REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/779938208
RESUMO
Este estudo de caso múltiplo, de abordagem qualitativa e clínico-observacional, analisou as estruturas de personalidade, mecanismos de defesa e padrões relacionais de duas adolescentes de 15 anos (Sujeito A e Sujeito B) em contexto escolar. A coleta de dados ocorreu por meio de entrevistas informais, escuta ativa e observação direta não participante. Os resultados revelaram perfis psicodinâmicos distintos. O Sujeito A apresentou padrão internalizante compatível com organização borderline: instabilidade emocional, crises de choro, autolesão (cortes), uso de álcool e maconha, medo intenso de abandono e rejeição familiar após revelar bissexualidade. Sua identidade frágil expressou-se simbolicamente por modificações estéticas (cabelos azuis) e relacionamentos afetivos dependentes e conflituosos. O Sujeito B exibiu padrão externalizante, com características histriônicas e traços narcísicos: teatralidade emocional, manipulação, necessidade constante de validação social, valorização excessiva de status e bens materiais, além de relacionamentos múltiplos e simultâneos, frequentemente ocultos e instrumentalizados para ganho simbólico. Ambas demonstraram fragilidade na regulação emocional e na consolidação de valores morais estáveis, porém com expressões distintas: uma por impulsividade emocional, outra por estratégia situacional. O estudo conclui que o ambiente escolar é espaço privilegiado para identificação precoce do sofrimento psíquico na adolescência, exigindo intervenções acolhedoras, preventivas e interdisciplinares, que transcendam práticas punitivas e considerem as singularidades psicodinâmicas de cada adolescente.
Palavras-chave: Adolescência; Sofrimento Psíquico; Transtornos de personalidade (Cluster B).
ABSTRACT
This multiple case study, with a qualitative and clinical-observational approach, analyzed the personality structures, defense mechanisms, and relational patterns of two 15-year-old adolescents (Subject A and Subject B) in a school context. Data collection occurred through informal interviews, active listening, and non-participant direct observation. The results revealed distinct psychodynamic profiles. Subject A presented an internalizing pattern compatible with borderline organization: emotional instability, crying spells, self-harm (cuts), use of alcohol and marijuana, intense fear of abandonment, and family rejection after revealing bisexuality. Their fragile identity was symbolically expressed through aesthetic modifications (blue hair) and dependent, conflictual affective relationships. Subject B exhibited an externalizing pattern, with histrionic characteristics and narcissistic traits: emotional theatricality, manipulation, constant need for social validation, excessive emphasis on status and material goods, as well as multiple and simultaneous relationships, often hidden and instrumentalized for symbolic gain. Both demonstrated fragility in emotional regulation and the consolidation of stable moral values, but with distinct expressions: one through emotional impulsivity, the other through situational strategy. The study concludes that the school environment is a privileged space for the early identification of psychological distress in adolescence, requiring welcoming, preventive, and interdisciplinary interventions that transcend punitive practices and consider the psychodynamic singularities of each adolescent.
Keywords: Adolescence; Psychological distress; Personality disorders (Cluster B); School context.
1. INTRODUÇÃO
A adolescência constitui um período crítico do desenvolvimento humano, caracterizado por intensas transformações biológicas, psicológicas e sociais. Nesse estágio, ocorre a consolidação da identidade, o amadurecimento emocional e a ampliação das relações interpessoais, tornando os indivíduos particularmente vulneráveis a conflitos internos, instabilidades afetivas e dificuldades adaptativas (DEL PRETTE, 2024; VALENÇA, 2023). O ambiente escolar, enquanto espaço privilegiado de socialização, frequentemente se configura como palco central para a manifestação dessas tensões, refletindo tanto processos saudáveis de desenvolvimento quanto sinais precoces de sofrimento psíquico (LOPES, 2001; BURGOS, 2019).
Nos últimos anos, observa-se um crescimento expressivo dos casos de sofrimento emocional entre adolescentes, com aumento significativo de comportamentos autolesivos, sintomas depressivos, ansiedade, conflitos interpessoais, uso de substâncias psicoativas e dificuldades de vinculação afetiva. Esses fenômenos demandam uma análise aprofundada que ultrapasse interpretações simplistas ou meramente disciplinares, incorporando uma compreensão psicodinâmica capaz de integrar fatores emocionais, familiares, sociais e culturais (TOGNETTA et al., 2022; LOBATO et al., 2023).
No contexto escolar, manifestações comportamentais disruptivas, crises emocionais recorrentes e dificuldades de relacionamento são frequentemente interpretadas como problemas de conduta ou indisciplina. Contudo, tais comportamentos podem representar expressões simbólicas de conflitos psíquicos mais profundos, associados a experiências traumáticas, vínculos familiares fragilizados, rejeição social, estigmatização e dificuldades na construção da identidade (TOGNETTA et al., 2022; LOBATO et al., 2023). Dessa forma, a escola torna-se não apenas um espaço educativo, mas também um cenário privilegiado para a observação clínica de padrões emocionais e relacionais.
Particularmente relevante nesse contexto é a compreensão das estruturas de personalidade pertencentes ao Cluster B, caracterizadas por instabilidade emocional, impulsividade, dramatização, necessidade intensa de validação externa e dificuldades no controle dos afetos. Essas organizações psicopatológicas, quando manifestadas na adolescência, apresentam elevada complexidade diagnóstica, uma vez que os processos maturacionais ainda estão em curso, exigindo cautela na formulação de hipóteses clínicas e intervenções (DSM, APA et al., 2014).
Nesse sentido, o estudo de caso múltiplo apresenta-se como uma estratégia metodológica privilegiada para investigar, em profundidade, as singularidades das trajetórias emocionais e comportamentais de adolescentes em sofrimento. Essa abordagem possibilita a análise integrada entre discurso, comportamento e referencial teórico, favorecendo a construção de interpretações psicodinâmicas consistentes.
Diante desse panorama, o presente estudo tem como objetivo analisar as estruturas de personalidade, os mecanismos de defesa e os padrões relacionais de duas adolescentes em contexto escolar, investigando a correlação entre comportamento observável e narrativas subjetivas. Busca-se compreender como experiências traumáticas, dinâmicas familiares disfuncionais e demandas sociais influenciam a organização psíquica e a manifestação dos sintomas, contribuindo para o desenvolvimento de estratégias interventivas mais eficazes no âmbito educacional e psicossocial.
Ao integrar observação clínica, escuta qualificada e fundamentação teórica, este trabalho pretende contribuir para o aprofundamento da compreensão dos processos psicodinâicos na adolescência, ampliando o olhar sobre o sofrimento psíquico no ambiente escolar e reforçando a importância de abordagens preventivas, humanizadas e interdisciplinares.
2. MATERIAL E MÉTODO
Delineamento do Estudo
Trata-se de um estudo de caso múltiplo, de abordagem qualitativa, com enfoque clínico-observacional, realizado em ambiente escolar. O objetivo foi analisar a relação entre comportamentos observáveis e narrativas subjetivas de duas adolescentes, identificadas como Sujeito A e Sujeito B, visando compreender padrões emocionais, relacionais e psicodinâmicos.
Participantes e Contexto
Participaram do estudo duas adolescentes do sexo feminino, com idade aproximada de 15 anos, matriculadas no ensino médio. A seleção ocorreu em razão da presença recorrente de conflitos interpessoais, sofrimento emocional e dificuldades de adaptação no contexto escolar. Para garantir o anonimato, as participantes foram identificadas por códigos alfanuméricos.
Coleta de Dados
A coleta de dados ocorreu por meio de entrevistas informais, escuta ativa e observação direta não participante, realizadas ao longo do período letivo.
Dados Verbais
Os relatos foram obtidos em diálogos espontâneos e atendimentos informais, permitindo acessar conteúdos subjetivos relacionados a experiências familiares, vivências traumáticas, identidade, valores sociais e relações interpessoais.
Observação Comportamental
A observação direta foi conduzida em ambientes de convivência escolar, como salas de aula e pátios, com foco nos padrões de interação social, episódios de conflito, respostas emocionais, postura frente à autoridade e estratégias de busca por validação (Tabela 1).
Tabela 1 – Síntese das Observações Clínico-Comportamentais
Dimensão Avaliada | Sujeito A | Sujeito B |
Dados sociodemográficos | Sexo feminino, 15 anos | Sexo feminino, 15 anos |
Estado emocional | Instabilidade emocional, crises frequentes de choro, medo de abandono, sentimento de rejeição | Dramatização emocional, baixa tolerância à frustração, reatividade afetiva |
Comportamentos de risco | Autolesão (cortes), uso de álcool e maconha | Não relatado |
Relações familiares | Relato de agressão física parental após revelação de relacionamento homoafetivo; presença de irmão com TEA | Pai separado da mãe; convivência com padrasto; postura desafiadora frente à autoridade |
Identidade e orientação afetivo-sexual | Identificação bissexual | Interesse afetivo-sexual exclusivamente por homens |
Padrões relacionais afetivos | Relacionamentos intensos, instáveis, com sucessivos conflitos e rompimentos; medo intenso de abandono | Relacionamentos múltiplos e simultâneos, flerte recorrente, ocultação de parceiros e alternância entre sedução e afastamento |
Traços comportamentais predominantes | Postura vitimista, dependência emocional, hipersensibilidade à rejeição | Manipulação interpessoal, vaidade excessiva, busca por status e validação social |
Aspectos psicossociais relevantes | Contexto familiar conflituoso, vulnerabilidade emocional, exposição a ambientes de risco | Forte preocupação com imagem, valorização excessiva de bens materiais e posição social |
Trajetória posterior | Ingresso em curso superior de Psicologia | Não informado |
Fonte: Elaborado pelos autores
Análise dos Dados
Os dados foram analisados por triangulação, integrando:
Relatos verbais;
Comportamentos observados;
Referencial teórico psicodinâmico e psicopatológico, especialmente os modelos de transtornos de personalidade e mecanismos de defesa.
Essa abordagem permitiu uma compreensão integrada dos padrões emocionais, relacionais e comportamentais.
Aspectos Éticos
Este estudo caracteriza-se como um relato de experiência, fundamentado em observações oriundas da prática educacional e clínica, sem identificação dos participantes. Foram respeitados os princípios éticos da confidencialidade, anonimato e não exposição das adolescentes envolvidas, conforme preconizam as Resoluções nº 466/2012 e nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde. Todas as informações foram tratadas de forma a preservar a integridade psicológica, social e moral das participantes.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Sujeito A: Configuração Psicossocial, Dinâmica Identitária e Expressão do Sofrimento nas Relações Interpessoais
O Sujeito A, adolescente do sexo feminino, 15 anos, apresentou um histórico psicossocial marcado por instabilidade emocional, conflitos familiares intensos e vivências reiteradas de rejeição afetiva. O contexto familiar revelou-se um fator central na constituição de seu sofrimento psíquico, especialmente em razão da atenção prioritária destinada ao irmão diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista, situação frequentemente relatada como fonte de sentimentos de invisibilidade, exclusão e desvalorização pelos pais.
Além disso, a revelação de sua bissexualidade foi seguida de rejeição explícita e violência física por parte dos pais, episódio descrito como profundamente traumático, configurando-se como marco significativo no agravamento de sua instabilidade emocional. Tal vivência intensificou o sentimento de não pertencimento familiar, potencializando o medo de abandono e a fragilização da identidade.
No ambiente escolar, o Sujeito A apresentou crises frequentes de choro, comportamento vitimista, retraimento social intercalado com explosões emocionais, além de práticas autolesivas por meio de cortes nas pernas. Observou-se também o uso recorrente de álcool e maconha, configurando tentativas desadaptativas de regulação emocional.
Essas manifestações indicam um padrão de internalização da dor psíquica, no qual a agressividade é voltada contra o próprio corpo, característica compatível com quadros de organização borderline, nos quais predominam instabilidade afetiva, impulsividade, vazio existencial e dificuldades na simbolização das emoções (LEICHSENRING et al 2011; DSM, APA et al 2014).
A construção da identidade no Sujeito A revelou-se marcada por busca intensa de pertencimento e diferenciação, expressa simbolicamente por meio da modificação estética corporal, especialmente a coloração azul dos cabelos, funcionando como um marcador de singularidade, contestação e tentativa de afirmação subjetiva.
Esse recurso estético parece cumprir função defensiva, permitindo à adolescente externalizar conflitos internos, construir pertencimento a subgrupos sociais e delimitar uma identidade própria frente à percepção de invisibilidade familiar (DOS SANTOS DARDI et al 2024; VIEIRA et al 2025).
O Sujeito A apresentou histórico de múltiplos relacionamentos e envolvimentos afetivos breves, frequentemente marcados por rompimentos conflituosos, com meninas, sofrimento emocional intenso e sensação de abandono. Observou-se um padrão relacional caracterizado por idealização inicial, rápida vinculação afetiva e subsequente frustração, frequentemente culminando em crises emocionais.
Posteriormente, estabeleceu um vínculo mais duradouro com um parceiro, menino, usuário de drogas, também portador de significativo sofrimento emocional decorrente da rejeição paterna, visto que era filho de um empresário com uma empregada doméstica, contexto que contribuiu para sentimentos de desvalorização e abandono. Essa convergência de fragilidades emocionais favoreceu uma relação baseada em identificação mútua com a dor, fortalecendo a dependência afetiva e a necessidade recíproca de acolhimento (Tabela 2).
Essa dinâmica reforça a hipótese de uma organização emocional marcada pela dependência, medo de perda e busca constante por validação afetiva, compatível com estruturas borderline (DSM, APA et al., 2014; DALGALARRONDO, VILELA, 1999).
Sujeito B: Configuração Psicossocial, Dinâmica Identitária e Expressão do Sofrimento nas Relações Interpessoais
O Sujeito B, adolescente do sexo feminino, 15 anos, apresentou um perfil psicossocial marcado por intensa necessidade de validação externa, preocupação com status social e investimento excessivo na autoimagem. Oriunda de uma família com separação parental, residindo com a mãe e o padrasto, desenvolveu uma dinâmica emocional voltada para reconhecimento, valorização simbólica e controle da percepção alheia.
A configuração familiar, associada a fatores socioculturais, parece ter favorecido a construção de uma identidade fortemente orientada pela performance social, na qual a autoestima depende predominantemente da admiração e aprovação externa (MICELI,2000).
O Sujeito B apresentou comportamento caracterizado por teatralidade emocional, dramatização recorrente, manipulação narrativa e postura desafiadora frente à autoridade institucional. Relatos frequentes de eventos traumáticos familiares, muitas vezes inconsistentes ou mutáveis, foram utilizados estrategicamente para mobilizar empatia, isenção de responsabilidade e controle social.
Essas estratégias indicam um padrão de externalização da angústia, no qual o sofrimento é regulado por meio da sedução, dramatização e controle do ambiente, características compatíveis com estruturas histriônicas associadas a traços narcísicos (LOWEN, 2017; BECK, DAVIS, FREEMAN 1995).
Observou-se forte investimento em bens materiais de alto valor simbólico, como dispositivos eletrônicos e vestuário de marca, além de frequentes menções a estilos de vida associados a prestígio social. Esses elementos funcionam como instrumentos de construção identitária e diferenciação hierárquica, reforçando a necessidade de admiração e reconhecimento.
A autoimagem, nesse contexto, assume papel central na organização psíquica, operando como mecanismo compensatório para fragilidades internas, frequentemente encobertas por uma fachada de autoconfiança, superioridade e controle (HANLY, 1984; FREUD,2024).
A dinâmica relacional do Sujeito B mostrou-se marcada por multiplicidade de parceiros, ocultação estratégica, flerte recorrente e instabilidade afetiva. Inicialmente, mantinha em segredo um relacionamento com um professor, atribuindo-lhe elevado status econômico (DONOVAN, 2020). Posteriormente, revelou envolvimento com outro parceiro, sendo observada simultaneamente em comportamento de sedução com terceiros.
Mais tarde, confirmou ainda vínculo com um parceiro militar, configurando um padrão de sobreposição relacional (Tabela 2). Esse comportamento indica uso dos vínculos afetivos como instrumentos de validação social, prestígio simbólico e exercício de poder interpessoal, em detrimento da intimidade emocional genuína (DONOVAN, 2020).
Tabela 2 – Síntese Comparativa Integrativa dos Sujeitos A e B
Dimensão | Sujeito A | Sujeito B |
Organização Psíquica | Borderline (internalizante) | Histriônica com traços narcísicos (externalizante) |
Eixo Central do Sofrimento | Medo de abandono e rejeição | Necessidade de validação e status |
Regulação Emocional | Autolesão, choro, uso de drogas | Dramatização, sedução, manipulação |
Direção da Agressividade | Contra si | Contra o ambiente |
Identidade | Fragilizada e instável | Performática e inflada |
Expressão da Autoimagem | Cabelos coloridos (afirmação identitária) | Bens materiais e aparência (status) |
Dinâmica Familiar | Rejeição e negligência emocional | Separação parental e busca compensatória |
Relacionamentos Amorosos | Dependentes, conflituosos e instáveis | Instrumentais, múltiplos e simultâneos |
Função do Vínculo | Acolhimento e reparação emocional | Validação social e prestígio |
Resposta à Frustração | Retraimento, choro e autolesão | Raiva, teatralização e controle |
Relação com Autoridade | Busca por apoio | Postura desafiadora |
Impacto no Ambiente Escolar | Gera preocupação e acolhimento | Gera conflitos e rivalidade |
Síntese Clínica | Sofrimento internalizado | Sofrimento externalizado |
Fonte: Elaborado pelos autores
Comportamento Preditivo nos Padrões de Relacionamento Afetivo Sujeito A e B
O padrão comportamental da pessoa A sugere uma tendência à instabilidade afetiva, impulsiva nas relações e busca constante por validação emocional. A sucessão de namoros, frequentemente interrompidos por conflitos, indica dificuldade em manter vínculos duradouros, baixa tolerância à frustração e possível necessidade intensa de atenção. A escolha de parceiros com perfis emocionalmente fragilizados ou socialmente instáveis pode refletir tanto uma identificação com a vulnerabilidade do outro quanto uma tentativa inconsciente de exercer controle ou obter reconhecimento. Prediz-se, portanto, manutenção de ciclos relacionais marcados por intensidade emocional, conflitos recorrentes, rompimentos abruptos e recomeços frequentes, além de risco aumentado para sofrimento psíquico, sentimento de vazio e dependência emocional (MALDONATO et al., 2018; BECK, DAVIS, FREEMAN 1995).
A análise do comportamento moral da Sujeito A indica instabilidade nos valores relacionais, especialmente no que diz respeito ao compromisso, responsabilidade afetiva e constância emocional. Seus múltiplos envolvimentos afetivos, marcados por ciclos frequentes de aproximação e rompimento, sugerem uma moralidade fortemente influenciada por impulsividade, busca de validação emocional e dificuldades na regulação afetiva, ou seja fraca moralidade (FIGUEIREDO, 2024). As relações parecem funcionar como mecanismos compensatórios para sentimentos internos de insegurança, carência ou baixa autoestima, o que reduz a capacidade de sustentar vínculos baseados em compromisso, empatia e reciprocidade (BECK, DAVIS, FREEMAN 1995; FIGUEIREDO, 2024). Vários estudos indicam que tais indivíduos tem alta tendência de promiscuidade (DALGALARRONDO, VILELA, 1999).
Além disso, a tolerância a relacionamentos marcados por conflitos, uso de substâncias e instabilidade familiar do parceiro sugere uma flexibilização dos critérios morais, possivelmente associada a um padrão de aceitação emocional disfuncional. Observa-se uma tendência à normalização de relações problemáticas, o que pode indicar fragilidade nos limites morais pessoais, dificuldade de autoafirmação e busca por pertencimento, mesmo em contextos afetivamente desfavoráveis. Esse padrão sugere uma moralidade situacional, fortemente modulada pelas emoções do momento (BECK, DAVIS, FREEMAN 1995; FIGUEIREDO, 2024, DSM, APA et al., 2014).
A pessoa B apresenta um padrão mais ambivalente e estratégico nas relações, caracterizado por ocultação de vínculos, múltiplos envolvimentos simultâneos e flerte mesmo durante relacionamentos formais. Isso sugere conflito interno entre desejo de segurança emocional e necessidade de excitação, status ou validação social. A oscilação entre parceiros com perfis distintos (professor percebido como rico, militar, outro namorado oculto) indica possível instrumentalização afetiva, baixa clareza identitária e dificuldade em estabelecer limites relacionais. Prediz-se, assim, manutenção de relações paralelas, instabilidade nos compromissos, conflitos interpessoais frequentes e possível desgaste emocional progressivo, além de maior propensão a sentimento de culpa, ansiedade e medo de abandono.
A Sujeito B apresenta um padrão moral caracterizado por ambivalência ética e comportamento relacional contraditório. O envolvimento simultâneo ou sucessivo com diferentes parceiros, associado à ocultação inicial dos relacionamentos, indica dificuldades na internalização de valores como lealdade, honestidade e responsabilidade afetiva. A presença de flertes paralelos enquanto mantinha um relacionamento estável aponta para um conflito entre desejo, necessidade de validação social e princípios morais, resultando em condutas incoerentes (PALMA et al., 2020).
Observa-se também uma moralidade fortemente influenciada por fatores externos, como status social, poder simbólico e idealizações associadas à figura do parceiro. Isso sugere que suas escolhas afetivas não se estruturam prioritariamente em princípios éticos consolidados, mas sim em critérios circunstanciais, relacionados à imagem, segurança financeira e reconhecimento social. Tal padrão indica fragilidade na construção da autonomia moral e tendência à tomada de decisão baseada em ganhos simbólicos imediatos, em detrimento da coerência ética (MONTEIRO et al., 2017; DONOVAN; 2020).
Em suma, ambas apresentam fragilidade na consolidação de valores morais estáveis, especialmente no contexto afetivo. No entanto, essa fragilidade se manifesta de formas distintas: enquanto a Sujeito A demonstra uma moralidade predominantemente emocional e impulsiva, a Sujeito B apresenta uma moralidade mais estratégica e situacional, orientada por conveniências sociais e afetivas. Em ambos os casos, há comprometimento dos princípios de lealdade, constância e responsabilidade emocional, sugerindo imaturidade moral-relacional e dificuldades no estabelecimento de vínculos éticos e saudáveis.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente relato de experiência possibilitou uma compreensão mais aprofundada acerca de como distintas trajetórias de desenvolvimento emocional, familiar e social influenciam de maneira significativa a organização da personalidade e os padrões comportamentais de adolescentes no contexto escolar. A análise comparativa entre os Sujeitos A e B evidenciou que, embora ambas apresentem sofrimento psíquico relevante, os mecanismos de enfrentamento e as formas de expressão emocional seguem direções distintas, revelando modos particulares de adaptação às adversidades vivenciadas. Observa-se que tais características dialogam com aspectos associados aos Transtornos de Personalidade do Grupo B (Cluster B), os quais se caracterizam por comportamentos marcadamente dramáticos, emocionais ou erráticos, instabilidade nas relações interpessoais e impulsividade. Esse grupo compreende os transtornos Borderline, Antissocial, Narcisista e Histriônico, frequentemente relacionados a dificuldades na regulação emocional, padrões relacionais disfuncionais, comportamentos manipulativos e prejuízos na empatia.
O Sujeito A demonstrou um padrão predominantemente internalizante, caracterizado por instabilidade emocional, autolesão, crises de choro, uso de substâncias e intensos sentimento de rejeição e abandono. Esses comportamentos sugerem dificuldades na regulação afetiva e fragilidade na construção da identidade, fortemente influenciadas por experiências familiares marcadas por conflito, negligência emocional e não aceitação da orientação sexual. Provavelmente tendo fortes tendência a transtorno Borderline. Além disso, observou-se um movimento progressivo de busca por compreensão e reparação subjetiva, evidenciado pelo posterior ingresso no curso de Psicologia, indicando potencial de ressignificação da própria história e fortalecimento do self.
Em contraste, o Sujeito B apresentou um funcionamento predominantemente externalizante, marcado por teatralidade emocional, busca constante por validação social, valorização excessiva da imagem e do status, além de padrões relacionais instáveis e manipulativos. Tais características sugerem estratégias defensivas voltadas à manutenção de uma autoimagem grandiosa, funcionando como proteção frente a sentimentos subjacentes de insegurança, baixa autoestima e medo da rejeição. A hipótese de transtornos Histriônico e Narcisismos é o mais provável para esse sujeito. Esse padrão tende a gerar conflitos interpessoais recorrentes e dificuldades na construção de vínculos afetivos autênticos.
A análise integrada dos casos evidencia que o ambiente escolar se configura como espaço privilegiado para a identificação precoce de sinais de sofrimento psíquico e vulnerabilidade emocional. Nesse contexto, torna-se fundamental que educadores, equipes pedagógicas e profissionais da saúde estejam capacitados para reconhecer tais manifestações, adotando intervenções que transcendam práticas punitivas, priorizando abordagens acolhedoras, preventivas e interdisciplinares.
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1 Universidade Federal do Maranhão, MA, Brasil, E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Centro Universitário Santa Teresinha, MA, Brasil, E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
3 Atenção Primária de Paco do Lumiar, E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
4 Universidade Federal do Maranhão, MA, Brasil, E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
5 Faculdade Laboro, E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
6 Facuminas, E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
7 Universidade Federal do Maranhão, MA, Brasil, E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
8 Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia do Maranhão, MA, Brasil, E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
9 Universidade Federal do Maranhão, MA, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
10 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão, MA, Brasil, E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail