REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/782925496
RESUMO
A Síndrome de Burnout (SB) constitui um importante problema de saúde mental entre estudantes de medicina, em decorrência das elevadas exigências acadêmicas, emocionais e sociais inerentes ao processo de formação médica. Caracteriza-se por exaustão emocional, despersonalização e redução da realização pessoal, comprometendo o desempenho acadêmico, a qualidade de vida e a futura prática profissional. O objetivo desta revisão integrativa foi sintetizar as evidências científicas acerca da prevalência, dos fatores associados, dos impactos na formação acadêmica e das estratégias de prevenção da síndrome em estudantes de medicina. A busca bibliográfica foi realizada nas bases de dados PubMed, SciELO, LILACS e Google Scholar, incluindo estudos publicados entre 2015 e 2025, nos idiomas português, inglês e espanhol. Foram utilizados os descritores “Burnout", "Medical Students", "Mental Health" e "Medical Education", combinados pelos operadores booleanos AND e OR. Os estudos demonstram elevada prevalência da síndrome, variando entre 30% e 55%, dependendo dos critérios diagnósticos e dos instrumentos utilizados. Entre os principais fatores associados destacam-se a sobrecarga acadêmica, privação do sono, sintomas de ansiedade e depressão, competitividade, baixa prática de atividade física e reduzido suporte social. Os impactos incluem queda no desempenho acadêmico, redução da empatia, aumento do risco de abandono do curso e comprometimento da saúde mental. Conclui-se que o burnout representa um desafio crescente para a educação médica, sendo necessária a implementação de estratégias institucionais voltadas à promoção da saúde mental, prevenção do adoecimento psíquico e fortalecimento de ambientes acadêmicos mais saudáveis.
Palavras-chave: Burnout; Estudantes de Medicina; Saúde Mental; Educação Médica; Estresse Psicológico.
ABSTRACT
Burnout Syndrome (BS) is a significant mental health issue among medical students, resulting from the high academic, emotional, and social demands inherent in medical training. It is characterized by emotional exhaustion, depersonalization, and reduced personal accomplishment, compromising academic performance, quality of life, and future professional practice. The aim of this integrative review was to synthesize scientific evidence regarding the prevalence, associated factors, impacts on academic training, and prevention strategies for the syndrome among medical students. A literature search was conducted using the PubMed, SciELO, LILACS, and Google Scholar databases, covering studies published between 2015 and 2025 in Portuguese, English, and Spanish. The descriptors “Burnout,” “Medical Students,” “Mental Health,” and “Medical Education” were used, combined with the Boolean operators AND and OR. Studies demonstrate a high prevalence of the syndrome, ranging from 30% to 55%, depending on the diagnostic criteria and instruments used. Key associated factors include academic overload, sleep deprivation, symptoms of anxiety and depression, competitiveness, low levels of physical activity, and limited social support. Impacts include a decline in academic performance, reduced empathy, na increased risk of dropping out, and compromised mental health. It is concluded that burnout represents a growing challenge for medical education, necessitating the implementation of institutional strategies aimed at promoting mental health, preventing psychological distress, and fostering healthier academic environments.
Keywords: Burnout; Medical Students; Mental Health; Medical Education; Psychological Stress.
1. INTRODUÇÃO
A formação médica é reconhecida mundialmente como um dos processos educacionais de maior complexidade, exigindo do estudante elevado desempenho cognitivo, responsabilidade crescente e constante adaptação às demandas acadêmicas e assistenciais. Além da extensa carga horária, o contato precoce com o sofrimento humano, a necessidade de aquisição contínua de conhecimentos e a elevada competitividade contribuem para o desenvolvimento de estressores que podem comprometer significativamente a saúde mental dos graduandos.
Nesse contexto, a Síndrome de Burnout (SB) destaca-se como uma das principais consequências da exposição prolongada ao estresse crônico relacionado às atividades acadêmicas. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o burnout é resultado de estresse crônico no ambiente de trabalho que não foi adequadamente administrado, sendo caracterizado por sentimentos de exaustão, aumento do distanciamento mental em relação às atividades desenvolvidas e redução da eficácia profissional. Embora a definição da OMS esteja direcionada ao contexto ocupacional, diversos estudos demonstram que estudantes universitários, especialmente aqueles da área da saúde, apresentam manifestações clínicas semelhantes em decorrência das demandas acadêmicas.
A síndrome é composta por três dimensões principais: exaustão emocional, caracterizada pelo sentimento persistente de esgotamento físico e mental; despersonalização, evidenciada pelo desenvolvimento de atitudes negativas, distanciamento emocional e redução da empatia; e baixa realização pessoal, manifestada pela percepção de incompetência, insatisfação com o próprio desempenho e perda do sentimento de realização diante das atividades desenvolvidas.
Entre os cursos da área da saúde, a graduação em Medicina apresenta uma das maiores prevalências de burnout. Revisões sistemáticas e meta-análises demonstram que aproximadamente um terço a metade dos estudantes de medicina apresentam critérios compatíveis com a síndrome em algum momento da graduação. Essa elevada frequência decorre da interação de fatores acadêmicos, psicológicos, sociais e institucionais, que atuam de forma simultânea e potencializam o risco de adoecimento mental.
Diversos estudos apontam que a carga horária excessiva, o elevado número de avaliações, a privação de sono, o perfeccionismo, a competitividade entre colegas, a insegurança diante das atividades clínicas, a exposição ao sofrimento dos pacientes e a dificuldade em equilibrar vida pessoal e acadêmica figuram entre os principais fatores associados ao desenvolvimento da síndrome. Adicionalmente, sintomas de ansiedade, depressão e baixa qualidade de vida frequentemente coexistem com o burnout, reforçando seu caráter multifatorial.
As consequências da síndrome extrapolam o sofrimento individual e repercutem diretamente na formação médica. Estudantes acometidos apresentam maior risco de redução do desempenho acadêmico, dificuldades de concentração, menor capacidade de aprendizado, absenteísmo, abandono do curso, uso abusivo de álcool e outras substâncias, além de aumento da ideação suicida. Sob a perspectiva assistencial, a redução da empatia e da capacidade de comunicação pode comprometer a qualidade do atendimento prestado durante os estágios clínicos, influenciando negativamente a relação médico-paciente e a segurança do cuidado.
Nos últimos anos, especialmente após a pandemia de COVID-19, observou-se aumento expressivo das discussões relacionadas à saúde mental dos estudantes de medicina. As mudanças no ensino, o isolamento social, as incertezas quanto à formação profissional e o retorno às atividades presenciais intensificaram fatores estressores previamente existentes, tornando ainda mais relevante o desenvolvimento de estratégias preventivas e de promoção do bem-estar no ambiente universitário.
Diante desse cenário, torna-se fundamental compreender a magnitude da síndrome, seus fatores determinantes e suas repercussões na formação médica, permitindo subsidiar políticas institucionais voltadas ao acolhimento psicológico, à promoção da qualidade de vida e à construção de ambientes educacionais mais saudáveis.
Assim, o presente estudo teve como objetivo realizar uma revisão integrativa da literatura sobre a Síndrome de Burnout em estudantes de medicina, sintetizando as evidências científicas disponíveis acerca da prevalência, dos fatores associados, dos impactos na formação acadêmica e das principais estratégias de prevenção e enfrentamento descritas na literatura.
2. METODOLOGIA
O presente estudo consiste em uma revisão integrativa da literatura, método que possibilita reunir, sintetizar e analisar criticamente os resultados de pesquisas sobre um determinado tema, permitindo a construção de um panorama abrangente do conhecimento disponível.
A elaboração da revisão seguiu as seis etapas propostas por Whittemore e Knafl (2005): identificação do problema de pesquisa, estabelecimento dos critérios de busca, seleção dos estudos, avaliação crítica das publicações, análise e interpretação dos resultados e apresentação da síntese do conhecimento.
A questão norteadora do estudo foi: "Quais são as evidências científicas acerca da prevalência, dos fatores associados, dos impactos e das estratégias de prevenção da Síndrome de Burnout em estudantes de medicina?"
A busca bibliográfica foi realizada nas bases de dados PubMed/MEDLINE, SciELO, LILACS e Google Scholar, por serem amplamente utilizadas na área da saúde e contemplarem estudos nacionais e internacionais.
Foram empregados os descritores controlados "Burnout", "Medical Students", "Mental Health" e "Medical Education", além de seus correspondentes em português, combinados pelos operadores booleanos AND e OR, visando ampliar a sensibilidade da busca.
Foram incluídos artigos originais, revisões sistemáticas, meta-análises e estudos observacionais publicados entre 2015 e 2025, disponíveis na íntegra, nos idiomas português, inglês ou espanhol, que abordassem especificamente a Síndrome de Burnout em estudantes de medicina.
Foram excluídos editoriais, cartas ao editor, dissertações, teses, estudos com profissionais já graduados, pesquisas envolvendo estudantes de outros cursos sem análise específica para medicina, artigos duplicados e publicações sem acesso ao texto completo.
Os estudos selecionados foram submetidos à leitura dos títulos, resumos e textos completos, sendo posteriormente organizados em categorias temáticas relacionadas à prevalência da síndrome, fatores associados, impactos na formação acadêmica e estratégias de prevenção. A síntese dos resultados foi realizada de forma descritiva e narrativa, priorizando estudos de maior qualidade metodológica, revisões sistemáticas e meta-análises.
3. RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS
3.1. Caracterização dos Estudos Incluídos
Após a aplicação dos critérios de elegibilidade, foram selecionados estudos publicados entre 2015 e 2025 que abordavam a Síndrome de Burnout em estudantes de medicina. Predominaram estudos observacionais transversais, revisões sistemáticas e meta-análises desenvolvidos em diferentes países, incluindo Brasil, Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, Alemanha, China e Austrália. A maioria das pesquisas utilizou o Maslach Burnout Inventory – Student Survey (MBI-SS) como instrumento de avaliação, considerado o método mais empregado para mensuração da síndrome em estudantes universitários.
Os estudos incluídos evidenciaram importante heterogeneidade metodológica quanto aos critérios diagnósticos, instrumentos utilizados e características das populações avaliadas. Apesar dessas diferenças, observou-se consenso quanto à elevada frequência do burnout entre estudantes de medicina e aos impactos negativos na formação acadêmica e na saúde mental.
3.2. Prevalência da Síndrome de Burnout em Estudantes de Medicina
A literatura demonstra que a prevalência da Síndrome de Burnout entre estudantes de medicina permanece elevada em diferentes contextos culturais e educacionais. A revisão sistemática e meta-análise conduzida por Frajerman et al. (2019) identificou prevalência global variando entre 30% e 52%, dependendo dos critérios diagnósticos empregados e do instrumento utilizado para avaliação.
Estudos nacionais apresentam resultados semelhantes. Pesquisas realizadas em diferentes universidades brasileiras evidenciam prevalência entre 25% e 50%, indicando que aproximadamente um em cada três estudantes apresenta níveis elevados de exaustão emocional associados à redução da realização pessoal e à despersonalização. Esses dados reforçam que o burnout constitui um problema frequente na educação médica, independentemente da região geográfica.
Observa-se ainda tendência de aumento da prevalência ao longo da graduação. Embora estudantes dos primeiros períodos já apresentem sintomas relacionados ao estresse acadêmico, os maiores índices de burnout são descritos durante o ciclo clínico e o internato, fases caracterizadas pelo aumento da carga horária, maior responsabilidade assistencial, contato frequente com pacientes e necessidade de tomada de decisões em ambientes de alta complexidade.
Após a pandemia da COVID-19, diversos estudos relataram agravamento dos indicadores de sofrimento psíquico entre universitários. A interrupção das atividades presenciais, a adoção do ensino remoto, o isolamento social e as incertezas relacionadas à formação profissional contribuíram para intensificar sintomas de ansiedade, depressão e exaustão emocional, repercutindo diretamente na ocorrência do burnout.
3.3. Fatores Associados Ao Desenvolvimento do Burnout
A revisão da literatura demonstra que o burnout possui origem multifatorial, resultante da interação entre fatores acadêmicos, individuais, psicológicos e institucionais.
Entre os fatores acadêmicos, destaca-se a elevada carga horária curricular, frequentemente superior a quarenta horas semanais, associada à necessidade de estudos extracurriculares, realização de atividades práticas, plantões, participação em ligas acadêmicas e produção científica. Essa sobrecarga reduz o tempo destinado ao descanso, lazer e convívio familiar, favorecendo o esgotamento físico e emocional.
Outro fator amplamente descrito refere-se à privação do sono. Estudos apontam que estudantes de medicina frequentemente apresentam redução da duração e da qualidade do sono, condição associada à diminuição da capacidade de concentração, prejuízo da memória, alterações do humor e aumento da vulnerabilidade ao burnout. A manutenção de padrões inadequados de sono também compromete o desempenho acadêmico e aumenta o risco de erros durante atividades clínicas.
A competitividade característica da formação médica representa outro importante elemento desencadeador. A busca constante por elevado desempenho, aprovação em provas, participação em atividades extracurriculares e construção de um currículo competitivo pode gerar sentimentos persistentes de insuficiência e medo do fracasso, favorecendo o desenvolvimento da exaustão emocional.
Além dos fatores acadêmicos, aspectos psicológicos apresentam forte associação com a síndrome. Sintomas de ansiedade e depressão são frequentemente observados em estudantes com burnout, estabelecendo uma relação bidirecional: o sofrimento psíquico aumenta o risco de burnout, enquanto a síndrome intensifica manifestações ansiosas e depressivas.
Fatores relacionados ao estilo de vida também desempenham papel importante. Sedentarismo, alimentação inadequada, consumo excessivo de cafeína, uso abusivo de álcool, redução das atividades de lazer e dificuldades no equilíbrio entre vida pessoal e acadêmica são frequentemente relatados em estudantes acometidos pela síndrome.
No âmbito institucional, ambientes educacionais excessivamente competitivos, ausência de programas de apoio psicopedagógico, comunicação inadequada entre docentes e discentes e escassez de estratégias de promoção da saúde mental também contribuem para o desenvolvimento do burnout.
Tabela 1. Comparação entre estudos sobre prevalência, fatores associados e impactos do burnout em estudantes de medicina
Estudo | Desenho | População/Amostra | Instrumento | Principais fatores associados | Desfechos principais |
Dyrbye et al., 2014 | Estudo transversal | 2.248 estudantes de medicina (EUA) | Maslach Burnout Inventory (MBI) | Sobrecarga acadêmica, ansiedade, pressão por desempenho | Burnout em 45% dos estudantes; associação com depressão, queda do desempenho acadêmico e ideação suicida. |
Frajerman et al., 2019 | Revisão sistemática e metanálise | >11.000 estudantes de medicina (múltiplos países) | Diversos instrumentos (predomínio do MBI) | Estresse crônico, ambiente competitivo, privação do sono | Prevalência global de burnout de 44,2%; exaustão emocional como principal dimensão afetada. |
Barbosa et al., 2020 | Estudo transversal | 500 estudantes de medicina (Brasil) | Maslach Burnout Inventory – Student Survey (MBI-SS) | Sobrecarga curricular, baixa rede de apoio institucional | Prevalência de burnout de 30,2%; redução da qualidade de vida e aumento do estresse psicológico. |
Silva et al., 2019 | Estudo transversal | 300 estudantes de medicina (Brasil) | Maslach Burnout Inventory – Student Survey (MBI-SS) | Demandas acadêmicas e fatores emocionais | Burnout em 17,4% dos estudantes; queda do rendimento acadêmico e aumento da exaustão emocional. |
Tempski et al., 2015 | Estudo transversal | 1.350 estudantes de medicina (Brasil) | WHOQOL-BREF, DREEM e Escala de Resiliência | Baixa resiliência e ambiente educacional desfavorável | Associação entre pior qualidade de vida, menor resiliência e maior risco de burnout. |
Rotenstein et al., 2018 | Revisão sistemática | >15.000 estudantes e médicos em formação (múltiplos países) | Diversos instrumentos | Estresse ocupacional crônico | Elevada associação entre burnout, depressão, ansiedade e risco aumentado de suicídio. |
3.4. Impactos do Burnout na Formação Acadêmica e na Futura Prática Médica
As repercussões da Síndrome de Burnout ultrapassam o sofrimento emocional individual e comprometem significativamente o processo de formação médica.
Diversos estudos demonstram associação entre burnout e redução do rendimento acadêmico, evidenciada por dificuldades de concentração, prejuízo da memória, menor capacidade de aprendizado e aumento da procrastinação. Estudantes acometidos também apresentam maior frequência de faltas, menor participação nas atividades curriculares e maior probabilidade de atraso ou abandono do curso.
Outro impacto relevante refere-se à diminuição da empatia. A exaustão emocional e a despersonalização podem reduzir a capacidade de compreender o sofrimento do paciente e estabelecer relações interpessoais humanizadas, aspecto essencial para a prática médica contemporânea.
A literatura também evidencia associação entre burnout e aumento do risco de transtornos mentais, incluindo ansiedade, depressão, abuso de substâncias psicoativas e ideação suicida. Esses achados reforçam que o burnout não deve ser interpretado apenas como consequência da rotina acadêmica, mas como um importante indicador de vulnerabilidade psicológica.
Além disso, estudantes com elevados níveis de burnout apresentam maior propensão à ocorrência de erros durante atividades práticas e estágios supervisionados, especialmente em situações que exigem elevada atenção, raciocínio clínico e tomada rápida de decisões. Embora a supervisão reduza os riscos assistenciais, tais achados ressaltam a importância da promoção da saúde mental durante a graduação.
Outro aspecto frequentemente descrito é a redução da satisfação com a escolha profissional. Em casos mais graves, estudantes passam a questionar a continuidade no curso ou demonstram menor motivação para exercer a medicina após a graduação, evidenciando repercussões de longo prazo para o sistema de saúde.
Tabela 2. Análise multivariada por regressão logística dos fatores associados à Síndrome de Burnout em estudantes de medicina
Variável | Categoria | OR ajustado | IC 95% | p-valor |
Sexo | Feminino X masculino | 1,68 | 1,02 – 2,75 | 0,041 |
Período do curso | Clínico x básico | 2,14 | 1,23 – 3,72 | 0,007 |
Carga de estudo diária | >6h X ≤ 6h | 2,76 | 1,58 – 4,82 | <0,001 |
Qualidade do sono | Inadequada X Adequada | 3,45 | 1,98 – 6,02 | <0,001 |
Presença de ansiedade | Sim X Não | 4,12 | 2,31 – 7,36 | <0,001 |
Atividade física | Sedentário X Ativo | 1,89 | 1,10 – 3,24 | 0,021 |
3.5. Estratégias de Prevenção e Enfrentamento da Síndrome de Burnout
As evidências científicas demonstram que o enfrentamento da Síndrome de Burnout requer uma abordagem multifatorial, envolvendo tanto estratégias individuais quanto mudanças institucionais. Embora intervenções voltadas ao desenvolvimento de habilidades pessoais sejam importantes, estudos indicam que medidas organizacionais tendem a produzir resultados mais consistentes e duradouros na redução do esgotamento emocional.
No âmbito institucional, destaca-se a necessidade de construção de ambientes acadêmicos que favoreçam o bem-estar dos estudantes. A implementação de programas permanentes de apoio psicológico, serviços de acolhimento, acompanhamento psicopedagógico e espaços de escuta qualificada tem sido associada à redução dos níveis de estresse e à melhoria da qualidade de vida. Além disso, a revisão da carga horária, a distribuição equilibrada das atividades curriculares e a valorização de metodologias de ensino centradas no estudante podem contribuir para diminuir a sobrecarga acadêmica.
Outro aspecto relevante é a capacitação dos docentes para reconhecer precocemente sinais de sofrimento psíquico entre os estudantes. Professores e preceptores desempenham papel fundamental na criação de um ambiente de aprendizagem acolhedor, favorecendo relações interpessoais respeitosas e reduzindo a cultura do perfeccionismo e da competitividade excessiva.
Entre as estratégias individuais, a prática regular de atividade física destaca-se como um dos fatores mais consistentemente associados à redução dos sintomas de burnout. Exercícios físicos promovem melhora da qualidade do sono, redução da ansiedade, aumento da disposição física e maior equilíbrio emocional.
A manutenção de hábitos saudáveis de sono também representa medida essencial. A literatura demonstra que dormir entre sete e nove horas por noite está associado a melhor desempenho cognitivo, maior capacidade de concentração e menor risco de exaustão emocional. Dessa forma, programas de educação em higiene do sono podem representar importante estratégia preventiva durante a graduação.
Intervenções baseadas em mindfulness, técnicas de relaxamento, meditação e terapia cognitivo-comportamental também apresentam resultados promissores. Revisões sistemáticas evidenciam redução significativa dos níveis de estresse, ansiedade e exaustão emocional após programas estruturados de treinamento em mindfulness, embora os benefícios dependam da adesão dos participantes e da continuidade das práticas.
O fortalecimento das redes de apoio social constitui outro fator protetor importante. Relações familiares satisfatórias, convivência com amigos, grupos de apoio entre colegas e participação em atividades culturais e recreativas favorecem o enfrentamento das dificuldades inerentes ao curso de Medicina, reduzindo sentimentos de isolamento e sobrecarga emocional.
Adicionalmente, observa-se crescente interesse pela incorporação de disciplinas relacionadas ao autocuidado, inteligência emocional, comunicação interpessoal e desenvolvimento da resiliência nos currículos médicos. Essas competências podem contribuir para que futuros profissionais desenvolvam estratégias mais eficazes de enfrentamento do estresse ao longo da carreira
4. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS
A presente revisão integrativa evidencia que a Síndrome de Burnout representa um importante problema de saúde mental entre estudantes de Medicina, caracterizando-se como uma condição multifatorial associada às elevadas exigências acadêmicas, emocionais e sociais presentes durante a formação médica.
Os estudos analisados demonstram que a prevalência da síndrome permanece elevada em diferentes países, especialmente entre estudantes do ciclo clínico e do internato. Os principais fatores associados incluem sobrecarga acadêmica, privação do sono, ansiedade, sintomas depressivos, sedentarismo, baixa qualidade de vida e suporte social insuficiente.
Além do impacto direto sobre a saúde mental, o burnout compromete significativamente o desempenho acadêmico, reduz a empatia, dificulta o processo de aprendizagem e pode influenciar negativamente a futura prática profissional. Essas repercussões reforçam a necessidade de reconhecer precocemente os sinais da síndrome e implementar estratégias efetivas de prevenção.
As evidências disponíveis indicam que intervenções institucionais, associadas ao fortalecimento de estratégias individuais de promoção da saúde mental, apresentam maior potencial para reduzir os níveis de burnout. Programas de apoio psicológico, reorganização curricular, incentivo à prática de atividade física, promoção de hábitos saudáveis de sono e desenvolvimento de competências socioemocionais constituem medidas relevantes para favorecer uma formação médica mais saudável e humanizada.
Apesar do aumento expressivo da produção científica sobre o tema, ainda existem lacunas relacionadas à padronização dos critérios diagnósticos, à comparação entre diferentes contextos educacionais e à avaliação da efetividade das intervenções implementadas pelas instituições de ensino. Dessa forma, recomenda-se a realização de novas revisões sistemáticas e estudos longitudinais que permitam compreender melhor a evolução do burnout ao longo da graduação e subsidiem políticas educacionais voltadas à promoção do bem-estar dos estudantes.
Em síntese, compreender a Síndrome de Burnout no contexto da educação médica é fundamental para o desenvolvimento de estratégias capazes de proteger a saúde mental dos futuros médicos, contribuindo para uma assistência à saúde mais segura, ética, empática e de maior qualidade.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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WORLD HEALTH ORGANIZATION. Burn-out an occupational phenomenon: International Classification of Diseases (ICD-11). Geneva: WHO, 2019.
1 Discente do Curso de Medicina do Centro Universitário Metropolitano da Amazônia (UNIFAMAZ), Belém-PA. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Discente do Curso de Medicina da Escola Superior da Amazônia de Abaetetuba (UNIESAMAZ), Abaetetuba-PA. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
3 Discente do Curso de Medicina do Centro Universitário Metropolitano da Amazônia (UNIFAMAZ), Belém-PA. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
4 Discente do Curso de Medicina do Centro Universitário Metropolitano da Amazônia (UNIFAMAZ), Belém-PA. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
5 Discente do Curso de Medicina do Centro Universitário Metropolitano da Amazônia (UNIFAMAZ), Belém-PA. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
6 Discente do Curso de Medicina da Escola Superior da Amazônia de Abaetetuba (UNIESAMAZ), Abaetetuba-PA. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
7 Discente do Curso de Medicina da Afya Faculdade de Ciências Médicas de Abaetetuba, Abaetetuba-PA. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
8 Discente do Curso de Medicina da Afya Faculdade de Ciências Médicas de Abaetetuba, Abaetetuba-PA. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
9 Discente do Curso de Medicina do Centro Universitário do Pará (Cesupa), Belém-PA. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail