REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/787906743
RESUMO
Este artigo pretende analisar as obras O enigma da religião (1984), O que é religião (1984), ambas de Rubem Alves, sob a ótica da religiosidade. As obras aqui referendadas se destacam dentro dos trabalhos e textos publicados no campo da ciência da religião e abordam temas como o sagrado, religiosidade, imaginação, fé, vazio existencial. Por meio deste estudo, a intenção é procurar entender um pouco mais sobre esses conceitos. Ao ler e estudar as obras aqui mencionadas, pretendemos aprofundar um pouco mais sobre o que o autor fala a respeito da fé , religião e verificar o quanto a religiosidade, a religião estão intimamente relacionadas ao cotidiano, ao mundo em que se vive, à sociedade e não às escrituras sagradas. A experiência religiosa, assim como outras experiências da vida, é fruto das perguntas, das incertezas.
Palavras-chave: Religião; Rubem Alves; imaginação; religiosidade; incertezas.
ABSTRACT
This article aims to analyze the works “O enigma da religião” (1984) and “O que é religião” (1984)—both by Rubem Alves—through the lens of religiosity. These works stand out among publications in the field of religious studies, addressing themes such as the sacred, religiosity, imagination, faith, and existential emptiness. This study seeks to gain a deeper understanding of these concepts. By reading and examining these works, we aim to explore the author's views on faith and religion, and to examine the extent to which religiosity and religion are intimately connected to everyday life, the world we inhabit, and society—rather than merely to sacred scriptures. Religious experience, like other life experiences, arises from questions and uncertainties.
Keywords: Religion; Rubem Alves; imagination; religiosity; uncertainties.
1. INTRODUÇÃO
Com esta célebre frase: “As escrituras não vieram do céu”. Rubem Alves instituiu de vez a idéia de Deus, religiosidade e fé que o fez se encaixar não só como precursor da teologia da libertação mas também como um opositor a tudo ou quase tudo que as religiões passavam sobre o sagrado,o divino e o profano. Ao descobrir, aos 19 anos, ainda no seminário, que as escrituras foram selecionadas por Concílios e que, com isso, conforme ele relata, não eram as palavras de Deus, Rubem Alves vê sua fé abalada e começa a repensar uma forma de recuperar a fé neste Deus através de uma reinterpretação das escrituras, de uma forma diferente de enxergar Deus. Daí a caminhada rumo à Teologia da Libertação.
O autor em estudo é brasileiro e faz parte da literatura contemporânea. Rubem Alves é mineiro de Boa Esperança (naquela época conhecida como Dores da Boa Esperança), nasceu em 15/09/1933. Foi na sua adolescência morar no Rio de Janeiro e sofreu com o seu sotaque mineiro da roça. Em 1953, Rubem Alves ingressou no Seminário Presbiteriano de Campinas (SP), formando em Teologia em 1957. A vida no seminário era bem simples e os problemas que afligiam o mundo não perturbaram a paz que reinava no seminário. Logo que formou em 1957, foi trabalhar como pastor, na comunidade presbiteriana de Lavras/MG. Em 1964, logo no início da ditadura militar no Brasil, Rubem foi acusado pela igreja de abandonar a sua fé e, por conta de suas ideias liberais e contrárias às que eram defendidas pelo clero, é perseguido e considerado subversivo. Em 1968, a pressão dos militares aumenta e Rubem é obrigado a ir para o exílio nos Estados Unidos. Contudo, a sua passagem pelos Estados Unidos lhe rendeu inúmeros ganhos, como o doutorado em Filosofia. Ao retornar para o Brasil nos anos 70, dedicou-se ao ensino de Filosofia, Ciências e Letras na UNICAMP em Campinas (SP). Fez, também, especialização em Psicanálise. As suas obras transitam sobre o campo da filosofia, da ciência da religião e da literatura tanto para adultos quanto para as crianças e foram traduzidas para outros países. Além de serem, até hoje, objeto de estudo. Destacamos, aqui, algumas de suas principais obras: A gestação do futuro (1972), Creio na ressureição do corpo (1983) O que é religião (1981), O enigma da religião (1984), Conversas com quem gosta de ensinar (1980), Transparências da eternidade (1990), A pipa e a flor (1992), Filosofia da ciência (1993), A menina e o pássaro encantado (1994), O passarinho engaiolado (1999),O suspiro dos oprimidos (1999), O velho que acordou menino (2005), Se eu pudesse viver minha vida novamente (2004), Perguntaram-me se acredito em Deus (2007), Ostra feliz não faz pérola (2010), Pimentas (2012), O médico (2013),A grande arte de ser feliz (2014). Admirador de Adélia Prado, Santo Agostinho, Guimarães Rosa, Nietzsche e Fernando Pessoa, este educador, filósofo, teólogo, psicanalista e escritor passa a ser um dos maiores influenciadores no campo da educação, da filosofia e da ciência da religião. O autor também é lembrado pelos seus trabalhos como cronista e por suas frases marcantes e de efeito. Além disso, todo o seu estudo e reflexões acerca da experiência religiosa acabam por influenciar diretamente na ascensão do diálogo inter-religioso. Rubem Alves, ao abandonar a idéia fechada e institucionalizada de religião, se estabelece como um poeta da fé e da vida. Para ele, Deus é um poeta da vida e está na vida. Rubem Alves tornou-se um piedoso fundamentalista e nos diz que: “O mais importante não é o que o fundamentalista diz, mas como ele diz”. (ALVES, p.05).
Com isto, ao elaborar este despretensioso artigo procuramos expor as teorias, reflexões e pensamentos contidos em duas de suas principais obras: “O Enigma da Religião” e “O que é Religião” não só por serem estas as principais obras que definem o pensamento dele a respeito de fé, Deus e espiritualidade que o tornam mais próximo de uma outra forma de interpretação da religião mas também para causar um fascínio e uma reflexão sobre os temas abordados por ele. Num primeiro momento, falaremos sobre O enigma da religião. Logo em seguida, trataremos das reflexões a respeito do livro O que é religião. No fim, teceremos nossas considerações finais.
2. O ENIGMA DA RELIGIÃO
A religião é um fenômeno histórico, humano e cultural que atravessa as gerações. Mesmo as pessoas que não se ocupam com a religião, que não discutem o assunto ou mesmo que não possuam uma religião sabem que ela está aí. Por isso, há muitos elogios e muitas críticas à religião. Há muitos questionamentos também. Como as religiões nascem? Quais são suas características. O que é a fé? O que é Deus? Deus existe? Deus está morto? Qual a importância da religião? Quais são os conceitos de religião? Qual a influência da religião? Qual espaço a religião ocupa no mundo frente aos avanços tecnológicos? Enfim, qual é o enigma da Religião? Estas são algumas das indagações que são trabalhadas na referida obra. Cabe dizer, nesta obra, o autor faz alusão aos pensamentos de Karl Max, Freud e Comte.
De acordo com Rubem Alves, a linguagem que dá sustentabilidade ao nosso mundo e fortalece a nossa personalidade é imprevisível. Nos deparamos com diferentes realidades a todo momento de nossas vidas e isso nos impacta de alguma forma, trazendo novos caminhos e novas perspectivas. E a respeito de religião Alves ainda comenta que:
A religião é uma forma de imaginação e esta imaginação tem sempre uma função religiosa para o homem... A consciência do homem não é pura e ela existe para ajudar o corpo a resolver o problema da sua sobrevivência. A religião faz de símbolos, cuja função de um símbolo é representar uma relação vivida”. (ALVES, p. 13-14).
A psicanálise defende que os sonhos têm significados ocultos. E para Alves “a religião é para a sociedade, aquilo que o sonho é para o indivíduo” (ALVES, p.15). A religião também tem seus significados ocultos e por sua vez denota a voz do coração, a dinâmica do prazer uma vez que ela tenta transformar o caos numa coisa boa, em algo positivo. O autor diz que o ser humano precisa de horizontes para direcionar o seu caminho e alega que sem esse senso de direção “entramos na insanidade”. (ALVES, p. 16). O que motiva as pessoas não são as certezas, mas sim as paixões, os riscos e as expectativas que se tem do futuro, mesmo que sejam ilusões ou visões elas exercem esse poder, esse fascínio no ser humano. Aí podemos dizer que a religião é de fato algo que exerce esse fascínio sobre o homem, estabelecendo uma relação. Alves afirma que a realidade do mundo humano é precedida de uma atividade e de uma consciência. Expõe que “as formas institucionalizadas da religião não são transparentes e não se autoexplicam”. (ALVES,p.21). E diante disso podemos dizer que:
Para se entender a religião é necessário prestar atenção e procurar compreender as experiências humanas que a geraram e a deram luz”... Os fatos sociais surgiram como “externalização de significações subjetivas, como uma objetivação do Espírito”...”. A religião não se torna transparente a menos que vejamos, por detrás de suas expressões objetivas, a consciência no seu momento de experiência religiosa (ALVES, p.21-22).
O homem moderno ainda faz referências aos deuses, às imagens que a sociedade reverencia há muitos anos e que de certa maneira perderam um pouco o significado no mundo de hoje, mas esse mesmo homem está a procura de novos deuses que possam dar sentido as suas vivências emocionais. Para Rubem Alves, “a consciência religiosa é uma expressão da imaginação” ... É preciso reconhecer que a imaginação é a forma mais fundamental de operação da consciência”. (ALVES, p.22-23). Verifica-se que quando tentamos interpretar a função da imaginação estamos diante de um problema a ser decifrado e diante desse dilema Alves propõe que: “ aceitemos a imaginação como dado primário da experiência humana.” (ALVES, p.24).
Rubem Alves afirma que os animais, diferente dos seres humanos, não produzem arte, valores, deuses e nem mesmo religião, pois não possuem imaginação, que é por assim dizer a origem da criatividade humana. Se não fosse por ela, os homens não sairiam do lugar. Ela é um dado primário, empírico e primordial da experiência humana e que serve de ponto de partida para o entendimento da religiosidade no homem. E sobre isso Alves fala:
O que importa é simplesmente constatar que através da imaginação o homem transcende a facticidade bruta da realidade que é imediatamente dada e afirma que o que é não deveria ser, e que o que ainda não é deverá ser. (ALVES, p. 26).
Para o autor em estudo, o objetivo da religião não é explicar o mundo. Ela nasce justamente para questionar a cientificação das experiências do mundo, dos fatos que acometem a natureza e o ser humano. Para Alves a religião é a “voz de uma consciência que não pode encontrar descanso no mundo, tal como ele é, e que tem como seu projeto utópico transcendê-lo”. ( ALVES, p.28). O que se pode afirmar é que a ciência tem a pretensão de descrever, decifrar o mundo, enquanto que a linguagem religiosa prioriza exclusivamente expressar como o homem vive em relação ao mundo, como vive essa paixão religiosa. Alves preconiza que “ a verdade da religião está na infinitude da paixão”. (ALVES, p.29). Podemos dizer que a linguagem religiosa é carregada de símbolos sinistros. Ela faz menção de culpa, punição, demônios e maus espíritos. E ainda por cima existe um Deus que abençoa, salva e pune ao mesmo tempo. E ainda que: “assombra a consciência com as dores da culpa”. (ALVES, p.30). E sobre a perpetuação da existência de deuses e demônios Alves diz que:
O homem viverá para sempre, num mundo de deuses e demônios, símbolos de suas aspirações e temores – ainda que estes mesmos símbolos se envergonhem de suas próprias origens e, como travestis, se vistam com roupagens seculares.” (ALVES, p.31).
Não temos como fugir do nosso passado, faz parte da nossa herança, da nossa história de vida. E podemos dizer que Deus é um símbolo que nasce da relação entre o mundo e o homem. Daí que Alves menciona que Deus morreu e nasceu de novo, como parte da história do homem com o objetivo de dar sentido a esse mundo, ao existir do ser humano. A sua morte, portanto, é um evento, não da história dos deuses, mas da história do próprio homem. O homem com o passar dos anos mudou e enfrenta seu mundo de maneira diferente. Segundo Alves “Não foi Deus que morreu, mas o homem que um dia fez uso desta palavra para orientar-se no mundo.” (ALVES, p.36). Agora temos a figura do homem moderno, que vê com olhos diferentes, que está a procura de novos caminhos, novas descobertas, com coragem para desvendar esse novo mundo, aqui vemos a figura do cientista e é nesse momento que Deus começa a morrer para os humanos. “Deus é expulso do mundo científico e da experiência secular do homem. O Deus que com seu dedo fazia milagres e respondia orações ficou sob os escombros do edifício medieval”. (ALVES, p. 38).
Nesse novo mundo moderno, aparece a figura de um homem solitário, sem forças e sem esperanças. Sem esperança o homem não consegue sobreviver. Diante dessa nova realidade fria, sombria e sem perspectivas é preciso trazer de volta a figura de Deus. O mundo em si não existe separado do homem. Alves levanta a seguinte reflexão:
O mundo humano não é constituído por uma infinidade de objetos e pessoas – soltos no espaço – átomos caindo no vazio. Estes elementos nada mais são que a matéria-prima que o Espírito toma para organizar um todo significativo. Mas esta ordem não existe como um dado do mundo natural. Ela é uma criação da intenção, da vontade, emoção, da em resumo, da imaginação”. (ALVES, p.70).
De acordo com Rubem Alves, a religião exerce a função de contribuir para a preservação da sociedade, das relações humanas. Ele afirma que “a experiência religiosa primordial é exatamente aquela na qual o homem sente a desintegração do seu mundo.” (ALVES, p. 81). Acredita-se que essa experiência se dá quando o homem passa pelo sentimento de perda de um ente querido, quando a morte deste ente bate a sua porta, ou mesmo quando sofre com as dores de uma doença incurável e grave. Ou ainda quando sofre por alguma traição seja de um amigo ou de um familiar. Nesses momentos de aflição é que se dá o maior apego às coisas de Deus, da fé, da religiosidade. É o que nos apresenta Alves no trecho a seguir:
No seu primeiro momento, a experiência religiosa primordial, longe de ser uma visão de Deus, é o sentimento da dissolução do divino: morte de Deus, ausência de Deus...Num momento divino não há lugar para a consciência religiosa”. (ALVES, p.83).
Nos estudos apresentados por Alves conclui-se que “Deus é o símbolo da esperança: a esperança corporificada da imaginação. Destruída a esperança, morrem os deuses.
Destruídos os deuses, morre a esperança”. (ALVES, pg.86). E ainda podemos dizer que ter fé é ver o que todos veem, mas de maneira diferente. É enxergar além do possivelmente visível. As mudanças acontecem de acordo com a reestruturação do mundo, com a própria reestruturação da nossa consciência. As transformações se dão com a ajuda da imaginação humana. E assim Alves explica que: “ E como a imaginação é filha da emoção, podemos concluir que a experiência religiosa primordial é fundamentalmente emotiva”.
(ALVES, p.96). Alves menciona que as “formas cristalizadas e institucionalizadas da religião estão em declínio... não se pode negar o surto de um novo fervor religioso assumindo agora formas novas e inesperadas”. (ALVES, p.99). O que se percebe na visão de Alves aqui apresentada nestas poucas linhas é que “as esperanças para o futuro da humanidade dependem mais dos místicos e visionários que dos cientistas”. (ALVES, p.104). Cabe a aqui salientar o que Alves menciona com relação ao enigma da religião:
“o que torna a religião mais enigmática ainda é o fato de que, apesar de não entender as suas origens --- ou precisamente por não as entender o homem não consegue se desvencilhar do seu fascínio. Na realidade, não se tem notícia de cultura alguma que não a tenha produzido, de uma forma ou de outra.” (ALVES, p.18).
Ainda precisamos da subjetividade, da emoção, da religião seja ela qual for. De um Deus para termos esperanças, para acreditarmos que existe um sentido para os fatos da vida. A religião representa uma luz que pode clarear e abrir novos caminhos para o homem.
3. O QUE É RELIGIÃO
Rubem Alves nesta obra destaca alguns pontos importantes com relação à religiosidade, a religião e a sua evolução de acordo com as mudanças ocorridas na sociedade e no mundo. Afirmar categoricamente que a religião não desapareceu e nem irá desaparecer, pelo contrário, “exibe uma vitalidade que se julgava extinta” (ALVES, p.04). Relata que a experiência religiosa está afastada das fábricas, da ciência, das armas e dos lucros, e que poucos pais vislumbram a carreira religiosa para os seus filhos. A religião está muito próxima da nossa vida pessoal, pois muitas vezes é do fracasso que brota as esperanças, as possibilidades para tentar vencer os nossos erros e continuar a luta. Alves descreve bem isso em:
Não podemos entender uma cultura quando nos detemos na contemplação dos seus triunfos técnicos/práticos. Porque é justamente no ponto onde ele fracassou que brota o símbolo, testemunha das coisas ainda ausentes, saudade de coisas que não nasceram. E é aqui que surge a religião, teia de símbolos, rede de desejos, confissão da espera, horizonte dos horizontes, a mais fantástica e pretensiosa tentativa de transubstanciar a natureza. Existem verdades que são frias e inertes e que não se relacionam com o destino do homem, porém quando falamos dos símbolos que tocam os humanos, o corpo inteiro estremece, que pode-se classificar como sendo a massa emocional/existencial da experiência do sagrado. (ALVES, p.11).
Para Alves, quando mencionamos a linguagem religiosa, estamos nos referindo a uma linguagem que está se reportando as coisas invisíveis, que são agraciadas pelos olhos da fé. E o autor admite que o sagrado se manifesta graças ao poder do invisível. A linguagem religiosa se refere ao invisível quando menciona “as profundezas da alma, as alturas dos céus, o desespero do inferno, o paraíso... e o próprio Deus.” (ALVES,p.11). A religião é feita de símbolos que os homens fazem uso no seu cotidiano e estes mesmos homens são diferentes, sendo assim cada símbolo também terá significados diferentes de uns para os outros. A religião no dizer de Alves tem “ o poder, o amor e a dignidade do imaginário”. (ALVES, p.13). Sendo assim pode-se falar que os homens sentem a necessidade de viver num mundo que faça sentido pra eles.
Verifica-se que na Idade Média tudo se movia em torno do sagrado, falava-se de bruxas, de milagres, de bruxarias, de feitiços, de pestes, como castigo de Deus e ao mesmo tempo falava-se de um Deus que protegia e abençoava aqueles que o temiam. E isso pode ser confirmado na fala de Alves em: “Para os medievais não havia fantasia alguma. Seu mundo era sólido, constituído por fatos, comprovados por inúmeras evidências e além de quaisquer dúvidas”. (ALVES, p.19).
Com o surgimento da burguesia, preocupada com lucro, trabalho, novas descobertas, impondo a subordinação da imaginação à observação. “ A condenação do sagrado era exigida pelos interesses da burguesia e o avanço da secularização.” (ALVES, p.20). Nesse contexto de capitalismo, o que se verifica é um conflito de interesses entre Igreja e Estado, Igreja e os interesses econômicos. O que se pregava era que a Igreja cuidasse das coisas espirituais e que das coisas materias o dinheiro e a espada cuidariam. Nesse contesto de burguesia, de capitalismo a religião representava o passado, a tradição, algo bem distante. Pregava-se agora a valorização da ciência, do saber científico, das técnicas, do que pode ser provado e comprovado. Até aqui se pensava que a religião iria desaparecer. Doce engano dos pensadores dessa época. Rubem Alves nos agracia com sua fala sobre isso em:
Para que os homens dominem a terra é necessário que Deus seja confinado aos céus... Aqui foi designado que a religião cuidaria do mundo invisível, da salvação e da cura das almas aflitas. E sobreviveu o sagrado também como religião dos oprimidos (ALVES, p. 23).
A respeito da concepção do sagrado, Alves relata que ele é o “centro do mundo, a origem da ordem, a fonte das normas, a garantia da harmonia”. (ALVES, p. 29). Ainda preconiza que a religião sustenta e fortalece o homem, dando coragem para encarar seus dilemas, seus problemas, suas dificuldades e ainda assim sair fortalecido e vitorioso. Sendo assim se atreve a dizer que a religião jamais deixará de existir e o que sempre poderá acontecer é passar por transformações. Assim também o homem, a sociedade passará também por mudanças, por transformações.
Com a revolução sociológica, há mudança radical de perspectiva no que se diz respeito a compreensão da religião com a afirmação “considere os fatos sociais como se fossem coisas”. (ALVES, p. 27). Alves cita o comentário de Durkheim:
"Diz-se que a ciência, em princípio, nega a religião. Mas a religião existe. Constitui-se num sistema de fatos dados. Em uma palavra: ela é uma realidade. Como poderia a ciência negar tal realidade?" ... ...”Não existe religião alguma que seja falsa", continua ele, horrorizando empiricistas e sacerdotes, blasfemos e beatos. A religião é uma instituição e nenhuma instituição pode ser edificada sobre o erro ou uma mentira. "Se ela não estivesse alicerçada na própria natureza das coisas, teria encontrado, nos fatos, uma resistência sobre a qual não poderia ser triunfado." (ALVES, p.28).
E ele continua:
"Nosso estudo descansa inteiramente sobre o postulado de que o sentimento unânime dos crentes de todos os tempos não pode ser puramente ilusório. Admitimos que estas crenças religiosas descansam sobre uma experiência específica cujo valor demonstrativo é, sob um .determinado ângulo, um nada inferior àquele das experiências científicas, muito embora sejam diferentes." (ALVES, p. 28).
Em seu pensamento, ao contrario dos empiristas/positivistas, a religião não é fenómeno fadado a desaparecer. Ela se revela “um aspecto essencial e permanente da humanidade”. (ALVES, p.28 ). Alves cita outro comentário de Durkheim:
“Durkheim não investigava a religião gratuitamente, por simples curiosidade. Ele vivia num mundo que apresentava sinais de desintegração e que estava rachado por todos os problemas advindos da expansão do capitalismo — problemas semelhantes aos nossos. E era isto que o levava a perguntar: como é possível a sociedade? Que força misteriosa é esta que faz com que indivíduos isolados, cada um deles correndo atrás dos seus interesses, em conflitos uns com os outros, não se destruam uns aos outros? Por que não se devoram? Qual a origem da razoável harmonia da vida social?” (ALVES, p.29)
E como afirma Alves: “o individuo toma a decisão, a sociedade vem depois”. (ALVES, p.29). Para ele, a sociedade gira em seu entorno. Mas isso não significa que somos fortes, como diz:
Nascemos fracos e indefesos; incapazes de sobreviver como indivíduos isolados; recebemos da sociedade um nome e uma identidade; com ela aprendemos a pensar e nos tornamos racionais; fomos por ela acolhidos, protegidos, alimentados; e, finalmente, é ela que chorará a nossa morte. É compreensível que ela seja o Deus que todas as religiões adoram, ainda que de forma oculta, escondida aos olhos dos fiéis. Assim, "esta realidade, representada pelas mitologias de tantas formas diferentes, e que é a causa objetiva, universal e eterna das sensações sui generis com as quais a experiência religiosa é feita, é a sociedade". (ALVES, p. 30).
E como afirma Alves: “a grande marca da religião é a esperança”. (ALVES, p.56). E sobre essa esperança da alma religiosa Alves explana:
Ao que a alma religiosa só poderia responder: Não sei. Mas eu desejo ardentemente que assim seja. E me lanço inteira. Porque é mais belo o risco ao lado da esperança que a certeza ao lado do universo frio e sem sentido. (ALVES, p. 57).
Podemos dizer que Rubem Alves enxerga a religião na realidade cotidiana do homem, com as suas imperfeições, com as suas diferenciações, pois considera que cada um carrega um passado, uma história da qual não tem como fugir. E esse passado influencia esse homem no seu hoje e na maneira como lida com os seus problemas, com as suas incertezas da vida e mais ainda como ele se relaciona com esse mundo. Como diz Alves, o homem precisa de religião, precisa de símbolos que tragam significação para a sua vida. Não basta contemplar a beleza da natureza, a simplicidade dos animais, ele precisa se sentir vivo e útil dentro desse contexto, seja ele social, religioso, ou de relações. Precisa se sentir alguém nesse universo.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
É por meio da leitura que podemos desenvolver as nossas habilidades para compreender os fatos da vida, seja no contexto histórico, social, político, religioso e mesmo pessoal. Fazer uma leitura minuciosa, detalhada do texto para compreender e assimilar o seu conteúdo exige bastante empenho do leitor para que assim possa captar a essência do que está escrito e do que está implícito nas entrelinhas.
E é assim que devemos ler estas duas obras de Rubem Alves: O enigma da religião e o que é religião. Devemos lê-las com o mesmo olhar atento daquele que as escreveu sob as amarras da ditadura e das movimentações religiosas que buscavam aliar religião, política e sociedade. Devemos lê-las com um olhar investigativo, crítico, incerto e, ao mesmo tempo, instigante. Um olhar de quem avista um horizonte de dúvidas e inquietações já que elas tratam de algo tão peculiar, transcendental e humano ao mesmo tempo. Tratam do sagrado e do profano e como este sagrado e profano influenciam em nossas vidas e na sociedade de uma forma geral.
Essa releitura do sagrado feita por Rubem nos remete a um êxtase religioso, uma experiência individual com Deus. E Deus, nesta leitura, é o belo. É o Deus da poesia, da música. Deus é a vida. É o que somos e o que acreditamos.
A fé, aqui, é o caminhar sem rumo no sentido da vida. E este sentido é diferente para cada um. A fé é o jogar-se no horizonte da dúvida. É uma inquietação diante do absoluto. E a religiosidade é uma sensação de plenitude que não possui normas.
Com tudo isso e com a leitura das obras referidas, podemos entender o porquê da frase “ As escrituras não vieram do céu.”. Os pensamentos vieram da terra, pelas mãos dos homens, de pensadores que tentaram interpretar os fatos, os símbolos, os sinais para poderem dar um direcionamento, um significado para a vida do homem na sociedade, conforme as exigências da época. Sem esses direcionamentos, fica difícil lidar com as questões práticas da vida, do seu cotidiano.
Além disso, no contexto do nosso estudo, deu para perceber que Rubem Alves não nos dá ou nos fornece uma definição exata de religião. E nem define os seus enigmas. O que ele procura explanar, desenvolver, nessas duas obras, é que a religião depende de cada ser humano, é ele que define o seu sentimento e pensamento em relação a sua religião e/ou religiosidade. Essa percepção da religião vai depender da experiência, da história de vida de cada um e do seu amadurecimento. No que diz respeito a Deus, ele é o criador de tudo o que existe na terra, no mundo antes da chegada do homem. A natureza, os animais e mesmo o homem fazem parte da obra de Deus. Como se está fazendo uso desse mundo aí já é por conta e responsabilidade de cada um de nós. O ser humano na sua integração com o mundo o modifica e se transforma e o transforma, às vezes provocando guerras, perseguições, um caos, ora trazendo a paz, realizando coisas boas e fazendo descobertas importantes.
Pelo que podemos perceber, nas duas obras ,o autor faz uma breve explanação sobre religião, sobre religiosidade, sobre imaginação, sobre sagrado, sobre a figura de Deus de acordo com a evolução dos tempos. Passamos pela idade média, pelo surgimento da burguesia com o capitalismo e pelos tempos atuais. E o que ficou muito claro é que as transformações vão surgindo, o homem sofre as consequências dessas transformações, dessas mudanças, mas nem por isso a religião vai deixar de existir. Ela permanece firme como uma esperança num futuro melhor. A existência do homem se potencializa na busca por um mundo melhor, de mais amor, mesmo diante de uma realidade difícil e fria ele continua a sua empreitada, porque é ela que move o seu caminhar. E assim a religião continua a resistir a cada geração, com amor, culpa, medos, com seus deuses e demônios Se essa religiosidade deixar de existir, o homem vai desistir e não terá mais sentido a sua existência. Daí que a religião precisa do homem e o homem precisa dela para sobreviver nesse universo, chamado mundo.
Em suma, fé, religião , espiritualidade e Deus fazem parte da vida vivida e sentida.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AGOSTINHO, Márcio Roberto. Resenha bibliográfica. Revista Científica Eletrônica de Psicologia, Garça/SP, Ano V – Nº 9 – p. 729-754 – nov/2007.
ALVES, Rubem Alves. “Perguntaram-me se Acredito em Deus”. Palestra efetuada por ele em 22/08/2007. Disponível em: https://youtu.be/xjB3rHK9PE
ALVES, Rubem Azevedo. Entrevista ao canal TV Brasil: no programa 3 a 1. Gravada em 2011. Disponível em: https://youtu.be/P4-hoyQmA
ALVES, Rubem Azevedo. O enigma da religião. Campinas: Papirus, 1984.
ALVES, Rubem Azevedo. O que é religião? 4 ed. São Paulo: Brasiliense, 1984.
REBLIN, Iuri Andréas. Outros cheiros, outros sabores... O pensamento teológico de Rubem Alves. São Leopoldo: Oikos, 2014.
Artigo apresentado ao Bacharelado Interdisciplinar em Ciências Humanas, da Universidade Federal de Juiz De Fora. Orientador: Prof. Dr. Humberto Araújo Quaglio de Souza.