REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/792466029
RESUMO
O câncer infantojuvenil compreende neoplasias malignas que acometem indivíduos de 1 a 19 anos, com manifestações frequentes como leucemias, tumores do sistema nervoso central e linfomas. Os cuidados paliativos pediátricos oferecem suporte biopsicossocial e espiritual, controlando sintomas, melhorando a qualidade de vida e acompanhando a terminalidade. Diante da relevância de ampliar a compreensão sobre essa experiência, da lacuna de estudos que articulem o tornar-se pessoa e a finitude nesse público e da necessidade de estratégias profissionais que ultrapassem o controle da crise, este estudo tem como objetivo compreender, à luz da psicologia humanista-existencial, a experiência de pacientes oncológicos infantojuvenis em cuidados paliativos diante da finitude. Como objetivos específicos, pretende-se compreender o constructo "tornar-se pessoa na finitude" como norteador da ressignificação da terminalidade, analisar como essa abordagem favorece uma despedida autêntica entre paciente e família e identificar manifestações biopsicossociais e espirituais nessa experiência. A pesquisa bibliográfica incluiu materiais publicados entre 2020 e 2026, em português e inglês, como artigos, dissertações, monografias, materiais institucionais e governamentais, livro e documentário. Os resultados demonstraram que a finitude constitui condição existencial que antecipa o tornar-se pessoa, que a autonomia na tomada de decisão amplifica o self e a ressignificação e que a dimensão espiritual e o vínculo com cuidadores se configuram como vias de transcendência e crescimento psicológico. Concluiu-se que a psicologia humanista-existencial compreende essa experiência centralizando o paciente, favorecendo autenticidade, autonomia e acolhimento do sentido, oferecendo subsídios para práticas profissionais que ultrapassem o controle sintomático.
Palavras-chave: Cuidados paliativos pediátricos; Finitude; Oncologia infantojuvenil; Psicologia humanista-existencial.
ABSTRACT
Childhood and adolescent cancer encompasses malignant neoplasms affecting individuals aged 1 to 19, frequently manifesting as leukemias, central nervous system tumors, and lymphomas. Pediatric palliative care provides biopsychosocial and spiritual support, managing symptoms, improving quality of life, and accompanying the patient through the end-of-life process. Given the importance of broadening the understanding of this experience, the gap in studies linking the process of "becoming a person" with finitude in this population, and the need for professional strategies that go beyond crisis management, this study aims to understand through the lens of humanistic-existential psychology the experience of pediatric and adolescent oncology patients in palliative care as they face finitude. Specific objectives include understanding the construct of "becoming a person amidst finitude" as a guide for reframing the end-of-life experience; analyzing how this approach fosters an authentic farewell between patient and family; and identifying the biopsychosocial and spiritual manifestations within this experience. The literature review covered materials published between 2020 and 2026 in Portuguese and English, including articles, dissertations, monographs, institutional and government documents, a book, and a documentary. The results demonstrated that finitude constitutes an existential condition that anticipates the process of becoming a person; that autonomy in decision-making amplifies the self and the reframing process; and that the spiritual dimension and the bond with caregivers serve as pathways to transcendence and psychological growth. It was concluded that humanistic-existential psychology understands this experience by centering the patient and fostering authenticity, autonomy, and the embrace of meaning, thereby offering a foundation for professional practices that extend beyond mere symptom control.
Keywords: Pediatric palliative care; Finitude; Pediatric and adolescent oncology; Humanistic-existential psychology.
1. INTRODUÇÃO
A experiência do adoecimento oncológico na infância e adolescência confronta limites biológicos, psicológicos, sociais e espirituais do existir humano. Diante de doenças graves que ameaçam a continuidade da vida, os cuidados paliativos surgem como filosofia de cuidado que visa promover qualidade de vida. Nesse contexto, crianças e adolescentes vivenciam a finitude de modo singular, pois estão em processo de desenvolvimento. Assim, compreender essa experiência exige olhar para além dos aspectos biomédicos.
Este estudo delimita-se a investigar a experiência de pacientes oncológicos infantojuvenis, de 1 a 19 anos, em cuidados paliativos, em hospitais e ambulatórios, à luz da psicologia humanista-existencial. O recorte concentra-se no conceito de “tornar-se pessoa na finitude”, entendido como processo contínuo de atualização do self, no qual o potencial humano pode ser trabalhado durante o tratamento oncológico. A fundamentação apoia-se na compreensão da finitude como reconhecimento do limite da vida, bem como na angústia, no ser-para-a-morte e na intencionalidade da consciência como elementos que sustentam a literatura humanista-existencial.
A motivação desta pesquisa nasce de inquietação infantil da autora diante de narrativas de crianças doentes. Anos depois, essa memória transformou-se em interesse acadêmico e profissional pela Psico-Oncologia. Embora existam produções acadêmicas sobre Psico-Oncologia e sobre a psicologia humanista-existencial aplicada à oncologia, não foram identificados, no recorte desta revisão, estudos que articulem o processo de tornar-se pessoa e a finitude em crianças e adolescentes em cuidados paliativos. A lacuna que esta pesquisa pretende evidenciar está justamente na ausência dessa articulação, que integre outros conceitos da psicologia humanista-existencial para compreender o tornar-se pessoa mesmo diante da morte.
Diante disso, a questão central é: como a psicologia humanista-existencial compreende a experiência de pacientes oncológicos infantojuvenis em cuidados paliativos diante da finitude? Essa pergunta busca compreender dimensões clínicas, psicológicas e existenciais. Além disso, pretende identificar como o processo de tornar-se pessoa pode ser favorecido nesse contexto. Dessa forma, articula-se teoria, prática e especificidades do desenvolvimento infantojuvenil.
O objetivo geral é compreender, à luz da Psicologia Humanista-Existencial, a experiência de pacientes oncológicos infantojuvenis em cuidados paliativos diante da finitude. Como objetivos específicos, pretende-se compreender o constructo “tornar-se pessoa na finitude” como norteador da ressignificação da terminalidade. Busca-se também analisar como essa abordagem favorece uma despedida autêntica entre paciente e família. Por fim, objetiva-se identificar manifestações biopsicossociais e espirituais nessa experiência.
Portanto, este artigo propõe-se a sistematizar contribuições teóricas e orientar práticas clínicas. Os resultados deste estudo podem contribuir para o desenvolvimento de estratégias elaboradas por profissionais da saúde no que diz respeito ao manejo e ao estudo dos cuidados paliativos, proporcionando uma compreensão aprofundada e não limitada apenas ao controle da crise, o que destaca a relevância deste estudo no âmbito profissional.
2. PSICO-ONCOLOGIA INFANTOJUVENIL: O SOLO DA EXPERIÊNCIA
2.1. O Câncer Infantojuvenil e os Cuidados Paliativos Pediátricos
De acordo com Brown et al. (2023, p. 1146), “o câncer é uma doença de proliferação descontrolada por células transformadas sujeitas à evolução por seleção natural”. Logo, o câncer, também chamado de neoplasia maligna, possui uma definição fundamentada no caráter evolutivo da patologia, na qual a unidade celular não é vista como um elemento estático, mas em constante processo de adaptação e multiplicação. Ademais, suas alterações genéticas e epigenéticas modificam a homeostase do organismo, podendo levar ao óbito, evidenciando uma patologia de extrema relevância para a saúde pública.
Segundo o Instituto Nacional de Câncer (2023), o câncer infantojuvenil compreende o grupo de pacientes na faixa etária de 1 a 19 anos. Diferentemente do câncer em adultos, sua manifestação ocorre, frequentemente, em células do sistema cardiovascular e do tecido conjuntivo. Além disso, as manifestações mais comuns de neoplasias malignas em crianças incluem as leucemias, os tumores do sistema nervoso central e os tumores sólidos; já entre os adolescentes, as ocorrências mais frequentes são os linfomas, além dos tumores ósseos e de tireoide (World Health Organization, 2025).
Para o Brasil, o número estimado de casos novos de câncer infantojuvenil para cada ano do triênio de 2026 a 2028 é de 7.560, com risco estimado de 136,33 por milhão de crianças e adolescentes. Desses, 3.960 casos são estimados para o sexo masculino e 3.600 para o sexo feminino. Esses valores correspondem aos riscos estimados de 139,72 casos novos por milhão de crianças do sexo masculino e de 132,78 por milhão do sexo feminino (Instituto Nacional do Câncer, 2026, p. 62).
Os elevados índices apresentados podem ser compreendidos sob a perspectiva de Brown et al. (2023), ao definirem a neoplasia maligna como uma multiplicação progressiva de células impulsionada pela seleção natural. Sob esse prisma, o alto nível de incidência previsto reflete o comportamento de um sistema celular que, ao adquirir vantagens evolutivas, projeta suas transformações nos dados estatísticos atuais. No organismo infantojuvenil, a patologia consolida-se precocemente devido à rápida capacidade de adaptação e multiplicação, visto que esse grupo de células é capaz de contornar os mecanismos de defesa naturais do hospedeiro.
2.2. Cuidados Paliativos Pediátricos nas Dimensões do Cuidado e Psico-Oncologia
Conforme Assunção (2023, p. 302), “[...] quando o indivíduo se encontra diagnosticado com uma doença oncológica, não podem ser oferecidos somente cuidados físicos, pois trata-se de uma doença multifatorial, onde as emoções desempenham um papel fundamental”. De maneira análoga, com uma visão mais integrada sobre os componentes do bem-estar na vida dos pacientes, essa especialização destacou a importância de considerar os processos mentais como um objeto de estudo relevante. Assim, consolidou-se como a valorização do psicoemocional, visto que a mente exerce influência significativa sobre a saúde física.
Os cuidados paliativos pediátricos (CPP) constituem o suporte biopsicossocial e espiritual oferecido à criança e à sua rede familiar, garantindo o controle de sintomas, a melhoria da qualidade de vida, o acompanhamento diante da terminalidade, além do apoio ao luto dos familiares, entre outros aspectos. A dimensão biológica e psicológica presente abrange os fatores que norteiam a fisiologia humana e os fenômenos mentais; obtém-se, assim, uma análise holística que transforma a relação entre corpo e ambiente em um componente crucial a ser explorado dentro das diversas facetas que refletem a singularidade humana (Instituto Nacional de Câncer, 2022).
No cuidado paliativo infantojuvenil, a tríade paciente-família-equipe constitui a base de suporte social imediata, na qual o cuidado se concretiza no cotidiano. A comunidade ampla, organizações não governamentais (ONGs), escolas e políticas públicas, atuam como círculo complementar, reforçando e ampliando esse suporte. A tríade oferece o sustento relacional do dia a dia, enquanto a comunidade amplia as possibilidades de suporte, garantindo que o cuidado seja verdadeiramente contínuo e centrado na vida em sua totalidade (Lima; Maia; Lopes-Júnior, 2023).
Gonçalves da Silva et al. (2024, p. 409) afirmam que “a espiritualidade em crianças com câncer em cuidados paliativos no final da vida se revela como uma fonte de sentido para a experiência da doença e da finitude, produz alívio da dor e sensação de paz [...]”. Dessa forma, a dimensão espiritual é compreendida não apenas como um componente da subjetividade humana, mas também como um caminho. Nesse estudo, em virtude do encontro com a finitude, a espiritualidade aparece como uma possibilidade de atribuição de sentido e enfrentamento.
Na equipe multiprofissional, o psicólogo está presente com uma atuação ampla, na qual se acompanha não apenas o paciente, mas também a família no processo de ressignificação. Auxiliá-los nesse momento é um ato de apoio singular e doloroso, pois envolve encarar a finitude; logo, o psicólogo atua no favorecimento do espaço para expressão, elaboração e construção de sentidos pelo próprio paciente e dos sentidos que a família atribui a esse momento final. O psicólogo torna-se, portanto, fundamental para que o enfrentamento do adoecimento e da morte seja humanizado (Agostta; Rieth, 2024).
No estudo de Nascimento e Borges (2025), as profissionais participantes relataram que a equipe enxerga esses profissionais apenas como alguém que resolve questões urgentes ou latentes, sem reconhecer a complexidade de seu trabalho. Some-se a isso que esses profissionais lidam com a morte de pacientes e com a resistência ao tratamento, seja ele psicológico, quimioterápico ou outro. Há ainda uma lacuna de entendimento tanto por parte da equipe multiprofissional quanto do próprio psicólogo sobre o alcance de sua atuação.
3. A PSICOLOGIA HUMANISTA-EXISTENCIAL COMO LENTE DE COMPREENSÃO
3.1. Fundamentos da Psicologia Humanista-Existencial
A filosofia existencial, surgida em meados do século XIX em meio a intensos conflitos políticos e sociais na Europa, tem em Søren Kierkegaard seu principal precursor. Em uma primeira análise, observa-se a proposta de uma reflexão sobre a existência humana fundamentada na subjetividade, na liberdade de escolha e na angústia. Outrossim, tal corrente filosófica recusa a redução do homem a teorias científicas, valorizando o pensamento e a reflexão em detrimento de métodos rígidos de teste e teorização que refletem o cenário dominado pelo empirismo. Em contrapartida, o empirismo compreendia o homem conforme a observação e a medição, restringindo-o à análise quantitativa (Souza; Aquino, 2024).
Cronologicamente, Kierkegaard publicou as bases para a fundamentação da vertente existencialista, que permitiram a Husserl e Heidegger desenvolver a fenomenologia e o aperfeiçoamento do existencialismo, respectivamente. Em seguida, surgem as noções de intencionalidade da consciência (Husserl) e de ser-no-mundo e ser-para-a-morte (Heidegger), conceitos desenvolvidos por esses autores. Em conformidade com a corrente existencial, Viktor Frankl, a partir de sua experiência nos campos de concentração, sintetizou tais ideias na logoterapia ao introduzir o conceito de sentido da vida (Moreira, 2025).
A corrente humanista surgiu na “terceira onda” da psicologia, entre 1940 e 1950, com Carl Rogers e Abraham Maslow. A abordagem centrada na pessoa, idealizada por Rogers, coloca o indivíduo como protagonista de suas próprias decisões, com liberdade de escolha e consciência das consequências, uma ideia que já era destacada por Kierkegaard. Nesse contexto, a força motriz da abordagem humanista de Rogers é a tendência atualizante, intrinsecamente vinculada ao self, isto é, à concepção que o indivíduo constrói sobre si mesmo (Rodrigues; Roseli Forlin; Aguiar, 2026).
A concepção heideggeriana do “Ser-para-a-morte” transcende a compreensão da morte como mero evento biológico inevitável, constituindo um chamado ao encontro com o que realmente queremos ser. Da mesma forma, estabelece uma convergência com a noção rogeriana de “tornar-se pessoa”, na medida em que o reconhecimento da finitude possibilita o contato com o self. Desse modo, a morte acelera o processo de individualização, uma vez que se revela especialmente sensível quando se trata de crianças e adolescentes, dada a complexidade do confronto precoce com a finitude (Silveira, 2024).
3.2. O “Tornar-Se Pessoa” no Contexto da Terminalidade
A interface entre as ideias de Heidegger e Frankl revela que seus princípios moldam a existência ao conferir premência às escolhas, de modo que encarar o fim não se reduz a um limite biológico, mas constitui condição para valorizar a vida. Tal como Frankl, que acrescenta o reconhecimento do finito e a necessidade de refletir sobre o tempo e a morte, a busca de sentido integra-se mesmo diante do sofrimento. Em vista disso, tais perspectivas demonstram que a consciência desse fenômeno impulsiona essa busca, aspecto especialmente evidente no contexto do CPP (Freitas, 2024).
No panorama dos cuidados paliativos, os pacientes deparam-se com a terminalidade e a finitude de forma muito direta, uma vez que, nesse cenário de crise identitária ou existencial, percebem que usam uma "máscara" de paciente terminal, papel social que oculta sentimentos autênticos. Ademais, essa máscara surge diante da possibilidade do fim da vida e, com as defesas naturalmente mais baixas, o verdadeiro "eu" torna-se mais acessível. Em suma, a terminalidade, embora dolorosa, cria uma oportunidade urgente de ser quem realmente se é, pois o confronto com a finitude permite atravessar essas barreiras de modo mais direto (Rogers, 2017).
Os princípios da Abordagem Centrada na Pessoa (ACP) incluem a habilidade de compreender o mundo interno do paciente, oferecer um ambiente de respeito sem julgamentos e mostrar-se autêntico, estabelecendo assim um vínculo terapêutico. Paralelamente, tais condições são essenciais para que a criança ou o adolescente possa compreender seus sentimentos e escolhas, mesmo diante do fim da vida, dado que a impossibilidade de vivenciar a liberdade de se tornar quem se é afeta profundamente o ser humano. Em síntese, trata-se do encontro com a finitude: o fim ainda não se concretizou, mas há a possibilidade de, mesmo perante a morte, vivenciar o presente de modo genuinamente humano (Nunes Turbano et al., 2025).
As competências humanísticas no cuidado holístico, especialmente em diagnósticos de neoplasia maligna, têm como essência enxergar o paciente como um ser integral para além do que ele expressa superficialmente. Tal abordagem supera as limitações do modelo estritamente biomédico, resultando em ganhos no âmbito biopsicossocial e espiritual. Portanto, no contexto do CPP, essa perspectiva holística estende-se não apenas ao paciente, mas também à família, que carrega o peso emocional do processo e igualmente necessita de acolhimento (Batista; Galvão; Gomes, 2024).
4. O ACOLHIMENTO DA FAMÍLIA E A DESPEDIDA AUTÊNTICA: A PRÁTICA DA PSICOLOGIA HUMANISTA-EXISTENCIAL
4.1. Família, Comunicação e Vínculo Terapêutico
A unidade familiar de pacientes infantojuvenis em cuidados paliativos é consideravelmente impactada pelo diagnóstico de câncer, tornando-se, assim, também uma parte afetada pela doença, e não apenas o paciente. Dessa forma, o abalo na estrutura familiar percorre diversos âmbitos, incluindo o econômico, pois o diagnóstico de câncer surge de forma inesperada, em contextos nos quais não há estrutura financeira para lidar com as despesas que irão aparecer para que a família consiga adaptar-se a essa nova realidade (Ferreira; Santos; Ferreira, 2020).
A base familiar desses pacientes é profundamente afetada também pelo estresse e pela sobrecarga decorrentes da rotina exaustiva instaurada após o diagnóstico. Em consonância, os familiares necessitam readaptar-se a um conjunto contínuo de tarefas orientadas pela instituição do tratamento. Em vista disso, essa reorganização é dificultada pelo fato de que os pacientes dependem dos pais para sua locomoção e para o acompanhamento em tais atividades, em razão de sua condição de menores. Outrossim, os pais vivenciam sentimento de culpa e, na condição de adultos, sentem-se compelidos a representar uma fortaleza emocional, para que a criança neles se espelhe e possa sentir-se mais segura e esperançosa (Silva, 2021).
A comunicação familiar no contexto do tratamento envolve dois elementos cruciais: a interação entre a equipe profissional e a família e o diálogo estabelecido entre a família e a criança ou adolescente. Além disso, a postura de fortaleza adotada pelos pais ou responsáveis influencia a adesão ao tratamento. Essa postura, porém, implica silenciar informações, como questões burocráticas e intercorrências desfavoráveis, e transformar, pela ludicidade, os dados profissionais para a compreensão do paciente, podendo dificultar a comunicação aberta e honesta entre ambos (Zhang et al., 2024).
Por fim, a valorização dos desejos da criança ou adolescente é fundamental para a criação de um espaço que possibilite rituais de despedida e momentos significativos. O psicólogo utiliza recursos lúdicos, como brinquedos, e conta com a família para indicar as preferências do paciente. Uma vez que pacientes infantojuvenis associam profissionais da saúde a procedimentos dolorosos, o psicólogo precisa mostrar-se disponível para escutar, acolher e construir um vínculo terapêutico pela fala. Em suma, a verbalização torna-se a ponte para alcançar os objetivos do tratamento naquele momento (Loch; Cunha; Menezes, 2024).
4.2. Facilitando a Despedida: Autonomia e Ressignificação
A atuação da psicologia humanista-existencial junto à família vai além do acolhimento da culpa, raiva, medo e impotência, exigindo conhecimentos para resolver conflitos e assegurar autonomia e expressão emocional. Ademais, o profissional precisa ter conhecimento prévio sobre o prognóstico e o tipo de neoplasia em questão. O acolhimento que supera o medo e a culpa prioriza a autonomia e a liberdade, especialmente nos momentos finais, para que a despedida seja autêntica. Ainda que o psicólogo ofereça condutas teóricas, a decisão final cabe ao paciente ou, na impossibilidade deste, à família (Louzada, 2023).
Ainda que as questões burocráticas sejam frequentemente colocadas em caráter decisivo nas mãos dos pais ou responsáveis, é essencial reconhecer o protagonismo da criança e do adolescente nesse processo. Um vez que desejam participar das decisões sobre o próprio cuidado, o que exige uma conduta apropriada e uma comunicação clara e honesta. Conforme os princípios da ACP, a autonomia e o exercício da liberdade são fundamentais para que o paciente infantojuvenil expresse seus desejos e necessidades. Uma vez que essa validação da inserção da criança e do adolescente no processo de cuidados paliativos favoreça o que se busca alcançar, o cuidado se torna mais efetivo (Valete; Ferreira; Bruno, 2022).
Paralelamente aos questionamentos do paciente e da família, a psicologia humanista surge como recurso fundamental para garantir a despedida e a continuidade dos vínculos. Com efeito, mesmo após a morte alguns pais mantêm-se conectados à "persona" dos filhos, conforme abordado por Carl Rogers sobre o vínculo. Como o psicólogo oferece um ambiente de aceitação genuína nos momentos finais, esse vínculo reduz a ansiedade existencial, o medo da morte e favorece a aceitação do processo de adoecimento e seu desfecho (Stenzel, 2021).
Nas postulações de Edmund Husserl, na fenomenologia, a intencionalidade da consciência significa que a mente está sempre direcionada para algo. Isto é, a consciência nunca é neutra: ela carrega uma intenção que influencia as decisões (Ramos, 2023). Esse fenômeno torna-se evidente no documentário “Um Leão por Dia” (2006), no qual uma mãe usa a recuperação da filha como motivação para correr uma maratona, aplicando o conceito de intencionalidade ao transformar a experiência em uma força direcionada.
A própria noção de desenvolvimento humano reforça que nenhum pai ou mãe espera perder um filho, e essa imprevisibilidade gera crises existenciais tanto no paciente quanto na família. Assim sendo, tal abordagem sugere que não ignorar a morte e suas consequências permite elaborar recursos positivos de enfrentamento. Para concluir, ao ressignificar a morte, não apenas se intensifica a dor, mas também o ser humano se torna mais capaz de conviver com a finitude e seguir em frente (Hu, 2026).
5. METODOLOGIA
Quanto aos procedimentos, caracteriza-se como pesquisa bibliográfica, desenvolvida por meio de uma revisão bibliográfica da literatura. A escolha desse método fundamenta-se no objetivo proposto, sendo indispensável para construir um referencial teórico atual e valioso sobre o desenvolvimento clínico e a atuação prática dos constructos apresentados, contemplando, assim, de forma satisfatória e coerente, os objetivos que guiam a presente investigação científica.
Trata-se de um estudo de abordagem qualitativa e de caráter exploratório, por buscar compreender significados e aspectos subjetivos relacionados ao fenômeno estudado. A natureza qualitativa permite uma imersão nos significados que norteiam a experiência investigada, enquanto o caráter exploratório possibilita aprofundar a compreensão das manifestações biopsicossociais e espirituais presentes nesse contexto específico de cuidado paliativo pediátrico oncológico e verdadeiramente humanizado.
A população deste estudo compreende a literatura científica disponível sobre câncer infantojuvenil, cuidados paliativos pediátricos e psicologia humanista-existencial psicologia humanista-existencial aplicada a pacientes de 1 a 19 anos. As buscas foram realizadas em revistas, repositórios, bibliotecas digitais, periódicos científicos, no Instituto Nacional de Câncer e na World Health Organization, abrangendo o universo de publicações relacionadas diretamente ao tema investigado neste artigo científico.
A amostragem constitui-se de artigos, dissertações, monografias, materiais institucionais e governamentais, resenhas críticas, relato de experiência, livro e documentário, publicados entre 2020 e 2026, exceto livro de 2017 e documentário de 2006. Incluíram-se materiais em português e inglês que abordassem câncer infantojuvenil, psicologia humanista, existencialismo e cuidados paliativos, admitindo-se materiais teóricos sobre outras faixas etárias, desde que aplicáveis ao público de 1 a 19 anos.
Para a coleta de dados, foram utilizados os termos cuidados paliativos, palliative care, childhood cancer, câncer infantil, psico-oncologia, psicologia humanista e existencialismo. Excluíram-se materiais de idiomas distintos do inglês e português, publicações anteriores a 2020, resumos simples, notícias, matérias jornalísticas, filmes, materiais sem acesso completo e sem relação ao título do trabalho, garantindo a qualidade e relevância das fontes selecionadas.
Após a seleção, os materiais foram lidos, fichados em tabelas no Google Docs e analisados por revisão bibliográfica, com tópicos discutidos sob referencial teórico. Reconhece-se como limitação a ausência de coleta empírica com pacientes, familiares ou profissionais, pois impede captar vivências e práticas concretas. Essa escolha, embora adequada, implica compreensões e sínteses da literatura, orientando a sistematização das contribuições teóricas apresentadas.
6. RESULTADOS E DISCUSSÕES
Primeiramente, a finitude revelou-se como condição existencial que antecipa o “tornar-se pessoa” em crianças e adolescentes com câncer. Ademais, a autonomia na tomada de decisão emergiu como amplificadora do self e da ressignificação da terminalidade. Nesse processo, o paciente deixa de se reduzir à identidade de paciente terminal e passa a experimentar o tempo presente de forma mais autêntica, mesmo diante do fim. Consequentemente, os resultados corroboraram a literatura analisada.
Sob essa perspectiva, em relação ao segundo objetivo específico, a despedida autêntica entre paciente e família emerge quando se respeitam as escolhas e a liberdade do paciente na fase final. O desejo da criança ou adolescente precisa ser considerado, abrindo espaço para práticas de despedida e experiências significativas. O vínculo construído pela escuta e pelo acolhimento sustenta esse processo, e a decisão final é do paciente e, caso não possa manifestá-la, de seus responsáveis.
Quanto ao terceiro objetivo específico, as manifestações biopsicossociais e espirituais incluem dor e desconfortos físicos, além de temor, angústia, desânimo, autorrecriminação, revolta, desamparo e indagações existenciais, mas também esperança, resiliência e amadurecimento psicológico. No plano social, sobressaem o desgaste financeiro e emocional da família e a sobrecarga de quem cuida. No âmbito espiritual, a procura por significado, a transcendência, a confiança, a serenidade e o consolo surgem como recursos diante da finitude.
7. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS
Inicialmente, esta investigação partiu da seguinte questão: como a psicologia humanista-existencial compreende a experiência de pacientes oncológicos infantojuvenis em cuidados paliativos diante da finitude? Em seguida, delineou-se como objetivo geral apreender tal vivência à luz desse referencial teórico. Posteriormente, delimitou-se o recorte desta pesquisa à produção bibliográfica sobre o tema, sem realização de coleta empírica. Por conseguinte, o percurso metodológico adotado foi qualitativo, exploratório e fundamentado em rigorosa análise bibliográfica.
Nesse sentido, a psicologia humanista-existencial compreende essa experiência centralizando o paciente infantojuvenil em sua singularidade. Logo, o processo terapêutico favorece a autenticidade ao criar um ambiente acolhedor e empático. Dessa maneira, a escuta e a valorização da tomada de decisão do paciente ampliam seu self e sua autonomia. Portanto, o sentido atribuído pelo paciente sobre si mesmo e sobre o tratamento é verdadeiramente acolhido e respeitado em sua integralidade humana.
Contudo, a investigação não contou com coleta empírica junto a pacientes, familiares ou profissionais da saúde, o que restringe a apreensão de vivências concretas. O recorte bibliográfico, com período e idiomas delimitados, também limita a amplitude dos achados. Por fim, sugere-se a realização de estudos de campo e relatos de caso, a ampliação da discussão sobre a dimensão espiritual e a aplicação do constructo “tornar-se pessoa na finitude” em intervenções clínicas e educativas.
Diante disso, conclui-se que os objetivos propostos foram atingidos, uma vez que a investigação respondeu à questão central e confirmou a relevância do constructo “tornar-se pessoa na finitude”. Dessa forma, este estudo contribui para orientar práticas clínicas que ultrapassem o controle sintomático, oferecendo subsídios teóricos que favoreçam uma atuação profissional verdadeiramente centrada na integralidade humana e no reconhecimento da criança e do adolescente como sujeitos plenos.
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1 Discente do Curso Superior de Psicologia da Faculdade de Educação Santa Terezinha Campus Imperatriz. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail