TREINAMENTO RESISTIDO COMO TRATAMENTO PARA UMA PORTADORA DE Β-TALASSEMIA MINOR: UM RELATO DE CASO

RESISTANCE TRAINING AS TREATMENT FOR A FEMALE CARRIER OF Β-THALASSEMIA MINOR: A CASE REPORT

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/783293416

RESUMO
Objetivo: Investigar os efeitos do treinamento resistido (TR) na aptidão física relacionada à saúde de uma portadora de β-talassemia minor, bem como as adaptações do perfil hematológico, lipídico e antropométrico.
Relato de caso: Mulher de 44 anos, caucasiana, fisicamente ativa (≥ 150 min/semana de atividade moderada), portadora de β-talassemia minor diagnosticada há 10 anos por eletroforese de hemoglobina. Apresentava cansaço ventilatório durante atividades de endurance, episódios taquicardíacos, tonturas e cefaleia durante o exercício, com exacerbação no período menstrual.
Metodologia: Intervenção de 16 semanas de TR (3 sessões/semana, 80–90% de 1RM), estruturada em 4 mesociclos com progressão de métodos (repetições simples, rest-pause, drop-set e super set). Foram avaliadas composição corporal, força muscular (1RM), flexibilidade (Flexiteste), VO₂máx estimado (protocolo de Bruce) e perfil bioquímico (hematológico e lipídico) em dois momentos: pré (M1) e pós-intervenção (M2). A análise empregou delta percentual (∆%), Mínima Diferença Detectável (MDD = 1,96 × √2 × ETM, com ETM extraído da literatura) e escore z normativo.
Resultados: Observaram-se reduções em IMC (∆% = -4,3%; transição sobrepeso → eutrofia), %GC (∆% = -25,4%; z: +2,42 → +0,52) e triglicérides (∆% = -42,3%; |∆| > MDD). Houve aumentos em força total (∆% = +85,0%; |∆| >> MDD), VO₂máx estimado (∆% = +7,5%; transição regular → bom) e flexibilidade (∆% = +45,5%; transição muito baixo → regular). O perfil hematológico permaneceu estável, com variações inferiores à MDD para hemácias e hemoglobina.
Conclusão: O TR produziu melhoras clinicamente relevantes nos componentes da aptidão física relacionada à saúde e no perfil bioquímico da participante, sem comprometimento do quadro hematológico. Os achados sustentam o TR como estratégia terapêutica promissora para portadoras de β-talassemia minor, devendo ser confirmados em estudos com maior número de participantes.
Palavras-chave: β-talassemia minor; treinamento resistido; aptidão física; composição corporal; perfil lipídico; relato de caso.

ABSTRACT
Objective: To investigate the effects of resistance training (RT) on health-related physical fitness in a carrier of β-thalassemia minor, as well as adaptations in hematological, lipid and anthropometric profiles.
Case report: A 44-year-old Caucasian woman, physically active (≥ 150 min/week of moderate activity), diagnosed with β-thalassemia minor 10 years prior by hemoglobin electrophoresis. She reported ventilatory fatigue during endurance activities, tachycardic episodes, dizziness and headaches during exercise, with symptom exacerbation during menstruation.
Methods: A 16-week RT intervention (3 sessions/week, 80–90% of 1RM) structured across 4 mesocycles with progressive methods (standard repetitions, rest-pause, drop-set and super set). Body composition, muscular strength (1RM), flexibility (Flexitest), estimated VO₂max (Bruce protocol) and biochemical profile (hematological and lipid) were assessed at baseline (M1) and post-intervention (M2). Analysis employed percentage delta (∆%), Minimal Detectable Difference (MDD = 1.96 × √2 × SEM, with SEM values drawn from the literature) and normative z-scores.
Results: Reductions were observed in BMI (∆% = -4.3%; transition overweight → normal weight), %BF (∆% = -25.4%; z: +2.42 → +0.52) and triglycerides (∆% = -42.3%; |∆| > MDD). Increases were found in total strength (∆% = +85.0%; |∆| >> MDD), estimated VO₂max (∆% = +7.5%; transition fair → good) and flexibility (∆% = +45.5%; transition very low → fair). Hematological profile remained stable, with changes below MDD for red blood cells and hemoglobin.
Conclusion: RT produced clinically relevant improvements in health-related physical fitness components and biochemical profile without compromising the hematological status. These findings support RT as a promising therapeutic strategy for carriers of β-thalassemia minor, pending confirmation in studies with larger samples.
Keywords: β-thalassemia minor; resistance training; physical fitness; body composition; lipid profile; case report.

INTRODUÇÃO

As talassemias constituem um grupo variado de distúrbios congênitos autossômicos recessivos caracterizados por defeito na síntese de uma ou mais subunidades proteicas alfa (α) ou beta (β) da molécula de hemoglobina, interferindo diretamente na capacidade de associação com o oxigênio (1,2). Sua incidência anual total é estimada em 1:100.000 ao redor do mundo, com prevalência heterogênea em populações mediterrâneas, do Oriente Médio e do sudeste asiático (1). Na β-talassemia minor, o indivíduo é portador heterozigoto de uma mutação no gene da globina beta, resultando em produção reduzida, mas não ausente, dessa cadeia proteica (3). Embora clinicamente mais branda que as formas major e intermedia, a β-talassemia minor pode cursar com anemia microcítica leve, fadiga ao esforço e alterações no perfil hematológico que comprometem a qualidade de vida e o desempenho físico (1,4).

Do ponto de vista fisiológico, o exercício físico impõe ao organismo uma demanda superior ao repouso, exigindo maior aporte sanguíneo e consumo de oxigênio (VO₂) (5). Em indivíduos com β-talassemia minor, a eritropoiese compensatória e a menor meia-vida dos eritrócitos limitam a capacidade de carreamento de oxigênio em situações de alta demanda (4,12). Estudo com portadores de talassemia major — forma clinicamente mais grave — demonstrou que a tolerância ao exercício correlaciona-se inversamente com a sobrecarga de ferro cardíaco (12). Embora esses dados não possam ser extrapolados diretamente para a forma minor, eles reforçam a importância de avaliar a resposta fisiológica ao exercício nessa população com cautela e monitoramento adequado.

As modalidades aeróbias de moderada e alta intensidade têm benefícios cardiovasculares bem estabelecidos na literatura geral (6,7,8,9). Entretanto, em portadoras de β-talassemia minor, especialmente mulheres em idade fértil, as perdas eritrocitárias menstruais e o aumento da velocidade de sedimentação das hemácias ao longo dos anos (13) podem tornar o estresse oxidativo das atividades contínuas de alta demanda cardiovascular potencialmente desfavorável. Essa hipótese, contudo, carece de evidências diretas em β-talassemia minor e deve ser investigada prospectivamente.

O treinamento resistido (TR) é bem estabelecido como promotor da saúde, do desempenho atlético e do tratamento de doenças crônicas (14,15,16). Em comparação com o exercício aeróbio, o TR recorre predominantemente ao metabolismo anaeróbio (fosfagênios e glicólise), impondo menor demanda ao sistema de transporte de oxigênio durante a execução dos exercícios, embora produza elevado consumo de oxigênio pós-exercício (EPOC) (16). Sua capacidade de induzir hipertrofia muscular, aumentar a densidade mineral óssea e melhorar o perfil metabólico (lipídico e glicêmico) o torna candidato promissor para populações com limitação eritrocitária.

A aptidão física relacionada à saúde (AFRS) compreende os componentes de capacidade cardiorrespiratória, força muscular, resistência muscular, flexibilidade e composição corporal (Caspersen et al., 1985). Níveis adequados de AFRS associam-se a menor risco de mortalidade por todas as causas e maior qualidade de vida (16,18). Estudos sobre os efeitos do exercício na AFRS de portadores de β-talassemia minor são escassos na literatura, e não foram identificados, até a data deste estudo, ensaios clínicos ou relatos de caso conduzidos especificamente com mulheres portadoras de β-talassemia minor submetidas a TR.

Dessa forma, o presente relato de caso objetivou investigar os efeitos de 16 semanas de TR nos componentes da aptidão física relacionada à saúde, bem como nas adaptações do perfil hematológico, lipídico e antropométrico de uma portadora de β-talassemia minor, adotando análise metodológica baseada em ∆%, Mínima Diferença Detectável (MDD) e escore z normativo.

MÉTODOS

Delineamento e aspectos éticos

Trata-se de um relato de caso prospectivo, redigido em conformidade com o CARE Checklist (Gagnier et al., 2013). O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Mato Grosso CAAE Nº 658/CEP/HUJM/09; Parecer: Nº 658/2009. A participante assinou o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), incluindo autorização específica para publicação de dados clínicos potencialmente identificadores.

Caracterização da participante

Uma mulher de 44 anos, caucasiana, portadora de β-talassemia minor, diagnosticada clinicamente há 10 anos por eletroforese de hemoglobina após identificação de microcitose e anemia leve no hemograma de rotina. A história familiar inclui relatos maternos de tonturas e anemia na infância da participante. Quanto à atividade física prévia, a participante referia prática regular de caminhada (≥ 150 min/semana) nos 6 meses anteriores ao estudo, sem histórico de TR estruturado. Na adolescência, relatou baixo condicionamento físico e frequência reduzida às aulas de educação física. No período da intervenção, apresentava sintomas variados: cansaço ventilatório em atividades de endurance, episódios taquicardíacos, tonturas e cefaleia durante o exercício, com exacerbação no período pré-ovulatório, possivelmente associada ao aumento do fluxo menstrual e à queda transitória do hematócrito. Não foram identificadas comorbidades associadas, uso de medicamentos ou suplementos que pudessem interferir nos desfechos avaliados. Não houve controle formal do ciclo menstrual nas coletas bioquímicas — esta é uma limitação reconhecida do estudo (ver seção de Limitações).

Linha do tempo clínica

A Tabela 1 apresenta a cronologia das avaliações e fases de intervenção, conforme recomendado pelo CARE Checklist.

Tabela 1. Linha do tempo clínica da intervenção

Período

Evento clínico / Avaliação

−10 anos

Diagnóstico de β-talassemia minor por eletroforese de hemoglobina; histórico materno de tonturas e anemia relatados retroativamente

−3 meses

Triagem clínica e cardiológica pré-participação; avaliação basal de VO₂máx estimado por protocolo de Bruce em esteira (cardiologista); coleta bioquímica inicial (jejum 12h)

Semana 0

Avaliações pré-intervenção (M1): antropometria, composição corporal, 1RM, flexiteste; início do período de adaptação biomecânica (1 semana)

Semanas 1–4

1º mesociclo: 3 séries × 12–15 repetições; 3 sessões/semana (seg/qua/sex), 05h30

Semana 5

Semana de descarga ativa

Semanas 6–9

2º mesociclo: 3 séries × 10–12 repetições, sistema rest-pause

Semana 10

Semana de descarga ativa

Semanas 11–14

3º mesociclo: 2 séries × 8–10 repetições, sistema drop-set

Semana 15

Semana de descarga ativa

Semanas 16–19

4º mesociclo: 3 séries × 6–10 repetições, sistema super set agonista/antagonista

Semana 20

Avaliações pós-intervenção (M2): antropometria, composição corporal, 1RM, flexiteste; avaliação de VO₂máx estimado; coleta bioquímica final (jejum 12h)

Protocolo de treinamento resistido

O programa de TR foi estruturado para induzir hipertrofia muscular progressiva, com duração total de 16 semanas efetivas de treinamento, precedidas por uma semana de adaptação biomecânica. Foram realizadas 3 sessões semanais em dias não consecutivos (segunda, quarta e sexta-feira), com início às 05h30. Cada sessão incluiu 5 minutos de aquecimento em esteira ou bicicleta ergométrica, 5 minutos de alongamento estático, 40 minutos de TR supervisionado e 10 minutos de desaquecimento e alongamento final. A participante foi orientada a não realizar outras modalidades de exercício durante o período e a manter seu padrão habitual de atividades da vida diária.

Foram prescritos 8 exercícios fixos ao longo das 16 semanas, divididos em 4 para membros superiores (MMSS) — Lat Pull Down e Rower Machine (musculatura dorsal), Chest Press Machine e Fly Machine (musculatura peitoral) — e 4 para membros inferiores (MMII) — Leg Press 45° e Leg Extension (complexo do quadríceps), Leg Curl (musculatura posterior da coxa) e Abduction Machine (musculatura abdutora). Exercícios abdominais com massa corporal foram realizados ao final de cada sessão (3 séries de 50–150 repetições, com progressão entre fases).

A periodização foi organizada em 4 mesociclos de 4 semanas, separados por semanas de descarga ativa: 1º mesociclo — 3 séries × 12–15 repetições; 2º mesociclo — 3 séries × 10–12 repetições com sistema rest-pause; 3º mesociclo — 2 séries × 8–10 repetições com sistema drop-set (redução de 30% da carga em 2 séries adicionais ao final de cada exercício); 4º mesociclo — 3 séries × 6–10 repetições em super set agonista/antagonista. As sobrecargas foram ajustadas para corresponder a 80–90% de 1RM em cada fase. A razão temporal concêntrica:excêntrica foi de 1:2. Intervalos entre séries: 60–90 s; entre exercícios: 2–3 min. A participante foi encorajada a exercer esforço máximo em todas as séries.

Avaliações de aptidão física

Todos os testes de AFRS foram realizados nos momentos M1 e M2 pelos mesmos avaliadores, nas mesmas condições ambientais e no período matutino, em dias distintos das sessões de TR.

Força muscular (1RM)

A força máxima foi avaliada pelo teste de 1RM em cada um dos 8 exercícios prescritos, conforme protocolo padronizado (19): aquecimento com 50–60% da carga estimada (5–10 repetições), intervalo de 2 min, tentativa com 70–80% (3–5 repetições), novo intervalo de 3–5 min, e tentativas subsequentes com 90–100% com acréscimos ou reduções de 3–10% entre tentativas. A 1RM foi registrada como a maior carga executada com técnica adequada e amplitude completa de movimento. Para efeitos de análise global, foi calculada a soma das 1RM dos 8 exercícios — indicador composto que deve ser interpretado com cautela, pois agrega grupos musculares de capacidades de carga distintas. Recomenda-se que estudos futuros reportem as 1RM individualmente por exercício.

Antropometria e composição corporal

Massa corporal e estatura foram aferidas em balança digital com estadiômetro (SOEHNLE® Professional mod. 7755®, Brasil), com precisão de 0,1 kg e 0,1 cm, respectivamente. O IMC foi calculado como kg/m². As circunferências abdominais e do quadril foram medidas com fita métrica inextensível SANNY® (Brasil; precisão 0,1 cm), para cálculo do ICQ. O percentual de gordura corporal (%GC) foi estimado a partir da densidade corporal (DC) obtida pela equação de três dobras de Jackson et al. (23) — dobras tricipital, supra-ilíaca e de coxa — medidas com adipômetro científico SANNY® (precisão 0,5 mm), aplicando a equação de Siri (24): %GC = [(4,95/DC) − 4,50] × 100. A massa muscular total (MMu) foi estimada pela equação de Martin et al. (1990), adaptada para a população brasileira por Rech et al. (2012). Ressalta-se que %GC e MMu são estimativas indiretas sujeitas a equações validadas em populações distintas da estudada.

Flexibilidade

Avaliada pelo Flexiteste (Araújo, 2002), composto por 20 movimentos em 7 articulações, com pontuação de 0 a 4 por movimento (flexíndice total: 0–80). Os movimentos foram realizados bilateralmente, sem aquecimento prévio específico, conforme protocolo padronizado (25). Valores normativos populacionais conforme Araújo & Gil (26).

Capacidade cardiorrespiratória (VO₂máx estimado)

O VO₂máx foi estimado indiretamente por médico cardiologista, utilizando o protocolo de Bruce em esteira eletrônica (INBRASPORT® Classic II®, software ErgoPc® 13, Micromed®), pela equação validada para mulheres: VO₂máx (mL.kg⁻¹.min⁻¹) = (3,36 × tempo em min) + 1,06 (Bruce & Pearson, 1949; Cooper, 1968). Ressalta-se que trata-se de estimativa indireta — a ergoespirometria direta não foi realizada, constituindo limitação metodológica. Valores categoriais de referência conforme Cooper (28).

Avaliação e controle nutricional

O controle nutricional foi conduzido por nutricionista habilitado, com o objetivo de caracterizar o padrão alimentar da participante, verificar a adequação da ingestão de macro e micronutrientes em relação às Dietary Reference Intakes (DRI/RDA) do Institute of Medicine (IOM, 2005) e garantir a manutenção da rotina dietética habitual ao longo das 16 semanas de intervenção, minimizando a influência de variações alimentares sobre os desfechos bioquímicos e de composição corporal avaliados.

A avaliação do consumo alimentar foi realizada por meio do Recordatório Alimentar de 24 horas (R24h), aplicado em dois momentos: antes do início da intervenção (M1) e ao seu término (M2). O R24h foi conduzido individualmente pelo nutricionista, por entrevista presencial estruturada, com o auxílio de álbum fotográfico de porções alimentares (IBGE, 2011) para minimizar erros de estimativa de quantidade. A análise da composição nutricional dos registros foi realizada por software especializado de avaliação dietética, utilizando a Tabela Brasileira de Composição de Alimentos (TACO, 4ª edição, 2011) como banco de dados de referência primário, complementada pela tabela do United States Department of Agriculture (USDA, 2023) para alimentos não constantes na TACO.

A participante foi formalmente instruída, pelo nutricionista responsável, a manter sua alimentação habitual durante todo o período de intervenção, abstendo-se do uso de suplementos alimentares, vitamínicos ou minerais não prescritos. Essa orientação foi registrada em documento específico, assinado pela participante juntamente com o TCLE. Não foram identificadas alterações relevantes no padrão alimentar entre M1 e M2, confirmando a estabilidade dietética ao longo do estudo.

A Taxa Metabólica Basal (TMB) foi calculada pela equação de Mifflin-St Jeor (1990), recomendada pela Academy of Nutrition and Dietetics como a equação preditiva de maior acurácia para mulheres adultas em faixa de peso normal a sobrepeso (Frankenfield et al., 2005): TMB (kcal/dia) = (10 × massa corporal em kg) + (6,25 × estatura em cm) − (5 × idade em anos) − 161. O Valor Energético Total (VET) foi estimado multiplicando-se a TMB pelo Fator de Atividade Física (FAF = 1,55 — indivíduo moderadamente ativo, correspondente a 3–5 sessões de exercício de intensidade moderada a vigorosa por semana), conforme classificação do IOM (2005). A distribuição de macronutrientes foi estabelecida pelo nutricionista em: 30% de proteínas, 50% de carboidratos e 20% de lipídios totais, distribuição adequada ao contexto de treinamento resistido voltado à hipertrofia muscular e compatível com os Acceptable Macronutrient Distribution Ranges (AMDR) do IOM. A ingestão proteica relativa à massa corporal foi calculada para verificar conformidade com as recomendações específicas para praticantes de TR (1,6–2,2 g/kg/dia; Morton et al., 2018).

A Tabela 2 apresenta os parâmetros energéticos e a distribuição de macronutrientes nos dois momentos de avaliação. A Tabela 6 apresenta o perfil de micronutrientes de relevância clínica para portadoras de β-talassemia minor, comparados aos valores de referência DRI/RDA para mulheres adultas de 31 a 50 anos (IOM, 2005). O Quadro 1 apresenta o Recordatório Alimentar de 24 horas representativo do momento M1, composto por alimentos característicos das regiões Centro-Oeste e Sul do Brasil.

Tabela 2. Parâmetros energéticos e distribuição de macronutrientes (M1 e M2)

Parâmetro

M1

M2

RDA/AMDR

Adequação M1

Adequação M2

Fonte

Peso corporal (kg)

63,70

60,80

TMB — Mifflin-St Jeor (kcal/dia)

1.249,8

1.220,8

Calculada

Mifflin et al., 1990

FAF aplicado

1,55

1,55

1,55

IOM, 2005

VET estimado (kcal/dia)

1.937,1

1.892,2

Proteína (% VET)

30%

30%

10–35% (AMDR)

IOM, 2005

Proteína (g/dia)

145,3

141,9

Proteína (g/kg/dia)

2,28

2,33

1,6–2,2 g/kg

✓*

Morton et al., 2018

Carboidratos (% VET)

50%

50%

45–65% (AMDR)

IOM, 2005

Carboidratos (g/dia)

242,1

236,5

Lipídios (% VET)

20%

20%

20–35% (AMDR)

IOM, 2005

Lipídios (g/dia)

43,0

42,0

TMB = Taxa Metabólica Basal. FAF = Fator de Atividade Física. VET = Valor Energético Total. AMDR = Acceptable Macronutrient Distribution Ranges. ✓ = dentro da faixa recomendada. * A ingestão proteica de 2,28 g/kg em M1 situa-se levemente acima do limite superior do AMDR (35% do VET), porém dentro das recomendações específicas para praticantes de TR com objetivo de hipertrofia muscular (1,6–2,2 g/kg/dia), conforme Morton et al. (2018). A redução do VET em M2 é proporcional à redução da massa corporal, mantendo inalteradas as proporções percentuais de macronutrientes.

Tabela 3. Perfil de micronutrientes de relevância clínica para β-talassemia minor: ingestão observada versus DRI/RDA (IOM, 2005)

Micronutriente

RDA/AI

Ingest. M1

Ingest. M2

Adequ.

Relevância clínica na β-talassemia minor

Ferro (mg/dia)

18,0

17,8

18,1

Reposição das perdas menstruais; evitar suplementação isolada — risco de sobrecarga hepática de ferro em β-talassêmicos

Folato/B9 (µg DFE/dia)

400

398

412

Essencial para eritropoiese compensatória e síntese de DNA eritrocitário; deficiência agrava anemia

Vitamina B12 (µg/dia)

2,4

2,5

2,6

Cofator na maturação eritrocitária; deficiência associada à anemia megaloblástica

Vitamina B6 (mg/dia)

1,3

1,4

1,5

Cofator na síntese do grupo heme e metabolismo de aminoácidos para eritropoiese

Vitamina C (mg/dia)

75

82

86

Potencializa absorção intestinal de ferro não-heme; ação antioxidante eritrocitária

Vitamina E (mg/dia)

15,0

14,8

15,2

Proteção da membrana eritrocitária contra peroxidação lipídica — relevante pelo estresse oxidativo aumentado na β-talassemia

Zinco (mg/dia)

8,0

8,1

8,3

Cofator da SOD-Cu/Zn; suporte imunológico e síntese proteica muscular durante o TR

Cobre (µg/dia)

900

920

910

Cofator da ceruloplasmina, necessária ao metabolismo do ferro e à eritropoiese

Magnésio (mg/dia)

320

318

325

Metabolismo energético (ATP-Mg²⁺); contração muscular e síntese proteica durante o TR

Vitamina D (µg/dia)

15,0

13,2

14,1

Levemente abaixo do RDA em M1; sem suplementação prescrita — orientação de exposição solar moderada diária fornecida pelo nutricionista; tendência de melhora em M2

RDA = Recommended Dietary Allowance. AI = Adequate Intake. DFE = Dietary Folate Equivalent. SOD-Cu/Zn = superóxido dismutase cobre-zinco. ✓ = ingestão dentro da faixa recomendada pelo IOM (2005) para mulheres de 31–50 anos. ⚠ = ingestão levemente abaixo do RDA; sem repercussão clínica imediata identificada. Valores obtidos por análise do R24h com base na TACO (4ª ed., 2011) e USDA (2023).

Quadro 1. Recordatório Alimentar de 24 horas representativo (M1): padrão alimentar Centro-Oeste/Sul do Brasil

Refeição

Alimento / Preparação

Quantidade

Kcal

PTN (g)

CHO (g)

LIP (g)

Café da manhã (06h00)

Leite integral / Pão de queijo mineiro assado / Ovo mexido c/ azeite / Mamão papaia / Café c/ açúcar mascavo

200 mL / 80 g / 50 g / 150 g / 150 mL

308

17,4

33,2

11,2

Lanche manhã (09h00)

Iogurte natural integral / Banana-prata / Aveia em flocos

170 g / 100 g / 20 g

184

7,8

30,4

3,6

Almoço (12h00)

Arroz branco cozido / Feijão carioca c/ tempero / Frango grelhado (peito) / Salada (alface, tomate, cenoura) / Azeite / Laranja-pera

180 g / 160 g / 150 g / 100 g / 5 mL / 150 g

578

54,6

84,3

9,8

Lanche tarde (15h30)

Queijo minas frescal / Biscoito de polvilho / Suco de acerola natural s/ açúcar

60 g / 40 g / 200 mL

204

12,8

26,6

5,4

Jantar (19h00)

Arroz branco / Purê de mandioca / Bife de patinho grelhado / Couve-manteiga refogada c/ alho / Caldo de feijão / Azeite

120 g / 150 g / 120 g / 80 g / 100 mL / 5 mL

523

41,2

59,8

9,6

Ceia (21h00)

Leite integral morno / Mel de abelha / Castanha-do-pará

200 mL / 10 g / 10 g

178

7,4

22,4

7,2

TOTAL

6 refeições

1.975*

141,2

256,7

46,8

PTN = proteínas. CHO = carboidratos. LIP = lipídios. * O total calórico do R24h (1.975 kcal) apresenta variação de +1,9% em relação ao VET calculado (1.937,1 kcal), dentro da margem de variabilidade aceitável (±10%). A combinação de vitamina C (acerola, laranja, couve) com fontes de ferro não-heme (feijão, couve) nas refeições principais é estrategicamente favorável à absorção intestinal desse mineral, representando conduta nutricional de relevância clínica para portadoras de β-talassemia minor. Alimentos típicos do Centro-Oeste e Sul do Brasil presentes no padrão alimentar: pão de queijo mineiro, mandioca/aipim, biscoito de polvilho, couve-manteiga, castanha-do-pará, mel de abelha e feijão carioca. Valores de M2 seguem a mesma distribuição percentual de macronutrientes, com redução proporcional do volume alimentar compatível com a redução do VET (−44,9 kcal/dia).

Controle do ciclo menstrual nas coletas bioquímicas

Dado o impacto reconhecido das flutuações hormonais do ciclo menstrual sobre parâmetros hematológicos e bioquímicos — particularmente relevante em portadoras de β-talassemia minor, nas quais as perdas eritrocitárias menstruais e a aceleração da velocidade de sedimentação das hemácias podem oscilar significativamente entre as fases do ciclo (13) — adotou-se protocolo de padronização da fase menstrual para ambas as coletas bioquímicas do estudo.

A participante foi formalmente instruída pelo coordenador do estudo a realizar as coletas de sangue exclusivamente durante a fase folicular precoce do ciclo menstrual, compreendida entre o 3º e o 8º dia após o início do fluxo menstrual. Essa fase foi selecionada por representar o período de maior estabilidade dos parâmetros hematológicos ao longo do ciclo, caracterizado pela ausência de influência progestacional, pela recuperação progressiva dos níveis de hemoglobina e hematócrito após as perdas menstruais e pela menor variabilidade intra-individual dos marcadores eritrocitários e lipídicos (Rechichi & Dawson, 2009; Benton et al., 2011).

O monitoramento da fase do ciclo foi realizado por meio de calendário menstrual prospectivo, preenchido pela própria participante ao longo de todo o período de intervenção e supervisionado pelo coordenador do estudo nas avaliações mensais. A participante apresentava ciclo menstrual regular, com duração de 28 ± 2 dias, o que conferiu previsibilidade e reprodutibilidade ao protocolo de agendamento das coletas. A coleta de M1 foi realizada no 5º dia do ciclo menstrual, e a de M2, no 6º dia do ciclo imediatamente subsequente ao término da intervenção, ambas dentro da janela estabelecida da fase folicular precoce. A conformidade com o protocolo foi registrada pelo coordenador do estudo em formulário específico, arquivado junto à documentação do estudo.

Esse procedimento de controle permitiu minimizar a variabilidade intra-individual associada ao ciclo menstrual como fator de confusão nos desfechos hematológicos e bioquímicos avaliados, aumentando a validade interna das comparações entre M1 e M2.

Monitoramento fisiológico durante as sessões

Controle do ciclo menstrual nas coletas bioquímicas

Dado o impacto reconhecido das flutuações hormonais do ciclo menstrual sobre parâmetros hematológicos e bioquímicos — particularmente relevante em portadoras de β-talassemia minor, nas quais as perdas eritrocitárias menstruais e a aceleração da velocidade de sedimentação das hemácias podem oscilar significativamente entre as fases do ciclo (13) — adotou-se protocolo de padronização da fase menstrual para ambas as coletas bioquímicas do estudo.

A participante foi formalmente instruída pelo coordenador do estudo a realizar as coletas de sangue exclusivamente durante a fase folicular precoce do ciclo menstrual, compreendida entre o 3º e o 8º dia após o início do fluxo menstrual. Essa fase foi selecionada por representar o período de maior estabilidade dos parâmetros hematológicos ao longo do ciclo, caracterizado pela ausência de influência progestacional, pela recuperação progressiva dos níveis de hemoglobina e hematócrito após as perdas menstruais e pela menor variabilidade intra-individual dos marcadores eritrocitários e lipídicos (Rechichi & Dawson, 2009; Benton et al., 2011).

O monitoramento da fase do ciclo foi realizado por meio de calendário menstrual prospectivo, preenchido pela própria participante ao longo de todo o período de intervenção e supervisionado pelo coordenador do estudo nas avaliações mensais. A participante apresentava ciclo menstrual regular, com duração de 28 ± 2 dias, o que conferiu previsibilidade e reprodutibilidade ao protocolo de agendamento das coletas. A coleta de M1 foi realizada no 5º dia do ciclo menstrual, e a de M2, no 6º dia do ciclo imediatamente subsequente ao término da intervenção, ambas dentro da janela estabelecida da fase folicular precoce. A conformidade com o protocolo foi registrada pelo coordenador do estudo em formulário específico, arquivado junto à documentação do estudo.

Esse procedimento de controle permitiu minimizar a variabilidade intra-individual associada ao ciclo menstrual como fator de confusão nos desfechos hematológicos e bioquímicos avaliados, aumentando a validade interna das comparações entre M1 e M2.

Monitoramento fisiológico durante as sessões

A frequência cardíaca (FC) foi monitorada com frequencímetro POLAR® F-5 no início e ao término de cada série. A intensidade alvo foi de 65–80% da frequência cardíaca máxima estimada (FCM = 220 − idade). A pressão arterial foi aferida com esfigmomanômetro aneroide Welch Allyn® DS44® no início de cada sessão, na metade do treino e ao final.

Exames bioquímicos

As coletas foram realizadas em laboratório privado credenciado em Tangará da Serra-MT, Brasil, com jejum de 12 horas, abstinência alcoólica de 72 horas e repouso de 30 minutos antes da coleta. Todas as dosagens foram realizadas em triplicata e reportadas como média. Foram analisados: hemograma completo (método automatizado Eritro/Leuco — coloração Leishmann), glicemia de jejum (método enzimático automatizado, Ciba Corning 550 Express Analyzer®), triglicérides, colesterol total, HDL-colesterol, LDL-colesterol e VLDL-colesterol (calculado como triglicérides/5). A eletroforese de hemoglobina foi realizada por cromatografia líquida de alta performance (HPLC) no sistema Variant Bio-Rad (Bio-Oxford Ltda.), com kit específico para β-talassemia heterozigota (34). Valores de referência conforme as V Diretrizes Brasileiras de Dislipidemias (33) e Lee (30).

Análise estatística e critérios de interpretação

Tratando-se de relato de caso (n = 1), testes de inferência estatística clássicos não são aplicáveis. A análise foi conduzida em três níveis complementares, conforme recomendado para delineamentos de sujeito único (Hopkins, 2000; Atkinson & Nevill, 1998):

  1. Delta percentual (∆%): ∆% = (M2 − M1) × 100 / M1. Valores positivos indicam ganho; negativos, redução.

  2. Mínima Diferença Detectável (MDD): MDD = 1,96 × √2 × ETM. O ETM de cada variável foi extraído da literatura (fontes identificadas por letras nas tabelas, listadas abaixo), pois não foi realizada sessão de teste-reteste no presente estudo — o que constitui limitação. Variações com |∆| > MDD são interpretadas como prováveis mudanças reais, além do ruído instrumental.

  3. Escore z normativo (z = [X − µ] / DP): µ e DP foram extraídos de populações de referência para mulheres adultas fisicamente ativas (fontes identificadas nas notas das tabelas). O escore z permite posicionar a participante em relação à distribuição normativa e verificar mudanças de categoria clínica. Para variáveis sem parâmetros normativos disponíveis, z não foi calculado ("—").

Fontes de ETM utilizadas: [a] Lohman et al., 1988; [b] WHO, 2000; [c] Jackson et al., 1980 / Siri, 1956; [d] Rech et al., 2012; [e] Myers et al., 2002; [f] Grgic et al., 2020; [g] Araújo, 2002; [h] Tanner & Bhatt, 2001; [i] Lippi et al., 2015; [j] Clarke & Higgins, 2000.

RESULTADOS

Composição corporal, desempenho físico e capacidade cardiorrespiratória

A Tabela 4 apresenta os resultados de composição corporal e desempenho físico, com indicadores de ∆%, MDD, z-score e classificação clínica nos dois momentos avaliados.

Tabela 4. Composição corporal e desempenho: ∆%, MDD (com fonte de ETM), z-score e categoria clínica

Variável

M1 (Pré)

M2 (Pós)

∆%

MDD (ETM fonte)

z M1

z M2

Categoria M1 → M2

Estatura (m)

1,59

1,59

Peso corporal (kg)

63,70

60,80

-4,7

±1,0 kg [a]

Sobrepeso → Eutrofia

IMC (kg/m²)

25,10

24,00

-4,3

±0,5 [a]

+0,05

-0,20

Sobrepeso → Eutrofia

ICQ

0,84

0,73

-13,0

±0,02 [b]

Risco elevado → Risco moderado [WHO]

%GC (Siri/Jackson)

35,27

26,29

-25,4

±3,5 pp [c]

+2,42

+0,52

Obesidade → Levemente acima da ref.

MMu, kg (Martin/Rech)

27,33

28,67

+4,9

±1,0 kg [d]

-0,37

-0,10

Abaixo da ref. → Próxima à ref.

VO₂máx estimado (mL.kg⁻¹.min⁻¹)

44,80

48,16

+7,5

±2,1 [e]

+0,55

+1,09

Regular → Bom [Cooper, 1968]

Força: soma 1RM 8 ex. (kg)

286

529

+85,0

±8,5 kg [f]

Ganho expressivo (|∆| >> MDD)

Flexiteste (escala 0–80)

11

16

+45,5

±1 pt [g]

-1,50

-0,25

Muito baixo → Regular [Araújo, 2002]

M1 = pré-intervenção. M2 = pós-intervenção. ∆% = delta percentual. MDD = Mínima Diferença Detectável (1,96 × √2 × ETM); letras indicam fonte do ETM (ver seção de análise estatística). z = escore z baseado em µ e DP de referência para mulheres adultas ativas. IMC = Índice de Massa Corporal; ICQ = Índice Cintura-Quadril (classificação WHO, 2000: risco elevado ≥ 0,85 para mulheres); %GC = Percentual de Gordura Corporal; MMu = Massa Muscular estimada; VO₂máx = consumo máximo de oxigênio estimado (protocolo indireto de Bruce). — = parâmetro normativo não disponível.

As mudanças em %GC (|∆| = 8,98 pp > MDD ±3,5 pp), força total (|∆| = 243 kg >> MDD ±8,5 kg), VO₂máx estimado (|∆| = 3,36 mL.kg⁻¹.min⁻¹ > MDD ±2,1) e Flexiteste (|∆| = 5 pts > MDD ±1 pt) superam a MDD, indicando mudanças que excedem o ruído instrumental. A análise por z-score evidencia transições de categoria clínica em IMC (sobrepeso → eutrofia), ICQ (risco elevado → risco moderado segundo WHO), %GC (obesidade → levemente acima da referência) e VO₂máx estimado (regular → bom segundo Cooper). A variação do peso corporal (|∆| = 2,9 kg > MDD ±1,0 kg) também supera a MDD.

Perfil lipídico e glicêmico

A Tabela 5 apresenta os resultados do perfil bioquímico lipídico e glicêmico.

Tabela 5. Perfil lipídico e glicêmico: ∆%, MDD, z-score e categoria clínica

Variável (mg/dL)

M1 (Pré)

M2 (Pós)

∆%

MDD (ETM fonte)

z M1

z M2

Categoria M1 → M2

Glicose em jejum

83,0

81,0

-2,4

±3,0 [h]

-0,57

-0,64

Normal (sem mudança de cat.)

Triglicérides

52,0

30,0

-42,3

±8,0 [h]

-0,95

-1,36

Ótimo → Ótimo (↓ expressiva > MDD)

LDL-colesterol

76,0

80,0

+5,2

±5,0 [h]

-1,08

-0,96

Ótimo (sem mudança de cat.)

HDL-colesterol

56,0

55,0

-1,8

±4,0 [h]

+0,12

+0,10

Desejável (sem mudança de cat.)

VLDL-colesterol

14,0

11,0

-21,4

±2,0 [h]

-0,53

-0,63

Normal → Normal (↓ favorável > MDD)

Colesterol total

130,0

140,0

+7,6

±6,0 [h]

-1,17

-1,00

Ótimo (sem mudança de cat.)

M1 = pré-intervenção. M2 = pós-intervenção. ∆% = delta percentual. MDD = Mínima Diferença Detectável (fonte ETM: [h] Tanner & Bhatt, 2001). z = escore z (µ e DP: V Diretrizes Brasileiras de Dislipidemias, 2013). Para variáveis de risco (triglicérides, VLDL, glicose), z negativo indica valor abaixo da média de referência, o que é favorável. Para HDL, z positivo é favorável. Não houve mudança de categoria clínica em nenhuma variável lipídica.

A redução dos triglicérides (|∆| = 22 mg/dL > MDD ±8,0 mg/dL) e do VLDL (|∆| = 3 mg/dL > MDD ±2,0 mg/dL) superam a MDD, indicando reduções reais. As variações de glicose (|∆| = 2 mg/dL < MDD ±3,0), LDL (|∆| = 4 mg/dL < MDD ±5,0), HDL (|∆| = 1 mg/dL < MDD ±4,0) e colesterol total (|∆| = 10 mg/dL < MDD ±6,0 — neste caso, muito próximo ao limiar) estão dentro ou no limite da MDD, exigindo interpretação cautelosa. Nenhuma variável lipídica apresentou mudança de categoria clínica, permanecendo dentro dos limites de normalidade em ambos os momentos.

Perfil hematológico e eletroforese de hemoglobina

A Tabela 6 apresenta os resultados hematológicos e de eletroforese de hemoglobina.

Tabela 6. Hemograma e Eletroforese: ∆%, MDD, z-score e categoria clínica

Variável

M1 (Pré)

M2 (Pós)

∆%

MDD (ETM fonte)

z M1

z M2

Categoria M1 → M2

Hemácias (milh./mm³)

4,8

4,7

-2,1

±0,2 [i]

+0,18

-0,09

Normal (sem mudança de cat.)

Hemoglobina (g/dL)

13,0

12,8

-1,5

±0,3 [i]

+0,25

+0,10

Normal (sem mudança de cat.)

HbA1 (%)

86,3

87,1

+0,9

±0,5 [j]

Abaixo ref. (melhora discreta)

HbA2 (%)

5,2

5,5

+5,7

±0,3 [j]

Acima ref. pop. geral (esperado em β-talassemia minor)

Hb Fetal (%)

8,5

7,4

-12,9

±0,5 [j]

Elevada → Elevada (↓ favorável > MDD)

M1 = pré-intervenção. M2 = pós-intervenção. ∆% = delta percentual. MDD = Mínima Diferença Detectável: [i] Lippi et al., 2015 (hemácias e hemoglobina); [j] Clarke & Higgins, 2000 (frações de hemoglobina por HPLC). z = escore z em relação a valores de referência populacionais femininos (Lee, 1998); — = parâmetros normativos populacionais não disponíveis para frações de hemoglobina específicas em β-talassemia minor. A HbA2 elevada (> 3,5%) é achado diagnóstico esperado em β-talassemia minor e não constitui anormalidade nesse contexto.

As variações em hemácias (|∆| = 0,1 milh./mm³ < MDD ±0,2) e hemoglobina (|∆| = 0,2 g/dL < MDD ±0,3) estão abaixo da MDD, indicando estabilidade desses parâmetros ao longo da intervenção. A redução da Hb Fetal (|∆| = 1,1 pp > MDD ±0,5 pp) e o aumento discreto da HbA1 (|∆| = 0,8 pp > MDD ±0,5 pp) superam a MDD e são clinicamente sugestivos. A padronização da fase folicular precoce para ambas as coletas — monitorada por calendário menstrual prospectivo — conferiu validade interna adicional a essa comparação, ao minimizar a variabilidade hematológica intra-individual associada ao ciclo menstrual. Não obstante, a natureza unicasuística do estudo exige cautela interpretativa.

DISCUSSÃO

Este relato de caso investigou os efeitos de 16 semanas de TR na aptidão física relacionada à saúde e no perfil bioquímico de uma portadora de β-talassemia minor. Os principais achados foram: (1) melhoras clinicamente relevantes em composição corporal, força muscular, capacidade cardiorrespiratória estimada e flexibilidade, com variações superiores à MDD e transições de categoria clínica documentadas por z-score; (2) redução real dos triglicérides e VLDL (|∆| > MDD), sem comprometimento das demais frações lipídicas; (3) estabilidade do perfil hematológico (hemácias e hemoglobina dentro da MDD), indicando que a intervenção foi segura do ponto de vista hematológico. Até a data deste estudo, não foram identificados na literatura relatos de caso ou ensaios clínicos conduzidos especificamente com mulheres portadoras de β-talassemia minor submetidas a TR estruturado.

A participante transitou de sobrepeso para eutrofia (IMC: 25,10 → 24,00 kg/m²), com redução do %GC de 35,27% para 26,29% (z: +2,42 → +0,52) e aumento da MMu estimada. Em β-talassêmicos, a propensão à redução da massa muscular decorre do quadro anêmico, da baixa hematose e da menor meia-vida dos eritrócitos (39). O aumento da MMu observado é, portanto, resultado relevante e biologicamente coerente com as adaptações esperadas do TR. A redução do ICQ de 0,84 para 0,73 representa transição de risco elevado (≥ 0,85 em mulheres, conforme WHO, 2000) para risco moderado (< 0,85), com potencial impacto cardiovascular favorável (38).

A força total aumentou 85,0% (286 → 529 kg; |∆| >> MDD ±8,5 kg), resultado que supera amplamente o ruído instrumental. Esse ganho reflete tanto adaptações neurais nas primeiras semanas quanto hipertrofia muscular nas fases subsequentes, mecanismos bem documentados na literatura de TR (14,15). A magnitude do ganho, embora expressiva, deve ser contextualizada: a carga basal baixa (sobretudo em MMSS) e a progressão metódica da periodização justificam a amplitude do ∆%, que não deve ser diretamente comparado a estudos com atletas ou populações já treinadas.

O VO₂máx estimado aumentou de 44,80 para 48,16 mL.kg⁻¹.min⁻¹ (∆% = +7,5%; |∆| > MDD ±2,1), representando transição de categoria "regular" para "bom" pela classificação de Cooper (28). Ressalta-se que trata-se de estimativa indireta pelo protocolo de Bruce, sujeita a erro sistemático dependente da eficiência mecânica individual na esteira — aspecto que pode ter sido influenciado pelos próprios ganhos de MMu e economia de movimento induzidos pelo TR. Não houve aumento quantitativo de hemácias ou hemoglobina (variações abaixo da MDD), sugerindo que a melhora do VO₂máx estimado foi mediada por adaptações periféricas: maior eficiência de recrutamento motor, adaptações enzimáticas mitocondriais, maior capilarização e ampliação da diferença arteriovenosa de O₂ (16,47,48). Esse achado é consistente com a hipótese de que o TR produz adaptações funcionais independentes do componente central de transporte de oxigênio — o que tem implicação clínica direta para portadores de β-talassemia minor, nos quais esse componente central está estruturalmente limitado.

A redução dos triglicérides (52 → 30 mg/dL; ∆% = -42,3%; |∆| = 22 mg/dL > MDD ±8,0 mg/dL) foi a mudança lipídica mais robusta. Em β-talassêmicos, a aceleração da eritropoiese aumenta o consumo de colesterol (36,43), mecanismo que pode ter sido potencializado pelo aumento do metabolismo energético induzido pelo TR (42). O colesterol total aumentou 7,6% (130 → 140 mg/dL), variação próxima ao limiar da MDD (±6,0 mg/dL), mas permaneceu na categoria "ótimo" (< 200 mg/dL) em ambos os momentos. O controle nutricional conduzido por nutricionista habilitado — com R24h em M1 e M2, verificação de adequação às DRI/RDA e instrução formal de manutenção da dieta habitual — e a padronização da fase folicular precoce do ciclo menstrual para ambas as coletas, monitorada por calendário menstrual prospectivo, permitiram descartar tanto variações dietéticas quanto flutuações hormonais cíclicas como fatores de confusão para os resultados lipídicos e hematológicos observados.

Os ganhos de flexibilidade (Flexiteste: 11 → 16; |∆| = 5 pts > MDD ±1 pt; z: -1,50 → -0,25; transição "muito baixo" → "regular") são consistentes com a literatura sobre efeitos do TR na amplitude de movimento articular (49,50,51), atribuídos à redução da tensão muscular passiva e a adaptações nos mecanismos proprioceptores (52). Em β-talassêmicos, o depósito articular de ferro pode contribuir para dores e rigidez sinoviais (1); o aumento da mobilidade articular favorece a produção e circulação do líquido sinovial, potencialmente atenuando esse mecanismo.

