre medicamentos para emagrecimento. Esse enfoque amplia a discussão para além do comportamento individual, incluindo as características do ambiente informacional no qual decisões relacionadas à saúde podem ser influenciadas (Yoon et al., 2026).

Por sua vez, Alhomoud et al. (2024) realizaram uma revisão sistemática sobre intervenções farmacêuticas no manejo do sobrepeso e da obesidade. O estudo contribui para a análise do papel do farmacêutico na orientação e no acompanhamento de pessoas que buscam tratamento para controle do peso. Entretanto, como a publicação aborda intervenções relacionadas à obesidade de maneira mais ampla, suas conclusões devem ser interpretadas como evidência complementar, sem pressupor que todos os resultados se aplicam especificamente aos agonistas dos receptores de GLP-1 (Alhomoud et al., 2024).

Tabela 1. Caracterização dos estudos selecionados para a revisão integrativa.

Autor/ano

Tipo de publicação

Objetivo ou foco

Contribuição para a revisão

Alhomoud et al. (2024)

Revisão sistemática

Avaliar intervenções farmacêuticas no manejo do sobrepeso e da obesidade.

Subsidia a discussão sobre orientação e acompanhamento farmacêutico no cuidado relacionado ao peso.

Sarhan, Schaalan e El-Sheikh (2025)

Estudo transversal

Investigar a automedicação com medicamentos para perda de peso, a influência das redes sociais e a orientação farmacêutica.

Contribui para a análise dos fatores relacionados à automedicação e da importância da orientação profissional.

Jeljeli et al. (2026)

Estudo observacional transversal

Investigar a influência das redes sociais na automedicação com Ozempic entre universitários dos Emirados Árabes Unidos.

Aborda a relação entre redes sociais e uso não supervisionado de semaglutida.

Yoon et al. (2026)

Análise de conteúdo

Examinar a precisão das informações, os danos potenciais, o estigma relacionado ao peso e a influência comercial em conteúdos digitais sobre terapias incretínicas.

Contribui para a discussão sobre a qualidade e os riscos das informações digitais relacionadas aos medicamentos para obesidade.

Fonte: Elaborada pelos autores (2026), com base nos estudos selecionados.

Em conjunto, as publicações contemplam três dimensões complementares: o comportamento de utilização dos medicamentos, a qualidade das informações disponíveis nas redes sociais e a contribuição dos profissionais farmacêuticos para o cuidado relacionado ao tratamento da obesidade. Apesar dessa complementaridade, os estudos diferem quanto aos objetivos, às populações e aos métodos empregados, o que exige cautela na comparação dos resultados. Além disso, a presença de estudos sobre medicamentos para perda de peso em geral e de intervenções farmacêuticas voltadas à obesidade deve ser considerada na interpretação da aplicabilidade dos achados especificamente aos agonistas dos receptores de GLP-1 (Alhomoud et al., 2024; Sarhan, Schaalan e El-Sheikh, 2025; Jeljeli et al., 2026; Yoon et al., 2026).

4.2. Influência das Redes Sociais e Uso Não Supervisionado de Medicamentos para Emagrecimento

As redes sociais constituem uma importante fonte de informações sobre medicamentos para emagrecimento, podendo influenciar a percepção dos usuários sobre seus benefícios, riscos e formas de utilização. No estudo transversal de Sarhan, Schaalan e El-Sheikh (2025), 53% dos participantes relataram utilizar medicamentos para perda de peso sem consulta médica, e 68% dos participantes que já haviam utilizado esses medicamentos informaram que as redes sociais influenciaram sua decisão. O Instagram e o TikTok foram as plataformas mais citadas. Por se tratar de um estudo transversal, esses resultados demonstram associações e padrões de comportamento, mas não permitem estabelecer, isoladamente, uma relação causal entre exposição às redes sociais e automedicação (Sarhan, Schaalan e El-Sheikh, 2025).

Essa relação também foi investigada por Jeljeli et al. (2026), em estudo com universitários dos Emirados Árabes Unidos. Os autores identificaram associação significativa entre o uso de redes sociais e o comportamento de automedicação, bem como entre essa utilização e a intenção de usar Ozempic para emagrecimento sem prescrição ou consulta médica. Os achados sugerem que a exposição a conteúdos digitais pode estar relacionada à procura por medicamentos para perda de peso, embora a população estudada e o contexto sociocultural devam ser considerados na interpretação dos resultados. Portanto, não é adequado generalizar essas observações para todos os usuários de redes sociais ou para a população brasileira sem investigações específicas (Jeljeli et al., 2026).

A qualidade das informações disponíveis nesses ambientes digitais representa outro aspecto relevante. Yoon et al. (2026) analisaram 200 vídeos curtos publicados no TikTok e no YouTube Shorts sobre terapias incretínicas utilizadas no tratamento da obesidade. Após a indisponibilidade de seis vídeos do TikTok, 194 foram avaliados. Os autores observaram que a maioria dos conteúdos não apresentava informações clínicas precisas, e a promoção de produtos manipulados contribuiu para a maior frequência de potencial de dano identificada no TikTok. Esses resultados evidenciam que a ampla circulação de conteúdos sobre medicamentos não garante a qualidade das informações oferecidas ao público e reforçam a necessidade de comunicação fundamentada em evidências científicas (Yoon et al., 2026).

No caso dos agonistas dos receptores do peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1 (GLP-1), a divulgação de resultados relacionados ao emagrecimento pode estimular expectativas que desconsideram a indicação clínica, as contraindicações, as precauções e a necessidade de acompanhamento profissional. A decisão de utilizar esses medicamentos não deve se fundamentar exclusivamente em relatos pessoais, recomendações de influenciadores ou conteúdos promocionais. Além disso, informações sobre benefícios precisam ser apresentadas em conjunto com os limites terapêuticos e os possíveis riscos associados à utilização inadequada, evitando que a popularidade de um medicamento seja confundida com sua indicação para qualquer pessoa que deseje perder peso (Jeljeli et al., 2026; Yoon et al., 2026).

Nesse cenário, a atuação do farmacêutico é relevante para a orientação sobre o uso correto dos medicamentos, a identificação de possíveis problemas relacionados à farmacoterapia e o esclarecimento de dúvidas sobre informações encontradas na internet. Sarhan, Schaalan e El-Sheikh (2025) observaram associação entre orientação farmacêutica, maior adesão ao tratamento e melhor conhecimento sobre segurança dos medicamentos. De forma complementar, a revisão sistemática de Alhomoud et al. (2024) examinou intervenções farmacêuticas no manejo do sobrepeso e da obesidade, oferecendo suporte à discussão sobre a contribuição desses profissionais nesse campo, embora não se restrinja aos agonistas de GLP-1. Assim, a orientação farmacêutica, articulada ao acompanhamento multiprofissional quando necessário, pode contribuir para decisões mais informadas, prevenção de riscos evitáveis e promoção do uso racional de medicamentos.

4.3. Atuação do Farmacêutico na Segurança Farmacoterapêutica e no Uso Racional de Agonistas de GLP-1

A atuação do farmacêutico é relevante para a promoção do uso racional de medicamentos destinados ao controle do peso, especialmente diante da crescente procura por agonistas dos receptores do peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1 (GLP-1). Sua contribuição envolve a orientação sobre o uso correto dos medicamentos, o esclarecimento de dúvidas, a identificação de possíveis problemas relacionados à farmacoterapia e o encaminhamento para avaliação clínica quando necessário. Alhomoud et al. (2024), em revisão sistemática sobre intervenções farmacêuticas no manejo do sobrepeso e da obesidade, identificaram resultados favoráveis em grande parte dos estudos analisados, embora tenham ressaltado limitações metodológicas e a necessidade de pesquisas mais robustas.

No contexto das terapias baseadas em incretinas, Lingow et al. (2025) destacam a participação do farmacêutico clínico na educação dos pacientes, na orientação sobre administração e conservação dos medicamentos, no acompanhamento da efetividade do tratamento e na identificação de possíveis eventos adversos. Entre os aspectos que merecem atenção estão as reações gastrointestinais, as dificuldades de adesão e a necessidade de acompanhamento individualizado. Essas ações podem contribuir para a segurança farmacoterapêutica, sem substituir a avaliação clínica e as decisões de prescrição dos profissionais legalmente habilitados.

A orientação farmacêutica também pode contribuir para enfrentar os efeitos da circulação de informações inadequadas nas redes sociais. Sarhan, Schaalan e El-Sheikh (2025) investigaram a influência dessas plataformas no comportamento de automedicação com medicamentos para emagrecimento, evidenciando a relevância de considerar as fontes de informação utilizadas pelos pacientes. Nesse cenário, o farmacêutico pode esclarecer dúvidas, orientar sobre os riscos da utilização sem acompanhamento profissional e estimular a busca por informações científicas confiáveis. Essa atuação é especialmente importante quando a decisão de utilizar um medicamento se baseia em relatos pessoais ou conteúdos promocionais que não contemplam as necessidades individuais nem os riscos do tratamento.

Entretanto, a contribuição farmacêutica deve ser compreendida no contexto da assistência multiprofissional e das atribuições profissionais legalmente estabelecidas. O acompanhamento farmacoterapêutico permite identificar situações que necessitam de intervenção ou encaminhamento, favorecendo a comunicação entre o paciente e a equipe de saúde. Embora Alhomoud et al. (2024) tenham identificado resultados promissores para intervenções farmacêuticas no manejo do peso, os autores ressaltam que a qualidade geral das evidências disponíveis ainda é limitada. Além disso, a literatura específica sobre a atuação farmacêutica no uso de agonistas de GLP-1 permanece em desenvolvimento, o que reforça a necessidade de estudos que avaliem os resultados clínicos dessas intervenções.

Dessa forma, a atuação do farmacêutico representa uma contribuição importante para a educação em saúde, a identificação de problemas relacionados aos medicamentos e a promoção do uso racional dos agonistas de GLP-1. Diante da influência das redes sociais e da procura por resultados rápidos de emagrecimento, a orientação fundamentada em evidências e o acompanhamento integrado à equipe de saúde podem favorecer decisões mais informadas e o uso mais seguro desses medicamentos. Contudo, os benefícios dessa atuação devem ser interpretados considerando as limitações das evidências disponíveis e a necessidade de ampliar as pesquisas específicas sobre o tema.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O uso não supervisionado de agonistas dos receptores de GLP-1 para emagrecimento representa um desafio para a segurança farmacoterapêutica e o uso racional de medicamentos. A influência das redes sociais e a circulação de informações incompletas ou potencialmente enganosas reforçam a necessidade de orientação profissional e de acesso a informações fundamentadas em evidências científicas. A análise da literatura permite compreender que o enfrentamento desse problema envolve tanto a qualificação das informações disponibilizadas à população quanto a participação ativa do farmacêutico na educação em saúde, na orientação sobre o uso adequado dos medicamentos e na identificação de possíveis problemas relacionados à farmacoterapia. Essa atuação, integrada à equipe multiprofissional, contribui para decisões mais conscientes e para a promoção de um tratamento mais seguro.

Como limitação, destaca-se o número reduzido de publicações selecionadas e a diversidade dos delineamentos e contextos investigados, que restringem a generalização dos achados. Estudos futuros, especialmente no contexto brasileiro, podem aprofundar a compreensão dos fatores associados ao uso não supervisionado de agonistas de GLP-1 e avaliar os efeitos das intervenções farmacêuticas sobre a segurança do tratamento e o uso racional desses medicamentos. Conclui-se que a promoção do uso racional de agonistas de GLP-1 depende da combinação entre informação científica confiável, acompanhamento profissional e orientação farmacêutica, com atenção aos riscos da utilização sem avaliação individualizada.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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1 Mestrando em Alimentos e Saúde pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG / Montes Claros. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Acadêmica de enfermagem da Faculdade Favenorte – Mato Verde. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

3 Acadêmica do Curso de Odontologia da Afya Centro Universitário - Montes Claros. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

4 Acadêmica de Farmácia da Faculdade Favenorte – Mato Verde. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

5 Acadêmica de Farmácia da Faculdade Favenorte – Mato Verde. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

6 Acadêmica de Farmácia da Faculdade Favenorte – Mato Verde. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

7 Enfermeiro. Especialista em Terapia Intensiva Neonatal, Pediatrico e Adulto. Montes Claros. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

8 Farmacêutica. Mestre em Ciências da Saúde pela Universidade Estadual de Montes Claros – Unimontes / Montes Claros. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail