REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/790596727
RESUMO
A separação materna precoce e a privação de cuidados afetivos constituem experiências adversas capazes de repercutir no desenvolvimento emocional e neurobiológico durante a adolescência, período marcado por elevada sensibilidade às experiências de estresse. Este estudo teve como propósito analisar as repercussões da separação materna precoce no desenvolvimento emocional de adolescentes, com ênfase nos mecanismos neurobiológicos associados à regulação emocional e à vulnerabilidade ao Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT). Trata-se de uma revisão narrativa da literatura, realizada nas bases PubMed, Scopus e PsycINFO, mediante descritores relacionados à separação materna, estresse precoce, TEPT e adolescência. Inicialmente, foram identificados 63 estudos, dos quais 19 foram selecionados para compor a análise. Os resultados indicam que a ruptura dos vínculos afetivos e a negligência emocional estão associadas a alterações na regulação emocional, na resposta ao estresse e em processos neurobiológicos relacionados à amígdala, ao hipocampo, ao córtex pré-frontal e ao eixo hipotálamo-hipófise-adrenal. Entretanto, fatores protetores, como apoio social, vínculos seguros, resiliência e intervenções precoces, podem favorecer processos adaptativos. Conclui-se que a separação materna precoce constitui importante fator de vulnerabilidade ao sofrimento psíquico na adolescência. Os achados contribuem para a área ao reforçar a necessidade de estratégias interdisciplinares de prevenção, identificação precoce e intervenção em saúde mental infantojuvenil.
Palavras-chave: Separação materna precoce; Privação afetiva; Adolescência; Transtorno de Estresse Pós-Traumático; Regulação emocional.
ABSTRACT
Early maternal separation and the lack of emotional care are adverse experiences that can impact emotional and neurobiological development during adolescence, a period characterized by high sensitivity to stress experiences. This study aimed to analyze the effects of early maternal separation on the emotional development of teenagers, focusing on the neurobiological mechanisms related to emotional regulation and vulnerability to Post-Traumatic Stress Disorder (PTSD). This is a narrative review of the literature, carried out in the PubMed, Scopus, and PsycINFO databases, using descriptors related to maternal separation, early stress, PTSD, and adolescence. Initially, 63 studies were identified, of which 19 were selected for the analysis. The results indicate that the rupture of emotional bonds and emotional neglect are associated with changes in emotional regulation, stress response, and neurobiological processes related to the amygdala, hippocampus, prefrontal cortex, and hypothalamic-pituitary-adrenal axis. However, protective factors like social support, secure bonds, resilience, and early interventions can help adaptive processes. It is concluded that early maternal separation is an important vulnerability factor for psychological distress in adolescence. The findings contribute to the field by highlighting the need for interdisciplinary strategies for prevention, early identification, and intervention in child and adolescent mental health.
Keywords: Early maternal separation; Emotional deprivation; Adolescence; Post-Traumatic Stress Disorder; Emotional regulation.
1. INTRODUÇÃO
O desenvolvimento humano é influenciado por um conjunto de fatores biológicos, psicológicos, sociais e relacionais que atuam de maneira integrada desde os primeiros anos de vida. Nesse processo, as experiências vivenciadas no ambiente familiar assumem particular importância, sobretudo aquelas relacionadas à formação de vínculos afetivos, à disponibilidade dos cuidadores e à construção de condições de segurança emocional. Quando essas condições são fragilizadas por situações de abandono, separação, negligência ou indisponibilidade afetiva, podem surgir repercussões relevantes para o desenvolvimento emocional e para a capacidade do indivíduo de responder e adaptar-se a situações de estresse ao longo da vida (Danese, 2020).
Entre as experiências adversas da infância, a separação da figura materna constitui um fenômeno que merece atenção, especialmente quando ocorre em períodos nos quais a criança ainda depende intensamente das relações de cuidado e proteção. A separação materna não deve, entretanto, ser compreendida exclusivamente como ausência física da mãe. A privação do cuidado também pode ocorrer em contextos nos quais a figura cuidadora está fisicamente presente, mas apresenta indisponibilidade afetiva, rejeição, negligência emocional ou baixa responsividade às necessidades da criança. Dessa forma, a qualidade do vínculo estabelecido entre a criança e seus principais cuidadores constitui um elemento relevante para a compreensão do desenvolvimento emocional posterior.
Essa compreensão encontra fundamento na Teoria do Apego, desenvolvida por Bowlby (2002), segundo a qual a proximidade com a figura cuidadora primária desempenha funções que ultrapassam a satisfação das necessidades fisiológicas, estando relacionada à proteção, à segurança emocional e à organização das respostas diante do medo e do estresse. Sob essa perspectiva, relações afetivas caracterizadas por segurança e disponibilidade podem favorecer o desenvolvimento de mecanismos adequados de regulação emocional, enquanto experiências marcadas por ruptura, rejeição ou ausência de cuidados consistentes podem representar condições de maior vulnerabilidade psicológica.
As evidências reunidas na literatura também indicam que as adversidades vivenciadas durante a infância podem estar relacionadas a alterações nos processos de desenvolvimento emocional, social e neurobiológico. McLaughlin et al. (2020), em revisão sistemática sobre adversidades na infância e desenvolvimento neural, destacam associações entre experiências adversas precoces, alterações no processamento emocional e maior vulnerabilidade a dificuldades de saúde mental ao longo do desenvolvimento. Na mesma direção, Teicher et al. (2003) apontam que experiências de estresse e maus-tratos durante períodos precoces do desenvolvimento podem estar associadas a alterações neurobiológicas relacionadas à regulação emocional, à resposta ao estresse e ao funcionamento de estruturas cerebrais envolvidas no processamento de memórias e respostas de medo.
Nesse contexto, a adolescência apresenta particular relevância. Trata-se de uma etapa do desenvolvimento caracterizada por profundas transformações físicas, cognitivas, emocionais e sociais, acompanhadas por importantes processos de reorganização e maturação cerebral. Essas características podem tornar o adolescente particularmente sensível às experiências de estresse e às condições ambientais nas quais está inserido. Toyama et al. (2025) destacam que a adolescência e o início da vida adulta constituem períodos críticos para o desenvolvimento de problemas relacionados à saúde mental, embora recursos individuais, relacionais e sociais possam contribuir para o enfrentamento das adversidades e para a adaptação diante do sofrimento.
A relação entre experiências adversas precoces e saúde mental pode ser compreendida, ainda, a partir dos mecanismos neurobiológicos envolvidos na resposta ao estresse. Experiências prolongadas ou intensas de estresse podem interferir no funcionamento do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, sistema fundamental para a organização das respostas fisiológicas diante de situações percebidas como ameaçadoras. Além disso, alterações relacionadas à amígdala, ao hipocampo e ao córtex pré-frontal podem estar associadas a processos de medo, memória, regulação emocional, controle dos impulsos e tomada de decisões. Dessa maneira, as repercussões das experiências traumáticas precoces não se restringem às manifestações comportamentais observáveis, podendo envolver diferentes sistemas relacionados à adaptação emocional e à resposta ao estresse (Mousikou et al., 2023; Teicher et al., 2003).
Entre os possíveis desdobramentos psicológicos associados às experiências traumáticas encontra-se o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), condição caracterizada por manifestações decorrentes da exposição a eventos traumáticos e que pode comprometer aspectos emocionais, cognitivos, comportamentais e sociais. No caso de crianças e adolescentes, a manifestação do sofrimento relacionado ao trauma pode assumir diferentes formas, incluindo alterações emocionais, dificuldades de regulação afetiva, insegurança, irritabilidade, isolamento social, dificuldades escolares e respostas aumentadas diante de estímulos percebidos como ameaçadores. A compreensão dessas manifestações exige, portanto, uma perspectiva que considere tanto os aspectos psicológicos quanto os processos relacionais e neurobiológicos envolvidos.
Estudos sobre adversidades na infância reforçam a importância dessa abordagem. McLaughlin et al. (2020) identificaram relações entre experiências precoces de negligência e privação afetiva, alterações no processamento emocional e maior vulnerabilidade a problemas de saúde mental. Além disso, pesquisas sobre populações expostas a situações de separação e privação apontam a presença de respostas como hipervigilância e maior sensibilidade a estímulos sociais potencialmente ameaçadores, indicando possíveis repercussões na forma como experiências interpessoais são processadas durante o desenvolvimento (McLaughlin et al., 2020). Esses achados contribuem para compreender por que experiências de ruptura dos vínculos afetivos na infância podem constituir um importante campo de investigação quando se analisa a saúde mental na adolescência.
Apesar dos avanços na compreensão das relações entre adversidades precoces, desenvolvimento emocional e trauma, permanecem questões relevantes sobre a maneira pela qual a separação materna precoce e a privação afetiva se relacionam especificamente com a vulnerabilidade ao TEPT durante a adolescência. Uma das dificuldades consiste em compreender a separação materna de maneira ampla, considerando não apenas a ausência física da mãe, mas também formas menos visíveis de privação afetiva, como a indisponibilidade emocional e a negligência. Essa distinção é relevante porque experiências de negligência emocional podem ocorrer de maneira silenciosa e nem sempre são imediatamente reconhecidas como situações potencialmente prejudiciais ao desenvolvimento psicológico.
A problematização desta pesquisa, portanto, parte da necessidade de compreender de que maneira a ruptura ou fragilização dos vínculos maternos durante a infância pode estar relacionada às condições emocionais e neurobiológicas observadas posteriormente na adolescência, particularmente no que diz respeito à regulação emocional e à vulnerabilidade ao TEPT. A questão norteadora que orienta este estudo é: Quais são as repercussões da separação materna precoce no desenvolvimento emocional e na vulnerabilidade ao Transtorno de Estresse Pós-Traumático durante a adolescência?
A realização desta pesquisa justifica-se pela relevância social e científica de ampliar a compreensão sobre as consequências das experiências adversas ocorridas nos primeiros períodos do desenvolvimento. Do ponto de vista social, o estudo pode contribuir para o reconhecimento precoce de manifestações de sofrimento emocional em adolescentes que vivenciaram rupturas de vínculos afetivos ou situações de negligência, favorecendo ações de prevenção, acolhimento e promoção da saúde mental. O próprio reconhecimento de manifestações como isolamento social, irritabilidade, insegurança emocional e dificuldades escolares como possíveis sinais associados a experiências traumáticas pode auxiliar profissionais das áreas da saúde, educação e assistência social na identificação de situações que demandem atenção especializada.
Do ponto de vista científico, a pesquisa mostra-se relevante por integrar dimensões psicológicas, relacionais e neurobiológicas na análise da separação materna precoce. A literatura examinada no estudo aponta que experiências traumáticas precoces podem estar relacionadas a alterações nos mecanismos de regulação emocional, na resposta ao estresse e em estruturas cerebrais envolvidas na memória, no medo e nas funções executivas. Ao mesmo tempo, fatores protetores, como vínculos afetivos seguros, apoio social, resiliência e intervenções precoces, podem favorecer processos adaptativos e reduzir a vulnerabilidade diante das adversidades (Cao et al., 2024; Toyama et al., 2025). Assim, compreender simultaneamente fatores de risco e fatores de proteção permite uma abordagem menos determinista do fenômeno e mais adequada às necessidades de prevenção e intervenção.
Diante desse contexto, o objetivo geral desta pesquisa é analisar, por meio de uma revisão narrativa da literatura, as repercussões da separação materna precoce no desenvolvimento emocional e na vulnerabilidade ao Transtorno de Estresse Pós-Traumático em adolescentes, considerando aspectos psicológicos e neurobiológicos relacionados à regulação emocional e à resposta ao estresse.
Dessa forma, a presente revisão busca contribuir para uma compreensão integrada da separação materna precoce, considerando que suas possíveis repercussões não devem ser analisadas exclusivamente a partir da ausência física da figura materna, mas também em função da qualidade dos vínculos afetivos e das condições de cuidado oferecidas durante o desenvolvimento. Ao aproximar evidências psicológicas, relacionais e neurobiológicas, pretende-se ampliar a compreensão dos fatores associados à vulnerabilidade ao trauma na adolescência e reforçar a importância da identificação precoce, do fortalecimento das redes de apoio e da implementação de estratégias interdisciplinares de prevenção e cuidado em saúde mental.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA
2.1. Separação Materna Precoce, Abandono e Negligência Emocional
A separação materna durante a infância constitui uma experiência que pode assumir diferentes significados e repercussões conforme as circunstâncias em que ocorre. A ausência física da mãe não deve ser analisada isoladamente, pois os efeitos psicológicos de uma ruptura de vínculo dependem também da qualidade das relações estabelecidas com outras figuras cuidadoras, da estabilidade do ambiente e da disponibilidade de proteção após a separação. A literatura sobre adversidades na infância indica que experiências de separação de cuidadores, negligência e outras formas de privação podem estar relacionadas a alterações nos processos emocionais, cognitivos e sociais ao longo do desenvolvimento (McLaughlin et al., 2019).
A negligência emocional apresenta particularidades porque pode ocorrer mesmo quando a criança permanece fisicamente inserida em seu ambiente familiar. Nessa situação, a ausência pode assumir a forma de indisponibilidade afetiva, pouca responsividade às necessidades emocionais, dificuldade de oferecer proteção ou insuficiência de suporte diante de situações de medo e sofrimento. A relevância dessas experiências está relacionada ao fato de que o desenvolvimento infantil ocorre em permanente interação com o ambiente, fazendo com que condições persistentes de ameaça ou privação possam influenciar diferentes dimensões do desenvolvimento psicológico e neural (McLaughlin et al., 2019).
A Teoria do Apego contribui para compreender a importância das relações estabelecidas entre a criança e seus cuidadores. Bowlby (2002) considera que a proximidade com uma figura cuidadora exerce função fundamental na busca de proteção e segurança, sobretudo diante de situações percebidas como ameaçadoras. A ruptura ou fragilização dessas relações pode, portanto, representar uma experiência emocionalmente significativa, especialmente quando a criança não dispõe de outras relações capazes de proporcionar segurança e estabilidade (Bowlby, 2002).
Entretanto, a separação materna não deve ser compreendida como fator determinante isolado para o desenvolvimento de psicopatologias. A investigação contemporânea sobre adversidades demonstra que seus efeitos variam de acordo com características como tipo de experiência, intensidade, duração, momento do desenvolvimento e condições ambientais posteriores. Essa perspectiva é particularmente importante para evitar interpretações deterministas segundo as quais toda criança submetida à separação materna necessariamente apresentará alterações emocionais ou transtornos psicológicos posteriormente (McLaughlin et al., 2019).
2.2. Adolescência, Desenvolvimento Emocional e Vulnerabilidade Psicológica
A adolescência corresponde a uma etapa caracterizada por importantes transformações físicas, psicológicas, sociais e neurobiológicas. Nesse período, o indivíduo passa por mudanças relacionadas à identidade, autonomia, relações interpessoais e formas de lidar com situações estressantes. A exposição a adversidades pode interagir com essas transformações e produzir diferentes trajetórias de adaptação, sobretudo quando os recursos individuais e sociais disponíveis são insuficientes para responder às demandas ambientais (Masten, 2021).
A relação entre adolescência e estresse também pode ser analisada sob uma perspectiva fisiológica. Mousikou, Kyriakou e Skordis (2023) destacam que infância e adolescência constituem períodos relevantes do desenvolvimento e podem apresentar maior sensibilidade aos estressores. A resposta adaptativa ao estresse envolve mecanismos fisiológicos, comportamentais e hormonais, incluindo a ativação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal. A intensidade e a duração do estressor, assim como as características individuais e o estágio de desenvolvimento, interferem na resposta apresentada pelo organismo (Mousikou; Kyriakou; Skordis, 2023).
As experiências emocionais cotidianas também desempenham papel importante nesse período. Yu e Liu (2025) observaram que adolescentes com maiores níveis de resiliência apresentaram melhor equilíbrio emocional diante de situações de estresse cotidiano e utilizaram com maior frequência estratégias adaptativas de regulação emocional, como reavaliação cognitiva e compartilhamento social. Esses resultados indicam que a adolescência deve ser compreendida simultaneamente como período de vulnerabilidade e como etapa de possibilidades de desenvolvimento de recursos psicológicos protetores (Yu; Liu, 2025).
Dessa maneira, adolescentes que vivenciaram rupturas afetivas ou outras experiências adversas durante a infância podem apresentar diferentes formas de resposta. Alguns podem desenvolver dificuldades relacionadas à regulação emocional, enquanto outros podem apresentar capacidade de adaptação favorecida por relações protetoras e recursos pessoais. A compreensão dessas diferenças é essencial para evitar generalizações e reconhecer que a trajetória psicológica resulta da interação entre fatores de risco, proteção e desenvolvimento (Masten, 2021).
2.3. Teoria do Apego e Importância dos Vínculos Afetivos
A Teoria do Apego constitui uma referência fundamental para compreender o papel das relações afetivas precoces no desenvolvimento. Bowlby (2002) propôs que a criança possui uma tendência a buscar proximidade com figuras cuidadoras, especialmente em situações de ameaça ou desconforto. A presença de uma figura capaz de oferecer proteção e segurança contribui para a organização das experiências emocionais e para o estabelecimento de relações interpessoais ao longo do desenvolvimento (Bowlby, 2002).
A qualidade dessas relações possui importância particular porque as experiências precoces fazem parte do contexto no qual a criança aprende a interpretar situações sociais e emocionais. Relações caracterizadas por disponibilidade, proteção e estabilidade podem favorecer a construção de segurança, enquanto contextos marcados por ameaça, negligência ou instabilidade podem aumentar a exposição a experiências de estresse. Essa associação, contudo, deve ser compreendida em termos probabilísticos, considerando a diversidade das trajetórias individuais (Bowlby, 2002; McLaughlin et al., 2019).
A literatura neurobiológica também contribui para ampliar essa compreensão. McLaughlin et al. (2019) demonstraram, em revisão sistemática de estudos de neuroimagem, que diferentes dimensões da adversidade infantil estão associadas a padrões distintos de desenvolvimento neural. Os autores destacam que experiências relacionadas à ameaça e experiências de privação não apresentam necessariamente os mesmos efeitos sobre o cérebro em desenvolvimento, reforçando a importância de distinguir os diferentes tipos de adversidade estudados (McLaughlin et al., 2019).
Assim, a ruptura de uma relação de cuidado não deve ser reduzida exclusivamente à ausência física da mãe. É necessário considerar a qualidade global do ambiente relacional em que a criança se desenvolve. A existência de outros adultos responsivos, relações familiares estáveis e contextos sociais protetores pode modificar significativamente a forma como uma experiência de separação é vivenciada e incorporada ao desenvolvimento psicológico (Masten, 2021).
2.4. Trauma Psicológico e Transtorno de Estresse Pós-Traumático na Adolescência
O Transtorno de Estresse Pós-Traumático constitui uma condição relacionada à exposição a eventos traumáticos e pode apresentar manifestações que interferem no funcionamento emocional, cognitivo, social e comportamental. Entre os sintomas descritos nos critérios diagnósticos encontram-se fenômenos relacionados à revivescência da experiência, esquiva, alterações negativas em cognições e humor e modificações na reatividade e no estado de alerta. O diagnóstico exige avaliação clínica e não pode ser estabelecido simplesmente pela presença de uma experiência adversa (American Psychiatric Association, 2014).
Durante a adolescência, manifestações relacionadas ao trauma podem assumir formas diversas e, em algumas situações, podem ser confundidas com mudanças comportamentais próprias dessa etapa do desenvolvimento. Alterações do sono, irritabilidade, dificuldades de concentração, retraimento social e mudanças emocionais podem interferir na vida escolar e familiar e precisam ser analisadas dentro do conjunto de sintomas apresentado pelo adolescente (American Psychiatric Association, 2014).
A literatura sobre trauma infantil indica que experiências adversas estão associadas a maior risco de problemas de saúde mental, embora essa associação não seja equivalente a uma relação causal inevitável. Danese e Widom (2020), ao analisarem experiências objetivas e subjetivas de maus-tratos na infância, demonstraram a importância de considerar a forma como a experiência é vivenciada e interpretada pelo indivíduo na compreensão de suas relações com a psicopatologia. Esse resultado reforça a complexidade dos mecanismos envolvidos entre adversidade e sofrimento psicológico (Danese; Widom, 2020).
Nesse sentido, a separação materna precoce pode ser considerada um possível componente de uma trajetória de adversidade, mas não deve ser apresentada como causa direta e universal do TEPT. A vulnerabilidade ao transtorno resulta da interação entre características do evento, experiências acumuladas, desenvolvimento individual, relações sociais e mecanismos de proteção. Essa abordagem é mais compatível com a literatura contemporânea sobre trauma e desenvolvimento (Danese; Widom, 2020).
2.5. Adversidade Precoce e Desenvolvimento Neurobiológico
As experiências vivenciadas durante a infância podem interagir com processos de desenvolvimento cerebral que ocorrem ao longo de diferentes fases da vida. A revisão realizada por McLaughlin et al. (2019), envolvendo 109 estudos com medidas de neuroimagem, encontrou associações entre adversidade infantil e diferenças em aspectos da estrutura e do funcionamento cerebral. Os resultados indicaram, especialmente, que experiências de ameaça estiveram associadas a alterações envolvendo amígdala, córtex pré-frontal medial e hipocampo, enquanto experiências de privação apresentaram padrões diferentes, envolvendo principalmente regiões frontoparietais (McLaughlin et al., 2019).
Esses achados são relevantes para o presente estudo porque demonstram que não é adequado tratar todas as experiências adversas como se produzissem um único padrão neurobiológico. A separação de cuidadores pode estar relacionada tanto a experiências de privação quanto a situações de ameaça ou instabilidade, dependendo das circunstâncias concretas em que ocorre. Por essa razão, as repercussões neurobiológicas devem ser discutidas com cautela, evitando atribuir à separação materna efeitos cerebrais específicos sem evidência diretamente relacionada a essa condição (McLaughlin et al., 2019).
Teicher et al. (2003) também demonstraram que o estresse intenso e os maus-tratos durante fases precoces do desenvolvimento podem estar associados a alterações em diferentes níveis neurobiológicos, incluindo mecanismos relacionados ao eixo hipotálamo-hipófise-adrenal e a estruturas cerebrais envolvidas no processamento emocional. Os autores ressaltam que experiências precoces de estresse podem influenciar processos importantes do desenvolvimento cerebral e contribuir para vulnerabilidades psicopatológicas posteriores (Teicher et al., 2003).
Dessa forma, a relação entre experiências precoces e funcionamento cerebral deve ser compreendida como resultado de processos de desenvolvimento e adaptação. O cérebro em desenvolvimento apresenta capacidade de modificação diante das experiências ambientais, o que significa que alterações observadas em populações expostas à adversidade não devem ser interpretadas como estruturas fixas ou como evidência de uma determinação biológica absoluta (McLaughlin et al., 2019).
2.6. Eixo Hipotálamo-Hipófise-Adrenal e Resposta Ao Estresse
O eixo hipotálamo-hipófise-adrenal desempenha papel central na resposta fisiológica ao estresse. Diante de determinados estressores, ocorre uma sequência de respostas neuroendócrinas que contribui para a adaptação do organismo. Mousikou, Kyriakou e Skordis (2023) explicam que estressores físicos e psicológicos podem ativar esse sistema, sendo a resposta influenciada pela intensidade, duração e natureza do estressor e pelas características do indivíduo (Mousikou; Kyriakou; Skordis, 2023).
A ativação aguda da resposta ao estresse possui função adaptativa, permitindo que o organismo mobilize recursos diante de situações desafiadoras. Entretanto, quando a ativação dos sistemas relacionados ao estresse é persistente, podem ocorrer consequências negativas para diferentes processos fisiológicos. Mousikou, Kyriakou e Skordis (2023) destacam que o estresse crônico e a exposição prolongada a níveis elevados de cortisol podem interferir em diferentes eixos hormonais e apresentar repercussões para o desenvolvimento e a saúde (Mousikou; Kyriakou; Skordis, 2023).
Teicher et al. (2003) relacionaram experiências precoces de estresse intenso a alterações neurobiológicas que envolvem, entre outros mecanismos, o sistema de resposta ao estresse. Esses resultados contribuem para compreender como experiências adversas durante períodos sensíveis do desenvolvimento podem estar associadas a mudanças persistentes nos processos fisiológicos e neurais, embora não permitam atribuir automaticamente alterações específicas a toda situação de separação materna (Teicher et al., 2003).
2.7. Regulação Emocional e Vulnerabilidade Ao Trauma
A regulação emocional constitui um componente importante da adaptação psicológica porque envolve processos utilizados pelos indivíduos para modificar, manter ou administrar suas respostas emocionais diante das circunstâncias vivenciadas. Na adolescência, esses processos continuam em desenvolvimento e podem ser influenciados pelas experiências sociais, familiares e ambientais. Yu e Liu (2025) verificaram que adolescentes com maior resiliência apresentaram maior equilíbrio emocional diante do estresse cotidiano e maior utilização de determinadas estratégias adaptativas de regulação emocional (Yu; Liu, 2025).
Experiências adversas durante a infância podem criar condições nas quais a regulação emocional se torna mais difícil, especialmente quando o indivíduo esteve exposto repetidamente a situações de ameaça ou privação. A revisão de McLaughlin et al. (2019) mostra que diferentes formas de adversidade estão relacionadas a alterações em sistemas neurais envolvidos no processamento emocional, na atenção e na aprendizagem, embora os padrões observados variem conforme a dimensão da adversidade (McLaughlin et al., 2019).
A dificuldade de regulação emocional, portanto, pode ser considerada um dos elementos que ajudam a compreender a relação entre adversidade precoce e sofrimento psicológico. Entretanto, não se deve interpretar essa relação como determinística. Recursos individuais, experiências posteriores e relações protetoras podem contribuir para modificar trajetórias inicialmente marcadas por maior vulnerabilidade (Masten, 2021).
2.8. Resiliência, Suporte Social e Fatores de Proteção
A resiliência representa um conceito fundamental para compreender por que indivíduos submetidos a experiências adversas podem apresentar trajetórias diferentes. Masten (2021) descreve a resiliência como uma capacidade de adaptação de sistemas diante de desafios que ameaçam seu funcionamento, sobrevivência ou desenvolvimento. Essa perspectiva desloca a atenção de características exclusivamente individuais para a interação entre pessoas e sistemas sociais, incluindo família, escola, comunidade e políticas de proteção (Masten, 2021).
O suporte social constitui outro elemento relevante para a adaptação diante da adversidade. Cao et al. (2024), em estudo com jovens universitários, encontraram associação positiva entre suporte social e resiliência psicológica e identificaram papel mediador de estratégias de enfrentamento nessa relação. Embora a população estudada não corresponda exatamente a adolescentes que vivenciaram separação materna, os resultados contribuem para compreender a importância dos recursos sociais e das estratégias de enfrentamento na adaptação psicológica (Cao et al., 2024).
Stapley et al. (2023), por sua vez, investigaram adolescentes ao longo de três anos e identificaram diferentes estratégias de enfrentamento e fontes de apoio, observando que os tipos e a consistência desses recursos variavam conforme os níveis de adversidade vivenciados e os recursos disponíveis nos contextos físicos e sociais. Esses resultados reforçam a importância de considerar o ambiente em que o adolescente está inserido ao analisar sua capacidade de enfrentar situações difíceis (Stapley et al., 2023).
Yu e Liu (2025) também observaram que adolescentes com níveis mais elevados de resiliência apresentaram melhor equilíbrio emocional diante do estresse cotidiano. O estudo identificou associação entre resiliência e estratégias de regulação emocional, especialmente reavaliação cognitiva e compartilhamento social, indicando que determinados recursos psicológicos podem favorecer respostas mais adaptativas às situações estressantes (Yu; Liu, 2025).
2.9. Integração Entre Separação Materna, Desenvolvimento Emocional e Vulnerabilidade Ao TEPT
A análise conjunta das evidências permite compreender que a separação materna precoce está inserida em uma rede de fatores relacionados ao desenvolvimento emocional e à saúde mental. A ruptura de um vínculo significativo pode representar uma experiência de adversidade, mas suas repercussões dependem das circunstâncias da separação, da existência de outras relações de cuidado, da exposição a experiências posteriores e dos recursos disponíveis ao longo do desenvolvimento (Bowlby, 2002; Masten, 2021).
Do ponto de vista neurobiológico, experiências adversas durante a infância podem estar associadas a alterações em sistemas relacionados à resposta ao estresse e a circuitos envolvidos na emoção, memória e regulação. Entretanto, os resultados da literatura não sustentam a ideia de que a separação materna produza obrigatoriamente um padrão cerebral específico. Os efeitos variam conforme o tipo de adversidade e as condições nas quais ela ocorre, sendo necessário interpretar os achados com cautela (McLaughlin et al., 2019; Teicher et al., 2003).
No âmbito psicológico, experiências precoces de adversidade podem contribuir para trajetórias de maior vulnerabilidade ao sofrimento mental, incluindo transtornos relacionados ao trauma. Contudo, fatores protetores podem modificar essas trajetórias. A existência de suporte social, relações estáveis, estratégias adaptativas de enfrentamento e ambientes capazes de proporcionar segurança constitui elemento relevante para compreender por que indivíduos expostos a adversidades apresentam resultados diferentes (Cao et al., 2024; Masten, 2021; Stapley et al., 2023).
Assim, a hipótese central não deve ser formulada como uma relação direta entre separação materna e desenvolvimento de TEPT. É mais adequado considerar que experiências de separação e negligência podem participar de trajetórias de risco, aumentando a vulnerabilidade em determinadas circunstâncias, enquanto fatores individuais, relacionais e ambientais podem favorecer adaptação e recuperação. Essa interpretação é compatível com a perspectiva contemporânea de desenvolvimento, na qual risco e proteção atuam de maneira dinâmica ao longo da vida (Danese; Widom, 2020; Masten, 2021).
2.10. Implicações para Prevenção e Intervenção
A compreensão da separação materna como experiência potencialmente associada à adversidade reforça a importância da identificação precoce de sinais de sofrimento psicológico. A avaliação de crianças e adolescentes deve considerar não apenas a ocorrência de experiências negativas, mas também sua intensidade, duração, significado subjetivo, contexto familiar e disponibilidade de suporte. Essa abordagem permite uma avaliação mais individualizada do risco e evita interpretações baseadas exclusivamente na presença ou ausência de determinado evento (Danese; Widom, 2020).
As estratégias preventivas devem contemplar tanto o adolescente quanto os ambientes nos quais ele está inserido. A perspectiva sistêmica da resiliência destaca que famílias, escolas, comunidades e outros sistemas sociais podem funcionar como recursos importantes para favorecer adaptação diante da adversidade (Masten, 2021). Da mesma forma, estudos com adolescentes indicam que diferentes fontes de apoio e estratégias de enfrentamento podem assumir papel importante na maneira como os jovens lidam com situações difíceis (Stapley et al., 2023).
O fortalecimento de recursos sociais também merece atenção. Cao et al. (2024) identificaram associação entre suporte social e resiliência, enquanto Yu e Liu (2025) encontraram relação entre maior resiliência, melhor equilíbrio emocional e utilização de estratégias adaptativas de regulação. Esses resultados apoiam a importância de intervenções que não se concentrem exclusivamente na redução dos sintomas, mas também no fortalecimento dos recursos individuais e sociais disponíveis aos jovens (Cao et al., 2024; Yu; Liu, 2025).
Dessa forma, a prevenção dos impactos associados às experiências adversas na infância deve envolver identificação precoce, fortalecimento dos vínculos protetores, ampliação das redes de apoio e acesso a intervenções psicológicas adequadas quando houver sofrimento significativo. A finalidade não é presumir que toda criança submetida à separação materna desenvolverá psicopatologia, mas reconhecer situações de maior vulnerabilidade e oferecer condições capazes de favorecer trajetórias de desenvolvimento mais adaptativas (Masten, 2021; Danese; Widom, 2020).
3. METODOLOGIA
3.1. Delineamento da Pesquisa
O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa bibliográfica, de abordagem qualitativa, desenvolvida por meio de uma revisão narrativa da literatura. A escolha desse delineamento está relacionada à natureza do problema investigado, que envolve um fenômeno complexo e multidimensional, situado na interface entre desenvolvimento humano, neurociência, psicologia e saúde mental. A revisão narrativa possibilita reunir e articular conhecimentos provenientes de diferentes perspectivas teóricas e metodológicas, favorecendo a interpretação integrada dos achados disponíveis sobre determinado fenômeno (Green; Johnson; Adams, 2006).
A opção pela revisão narrativa justifica-se pelo propósito de realizar uma síntese interpretativa da literatura, e não uma combinação estatística dos resultados dos estudos. Dessa forma, a investigação buscou identificar convergências, divergências, relações conceituais e possíveis mecanismos explicativos presentes na produção científica relacionada à separação materna precoce e suas repercussões no desenvolvimento psicológico e neurobiológico.
3.2. Fontes de Informação e Bases de Dados
O levantamento bibliográfico foi realizado nas bases de dados PubMed, Scopus e PsycINFO, selecionadas em razão de sua relevância para estudos científicos nas áreas de saúde, neurociência, psicologia, psiquiatria, desenvolvimento humano e saúde mental.
A utilização de diferentes bases teve como finalidade ampliar a abrangência da busca bibliográfica e contemplar diferentes áreas de conhecimento relacionadas ao problema investigado. A PubMed foi considerada relevante para a identificação de estudos vinculados às ciências biomédicas e à saúde; a Scopus, pela abrangência multidisciplinar e pela indexação de ampla produção científica; e a PsycINFO, pela sua especificidade na área da psicologia e das ciências comportamentais.
Foram priorizadas publicações científicas contemporâneas, considerando-se o recorte temporal dos últimos cinco anos estabelecido para a literatura recente. Entretanto, referências clássicas e marcos teóricos fundamentais para a compreensão dos conceitos de apego, trauma, estresse precoce e desenvolvimento neurobiológico foram utilizados de maneira complementar.
3.3. Estratégia de Busca Bibliográfica
A busca bibliográfica foi realizada utilizando-se descritores em língua inglesa relacionados aos principais componentes da questão de investigação: separação materna e estresse precoce; TEPT e vulnerabilidade; e adolescência. A estratégia de busca empregada foi:
("maternal separation" OR "early life stress") AND ("post-traumatic stress disorder" OR "vulnerability") AND ("adolescents"). A estratégia foi construída mediante o emprego de operadores booleanos. O operador OR foi utilizado para reunir termos semanticamente relacionados e ampliar a recuperação de estudos, enquanto o operador AND foi utilizado para estabelecer a interseção entre os diferentes eixos temáticos da investigação.
3.4. Procedimentos de Levantamento e Seleção da Literatura
Na etapa inicial, foram identificados 63 artigos científicos. Após a identificação dos registros, procedeu-se à análise preliminar dos títulos e resumos, com a finalidade de verificar a pertinência de cada publicação em relação ao objetivo e à questão norteadora da pesquisa. Nessa etapa, foram considerados aspectos como a correspondência do estudo com o fenômeno da separação materna ou do estresse precoce, sua relação com o desenvolvimento emocional ou neurobiológico, a presença de elementos relacionados à vulnerabilidade psicológica ou ao TEPT e a pertinência da população ou faixa etária investigada. Posteriormente, os estudos potencialmente relevantes foram submetidos à avaliação de elegibilidade mediante análise de seu conteúdo, considerando-se os critérios previamente estabelecidos. Foram excluídos registros duplicados, textos incompletos, publicações sem relação suficiente com o problema investigado e estudos que não apresentavam informações relevantes para responder à questão de pesquisa.
Após a análise, foram excluídos 44 artigos por motivos relacionados à duplicidade, incompletude, ausência de pertinência temática ou não atendimento aos critérios estabelecidos.
Ao final, o manuscrito registra a inclusão de 19 artigos considerados relevantes para a análise dos impactos da separação materna precoce sobre o desenvolvimento emocional, neurobiológico e a vulnerabilidade ao TEPT durante a adolescência.
A seleção dos estudos foi orientada pelo princípio de pertinência temática, buscando-se privilegiar publicações capazes de contribuir diretamente para a compreensão das relações entre experiências adversas precoces, desenvolvimento, regulação emocional, estresse e vulnerabilidade ao trauma.
3.5. Instrumento de Coleta e Organização dos Dados
Por se tratar de uma pesquisa bibliográfica, não foram utilizados participantes humanos nem instrumentos de coleta de dados primários, tais como questionários, entrevistas, escalas psicométricas ou testes neuropsicológicos. A unidade de análise foi constituída pelas publicações científicas selecionadas para compor a revisão.
Para sistematizar as informações provenientes dos estudos, os dados foram organizados de acordo com categorias previamente relacionadas aos objetivos da investigação. Foram considerados, sempre que disponíveis, os seguintes elementos: autor(es), ano de publicação, objetivo do estudo, população investigada, contexto da experiência adversa, delineamento metodológico, principais variáveis ou fenômenos analisados, resultados relacionados ao desenvolvimento emocional, resultados neurobiológicos, aspectos relacionados ao TEPT, fatores de risco, fatores de proteção e principais conclusões.
A organização dessas informações permitiu comparar os estudos selecionados e identificar padrões de resultados, convergências e divergências entre as diferentes publicações. Em revisões narrativas, a sistematização do processo de busca, seleção e organização da literatura contribui para reduzir a arbitrariedade da síntese e ampliar a transparência do percurso investigativo (Green; Johnson; Adams, 2006).
3.6. Procedimentos de Análise dos Dados
A análise dos dados foi realizada por meio de síntese qualitativa, descritiva e interpretativa dos estudos selecionados. Inicialmente, as informações extraídas das publicações foram organizadas segundo sua proximidade temática e sua contribuição para a questão de pesquisa. Posteriormente, os resultados foram agrupados em eixos analíticos relacionados aos principais componentes do fenômeno investigado, compreendendo: separação materna precoce e negligência emocional; adolescência e desenvolvimento emocional; vínculos afetivos e teoria do apego; trauma psicológico e TEPT; estresse precoce e desenvolvimento neurobiológico; mecanismos fisiológicos da resposta ao estresse; regulação emocional; resiliência e suporte social; e fatores de proteção, prevenção e intervenção.
A análise buscou identificar relações entre os diferentes níveis de funcionamento envolvidos no fenômeno, articulando os aspectos psicológicos, emocionais e neurobiológicos descritos na literatura. Desse modo, os resultados não foram analisados de maneira isolada, mas interpretados considerando-se a interação entre experiências adversas precoces, processos de desenvolvimento, mecanismos de resposta ao estresse, capacidade de regulação emocional e condições ambientais de proteção.
A síntese realizada foi de natureza narrativa e interpretativa, não sendo empregados procedimentos estatísticos de agregação dos resultados, cálculo de tamanho de efeito ou metanálise. Essa opção é compatível com o delineamento adotado, cujo propósito foi integrar criticamente diferentes contribuições científicas para construir uma compreensão abrangente do fenômeno investigado.
A análise narrativa permite justamente integrar resultados provenientes de diferentes desenhos de pesquisa e perspectivas conceituais, desde que o processo de seleção e interpretação da literatura seja explicitado de maneira suficientemente rigorosa (Green; Johnson; Adams, 2006).
3.7. Síntese dos Achados
Após a organização e análise dos estudos selecionados, os achados foram sintetizados de forma descritivo-analítica, buscando-se estabelecer relações entre a separação materna precoce e seus possíveis efeitos sobre o desenvolvimento emocional e neurobiológico durante a adolescência.
A síntese considerou tanto evidências relacionadas a fatores de risco quanto resultados associados a fatores de proteção. Foram particularmente observados os achados referentes às alterações na resposta ao estresse, regulação emocional, processos relacionados ao trauma, funcionamento neurobiológico e vulnerabilidade ao TEPT.
Também foram considerados elementos relacionados à resiliência, ao suporte social, à qualidade dos vínculos afetivos e às possibilidades de prevenção e intervenção. Essa abordagem permitiu evitar uma interpretação determinista da separação materna, reconhecendo que experiências adversas precoces podem aumentar a vulnerabilidade, mas não estabelecem, isoladamente, um resultado psicopatológico inevitável.
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS
A síntese analítica dos dados coletados na literatura contemporânea e clássica evidencia que a separação materna precoce e a negligência emocional constituem importantes fatores de risco para o desenvolvimento de alterações emocionais, comportamentais e neurobiológicas durante a adolescência. Os estudos analisados sugerem que a interrupção dos vínculos afetivos primários pode comprometer mecanismos fundamentais de regulação emocional e adaptação psicológica (Schore, 2021).
A interrupção do laço materno não apenas deflagra o luto, mas reconfigura os mecanismos de sobrevivência do jovem. A partir de uma comparação sistematicamente as implicações do abandono material frente à negligência afetiva silenciosa (Quadro 1), constatou-se que a divergência teórica outrora existente entre a psicanálise e a biologia encontra agora uma convergência notável através da neuropsiquiatria translacional. As teorias de Bowlby foi empiricamente validada e expandida pela demonstração de que a falta do apego seguro produz uma verdadeira injúria neurológica.
Tabela 1. Comparação Analítica entre Abandono Físico e Negligência Emocional.
Variável Analítica | Abandono Físico (Ausência Material) | Negligência Emocional (Ausência Afetiva) |
Visibilidade Social | Alta, mobiliza redes de proteção do Estado (Conselho Tutelar, Varas da Infância). | Baixa. Silenciosa, geralmente oculta sob o verniz de uma família estruturada. |
Padrão de Apego Gerado | Predominantemente Evitativo ou Ansioso. | Fortemente Desorganizado. O cuidador é simultaneamente abrigo e ameaça. |
Consequências Clínicas Principais | Luto patológico, distúrbios de externalização, depressão reativa. | Dissociação profunda, vazio existencial crônico, automutilação, ideação suicida. |
Manifestação do TEPT | Focada na perda literal do provedor primário. Medo do desamparo material e social. | Focada na revivescência de abusos psicológicos. Intensa sensação de ser inerentemente indesejável. |
Fonte: Elaborado pelos autores (2026)
Os achados apresentados na tabela 1, encontram respaldo em estudos empíricos sobre adversidades na infância. Em revisão sistemática, McLaughlin e colaboradores (2020) demonstraram que experiências precoces de negligência e privação afetiva precoce estão associadas a alterações no processamento emocional, aumento da hipervigilância e maior vulnerabilidade a transtornos mentais ao longo do desenvolvimento. Os autores destacam que a ausência de relações afetivas seguras compromete mecanismos fundamentais de adaptação emocional e social.
Diferentemente do abandono físico, que geralmente mobiliza redes formais de proteção e torna a situação mais evidente, a negligência emocional costuma ocorrer de forma silenciosa e pouco visível, podendo permanecer encoberta mesmo em contextos familiares aparentemente estruturados. Essa característica dificulta sua identificação na prática clínica, uma vez que manifestações como isolamento, irritabilidade, insegurança emocional ou dificuldades escolares são frequentemente interpretadas como comportamentos típicos da adolescência. Nesse contexto, torna-se fundamental que profissionais da saúde mental desenvolvam um olhar clínico sensível para reconhecer sinais precoces de sofrimento psíquico relacionados às experiências de privação afetiva, favorecendo intervenções oportunas e prevenindo a cronificação dos sintomas traumáticos.
Tabela 2. Alterações Neurobiológicas no TEPT decorrentes de Traumas Relacionais.
Estrutura Cerebral | Impacto da Privação Materna Crônica | Consequência Sintomatológica no Adolescente |
Eixo HPA | Desregulação severa, resultando em produção constante e tóxica de cortisol. | Exaustão crônica, desregulação do sono, resposta imune prejudicada, tensão muscular. |
Amígdala | Hiperativação e hipertrofia. O centro de alarme permanece ligado indefinidamente. | Reações desproporcionais de pânico, explosões de fúria irracional, estado de alerta paranoico. |
Hipocampo | Redução de volume devido à apoptose celular induzido pelo excesso de hormônios do estresse. | Incapacidade de contextualizar memórias temporalmente. O trauma é vivido como presente perpétuo. |
Córtex Pré-Frontal | Atraso no amadurecimento e redução da conectividade inibitória com o sistema límbico. | Impulsividade grave, déficit de atenção, prejuízos das funções executivas e tomada de decisões. |
Fonte: Elaborado pelos autores (2026)
Esses resultados solidificam a pesquisa de que o trauma relacional precoce compromete o alicerce formativo do cérebro. As abordagens tradicionais de psicoterapia que dependem exclusivamente das funções cognitivas superiores do córtex pré-frontal encontram barreiras formidáveis ao tratar adolescentes traumatizados. O tratamento demanda a incorporação de terapias focadas na regulação somática, no processamento ocular de memórias e na reconstrução da segurança interpessoal visceral.
As alterações neurobiológicas descritas na tabela 2 corroboram com evidências apresentadas por Van der Kolk (2020), Schore (2021) e Teicher et al. (2003), segundo os quais afirmam que o trauma relacional precoce interfere no desenvolvimento de circuitos cerebrais responsáveis pela regulação emocional, memória, resposta ao estresse e funções executivas. Dessa forma, as manifestações clínicas observadas em adolescentes expostos à separação materna e à negligência emocional não devem ser compreendidas apenas como alterações comportamentais isoladas, mas como consequências de adaptações neurobiológicas provocada pelo estresse precoce.
Resiliência refere-se à capacidade de adaptação a situações difíceis ou adversidades. É o que proporciona às pessoas a força psicológica necessária para lidar com o estresse e as dificuldades (LIN et al., 2022). Além disso, a resiliência também pode ser definida como traço de personalidade;
A resiliência como traço de personalidade descreve a capacidade de uma pessoa se ajustar de forma eficaz e flexível ao enfrentar desafios e dificuldades. Ela tem sido identificada como um importante recurso psicológico que pode influenciar a forma como os indivíduos regulam as emoções e lidam com o estresse, o que pode ser relevante para a compreensão da ansiedade social (LI e ZHENG, 2025).
Com foco em estudantes universitários, este estudo examinou em que medida a resiliência como traço de personalidade, a regulação emocional e as estratégias de enfrentamento contribuem para a mitigação da ansiedade social, enfatizando seus potenciais papéis como mediadores nesse processo psicológico (LI e ZHENG, 2025).
Teorias e pesquisas recentes nessa área têm se concentrado cada vez mais na natureza intrínseca da resiliência, em que a adaptação é facilitada pelas interações entre o indivíduo e aspectos de seu ambiente ecológico (STAPLEY et al. 2023).
Acredita-se que a resiliência ocorra quando fatores individuais, sociais e ambientais de promoção/proteção interrompem o caminho do risco à patologia (LIVINGSTON et al., 2025).
Os jovens geralmente contam com suas famílias para segurança e apoio quando enfrentam experiências que ameaçam seu bem-estar. A forma como os jovens lidam com adversidades ou desafios pode resultar em desfechos positivos ou negativos, resiliência ou patologia (LIVINGSTON et al., 2025).
5. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS
A presente pesquisa permitiu compreender os impactos da separação materna precoce no desenvolvimento emocional e na vulnerabilidade ao Transtorno de Estresse Pós-Traumático durante a adolescência. Os estudos analisados demostram que a fragilidade dos vínculos afetivos e as experiências de negligência emocional podem comprometer significativamente os mecanismos de regulação emocional, favorecendo o surgimento de sofrimento psíquico e transtornos relacionados ao trauma.
Os resultados demonstram que a adolescência representa um período de intensa vulnerabilidade emocional e neurobiológica, no qual experiências traumáticas precoces podem influenciar diretamente o desenvolvimento psicológico e cerebral. Nesse contexto, a negligência emocional mostrou-se especialmente relevante por seus efeitos persistentes e muitas vezes silenciosos sobre a saúde mental juvenil.
Além dos impactos emocionais, evidências neurocientíficas apontam alterações em estruturas cerebrais relacionadas à memória, ao medo e à autorregulação emocional, reforçando a compreensão do trauma como um fenômeno que envolve aspectos psicológicos e neurobiológicos.
A pesquisa também aponta a necessidade de ampliar o debate sobre saúde mental infantojuvenil, especialmente no que se refere à identificação precoce dos sinais de sofrimento emocional em adolescentes expostos à ruptura dos vínculos afetivos. Muitas manifestações comportamentais, como isolamento social, irritabilidade, insegurança emocional e dificuldades escolares, podem estar associadas a experiências traumáticas e necessitam ser compreendidas de forma sensível e acolhedora pelos profissionais da saúde, educação e assistência social.
Dessa forma, torna-se fundamental o fortalecimento de estratégias de prevenção, acolhimento psicológico e promoção da saúde mental voltadas à população infantojuvenil. A construção de redes de apoio emocional e intervenções psicológicas fundamentadas cientificamente pode contribuir significativamente para a redução dos impactos da privação afetiva e para o desenvolvimento saudável dos adolescentes.
Além das contribuições apresentadas, esta revisão evidencia a necessidade de novas investigações sobre os efeitos da separação materna no desenvolvimento emocional de adolescentes. Estudos futuros poderão adotar delineamentos longitudinais para acompanhar os impactos do trauma relacional ao longo do desenvolvimento, bem como analisar possíveis diferenças relacionadas ao sexo, às condições socioeconômicas e aos contextos de acolhimento institucional. Também se mostra relevante investigar a efetividade de políticas públicas voltadas à proteção da infância e adolescência, além de intervenções precoces direcionadas à promoção da resiliência e da saúde mental em populações expostas a adversidades precoces.
Do ponto de vista clínico, os achados reforçam a importância de abordagens terapêuticas integrativas no atendimento de adolescentes expostos a experiências traumáticas precoces. Considerando que o trauma pode produzir repercussões emocionais, cognitivas e neurobiológicas, intervenções focadas exclusivamente nos aspectos cognitivos podem não contemplar toda a complexidade do sofrimento apresentado por esses indivíduos. Nesse sentido, estratégias fundamentadas na psicoterapia focada no trauma, no fortalecimento dos vínculos afetivos, na regulação emocional e em abordagens integrativas voltadas ao processamento das experiências traumáticas podem contribuir para a promoção da saúde mental e para a redução dos impactos associados à separação materna e à negligência emocional.
Por fim, conclui-se que a compreensão dos efeitos da separação materna precoce exige uma abordagem interdisciplinar que integre contribuições da psicologia, da psicanálise, da psiquiatria e da neurociência, possibilitando uma visão mais ampla acerca das consequências emocionais e neurobiológicas do trauma psicológico na adolescência.
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1 Mestranda em Neurologia e Neurociência na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, Brazil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0004-6623-0981.
2 Doutorando em Saúde Pública na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, Brazil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0008-3943-3723