REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/789529708
RESUMO
Este artigo analisa a Sociolinguística da Língua Brasileira de Sinais (Libras), enfatizando a variação linguística, os usos sociais e as práticas construídas por comunidades surdas. A pesquisa, de natureza bibliográfica e abordagem qualitativa, articula quinze estudos sobre variação lexical, fonética, fonológica e geográfica, comunidades de prática, identidade, translinguagem, ideologias e políticas linguísticas. Os resultados indicam que a Libras apresenta heterogeneidade sistemática, condicionada por fatores sociais, históricos, regionais, educacionais e interacionais, evidenciando que diferentes formas de sinalização não constituem desvios, mas possibilidades legítimas de uso. Os estudos também demonstram que repertórios compartilhados, espaços educacionais, mídias digitais e circulação científica participam da construção identitária e da valorização da língua. Conclui-se que compreender a Libras sociolinguisticamente exige relacionar estrutura e vida social, combater processos de apagamento e padronização excessiva e ampliar pesquisas conduzidas com participação efetiva de pessoas surdas na documentação de suas variedades e práticas linguísticas contemporâneas em diferentes contextos sociais brasileiros.
Palavras-chave: Libras; Sociolinguística; Variação linguística; Comunidade surda.
ABSTRACT
This article analyzes the sociolinguistics of Brazilian Sign Language (Libras), emphasizing linguistic variation, social uses, and practices developed within Deaf communities. The study adopts a bibliographic and qualitative approach and draws on fifteen studies addressing lexical, phonetic, phonological, and geographical variation, communities of practice, identity, translanguaging, language ideologies, and language policies. The findings indicate that Libras exhibits systematic heterogeneity shaped by social, historical, regional, educational, and interactional factors, demonstrating that different forms of signing should not be regarded as deviations, but rather as legitimate possibilities of language use. The studies also demonstrate that shared repertoires, educational environments, digital media, and the circulation of scientific knowledge contribute to identity construction and the valorization of the language. It is concluded that understanding Libras from a sociolinguistic perspective requires relating linguistic structure to social life, challenging processes of linguistic erasure and excessive standardization, and expanding research conducted with the effective participation of Deaf people in documenting their contemporary linguistic varieties and practices across different Brazilian social contexts.
Keywords: Brazilian Sign Language; Sociolinguistics; Linguistic variation; Deaf community.
1. INTRODUÇÃO
A Língua Brasileira de Sinais (Libras) constitui uma língua visual-gestual cuja dinâmica social não pode ser reduzida a um inventário fixo de sinais. Sua circulação em diferentes regiões, gerações, espaços educacionais, associações, ambientes profissionais, redes digitais e situações de contato linguístico evidencia uma língua viva, submetida aos mesmos princípios gerais de heterogeneidade, variação e mudança observados nas demais línguas naturais. A perspectiva sociolinguística torna-se, portanto, especialmente produtiva para compreender não apenas como determinados sinais variam, mas também porque certas formas emergem, circulam, adquirem prestígio, são estigmatizadas ou passam a funcionar como marcas de pertencimento entre sujeitos e grupos surdos.
A bibliografia especializada analisada neste artigo revela que a variação na Libras pode manifestar-se em diferentes níveis. Xavier e Barbosa (2014, p. 371-372) demonstram que um mesmo item lexical pode apresentar realizações distintas em parâmetros articulatórios sem alteração de significado, enquanto Alecrim e Xavier (2020, p. 1-4) aprofundam a observação da alternância entre configurações de mão. Em perspectiva regional, Moraes (2018, p. 39-42) registra diferenças nos sinais empregados para os meses em Goiás e Mato Grosso do Sul, e Monteiro (2019, p. 190-193) analisa variantes dos sinais SOBRE e CONTRA produzidas por participantes de diferentes estados. Esses resultados deslocam a Libras de qualquer representação de homogeneidade e permitem tratá-la como prática social situada.
O enfoque sociolinguístico também amplia a análise para além das unidades estruturais. A forma como a língua é mobilizada depende de trajetórias de escolarização, redes de interação, atividades profissionais, repertórios compartilhados e contextos comunicativos. Valentim, Dizeu e Costa (2020, p. 5-8) relacionam a variação fonológica ao conceito de comunidade de prática, mostrando que formas de sinalização, postura e outros recursos podem participar da construção de pertencimentos. Santos e Azevedo (2024, p. 125-127), ao discutir a variação lexical na região metropolitana de São Luís, aproximam Sociolinguística Variacionista, Dialetologia e noções de comunidade para interpretar a diversidade da Libras no plano territorial e social.
Essa compreensão é inseparável das práticas culturais e identitárias da comunidade surda. Faria (2006, p. 19-20) evidencia a centralidade da língua de sinais e da cultura surda na construção de práticas educacionais capazes de fortalecer identidades. Em contexto mais recente, Fraga e Lagrange (2026, p. 33-35) mostram que produções audiovisuais e redes sociais constituem espaços de representação das experiências surdas, de circulação de identidades e de ampliação da visibilidade pública. Assim, estudar os usos sociais da Libras significa observar tanto interações presenciais quanto práticas mediadas por tecnologias e diferentes gêneros discursivos sinalizados.
Outra dimensão relevante diz respeito às relações entre língua, poder e ideologia. Gonçalves Júnior et al. (2018, p. 57-60) discutem políticas linguísticas e plurilinguismo a partir da relação entre línguas e poder, indicando a necessidade de ações que ampliem a difusão social da Libras. Linhares (2024, p. 10524-10528) e Stumpf e Linhares (2025, p. 207-210) demonstram que concepções acerca das línguas de sinais podem produzir hierarquizações, apagamentos de variedades, policiamentos, purismos e processos de padronização. Desse modo, a análise sociolinguística necessita examinar não somente o que varia, mas os valores sociais atribuídos às variantes e aos sujeitos que as utilizam.
Diante desse quadro, o problema que orienta este estudo pode ser formulado da seguinte maneira: de que modo a produção acadêmica sobre Libras permite compreender a articulação entre variação linguística, usos sociais e práticas da comunidade surda? O objetivo geral consiste em analisar como estudos sociolinguísticos e trabalhos correlatos descrevem a heterogeneidade da Libras e relacionam suas variantes às práticas sociais, identidades, comunidades de prática, políticas e ideologias linguísticas. Como objetivos específicos, busca-se: discutir manifestações lexicais, fonéticas, fonológicas e regionais da variação; examinar usos da Libras em espaços educacionais, midiáticos e científicos; compreender o papel dos repertórios compartilhados na constituição de comunidades e identidades; e problematizar tensões entre documentação, padronização e valorização da diversidade linguística.
Metodologicamente, trata-se de pesquisa bibliográfica de abordagem qualitativa, construída a partir de quinze artigos científicos fornecidos como fontes para este trabalho. O corpus reúne estudos publicados em periódicos como Revista Sinalizar, Revista Espaço, Revista Arqueiro, SCIAS Língua de Sinais, DELTA, Fórum Linguístico, Working Papers em Linguística e Domínios de Lingu@gem. A análise foi organizada por eixos temáticos, buscando preservar os resultados e conceitos apresentados pelos próprios autores. Não se pretende produzir uma descrição exaustiva de todas as variedades da Libras, mas construir uma síntese teórica capaz de evidenciar como a língua se constitui na relação entre estrutura, território, interação, cultura, identidade, poder e práticas sociais.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
2.1. Sociolinguística da Libras: Heterogeneidade, Variação e Mudança
A Sociolinguística parte do princípio de que a língua não existe fora das relações sociais que tornam possível seu uso. Aplicada à Libras, essa perspectiva exige reconhecer que os sinalizantes não constituem um conjunto homogêneo e que suas formas de expressão são atravessadas por região, idade, escolarização, profissão, redes de convivência, história de aquisição da língua, contextos formais ou informais e experiências culturais. Moraes (2018, p. 39) sintetiza um ponto fundamental ao afirmar que “a variação linguística [...] também se faz presente nas línguas de sinais”. A formulação é breve, mas decisiva, porque rompe com a expectativa de uniformidade e situa a diferença como propriedade constitutiva do sistema linguístico.
No estudo das línguas de sinais, a heterogeneidade pode ser observada em dimensões fonético-fonológicas, lexicais e discursivas. Xavier e Barbosa (2014) produziram uma das descrições empíricas centrais para essa discussão ao analisar 60 sinais realizados por 12 sujeitos surdos. Os autores registraram tanto variação entre sinalizantes quanto variação no repertório de um mesmo participante, demonstrando que a forma concreta dos sinais não é invariável. Essa constatação permite aproximar o conceito de pronúncia, usado nas línguas orais, das distintas realizações articulatórias encontradas em uma língua de modalidade visual.
Estudos fonético-fonológicos sobre a língua de sinais americana (ASL) demonstraram que os itens lexicais dessa língua se constituem de unidades distintivas (parâmetros) e que estas, por sua vez, podem apresentar variação em sua manifestação concreta. Pouco se sabe sobre os parâmetros constitutivos dos sinais da língua brasileira de sinais (libras), tampouco sobre sua variação. Este trabalho representa um primeiro passo rumo a um entendimento de como se dá a variação na produção de sinais da libras a partir do estudo das produções, por 12 sinalizadores, de 60 sinais dessa língua. A análise dessas produções [...] ratificou a ocorrência da variação inter-sujeito nos parâmetros configuração de mão, localização, movimento, orientação, número de mãos e marcações não-manuais [...] e evidenciou a ocorrência de variação intra-sujeito em todos os parâmetros analisados. (Xavier; Barbosa, 2014, p. 371).
A relevância da passagem está em demonstrar que a variação não é periférica ao funcionamento da Libras. Ela alcança os parâmetros que constituem a organização formal dos sinais e pode ocorrer de modo interindividual e intraindividual. Em outras palavras, uma pessoa pode não sinalizar sempre da mesma maneira, e diferentes pessoas podem realizar o mesmo item lexical com diferenças articulatórias sem necessariamente produzir distinção semântica. Xavier e Barbosa (2014, p. 372) explicam que essas diferentes “pronúncias” correspondem a formas que os sinais assumem nas produções de distintos sinalizantes ou do mesmo sinalizante sem mudança de significado.
Alecrim e Xavier (2020, p. 1-4) aprofundam esse problema ao investigar alternâncias entre pares de configurações de mão. O estudo mostra que determinadas configurações são mais frequentes, embora coexistam com outras realizações e com variantes relacionadas à posição do polegar. Os autores salientam que a variação fonético-fonológica da Libras pode ocorrer em configuração de mão, localização, movimento, orientação da palma, expressões não manuais e número de mãos. A descrição contribui para diferenciar contrastes realmente distintivos de casos em que duas formas articulatórias podem realizar o mesmo sinal.
Monteiro (2019, p. 190-193) enfatiza que a Sociolinguística focaliza o uso efetivo da língua por uma comunidade e considera que as variações podem ser geográficas ou sociais, além de se relacionarem ao contexto de uso. Em sua pesquisa, idade, sexo e escolaridade são tomados como fatores relevantes para a observação das variantes de SOBRE e CONTRA. A autora também recupera a relação entre escolarização e comportamento linguístico. Nesse ponto, apresenta-se a citação de citação solicitada neste estudo: Votre (apud Monteiro, 2019, p. 192) considera que diferentes níveis de escolarização podem provocar mudanças perceptíveis nos usos linguísticos, razão pela qual a escolaridade deve ser tratada como variável analítica. Como se trata de citação de citação, apenas a fonte efetivamente consultada, Monteiro (2019), integra as referências finais.
2.2. Variação Lexical, Regional e Fonético-Fonológica
Entre os fenômenos mais visíveis para usuários da Libras está a variação lexical regional. Em um país de grande extensão territorial, comunidades surdas estabelecem redes de contato com histórias locais próprias, instituições educacionais específicas, associações e trajetórias distintas de circulação de sinalizantes. Moraes (2018, p. 39-42) analisa materiais de Goiás e Mato Grosso do Sul e identifica 21 sinais distintos relacionados aos meses do ano, com variação em um, dois ou em todos os parâmetros descritos. O dado demonstra que a regionalização não se limita à troca de um item por outro; ela pode envolver diferentes combinações articulatórias e modos locais de estabilização do léxico.
A pesquisa de Monteiro (2019, p. 193-202), realizada com 18 participantes de Santa Catarina, São Paulo e Rio de Janeiro, volta-se aos sinais SOBRE e CONTRA. A escolha de participantes de diferentes estados e a estratificação por sexo, idade e escolaridade permitiram observar a possibilidade de variantes regionais e fonológicas. O estudo reforça a importância de registrar a produção real de sinalizantes, porque materiais pedagógicos e dicionários não necessariamente abarcam todas as formas em circulação. A documentação, nesse sentido, deve ser compreendida como registro da diversidade, e não como instrumento automático de seleção de uma única forma legítima.
Santos e Azevedo (2024, p. 121-127) oferecem contribuição recente ao analisar a variação lexical do sinal CAMaleão em São Luís, São José de Ribamar, Raposa e Paço do Lumiar, no Maranhão. Os autores trabalham com Sociolinguística Variacionista e Dialetologia e observam que os dados apresentam ampla diversidade. Ao mesmo tempo, adotam cautela metodológica ao afirmar que a amostra reduzida não permite generalizações definitivas. Essa postura é relevante para a Sociolinguística da Libras: a identificação de diferenças locais precisa ser acompanhada de amostras adequadas, descrição transparente dos participantes e análise das condições de produção dos dados.
A dimensão geográfica, portanto, deve ser articulada à dimensão social. Santos e Azevedo (2024, p. 126) ressaltam que uma variante não se explica apenas pelo espaço, pois os usos também se relacionam às informações sociais dos usuários. Isso impede a criação de mapas linguísticos rígidos nos quais cada estado teria um único sinal supostamente próprio. Os limites entre variedades podem ser porosos, sobretudo em um cenário de intensa mobilidade, formação universitária, circulação de vídeos em redes sociais, eventos nacionais da comunidade surda e contato entre sinalizantes de diferentes regiões.
No nível fonético-fonológico, Alecrim e Xavier (2020, p. 1-4) mostram que configurações de mão distintivas em determinados pares mínimos podem alternar em outros sinais sem alterar o significado. A descrição de formas como 1/D e A/S evidencia que a variação exige observação minuciosa dos parâmetros. O valor de um traço não pode ser inferido isoladamente: é necessário considerar o item lexical, o contexto articulatório e a distribuição das realizações. Essa análise contribui para uma compreensão mais refinada da fonologia da Libras e para práticas de ensino menos prescritivas.
A identificação da variação também depende de recursos de registro capazes de preservar a informação visual. Galasso (2026, p. 1-3) observa que métodos de glosagem centrados na tradução conceitual podem eliminar detalhes articulatórios necessários à análise das variantes. Por isso, propõe um corpus que associe formas articulatórias a metadados sociolinguísticos. A preocupação é particularmente importante para pesquisas de regionalismo, porque a comparação entre grandes quantidades de vídeos exige métodos consistentes de anotação, sem reduzir a diversidade a etiquetas em português.
2.3. Comunidade Surda, Comunidade de Prática e Identidade
A Sociolinguística da Libras exige atenção especial ao conceito de comunidade. O pertencimento surdo não se reduz à proximidade geográfica nem à existência de uma característica corporal comum. Ele envolve experiências históricas, relações sociais, participação em espaços de encontro, circulação da língua de sinais, práticas culturais e modos de reconhecimento mútuo. Santos e Azevedo (2024, p. 126-127) discutem a adequação de diferentes noções de comunidade e apontam a produtividade do conceito de comunidade de prática, uma vez que ele permite observar grupos formados pelo engajamento em atividades e pela construção de repertórios compartilhados.
Essa abordagem oferece instrumentos para compreender diferenças que emergem dentro de uma mesma cidade. Valentim, Dizeu e Costa (2020, p. 5-8) mostram que os fatores extralinguísticos não podem ser tratados como elementos periféricos. Ao comparar participantes com diferentes trajetórias escolares e profissionais, as autoras identificam padrões de marcações não manuais e comportamentos corporais associados a um grupo formado por professores e futuros professores. A língua, nesse caso, participa de uma prática profissional e de uma maneira de posicionar-se diante do interlocutor e da própria situação de gravação.
Diante dos resultados obtidos, é possível concluir que as variações no parâmetro de marcações não manuais, bem como os movimentos encontrados na comunidade formada por graduados ou graduandos em Letras/Libras ou Pedagogia G1 apontam para um pertencimento a uma comunidade de prática específica. Essa percepção é evidenciada por meio da troca de repertório linguístico comum entre os membros, no que tange ao uso de marcações não manuais, mudança de postura e mãos em repouso. Essas marcações, portanto, não são aleatórias como indica a literatura da área. (Valentim; Dizeu; Costa, 2020, p. 23).
O resultado demonstra que repertório linguístico e prática social se constroem reciprocamente. Os membros não apenas compartilham sinais; também partilham expectativas sobre postura, clareza, visibilidade e comportamento em situações profissionais. Valentim, Dizeu e Costa (2020, p. 22-23) observam que participantes ligados à formação docente demonstravam preocupação com vestuário, enquadramento e execução clara dos sinais, e que estudantes em formação aproximavam seus usos daqueles já consolidados no grupo profissional. Trata-se de um exemplo concreto de como formas linguísticas podem funcionar como índices de pertencimento.
Faria (2006, p. 19-20) oferece uma contribuição importante ao relacionar língua, cultura e fortalecimento identitário. Em seu trabalho educacional, a Língua de Sinais Brasileira é tratada como mediadora do ensino de português como segunda língua, vinculada à cultura surda e à valorização do aluno. O estudo mostra que a adequação metodológica não é meramente uma questão técnica: quando a língua de sinais ocupa posição de centralidade, a escola reconhece formas de experiência e pertencimento que historicamente foram desconsideradas por modelos baseados na oralização e na assimilação linguística.
Garcia, Carvalho e Marcelino (2022, p. 120-123) deslocam essa discussão para a formação de graduandos surdos em Letras-Libras. As autoras e o autor ressaltam a importância do uso real da língua, da abordagem comunicativa e da contextualização dos discursos sinalizados. A formação docente, assim, não deve limitar-se à memorização de sinais ou a correspondências com palavras em português. Ela envolve compreender a modalidade visual da Libras, suas implicações linguísticas e socioculturais e a relação entre práticas pedagógicas e construção das identidades dos sujeitos surdos.
As mídias digitais expandem os espaços de encontro e representação. Fraga e Lagrange (2026, p. 33-35) descrevem a presença de sujeitos surdos em filmes e redes sociais, observando perfis de influenciadores que representam experiências profissionais, artísticas e identitárias diversas. As autoras destacam que organizações, escolas bilíngues, eventos culturais e plataformas como YouTube, TikTok e Instagram colaboram para preservação e disseminação de práticas culturais. Do ponto de vista sociolinguístico, tais ambientes funcionam como redes de circulação de sinais, estilos discursivos, narrativas e formas de autorrepresentação.
Compreender comunidade surda como realidade plural implica reconhecer que a língua opera simultaneamente como meio de comunicação, recurso identitário e prática social. As variantes podem indexar origem regional, trajetória de formação ou pertença a grupos profissionais, mas seus significados sociais dependem do contexto. A mesma forma pode ser valorizada em um grupo, desconhecida em outro ou interpretada como sinal de uma determinada geração. A investigação sociolinguística necessita, portanto, combinar descrição das formas com observação das relações que lhes atribuem valor.
2.4. Usos Sociais da Libras: Educação, Translinguagem, Mídias e Circulação do Conhecimento
O conceito de uso social amplia a análise da Libras para situações concretas em que sujeitos precisam agir, negociar sentidos e articular diferentes recursos. A escola é um desses espaços, mas não deve ser tomada como ambiente linguisticamente neutro. Nogueira (2022, p. 1-4) analisa uma interação entre jovens surdas durante uma atividade de produção de vídeo e mostra que, embora a tarefa estivesse associada à Libras, as participantes mobilizaram também português escrito e outros recursos semióticos. A autora caracteriza esses contextos como sociolinguisticamente complexos, translíngues e multimodais.
A relevância dessa abordagem está em evitar que repertórios efetivamente usados pelos sujeitos sejam avaliados apenas a partir de fronteiras previamente definidas entre “Libras” e “português”. Nogueira (2022, p. 3-4) mostra que a seleção dos recursos pode surpreender professores quando expectativas pedagógicas pressupõem comportamentos linguísticos mais rígidos. A análise sociolinguística precisa acompanhar as práticas reais de produção de significado e reconhecer que sinalização, escrita, gestos, imagens e recursos digitais podem compor um mesmo evento comunicativo.
Garcia, Carvalho e Marcelino (2022, p. 120-123) reforçam a necessidade de uma abordagem comunicativa no ensino de Libras como L2 para ouvintes. O uso real da língua e a produção contextualizada de discursos sinalizados aparecem como aspectos essenciais para a formação de professores surdos. Essa ênfase desloca o ensino de listas isoladas para práticas de interação, nas quais escolhas linguísticas dependem do interlocutor, do propósito comunicativo e da situação. A Sociolinguística oferece fundamento para compreender essas adequações como parte da competência linguística.
Em outra esfera, a circulação do conhecimento científico constitui uso social de alta relevância política. Gomides et al. (2022, p. 195-198) discutem a Libras como língua minoritária e analisam estratégias de acesso e disseminação de conhecimento produzido sobre e pela comunidade surda. Os autores observam que repositórios e publicações ainda apresentam oferta fragmentada de conteúdos em Libras. A questão sociolinguística, nesse caso, envolve domínio de uso: uma língua adquire maior vitalidade quando pode ser empregada não apenas na conversação cotidiana, mas também na formação universitária, na argumentação acadêmica e na divulgação científica.
As mídias digitais constituem outro domínio de expansão. Fraga e Lagrange (2026, p. 34-38) mostram que redes sociais e produções audiovisuais tornam experiências surdas visíveis e oferecem espaços de autorrepresentação. Do ponto de vista sociolinguístico, vídeos em Libras possuem características distintas do texto escrito: preservam configuração de mão, movimento, espaço, expressões não manuais e recursos performáticos. Isso os transforma em materiais relevantes não apenas para divulgação, mas também para observação de estilos, variantes e mudanças em curso.
A circulação digital também cria tensões. Quanto maior a audiência de uma determinada forma, maior pode ser sua associação a prestígio ou legitimidade, independentemente de sua distribuição regional histórica. Uma variante usada por sinalizantes com elevada visibilidade pode expandir-se rapidamente e competir com formas locais. Em sentido inverso, redes digitais podem fortalecer regionalismos ao possibilitar que comunidades registrem e divulguem seus próprios repertórios. A Sociolinguística contemporânea da Libras precisa acompanhar esses processos para compreender como tecnologia, visibilidade e mobilidade interferem na mudança linguística.
Os usos sociais analisados neste corpus mostram que língua e identidade se constroem em práticas concretas. Na escola, a escolha de recursos pode revelar repertórios translíngues; na formação docente, o uso real da Libras organiza a aprendizagem; na ciência, a língua define possibilidades de acesso e autoria; nas mídias, ela sustenta visibilidade e autorrepresentação. A Sociolinguística da Libras, por isso, não se limita à catalogação de diferenças formais. Seu objeto abrange os modos pelos quais os sujeitos usam a língua para participar de instituições, produzir conhecimento, ensinar, narrar experiências e construir relações.
2.5. Ideologias Linguísticas, Políticas, Prestígio e Padronização
Toda variedade linguística circula em um campo de valores. Algumas formas são percebidas como mais formais, mais bonitas, mais corretas ou mais “puras”; outras são associadas a regiões, gerações ou grupos com menor prestígio. Essas avaliações não decorrem exclusivamente da estrutura da língua, mas de relações sociais e históricas. Para a Libras, o problema torna-se ainda mais complexo porque ideologias sobre variedades internas coexistem com antigas hierarquizações entre línguas orais e línguas de sinais. Linhares (2024, p. 10524-10528) situa essas questões no campo das ideologias linguísticas e das políticas surdas.
Estudos linguísticos, assim como qualquer empreendimento epistemológico, são práticas ideologicamente orientadas, de modo que isso não se mostra diferente nos estudos dedicados às línguas de sinais. As prescrições sobre como os surdos “deveriam” se comunicar - e todo complexo aparato conceitual construído ao redor dessa questão - lançam pistas para um cerne conceitual situado para além da divergência de opiniões entre surdos e ouvintes. O imaginário normativo lançado sobre as pessoas surdas é composto de ideologias atualizadas principalmente nos modos como as línguas são concebidas e efetivamente usadas, considerando os contextos históricos e geográficos onde os surdos se encontram. (Linhares, 2024, p. 10526).
A passagem evidencia que uma política linguística pode operar também por expectativas aparentemente cotidianas acerca da forma adequada de comunicação. O problema não se restringe à proibição explícita da língua de sinais. Pode aparecer na expectativa de que todas as pessoas surdas utilizem a mesma variante, de que uma forma registrada em dicionário possua valor superior, de que sinais regionais devam ser substituídos por equivalentes mais difundidos ou de que repertórios multimodais sejam considerados menos legítimos. O olhar sociolinguístico torna essas hierarquias objeto de análise.
Stumpf e Linhares (2025, p. 208-210) propõem distinguir ideologias externas e internas às comunidades surdas. Entre as externas, estão mitos sobre línguas de sinais, mudanças históricas na percepção de gestos e sinais e a primazia atribuída às línguas orais. Entre as internas, os autores destacam questões como apagamento de variedades, policiamento, padronização e purismo. A distinção é importante porque mostra que o reconhecimento legal da Libras não elimina disputas sobre quais formas da própria língua recebem legitimidade.
A padronização possui uma dimensão ambivalente. Em determinados contextos, a criação de convenções pode facilitar produção de materiais, interpretação, terminologia especializada e comunicação institucional. Entretanto, quando o padrão é transformado em única forma legítima, pode apagar variantes regionais e repertórios comunitários. Os estudos de Moraes (2018), Monteiro (2019) e Santos e Azevedo (2024) demonstram empiricamente que diferentes formas coexistem no território brasileiro. A política linguística comprometida com a diversidade deve, portanto, distinguir padronização funcional de homogeneização social.
Gonçalves Júnior et al. (2018, p. 57-60) relacionam políticas linguísticas, plurilinguismo e poder. A difusão da Libras é apresentada como necessidade social, mas o reconhecimento de uma língua depende também das relações de força que definem onde, por quem e para quais finalidades ela pode ser usada. Uma política de valorização não se resume à presença simbólica da Libras; envolve condições para seu uso em educação, serviços públicos, cultura, mídia, ciência e participação política.
Gomides et al. (2022, p. 195-198) evidenciam essa tensão no domínio acadêmico. Embora tenham ocorrido avanços no reconhecimento linguístico da comunidade surda, a produção e a circulação científica permanecem fortemente centradas no português. A oferta fragmentada de conteúdos em Libras demonstra que o status de uma língua também se relaciona à sua presença nos circuitos de produção do conhecimento. Para uma Sociolinguística voltada aos direitos linguísticos, é relevante perguntar não somente se a Libras é reconhecida, mas se seus usuários podem produzir e acessar saberes por meio dela.
2.6. Documentação da Diversidade e Novos Caminhos para a Sociolinguística da Libras
A documentação da variação é condição importante para o avanço dos estudos sociolinguísticos da Libras. Pesquisas com amostras pequenas e bem descritas foram essenciais para evidenciar fenômenos que antes recebiam pouca atenção, mas a ampliação do campo exige corpora mais numerosos, diversificados e comparáveis. Santos e Azevedo (2024, p. 121-127) reconhecem explicitamente a necessidade de ampliar o número de participantes para produzir retratos mais consistentes das comunidades analisadas. Essa cautela metodológica deve orientar futuros atlas, bancos de vídeos e estudos inter-regionais.
A modalidade visual da Libras cria desafios específicos de armazenamento e anotação. O registro em vídeo preserva detalhes que a tradução por glosas pode perder, mas a análise manual de grandes acervos é trabalhosa. Galasso (2026, p. 1-3) propõe um caminho interdisciplinar que combina recursos de Inteligência Artificial com metadados sociolinguísticos e validação humana. O objetivo não é substituir a análise linguística, mas criar condições para localizar padrões e variantes em corpora extensos.
Diante dessa lacuna, o objetivo geral deste artigo é propor uma arquitetura metodológica interdisciplinar que articule Linguística de Corpus, Visão Computacional e Sociolinguística Computacional para a construção de um corpus lexicográfico variacionista de Libras em larga escala. [...] A IA para línguas de sinais concentra-se quase exclusivamente em reconhecimento e tradução, tratando a variação linguística como ruído a ser eliminado quando, para a Sociolinguística, essa variação constitui precisamente o objeto de estudo. (Galasso, 2026, p. 1).
A advertência de Galasso (2026) é pertinente porque sistemas computacionais frequentemente são treinados para reconhecer regularidades a partir da redução de diferenças. Em tarefas de reconhecimento automático, uma variante minoritária pode ser interpretada como erro se o conjunto de treinamento não representar adequadamente a diversidade de usuários. Para a Sociolinguística, porém, aquilo que o sistema tende a descartar pode constituir precisamente o dado relevante: uma realização regional, geracional, estilística ou associada a determinada comunidade de prática.
A proposta de pesquisa liderada por surdos mencionada por Galasso (2026, p. 2) acrescenta uma dimensão ética indispensável. Metadados como região, idade, escolarização e trajetória linguística não são informações neutras; sua interpretação depende de conhecimento social e cultural. A participação de pesquisadores surdos pode contribuir para formular categorias mais adequadas, identificar variantes que escapariam a observadores externos e evitar que tecnologias de documentação reproduzam visões capacitistas ou centralizadoras.
A documentação deve, entretanto, preservar o princípio de que repertórios pertencem a comunidades e sujeitos concretos. Consentimento, contextualização, reconhecimento de autoria e acesso aos resultados precisam fazer parte do desenho da pesquisa. Corpora que extraem sinais de vídeos sem considerar contexto podem produzir descrições tecnicamente extensas, mas socialmente frágeis. A Sociolinguística da Libras exige dados linguísticos associados à história de uso, às redes de interação e às condições de circulação que lhes dão sentido.
Nesse sentido, os quinze estudos analisados apontam para uma agenda comum: ampliar a descrição da variação; incluir diferentes regiões e perfis de sinalizantes; observar comunidades de prática; investigar repertórios translíngues e multimodais; compreender o papel das mídias; analisar ideologias e políticas; e desenvolver tecnologias comprometidas com a diversidade. Essa agenda não pretende fixar a Libras, mas documentar sua vitalidade histórica e social.
3. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise desenvolvida permite concluir que a Sociolinguística da Libras constitui um campo indispensável para compreender a língua como prática social heterogênea. Os estudos examinados demonstram que a variação ocorre em diferentes parâmetros fonético-fonológicos, no léxico, na distribuição regional e nos repertórios de grupos específicos. As diferenças documentadas por Xavier e Barbosa (2014), Moraes (2018), Monteiro (2019), Alecrim e Xavier (2020) e Santos e Azevedo (2024) confirmam que a diversidade não representa desorganização do sistema, mas uma dimensão regular de seu funcionamento.
Também se verificou que a explicação sociolinguística não pode limitar-se ao território. Escolarização, profissão, redes de interação, situações comunicativas e pertencimentos coletivos participam da distribuição das formas. O estudo de Valentim, Dizeu e Costa (2020) é particularmente significativo ao mostrar que marcações não manuais e posturas podem relacionar-se a uma comunidade de prática formada por professores e futuros professores. A língua, nesse caso, atua simultaneamente como recurso de comunicação e como marca social produzida pelo engajamento em atividades compartilhadas.
A dimensão identitária atravessa esses processos. Faria (2006) evidencia o papel da língua de sinais e da cultura surda no fortalecimento identitário em contexto educacional, enquanto Fraga e Lagrange (2026) demonstram que mídias e redes digitais ampliam espaços de representação. Garcia, Carvalho e Marcelino (2022) reforçam a necessidade de uso real e contextualizado da Libras na formação docente. Esses trabalhos mostram que as práticas linguísticas se constituem em espaços nos quais sujeitos ensinam, aprendem, representam-se, constroem autoridade e compartilham experiências.
A análise das práticas translíngues descritas por Nogueira (2022) acrescenta que repertórios de sujeitos surdos podem mobilizar Libras, português escrito e outros recursos semióticos em um mesmo evento. Reconhecer essa complexidade não diminui a centralidade da Libras; permite compreender de maneira mais fiel as condições de comunicação em contextos bilíngues e multimodais. Uma abordagem sociolinguística comprometida com os usos efetivos deve evitar modelos que transformem práticas reais em desvios de um comportamento idealizado.
No plano político, os textos de Gonçalves Júnior et al. (2018), Gomides et al. (2022), Linhares (2024) e Stumpf e Linhares (2025) evidenciam que reconhecimento linguístico, circulação do conhecimento e valoração das variedades estão ligados a relações de poder. Ideologias de superioridade, purismo e padronização podem operar tanto na relação entre Libras e português quanto no interior da própria língua de sinais. Por isso, políticas de valorização devem ampliar domínios de uso sem apagar regionalismos e repertórios comunitários.
Conclui-se, portanto, que estudar a Libras sociolinguisticamente exige articular forma linguística, contexto, território, comunidade, identidade, ideologia e poder. A defesa da legitimidade da Libras deve incluir a legitimidade de sua diversidade interna. Como limite deste trabalho, ressalta-se seu caráter bibliográfico e a dependência de estudos com recortes específicos, o que não permite generalizações sobre todas as comunidades surdas brasileiras. Recomenda-se ampliar pesquisas empíricas inter-regionais, intergeracionais e digitais, construir corpora representativos e fortalecer investigações conduzidas com protagonismo de pesquisadores surdos. Tais caminhos podem contribuir para uma descrição mais abrangente das variedades da Libras e para práticas educacionais e políticas linguísticas que reconheçam a heterogeneidade como parte de sua vitalidade.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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1 Doutorando em Linguística pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mestre em Estudos da Tradução pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e professor efetivo de Libras da Universidade Federal Fluminense (UFF).
2 Doutor em linguística pela Universidade Federal de Santa Catarina. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
3 Doutorando e Mestre em Educação pela Universidade Estadual de Maringá.
4 Doutor em Administração de Empresas pela Universidade de Fortaleza e Graduado em Letras Libras pela Centro Universitário Leonardo da Vinci.