SAÚDE MENTAL DA EQUIPE DE ENFERMAGEM EM EMERGÊNCIA: IMPACTOS DA SOBRECARGA DE TRABALHO NO AMBIENTE ASSISTENCIAL

MENTAL HEALTH OF EMERGENCY NURSING TEAMS: IMPACTS OF WORK OVERLOAD IN THE CARE ENVIRONMENT

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/791745129

RESUMO
A atuação da equipe de enfermagem em serviços de urgência e emergência envolve elevada demanda assistencial, pressão temporal, superlotação, exposição a situações críticas, conflitos e condições organizacionais desfavoráveis, fatores relacionados à saúde mental dos trabalhadores. O estudo analisa as evidências científicas acerca dos fatores associados à saúde mental de profissionais de enfermagem em serviços de emergência, com ênfase na sobrecarga de trabalho, estresse ocupacional e burnout. Trata-se de revisão integrativa da literatura, fundamentada nas seis etapas propostas por Botelho, Cunha e Macedo (2011), incluindo estudos quantitativos, qualitativos e de métodos mistos. Foram analisados aspectos relacionados à sobrecarga, demandas psicológicas, dimensionamento profissional, condições organizacionais e exposição a eventos críticos. Os estudos evidenciaram associação entre elevada demanda de trabalho e estresse ocupacional, burnout, exaustão emocional, ansiedade, sintomas depressivos e alterações do sono. Também foram identificados suporte organizacional, engajamento profissional, resiliência, desenvolvimento e satisfação como fatores potencialmente protetores. Conclui-se que a saúde mental da equipe de enfermagem em emergência resulta de demandas assistenciais, emocionais e organizacionais, exigindo estratégias que contemplem a organização do trabalho, dimensionamento, condições laborais e suporte institucional.
Palavras-chave: Enfermagem; Saúde Mental; Estresse Ocupacional; Burnout; Serviços de Emergência.

ABSTRACT
Nursing teams working in urgent and emergency care are exposed to high care demands, time pressure, overcrowding, critical situations, conflicts, and unfavorable organizational conditions that may affect workers’ mental health. This study analyzes scientific evidence on factors associated with the mental health of nursing professionals in emergency services, with emphasis on workload, occupational stress, and burnout. An integrative literature review was conducted based on the six stages proposed by Botelho, Cunha and Macedo (2011), including quantitative, qualitative, and mixed-methods studies. The analysis addressed workload, psychological demands, staffing levels, organizational conditions, and exposure to critical events. The studies showed associations between high work demands and occupational stress, burnout, emotional exhaustion, anxiety, depressive symptoms, and sleep disturbances. Organizational support, professional engagement, team resilience, development opportunities, and job satisfaction were also identified as potentially protective factors. The findings indicate that the mental health of emergency nursing teams results from interacting care-related, emotional, and organizational demands, requiring strategies that address work organization, adequate staffing, working conditions, and institutional support.
Keywords: Nursing; Mental Health; Occupational Stress; Burnout; Emergency Services.

1. INTRODUÇÃO

A compreensão da saúde mental dos enfermeiros em serviços de emergência exige, inicialmente, um resgate do contexto histórico da construção do trabalho em enfermagem, marcado por intensas transformações ao longo do tempo. A enfermagem moderna tem como marco a atuação de Florence Nightingale no século XIX, período em que a profissão passou a ser estruturada com base científica e organizacional, consolidando-se como essencial para o cuidado em saúde (Padilha; Mancia, 2005). Ao longo desse processo histórico, a enfermagem também foi associada a jornadas prolongadas, divisão hierárquica do trabalho e condições frequentemente desgastantes, características que ainda permanecem em diversos cenários assistenciais (Geovanini et al., 2019). Com a expansão dos sistemas de saúde no século XX e o aumento da complexidade dos serviços hospitalares, especialmente nos setores de urgência e emergência, intensificaram-se as demandas assistenciais, exigindo dos profissionais maior qualificação técnica, agilidade na tomada de decisão e resistência emocional frente a situações críticas.

Rabelo et al. (2020) demonstram que o processo de trabalho do enfermeiro em serviços hospitalares de emergência envolve simultaneamente dimensões assistenciais e gerenciais, com centralidade no gerenciamento do cuidado e na busca por qualidade e segurança. Essa organização do trabalho ocorre em um cenário marcado por particularidades próprias da emergência, no qual a assistência e a gestão do cuidado se articulam continuamente. Nesse sentido, Pires (2009) discute que o trabalho da enfermagem apresenta características próprias de organização e divisão do trabalho, o que ajuda a compreender as exigências presentes na prática profissional. Em setores de emergência, essas exigências são ampliadas pela imprevisibilidade dos atendimentos, pela necessidade de respostas rápidas e pela exposição a situações clínicas de maior gravidade.

A Organização Mundial da Saúde reconhece o burnout, na Classificação Internacional de Doenças, como um fenômeno ocupacional decorrente do estresse crônico no local de trabalho que não foi gerenciado com sucesso. A definição contempla dimensões relacionadas à exaustão, ao distanciamento mental ou sentimentos negativos em relação ao trabalho e à redução da eficácia profissional (WORLD Health Organization, 2019).

No que se refere à saúde dos trabalhadores, estudos nacionais evidenciam que as condições de trabalho podem estar relacionadas a repercussões físicas, sociais e psicológicas entre profissionais de enfermagem. Silva et al. (2021), em estudo transversal com 308 profissionais de enfermagem de um hospital público, identificaram associação entre variáveis sociolaborais, sintomas de saúde e diferentes formas de adoecimento relacionado ao trabalho. No campo específico do burnout, Rodrigues et al. (2024), em revisão integrativa sobre profissionais de enfermagem no Brasil, identificaram diferentes fatores associados ao esgotamento profissional, reforçando a relevância das condições laborais e organizacionais para a saúde dos trabalhadores.

No contexto da pandemia de COVID-19, estudos também demonstraram repercussões importantes sobre a saúde mental dos profissionais de enfermagem. Appel, Carvalho e Santos (2021), em estudo transversal realizado com uma equipe de enfermagem de uma unidade COVID-19, identificaram ansiedade em 53,8% dos participantes, depressão em 38,4% e estresse em 40,3%. Duarte, Silva e Bagatini (2021) também destacaram a ocorrência de depressão, ansiedade, insônia, angústia e estresse entre profissionais de enfermagem durante a pandemia, relacionando essas repercussões a fatores como turnos exaustivos, morte de pacientes, risco de autocontaminação e isolamento social. Esses achados reforçam a importância de considerar as condições de trabalho na análise da saúde mental da enfermagem.

Diante desse contexto, justifica-se a realização deste estudo pela importância de compreender os impactos da sobrecarga de trabalho na saúde mental de enfermeiros que atuam em serviços de emergência, uma vez que esses profissionais estão frequentemente expostos a condições laborais intensas e estressoras. Assim, o presente estudo tem como objetivo analisar os impactos da sobrecarga de trabalho na saúde mental da equipe de enfermagem atuante em serviços de emergência, contribuindo para a reflexão sobre estratégias que promovam melhores condições de trabalho e qualidade da assistência em saúde.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA

O presente referencial teórico tem como objetivo discutir os principais aspectos relacionados à atuação da enfermagem nos serviços de urgência e emergência, considerando a organização do processo de trabalho e as especificidades desse cenário assistencial.

Inicialmente, aborda-se a complexidade das atividades desenvolvidas pela equipe de enfermagem, com destaque para a tomada de decisões, a gestão do cuidado e a dinâmica do fluxo assistencial. Em seguida, são analisados os impactos das condições de trabalho na saúde mental desses profissionais, evidenciando os fatores que contribuem para o desgaste físico e emocional, bem como a importância de estratégias voltadas à promoção do bem-estar e à qualidade da assistência prestada.

2.1. Organização e Processo de Trabalho da Enfermagem em Serviços de Urgência e Emergência

Rabelo et al. (2020) identificaram que o serviço hospitalar de emergência apresenta características próprias que influenciam o processo de trabalho do enfermeiro, envolvendo dimensões assistenciais, gerenciais e de gerenciamento do cuidado. Nesse contexto, a equipe de enfermagem participa de diferentes etapas da assistência e precisa articular decisões e atividades diante de situações clínicas que exigem respostas rápidas e contínuas.

A classificação de risco também constitui uma atividade relevante nos serviços de urgência e emergência. Silva e Cabral (2023) destacam a participação do enfermeiro na organização do atendimento, no planejamento do cuidado, no dimensionamento de pessoal e na coordenação da equipe, além de sua atuação nos atendimentos iniciais e procedimentos próprios do cenário de urgência e emergência.

Segundo Park et al. (2024, p. 2), o ambiente de trabalho nas unidades de emergência é caracterizado por intensa demanda assistencial, ritmo acelerado de atendimento e necessidade constante de tomada de decisões em curto espaço de tempo. Os autores ressaltam que essas características exigem dos profissionais de enfermagem elevado nível de preparo técnico, raciocínio clínico rápido e capacidade de adaptação diante de situações inesperadas que podem surgir durante o atendimento.

Rabelo et al. (2020) mostram que o processo de trabalho da enfermagem em emergência ultrapassa a assistência direta e envolve dimensões assistenciais, gerenciais e de gerenciamento do cuidado. Paralelamente, Park et al. (2024) demonstraram que o trabalho dos enfermeiros de emergência envolve elevada carga mental, associada às características imprevisíveis do ambiente e à complexidade das tarefas realizadas. Dessa forma, a organização do trabalho nesses serviços relaciona-se tanto às atividades de cuidado quanto à necessidade de administrar demandas simultâneas e recursos disponíveis.

De acordo com Benjamin (2024, p. 5), o gerenciamento do fluxo de pacientes é uma das responsabilidades importantes desempenhadas pelos enfermeiros nos departamentos de emergência. Essa função envolve a coordenação das etapas do atendimento, a avaliação contínua das condições clínicas dos pacientes e a articulação entre diferentes setores da instituição de saúde, permitindo maior organização do serviço e redução de atrasos no atendimento. Além disso, Mass et al. (2022) afirmam que a atuação da enfermagem em serviços de urgência e emergência exige habilidades relacionadas à avaliação clínica rápida e à identificação precoce de sinais de agravamento do quadro de saúde dos pacientes. Essa competência é considerada essencial para garantir intervenções oportunas e reduzir riscos associados a complicações clínicas.

Entre essas atividades estão a administração de medicamentos, a monitorização de sinais vitais e a assistência em procedimentos de maior complexidade realizados pela equipe multiprofissional:

O trabalho da enfermagem em emergência envolve monitoramento contínuo, execução de procedimentos e articulação das diferentes etapas do cuidado. Rabelo et al. (2020) identificaram que o processo de trabalho desses profissionais articula dimensões assistenciais e gerenciais, enquanto Ferreira, Balsanelli e Santos (2023) evidenciaram a importância das competências profissionais, da experiência prática e da educação permanente para a atuação em unidades de urgência e emergência.

A comunicação entre profissionais também constitui componente importante para a segurança e a continuidade do cuidado. Ferreira de Almeida et al. (2023), em revisão integrativa, identificaram a comunicação interdisciplinar como elemento relevante para o trabalho das equipes de saúde e apontaram a necessidade de estratégias educativas para seu aprimoramento. No contexto da emergência, essa comunicação ocorre paralelamente a demandas assistenciais elevadas, superlotação e necessidade de organização contínua do atendimento.

Além disso, Ferreira, Balsanelli e Santos (2023) ressaltam que a qualificação profissional contínua é um fator essencial para garantir a qualidade da assistência em serviços de urgência e emergência. Os autores destacam que a atualização científica permite que os profissionais de enfermagem desenvolvam competências relacionadas à tomada de decisões clínicas e à utilização de protocolos assistenciais baseados em evidências.

Dessa forma, observa-se que o trabalho da enfermagem nos serviços de urgência e emergência é marcado por elevada complexidade e grande responsabilidade na assistência aos pacientes. A atuação desses profissionais envolve desde atividades assistenciais diretas até funções relacionadas à organização do atendimento e à gestão do cuidado, evidenciando a importância da enfermagem para o funcionamento adequado desses serviços e para a garantia de uma assistência segura e eficaz.

2.2. Impactos das Condições de Trabalho na Saúde Mental da Equipe de Enfermagem Atuante nos Serviços de Emergência

Para Silva et al. (2021, p. 7), os serviços de urgência e emergência configuram-se como ambientes de trabalho altamente exigentes para os profissionais de enfermagem, caracterizados por grande pressão assistencial, necessidade constante de tomada de decisões rápidas e exposição frequente a situações críticas envolvendo risco de morte e sofrimento humano. Essas características tornam o ambiente de trabalho emocionalmente intenso e podem impactar diretamente o bem-estar psicológico dos trabalhadores.

Silva et al. (2021) evidenciaram que as condições sociolaborais estão relacionadas a sintomas de saúde e a diferentes formas de adoecimento entre profissionais de enfermagem. No cenário da emergência, Park et al. (2024) também demonstraram elevada carga mental entre enfermeiros, relacionada às características imprevisíveis do ambiente e às demandas das tarefas realizadas. Esses achados indicam que a intensidade e a organização do trabalho devem ser consideradas na análise dos impactos sobre a saúde dos profissionais.

Duarte, Silva e Bagatini (2021) destacam que profissionais de enfermagem podem vivenciar depressão, ansiedade, insônia, angústia e estresse em contextos de elevada exigência laboral e exposição a situações críticas. No ambiente de emergência, a exposição a sofrimento, morte, decisões rápidas e situações imprevisíveis pode ampliar as demandas emocionais presentes no trabalho. Mass et al. (2022), especificamente em serviços de urgência e emergência, identificaram diferentes cargas de trabalho e repercussões relacionadas à saúde dos trabalhadores, incluindo dimensões físicas, psíquicas e emocionais.

Mass et al. (2022) evidenciaram que, nos serviços de urgência e emergência, as cargas de trabalho são influenciadas pelas características do cotidiano assistencial e podem repercutir sobre a saúde dos trabalhadores. Ferreira, Silva e Souza (2022), por sua vez, identificaram elevada demanda psicológica e indicadores de estresse e burnout entre enfermeiros de uma emergência de referência em urgência e trauma. Esses achados reforçam a importância de analisar a organização do trabalho, as demandas assistenciais e as condições concretas de funcionamento dos serviços ao discutir a saúde mental da equipe de enfermagem.

De acordo com Ferreira et al. (2022, p. 11), a pressão constante para garantir assistência rápida e eficaz em situações críticas pode gerar sensação de sobrecarga e responsabilidade excessiva entre os profissionais de enfermagem. Esse contexto pode contribuir para o desenvolvimento de sintomas relacionados ao esgotamento profissional, como fadiga intensa, irritabilidade e redução da satisfação no trabalho.

Segundo Rodrigues et al. (2024, p. 6), o estresse ocupacional entre profissionais de enfermagem que atuam em serviços de emergência está frequentemente associado à combinação de fatores como elevada carga de trabalho, pressão por resultados imediatos e exposição contínua a situações de urgência. Esses elementos podem favorecer o surgimento de transtornos emocionais e comprometer a saúde mental dos trabalhadores.

Para Barbosa et al. (2023, p. 9), compreender os impactos das condições de trabalho na saúde mental da equipe de enfermagem é fundamental para o desenvolvimento de estratégias voltadas à promoção da saúde do trabalhador. A implementação de medidas relacionadas à melhoria das condições de trabalho, ao suporte institucional e ao fortalecimento das equipes pode contribuir para reduzir o desgaste psicológico e favorecer o bem-estar dos profissionais que atuam nos serviços de emergência. Conforme discutido pelos autores, as condições de trabalho presentes nos serviços de urgência e emergência exercem influência direta sobre a saúde mental da equipe de enfermagem. A elevada demanda assistencial, associada à pressão por respostas rápidas, à responsabilidade no cuidado de pacientes em estado crítico e às limitações estruturais dos serviços, pode intensificar o desgaste emocional desses profissionais. Nesse contexto, torna-se fundamental a adoção de estratégias institucionais voltadas à melhoria das condições de trabalho, ao apoio psicossocial e à valorização da equipe de enfermagem, com o objetivo de promover o bem-estar dos trabalhadores e contribuir para a qualidade da assistência prestada nos serviços de emergência.

3. METODOLOGIA

Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, de natureza descritiva e abordagem predominantemente qualitativa, desenvolvida com o objetivo de reunir, analisar e sintetizar evidências científicas acerca da saúde mental da equipe de enfermagem atuante em serviços de emergência, com ênfase nos impactos da sobrecarga de trabalho sobre o bem-estar psicológico e o ambiente assistencial.

O percurso metodológico foi fundamentado nas seis etapas propostas por Botelho, Cunha e Macedo (2011): identificação do tema e seleção da questão de pesquisa; estabelecimento dos critérios de inclusão e exclusão; identificação dos estudos pré-selecionados e selecionados; categorização dos estudos; análise e interpretação dos resultados; e apresentação da revisão e síntese do conhecimento.

3.1. Questão Norteadora e Estratégia de Busca

A questão foi estruturada pela estratégia PICo, considerando P como profissionais da equipe de enfermagem, incluindo enfermeiros e técnicos de enfermagem; I como sobrecarga de trabalho e seus impactos sobre a saúde mental; e Co como serviços de emergência e urgência hospitalar. Foram utilizados descritores controlados dos vocabulários DeCS e MeSH, associados a termos livres relacionados a enfermagem, equipe de enfermagem, saúde mental, sofrimento psíquico, estresse ocupacional, burnout, ansiedade, depressão, sobrecarga de trabalho, carga de trabalho, ambiente de trabalho e serviços de emergência.

Foram selecionadas as bases MEDLINE/PubMed, CINAHL, Embase, Scopus e LILACS. A estratégia de busca combinou descritores e palavras-chave por meio dos operadores booleanos AND e OR; com adaptação às especificidades de cada base; Para MEDLINE/PubMed; foram utilizados os conceitos relacionados a Nursing/Nurses; Mental Health; Workload e Emergency Service; Hospital; As buscas foram realizadas considerando janeiro de 2020 a setembro de 2026; nos idiomas português e inglês; além de busca complementar nas referências dos estudos potencialmente relevantes.

3.2. Critérios de Elegibilidade e Seleção

Foram incluídos artigos científicos publicados no período definido, em português ou inglês, disponíveis em texto completo e relacionados à saúde mental de profissionais de enfermagem atuantes em urgência e emergência, considerando sobrecarga de trabalho e repercussões sobre o trabalhador e o ambiente assistencial. Foram aceitos estudos quantitativos, qualitativos e de métodos mistos.

Foram excluídas revisões sistemáticas, integrativas, narrativas e de escopo, metanálises, editoriais, cartas ao editor, protocolos, resumos de congressos, trabalhos acadêmicos não publicados como artigos científicos e publicações sem acesso ao texto completo. Também foram excluídos estudos sem resultados específicos para a equipe de enfermagem, realizados exclusivamente em ambientes não relacionados à urgência e emergência ou sem relação com a sobrecarga de trabalho ou a saúde mental, além de duplicatas.

Os registros foram exportados e organizados na plataforma Rayyan para gerenciamento das referências, identificação e remoção de duplicatas e organização da triagem. Após a exclusão das duplicidades, os estudos foram avaliados por título e resumo e, posteriormente, em texto completo. A seleção foi realizada por dois revisores de forma independente, com discussão das divergências até consenso e possibilidade de participação de terceiro pesquisador.

3.3. Extração, Avaliação e Síntese dos Dados

A categorização dos estudos utilizou instrumento de extração de dados adaptado do modelo proposto por Ursi (2005), contemplando autoria, ano, país, objetivo, delineamento, abordagem, população, amostra, cenário, variáveis, instrumentos, resultados e conclusões. Também foram extraídas informações sobre sobrecarga, condições e organização do trabalho, jornada, dimensionamento, turnos, demanda assistencial, estresse, burnout, ansiedade, depressão, fadiga, alterações do sono, qualidade de vida e repercussões no ambiente assistencial. Quando aplicável, foram consideradas ferramentas de avaliação crítica do Joanna Briggs Institute (JBI).