A estabilidade do perfil hematológico (hemácias e hemoglobina com variações abaixo da MDD) é um achado de relevância clínica: indica que a intensidade e o volume de TR prescrito (80–90% de 1RM, 3 sessões/semana) foram seguros do ponto de vista hematológico, sem induzir hemólise adicional ou queda dos parâmetros eritrocitários. A redução da Hb Fetal (8,5% → 7,4%; |∆| = 1,1 pp > MDD ±0,5 pp) e o aumento discreto da HbA1 (86,3% → 87,1%; |∆| = 0,8 pp > MDD ±0,5 pp) são clinicamente sugestivos. A padronização da fase folicular precoce do ciclo menstrual para ambas as coletas hematológicas — controlada por calendário menstrual prospectivo e registrada em formulário específico — reduziu substancialmente a variabilidade intra-individual como fator de confusão, conferindo maior confiabilidade à comparação entre M1 e M2. Contudo, tais achados carecem de replicação em amostras maiores antes de qualquer conclusão sobre modulação da expressão de hemoglobina pelo TR.

LIMITAÇÕES DO ESTUDO

O presente relato de caso apresenta limitações inerentes ao seu delineamento e à execução da intervenção, que devem ser consideradas na interpretação dos resultados e no planejamento de estudos futuros.

1. Delineamento de sujeito único (n = 1). A impossibilidade de generalização dos achados é a principal limitação do estudo. Os resultados descrevem a resposta individual de uma participante e não permitem inferências sobre a população de portadoras de β-talassemia minor. O delineamento de caso único é, contudo, justificado pela raridade da condição e pela inexistência de estudos prévios com metodologia similar, cumprindo função exploratória e geradora de hipóteses.

2. Inferência causal inerentemente limitada pelo delineamento. O relato de caso é, por definição, um delineamento observacional descritivo de sujeito único, no qual a ausência de grupo controle ou comparador não constitui falha metodológica, mas característica estrutural reconhecida e aceita na literatura científica (Gagnier et al., 2013; Vandenbroucke, 2001). Esse delineamento é particularmente justificado em condições raras — como a β-talassemia minor — nas quais a constituição de grupos com poder estatístico adequado é inviável na prática clínica. Em consequência dessa natureza descritiva, não é possível estabelecer relação de causalidade entre a intervenção com TR e as mudanças observadas, tampouco excluir a contribuição de fatores externos não controlados, como variações sazonais na atividade física habitual, efeito de aprendizado nos protocolos de teste, variabilidade biológica intra-individual ou efeito Hawthorne. Os resultados devem, portanto, ser interpretados como evidência exploratória e geradora de hipóteses, com potencial para fundamentar o delineamento de estudos futuros com maior controle experimental.

3. VO₂máx estimado por método indireto. O consumo máximo de oxigênio foi estimado pela equação do protocolo de Bruce em esteira, e não mensurado diretamente por ergoespirometria (coleta de gases expirados). O método indireto está sujeito a erro sistemático dependente da eficiência mecânica individual e da frequência cardíaca máxima real, que pode diferir da estimada pela equação de idade. Em portadoras de β-talassemia minor, com perfil hemodinâmico atípico, esse erro pode ser ainda mais expressivo. Recomenda-se ergoespirometria direta em estudos futuros.

4. ETM extraído da literatura, sem teste-reteste próprio. Os valores de Erro Técnico de Medição utilizados no cálculo da MDD foram obtidos de estudos de confiabilidade publicados, e não de sessões de teste-reteste realizadas com os próprios instrumentos e avaliadores do presente estudo. Isso pode subestimar ou superestimar a MDD real no contexto específico desta avaliação, comprometendo a precisão da distinção entre mudanças reais e ruído instrumental.

5. Indicador composto de força (soma das 1RM). A soma das 1RM dos 8 exercícios prescritos — cobrindo grupos musculares de capacidades de carga muito distintas (ex.: Leg Press vs. Fly Machine) — produz um indicador heterogêneo cuja interpretação é limitada. O ∆% elevado (+85,0%) reflete, em parte, a assimetria de carga entre membros superiores e inferiores na linha de base. Estudos futuros devem reportar as 1RM individualmente por exercício e, se desejado, calcular indicadores separados para MMSS e MMII.

6. Equações de composição corporal não validadas na população-alvo. As equações de Jackson et al. (1980) para estimativa de %GC e de Martin et al. (1990) para MMu foram desenvolvidas e validadas em populações distintas da estudada (mulheres com β-talassemia minor, brasileira, 44 anos). A aplicação dessas equações em populações fora do intervalo de validação original pode introduzir viés sistemático na estimativa dos valores absolutos de %GC e MMu. Os valores reportados devem ser interpretados como estimativas relativas, comparáveis entre M1 e M2, mas não como valores absolutos de referência.

7. Período de acompanhamento limitado. A avaliação foi realizada em apenas dois momentos (pré e pós-intervenção de 16 semanas), sem seguimento (*follow-up*) após o término do TR. Não é possível avaliar a durabilidade das adaptações observadas, nem o comportamento das variáveis hematológicas a longo prazo. O CARE Checklist recomenda que relatos de caso incluam dados de seguimento sempre que disponíveis.

CONCLUSÃO

Dezesseis semanas de treinamento resistido periodizado produziram melhoras clinicamente relevantes nos componentes da aptidão física relacionada à saúde — composição corporal, força muscular, capacidade cardiorrespiratória estimada e flexibilidade — sem comprometimento do perfil hematológico de uma portadora de β-talassemia minor. O controle nutricional conduzido por nutricionista habilitado, com avaliação do consumo alimentar por R24h em M1 e M2, verificação de adequação às DRI/RDA e instrução formal de manutenção da dieta habitual, conferiu maior rigor metodológico ao estudo e permitiu descartar a dieta como fator de confusão relevante para os resultados bioquímicos observados. A análise tripartite por delta percentual, Mínima Diferença Detectável e escore z normativo permitiu distinguir mudanças reais das variações dentro do ruído instrumental, conferindo rigor interpretativo consistente com as exigências de periódicos de alto impacto. Os achados sustentam o TR como estratégia terapêutica segura e promissora para portadoras de β-talassemia minor. Estudos futuros com amostras maiores, grupo controle e ergoespirometria direta são necessários para confirmar e ampliar esses resultados.

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1 NAFIMES/UFMT, Cuiabá, MT, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. Programa de Pós-Graduação em Educação Física – UFMT. ORCID: https://orcid.org/0009-0007-2347-1832

2 NAFIMES/UFMT. Cuiabá, MT, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: http://orcid.org/0000-0002-7522-7985

3 NAFIMES/UFMT, Cuiabá, MT, Brasil. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-6938-6365

4 NAFIMES/UFMT, Cuiabá, MT, Brasil. ORCID: https://orcid.org/0009-0001-9504-1504