REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/774757877
RESUMO
Este estudo abordou os fenômenos semânticos na construção de sentidos em gêneros textuais, com ênfase em suas contribuições para o ensino de Língua Portuguesa. Aportado nos pressupostos da Semântica de Contextos e Cenários, o trabalho analisou como fenômenos semânticos, especialmente a polissemia e a ambiguidade, atuam no processo de produção de sentidos em textos que tratam da temática do meio ambiente. A pesquisa foi de natureza qualitativa, de caráter descritivo e exploratório, e teve como corpus uma charge, uma campanha publicitária e um post da internet, considerados enquanto gêneros textuais circulantes socialmente. A análise evidenciou que os fenômenos semânticos participam diretamente da construção de sentidos, de forma a influenciar o modo como os textos são compreendidos em contextos reais de uso da linguagem. Desse modo, os sentidos não se apresentam de forma estática, mas se especializam conforme o contexto e o cenário de produção, envolvendo elementos linguísticos, culturais e situacionais. Nessa perspectiva, observou-se que a compreensão textual demanda o reconhecimento desses fenômenos em uso, uma vez que eles interferem na produção de efeitos de sentido e nas possibilidades de leitura. Os resultados apontaram, portanto, a necessidade de uma abordagem mais sistemática da Semântica no ensino, que considere os fenômenos semânticos em funcionamento nos textos. Assim, o estudo pode contribuir para reflexões teórico-práticas sobre o ensino da significação em linguagem, destacando a relevância da Semântica para a construção de sentidos e para o desenvolvimento da capacidade de leitura e interpretação dos estudantes.
Palavras-chave: Semântica de Contextos e Cenários. Gêneros textuais. Ensino.
ABSTRACT
This study addressed semantic phenomena in the construction of meaning in textual genres, with an emphasis on their contributions to the teaching of Portuguese. Based on the assumptions of Context and Scenario Semantics, the work analyzed how semantic phenomena, especially polysemy and ambiguity, operate in the process of meaning production in texts dealing with environmental themes. The research was qualitative in nature, with a descriptive and exploratory character, and its corpus consisted of a cartoon, an advertising campaign, and an internet post, considered as textual genres that circulate socially. The analysis showed that semantic phenomena directly participate in the construction of meaning, influencing how texts are understood in real contexts of language use. Thus, meanings do not present themselves in a static way, but rather become specified according to the context and the scenario of production, involving linguistic, cultural, and situational elements. From this perspective, it was observed that textual comprehension requires the recognition of these phenomena in use, since they interfere with the production of meaning effects and the possibilities of interpretation. The results therefore pointed to the need for a more systematic approach to Semantics in teaching, one that considers semantic phenomena in operation within texts. In this sense, the study may contribute to theoretical and practical reflections on the teaching of meaning in language, highlighting the relevance of Semantics for the construction of meaning and for the development of students’ Reading and interpretive abilities.
Keywords: Semantics of Contexts and Scenarios. Textual Genres. Teaching.
1. INTRODUÇÃO
O ensino da gramática da Língua Portuguesa contempla a abordagem dos fenômenos semânticos. Na perspectiva do estudo gramatical contextualizado, é pertinente que o ensino da semântica, ao longo do processo educacional, ocorra considerando os efeitos de sentido de fenômenos semânticos em textos de diferentes gêneros textuais veiculados em suportes e mídias diversos. No entanto, pesquisas apontam que a abordagem da semântica em comparação a outros tópicos gramaticais, na educação básica, é substancialmente menor, inclusive em livros didáticos (ver Lima; Nogueira, 2022, e Lima; Nogueira, 2024).
Partindo disso, questiona-se: em que medida o processo de construção de sentidos nos gêneros textuais decorre de fenômenos semânticos? Para tal, objetivou-se analisar de que forma os fenômenos semânticos contribuem para a construção de sentidos em diferentes gêneros textuais que tratem da temática do meio ambiente, além das possibilidades dessa abordagem para o ensino de Língua Portuguesa. Assim, buscou-se identificar os principais fenômenos semânticos presentes em diferentes gêneros textuais; averiguar como as escolhas lexicais influenciam a construção de sentidos nos textos; propor reflexões teórico-práticas para o ensino de gêneros textuais, com abordagem semântica.
Nessa perspectiva, foi realizada uma pesquisa qualitativa, de caráter descritivo e exploratório, baseando-se, sobretudo, nos pressupostos da Semântica de Contextos e Cenários (SCC), que investiga o sentido de palavras e expressões em uso, abrangendo os elementos linguísticos, culturais e situacionais para a construção de sentidos no texto. O corpus da pesquisa proveio de gêneros textuais publicizados na internet, mais especificamente, uma charge, uma campanha publicitária e um post, tendo como temática afim o meio ambiente. A seleção desse tema se deveu à sua pertinência na educação básica, além de ser um assunto de interesse coletivo. A fundamentação teórica do trabalho adveio de, entre outros estudiosos, Marcuschi (2008, 2011), Bakhtin (2011) e Cavalcante (2022), para os estudos de gêneros textuais; para os estudos semânticos, basearam-se nos trabalhos de Ferrarezi Junior (2008, 2010), Ilari (2011) e Cançado (2012).
A pesquisa justifica-se por poder contribuir com os estudos de gêneros textuais em perspectiva semântica, por meio da abordagem de fenômenos semânticos no processo de construção de sentidos do/no texto. Ademais, é pertinente ao provocar reflexões teórico-práticas para o ensino de Língua Portuguesa. O artigo divide-se em quatro seções: a primeira traz as considerações iniciais; a segunda apresenta a fundamentação teórica da pesquisa; em seguida, delineia-se a metodologia do trabalho; posteriormente, são expostos os resultados e a discussão dos dados construídos na pesquisa; e finaliza-se com as considerações finais.
2. INTRODUÇÃO SEMÂNTICA: CONTEXTO TEÓRICO E CAMPO DE ATUAÇÃO
Os estudos linguísticos acontecem em diferentes perspectivas. Mas é a Semântica a disciplina que se dedica à investigação e ao tratamento sistematizado da significação em linguagem. Segundo Henriques (2018), etimologicamente, a palavra semântica proveio do grego semantiké, que significa a arte do significado. O uso primeiro do termo Semântica no escopo dos estudos linguísticos confere-se ao linguista francês Michel Bréal, em artigo seminal publicado em uma revista especializada em estudos clássicos, em 1883.
Assim foi comunicado este novo campo de estudos:
O estudo que propomos ao leitor é de natureza tão nova que nem chegou ainda a receber um nome. A preocupação da maioria dos linguistas tem-se voltado sobretudo para a análise do corpo e da forma das palavras: as leis que presidem à alteração de sentidos, à escolha de novas expressões, ao nascimento e à morte das locuções foram deixadas à margem ou apenas acidentalmente assinaladas. Como este estudo, do mesmo modo que a fonética e a morfologia, merece ter seu nome, nós o chamaremos de semântica (do verbo semaínein), isto é, a ciência das significações (Bréal, 1883 apud Marques, 2001, p. 33).
Michel Bréal reconheceu que os estudos que tratavam do significado de palavras ou expressões permaneciam à margem dos estudos linguísticos em relação a outros tópicos gramaticais. Por isso a pertinência de se estabelecer uma disciplina dedicada à significação em linguagem, que atendesse à multiplicidade de sentidos que palavras ou expressões carregam ou mesmo às mudanças de sentidos que vocábulos ou locuções sofrem ao longo da história. Igualmente, o linguista reconheceu que assim como outras vertentes da Linguística esse novo campo de estudos demandava ser nominado, com o nome de Semântica. Partindo disso, passou a ser a Semântica a ciência das significações, como bem definiu Michel Bréal.
Tomou-se como objeto de estudo da ciência das significações o significado. No entanto, a definição de significado ainda não é consensual entre os estudiosos da área da Linguística e de outros campos do saber que se dispuseram na tentativa de conceituá-lo. Isso porque, como assevera Ullmann (1964, p. 111), “o significado é um dos termos mais ambíguos e controversos da teoria da linguagem”. Não obstante as dificuldades quanto à definição do que se entende por significado, ele pode ser conceituado como “a relação recíproca e reversível entre o som e o sentido” (1964, p. 117). Nessa acepção, em uma situação de interação verbal, quando o locutor profere uma palavra, o interlocutor de forma imediata mentaliza o objeto que ela representa e, consequentemente, chega ao seu significado.
A insuficiência de um conceito preciso sobre o que é significado, segundo Ferrarezi Junior (2008), pode ser um dos motivos pelos quais as pesquisas em Semântica ainda enfrentam problemas quanto à delimitação do seu objeto de estudo. Para esse teórico, tanto o conceito de significado quanto a definição do objeto de estudo da Semântica são relativamente imprecisos. Oliveira (2017), porém, ressalta que “a ausência de uma definição consensual não é justificativa para que não se dê um pouco mais de atenção aos estudos do significado”. Portanto, embora o conhecimento científico acerca da Semântica e do seu objeto de estudo permaneça parcial, não se anula a relevância do estudo da significação em linguagem.
Alguns estudiosos ressaltam a diferenciação entre significado e sentido. Segundo Ferrarezi Junior (2008, p. 21-22), o significado “é um objeto ainda desconhecido em sua totalidade, mas concebido como tendo natureza neurológica, um objeto do nível da cognição ‘pura’”, enquanto os sentidos “são as manifestações linguísticas do significado [...] sempre construídos em função do conjunto de informações culturais do falante e de sua comunidade”. Assim, o significado trata-se de um processo cognitivo e neurológico mediado pela linguagem e ativado na mente do falante, ainda parcialmente conhecido no campo da linguística e da neurociência; já o sentido refere-se às manifestações linguísticas do significado e especializa- se em contextos e cenários situados, envolvendo informações culturais.
Neste trabalho, vamos priorizar, contudo, o termo “sentido” segundo os pressupostos da Semântica de Contextos e Cenários (SCC). Cumpre mencionar que a SCC é uma das abordagens teóricas que compartilha que o objeto de estudo da Semântica não se restringe ao significado. Por isso, conforme os pressupostos da SCC, a Semântica “[...] é a ciência que estuda as manifestações linguísticas do significado” (Ferrarezi Junior, 2008, p. 21). Também nessa perspectiva teórica, os sentidos “[...] são as manifestações linguísticas do significado [...] são sempre construídos em função do conjunto de informações culturais do falante e de sua comunidade” (p. 22). O sentido só se especializa, pois, em contextos e cenários situados.
Segundo Lima e Nogueira (2024, p. 3), “por fenômenos semânticos, entende-se a variedade de significação das palavras que, a depender dos contextos de usos reais da língua, significam e são ressignificadas através do tempo”. Esta discussão centra-se nos fenômenos semânticos polissemia e ambiguidade. Isso porque, se o sentido de uma palavra ou expressão se especializa em contextos e cenários situados, a polissemia e a ambiguidade são processos de significação que requerem atenção. Ullmann (1964) atribui a Michel Bréal a criação do termo polissemia, proveniente do grego poli (muitos) e sema (significados). Esse conceito compreende que as palavras podem ampliar seus sentidos por fatores de ordem cultural. Tal dinâmica linguística, pondera Ullmann (1964), é natural em todas as línguas e não pode ser vista como defeito, mas um processo evolutivo. Ferrarezi Jr. (2019), por sua vez, afirma que a polissemia é considerada oposta à sinonímia. Para ele, “se, na sinonímia, temos dois sinais com sentidos similares, na polissemia temos um único sinal com vários sentidos” (p. 93). Ferreira (2022), quanto à polissemia, assevera que são “[...] significados distintos, porém relacionados” (p. 21). Assim, a polissemia é a possibilidade de uma mesma palavra agregar vários sentidos relacionais e socioculturalmente partilhados e compreendidos pelos falantes.
Cançado (2012) enfatiza que a polissemia, frequentemente, pode ser confundida com a homonímia. Ferreira (2022, p. 21), por seu turno, assere que “homonímia diz respeito a casos de ambiguidade em que a coincidência das formas é puramente acidental, não havendo relação entre os significados envolvidos”. Em caso de ambiguidade por polissemia, os sentidos da palavra ambígua têm de possuir alguma relação de sentido entre si; o contrário ocorre com a homonímia, não havendo associação de sentidos entre eles. Na concepção de Henriques (2018, p. 87), ambiguidade é o “enunciado com duplo sentido em um significante (LEXICAL), um sintagma (GRAMATICAL) ou na totalidade do próprio enunciado (FRASAL)”. Ou, nos termos de Abraão (2018, p. 146), “a ambiguidade é definida como a propriedade dos enunciados de apresentarem várias possibilidades de interpretação, simultaneamente”. Logo, a ambiguidade pode manifestar-se tanto no nível da palavra quanto no do sintagma. No nível do léxico ou da sintaxe, uma palavra polissêmica pode ser geradora de dúvidas, em razão dos múltiplos sentidos possíveis atribuídos a ela ao mesmo tempo. Cançado (2012) cita alguns exemplos de palavras polissêmicas, um deles é a palavra “pé”, podendo referir-se ao pé de cadeira, pé de mesa, pé de fruta, pé de página. Em se tratando de polissemia, identifica-se a associação de sentidos entre si, ou seja, partem da ideia de base/sustentação, motivados, assim, pelo sentido primário da palavra, que fora expandido.
3. SEMÂNTICA DE CONTEXTOS E CENÁRIOS: POSSIBILIDADES PARA O ENSINO
O ensino de Português na educação básica tem de contemplar o estudo da Semântica, visto que ela integra a gramática da língua portuguesa. Estudiosos como Ilari (2011) e Ferrarezi Junior (2008), contudo, problematizam a questão do ensino no que tange ao tratamento dado à significação em linguagem. Para eles, o estudo sistemático da semântica ainda ocupa pouco espaço na sala de aula com relação a outros conteúdos gramaticais. Nesse viés, Ilari (2011, p. 11) ressalta que “o tempo dedicado a esse tema é insignificante, comparado àquele que se gasta com ‘problemas’ como a ortografia, a acentuação, a assimilação de regras gramaticais de concordância e regência, e tantos outros [...]”. Assim, a pouca atenção dada ao estudo da significação resulta lacunar ao longo do processo educacional, já que o aluno tem de lidar com a semântica no seu dia a dia, desde tarefas linguísticas mais simples, como ler placas de trânsito e atribuir sentidos a elas até às mais complexas, a exemplo da resolução de avaliações internas e externas à escola, principalmente nas questões de interpretação textual.
A SCC surge como uma das abordagens do estudo da significação em linguagem. No Brasil, o maior difusor da SCC foi o professor e linguista Celso Ferrarezi Junior, que apresentou uma proposta de ensino e análise dos fenômenos semânticos pelo viés dessa incursão teórica e metodológica. As definições de Semântica e de sentido, conforme a SCC, possibilitaram ampliar o estudo da Semântica, visto que esse tópico gramatical, além de permanecer à margem dos currículos escolares, não dispunha de categorias de análise, com base em pressupostos científicos, que pudessem ser usadas por professores e alunos nas aulas.
A SCC parte, então, da [...] “concepção de semântica que toma como base a ideia de que uma língua natural é um sistema de representação do mundo e de seus eventos” (Ferrarezi Junior, 2008, p. 23). No processo de representação, existem formas que representam algo do/no mundo, e essas formas mantêm relação com o sentido, que é atribuído ou percebido culturalmente pelos falantes em contexto de interação social. Isso porque “[...] a cultura é a ponte entre o indivíduo e o mundo. É por meio dos olhos da cultura que o indivíduo enxerga o mundo” (p. 25). Assim, torna-se inviável a concepção de língua baseada apenas na sua forma estrutural, haja vista o atravessamento cultural ao qual ela é constantemente submetida (Macedo, 2022). Conhecer uma língua é, pois, ter acesso à sua cultura, aos seus princípios de constituição do sentido, particularizados e dinamizados em contextos e cenários específicos.
Conforme Ferrarezi Junior (2008, p. 26), “o sentido de um sinal-palavra somente se especializa em um contexto e o sentido do contexto somente se especializa em um cenário”. Palavra alguma tem sentido estanque, visto que os sentidos atribuídos a ela são rotativos e requerem sua inserção no processo comunicativo, envolvendo informações extralinguísticas.
À luz da SCC, cumpre conceituar: sinal, contexto e cenário. Explicite-se:
1. Sinal: A palavra e os demais elementos a ela associados no processo representativo (como uma melodia ou uma ordem sintática), para que possamos atuar como elemento representativo.
2. Contexto: o que vem antes e depois da palavra, o restante do texto, o texto que precede e sucede o próprio texto, o texto que se junta e que referencia o texto, num entrelaçar de palavras em textos que acabam formando o complexíssimo conjunto de sinais interligados que procuramos entender quando nos comunicamos.
3. Cenário: além de um conjunto de conhecimentos culturais e de um processo de atribuição de sentidos progressivos em um roteiro cultural, o cenário compreende todos os fatores relevantes do ponto de vista dos interlocutores para a especialização dos sinais. Esses fatores incluem todo o complexo conjunto situacional que envolve a enunciação, desde as roupas de quem enuncia (isso é relevante, por exemplo, num ato de pedido de namoro) até elementos fortuitos que se relacionam de qualquer forma ao que se enunciou (como um avião que passa por sobre os falantes na hora da enunciação, se, de qualquer forma, esse fato interferir no processo de especialização do sentido) (Ferrarezi Junior, 2008, p. 26-27).
A palavra só terá, portanto, seu sentido especializado quando usada em um contexto diretamente relacionado à situação de produção partilhada pelos interagentes, isto é, o cenário. Ademais, Macedo (2022) enfatiza que os sentidos variam de cultura para cultura. Por isso, o processo comunicativo mediado pela linguagem demanda compartilhamento de saberes linguísticos e culturais afins entre os interagentes. Isso porque, ao ouvir ou ler determinada palavra, o interlocutor tem de ser capaz de associar a ela o sentido devido, baseando-se no contexto e no ambiente que se insere. Só assim é possível chegar, efetivamente, ao sentido.
Os fenômenos semânticos constituem elementos fundamentais para a compreensão do sentido nos textos, uma vez que evidenciam as relações entre palavras e seus contextos. Para Ferrarezi Junior (2010), a polissemia, uma mesma palavra com múltiplos sentidos, é uma das causas mais costumeiras de ambiguidade. Cançado (2012), por sua vez, destaca que outros fenômenos, como a homonímia, a sinonímia e a antonímia também podem influenciar a interpretação textual, possibilitando variações de sentido no texto. A ambiguidade por polissemia, por exemplo, ocorre quando o contexto e o cenário não são suficientes para definir qual dos sentidos de uma palavra ou sentença está sendo acionado, demandando do interlocutor o entendimento da mensagem pretendida, por meio do processo de inferência. Porém, pode, também, o autor possibilitar a dupla leitura para o texto a fim de atender a seus propósitos comunicativos. Entender os fenômenos semânticos é essencial para a compreensão de gêneros textuais, pois podem revelar como as escolhas semânticas circunstanciam os efeitos de sentido e contribuem nos processos de leitura e compreensão textual.
Embora Ferrarezi Junior (2008, 2010), ao propor reflexões teórico-práticas no campo da SCC não tenha mencionado, explicitamente, a relação entre os sentidos e gêneros textuais, é pertinente abordar as possíveis intersecções entre eles. Partindo, então, do pressuposto de que o sentido só se especializa em contextos e cenários e que a comunicação humana acontece por meio dos gêneros textuais, o processo de atribuição e percepção de sentidos em linguagem envolve o suporte de veiculação do texto (em que ambiente/espaço se localiza) e a função social dele (o que intenta comunicar). É nessa perspectiva que procederemos nossa discussão.
4. GÊNEROS TEXTUAIS E SENTIDOS: O TRABALHO PEDAGÓGICO COM ÊNFASE NOS SENTIDOS
A atividade humana, em todas as suas configurações, é mediada por gêneros textuais, sejam eles orais, escritos ou imagéticos. Para Bakhtin (2011), todos os campos de atividade humana comunicam-se por meio de enunciados. Assim, cada esfera apresenta enunciados que são determinados pelo contexto de uso e por condições específicas da área de sua atuação, ajustando-se às normas sociais, aos objetivos e ao modo de dizer. Reunidos, dão identidade e funcionalidade aos discursos proferidos, a mediar a comunicação em seus ambientes de uso.
Os papéis linguageiros exercidos por cada sujeito no uso de suas atribuições como locutor ou interlocutor são materializados por meio de textos, ou seja, por intermédio de gêneros textuais, que nascem das atividades sociodiscursivas. Esses papéis, estabelecidos sócio e culturalmente, ligam-se ao circuito comunicativo e ao contrato de comunicação que é regido sob a orientação dos atos de linguagem decorrentes de variados contextos. Por circuito comunicativo, entende-se o cenário onde os atores sociais desempenham papéis na ação comunicativa. O contrato comunicativo pode ser delimitado como normas e práticas discursivas que cada sujeito de linguagem exerce dentro do cenário (Cavalcante et al., 2022).
As relações humanas são orientadas por contratos comunicativos e isso se manifesta por meio de textos, logo se manifesta por intermédio de gêneros textuais. A título de exemplificação, toma-se como exemplo um vendedor de lanches com um quiosque na praia. O cliente cumprimenta o dono do estabelecimento com um bom-dia e assim iniciam uma breve conversa (gênero textual “conversa”); o cliente dirige-se à mesa e então o vendedor lhe entrega um cardápio (gênero textual “cardápio”); por estarem na praia, o cliente já presume que ali encontrará itens pertinentes àquele contexto, tais como água de coco, água mineral, um petisco de frutos do mar, entre outros. Caso o cliente adquira o produto, pague via Pix e apresente o comprovante de pagamento (gênero textual “comprovante de pagamento"), ele o fará por meio de um gênero textual pertencente ao campo das transações financeiras.
É comum, nessa situação, que o cliente, por estar na praia, use trajes habituais desta ambientação, da mesma forma que não se espera do vendedor o uso de terno e gravata em sua atividade laboral. Essa adequação mostra que, no ato comunicativo, o ambiente, o comportamento e os detalhes como vestimenta, entre outros, também interferem na apropriação e na construção de sentido. Ambos, vendedor e cliente, têm expectativas próprias do tipo de interação que se espera no jogo comunicativo para o comércio de alimentos ou bebidas. Desse modo, o cliente supõe que o produto esteja o mais alinhado possível ao seu desejo, e o vendedor intenta que o cliente consuma o produto e pague por ele, ou seja, aquilo que faz parte do contrato comunicativo estabelecido, culturalmente, no imaginário de ambos.
Hila (2019, p. 176) reforça a relação entre os gêneros textuais e as atividades linguageiras, quando enfatiza que:
As práticas sociais mobilizam diversas atividades de linguagem, as quais envolvem diferentes maneiras de expressão, via os gêneros textuais, materializados em diferentes tipos de textos, que implicam diferentes capacidades de compreensão e de produção.
Como se pode observar, o uso dos gêneros textuais assume papel central nas práticas de linguagem. Isso ocorre no circuito comunicativo, no qual o sujeito é impelido a utilizar os variados gêneros textuais de que dispõe para dar conta de sustentar a interação social em suas múltiplas facetas. Acrescente-se a isso a ideia de os gêneros não serem estruturas textuais fixas, uma vez que atuam no processo de organização das atividades de linguagem mediadas por contextos e finalidades específicos (Marcuschi, 2008). Importa destacar também que, de uma interação comunicativa, emergem diversos gêneros, assim como exposto no exemplo anterior. Outro ponto relevante é que, na interação, todo o entorno comunicativo projeta sentido, a exemplo dos elementos de ordem pragmática, mediados por informações culturais.
A compreensão e a utilização dos gêneros textuais em sistemas formais e informais de educação ocorrem de diversos modos. Nesse aspecto, é pertinente refletir sobre como os gêneros textuais se organizam e como atuam no dia a dia das pessoas, no processo comunicativo. Marcuschi (2011, p. 19), nesse viés, assevera que “[...] assim como a língua varia, também os gêneros variam, adaptam-se, renovam-se e multiplicam-se”. A variabilidade e reprodução dos gêneros são explicadas também pelo movimento cultural, informacional e tecnológico. Também pode haver variação de sentido no texto, dependendo do gênero textual.
São características dos gêneros textuais o conteúdo temático, o estilo e a construção composicional (Bakhtin, 2011). Essa tríade é indissociável, não podendo ser analisada de forma isolada na situação comunicativa, uma vez que cada um desses elementos importa no processo de atribuição de sentidos. Partindo disso, é certo dizer que os enunciados são passíveis de ajustes e adaptações a depender das necessidades comunicativas dos sujeitos em contextos históricos e sociais determinados. Desse modo, os gêneros do discurso são mutáveis, isto é, é possível (re)criar novos gêneros textuais com base em gêneros já existentes e circulantes na sociedade. É, ainda, possível que gêneros já existentes sofram modificações. Isso acontece visando contemplar as demandas sociais emergentes, entendendo que a linguagem não se alheia dos processos sócio-históricos-culturais nas comunidades de falantes.
Cumpre mencionar que os gêneros do discurso, materializados em textos, alinham-se ao contexto de produção, envolvendo os campos sociais de veiculação dos gêneros – os domínios discursivos; os sujeitos enunciadores/produtores de discursos na vivência cotidiana da linguagem; e os propósitos comunicativos que se quer alcançar em contextos reais de interação. Ademais, os gêneros textuais podem ser tanto orais como escritos, visuais (os sons, as cores, as imagens e além), de modo a corresponderem, assim, às demandas sociais.
Ante o exposto, eleva-se a importância de se trabalhar, no processo de escolarização, gêneros textuais diversificados, de modo a focalizar, mormente, na correlação temática, composicional e de estilo, dimensões que qualificam como pertencentes a este ou àquele gênero, além da funcionalidade dos gêneros discursivos/textuais. Bakhtin (2011) chama a atenção para o fato de que a apropriação dos gêneros textuais possibilita ao sujeito maior participação e inclusão nos domínios discursivos, e o contrário quando não dispõe.
5. PERCURSO METODÓGICO
Trata-se de uma pesquisa qualitativa de cunho exploratório e descritivo. A adoção por essa abordagem justifica-se por ser a mais ideal para o objeto de estudo em questão, já que seu foco recai no entendimento do fenômeno investigado, não se restringindo a dados quantificados (Triviños, 2017). Segundo Gil (2012, p 23), “pesquisas exploratórias e descritivas frequentemente se complementam: enquanto a primeira visa proporcionar maior familiaridade com o problema, a segunda preocupa-se em descrevê-lo com precisão”. Nessa perspectiva, esta pesquisa é considerada descritiva porque se propõe a descrever o objeto de estudo em suas características e exploratória por possibilitar o aprofundamento da compreensão dele.
O corpus da pesquisa consta de três textos de diferentes gêneros textuais: charge, campanha publicitária e post da internet. A categoria de análise consistiu em explorar os efeitos de sentido decorrentes de fenômenos semânticos em diferentes gêneros textuais que tratem da temática do meio ambiente. Para isso, fundamenta-se nos pressupostos teórico- metodológicos da SCC, ao postular que o sentido do texto não é estanque, mas parte da interação dele com o contexto e o conhecimento de mundo partilhado pelos interlocutores (Ferrarezi Junior, 2008). Ademais, indicam-se caminhos para o trabalho do professor, especialmente de língua portuguesa, quanto ao estudo dos gêneros textuais com abordagem semântica em sala de aula.
6. RESULTADOS E DISCUSSÕES
Nesta seção, procede-se à análise dos dados da pesquisa, que serão analisados conforme os objetivos estabelecidos. A seguir, tem-se uma charge (Figura 1):
Figura 1 – Charge Lixo
O texto (Figura 1) pertence ao gênero textual charge. Segundo Costa (2008), a charge caracteriza-se por reunir elementos verbais e não verbais, com tom satírico e humorístico. Nesse gênero textual, costuma-se tecer críticas político-sociais acerca de algum tema ou acontecimento da atualidade. Na charge, Gilmar (2018) faz uma crítica ao problema do acúmulo e do descarte indevido de lixo nas cidades. No texto verbo-imagético, há um homem e uma mulher, aparentemente um casal, sentados no teto da casa, que está completamente cercada por lixos eletrônicos, pneus, garrafas e outros materiais. A mulher possui uma expressão de desespero diante da situação de desabrigo em decorrência da quantidade excessiva de lixo, enquanto o homem realiza a leitura de um jornal que faz menção à lei do lixo. Tal situação propicia o diálogo entre os personagens, o texto verbal, qual seja: “Vamos ter que mudar?”, diz a mulher; e o homem responde: “Sim. Os nossos hábitos!”.
À luz da SCC, o sinal-palavra refere-se ao enunciado linguístico, ou seja, a fala dos personagens da charge “Lixo”. Ressalte-se, no sintagma verbal, a palavra “mudar”, que é polissêmica. Para Cançado (2012), uma palavra é polissêmica quando a ela são associados vários sentidos. Segundo Aulete (2025, s/p), duas das acepções para a palavra “mudar” são “1. fazer ou ser objeto de mudança, transformação; alterar; transformar [...]” e “2. Pôr(-se) em, ou ir para, outro lugar; deslocar-se; mover-se; transferir-se [...]”. No processo de especialização do sentido da palavra, é imperativo observar o contexto em que ela se situa, ou seja, o que vem antes e depois da palavra. No texto em análise, a palavra “mudar” aparece em dois balões e diferem quanto ao sentido em cada um deles. No primeiro balão, quando a mulher diz “vamos ter que mudar” a palavra “mudar”, no contexto de uso, coaduna a acepção 2 dada por Aulete (2025); enquanto que, no segundo balão, “sim. Os nossos hábitos”, a despeito de a palavra “mudar” estar implícita na frase, refere-se ao sentido 1 aduzido por Aulete. Assim, o sinal-palavra e o contexto são essenciais para se chegar ao sentido do texto.
Também o cenário, que engendra todo o entorno enunciativo, é fundamental no processo de especialização do sentido. Ele dá conta dos aspectos extralinguísticos que balizam a situação comunicativa, como os papéis sociais, as informações e os valores culturais-político-sociais compartilhados pelos interlocutores. Nesse caso, o cenário de produção da charge emerge de um problema ambiental ainda persistente no Brasil – o excesso de produção de lixo nas cidades e seu descarte indevido, que resultam em tragédias como situações de desabrigo. Partindo disso, a charge tem de ser interpretada dentro de um cenário sociopolítico situadamente compartilhado pelos leitores, pois ele confere sentido ao texto verbo-imagético.
Assim, o efeito humorístico e a crítica provocados pela charge evidenciam a pertinência do contexto no processo de construção e negociação dos sentidos no texto. O humor desencadeia-se, sobretudo, em razão dos sentidos que podem ser atribuídos à palavra “mudar”, visto que, na visão da personagem do balão 1, a mudança de lugar poderia trazer uma solução imediata ao problema de desabrigo. No entanto, essa solução seria temporária, uma vez que demanda uma outra atitude, isto é, a mudança de hábitos, como expresso pelo personagem do balão 2. Chegar, portanto, à especialização do sentido da palavra “mudar” em uso na charge é essencial para compreensão da crítica e do humor presentes no texto em foco.
Espera-se que o estudante, ao longo da educação básica, seja exposto a diferentes gêneros textuais e consiga perceber os efeitos de sentido em decorrência de fenômenos semânticos (Brasil, 2017). Com a charge, evidenciou-se que a compreensão global do texto tem relação direta com a especialização dos sentidos das palavras que os compõe, além da interação verbo-imagética e do cenário sociopolítico brasileiro. Também é relevante que o professor oportunize discussões sobre os problemas ambientais causados pelo excesso e descarte indevido de lixo e suas consequências, a fim de gerar mais conscientização sobre essa temática. Uma possibilidade quanto ao ensino de língua pelo viés da conscientização ambiental é, pois, a exposição dos alunos a charges e outros textos que tratem dessa pauta.
Em seguida, há uma campanha publicitária (Figura 2):
Figura 2 – Não tire as penas da vida
O texto em análise (Figura 2) pode ser considerado uma campanha publicitária. Para Cardoso (2010), esse é um gênero textual verbo-imagético, geralmente curto e objetivo, com a finalidade de influenciar um público-alvo. Nesse dado, uma campanha publicitária institucional encabeçada por órgãos públicos (IBAMA, Ministério Público e Governo Federal), intenciona conscientizar a população brasileira sobre a ilegalidade e o impacto ambiental decorrente do uso de penas e partes de animais silvestres. No texto imagético, na parte superior, é apresentada uma ave específica da floresta amazônica, a arara. Esse animal silvestre, além de ser um dos símbolos da fauna brasileira, é amplamente conhecido pela beleza e imponência de suas penas. Na imagem, o animal exibe uma de suas asas, que reúne as cores amarelo, azul e vermelho. Mais abaixo, há um bracelete feito com penas de arara, usado como enfeite; ao lado da imagem, visualiza-se o símbolo de proibido. Vê-se, também, os logotipos, na parte inferior, das instituições oficiais que fomentam a campanha publicitária.
A campanha tem como título “Não tire as penas da vida”. Ademais, na parte superior, tem-se como texto verbal: “O comércio e o uso de artesanatos feitos com partes de animais silvestres são ilegais, pois incentivam o tráfico e aumentam o risco de extinção de várias espécies.”. Mais abaixo, enuncia-se: “Junte-se a nós para proteger a vida selvagem e preservar o equilíbrio dos ecossistemas.”. É característica do gênero em foco a tentativa de persuasão do interlocutor. Primeiramente, apela-se ao discurso jurídico-criminal de proibição do comércio e uso de artesanatos feitos com partes de animais silvestres, que está previsto no Código Penal Brasileiro (embora não cite explicitamente o artigo). Em seguida, busca-se a adesão e o engajamento dos cidadãos com relação à causa exposta, exemplo disso é o uso do verbo no imperativo “junte-se”. Toda a construção verbo-imagética está, pois, a serviço da conscientização e do engajamento do público na preservação da vida dos animais silvestres.
No enunciado, “Não tire as penas da vida”, pode ser visualizada uma palavra polissêmica: “pena”, isto é, uma palavra com vários sentidos. Conforme a SCC, o sentido de uma palavra é desvendado levando em consideração alguns fatores, como o contexto, isto é, o que vem antes e depois do sinal-palavra, e em um cenário, que é a situação discursiva em que ela é empregada. Para chegar à compreensão da campanha publicitária, antes é importante compreender o fenômeno da ambiguidade, que consiste na “[...] possibilidade de o falante conferir mais de um sentido a uma mesma sentença em contextos e cenários análogos (Ferrarezi Junior, 2008, p. 179). Aulete (2025, s/p) apresenta várias acepções para a palavra “pena”. Dos sentidos, apresentam-se dois: 1 [...] “Estrutura complexa e ceratinizada que recobre o corpo das aves.” 2 “De muito pouco peso, muito leve [...]”. Partindo do contexto e cenário de emprego da palavra “pena”, é certo dizer que o leitor pode proceder à dupla leitura. Isso porque a palavra “penas” pode referir-se às penas das aves, utilizadas ilegalmente para confecção de artesanatos e acessórios. Mas “tirar as penas da vida” também pode significar o cerceamento da leveza, da liberdade ou da própria vida das aves, uma vez que as penas, típicas dos pássaros, simbolizam o voar. Assim sendo, ambas as possibilidades de leitura para o enunciado, no contexto e cenário de uso, cumprem a intenção da campanha publicitária, que é a de conscientizar sobre a importância de preservar a vida das aves.
O ensino da gramática da Língua Portuguesa tem de contemplar o estudo da significação em linguagem. Entretanto, pesquisas apontam que a abordagem da Semântica em sala de aula continua muito aquém se comparada a outros tópicos gramaticais. E quando ela é abordada, não há aprofundamento dos fenômenos semânticos em textos, mas exemplos soltos e poucos explorados (ver Lima; Nogueira, 2024, e Lima; Nogueira, 2022). Exemplo disso é o fato de a ambiguidade ser vista, muitas vezes, como problema que deve ser evitado em textos. Na campanha publicitária, porém, a dupla possibilidade de leitura para o texto é intencional e atende, mais satisfatoriamente, ao propósito comunicativo. A ambiguidade por polissemia, portanto, foi um recurso bem utilizado pelo autor para provocar os efeitos de sentidos pretendidos, não sendo viável pela provocação de leitura única do texto analisado.
A seguir, há um post da internet (Figura 3):
Figura 3 – Post luto pelo meio ambiente
O post (Figura 3), segundo Costa (2008), estrutura-se multissemioticamente, uma vez que pode agregar, em um único gênero, elementos visuais, sonoros, verbais. Geralmente, apresenta-se como um texto curto, descritivo e opinativo acerca de uma temática. A postagem em foco, veiculada na rede social “X”, traz duas imagens, uma delas é de uma floresta em chamas; a outra, com fundo escuro, aduz uma frase opinativa em caixa alta, com o texto: “Eu sou contra o PL da devastação. O Senado não pode acabar com o licenciamento ambiental”. Acresce-se ainda a frase “Luto pelo meio ambiente! O que você precisa saber sobre o PL da Devastação”, que demonstra o posicionamento da página com relação ao projeto de lei (PL 2159/2021).
Como postula Ferrarezi Junior (2008), o sentido de uma palavra depende do contexto e do cenário em que ela se insere. A postagem “luto pelo meio ambiente”, no contexto e cenário de emprego dela, circunstancia duas leituras, diretamente relacionadas às condições político- ideológicas da enunciação. Isso ocorre em virtude do uso da palavra “luto”, que é polissêmica. Aulete (2025, s/p) registra alguns sentidos da palavra “luto”, dos quais, aqui, se apresentam dois: “1. Pesar pelo falecimento de algum ente querido.” E “2. Tristeza profunda.” No contexto de militância digital, para marcar o posicionamento do perfil “@seriesbrasil” e mobilizar os internautas contra o projeto de lei em foco, o perfil, intencionalmente, fez uso do recurso da ambiguidade por polissemia. Ou seja, nesse mesmo contexto e cenário, é possível atribuir dois sentidos para o enunciado “luto pelo meio ambiente”, podendo referir-se tanto ao estado de resistência e engajamento na causa ambiental, quanto à expressão de dor e sofrimento em decorrência da possibilidade de flexibilização do licenciamento ambiental e da devastação de florestas. Para a SCC, esse pode ser considerado um exemplo de ambiguidade intencional, que se viabiliza pelo cenário discursivo de protesto ambiental, de modo que o leitor é capaz de construir para o texto, simultaneamente, dois sentidos: de luta e de tristeza.
É pertinente que o professor circunstancie, em sala de aula, momentos de interpretação e compreensão textual. Dessa maneira, os estudantes têm a oportunidade de construir sentidos pela exposição e leitura do gênero textual, partindo da relação do texto com seu contexto e o cenário de produção. No post, foi possível visualizar que há mais de uma possibilidade de leitura para a sentença “luto pelo meio ambiente”, principalmente em razão dos vários sentidos conferidos à palavra “luto”, o que desencadeia a ambiguidade por polissemia. Muitas vezes, o único material de que o professor dispõe para mediar suas aulas é o livro didático, o qual nem sempre apresenta em número e em qualidade estudos específicos dos fenômenos semânticos (ver Lima; Nogueira, 2022, e Lima; Nogueira, 2024). Daí a relevância de o professor trazer textos que possam aliar o estudo da semântica e a pauta do meio ambiente. Igualmente, é importante proceder à leitura do texto dentro de um contexto e cenário. Isso porque: se o aluno não conhece a PL da Devastação, provavelmente não compreenderá os discursos político-ideológicos encrustados no posicionamento do perfil “@seriesbrasil”.
Além de levar textos de gêneros vários para a sala de aula, o professor tem de mediar adequadamente as atividades de leitura, explorando as possibilidades de sentido em decorrência de fenômenos semânticos, bem como a função social do gênero textual. Também, se for o caso, é interessante realizar atividades de pesquisas do sentido de palavras no Dicionário Digital Aulete, indicado para a Educação Básica e está disponível gratuitamente na internet. Quanto ao imagético, “o professor [...] não deve buscar uma leitura única ou a correta, mas promover um espaço de diálogo entre diferentes interpretações, estimulando os estudantes a argumentar, questionar e ressignificar o que veem [...]” (SILVA et al., 2025, p. 52). Por conseguinte, ao aliar o estudo verbo-imagético dos gêneros textuais com a abordagem semântica, o estudante poderá expandir mais seu repertório linguístico e sociocultural.
7. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este artigo objetivou analisar de que forma os fenômenos semânticos contribuem para a construção de sentidos em diferentes gêneros textuais que tratam da temática do meio ambiente, além das possibilidades dessa abordagem para o ensino de Língua Portuguesa. Como resultados, constatou-se que o processo de construção de sentidos nos gêneros textuais decorre de fenômenos semânticos, verificáveis nos gêneros textuais analisados, a exemplo da charge, da campanha publicitária e do post. Chegou-se, portanto, à conclusão de que o fenômeno semântico da polissemia foi preponderante nos dados da pesquisa, visto que os autores dos textos se utilizaram desse recurso visando atender aos propósitos comunicativos pretendidos. Isso porque, para posicionar-se frente a uma temática ou mesmo para circunstanciar mais de um sentido ao seu texto, os autores com frequência recorreram ao recurso semântico da ambiguidade por polissemia, requerendo, assim, o engajamento ativo do leitor/interlocutor no processo de construção e negociação dos sentidos.
Ademais, evidenciou-se a relevância do estudo da semântica no processo de leitura e compreensão dos gêneros textuais. Logo, se o estudante interage em suas práticas sociais por meio de variados gêneros textuais, entender a relação entre gênero textual e semântica é fundamental no processo de ensino da gramática da Língua Portuguesa. Igualmente, é pertinente que o professor parta de textos e temáticas de interesse coletivo, sendo o tema do meio ambiente uma pauta que, além de refletir sobre problemas ambientais da atualidade, pode ser explorada para o estudo dos fenômenos semânticos, por meio de charges, campanhas publicitárias, posts e outros gêneros textuais veiculados em diferentes suportes e mídias.
Espera-se com este estudo poder contribuir com estudos da linguagem, especialmente na interface gêneros textuais e semântica, bem como possibilitar reflexões teórico-práticas sobre o ensino dos gêneros textuais com abordagem semântica na educação básica. É nessa perspectiva, pois, que se faz relevante esta pesquisa.
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1 Mestrando em Letras (PPGLe-UEMASUL). Professor da Educação Básica (SEDUC-TO). E-mail: [email protected].
2 Doutora em Língua Portuguesa (PUC-SP). Professora do PPGLe (UEMASUL). E-mail: [email protected].
3 Doutor em Letras (UFRJ). Professor do PPGLe (UEMASUL). E-mail: [email protected].
4 Doutorando em Linguística e Literatura (PPGLLIT-UFNT). Professor da Educação Básica (SEDUC-TO). E-mail: [email protected].