REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/793515802
RESUMO
No Brasil, o tênis de campo sempre foi visto como um esporte elitizado e de difícil acesso, que enfrenta barreiras como o alto preço dos equipamentos e a falta de espaços públicos e de professores qualificados. Objetivou-se analisar o tênis de campo como valiosa ferramenta de inclusão social, observado sob o olhar de diferentes metodologias de ensino. Trata-se de pesquisa de abordagem qualitativa, de natureza descritiva, desenvolvida por meio de revisão bibliográfica, que utilizou como fontes de dados pesquisas qualitativas e quantitativas, documentos oficiais, sites, revistas informativas e científicas especializadas na modalidade. Os resultados mostram que o tênis de campo pode tornar-se um esporte de acesso mais fácil a todos quando os métodos antigos dão lugar a jogos mais educativos e práticos, como no programa Play and Stay, que torna as primeiras aulas mais atrativas e divertidas para os praticantes. O emprego de materiais acessíveis, como raquetes menores, bolas de baixa compressão e quadras menores, permite a prática em escolas e espaços públicos. Conclui-se que a modalidade tem enorme potencial para a promoção da inclusão social no país, e que o que afasta a população da prática não é o esporte em si, mas a falta de acesso e os métodos de ensino muito antigos. Com a adoção de novas metodologias adaptadas, a prática deixa de focar no rendimento e torna-se acessível à população. No entanto, é necessária a capacitação de profissionais de Educação Física, para que a prática transforme vidas e promova a saúde dentro e fora das quadras.
Palavras-chave: tênis de campo; métodos de ensino; projeto social; inclusão.
ABSTRACT
In Brazil, tennis has always been seen as an elitist sport with difficult access, facing barriers such as the high price of equipment and the lack of public facilities and qualified teachers. The aim was to analyse tennis as a valuable tool for social inclusion, observed through the lens of different teaching methodologies. This is qualitative, descriptive research developed through a literature review, which used as data sources qualitative and quantitative studies, official documents, websites, and informative and scientific journals specialising in the sport. The results show that tennis can become a sport with easier access for everyone when old methods give way to more educational and practical games, as in the Play and Stay programme, which makes the first lessons more attractive and enjoyable for participants. The use of accessible materials, such as smaller rackets, lower-pressure balls and smaller courts, allows the sport to be practised in schools and public spaces. It is concluded that the sport has enormous potential for promoting social inclusion in the country, and that what keeps the population away from it is not the sport itself but the lack of access and the very old teaching methods. By adopting new adapted methodologies, the practice ceases to focus on performance and becomes accessible to the population. Nevertheless, the training of Physical Education professionals is necessary so that the practice transforms lives and promotes health on and off the courts.
Keywords: tennis; teaching methods; social project; inclusion.
1. INTRODUÇÃO
O esporte na sociedade contemporânea consolidou-se como um fenômeno global de relevante apelo social, cultural e econômico. Dentre as modalidades de grande destaque mundial, o tênis de campo possui uma longa trajetória, sendo fruto da evolução de diversos jogos antigos praticados com bola, rede e, posteriormente, raquetes (Comitê Olímpico do Brasil, 2026).
O tênis de campo tem raízes históricas no jeu de paume (jogo da palma), atividade surgida na França no final do século XII e praticada ao longo da Idade Média. As bases históricas do tênis foram consolidadas entre os séculos XII e XIII a partir desse jogo ancestral, que inicialmente dispensava o uso de raquetes e utilizava as mãos nuas ou luvas, passando a empregar o battoir (batedor/raquete) no século XIV até a introdução dos cabos e cordas (Confederação Brasileira de Tênis, [s.d.]).
Posteriormente, a transição para o tênis moderno ocorreu na Inglaterra no final do século XIX, quando Walter Clopton Wingfield patenteou o lawn-tennis em 1874. Nesse período, a prática incorporou novos códigos de etiqueta, cortesia e fair play, expandindo-se gradativamente dos jardins aristocráticos e clubes privados para as classes médias ao longo do século XX (Boutchich, 2025).
Boutchich (2025), relata ainda que, na contemporaneidade, o tênis consolidou-se em duas grandes frentes: o tênis competitivo de alto rendimento e o tênis de lazer e urbano. No cenário profissional, a modalidade movimenta torneios globais, com destaque para os quatro eventos do Grand Slam (Australian Open, Roland Garros, Wimbledon e US Open). Paralelamente, como vetor de inclusão social, a prática tem se democratizado por meio de formatos acessíveis e adaptados, como o Urban-Tennis, permitindo o acesso à modalidade em escolas, praças e espaços públicos.
No cenário nacional, o tênis ganhou projeção impulsionado por conquistas históricas, desde os feitos pioneiros de Maria Esther Bueno até o marco estabelecido por Gustavo Kuerten, o Guga. Conforme apontam Cortela et al., (2012), as marcantes conquistas de Gustavo Kuerten entre o final dos anos 1990 e o início dos anos 2000 impulsionaram o desenvolvimento do tênis no Brasil. Atualmente, essa visibilidade está se renovando com atletas de destaque no cenário nacional e internacional, como Beatriz Haddad Maia, Thiago Wild e Thiago Monteiro, além do surgimento de promessas da modalidade, a exemplo de Luis Augusto Queiroz Miguel (Guto Miguel) e, mais recentemente, João Fonseca (Thiebaut, 2024).
Nesse contexto, o tênis vem apresentando uma evolução contínua, influenciando novos profissionais, atletas e praticantes. Levantamento da Federação Internacional de Tênis, realizado com a participação de 195 nações, estimou em cerca de 87 milhões o número de praticantes da modalidade no mundo, o que corresponderia a aproximadamente 1,17% da população mundial (International Tennis Federation, 2019).
No entanto, o cenário brasileiro ainda está distante do ideal. Revisões da área apontam que a modalidade permanece associada a um público restrito e de maior poder aquisitivo, e que dois fatores sustentam esse quadro: a carência de instalações públicas e o fato de o tênis de campo não constar como disciplina na maior parte das universidades brasileiras (Cortela et al., 2012). Soma-se a isso o custo dos materiais básicos como, raquetes, calçados e tubos de bolas e a complexidade e o custo de manutenção das quadras tradicionais, seja a rápida, a de saibro ou a de grama. Sem profissionais formados na modalidade, o esporte permanece afastado do ambiente escolar e deixa de alcançar uma parcela significativa da população. Passados mais de dez anos desse diagnóstico, o quadro pouco se alterou.
Nesse sentido, a escolha deste tema justifica-se pela necessidade de analisar as dificuldades enfrentadas no Brasil para tornar o tênis de campo acessível à população de menor renda, bem como o seu potencial transformador. Metodologias pedagógicas modernas demonstram que a prática do tênis de campo não precisa necessariamente ficar restrita a infraestruturas avançadas, podendo ser realizada com o uso de materiais de baixo custo. Justifica-se, ainda, pela necessidade de ampliar a produção do conhecimento científico em uma área tão importante e pouco explorada. Diante desse contexto, surge a seguinte questão norteadora: de que maneira o tênis de campo, por meio de metodologias como o minitênis e o programa Play and Stay, que utilizam bolas de baixa compressão, raquetes menores e dimensionamento flexível do espaço, pode superar as barreiras de acesso no Brasil e se consolidar como uma ferramenta de inclusão social em praças públicas, escolas e comunidades periféricas?
Diante dos fatos expostos e da relevância desta pesquisa para os profissionais que atuam com a modalidade, para os pais e, principalmente, para os praticantes, o objetivo deste estudo foi analisar o tênis de campo como valiosa ferramenta de inclusão social, observado sob o olhar de diferentes metodologias de ensino.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1. História do Tênis no Brasil: Da Origem nos Clubes aos Ícones Nacionais
Coube ao Rio de Janeiro a precedência no jogo das raquetes. A entrada da modalidade no Brasil se deu pela via do trabalho: no final da década de 1880, engenheiros britânicos desembarcaram para atuar na construção de ferrovias e em obras urbanas, sobretudo no Rio de Janeiro e em São Paulo, em pleno rearranjo político do país, que então vivia a queda da Monarquia e a proclamação da República, em 1889. Foram esses mesmos profissionais, envolvidos no processo de transição, que trouxeram de sua cultura de origem a prática do lawn-tennis (Gonçalves et al., 2018).
O marco inicial está em Niterói: foi ali, em 1889, que se ergueu a primeira quadra do país destinada ao jogo. Na virada do século, a modalidade já aparecia em outras agremiações fluminenses, entre elas o Canto do Rio Futebol Clube, o Clube de Regatas Icaraí e o Rio Cricket and Athletic Association. Um clube dedicado exclusivamente ao tênis, porém, só surgiria em 1896, em Porto Alegre: o Club Walhalla (Gonçalves et al., 2018).
Inicialmente restrito às elites associativas e aos clubes privados, o tênis brasileiro começou a ganhar relevância internacional em meados do século XX por meio do surgimento de grandes talentos. O primeiro grande nome brasileiro de impacto global foi Maria Esther Bueno, que revolucionou o tênis feminino nas décadas de 1950 e 1960. Conhecida internacionalmente como “A Bailarina do Tênis” por sua elegância em quadra, a atleta conquistou 19 títulos de Grand Slam (sendo 7 em simples e 12 em duplas), alcançando o topo do ranking mundial em uma época dominada por atletas europeias e norte-americanas (Gonçalves et al., 2018).
Décadas mais tarde, no final dos anos 1990, o tênis brasileiro viveu seu segundo e mais expressivo momento de massificação midiática com Gustavo Kuerten, o Guga. Ele conquistou seu primeiro título em Roland Garros em 1997 e repetiu o feito na França em 2000 e 2001, chegando ao topo do mundo ao assumir a liderança do ranking da Association of Tennis Professionals (ATP). Para Cortela et al., (2012), o período que o país batizou de “Era Guga” teve efeito duplo: cresceu o contingente de pessoas que passaram a jogar e cresceu também a venda de equipamento da modalidade, com reflexo direto no mercado nacional.
Paralelamente às conquistas individuais, o fortalecimento do tênis no país passou pela consolidação de eventos profissionais do circuito internacional em solo nacional. Sediado na Costa do Sauípe, na Bahia, entre 2001 e 2011, o Brasil Open passou a ser realizado em São Paulo a partir de 2012 (Lance!, 2019). Mais recentemente, esse papel coube ao Rio Open: o maior torneio sul-americano da modalidade, que integra o grupo de dezesseis competições classificadas pela ATP na categoria 500 (Dolzan, 2025). Ambos foram fundamentais ao trazer atletas do topo do ranking mundial para o país, fomentando o turismo esportivo e inspirando novas gerações de praticantes.
Na atualidade, a visibilidade do tênis brasileiro renova-se por meio de expoentes no circuito mundial. No circuito feminino, Beatriz Haddad Maia consolidou-se entre as melhores jogadoras do mundo ao alcançar a semifinal de Roland Garros e o top 10 do ranking da Women’s Tennis Association (WTA). No masculino, atletas experientes como Thiago Monteiro e Thiago Wild mantêm presença no circuito principal. Ao mesmo tempo, despontam jovens promessas como Luis Augusto Queiroz Miguel (Guto Miguel) e João Fonseca (Thiebaut, 2024).
Contudo, entende-se que, apesar do histórico de grandes ícones e da realização de torneios de grande porte, observa-se um descompasso estrutural: o sucesso de atletas de ponta não se traduziu automaticamente em políticas públicas para a universalização do esporte. A transição do tênis de um esporte de exibição e de elite para um instrumento de transformação social exige superação metodológica e de infraestrutura no Brasil.
2.2. O Tênis de Campo Como Ferramenta de Inclusão Social e Educacional
A superação da barreira histórica que elitizou o tênis de campo no Brasil exige a democratização do acesso à modalidade por meio da sua inserção em instituições de ensino e projetos socioeducativos voltados à população de menor poder aquisitivo (Costa, 2025). Nesse contexto, as iniciativas sociais e comunitárias desempenham um papel central na inclusão social: ao ocuparem o tempo livre de jovens e adolescentes em vulnerabilidade social, atuam como contraponto a contextos marcados pelo tráfico de drogas, pela violência e pela precariedade sociocultural, que favorecem processos de socialização negativos (Mello et al., 2018). Entre os participantes e os profissionais desses projetos, a convivência é descrita como espaço de socialização capaz de favorecer o desenvolvimento de valores e de abrir novas perspectivas de vida, ainda que as próprias autoras ressalvem que esse desenvolvimento de valores nem sempre ocorre como se espera (Castro; Souza, 2011).
Nesse cenário, os efeitos que se atribuem à prática ultrapassam o ganho de condição física: Bellinazo, Engers e Ilha (2022), relatam repercussões na forma de enfrentar dificuldades do cotidiano, nos vínculos afetivos construídos entre os participantes e na convivência dentro da comunidade. Por se tratar de uma modalidade que envolve elevada imprevisibilidade e tomada de decisão individual, o esporte não apenas estimula o repertório motor, mas também impõe exigências psicológicas fundamentais, como a resiliência e a capacidade de lidar com os próprios erros (Aburachid; Greco; Silva, 2014; Godtsfriedt; Andrade; Vasconcellos, 2014). Assim, espera-se que a inserção do tênis em núcleos educativos e comunitários favoreça a incorporação de valores éticos e comportamentos positivos e abra aos jovens novas perspectivas de futuro (Castro; Souza, 2011), expectativa que também orienta os gestores públicos municipais, que atribuem ao esporte os objetivos de inclusão social e de proteção de crianças e jovens diante de situações de risco (Santos et al., 2019).
A possibilidade de adaptar materiais e espaços alinha-se também ao propósito pedagógico da modalidade nas instituições de ensino, em que o tênis deve distanciar-se da rigidez e do caráter estritamente competitivo das federações oficiais. Conforme apontam Pinto e Cunha (1998) — posição reforçada pelo estudo de Costa (2025) —, o esporte no ambiente escolar precisa priorizar o ludismo, a cooperação e o desenvolvimento integral do aluno, convertendo a prática em um meio educativo, e não em um fim competitivo em si mesmo. Sob essa perspectiva pedagógica, o minitênis atua de forma análoga a uma fase preparatória de desenvolvimento. Assim como a educação infantil visa estimular as habilidades motoras finas antes da alfabetização, o minitênis proporciona experiências facilitadas e adaptadas que desenvolvem a coordenação e a percepção do praticante (Fontoura, 2003). Essa vivência gradual e motivadora cria a base necessária para que o aluno adquira repertório motor e, futuramente, possa transitar para a prática do tênis tradicional (Costa, 2025).
Apesar do seu potencial transformador, a expansão do tênis de campo ainda enfrenta o desafio da democratização devido ao elevado custo dos equipamentos e à ausência ou à escassez de estrutura física adequada nas escolas e nos espaços públicos (Cortela et al., 2012; Bellinazo; Engers; Ilha, 2022). Além das adaptações estruturais, a viabilidade financeira da modalidade nas instituições públicas e nos projetos sociais depende de estratégias sustentáveis de reaproveitamento de recursos (Costa, 2025). Diante da escassez de verbas para a aquisição de bolas oficiais de baixa compressão, como sugerem Silva et al., (2017), e ratifica Costa (2025), duas alternativas viáveis e acessíveis para o ambiente educacional são a utilização de bolas descartadas por clubes privados e o improviso de redes com cordas ou fitas. Ao perderem a pressão interna original pelo uso contínuo, essas bolas adquirem uma dinâmica mais lenta e de menor quique, tornando-se perfeitamente adequadas para a iniciação esportiva de crianças e adolescentes.
Da mesma forma, a adoção da metodologia Play and Stay, que emprega bolas mais lentas (vermelhas, laranjas e verdes) e dimensionamento reduzido de quadra, garante que os participantes consigam trocar bolas e jogar desde a primeira aula, priorizando o lúdico e a evolução gradual no contexto escolar e social (Herold, 2012; Borges; Lamas, 2024; Costa, 2025). Em investigações sobre projetos socioesportivos de tênis, Bellinazo, Engers e Ilha (2022) constataram que a adesão inicial ocorre frequentemente pelo incentivo de familiares e amigos (36,96%) ou a convite da própria instituição de ensino (4,35%). Constataram também que a permanência dos alunos é sustentada prioritariamente pela diversão (70%). Outro dado que chamou a atenção é que o desejo de evoluir no esporte foi apontado por 57,5% dos participantes.
No âmbito do planejamento e da prática docente, Costa (2025), aponta que, para além das limitações estruturais e da falta de materiais específicos, uma das maiores barreiras para a inserção do tênis de campo no ambiente escolar reside nas lacunas da formação inicial dos professores — formação na qual a modalidade frequentemente figura como disciplina optativa ou secundária em relação aos esportes coletivos tradicionais. Essa lacuna se reflete na presença da modalidade nas aulas: Ginciene, Impolcetto e Darido (2017), registram que a modalidade raramente chega às aulas de Educação Física e localizam o entrave menos no modo de ensinar do que na ausência de material nas escolas e na pouca familiaridade do professor com o jogo. Para superar esse quadro, Costa (2025), enfatiza a importância da intencionalidade pedagógica do docente, do apoio em documentos norteadores (como a BNCC e propostas curriculares locais) e do investimento em formações continuadas que capacitem os professores a ressignificarem o ensino do tênis de campo no chão da escola.
Por fim, a convivência promovida nesses espaços demonstra que o esporte é capaz de integrar praticantes de diferentes estratos socioeconômicos e faixas etárias sem distinção de classe dentro da quadra (Balzano et al., 2019; Bellinazo; Engers; Ilha, 2022). A atuação intencional do professor de Educação Física transcende o ensino dos golpes e das táticas do jogo, estabelecendo laços de confiança e suporte afetuoso que auxiliam na formação cidadã e no acolhimento de jovens em vulnerabilidade (Costa, 2025). Assim, o tênis de campo deixa de ser um privilégio de elites associativas e consolida-se como um direito social e um instrumento de promoção da saúde, inclusão e desenvolvimento humano (Silva et al., 2017; Bellinazo; Engers; Ilha, 2022; Costa, 2025).
2.3. Tênis de Campo: Evolução das Metodologias de Ensino
Com o intuito de romper com o modelo tradicional analítico-tecnicista, centrado na repetição exaustiva de gestos motores e na busca por uma “técnica perfeita” de alto rendimento, a Pedagogia do Esporte passou a fundamentar a iniciação esportiva em abordagens contemporâneas, como o Sport Education (SE) e o Teaching Games for Understanding (TGFU) (Graça; Mesquita, 2007). Essas metodologias defendem que o aluno precisa compreender a tática do jogo antes das cobranças técnicas, utilizando jogos adaptados que estimulam o raciocínio e a tomada de decisão (Doolittle, 1995; Greco; Silva; Aburachid, 2009). Dessa forma, o aprendiz deixa de ser um mero reprodutor de movimentos e desenvolve autonomia no seu processo de aprendizagem (Bolognini; Paes, 2007).
Nessa perspectiva, a Confederação Brasileira de Tênis passou a adotar, em 2007, o programa Play and Stay, criado pela Federação Internacional de Tênis, como metodologia de referência para a iniciação na modalidade no país (Cortela et al., 2012). O objetivo central da metodologia está sintetizado no lema do próprio programa — serve, rally and score —, segundo o qual o próprio iniciante deve conseguir sacar, trocar bolas e disputar pontos já na primeira aula (Miley, 2007). Quadras reduzidas, raquetes mais leves e bolas de baixa compressão tornam o aprendizado mais acessível e reduzem o risco de lesão (Unierzyski; Crespo, 2007), oferecendo ao praticante mais tempo para reagir e desenvolver sua percepção tática e sua motivação (Farrow; Reid, 2010).