A análise foi qualitativa e narrativa, comparando convergências, divergências, similaridades, diferenças, padrões e lacunas entre os estudos, considerando as particularidades dos diferentes delineamentos. Os achados foram agrupados em categorias temáticas relacionadas às condições de trabalho, às repercussões sobre a saúde mental e ao ambiente organizacional e suporte institucional. Por se tratar de revisão baseada exclusivamente em estudos publicados, sem participação direta de seres humanos ou coleta de dados pessoais identificáveis, não houve abordagem direta de participantes.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS

A busca bibliográfica identificou 327 registros. Após a remoção de 76 duplicidades, permaneceram 251 registros para triagem. Destes, 218 foram excluídos após leitura de título e resumo. Foram avaliados 33 relatórios em texto completo; 23 foram excluídos e 10 estudos foram incluídos na revisão. O percurso de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão foi organizado conforme a síntese apresentada na Figura 1.

4.1. Caracterização dos Estudos Incluídos

Os 10 estudos selecionados apresentaram diferentes delineamentos, com predominância de pesquisas transversais quantitativas, além de estudos qualitativos e de métodos mistos. As pesquisas foram realizadas no Brasil, Austrália, Países Baixos, China, Dinamarca, Bélgica e Estados Unidos. Os achados concentraram-se em elevada carga de trabalho, superlotação, insuficiência de profissionais, pressão assistencial, conflitos interpessoais, situações traumáticas, demandas relacionadas ao tempo e necessidade de decisões rápidas.

No estudo brasileiro de Santos Mass et al. (2022), a carga psíquica foi relacionada ao estresse, ao sofrimento diante de óbitos e às condições adversas de trabalho. Ferreira, Silva e Souza (2022), em 46 enfermeiros de uma emergência de referência em urgência e trauma, identificaram 65,22% dos profissionais com alta demanda psicológica e indicadores de estresse e burnout. Alomari et al. (2021) identificaram problemas no atendimento de pacientes e familiares, elevada carga de trabalho e incertezas relacionadas ao tratamento como fatores relacionados ao estresse.

Xu et al. (2019) identificaram alta carga de trabalho, inadequação do perfil ou dimensionamento profissional e superlotação entre os principais estressores. De Wijn, Fokkema e van der Doef (2022) encontraram desfechos relacionados a burnout, problemas de sono e sintomas relacionados ao estresse pós-traumático, com exaustão emocional associada às demandas de tempo e a situações de agressão e conflito.

Huang et al. (2024) identificaram sintomas depressivos em 54,6% dos participantes e burnout ocupacional grave em 48,1%, com associação entre estresse relacionado ao papel profissional, burnout e sintomas depressivos. Butera et al. (2021) encontraram risco de burnout de 69,8% antes e 70,7% durante a primeira onda da pandemia entre enfermeiros de emergência, com associação entre mudanças na carga de trabalho e maior probabilidade de risco. Zhou et al. (2023) relacionaram estresse ocupacional a fatores do trabalho, turno, envolvimento profissional e resiliência.

Raun, Lassen e Østervang (2025) identificaram 47,2% dos participantes com estresse grave ou extremamente grave, 23,1% com ansiedade grave ou extremamente grave e 14,1% com depressão grave ou extremamente grave, enquanto Brassington et al. (2025) observaram 72% de relatos de burnout entre moderado e completo e 34% de burnout sustentado ou completo, com associação entre elevada carga de trabalho e maior chance de burnout.

Tabela 1. Quadro sinóptico dos estudos incluídos.

Autor/Ano

País

Objetivo

Delineamento

Principais resultados

Santos Mass et al. (2022)

Brasil

Conhecer as percepções dos profissionais de enfermagem de serviços de urgência e emergência quanto às cargas de trabalho e sua relação com a saúde.

Qualitativo, descritivo

A carga psíquica foi potencializada pelo estresse, sofrimento diante dos óbitos e condições laborais adversas. A sobrecarga e as cargas de trabalho foram relacionadas ao risco de adoecimento psíquico e à saúde mental. (SciELO)

Ferreira, Silva e Souza (2022)

Brasil

Investigar o estresse e o burnout em enfermeiros da emergência de um hospital de referência em urgência e trauma.

Transversal, descritivo, quantitativo

65,22% apresentaram alta demanda psicológica; 30,43% estavam em situação de alto desgaste. Foram identificados indicadores de exaustão emocional, despersonalização e baixa realização profissional, além de correlação entre estresse e burnout. (Periódicos UFSJ)

Xu et al. (2019)

Austrália

Identificar estressores e estratégias de enfrentamento entre profissionais de departamentos de emergência.

Transversal

Alta carga de trabalho, inadequação do perfil/dimensionamento profissional e superlotação foram identificadas entre os principais estressores do ambiente de emergência. (PubMed)

Alomari et al. (2021)

Austrália

Identificar e caracterizar os principais fatores relacionados ao estresse entre enfermeiros de departamentos de emergência.

Transversal, correlacional

O estresse foi relacionado principalmente a problemas no atendimento de pacientes e familiares, alta carga de trabalho e incertezas relacionadas ao tratamento. (Wiley Online Library)

de Wijn, Fokkema e van der Doef (2022)

Países Baixos

Avaliar desfechos relacionados ao estresse e bem-estar ocupacional e sua relação com fatores do trabalho entre enfermeiros de emergência.

Transversal

Demandas relacionadas ao trabalho e ao tempo estiveram relacionadas a desfechos de estresse e exaustão emocional entre enfermeiros de emergência. (PubMed)

Butera et al. (2021)

Bélgica

Avaliar o risco de burnout entre enfermeiros de emergência e UTI antes e durante a pandemia e identificar fatores associados.

Transversal

Entre enfermeiros de emergência, o risco de burnout foi de 69,8% antes e 70,7% durante a primeira onda. Mudanças na carga de trabalho estiveram associadas a maior probabilidade de risco de burnout. (PubMed Central (PMC))

Huang et al. (2024)

China

Investigar a relação entre estresse de papel, burnout ocupacional e depressão em enfermeiros de emergência.

Transversal

54,6% apresentaram sintomas depressivos e 48,1% apresentaram burnout ocupacional grave. Houve correlação positiva entre estresse de papel, burnout e depressão. (ScienceDirect)

Zhou et al. (2023)

China

Avaliar estresse ocupacional, envolvimento profissional e resiliência de equipe entre enfermeiros de emergência.

Transversal

Estresse ocupacional esteve relacionado a fatores do trabalho, turno, envolvimento profissional e resiliência da equipe. (ScienceDirect)

Brassington et al. (2025)

Estados Unidos

Avaliar a relação entre dimensionamento de enfermeiros, carga de trabalho, ambiente de prática e burnout em enfermeiros de emergência.

Transversal

72% relataram burnout moderado a completo; 34% apresentaram burnout sustentado ou completo. Alta carga de trabalho esteve associada a maior chance de burnout (OR=2,89; p=0,04). (PubMed)

Raun, Lassen e Østervang (2025)

Dinamarca

Avaliar a prevalência de depressão, ansiedade e estresse e investigar fatores que influenciam o bem-estar psicológico da equipe de enfermagem de um departamento de emergência.

Métodos mistos

47,2% apresentaram estresse grave/extremo, 23,1% ansiedade e 14,1% depressão. As entrevistas apontaram alto ritmo de trabalho, superlotação, ambiente pressionado e falta de recursos como fatores que afetavam a saúde mental. (ScienceDirect)

Fonte: Os autores (2026).

4.2. Síntese dos Principais Achados

4.2.1. Sobrecarga e Organização do Trabalho Como Fatores Relacionados Ao Sofrimento Psíquico

A sobrecarga de trabalho foi um dos aspectos mais recorrentes nos estudos analisados. Elevada carga assistencial, superlotação, insuficiência ou inadequação do dimensionamento, demandas relacionadas ao tempo, ritmo elevado e alterações na carga laboral foram associados a estresse ocupacional, exaustão emocional e burnout. A combinação entre elevada demanda assistencial e recursos humanos insuficientes pode contribuir para condições laborais desfavoráveis à saúde mental.

4.2.2. Repercussões Sobre a Saúde Mental da Equipe de Enfermagem

Os estudos evidenciaram estresse ocupacional, burnout, exaustão emocional, ansiedade, sintomas depressivos, alterações do sono e sintomas relacionados ao estresse pós-traumático. Esses desfechos apareceram associados a carga de trabalho, demandas temporais, conflitos, estresse relacionado ao papel profissional e condições assistenciais.

4.2.3. Ambiente de Trabalho e Suporte Institucional

Além da carga de trabalho, os estudos apontaram influência de fatores organizacionais e relacionais, como dimensionamento profissional, condições estruturais, disponibilidade de recursos, relações interpessoais, conflitos e suporte de colegas, superiores e gestores. O suporte social e institucional foi descrito como elemento relevante na proteção da saúde mental, enquanto condições organizacionais desfavoráveis podem estar associadas a maior ocorrência de estresse e burnout.

De modo geral, a saúde mental da equipe de enfermagem em emergência relaciona-se à interação entre carga de trabalho, organização dos serviços, condições ambientais e suporte institucional. A elevada demanda assistencial, a superlotação, a insuficiência de profissionais, a pressão temporal e o ritmo intenso aparecem de forma recorrente como fatores associados ao estresse, à exaustão emocional e ao burnout.

5. DISCUSSÃO

Os achados desta revisão integrativa evidenciam que a saúde mental dos profissionais de enfermagem atuantes em serviços de emergência está diretamente relacionada às características do ambiente de trabalho e às demandas presentes no cotidiano assistencial. Entre os principais fatores identificados nos estudos analisados destacam-se a elevada demanda psicológica, sobrecarga de trabalho, jornadas e pressão temporal, superlotação, conflitos e agressões, exposição a eventos críticos, insuficiência de recursos e condições organizacionais desfavoráveis. Esses fatores foram associados principalmente a estresse ocupacional, burnout, exaustão emocional, sintomas depressivos, alterações do sono e sofrimento psíquico.

No contexto brasileiro, Ferreira, Silva e Souza (2022) identificaram elevada demanda psicológica entre enfermeiros de uma emergência de referência em urgência e trauma. Dos 46 profissionais avaliados, 65,22% apresentaram alta demanda psicológica e 30,43% encontravam-se em situação de alto desgaste segundo o modelo Demanda-Controle. Também foram observados indicadores relacionados ao burnout, como exaustão emocional, despersonalização e baixa realização profissional, com identificação de três casos entre os participantes. Esses resultados evidenciam que as características do trabalho em emergência podem representar importante fonte de desgaste ocupacional.

Resultados semelhantes foram observados por Santos Mass et al. (2022), que, em estudo qualitativo com profissionais de enfermagem de serviços de urgência e emergência, identificaram que a carga psíquica era intensificada pelo estresse, pelo sofrimento diante dos óbitos e pelas condições adversas de trabalho. Os autores relacionaram a sobrecarga e as diferentes cargas de trabalho ao risco de adoecimento psíquico e às repercussões sobre a saúde mental. Dessa forma, os achados brasileiros demonstram que o sofrimento ocupacional não está relacionado exclusivamente à quantidade de atividades desenvolvidas, mas também à dimensão emocional e às condições concretas nas quais o cuidado é realizado.

A relação entre carga de trabalho e estresse também é observada nas evidências internacionais. Xu et al. (2019), em estudo transversal realizado com profissionais de departamentos de emergência na Austrália, identificaram a alta carga de trabalho, a inadequação do perfil ou dimensionamento profissional e a superlotação entre os principais estressores do ambiente de emergência. De forma semelhante, Alomari et al. (2021) verificaram que os principais fatores relacionados ao estresse incluíam problemas no atendimento aos pacientes e familiares, elevada carga de trabalho e incertezas relacionadas ao tratamento. Esses resultados reforçam que a pressão vivenciada pela equipe de enfermagem é produzida por múltiplas demandas simultâneas, envolvendo tanto aspectos quantitativos do trabalho quanto a complexidade das situações assistenciais.

Essa perspectiva é reforçada por de Wijn, Fokkema e van der Doef (2022), que avaliaram enfermeiros de emergência nos Países Baixos e identificaram a presença de diferentes desfechos relacionados ao estresse, incluindo burnout, problemas de sono e estresse pós-traumático, além de elevada intenção de deixar o trabalho. A exaustão emocional esteve relacionada principalmente às demandas de tempo e às situações de agressão e conflito vivenciadas no ambiente profissional. Assim, a pressão temporal e os conflitos constituem componentes importantes da experiência ocupacional desses profissionais, somando-se à própria intensidade da assistência de emergência.

Além da sobrecarga quantitativa, os estudos demonstram que a natureza do atendimento de emergência acrescenta demandas emocionais específicas. Esses serviços envolvem contato frequente com pacientes em condições graves, risco de morte, sofrimento de familiares, necessidade de decisões rápidas e exposição a situações inesperadas. De Wijn, Fokkema e van der Doef (2022), assim como o estudo relacionado de de Wijn e van der Doef, destacam situações emocionalmente exigentes, agressões, conflitos e eventos críticos como importantes fontes de estresse entre enfermeiros de emergência. Essa exposição contínua pode contribuir para a exaustão emocional e para manifestações relacionadas ao estresse.

A experiência emocional do trabalho também aparece nos achados de Santos Mass et al. (2022), especialmente em relação ao sofrimento diante dos óbitos e às cargas psíquicas presentes no cotidiano dos serviços de urgência e emergência. Dessa forma, a sobrecarga identificada nos estudos deve ser compreendida de maneira ampliada, considerando não apenas o número de pacientes ou tarefas, mas também a complexidade dos casos, a pressão temporal, os eventos críticos e as demandas emocionais decorrentes da assistência.

A associação entre carga de trabalho e burnout foi particularmente evidenciada por Butera et al. (2021), que avaliaram enfermeiros de emergência e unidades de terapia intensiva antes e durante a pandemia. Entre os enfermeiros de emergência, o risco de burnout foi elevado nos dois períodos avaliados, e as mudanças na carga de trabalho estiveram associadas a maior probabilidade de risco de burnout. Esse resultado contribui para demonstrar que alterações na intensidade do trabalho podem acompanhar mudanças importantes no risco de esgotamento profissional.

Na mesma direção, Brassington et al. (2025) analisaram a relação entre dimensionamento de enfermeiros, carga de trabalho, ambiente de prática e burnout em profissionais de emergência. Os autores identificaram elevada frequência de burnout e observaram associação entre maior carga de trabalho e maior chance de burnout. Esses resultados reforçam a importância do dimensionamento e do ambiente de prática na compreensão da saúde mental dos trabalhadores, demonstrando que as condições institucionais podem participar da relação entre demandas ocupacionais e sofrimento profissional.

A influência das condições de trabalho também pode ser observada no estudo de Zhou et al. (2023), no qual o estresse ocupacional esteve relacionado a fatores do trabalho, ao turno, ao envolvimento profissional e à resiliência da equipe. Esse resultado amplia a compreensão do fenômeno ao demonstrar que a saúde mental dos profissionais não depende exclusivamente da intensidade das demandas, mas também de características relacionadas à organização do trabalho e à dinâmica coletiva da equipe.

Nesse sentido, os resultados sugerem que a saúde mental da equipe de enfermagem não deve ser analisada exclusivamente a partir de características individuais dos trabalhadores. O dimensionamento da equipe, a distribuição das demandas, os turnos, o suporte da liderança, a qualidade do ambiente de prática e a capacidade de organização coletiva constituem elementos relevantes para a compreensão do sofrimento ocupacional. Brassington et al. (2025) reforçam essa perspectiva ao demonstrarem associação entre carga de trabalho, ambiente de prática e burnout em enfermeiros de emergência.

Outro aspecto importante identificado nos estudos é a relação entre estresse ocupacional, burnout e sintomas depressivos. Huang et al. (2024), em estudo realizado com enfermeiros de emergência, identificaram sintomas depressivos em 54,6% dos participantes e burnout ocupacional grave em 48,1%. Os autores também encontraram correlação positiva entre estresse relacionado ao papel profissional, burnout e depressão. Esses achados demonstram a coexistência de diferentes dimensões do sofrimento psíquico entre profissionais submetidos a demandas ocupacionais intensas.

De maneira complementar, Raun, Lassen e Østervang (2025), em estudo de métodos mistos realizado na Dinamarca, identificaram a presença de estresse grave ou extremo, ansiedade e depressão entre profissionais de enfermagem de um departamento de emergência. Os dados qualitativos apontaram ainda o alto ritmo de trabalho, a superlotação, o ambiente pressionado e a falta de recursos como fatores que afetavam o bem-estar psicológico. A utilização de métodos quantitativos e qualitativos permitiu, nesse caso, relacionar a frequência dos desfechos psicológicos às experiências relatadas pelos próprios trabalhadores.

Os achados de Huang et al. (2024) e Raun, Lassen e Østervang (2025) demonstram, portanto, que o sofrimento relacionado ao trabalho pode apresentar diferentes manifestações, incluindo estresse, burnout, ansiedade e sintomas depressivos. Entretanto, por se tratar predominantemente de estudos observacionais e transversais, os resultados devem ser interpretados como associações, não permitindo estabelecer isoladamente uma relação causal definitiva entre sobrecarga de trabalho e adoecimento mental. Essa distinção é importante para evitar interpretações simplificadas de um fenômeno que apresenta múltiplos determinantes.

Além dos fatores associados ao sofrimento, os estudos também apontam para a existência de elementos capazes de favorecer o bem-estar profissional. De Wijn, Fokkema e van der Doef (2022) observaram que, apesar da presença de desfechos relacionados ao estresse e elevada intenção de rotatividade, a maioria dos profissionais também relatou engajamento no trabalho e satisfação profissional. Esse resultado demonstra que a experiência dos enfermeiros de emergência não é exclusivamente marcada por aspectos negativos, podendo coexistir elevadas demandas ocupacionais com aspectos positivos relacionados ao significado do trabalho e ao envolvimento profissional.

Essa dimensão é relevante porque permite compreender a saúde mental para além da presença ou ausência de adoecimento. O apoio da equipe, as oportunidades de desenvolvimento profissional, a satisfação com o trabalho e condições organizacionais favoráveis podem atuar como elementos importantes na experiência ocupacional. No estudo de de Wijn, Fokkema e van der Doef (2022), oportunidades de desenvolvimento estiveram relacionadas ao maior engajamento profissional, enquanto a redução das demandas relacionadas ao tempo e dos episódios de agressão foi apontada como aspecto relevante para o bem-estar.

A relação entre sofrimento ocupacional e organização dos serviços também possui implicações para a permanência dos profissionais. A elevada intenção de deixar o trabalho identificada por de Wijn, Fokkema e van der Doef (2022) demonstra que as repercussões das condições de trabalho podem ultrapassar a dimensão individual e alcançar a própria organização dos serviços. Dificuldades relacionadas à retenção de profissionais podem, por sua vez, representar um desafio adicional para equipes que já enfrentam demandas elevadas e necessidade de manutenção da qualidade assistencial.

Dessa forma, os resultados da revisão indicam que estratégias voltadas à saúde mental dos profissionais de enfermagem em serviços de emergência precisam considerar tanto aspectos individuais quanto organizacionais. Ações de apoio psicológico, educação em saúde mental e desenvolvimento de estratégias de enfrentamento podem ser relevantes, mas devem ser acompanhadas de medidas relacionadas à organização do trabalho, ao dimensionamento de pessoal, à distribuição das demandas, à melhoria do ambiente de prática e à prevenção de agressões e conflitos.

A sobrecarga identificada nos estudos também não deve ser compreendida como resultado de uma única variável. Ela pode decorrer da combinação entre quantidade de pacientes, complexidade dos casos, disponibilidade de profissionais, tempo para realização das atividades, demandas administrativas e emocionais e condições estruturais do serviço. Os resultados de Xu et al. (2019), Alomari et al. (2021), Butera et al. (2021), Brassington et al. (2025) e Raun, Lassen e Østervang (2025) convergem ao apontar diferentes dimensões dessa problemática, incluindo carga de trabalho, superlotação, dimensionamento, ritmo assistencial e insuficiência de recursos.

A diversidade metodológica dos estudos analisados também constitui um aspecto importante da presente revisão. Foram identificados estudos qualitativos, como o de Santos Mass et al. (2022), pesquisas quantitativas transversais, como as de Ferreira, Silva e Souza (2022), Xu et al. (2019), Alomari et al. (2021), Butera et al. (2021), Huang et al. (2024), Zhou et al. (2023) e Brassington et al. (2025), além de estudo de métodos mistos realizado por Raun, Lassen e Østervang (2025). Essa diversidade permite integrar diferentes perspectivas sobre o fenômeno, combinando a identificação de associações e frequências com a compreensão das experiências vivenciadas pelos profissionais.

De maneira geral, os estudos analisados convergem ao demonstrar que os profissionais de enfermagem inseridos em serviços de emergência estão expostos a condições laborais associadas a diferentes desfechos de saúde mental. A sobrecarga de trabalho, as demandas relacionadas ao tempo, a superlotação, a exposição a eventos críticos, as agressões e conflitos, o dimensionamento profissional e a insuficiência de recursos aparecem de forma recorrente associados a estresse, burnout, exaustão emocional, problemas de sono, ansiedade e sintomas depressivos.

Entretanto, os resultados também demonstram que a relação entre trabalho e saúde mental é multifatorial. A presença de fatores protetores, como suporte organizacional, oportunidades de desenvolvimento, engajamento profissional, resiliência da equipe e condições favoráveis de trabalho, pode modificar a experiência dos profissionais diante das demandas assistenciais. Assim, a promoção da saúde mental da equipe de enfermagem em emergência deve considerar a interação entre demanda assistencial, organização do trabalho e exposição emocional, envolvendo trabalhadores, gestores e instituições.

Por fim, observa-se a necessidade de ampliar a produção científica nacional sobre a relação entre sobrecarga de trabalho e saúde mental de profissionais de enfermagem especificamente em serviços de emergência. Embora o estudo brasileiro de Ferreira, Silva e Souza (2022) e a investigação qualitativa de Santos Mass et al. (2022) apresentem resultados relevantes, parcela expressiva das evidências identificadas é proveniente de outros países. Essa concentração reforça a necessidade de novos estudos brasileiros que considerem as especificidades dos serviços de urgência e emergência, incluindo dimensionamento profissional, características da rede assistencial, condições de trabalho, organização dos serviços e recursos disponíveis.

6. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS

A presente revisão integrativa evidenciou que a sobrecarga de trabalho constitui um importante fator associado ao sofrimento psíquico da equipe de enfermagem em serviços de emergência, relacionando-se principalmente ao estresse, burnout, ansiedade e sintomas depressivos. Os achados reforçam a necessidade de estratégias institucionais voltadas à adequação das condições de trabalho, dimensionamento da equipe, apoio organizacional e promoção da saúde mental dos profissionais.

Conclui-se que o cuidado à saúde mental da equipe de enfermagem deve ser incorporado às práticas de gestão dos serviços de emergência, contribuindo para o bem-estar dos profissionais e para a qualidade da assistência prestada.

Os objetivos propostos são contemplados pela síntese das evidências identificadas, que aponta para a necessidade de compreender a saúde mental dos trabalhadores de emergência de maneira multifatorial, considerando simultaneamente as demandas assistenciais, emocionais e organizacionais.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALMEIDA, Luana Ferreira de; MACHADO, Beatriz Albuquerque; PAULA, Vanessa Galdino de; GONÇALVES, Fernanda de Souza Ignácio; GOMES, Helena Ferraz; PERES, Ellen Márcia. Ações educativas na melhoria da comunicação entre profissionais de saúde: revisão integrativa. Revista de Enfermagem e Atenção à Saúde, v. 12, n. 3, e202395, 2023. DOI: 10.18554/reas.v12i3.5995.

ALOMARI, Ali H.; COLLISON, James; HUNT, Leanne; WILSON, Nathan J. Stressors for emergency department nurses: insights from a cross-sectional survey. Journal of Clinical Nursing, v. 30, n. 7-8, p. 975-985, 2021. DOI: 10.1111/jocn.15641.

APPEL, Ana Paula; CARVALHO, Ariana Rodrigues da Silva; SANTOS, Reginaldo Passoni dos. Prevalência e fatores associados à ansiedade, depressão e estresse numa equipe de enfermagem COVID-19. Revista Gaúcha de Enfermagem, Porto Alegre, v. 42, n. esp., e20200403, 2021. DOI: 10.1590/1983-1447.2021.20200403.

BENJAMIN, Ellen. The work of patient flow management: a grounded theory study of emergency nurses. International Emergency Nursing, v. 74, p. 101457, 2024. DOI: 10.1016/j.ienj.2024.101457.

BOTELHO, Louise Lira Roedel; CUNHA, Cristiano Castro de Almeida; MACEDO, Marcelo. O método da revisão integrativa nos estudos organizacionais. Gestão e Sociedade, Belo Horizonte, v. 5, n. 11, p. 121-136, 2011.

BRASSINGTON, Sharmine; THOMAS-HAWKINS, Charlotte; JOHANSEN, Mary L.; DE CORDOVA, Pamela B.; CIMIOTTI, Jeannie P.; ZHA, Peijia. Impact of registered nurse staffing, workload, and the practice environment on burnout in emergency nurses. Journal of Emergency Nursing, v. 51, n. 4, p. 684-691, 2025. DOI: 10.1016/j.jen.2025.01.007.

BUTERA, Sarah; BRASSEUR, Natacha; FILION, Nataly; BRUYNEEL, Arnaud; SMITH, Pierre. Prevalence and associated factors of burnout risk among intensive care and emergency nurses before and during the Coronavirus Disease 2019 pandemic: a cross-sectional study in Belgium. Journal of Emergency Nursing, v. 47, n. 6, p. 879-891, 2021. DOI: 10.1016/j.jen.2021.08.007.

DE WIJN, Anne Nathal; FOKKEMA, Marjolein; VAN DER DOEF, Margot P. The prevalence of stress-related outcomes and occupational well-being among emergency nurses in the Netherlands and the role of job factors: a regression tree analysis. Journal of Nursing Management, v. 30, n. 1, p. 187-197, 2022. DOI: 10.1111/jonm.13457.

DUARTE, Maria de Lourdes Custódio; SILVA, Daniela Giotti da; BAGATINI, Mariana Mattia Correa. Enfermagem e saúde mental: uma reflexão em meio à pandemia de coronavírus. Revista Gaúcha de Enfermagem, Porto Alegre, v. 42, n. esp., e20200140, 2021. DOI: 10.1590/1983-1447.2021.20200140.

FERREIRA, Kemilys Marine; BALSANELLI, Alexandre Pazetto; SANTOS, José Luís Guedes dos. Competências profissionais dos enfermeiros de unidades de urgência e emergência: estudo de método misto. Revista Latino-Americana de Enfermagem, São Paulo, v. 31, e3936, 2023. DOI: 10.1590/1518-8345.6554.3936.

FERREIRA, Maria Clara Leandro; SILVA, Silmar Maria; SOUZA, Sandra. Estresse e burnout em enfermeiros da emergência de um hospital referência em urgência e trauma. Revista de Enfermagem do Centro-Oeste Mineiro, v. 12, e4413, 2022. DOI: 10.19175/recom.v12i0.4413.

GEOVANINI, Telma; MOREIRA, Almerinda; SCHOELLER, Soraia Dornelles; MACHADO, Wiliam César Alves. História da enfermagem: versões e interpretações. 4. ed. Rio de Janeiro: Thieme Revinter, 2019.

HUANG, Chang-Ping; ZOU, Jin-Mei; MA, Huan; ZHONG, Ying. Role stress, occupational burnout and depression among emergency nurses: a cross-sectional study. International Emergency Nursing, v. 72, p. 101387, 2024. DOI: 10.1016/j.ienj.2023.101387.

MASS, Suéllen Fortes de Lima Santos; CENTENARO, Alexa Pupiara Flores Coelho; SANTOS, Arlíni Fátima dos; ANDRADE, Andressa de; FRANCO, Gianfábio Pimentel; COSENTINO, Susane Flôres. Rotina do imprevisível: cargas de trabalho e saúde de trabalhadores de enfermagem de urgência e emergência. Revista Gaúcha de Enfermagem, v. 43, e20210007, 2022. DOI: 10.1590/1983-1447.2022.20210007.

PADILHA, Maria Itayra Coelho de Souza; MANCIA, Joel Rolim. Florence Nightingale e as irmãs de caridade: revisitando a história. Revista Brasileira de Enfermagem, Brasília, v. 58, n. 6, p. 723-726, 2005. DOI: 10.1590/S0034-71672005000600018.

PARK, Sookyung; YOO, Junsang; LEE, Yerim; BAKER DEGUZMAN, Pamela; KANG, Min-Jeoung; DYKES, Patricia C.; SHIN, So Yeon; CHA, Won Chul. Quantifying emergency department nursing workload at the task level using NASA-TLX: an exploratory descriptive study. International Emergency Nursing, v. 74, p. 101424, 2024. DOI: 10.1016/j.ienj.2024.101424.

PIRES, Denise. A enfermagem enquanto disciplina, profissão e trabalho. Revista Brasileira de Enfermagem, Brasília, v. 62, n. 5, p. 739-744, 2009. DOI: 10.1590/S0034-71672009000500015.

RABELO, Simone Kroll; LIMA, Suzinara Beatriz Soares de; SANTOS, José Luís Guedes dos; COSTA, Valdecir Zavarese da; REISDORFER, Emilene; SANTOS, Tanise Martins dos; GRACIOLI, Jocelaine Cardoso. Processo de trabalho do enfermeiro em um serviço hospitalar de emergência. Revista Brasileira de Enfermagem, Brasília, v. 73, n. 5, e20180923, 2020. DOI: 10.1590/0034-7167-2018-0923.

RAUN, Maria; LASSEN, Annmarie; ØSTERVANG, Christina. Psychological well-being among nursing staff in an emergency department: a mixed-methods study. Journal of Emergency Nursing, v. 51, n. 2, p. 238-248, 2025. DOI: 10.1016/j.jen.2024.10.021.

RODRIGUES, Laura Mariane; SILVA, Lais Caroline da; BARROSO, Sabrina Martins; NASCIMENTO, Lilian Cristina Gomes do. Síndrome de Burnout em profissionais de enfermagem: uma revisão integrativa. Revista Brasileira em Promoção da Saúde, v. 37, p. 1-15, 2024. DOI: 10.5020/18061230.2024.14559.

SILVA, Leidy Laura da; CABRAL, Fabisleine. Urgência e emergência e o papel do enfermeiro. Revista Saúde dos Vales, v. 6, n. 1, 2023. DOI: 10.61164/rsv.v6i1.1814.

SILVA, Rosângela Marion da; TAMIOZZO, Juliana; BECK, Carmem Lúcia Colomé; PRETTO, Carolina Renz; FREITAS, Etiane de Oliveira; CAMPONOGARA, Silviamar. Sintomas de saúde e impactos do trabalho em profissionais de enfermagem de um hospital público. Revista da Escola de Enfermagem da USP, v. 55, e20210072, 2021. DOI: 10.1590/1980-220X-REEUSP-2021-0072.

URSI, Elizabeth Silva. Prevenção de lesões de pele no perioperatório: revisão integrativa da literatura. 2005. Dissertação (Mestrado em Enfermagem Fundamental) – Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, 2005.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Burn-out an “occupational phenomenon”: International Classification of Diseases. Geneva: World Health Organization, 2019.

XU, Hui Grace; JOHNSTON, Amy N. B.; GREENSLADE, Jaimi H.; WALLIS, Marianne; ELDER, Elizabeth; ABRAHAM, Louisa; THOM, Ogilvie; CARLSTRÖM, Eric; CRILLY, Julia. Stressors and coping strategies of emergency department nurses and doctors: a cross-sectional study. Australasian Emergency Care, v. 22, n. 3, p. 180-186, 2019. DOI: 10.1016/j.auec.2018.10.005.

ZHOU, Yinghao; ZHOU, Dan; LI, Qi; WU, Yu; WANG, Xiaoying; FENG, Ao; ZHAO, Lin. A cross-sectional study of clinical emergency department nurses’ occupational stress, job involvement and team resilience. International Emergency Nursing, v. 69, p. 101299, 2023. DOI: 10.1016/j.ienj.2023.101299.


1 Discente do Curso Superior de Enfermagem da Faculdade Morgana Potrich (FAMP), Mineiros – GO, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Enfermeira, Bacharel em Enfermagem pela Universidade Paulista, docente da Faculdade Morgana Potrich (FAMP), Mineiros – GO, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

3 Enfermeira, Bacharel em Enfermagem pela pela Universidade Federal de Goiás (UFG), do curso de medicina da Unifimes, Mineiros – GO, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

4 Discente do Curso Superior de Enfermagem da Faculdade Morgana Potrich (FAMP), Mineiros – GO, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

5 Enfermeira, Bacharel em Enfermagem pela Faculdade de Tecnologia e Ciência - (FTC), docente da Faculdade Morgana Potrich (FAMP), Mineiros – GO, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail