REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/773821046
RESUMO
A prática da supervisão em Psicanálise integra o chamado tripé da formação clínica, juntamente com a análise pessoal e o estudo teórico. A sua consolidação como atividade formal está, portanto, vinculada ao processo de institucionalização da formação psicanalítica. O estudo teve como objetivo analisar a literatura cientifica sobre supervisão online em Psicanálise. A revisão foi conduzida conforme as diretrizes do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA). Para maximizar a eficiência e a abrangência das buscas, foram empregados operadores booleanos. A pesquisa desenvolvida foi conduzida em três bases de dados: Biblioteca Virtual de Psicanálise (BiViPsi), Scientific Electronic Library Online (SciELO) e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), com foco em artigos publicados no período de 2020 a 2025, em português brasileiro. O levantamento realizado permitiu constatar que o número de publicações atingiu o patamar de dois artigos em 2021 e dois artigos em 2022. Observa-se um declínio posterior a 2022, evidenciando a descontinuidade da produção acadêmica e a fragilidade da consolidação de uma linha de investigação contínua nessa área, o que pode ter ocorrido devido à supervisão online em Psicanálise ter enfrentado resistência inicialmente, no contexto de isolamento social imposto pela pandemia de covid-19. A supervisão psicanalítica online se constitui como uma prática do mundo contemporâneo, cada vez mais tecnológico, o que pode permitir acesso rápido e claro a outros meios de realização da formação clínica em Psicanálise.
Palavras-chave: supervisão online; Psicanálise; tecnologia.
ABSTRACT
The practice of supervision in Psychoanalysis constitutes part of the so-called tripartite structure of clinical training, together with personal analysis and theoretical study. Its consolidation as a formal activity is therefore linked to the process of institutionalization of psychoanalytic training. The present study aimed to analyze the scientific literature on online supervision in Psychoanalysis. The review was conducted in accordance with the guidelines of the Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA). To maximize the efficiency and comprehensiveness of the searches, Boolean operators were employed. The research was carried out in three databases: the Virtual Library of Psychoanalysis (BiViPsi), the Scientific Electronic Library Online (SciELO), and the Virtual Health Library (BVS), focusing on articles published between 2020 and 2025 in Brazilian Portuguese. The survey showed that the number of publications reached two articles in 2021 and two articles in 2022. A decline is observed after 2022, indicating a discontinuity in academic production and the fragility of consolidating a continuous line of investigation in this area, which may have occurred because online supervision in Psychoanalysis initially faced resistance in the context of the social isolation imposed by the COVID-19 pandemic. Online psychoanalytic supervision emerges as a practice within an increasingly technological contemporary world, potentially allowing faster and clearer access to alternative means of conducting clinical training in Psychoanalysis.
Keywords: online supervision; Psychoanalysis; technology.
INTRODUÇÃO
A supervisão tradicional
No exercício da psicanálise, a escuta ética implica sustentar um não saber que possibilita a emergência do saber inconsciente do sujeito em análise. Já no campo da supervisão, como se configura essa escuta a partir da posição do supervisor? De que modo ocupar essa função? Quais relações podem ser estabelecidas entre a prática da supervisão, a ética psicanalítica e a noção de não saber? (Almeida, 2023).
O supervisor não é o dono de um saber acabado, inquestionável; pelo contrário, ele sustenta um lugar de não todo saber, o que permite a abertura de um espaço para que o supervisionando elabore suas próprias hipóteses sobre o caso clínico em estudo.
A prática da supervisão em psicanálise compõe o chamado tripé da formação clínica, juntamente com a análise pessoal e o estudo teórico. A sua origem como atividade formal está, portanto, vinculada ao processo de institucionalização da formação psicanalítica. Contudo, a postura de recorrer a um colega para compartilhar e discutir os fenômenos observados na clínica já existia de maneira informal, antecedendo qualquer regulamentação oficial (Almeida, 2023).
Em 1910, Freud apontava a relevância da presença de um terceiro - além da dupla analista -analisando, no processo de aprendizado das técnicas psicanalíticas. Ao alertar para os riscos da chamada psicanálise selvagem, ressaltava a necessidade de familiarização com tais técnicas, as quais deveriam ser aprendidas e aperfeiçoadas junto àqueles que já as dominavam. Em 1926, reforça que o candidato a analista, após ter passado por sua própria análise, assimilado a teoria e aprendido a técnica, incluindo a arte da interpretação, o manejo das resistências e da transferência, não deveria mais ser considerado um leigo no campo da psicanálise (Almeida, 2023).
Ao se introduzir a figura de um terceiro, busca-se prevenir os riscos de uma “psicanálise selvagem” e, ao mesmo tempo, garantir a prática supervisionada.
A supervisão, ou controle, evidencia-se como um sintoma da crise irreversível de transmissão que atravessa a história da psicanálise. Em 1922, a análise didática passou a ser obrigatória, embora não exigisse a mesma profundidade de uma análise pessoal. Em 1927, sob a influência de Ferenczi, consolidou-se a percepção de que os analistas precisariam ser analisados ainda mais profundamente do que os próprios pacientes. Contudo, mesmo passadas oito décadas, chama atenção o contraste entre a vasta produção sobre a análise didática e a análise do analista e a relativa escassez de estudos dedicados ao tema do controle (Vieira, 2021).
A supervisão é fundamental para o profissional, pois lá se articula teoria, clínica e ética. Pode-se dizer que, na supervisão, um dos desejos do supervisor é, sem dúvida, apresentar aos supervisionandos o lugar de não saber que eles próprios ocupam.
A supervisão online
Na prática psicanalítica não se nega a importância da supervisão clínica, mas a supervisão clínica online ainda enfrenta desafios, e a prova disso é a escassez de literatura sobre o tema.
As recomendações formuladas por Freud constituem a base da psicanálise. A construção de sua obra, embora posteriormente estudada, ampliada e apropriada por outros profissionais, tem origem nas percepções e vivências do próprio autor. Por isso, suas orientações continuam sendo um ponto de partida fundamental para refletirmos sobre os desafios que se impõem à prática clínica psicanalítica no contexto online (Leite, 2021).
O analista deve, independentemente de sua prática ocorrer de forma presencial ou online, manter sua análise pessoal, seus estudos teóricos e a supervisão clínica, assegurando assim a sustentação ética e técnica de seu trabalho (Leite, 2021).
É possível destacar algumas vantagens da supervisão psicanalítica online: os profissionais podem encontrar supervisores especializados em qualquer parte do mundo, pois a distância não seria mais um problema, assim como a flexibilidade de horário é outra facilidade. Há também alguns desafios, como a privacidade, confidencialidade, alteração do setting tradicional para o virtual.
Embora alguns profissionais já trabalhassem com a supervisão online, foi a pandemia de Covid-19 que acelerou sua difusão. Essa prática, quando bem realizada, é tão eficaz quanto a supervisão psicanalítica tradicional/presencial. Hoje, os supervisores acreditam que a supervisão psicanalítica online revela-se como algo novo e inevitável, na medida em que é possível combinar o tradicional com a inovação tecnológica para atender as demandas da psicanálise contemporânea.
O presente estudo, portanto, teve como objetivo principal analisar a literatura científica sobre Supervisão online em Psicanálise.
MÉTODO
Tipo de estudo
O presente estudo seguiu o caminho metodológico de uma revisão sistemática, caracterizada por seu rigor e por se destinar à síntese das pesquisas publicadas nos últimos cinco anos sobre a temática “Supervisão online em Psicanálise”.
A revisão sistemática possibilitou a identificação, seleção, avaliação crítica, síntese e relato das evidências disponíveis. Trata-se de um método reconhecido por sua lógica e menor suscetibilidade a vieses na organização, análise e integração de dados científicos, pois se baseia em perguntas claramente formuladas e em um procedimento estruturado para localizar e avaliar estudos de alta relevância (Roever, 2020). Para garantir transparência e rigor metodológico, a revisão foi conduzida conforme as diretrizes do PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses), assegurando uma abordagem clara, precisa e fundamentada em boas práticas de pesquisa.
Estratégia de busca
As estratégias de busca foram definidas com base nos seguintes termos-chave: supervisão, psicanálise, online, virtual e tecnologia. Para maximizar a eficiência e a abrangência das buscas, foram empregados operadores booleanos, combinando conceitos distintos por meio de AND e incluindo sinônimos ou termos relacionados por meio de OR, por exemplo: “supervisão” AND “psicanálise” AND “online” OR “tecnologia” OR “virtual”.
Adicionalmente, foram aplicados os seguintes filtros para refinar os resultados: publicações no período de 2020 a 2025 e idioma Português (Brasil).
Base de dados
A pesquisa desenvolvida foi conduzida em três bases de dados: BiViPsi (Biblioteca Virtual de Psicanálise), SciELO (Scientific Electronic Library Online) e BVS (Biblioteca Virtual em Saúde), com foco em artigos publicados no período de 2020 a 2025.
Para a organização dos dados coletados, foi elaborada uma tabela síntese, na qual foram reunidas as informações essenciais: ano de publicação, autores, título do artigo, base de dados de origem, método empregado e principais resultados (Tabela 2).
Inclusão e exclusão dos artigos
É fundamental para uma pesquisa de revisão sistemática que haja a definição dos critérios de inclusão e exclusão para organizar e delimitar os estudos que se propõe a analisar. Esses critérios orientam a seleção dos trabalhos mais pertinentes à pergunta de pesquisa e garantem a coerência metodológica do estudo (Tabela 1).
Tabela 1 – Critérios de inclusão e exclusão dos artigos
Inclusão | Exclusão |
Artigos que abordem o objetivo do estudo ou tema principal da revisão. | Artigos que não abordem o objetivo do estudo ou tema principal da revisão. |
Artigos que apresentem os desfechos relevantes, de acordo com o tema e o objetivo da revisão (ex.: eficácia, impacto etc.). | Artigos que não apresentem informações relevantes, completos ou suficientemente detalhados. |
Artigos publicados entre 2015 e 2025. | Artigos publicados fora do intervalo de tempo selecionado (2015 e 2025). |
Artigos em português (Brasil). | Artigos em outros idiomas que não seja o português (Brasil). |
Artigos com texto completo acessível e gratuito. | Artigos incompletos, inacessíveis e pagos. |
Estudos de caso; relatos de experiência; estudo empíricos; redigidos em português. | Artigos de revisões (metanálises, revisões integrativas, sistemáticas, de literatura, de escopo ou narrativas); ensaios teóricos; artigos que não apresentem uma conexão direta com o tema principal ou que sejam duplicados. |
Fonte: Tabela elaborada pelos autores.
A pesquisa
Foi adotada a declaração PRISMA, mais especificamente a versão 2020, que apresenta uma lista de verificação composta por 27 itens (Page et al., 2022).
Com base nos itens do checklist PRISMA, procedeu-se à triagem dos artigos selecionados, a partir da análise dos títulos, resumos e palavras-chave. Em seguida, elaborou-se o diagrama de fluxo, apresentado a seguir, para ilustrar as etapas do processo de seleção.
Figura 1 – Diagrama de fluxo da revisão sistemática, considerando o método PRISMA
RESULTADOS
Após a realização do processo de busca sistemática nas três bases de dados previamente estabelecidas, foram identificados e selecionados, para compor a presente revisão, quatro artigos científicos. Esses trabalhos foram escolhidos por atenderem rigorosamente aos critérios de inclusão previamente definidos, os quais consideraram aspectos como pertinência temática, qualidade metodológica e aderência ao objetivo da pesquisa.
Todos os artigos selecionados apresentam como foco principal a temática da supervisão psicanalítica no contexto online, explorando diferentes perspectivas teóricas e práticas acerca dessa modalidade. Em conjunto, constituem um corpus relevante para a análise crítica e para a compreensão das especificidades, potencialidades e desafios que atravessam a supervisão psicanalítica mediada por recursos digitais.
Tabela 2 - Resultados da pesquisa de artigos nas bases de dados.
Nº | Autores, ano de publicação e base de dados | Tema | Método | Resultados mais relevantes |
01 | Cardoso et al. (2022). BVS - Biblioteca Virtual em Saúde. | O enquadre virtual como um dispositivo psicanalítico de atendimento online | Reflexão teórica | Durante as supervisões realizadas nas clínicas-escolas, os autores apresentaram desconforto por parte dos profissionais, uma questão importante seria o sigilo das informações. |
02 | Colao (2022). BVS - Biblioteca Virtual em Saúde. | Supervisão online: uma correlação entre necessidade e contingência. | Reflexão teórica | Muitos profissionais já faziam supervisão online ou ensaiavam para oferecer esse serviço nessa modalidade, mas foi a Covid-19 que acelerou a modalidade virtual no campo psicanalítico. |
03 | Gosling (2021). BIVIPSI | Retratos de uma supervisão | Reflexão teórica | Por conta da pandemia de Covid-19, o autor teve que mudar para o ambiente virtual. A supervisão é uma experiencia vivida pela dupla. A experiencia de supervisão é única e leva a dupla a elaboração e criatividade. |
04 | Lopes (2021). BVS - Biblioteca Virtual em Saúde. | Reflexões pandêmicas sobre a transmissão da psicanálise e os riscos do uso excessivo do online – uma visão psicanalítica | Reflexão teórica | O mundo digital faz parte da contemporaneidade, a psicanálise pode se beneficiar seja na transmissão da sua teoria, supervisão clínica e análise. |
Fonte: Tabela elaborada pelos autores.
O levantamento realizado permitiu constatar que o número de publicações atingiu o patamar de dois artigos em 2021 e dois artigos em 2022, conforme demonstrado na Figura 2. Ressalta-se, entretanto, a ausência de produções anteriores a 2021, o que denota uma lacuna temporal significativa na literatura científica sobre o tema. Do mesmo modo, observa-se um declínio posterior a 2022, evidenciando a descontinuidade da produção acadêmica e a fragilidade da consolidação de uma linha de investigação contínua nessa área.
Esse panorama, marcado pela escassez de publicações, pela irregularidade temporal e pela ausência de continuidade sistemática, reforça a necessidade urgente de ampliar e qualificar o debate acadêmico a respeito da supervisão psicanalítica online. Tal movimento não apenas favoreceria a produção de novas pesquisas e a diversificação metodológica, mas também possibilitaria a construção de uma base teórico-prática mais sólida e consistente. Considerando-se a relevância da supervisão psicanalítica no tripé formativo do analista, ao lado da análise pessoal e do estudo teórico, torna-se ainda mais premente investir em estudos que explorem essa prática no ambiente virtual.
Em um mundo cada vez mais atravessado por recursos tecnológicos e pela intensificação das interações mediadas digitalmente, a discussão sobre a supervisão psicanalítica online assume papel estratégico. Ela não só acompanha as transformações contemporâneas nos modos de transmissão da psicanálise, como também pode contribuir para responder de forma crítica e criativa às demandas atuais da formação clínica.
Figura 2 – Artigos selecionados de acordo com os critérios de inclusão e exclusão.
No que se refere às metodologias adotadas nos estudos analisados, verificou-se que todas as pesquisas se enquadram no escopo dos métodos qualitativos, privilegiando abordagens que buscam compreender em profundidade as experiências relatadas e as singularidades do fenômeno estudado.
DISCUSSÃO
A psicanálise
Desde os primórdios, a psicanálise firmou-se como um saber para além de um dispositivo teórico e clínico. A psicanálise constituiu-se como um saber de natureza histórica, um método que possibilitou a cada sujeito desvelar a própria trajetória. Trata-se de um método clínico que ultrapassou as expectativas de Freud e serviu de fundamento para uma teoria que, entre outras funções, se consolidou como um saber acerca da história do ser humano e de sua cultura. Tudo isso em contraposição aos conglomerados contemporâneos de técnicas e instrumentalizações, por meio dos quais a sociedade industrial atingiu seu auge com a computação, transmitindo conteúdos como se fossem prontos e perfeitos desde sempre, desprovidos de processo histórico ou elaboração (Lopes, 2021).
A busca pelas origens permanece como elemento constitutivo do ensino e da transmissão da prática clínica psicanalítica, iniciada na autoanálise de Freud e continuada por meio do trabalho psicoterapêutico com seus pacientes. Ao interpretar seus próprios sonhos, Freud foi além do mito do herói, inaugurando um caminho crítico e reflexivo. Conhecer e questionar a história do fundador, assim como as próprias origens da psicanálise, é fundamental para sustentar o tripé que alicerça a formação do analista: teoria, supervisão e análise pessoal, sendo esta última o pilar mais importante. O psicanalista só pode surgir de sua experiência no divã. É possível transmitir um saber sobre o inconsciente, mas o inconsciente só pode ser verdadeiramente aprendido (ou apreendido) na experiência analítica. O mais grave sintoma de instituições que se autodenominam psicanalíticas, sem o serem de fato, é justamente a incompreensão da importância do verdadeiro sentido da análise pessoal (Lopes, 2021).