Estruturalmente, o ensino infantil no Play and Stay organiza-se de forma progressiva. A fase de iniciação na primeira infância (geralmente entre 3 e 6 anos), comercialmente popularizada como “Baby Tênis”, corresponde academicamente ao Estágio Vermelho (Red Stage) ou minitênis (Paula; Balbinotti, 2009; Miley, 2007). Nessa etapa inicial, o foco não recai sobre a técnica formal dos golpes, mas sim sobre a “alfabetização motora”, a ludicidade e a percepção espaço-temporal, com o emprego de raquetes de 41 a 53 cm (16 a 21 polegadas) e de bolas de esponja ou de feltro de baixa compressão, o que possibilita que crianças bem pequenas consigam rebater e interagir com o esporte sem frustrações (Miley, 2007; Newman, 2010).
Vale destacar que a lógica de adaptação progressiva do Play and Stay estende-se também aos adultos na iniciação esportiva tardia (Cortela et al., 2012). Embora os adultos possam apresentar limitações motoras iniciais, o seu nível de desenvolvimento cognitivo permite compreender a lógica tática do jogo de forma mais rápida (Pimentel; Galatti; Paes, 2010). Assim, a metodologia consolida o tênis como ferramenta de inclusão social, pois reduz custos ao permitir a participação de mais alunos por aula e quebra o estigma de esporte elitizado, facilitando sua expansão em escolas e projetos sociais (Cortela et al., 2012).
Em consonância com essa proposta de progressão por estágios, a pesquisa realizada por Borges e Lamas (2024), com crianças de 9 anos (estágio bola laranja) e 10 anos (estágio bola verde), confirmou que a adequação das estruturas ao nível de desenvolvimento reduz a frustração com os erros iniciais. No estágio laranja, a quadra reduzida e a bola mais lenta permitiram manter trocas de bolas desde o início, tornando a prática acessível e prazerosa (Borges; Lamas, 2024). Com o avanço para o estágio verde, o aumento no espaço e na velocidade do quique promoveu maior variação de golpes (forehand, backhand, saque, voleio e smash) e exigiu decisões táticas mais complexas, demonstrando que a metodologia favorece um ensino estruturado, progressivo e motivador desde os primeiros contatos na infância (Borges; Lamas, 2024).
3. METODOLOGIA
Trata-se de uma pesquisa de abordagem qualitativa, de natureza descritiva, desenvolvida por meio de revisão bibliográfica, com o objetivo de analisar o tênis de campo como valiosa ferramenta de inclusão social, observado sob o olhar de diferentes metodologias de ensino.
Para a realização do estudo, foram utilizadas como fontes de dados pesquisas de natureza qualitativa e quantitativa, documentos oficiais, sites disponibilizados na internet, revistas informativas e científicas especializadas em tênis de campo. Em relação ao recorte temporal, a pesquisa compreendeu produções publicadas no período de 1995 a 2026. Para a busca das produções, foram utilizados os seguintes descritores: “tênis de campo”, “esporte”, “metodologia de ensino”, “projeto social”.
Como critérios de inclusão, foram selecionados pesquisas, reportagens e materiais que abordavam o tênis de campo no contexto histórico e de inclusão social, sob o olhar de diferentes metodologias de ensino, publicados e disponíveis na íntegra, preferencialmente em língua portuguesa.
Como critérios de exclusão, foram desconsiderados os trabalhos duplicados, os que não apresentavam relação direta com o tema e com os objetivos propostos, as fontes sem identificação clara de origem e as publicações anteriores ao recorte temporal estabelecido que não apresentassem relevância significativa para a fundamentação teórica.
A análise dos dados foi realizada por meio de uma abordagem qualitativa e crítica, visando organizar, categorizar e interpretar as informações coletadas. Esse processo possibilitou identificar aspectos relevantes, convergências e divergências entre os estudos selecionados, contribuindo para uma compreensão mais aprofundada do tênis de campo.
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES
A análise das informações e a sua posterior discussão fundamentam-se na articulação entre os pressupostos teóricos da Pedagogia do Esporte e as evidências levantadas sobre a implementação de metodologias alternativas para o ensino do tênis de campo. Para melhor compreensão dos achados, os dados foram organizados em três eixos temáticos centrais: a transição metodológica do modelo analítico para as abordagens contemporâneas; a adaptação de materiais e espaços como vetor de inclusão social; e a progressão pedagógica por estágios no ensino infantil e adulto.
Em relação à transição metodológica que vai do modelo analítico-tecnicista ao Play and Stay, os dados levantados indicam que a permanência do tênis de campo como uma prática restrita e elitizada no Brasil está intimamente associada à hegemonia histórica do modelo tradicional de ensino. A abordagem analítico-tecnicista, caracterizada pela repetição exaustiva de gestos técnicos descontextualizados, foca na busca por uma “técnica perfeita” espelhada em atletas de alto rendimento (Krafft, 2002; Cortela et al., 2012). Os resultados corroboram os achados de Greco, Silva e Aburachid (2009) e de Paula e Balbinotti (2009), demonstrando que essa perspectiva tradicional gera exclusão e desmotivação, uma vez que o tempo necessário para que o praticante iniciante consiga realizar trocas de bola e jogar efetivamente é demasiado longo.
Historicamente associado a clubes privados e a uma parcela favorecida da sociedade, o tênis de campo carrega o estigma de ser uma modalidade elitizada, individual e essencialmente técnica (Mueller; Rodrigues, 2009; Costa, 2025). Essa caracterização é acentuada quando o ensino é pautado no modelo tradicional de repetição, no qual a busca pela perfeição do gesto motor sobrepõe-se à vivência lúdica do jogo (Cortela et al., 2012). Em decorrência disso, a exclusão no esporte manifesta-se de duas formas: pela barreira financeira do acesso a materiais e quadras específicas, e pela barreira pedagógica, que pune o erro precocemente e desmotiva iniciantes que não possuem experiência prévia no esporte (Silva et al., 2017; Costa, 2025).
Em contrapartida, a aplicação de metodologias contemporâneas fundamentadas na Pedagogia do Esporte, como o Sport Education (SE) e o Teaching Games for Understanding (TGFU), demonstra que o entendimento tático deve preceder a cobrança técnica (Graça; Mesquita, 2007; Cortela et al., 2012). A adoção do programa Play and Stay pela Confederação Brasileira de Tênis, a partir de 2007, consolidou essa mudança de paradigma ao assegurar que o aluno jogue já na primeira aula, sacando, trocando bolas e disputando pontos (Miley, 2007; Cortela et al., 2012). Com o jogo reduzido e a resolução de problemas no centro do processo de ensino-aprendizagem, o aluno deixa de desempenhar um papel passivo e desenvolve autonomia motora e tática (Bolognini; Paes, 2007; Cortela et al., 2012).
No que se refere à democratização da prática a partir da adaptação de materiais e espaços e da redução de custos, constatou-se a viabilidade de implementação do tênis de campo em espaços não convencionais, como escolas públicas, praças e núcleos de projetos socioeducativos. A escassez de infraestruturas específicas (quadras de saibro ou rápidas oficiais) e o elevado custo dos materiais esportivos sempre figuraram como as principais barreiras para a democratização da modalidade (Cortela et al., 2012; Costa, 2025).
No entanto, a utilização de estratégias de baixo custo, tais como a delimitação de miniquadras com fita crepe ou cordas, o uso de raquetes adaptadas e o aproveitamento de bolas descartadas por clubes privados ou bolas de baixa compressão demonstrou ser suficiente para garantir a aprendizagem e a vivência do esporte (Silva et al., 2017; Corrêa; Freitas; Silva, 2019; Costa, 2025).
Como abordam Bellinazo, Engers e Ilha (2022), a permanência de crianças e jovens em projetos sociais de tênis é sustentada prioritariamente pelo fator diversão (70%) e pelo desejo de evoluir no esporte (57,5%), e não pela sofisticação da infraestrutura. Além disso, ao permitir a participação simultânea de um número maior de alunos em miniquadras organizadas em um mesmo espaço poliesportivo (Ginciene; Impolcetto; Darido, 2017), a metodologia reduz drasticamente o custo por praticante, quebrando a barreira da elitização e transformando o tênis em um direito de acesso ao lazer e à promoção da saúde (Balzano et al., 2019; Costa, 2025).
