UMA REFLEXÃO SOBRE O ESTATUTO EPISTEMOLÓGICO NA ABORDAGEM DA PERCEPÇÃO DE ALUNOS COM ALTAS HABILIDADES NO CONTEXTO ESCOLAR

A REFLECTION ON THE EPISTEMOLOGICAL STATUS IN THE APPROACH TO THE PERCEPTION OF STUDENTS WITH HIGH ABILITIES IN THE SCHOOL CONTEXT

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/788121180

RESUMO
A identificação e o atendimento educacional de estudantes com altas habilidades/superdotação (AH/SD) permanecem como desafios para a educação brasileira, sobretudo quando se considera a diversidade das formas de manifestação das potencialidades e as condições sociais e escolares que interferem em seu reconhecimento. Este artigo tem como objetivo analisar, em perspectiva teórico-reflexiva, o estatuto epistemológico subjacente à abordagem da percepção de alunos com altas habilidades/superdotação no contexto escolar, discutindo suas implicações para a identificação, a compreensão e o atendimento educacional desses estudantes. Trata-se de estudo qualitativo, bibliográfico e reflexivo, fundamentado em pesquisas brasileiras publicadas predominantemente entre 2020 e 2026. A análise evidencia que a percepção das altas habilidades não constitui procedimento neutro, pois depende de concepções acerca de inteligência, aprendizagem, desenvolvimento, potencialidade e desempenho. Estudos recentes apontam crescimento dos registros de estudantes identificados, mas também revelam subnotificação, desigualdades regionais, influência de fatores socioeconômicos e educacionais, limitações e diversidade dos instrumentos de identificação e dificuldades na formação dos profissionais da educação. Pesquisas sobre a percepção de estudantes, professores e familiares também indicam que o reconhecimento das potencialidades é atravessado pelas expectativas construídas no ambiente escolar. Argumenta-se que discutir o estatuto epistemológico permite deslocar o debate de uma perspectiva meramente classificatória para uma análise crítica dos critérios pelos quais determinados comportamentos e desempenhos são reconhecidos como evidências de altas habilidades. Conclui-se que a qualificação epistemológica da percepção escolar pode contribuir para reduzir processos de invisibilização, ampliar as possibilidades de identificação e favorecer práticas pedagógicas mais contextualizadas e inclusivas.
Palavras-chave: Altas habilidades/superdotação; Estatuto epistemológico; Percepção; Identificação; Educação inclusiva.

ABSTRACT
The identification and educational support of students with high abilities/giftedness (HA/G) remain challenges for Brazilian education, particularly when considering the diverse ways these potentials manifest and the social and school conditions that influence their recognition. This article aims to analyze, from a theoretical-reflective perspective, the epistemological status underlying the perception of students with high abilities/giftedness within the school context, discussing its implications for their identification, understanding, and educational support. This is a qualitative, bibliographic, and reflective study based on Brazilian research published predominantly between 2020 and 2026. The analysis reveals that the perception of high abilities is not a neutral process, as it depends on conceptions regarding intelligence, learning, development, potential, and performance. Recent studies indicate an increase in the number of identified students but also reveal underreporting, regional inequalities, the influence of socioeconomic and educational factors, limitations and diversity regarding identification instruments, and difficulties in the training of education professionals. Research on the perceptions of students, teachers, and family members also indicates that the recognition of potential is shaped by expectations constructed within the school environment. It is argued that discussing epistemological status allows the debate to shift from a merely classificatory perspective to a critical analysis of the criteria by which certain behaviors and performances are recognized as evidence of high abilities. The study concludes that epistemologically grounding the concept of school perception can help reduce processes of invisibility, expand identification possibilities, and foster more contextualized and inclusive pedagogical practices.
Keywords: High abilities/giftedness; Epistemological status; Perception; Identification; Inclusive education.

1. INTRODUÇÃO

A escola é um espaço no qual diferentes formas de aprender, produzir conhecimento e expressar potencialidades se encontram. Embora essa diversidade seja reconhecida como característica constitutiva da educação contemporânea, determinados estudantes continuam encontrando dificuldades para ter suas necessidades educacionais reconhecidas. Entre eles estão os alunos com altas habilidades/superdotação (AH/SD).

A discussão sobre esses estudantes não pode ser reduzida à ideia de desempenho acadêmico elevado. As altas habilidades podem manifestar-se em diferentes domínios e em intensidades distintas, sendo influenciadas pelas experiências educativas, pelas oportunidades oferecidas e pelas condições sociais e culturais nas quais o estudante se desenvolve. Uma revisão sistemática realizada por Costa e Bianchi (2022), por exemplo, analisou 29 estudos empíricos e confirmou o caráter heterogêneo das características de crianças com AH/SD, evidenciando que a identificação e a avaliação envolvem diferentes dimensões.

Essa heterogeneidade cria uma dificuldade central para a escola: como reconhecer uma potencialidade que nem sempre se expressa sob a forma de alto rendimento escolar?

A questão torna-se ainda mais relevante quando se consideram os dados recentes sobre identificação. Toledo et al. (2025), ao analisarem uma década de dados educacionais, identificaram avanços no número de estudantes registrados como público das altas habilidades/superdotação, mas também apontaram desafios relacionados às desigualdades regionais e às condições necessárias para identificação e atendimento.

Oliveira, Lago e Pessanha (2025), utilizando dados do INEP e do IPEA, investigaram a relação entre fatores socioeconômicos e educacionais e a identificação de estudantes com AH/SD. O estudo desloca a discussão de uma perspectiva centrada exclusivamente nas características individuais para uma compreensão que considera as condições em que o processo de identificação ocorre.

Também há evidências de subnotificação, Oliveira (2025) analisou os registros de matrículas de estudantes com AH/SD no Brasil e comparou os dados oficiais com estimativas presentes na literatura, apontando que apenas dois municípios analisados ultrapassaram o percentual de 3% de estudantes identificado como referência frequentemente mencionada na literatura especializada.

Esses resultados suscitam uma questão que ultrapassa a dimensão quantitativa: o que exatamente a escola reconhece como evidência de uma alta habilidade? É nessa problemática que se insere a discussão sobre o estatuto epistemológico.

O estatuto epistemológico, neste artigo, é compreendido como o conjunto de pressupostos que orienta a produção, a validação e a interpretação do conhecimento sobre determinado fenômeno. No campo das altas habilidades, discutir esse estatuto significa perguntar quais concepções de inteligência, aprendizagem, desenvolvimento e potencialidade fundamentam os processos de percepção e identificação.

O problema de pesquisa que orienta o estudo é, portanto: Quais fundamentos epistemológicos sustentam a percepção de alunos com altas habilidades/superdotação no contexto escolar e de que maneira esses fundamentos podem contribuir para superar concepções reducionistas, lacunas no reconhecimento das potencialidades e desafios presentes nas práticas de identificação e atendimento educacional desses estudantes?

O objetivo geral consiste em analisar, em perspectiva teórico-reflexiva, o estatuto epistemológico subjacente à abordagem da percepção de alunos com altas habilidades/superdotação no contexto escolar, discutindo suas implicações para a identificação, a compreensão e o atendimento educacional desses estudantes.

A relevância do estudo reside, portanto, menos na tentativa de estabelecer uma nova definição de altas habilidades e mais na necessidade de compreender como o olhar escolar é construído e quais consequências esse olhar produz.

2. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

O estudo caracteriza-se como pesquisa qualitativa, bibliográfica e de natureza teórico-reflexiva.

A revisão foi orientada pela necessidade de reunir estudos recentes relacionados a quatro dimensões: identificação de estudantes com AH/SD; percepção de estudantes, professores e famílias; formação e práticas docentes; e políticas e atendimento educacional especializado.

Foram priorizadas publicações científicas entre 2020 e 2026, complementadas por referenciais anteriores considerados fundamentais para a compreensão conceitual das altas habilidades/superdotação. Entre os estudos recentes analisados encontram-se pesquisas empíricas, revisões sistemáticas, estudos documentais e análises de instrumentos.

A análise não teve como finalidade produzir uma revisão sistemática exaustiva ou uma metanálise. Seu propósito foi estabelecer relações teóricas entre os resultados encontrados na literatura recente e o problema epistemológico que fundamenta o artigo.

Os estudos foram organizados em três categorias analíticas:

  1. pressupostos utilizados para definir e reconhecer as altas habilidades;

  2. processos de percepção e identificação no contexto escolar;

  3. implicações desses pressupostos para práticas pedagógicas e políticas de inclusão.

A escolha dessa organização decorre da compreensão de que identificar um estudante não é apenas classificá-lo. Trata-se de um processo no qual determinadas características são observadas, selecionadas, interpretadas e legitimadas como indicadores de uma determinada condição educacional.

3. ALTAS HABILIDADES/SUPERDOTAÇÃO: UMA REALIDADE HETEROGÊNEA

A compreensão das altas habilidades/superdotação foi historicamente associada à inteligência e ao desempenho. Entretanto, a literatura contemporânea evidencia que o fenômeno é mais complexo.

A revisão sistemática de Costa e Bianchi (2022), que analisou 29 estudos, encontrou características relacionadas a diferentes dimensões da cognição e dos processos de identificação e avaliação, reforçando a heterogeneidade do grupo.

Essa heterogeneidade possui consequências diretas para o contexto escolar. Se os estudantes apresentam diferentes formas de expressão das potencialidades, não é possível esperar que todos correspondam ao mesmo padrão de desempenho.

Nesse sentido, a concepção de Renzulli (2004) permanece relevante ao compreender a superdotação como resultado da interação entre habilidade acima da média, criatividade e envolvimento com a tarefa. O valor dessa perspectiva está justamente em evitar que a identificação dependa exclusivamente de um único indicador.

Entretanto, a utilização de modelos multidimensionais não elimina o problema epistemológico. Ainda é necessário perguntar como esses conceitos são traduzidos para a prática escolar.

Um professor pode reconhecer criatividade em uma produção artística, mas não em uma solução matemática não convencional. Outro pode valorizar fortemente a rapidez de execução de tarefas, enquanto atribui menor importância à elaboração de perguntas complexas.

Portanto, a percepção não depende apenas das características do estudante. Depende também das categorias utilizadas pelo observador.

4. ESTATUTO EPISTEMOLÓGICO E PERCEPÇÃO ESCOLAR

Discutir o estatuto epistemológico das altas habilidades significa problematizar os fundamentos que tornam determinado conhecimento possível e legítimo.

No contexto escolar, isso envolve questões aparentemente simples, mas teoricamente complexas:

  • O que é considerado inteligência?

  • O que é considerado aprendizagem?

  • Quais comportamentos são interpretados como indicadores de potencialidade?

  • Que instrumentos são considerados válidos?

  • Quem possui autoridade para reconhecer uma alta habilidade?

  • Quais estudantes têm maiores oportunidades de serem observados?

A resposta a essas perguntas influencia diretamente a percepção.

Quando o conhecimento sobre AH/SD é construído exclusivamente a partir de desempenho acadêmico, a escola tende a favorecer estudantes que já apresentam rendimento elevado.

Por outro lado, quando são consideradas criatividade, pensamento crítico, interesses específicos, liderança, produção original e outras manifestações, o campo de percepção se amplia.

A questão epistemológica, portanto, não se restringe à definição de um conceito. Ela interfere naquilo que o professor vê ou deixa de ver.

5. A PERCEPÇÃO DO ESTUDANTE E A PERCEPÇÃO SOBRE O ESTUDANTE

Um aspecto particularmente relevante para este artigo é que o estudante não é apenas objeto da percepção escolar. Ele também possui uma percepção sobre si mesmo.

Mendonça, Rolim e Capellini (2020) investigaram como estudantes com AH/SD se percebiam e como eram percebidos por pais e professores. Participaram da pesquisa 11 estudantes, seus pais e professoras. O estudo evidencia a importância de considerar diferentes perspectivas sobre o estudante, evitando que sua identidade seja construída exclusivamente a partir do olhar adulto.

Esse resultado possui implicação epistemológica importante: se o conhecimento sobre o estudante é construído exclusivamente por terceiros, corre-se o risco de transformar a pessoa em objeto de classificação. Considerar sua própria narrativa amplia a compreensão sobre suas experiências, interesses, dificuldades e potencialidades.

A escola, nesse sentido, não deve apenas perguntar “o que este aluno consegue fazer?”, mas também “como este aluno compreende sua própria experiência escolar?”

Essa mudança é especialmente relevante porque o reconhecimento de uma alta habilidade pode produzir efeitos positivos, mas também pode gerar expectativas excessivas.

6. OS INSTRUMENTOS DE IDENTIFICAÇÃO: O QUE ELES REVELAM E O QUE PODEM OCULTAR

A identificação é uma das questões mais discutidas na literatura sobre AH/SD.

Nakano e Negreiros (2024) realizaram uma análise crítica das escalas de identificação utilizadas no Brasil e localizaram 17 instrumentos, sendo 13 desenvolvidos nacionalmente e quatro adaptações. As autoras destacam que a identificação é um processo complexo e que a utilização de instrumentos de rastreio exige atenção às suas características psicométricas.

O resultado é importante porque demonstra que não existe uma única forma de produzir evidências sobre altas habilidades:

  • Todo instrumento seleciona características;

  • Toda escala possui categorias;

  • Todo processo de avaliação estabelece critérios.

Consequentemente, nenhum instrumento é epistemologicamente neutro. Isso não significa negar o valor das avaliações sistemáticas. Significa reconhecer seus limites e a necessidade de articulá-las a outras fontes de informação.

A própria identificação de crianças pequenas exige cuidados adicionais. Oliveira e Martins (2024), ao estudarem a adaptação e a validade de conteúdo de um instrumento voltado à identificação de precocidade e indicadores de AH/SD na Educação Infantil, demonstram a importância de instrumentos específicos para diferentes etapas do desenvolvimento.

A pergunta relevante passa a ser, portanto: Que aspectos da potencialidade estão sendo efetivamente capturados pelo instrumento e quais podem permanecer fora do campo de observação?

7. SUBNOTIFICAÇÃO E DESIGUALDADE NO RECONHECIMENTO

A identificação das altas habilidades também precisam ser analisada à luz das desigualdades educacionais.

O estudo de Oliveira (2025) sobre subnotificação demonstra que os registros oficiais brasileiros estão muito abaixo das estimativas que poderiam ser esperadas a partir da literatura especializada.

Esse resultado é particularmente importante para a discussão epistemológica.

A ausência de identificação não pode ser interpretada automaticamente como ausência de altas habilidades.

Pode significar, entre outras possibilidades:

  • falta de formação dos professores;

  • ausência de instrumentos adequados;

  • falta de serviços especializados;

  • desconhecimento da temática;

  • baixa expectativa em relação a determinados estudantes;

  • desigualdade de acesso aos processos avaliativos.

Oliveira, Lago e Pessanha (2025) acrescentam evidências sobre a influência de fatores socioeconômicos e educacionais na identificação, reforçando a necessidade de compreender o fenômeno dentro das condições concretas em que a escolarização ocorre.

Assim, a pergunta deixa de ser apenas “quem apresenta altas habilidades?” e passa a incluir outra: “Quem tem condições de ser reconhecido como alguém que apresenta altas habilidades?”

Essa segunda pergunta aproxima a discussão epistemológica da dimensão social.

8. A FORMAÇÃO DOCENTE COMO CONDIÇÃO PARA UMA PERCEPÇÃO QUALIFICADA

O professor possui posição privilegiada para observar os estudantes, mas a observação cotidiana não garante, por si só, uma identificação adequada, Almeida, Souza e Oliveira (2025) discutem desafios docentes relacionados à inclusão de alunos com AH/SD e destacam a importância do conhecimento científico e da formação continuada para superar mitos e dificuldades presentes na prática escolar.

Essa questão já havia sido evidenciada por Arantes-Brero e Capellini (2022), que discutiram possibilidades de consultoria colaborativa para a formação de educadores. As autoras destacam lacunas na formação docente e apontam a consultoria colaborativa como possibilidade de aproximar o conhecimento especializado da realidade escolar.

A formação, portanto, não deve ser entendida como simples transmissão de informações sobre características de alunos superdotados.

É necessário promover uma reflexão sobre o próprio processo de percepção. O professor precisa ser capaz de perguntar: Por que considero este comportamento relevante? Por que interpreto determinado aluno como inteligente e outro como apenas esforçado? Minha prática permite que diferentes formas de competência sejam demonstradas? Segundo Arantes-Brero e Capellini (2022) esse tipo de questionamento representa, na prática, uma atitude epistemológica.

9. A ESCOLA E A PRODUÇÃO DE INVISIBILIDADES

A escola pode contribuir para o reconhecimento das potencialidades, mas também pode produzir invisibilidade.

A revisão de Nogueira et al. (2021) sobre AH/SD e ambiente escolar evidência que a invisibilidade desses estudantes não decorre de uma única causa, mas de diferentes fatores relacionados às concepções sobre inteligência, identificação e condições escolares.

A invisibilidade pode ocorrer quando:

  • o aluno não apresenta alto desempenho em todas as disciplinas;

  • a criatividade não é valorizada;

  • o comportamento questionador é interpretado como indisciplina;

  • os interesses específicos não são considerados;

  • a escola não dispõe de profissionais preparados;

  • a identificação depende exclusivamente de encaminhamento formal.

Dessa perspectiva, a percepção é uma prática social. Aquilo que não se encaixa nos padrões esperados tende a receber menor atenção.

Essa constatação é particularmente importante para estudantes que apresentam dupla excepcionalidade ou perfis menos convencionais. Silva et al. (2021), por exemplo, discutem a identificação de dupla excepcionalidade em adulto, mostrando como características distintas podem coexistir e dificultar o reconhecimento das potencialidades.

10. ATENDIMENTO EDUCACIONAL E DESENVOLVIMENTO DAS POTENCIALIDADES

A identificação somente adquire sentido educacional quando produz possibilidades concretas de desenvolvimento, Oliveira e Minetto (2022) investigaram relações entre atendimento educacional especializado e construção do autoconceito de pessoas superdotadas. O estudo evidencia que o atendimento não deve ser analisado apenas em termos de desempenho, mas também em relação à construção da identidade e das experiências subjetivas do estudante.

Essa dimensão é importante porque o aluno com AH/SD não deve ser reduzido à sua capacidade cognitiva.

O atendimento educacional precisa considerar:

  • interesses;

  • autonomia;

  • criatividade;

  • relações sociais;

  • identidade;

  • aspectos emocionais;

  • possibilidades de enriquecimento curricular.

Dias et al. (2025), em revisão sobre atendimento educacional especializado, discutem diferentes perfis de estudantes com AH/SD e destacam a existência de estudantes cujo potencial pode permanecer oculto ou apresentar-se associado a outras dificuldades. Essa constatação reforça a necessidade de uma percepção escolar mais flexível.

A discussão sobre estatuto epistemológico também possui consequências para o currículo, conforme Travaglia e Hummel (2024), ao investigarem desafios docentes relacionados à identificação e ao uso de tecnologias digitais para enriquecimento curricular, mostram que as tecnologias podem constituir recursos para ampliar as possibilidades de aprendizagem dos estudantes com AH/SD.

O ponto central, entretanto, não está na tecnologia em si, o recurso pedagógico precisa estar associado a uma concepção de aprendizagem que permita investigação, autoria, criação e aprofundamento, para estudantes com altas habilidades, atividades excessivamente repetitivas podem limitar as possibilidades de expressão das potencialidades.

A questão epistemológica reaparece nesse ponto: o aluno precisa ser reconhecido como produtor de conhecimento, e não apenas como receptor de conteúdo.

Castro, Portela e Santos (2026) realizaram levantamento da produção Stricto Sensu brasileira sobre AH/SD entre 2002 e 2024. A busca resultou inicialmente em 234 pesquisas; após exclusões, foram analisadas 180 dissertações e 54 teses. O levantamento oferece um panorama expressivo da produção acadêmica brasileira e evidencia a expansão das pesquisas na área.

O resultado demonstra que o tema deixou de ocupar posição periférica na pesquisa educacional, entretanto, a expansão quantitativa da produção não elimina a necessidade de aprofundamento conceitual.

O presente artigo identifica uma lacuna específica: embora existam estudos sobre identificação, formação docente, instrumentos, políticas e atendimento, permanece relevante discutir de maneira mais explícita os pressupostos epistemológicos que determinam como o estudante é percebido e reconhecido.

Os estudos analisados permitem perceber quatro movimentos importantes: (1) houve avanço na identificação de estudantes com AH/SD, conforme demonstrado por Toledo et al. (2025); (2) permanecem sinais de subnotificação, conforme demonstrado por Oliveira (2025); (3) os processos de identificação são influenciados por instrumentos, formação profissional e contexto socioeducacional, como mostram Nakano e Negreiros (2024), Arantes-Brero e Capellini (2022) e Oliveira, Lago e Pessanha (2025); (4) a percepção do estudante não pode ser separada de sua própria experiência, conforme evidenciado por Mendonça, Rolim e Capellini (2020).

Esses resultados permitem uma síntese: o problema das altas habilidades na escola não é somente um problema de identificação; é também um problema de conhecimento. A escola precisa saber como conhecer o estudante. Isso significa reconhecer que toda identificação envolve uma perspectiva sobre o sujeito. Quando o estudante é visto exclusivamente a partir do resultado de uma avaliação, sua complexidade pode ser reduzida. Quando é considerado em diferentes contextos, por diferentes observadores e mediante diferentes evidências, a compreensão torna-se mais ampla.

O estatuto epistemológico, nesse sentido, funciona como uma lente crítica. Ele permite perguntar não apenas se determinado procedimento identifica corretamente, mas também qual concepção de sujeito está sendo produzida por esse procedimento.

A discussão apresenta implicações diretas para a educação inclusiva.

Reconhecer alunos com AH/SD significa assegurar condições para que suas potencialidades sejam desenvolvidas. Isso envolve não somente identificação, mas também acompanhamento, enriquecimento curricular e atendimento educacional especializado.

Risso et al. (2025), ao investigarem a efetivação das políticas de atendimento a alunos com AH/SD a partir da perspectiva de 31 professores de três escolas municipais, reforçam a importância de analisar a inclusão a partir das práticas efetivamente realizadas no cotidiano escolar.

A inclusão, portanto, não pode permanecer restrita ao discurso normativo, ela precisa aparecer na organização curricular, na formação dos professores, nos procedimentos de identificação e nas oportunidades de desenvolvimento oferecidas aos estudantes.

A discussão sobre estatuto epistemológico contribui para essa tarefa porque ajuda a identificar possíveis contradições entre aquilo que a política educacional afirma valorizar e aquilo que as práticas escolares efetivamente reconhecem.

11. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise desenvolvida permite afirmar que a percepção de alunos com altas habilidades/superdotação no contexto escolar não constitui um processo puramente técnico ou objetivo. Ela é construída a partir de concepções sobre inteligência, aprendizagem, desenvolvimento, desempenho e potencialidade.

Os estudos recentes analisados evidenciam avanços importantes no campo. Houve crescimento da identificação e da produção científica, mas também permanecem problemas relacionados à subnotificação, às desigualdades regionais, às condições socioeducacionais, à formação docente e aos instrumentos utilizados.

A principal contribuição da discussão epistemológica consiste em deslocar o foco da pergunta “como identificar o aluno com altas habilidades?” para uma questão mais ampla: “como construímos o conhecimento que nos permite reconhecê-lo como aluno com altas habilidades?”

Essa mudança é relevante porque permite compreender que os processos de identificação são atravessados por escolhas teóricas, metodológicas e sociais.

O estudante não se torna sujeito com altas habilidades apenas porque apresenta determinada característica. Ele precisa ser percebido, interpretado e reconhecido dentro de um sistema de categorias e práticas educacionais.

Por essa razão, a existência de subnotificação não deve ser interpretada simplesmente como ausência de potencialidades, mas também como possível evidência das limitações dos processos utilizados para reconhecê-las.

Da mesma maneira, o crescimento dos registros oficiais deve ser acompanhado de uma análise qualitativa sobre quem está sendo identificado e quem permanece fora desses registros.

A formação docente constitui um dos caminhos mais importantes para enfrentar esse problema. Não basta oferecer aos professores informações sobre características de estudantes com AH/SD. É necessário desenvolver uma postura investigativa capaz de questionar os próprios critérios utilizados para interpretar os comportamentos e desempenhos dos alunos.

Nesse sentido, o estatuto epistemológico pode contribuir para uma educação mais inclusiva porque permite tornar visíveis os pressupostos que orientam o olhar escolar.

A questão central deixa de ser apenas classificar o estudante e passa a ser compreendê-lo.

Essa perspectiva favorece uma abordagem na qual o aluno com altas habilidades é reconhecido como sujeito de aprendizagem, produtor de conhecimento, portador de potencialidades e de necessidades educacionais.

Conclui-se, portanto, que qualificar epistemologicamente a percepção escolar constitui uma condição importante para ampliar o reconhecimento das altas habilidades/superdotação e reduzir processos de invisibilização.

Mais do que aumentar o número de identificações, é necessário aprimorar a qualidade do olhar que sustenta essas identificações.

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1 Mestra pelo Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE) da Universidade Federal do Amazonas (UFAM-AM), integrante do Laboratório de Estudos em Comportamento Motor Humano (LECOMH/UFAM), Manaus – Amazonas – Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.

2 Doutor em Educação Física da Universidade São Paulo (USP/SP), professor permanente da Faculdade de Educação Física e Fisioterapia (FEFF/UFAM) da Universidade Federal do Amazonas (UFAM/AM), Professor do Programa de Pós-Graduação em Educação ((PPGE/UFAM) e více líder do Laboratório de Estudos em Comportamento Motor Humano (LECOMH/UFAM), Manaus – Amazonas – Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.

3 Professor orientador: Doutor em Educação Física da Universidade de São Paulo (USP/SP), professor permanente da Faculdade de Educação Física e Fisioterapia (FEFF/UFAM) da Universidade Federal do Amazonas (UFAM/AM), professor do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE/UFAM) e líder do Laboratório de Estudos em Comportamento Motor Humano (LECOMH/UFAM), Manaus – Amazonas – Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.