Um ponto importante que é digno de nota, sem dúvida, é a irredutibilidade da passagem pelo divã. A psicanálise possibilita o encontro do sujeito com o seu inconsciente, amparada pela sua técnica e pela sua ética.
Para um dispositivo psicanalítico, as próprias denominações “controle” e “visão superior” são, no mínimo, curiosas e suscitam questionamentos. O fato é que a supervisão completou um século de existência e continua a alimentar um amplo debate sobre a formação em psicanálise. Ela inspira inúmeras reflexões sobre os caminhos da formação e permanece como um dos pilares fundamentais do processo formativo, um dos vértices do tripé que sustenta o tornar-se psicanalista (Gosling, 2021).
Não se pode limitar a supervisão em psicanálise a um mero exercício de vigilância ou simples correção técnica. Trata-se de um espaço de partilha, o supervisionando compartilha seus casos clínicos, dificuldades e possibilidades encontrados em seu fazer na clínica psicanalítica, sem esquecer que a experiência clínica deve ser sustentada à luz da teoria, da técnica e da ética.
A supervisão em psicanálise
Para a escolha de um supervisor, a intuição é considerada um aspecto essencial. Não se recomenda que a decisão se baseie exclusivamente em opiniões de colegas, pois estas podem desconsiderar a percepção subjetiva do supervisionando. Além disso, convém evitar um excesso de racionalização em torno das linhas teóricas. O ideal é que a escolha seja orientada pelo que o supervisionando reconhece como fundamental para sua formação, levando em conta seu próprio percurso, suas demandas internas e o sentido que deseja atribuir à experiência de supervisão. Sempre que possível, também se sugere optar por um supervisor com quem não exista uma relação prévia de proximidade ou familiaridade. A construção de uma nova história relacional nessa esfera tende a propiciar frutos originais e enriquecedores. Supervisores com vínculos afetivos anteriores ou demasiadamente familiares podem reduzir, em certa medida, a potência transformadora da supervisão, cuja essência reside na ampliação e na revelação. É verdade que trabalhar com alguém mais próximo ou alinhado teoricamente oferece um terreno mais confortável. Contudo, a escolha de um supervisor “inédito” pode introduzir elementos novos ao processo, e estes são, sem dúvida, de grande valor para a formação psicanalítica (Gosling, 2021).
No início da trajetória profissional, um dilema fundamental será colocado ao analista: a escolha de um supervisor. Tal decisão será concebida como um processo que ultrapassará os critérios de afinidade teórica ou técnica, uma vez que nela estarão implicados os desejos e as expectativas do supervisionando. Nesse entrelaçamento de dimensões subjetivas e projeções pessoais, a experiência de supervisão será instaurada, configurando-se como um espaço potencialmente permeado por transformações significativas.
Assim como no trabalho analítico, considera-se fundamental, na supervisão, que se mantenha atenção ao ambiente, à atmosfera emocional e a tudo o que é vivido no contexto do encontro entre supervisor e supervisionando. Além de enriquecer a bagagem pessoal do supervisionando, todos esses elementos possuem potencial para se transformar em material de análise. Tudo o que é expresso na supervisão, desde as indicações de leitura, passando pela teoria, até os pensamentos e interpretações sobre o caso clínico, tem sua relevância. Recomenda-se também que se observe atentamente o que envolve a supervisão e o ambiente como um todo, incluindo as vivências desde a saída de casa, e não apenas o conteúdo discutido. Sobretudo, é importante valorizar a experiência vivida com o supervisor, de forma análoga ao que se faz com o próprio analista (Gosling, 2021). A formação em psicanálise exige do profissional a capacidade de manter uma atenção flutuante, sustentando uma escuta que ultrapassa aquilo que é dito de forma explícita.
Em sua essência, a supervisão em psicanálise deve ser compreendida como uma experiência que ultrapassa a mera transmissão de conhecimentos teóricos e técnicos. Trata-se de um espaço de elaboração, no qual o saber se entrelaça com a experiência clínica, favorecendo tanto a formação teórica quanto o amadurecimento subjetivo do profissional em formação.
A supervisão online em psicanálise
A supervisão online, assim como a própria história, é um processo que se assenta em um princípio essencial: a centralidade do ser humano concreto, vivo e enraizado em seu presente. O curso dos acontecimentos, especialmente marcado pelos efeitos sindêmicos da Covid-19, acabou por impulsionar a aceitação e a integração dos atendimentos virtuais. Muitos psicanalistas já vinham oferecendo essa modalidade há quase uma década. No entanto, é comum haver resistência em relação ao atendimento digital, por se compreender como insubstituível a experiência presencial, que envolve a corporeidade, o afeto e a linguagem em sua plenitude (Calao, 2022).
Embora muitos profissionais ainda recorram à supervisão presencial tradicional, a modalidade virtual vem ganhando espaço e facilitando a prática de diversos analistas. Trata-se de um espaço legítimo, pois os tempos atuais assim o exigem, e a psicanálise prontamente buscou responder às demandas de um mundo altamente tecnológico.
Para Calao (2022), as relevantes inovações tecnológicas, como a internet, associadas à chamada quarta ferida narcísica da humanidade, o ciberespaço, têm impulsionado, sobretudo, a comunicação, bem como a busca e o compartilhamento de conhecimentos. Nesse contexto, a internet consolidou-se como uma poderosa ferramenta de interação social, possibilitando novas formas de contato por meio do ambiente online.
Todas as relações vinculares carregam um componente simbólico, que envolve tanto o aparelho psíquico e o sujeito, quanto o ambiente e a dinâmica transferencial. Essa premissa se aplica tanto à prática clínica quanto às sessões de supervisão online, nas quais se sustentam as correlações fundamentais para que o enquadre, o manejo, a transferência, o inconsciente, a técnica e a escuta psicanalítica possam ser reconhecidos e validados pelo próprio supervisionando. A supervisão online apresenta, ainda, um caráter intrinsecamente relacionado ao seu processo de desenvolvimento, no qual o contingente e o necessário se entrelaçam de forma íntima e indissociável (Calao, 2022).
O ambiente virtual, em hipótese alguma, deve ser visto como inferior ao setting tradicional. A configuração é distinta, mas ambos os contextos são operantes e atendem às exigências de uma supervisão em psicanálise. Além disso, a psicanálise deve se reinventar, sem, contudo, perder a sua essência.
O enquadre da supervisão clínica online difere daquele utilizado no formato físico, presencial e face a face, mantendo, entretanto, sua articulação com a práxis psicanalítica. É essencial preservar as funções do enquadre de maneira dinâmica e tópica, uma vez que estas delimitam e integram aquilo que pertence ao “dentro” e ao “fora” do setting virtual. Tanto o atendimento analítico quanto a supervisão digital não apenas são possíveis, como já vêm se realizando; contudo, suas especificidades e contingências precisam ser consideradas e devidamente escutadas. A supervisão online apresenta suas próprias vicissitudes e limites, suscita movimentos transferenciais e promove uma pulverização das funções tradicionais do enquadre (Calao, 2022).
A transição abrupta do enquadre físico para o virtual parece afetar mais o “estojo” que guarda a joia do que a própria joia, entendida como a associação livre, a atenção flutuante e a neutralidade benevolente, já que o enquadre físico se torna interditado. Em nossa experiência com atendimentos psicanalíticos virtuais na clínica-escola de duas instituições de ensino, uma pública e outra privada, foi possível observar a presença de transferência, contratransferência e resistência. Nas supervisões dos casos, observou-se que a associatividade se manteve presente na maioria dos atendimentos, e a transferência institucional continuou a manifestar-se. Contudo, constatou-se que a transferência tende a se concentrar mais na imagem do profissional, possivelmente em função da ausência de outros elementos na tela (Cardoso et al., 2022).
De que maneira o universo digital, quando vivido de forma exclusiva, pode, por si só, favorecer ou comprometer o sentimento de pertencimento a uma instituição e a transmissão psicanalítica sustentada pelo tripé curso teórico/supervisão/análise pessoal? Essa é a questão que se coloca e que demanda investigação a partir de uma leitura psicanalítica. Ao longo de 2021, tornou-se cada vez mais evidente, nos trabalhos realizados online, a intensificação das carências internas decorrentes da ausência de convivência presencial em uma sociedade psicanalítica. E, no que diz respeito ao tripé curso teórico/supervisão/análise pessoal, em que medida – e de que modo – ele poderia estar sendo comprometido nessa nova configuração? (Lopes, 2021).
A transição exclusiva para o formato online impactou de forma menos significativa as supervisões coletivas das clínicas sociais. Isso se deve, em parte, à menor carga horária dessas atividades em comparação com os seminários teóricos, bem como ao fato de as supervisões iniciarem apenas a partir do terceiro ano do curso teórico, que tem duração total de quatro anos. No início da pandemia, os candidatos que já participavam das supervisões, ou que haviam sido recentemente admitidos, já contavam com dois ou mais anos de convivência institucional e de interação com os demais candidatos. Houve ainda a grata constatação de que a grande maioria dos pacientes acolheu de forma bastante satisfatória a transição para as terapias online (Lopes, 2021).
O setting virtual surgiu não como uma ruptura em relação ao tradicional, mas como uma extensão de uma prática já consolidada na psicanálise. Tal configuração favorece, e muito, a transmissão da psicanálise, sem prejuízos para o processo de supervisão clínica.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Para a psicanálise, a supervisão é um dos pilares fundamentais na formação e na prática do psicanalista. É um espaço de reflexão e discussão sobre a prática clínica, sobre o amor de transferência e sobre o manejo técnico no setting analítico.
Com o advento e os avanços do mundo tecnológico, a psicanálise teve que se adaptar às mudanças. Muitos psicanalistas já realizavam a supervisão online, mas foi com a chegada repentina da pandemia de Covid-19 essa prática da supervisão online passou a ser uma prática comum.
Os estudam apontam que a supervisão psicanalítica online oferece ao supervisionando um espaço seguro mantendo os princípios éticos e técnicos que fundamentam a psicanálise, considerando que as responsabilidades com a confidencialidade e o sigilo permanecem as mesmas.
Com o advento das tecnologias de comunicação, as distâncias geográficas parecem não mais existir, pois, se antes um(a) profissional somente poderia buscar supervisores(as) na sua cidade, agora ele(a) pode buscar os(as) profissionais em qualquer lugar e a qualquer hora, sem sair de casa; essa sem dúvida é uma das vantagens da supervisão psicanalítica online.
É certo que a supervisão psicanalítica online se constitui como uma prática do mundo contemporâneo, totalmente tecnológico, rápido e claro, e que a Psicanálise vem aos poucos também se adaptando à essa demanda social, mas é preciso que os supervisores e os supervisionandos estejam eticamente implicados em como essas transformações contemporâneas podem vir a banalizar os modos de transmissão da Psicanálise, a fim de contribuir para responder de forma crítica e criativa às demandas atuais da formação clínica.
Declaração sobre conflito de interesses: os autores declaram não haver conflito de interesses.
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1 Graduada em Psicologia; pós-graduada em Psicologia Hospitalar; pós-graduada em Psicanálise; Mestre em Psicologia Social; Doutora em Psicologia Clínica. Possui experiência nas áreas de Psicologia, Psicanálise e Educação Superior, com ênfase em Psicologia Clínica, Psicanálise com crianças e adolescentes, e seus pais, Atenção Psicossocial, Coordenação de Cursos de Graduação em Psicologia e na formação de psicólogas(os). Atualmente é professora titular do Curso de Graduação em Psicologia e Assessora da Diretoria do Instituto de Ciências Humanas da Universidade Paulista – UNIP. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1919-1623
2 Graduado em Psicologia; pós-graduado em Saúde Mental e Atenção Psicossocial; pós-graduado em Filosofia e Direitos Humanos; pós-graduado em Psicanálise; Mestre em Bioética; Doutor em Psicologia Clínica; e Pós-doutorado em Psicologia. Possui experiência nas áreas de Psicologia, Psicanálise e Educação Superior, com ênfase em Psicologia clínica, sexualidade, práticas psicossociais, psicopatologia, psicanálise e saúde mental. Atualmente é professor titular do curso de graduação em Psicologia da Universidade Paulista – UNIP. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-5119-4752
3 Graduado em Psicologia; pós-graduado em Psicoterapia Ambulatorial; pós-graduado em Psicopatologia e Neuropsicanálise; professor do curso de Psicologia da Universidade Paulista – UNIP.