No que se refere à progressão pedagógica por estágios de aprendizagem, que vai do “Baby Tênis” até a iniciação tardia, os resultados ratificam a eficácia da estruturação progressiva do ensino do tênis de campo conforme o nível de desenvolvimento cognitivo e motor dos praticantes. Na primeira infância (entre 3 e 6 anos), etapa comercialmente denominada “Baby Tênis” e academicamente reconhecida como Estágio Vermelho (Red Stage) ou minitênis, constatou-se que o foco do ensino deve residir na “alfabetização motora”, na ludicidade e no desenvolvimento da percepção espaço-temporal (Paula; Balbinotti, 2009; Newman, 2010). Convém destacar também que o emprego de bolas de esponja ou de feltro de baixa compressão e de raquetes de 41 a 53 cm (16 a 21 polegadas), proporcionais à estatura infantil, previne lesões e evita o sentimento de frustração (Miley, 2007; Newman, 2010; Cortela et al., 2012).
À medida que os alunos evoluem para os estágios laranja (bolas cerca de 50% mais lentas que a bola amarela e quadra intermediária) e verde (bolas cerca de 25% mais lentas que a bola amarela e quadra oficial), observa-se um ganho significativo no repertório tático-técnico (Miley, 2007; Borges; Lamas, 2024). Em consonância com os achados de Borges e Lamas (2024), a adequação das estruturas reduz a ocorrência de erros não forçados e possibilita a realização de trocas de bola mais longas, estimulando a execução de uma maior variedade de golpes (forehand, backhand, saque, voleio e smash) e exigindo tomada de decisão tática em situações reais de jogo.
Por fim, os dados apontam que a flexibilidade do Play and Stay beneficia com igual eficácia os adultos que iniciam a prática tardiamente. Embora indivíduos adultos possam apresentar restrições motoras iniciais, o seu nível avançado de desenvolvimento cognitivo permite compreender a lógica tática do jogo com rapidez (Pimentel; Galatti; Paes, 2010; Cortela et al., 2012). Dessa forma, a progressão por estágios reafirma a versatilidade pedagógica do tênis de campo como ferramenta de educação, inclusão e desenvolvimento humano ao longo de toda a vida.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O objetivo desta pesquisa foi analisar o tênis de campo como valiosa ferramenta de inclusão social, observado sob o olhar de diferentes metodologias de ensino. Ao longo do trabalho, verificou-se que a modalidade pode tornar-se uma excelente ferramenta de inclusão e de educação no país, deixando para trás a condição de esporte elitizado e de pouco acesso. Constatou-se que a dificuldade não reside no aprendizado da modalidade em si, mas na metodologia ultrapassada que ainda se utiliza, a qual afasta as pessoas por criar a falsa ideia de que a prática é inacessível e restrita a uma elite.
Esta pesquisa evidenciou que as metodologias modernas, dentre elas o Play and Stay e o minitênis, alteram esse quadro, pois adaptam as quadras, empregam raquetes menores e bolas de baixa compressão e recorrem ao reaproveitamento de materiais, facilitando o aprendizado, o raciocínio tático e a convivência desde a primeira prática. Dessa forma, o esporte deixa de focar no rendimento esportivo e passa a promover a integração, o desenvolvimento motor e a saúde de crianças, adolescentes e adultos praticantes em escolas ou projetos sociais.
Por fim, destaca-se que levar o esporte a mais pessoas depende de melhor capacitação dos profissionais de Educação Física, com foco principalmente em projetos comunitários. Espera-se que este estudo demonstre que o tênis de campo é um esporte de acesso a todos, inspirando professores de Educação Física a enxergá-lo não como privilégio de uma classe elitizada, mas como um direito de todos — um esporte que, certamente, irá transformar vidas dentro e fora das quadras.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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1 Acadêmicos do Curso de Educação Física Bacharelado do Centro Universitário Assis Gurgacz (FAG). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
2 Acadêmicos do Curso de Educação Física Bacharelado do Centro Universitário Assis Gurgacz (FAG). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
3 Doutor em Saúde da Criança e do Adolescente pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e professor do Curso de Educação Física Bacharelado do Centro Universitário Assis Gurgacz (FAG). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.