REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/781829479
RESUMO
Este trabalho investiga o potencial da metodologia de rotação por estações no desenvolvimento das competências de leitura e escrita no ensino fundamental II. Partindo do pressuposto de que práticas pedagógicas diversificadas podem promover maior engajamento e aprendizagem significativa, a proposta articula diferentes gêneros discursivos, como histórias em quadrinhos, contos, fanfics e haicais, em atividades organizadas em rotação por estações. A relevância do estudo reside na necessidade de repensar o ensino de língua portuguesa, considerando as práticas sociais de linguagem contemporâneas e os interesses dos estudantes. Do ponto de vista metodológico, trata-se de uma pesquisa qualitativa, de caráter interventivo, desenvolvida em contexto escolar, na qual foram implementadas estações com propostas distintas de leitura e produção textual. A análise dos dados evidencia que a rotação por estações favorece a participação ativa dos alunos, estimula a criatividade e contribui para o desenvolvimento de competências interpretativas e autorais. Os resultados apontam para o potencial dessa abordagem como estratégia pedagógica criativa, capaz de integrar múltiplos letramentos e fortalecer o ensino de língua materna.
Palavras-chave: Ensino de Língua Portuguesa; Gêneros discursivos; Leitura e escrita; Metodologias ativas; Rotação por estações.
ABSTRACT
This study investigates the potential of the Station Rotation methodology for developing reading and writing skills in lower secondary education. Based on the assumption that diversified pedagogical practices can promote greater student engagement and meaningful learning, the proposal integrates different discourse genres, such as comics, short stories, fanfiction, and haiku, into activities organized through station rotation. The relevance of the study lies in the need to rethink Portuguese language teaching by considering contemporary social language practices and students’ interests. Methodologically, this is a qualitative, intervention-based study conducted in a school context, in which learning stations were implemented with distinct reading and text production activities. Data analysis indicates that station rotation encourages students’ active participation, stimulates creativity, and contributes to the development of interpretative and authorial skills. The findings highlight the potential of this approach as a creative pedagogical strategy capable of integrating multiple literacies and strengthening mother-tongue language teaching.
Keywords: Portuguese Language Teaching; Discourse Genres; Reading and Writing; Active Methodologies; Station Rotation.
1. INTRODUÇÃO
O desenvolvimento da competência leitora nos anos finais do Ensino Fundamental constitui uma preocupação recorrente no contexto educacional brasileiro, especialmente diante das dificuldades apresentadas pelos estudantes na compreensão textual e na produção escrita. Avaliações nacionais e internacionais têm apontado que parte significativa dos estudantes apresenta dificuldades na interpretação de textos e na construção de sentidos, o que impacta diretamente o processo de aprendizagem em diferentes áreas do conhecimento.
A leitura, nesse contexto, ultrapassa a ideia de decodificação e passa a ser compreendida como um processo de construção de sentidos, que envolve a interação entre leitor, texto e contexto. Conforme Solé (1998), ler implica mobilizar estratégias cognitivas e metacognitivas, permitindo que o leitor formule hipóteses, realize inferências e estabeleça relações com conhecimentos prévios. Nessa mesma perspectiva, Koch e Elias (2006) defendem que a leitura constitui uma atividade interativa, na qual o sentido é construído por meio da relação entre autor, texto e leitor.
Além disso, Rojo (2009) destaca a necessidade de trabalhar com diferentes gêneros discursivos em sala de aula, considerando as múltiplas práticas de linguagem presentes na sociedade contemporânea. Para a autora, a formação do leitor envolve o contato com textos diversos, possibilitando a ampliação das habilidades de interpretação e produção textual.
Diante dessas demandas, as metodologias ativas têm sido discutidas como alternativas pedagógicas que favorecem a participação dos estudantes e a construção de aprendizagens mais significativas. Segundo Bacich e Moran (2015), essas metodologias colocam o estudante como protagonista do processo de aprendizagem, promovendo autonomia, colaboração e engajamento.
Entre as metodologias ativas, destaca-se a Rotação por Estações, que consiste na organização da sala de aula em diferentes espaços de aprendizagem, nos quais os estudantes realizam atividades variadas, de forma colaborativa e dinâmica. Essa organização possibilita a diversificação das práticas pedagógicas e a ampliação das oportunidades de aprendizagem.
Nesse sentido, este artigo tem como objetivo analisar a contribuição da metodologia ativa Rotação por Estações no desenvolvimento da leitura e da escrita em uma turma de 7º ano do Ensino Fundamental, a partir do trabalho com diferentes gêneros discursivos, como histórias em quadrinhos, contos, fanfics e haicais.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
A presente pesquisa fundamenta-se em referenciais que compreendem a linguagem como prática social e a aprendizagem como um processo construído na interação entre sujeitos, textos e contextos. Considerando o objetivo de analisar as contribuições da Rotação por Estações para o desenvolvimento da leitura e da escrita, torna-se necessário discutir conceitos relacionados à leitura, aos gêneros discursivos e às metodologias ativas. Esses pressupostos oferecem suporte para a compreensão dos resultados obtidos durante a intervenção e para a reflexão acerca das possibilidades pedagógicas da proposta desenvolvida.
2.1. Leitura Como Prática Social
A leitura tem sido compreendida, nas últimas décadas, como uma prática social que envolve diferentes contextos, objetivos e gêneros discursivos. De acordo com Kleiman (1995), ler não se restringe à decodificação de palavras, mas implica compreender o texto considerando os conhecimentos prévios e o contexto de produção.
Nessa perspectiva, Solé (1998) afirma que a leitura constitui um processo ativo, no qual o leitor constrói sentidos por meio da interação com o texto. A autora destaca a importância do ensino de estratégias de leitura, como antecipação, verificação de hipóteses e síntese.
Rojo (2009) também defende a necessidade de trabalhar com múltiplos letramentos, considerando as transformações sociais e tecnológicas. Para a autora, a escola precisa ampliar as práticas de leitura, contemplando diferentes gêneros e suportes.
2.2. Metodologias Ativas e Rotação por Estações
As metodologias ativas têm sido discutidas como possibilidades de reorganização do ensino, promovendo maior participação dos estudantes. Bacich e Moran (2015) afirmam que essas metodologias favorecem o protagonismo discente e a construção colaborativa do conhecimento.
A Rotação por Estações consiste em uma das estratégias das metodologias ativas, caracterizada pela organização de atividades em diferentes espaços de aprendizagem. Segundo Bacich e Moran (2015), essa metodologia permite a diversificação das atividades, favorecendo diferentes estilos de aprendizagem.
Além disso, Moran (2018) destaca que a organização em estações possibilita maior autonomia dos estudantes e maior interação entre os participantes.
2.3. Gêneros Discursivos e Ensino de Língua Portuguesa
O trabalho com gêneros discursivos constitui uma das bases do ensino de Língua Portuguesa na perspectiva sociointeracionista. Para Bakhtin (2003), os gêneros organizam as práticas comunicativas e possibilitam a participação dos sujeitos em diferentes esferas da atividade humana. Nessa perspectiva, aprender a língua implica compreender e produzir textos que circulam socialmente.
No contexto escolar, o trabalho com gêneros discursivos favorece a aproximação entre as práticas de linguagem desenvolvidas na escola e aquelas vivenciadas pelos estudantes em seu cotidiano. Dolz, Noverraz e Schneuwly (2004) defendem que o ensino organizado a partir dos gêneros possibilita o desenvolvimento das capacidades de linguagem, uma vez que os alunos passam a compreender não apenas aspectos linguísticos, mas também finalidades comunicativas, interlocutores e contextos de circulação.
A escolha de histórias em quadrinhos, contos, fanfics e haicais para a intervenção fundamenta-se justamente na diversidade de práticas de linguagem que esses gêneros mobilizam. Enquanto as HQs articulam linguagem verbal e visual, os contos favorecem o contato com a narrativa literária, as fanfics ampliam as possibilidades de autoria e intertextualidade e os haicais estimulam a síntese e a expressividade poética. Assim, o trabalho com diferentes gêneros contribui para ampliar as experiências de leitura e escrita dos estudantes, favorecendo a construção de sentidos em múltiplos contextos.
3. METODOLOGIA
A pesquisa se caracteriza como aplicada, de abordagem qualitativa com articulação de dados quantitativos, assumindo características de pesquisa-intervenção. Conforme Gerhardt e Silveira (2009), a pesquisa qualitativa permite compreender fenômenos em seu contexto, enquanto a articulação com dados quantitativos contribui para ampliar a interpretação dos resultados. A pesquisa também se fundamenta nos pressupostos apresentados por Gil (2008), que compreende a pesquisa como um procedimento sistemático e racional voltado à produção de conhecimentos capazes de responder a problemas previamente formulados. Segundo o autor, a definição clara dos objetivos, dos instrumentos de coleta e dos procedimentos de análise constitui etapa indispensável para a consistência metodológica da investigação. Nesse sentido, o estudo foi planejado de modo a articular diferentes instrumentos de coleta de dados, possibilitando uma compreensão mais abrangente dos efeitos da intervenção pedagógica realizada.
Além disso, a proposta aproxima-se da pesquisa-ação, na medida em que envolve a intervenção direta no contexto escolar, conforme discute Thiollent (2011).
A intervenção pedagógica ocorreu ao longo de 20 aulas, organizadas por meio da metodologia ativa Rotação por Estações. Foram estruturadas quatro estações de aprendizagem, cada uma centrada em um gênero discursivo específico:
Estação 1 – Histórias em Quadrinhos (HQs): voltada à leitura e produção de narrativas multissemióticas, explorando a relação entre linguagem verbal e não verbal;
Estação 2 – Contos: dedicada à leitura literária e à análise de elementos narrativos, seguida de atividades de produção textual;
Estação 3 – Fanfic: destinada à produção de textos autorais a partir de narrativas conhecidas, favorecendo a intertextualidade e a criatividade;
Estação 4 – Haicais: centrada na produção poética breve, com ênfase na síntese, na escolha lexical e na observação do cotidiano.
Os estudantes foram organizados em grupos e circularam pelas estações, permanecendo um tempo determinado em cada atividade. Essa dinâmica possibilitou o contato com diferentes práticas de leitura e escrita, além de favorecer o trabalho colaborativo. O papel da professora consistiu na mediação das atividades, orientação dos grupos e acompanhamento das produções.
A coleta de dados ocorreu por meio de diferentes instrumentos: questionário diagnóstico inicial, registros das produções realizadas nas estações, diário de campo e questionário autoavaliativo aplicado ao final da intervenção.
Para a análise dos dados, adotou-se a técnica de análise de conteúdo proposta por Bardin (2011), a partir da categorização das respostas e identificação de recorrências temáticas. Os dados quantitativos provenientes das questões fechadas foram utilizados de forma complementar, permitindo uma leitura mais abrangente dos resultados.
3.1. Contexto da Pesquisa e Caracterização da Turma
A intervenção foi desenvolvida em uma turma de 7º ano do Ensino Fundamental composta por 29 estudantes, com idades entre 12 e 15 anos, em uma escola pública municipal localizada no município de Bagé, Rio Grande do Sul. A escolha da turma ocorreu a partir das dificuldades observadas nas práticas de leitura e escrita durante o desenvolvimento das aulas de Língua Portuguesa.
Os dados obtidos por meio do questionário diagnóstico inicial evidenciaram fragilidades relacionadas à fluência leitora, à realização de inferências e à produção textual. Além disso, parte dos estudantes demonstrava resistência à participação em atividades de leitura em voz alta, aspecto que reforçou a necessidade de elaboração de uma proposta pedagógica voltada à ampliação do engajamento e ao fortalecimento das competências de linguagem.
A partir desse diagnóstico, foi planejada uma intervenção fundamentada na metodologia Rotação por Estações, buscando diversificar as práticas pedagógicas e ampliar as oportunidades de interação dos estudantes com diferentes gêneros discursivos.
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS
Durante a implementação da Rotação por Estações, observou-se aumento no engajamento dos estudantes nas atividades propostas. Os alunos demonstraram maior interesse pelas atividades, especialmente aquelas que envolviam produção criativa.
Na estação de histórias em quadrinhos, os estudantes demonstraram entusiasmo na criação de narrativas visuais. Já na estação de contos, observou-se maior envolvimento com a leitura e interpretação dos textos.
Na estação de fanfic, os estudantes demonstraram interesse em criar narrativas baseadas em personagens conhecidos, favorecendo a produção textual. Na estação de haicais, observou-se o desenvolvimento da síntese e da sensibilidade linguística.
Além disso, a organização em grupos favoreceu a colaboração entre os estudantes e o desenvolvimento da autonomia.
Esses resultados dialogam com Bacich e Moran (2015), ao destacarem que metodologias ativas favorecem maior participação dos estudantes.
4.1. Desenvolvimento da Leitura
Os dados coletados evidenciam avanços nas práticas de leitura dos estudantes ao longo da intervenção. No diagnóstico inicial, 18 estudantes apresentavam leitura considerada fluente, enquanto 11 demonstravam leitura hesitante. Ao final da proposta, o número de leitores fluentes passou para 26 estudantes, enquanto apenas dois ainda apresentavam hesitações durante a leitura em voz alta. Em relação à compreensão textual, observou-se aumento da capacidade de realizar inferências. No diagnóstico inicial, 14 estudantes demonstravam essa habilidade de forma satisfatória; ao final da intervenção, esse número alcançou a totalidade da turma. Movimento semelhante foi observado na localização de informações explícitas, que passou de 18 para 28 estudantes. Tais resultados sugerem que as atividades desenvolvidas nas estações contribuíram para ampliar a participação dos estudantes em práticas de leitura mais complexas.
Também se observou redução significativa das recusas à leitura. No início da pesquisa, nove estudantes evitavam participar de atividades de leitura oral. Após a intervenção, não foram registrados casos de recusa. Esse resultado sugere que a organização das atividades em estações, associada ao trabalho colaborativo e à diversificação dos gêneros discursivos, contribuiu para a construção de um ambiente mais favorável à participação dos estudantes.
Os avanços observados dialogam com Solé (1998), para quem a leitura se desenvolve quando os estudantes participam ativamente de situações significativas de interação com os textos. Da mesma forma, corroboram a compreensão de Koch e Elias (2006) de que a leitura envolve a construção de sentidos a partir da interação entre leitor, texto e contexto.
4.2. Produção Textual e Autoria
Além dos avanços observados nas práticas de leitura, a intervenção também produziu efeitos significativos no desenvolvimento da escrita. As atividades propostas nas diferentes estações permitiram que os estudantes produzissem textos em gêneros distintos, exigindo adaptações em relação à linguagem, à estrutura e aos objetivos comunicativos.
4.2.1. A Experiência com Hqs
A estação dedicada às histórias em quadrinhos constituiu uma das atividades de maior interesse entre os estudantes. A combinação entre linguagem verbal e visual favoreceu a participação da turma e possibilitou o desenvolvimento de estratégias de leitura relacionadas à interpretação de imagens, balões, expressões faciais e sequências narrativas.
Durante as atividades, observou-se que estudantes que apresentavam dificuldades em textos predominantemente verbais demonstravam maior envolvimento com as HQs. Esse resultado reforça a importância dos textos multissemióticos no desenvolvimento das práticas de leitura contemporâneas, conforme discutem Rojo (2012) e a Base Nacional Comum Curricular (Brasil, 2018).
As produções realizadas pelos estudantes evidenciaram compreensão da estrutura do gênero e capacidade de articulação entre elementos visuais e verbais. Além disso, a atividade favoreceu momentos de interação e colaboração entre os grupos, contribuindo para o desenvolvimento das competências de leitura e escrita.
4.2.2. A Experiência com Contos
A estação dedicada aos contos teve como objetivo ampliar as habilidades de leitura e interpretação textual dos estudantes por meio do contato com narrativas curtas e significativas. As atividades propostas possibilitaram a identificação de elementos constitutivos do gênero, como personagens, enredo, tempo, espaço e conflito, favorecendo uma leitura mais atenta e reflexiva.
Durante o desenvolvimento das tarefas, observou-se que os estudantes demonstraram interesse em discutir os acontecimentos das histórias e em compartilhar diferentes interpretações sobre os textos lidos. Esse movimento contribuiu para o desenvolvimento da compreensão leitora e da capacidade argumentativa, uma vez que os alunos precisavam justificar suas opiniões com base nas informações presentes no texto.
As atividades também favoreceram a realização de inferências e a construção de sentidos, aspectos fundamentais para a formação de leitores críticos. Os resultados evidenciaram avanços na participação dos estudantes e na compreensão dos elementos narrativos, demonstrando a relevância do trabalho com contos no contexto escolar.
4.2.3. A Experiência com Fanfics
A estação voltada às fanfics despertou grande interesse entre os estudantes por possibilitar a criação de novas histórias a partir de personagens e universos já conhecidos por eles. Essa aproximação entre as práticas escolares e as experiências culturais juvenis favoreceu o engajamento dos participantes e ampliou as oportunidades de produção escrita.
Ao elaborar suas narrativas, os estudantes mobilizaram conhecimentos relacionados à estrutura textual, à construção de personagens, à organização dos acontecimentos e à coerência narrativa. Além disso, a atividade estimulou a criatividade e a autoria, permitindo que os alunos assumissem um papel mais ativo no processo de produção textual.
Observou-se que muitos estudantes demonstraram entusiasmo ao compartilhar suas produções com os colegas, promovendo momentos de interação e troca de ideias. Esse resultado evidencia o potencial das fanfics como ferramenta pedagógica para o desenvolvimento da escrita e para a valorização das práticas de letramento presentes no cotidiano dos jovens.
4.2.4. A Experiência com Haicais
A estação dedicada aos haicais proporcionou aos estudantes o contato com um gênero poético caracterizado pela brevidade e pela expressividade. As atividades propostas incentivaram a observação do cotidiano, a sensibilidade estética e a escolha cuidadosa das palavras, aspectos fundamentais para a construção desse tipo de texto.
Durante a produção dos haicais, os estudantes foram desafiados a sintetizar ideias e emoções em poucos versos, exercitando a criatividade e a capacidade de expressão. Embora alguns alunos tenham demonstrado dificuldades iniciais em compreender as características do gênero, observou-se progressiva apropriação de sua estrutura e de seus recursos expressivos.
As produções revelaram diferentes formas de percepção da realidade e evidenciaram o potencial do gênero para estimular a reflexão e a expressão de sentimentos. Além disso, a atividade contribuiu para ampliar o repertório textual dos estudantes e para fortalecer sua relação com a leitura e a escrita literária.
4.2.5. Síntese dos Avanços Observados nas Produções dos Estudantes
A análise das produções realizadas nas diferentes estações permite observar que o desenvolvimento da escrita ocorreu de modo gradual e relacionado às especificidades de cada gênero discursivo trabalhado. Nas atividades iniciais, parte dos estudantes demonstrava dificuldade para organizar ideias, desenvolver sequências narrativas e concluir os textos propostos. Ao longo da intervenção, entretanto, verificou-se maior segurança na elaboração das produções, especialmente quando os alunos puderam discutir suas ideias com os colegas e revisar seus textos a partir das orientações recebidas.
No caso das histórias em quadrinhos, os avanços estiveram relacionados à articulação entre linguagem verbal e visual. Os estudantes passaram a compreender que a construção de sentido nesse gênero não depende apenas das palavras, mas também da organização dos quadros, das expressões das personagens, dos balões e da sequência narrativa. Esse aspecto contribuiu para ampliar a compreensão sobre os textos multissemióticos, bastante presentes nas práticas de linguagem contemporâneas.
Nos contos, observou-se avanço na organização dos elementos narrativos. As produções passaram a apresentar maior atenção à construção do enredo, à definição do conflito e à elaboração de desfechos mais coerentes. Embora algumas dificuldades relacionadas à coesão e à progressão temática tenham permanecido em parte dos textos, houve melhoria na capacidade de estruturar narrativas completas.
Nas fanfics, destacou-se a ampliação da autoria. Ao partir de personagens ou universos já conhecidos, os estudantes puderam mobilizar repertórios prévios e ressignificá-los em novas produções. Esse movimento favoreceu a intertextualidade e permitiu que os alunos assumissem uma posição mais ativa diante da escrita, aproximando a produção textual escolar de práticas culturais com as quais muitos já tinham familiaridade.
Nos haicais, o principal avanço observado esteve relacionado à síntese e à seleção lexical. A brevidade do gênero exigiu que os estudantes escolhessem palavras com maior cuidado e buscassem expressar percepções de modo mais condensado. Essa experiência contribuiu para ampliar o repertório poético da turma e para demonstrar que a escrita também pode se constituir como exercício de observação, sensibilidade e experimentação com a linguagem.
Dessa forma, os resultados indicam que o trabalho com diferentes gêneros discursivos favoreceu o desenvolvimento da escrita não de maneira homogênea, mas por meio de distintas capacidades de linguagem. Cada gênero mobilizou habilidades específicas, permitindo que os estudantes ampliassem suas formas de ler, interpretar, produzir e revisar textos. Esse percurso reforça a pertinência de propostas pedagógicas que articulem diversidade textual, mediação docente e participação ativa dos estudantes.
4.2.6. Engajamento e Percepção dos Estudantes Sobre a Proposta
Os dados obtidos por meio do questionário autoavaliativo permitem compreender como os estudantes perceberam a proposta desenvolvida. De modo geral, as respostas evidenciaram avaliação positiva das atividades realizadas durante a intervenção, especialmente em relação à dinâmica das aulas, ao trabalho colaborativo e à diversidade de gêneros discursivos trabalhados.
Entre os aspectos mais frequentemente mencionados pelos participantes destacaram-se expressões como “aulas diferentes”, “trabalho em grupo”, “gostar de criar histórias” e “atividades mais interessantes”. Tais manifestações sugerem que a metodologia adotada contribuiu para modificar a forma como os estudantes se relacionavam com as práticas de leitura e escrita. Essa percepção dialoga com Moran (2018), ao afirmar que estratégias centradas na participação ativa tendem a produzir maior envolvimento dos estudantes com os processos de aprendizagem.
Outro aspecto observado refere-se ao aumento da participação dos estudantes durante as aulas. Enquanto no início da intervenção parte da turma demonstrava resistência às atividades de leitura e escrita, ao longo do processo verificou-se maior envolvimento nas discussões, nas produções coletivas e nos momentos de socialização dos textos produzidos. Os registros realizados durante a intervenção indicam que os estudantes passaram a participar com maior frequência das atividades propostas, sugerindo uma mudança na forma como se relacionavam com as práticas escolares de linguagem.
Os dados comparativos indicam que os estudantes passaram a participar com maior frequência das discussões, dos momentos de socialização e das atividades de produção textual, sugerindo uma mudança na forma como se relacionavam com as práticas escolares de linguagem.
Enquanto no início da intervenção alguns alunos demonstravam resistência às atividades de leitura e escrita, ao longo do processo verificou-se maior envolvimento nas discussões, nas produções coletivas e nos momentos de socialização dos textos produzidos.
Os avanços observados podem ser relacionados à criação de situações de leitura mais significativas para os estudantes. Solé (1998) destaca que a aprendizagem da leitura ocorre de maneira mais consistente quando os alunos compreendem os objetivos da atividade e conseguem atribuir sentido ao que leem. Nesse contexto, o trabalho com diferentes gêneros discursivos e a organização das tarefas em estações contribuíram para tornar as práticas de leitura mais próximas dos interesses e das experiências dos estudantes, favorecendo seu envolvimento nas atividades propostas.
Esses resultados aproximam-se das discussões propostas por Bacich e Moran (2015), que defendem que metodologias ativas tendem a ampliar o engajamento dos estudantes ao promover situações de aprendizagem mais participativas e contextualizadas. No caso da presente pesquisa, a circulação entre estações e a diversidade de tarefas parecem ter contribuído para reduzir a passividade frequentemente associada às práticas escolares tradicionais.
Além disso, a percepção positiva manifestada pelos estudantes sugere que a aprendizagem foi associada a experiências significativas. Essa percepção também dialoga com a compreensão de Koch e Elias (2006) de que os processos de leitura e produção textual ganham maior significado quando os sujeitos reconhecem sua função comunicativa e participam ativamente da construção dos sentidos. Ao interagir com diferentes textos e compartilhar suas produções com os colegas, os estudantes passaram a ocupar uma posição mais participativa nas práticas de linguagem desenvolvidas em sala de aula.
Para Bacich e Moran (2015), propostas que favorecem a participação, a colaboração e a resolução de tarefas contextualizadas tendem a ampliar o engajamento e a atribuição de sentido às atividades escolares. Tal aspecto é particularmente relevante em um contexto marcado por dificuldades relacionadas à leitura e à escrita, pois evidencia que mudanças na organização didática podem influenciar não apenas o desempenho, mas também a disposição dos estudantes para participar das atividades propostas.
4.2.7. Contribuições da Rotação por Estações para o Ensino de Língua Portuguesa
Os resultados obtidos permitem refletir sobre as contribuições da Rotação por Estações para o ensino de Língua Portuguesa. A metodologia possibilitou a articulação entre leitura, escrita e interação, favorecendo experiências diversificadas de aprendizagem. Diferentemente de propostas centradas em uma única atividade para toda a turma, a organização em estações permitiu que os estudantes participassem de diferentes práticas de linguagem em um mesmo percurso formativo.
Outro aspecto que merece destaque refere-se à articulação entre metodologias ativas e trabalho com gêneros discursivos. Os resultados sugerem que essa combinação favoreceu a aproximação dos estudantes com práticas de leitura e escrita mais diversificadas, ampliando suas possibilidades de participação nas atividades escolares. A organização em grupos, a circulação pelas estações e a realização de tarefas variadas favoreceram a tomada de decisões, a cooperação e a construção coletiva do conhecimento.
A proposta também contribuiu para a construção de um ambiente de aprendizagem mais colaborativo. A circulação entre as estações e o trabalho em grupo favoreceram a troca de experiências e a negociação de sentidos, aspectos que dialogam com a concepção sociointeracionista de linguagem adotada neste estudo. Nesse sentido, os resultados reforçam a importância de compreender o ensino de Língua Portuguesa a partir de práticas de linguagem situadas. Ao trabalhar com gêneros discursivos diversos, a proposta aproximou-se da perspectiva bakhtiniana de linguagem como interação social (Bakhtin, 2003) e da defesa de Dolz, Noverraz e Schneuwly (2004) quanto ao ensino organizado em torno dos gêneros. Assim, a Rotação por Estações não funcionou apenas como uma estratégia de organização da aula, mas como um modo de articular diferentes práticas de leitura e escrita em um percurso didático mais participativo.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este estudo teve como objetivo analisar as contribuições da metodologia ativa Rotação por Estações para o desenvolvimento das práticas de leitura e escrita em uma turma de 7º ano do Ensino Fundamental. A partir da implementação de uma proposta organizada em estações de aprendizagem e estruturada em torno de diferentes gêneros discursivos, buscou-se compreender de que maneira a diversificação das práticas pedagógicas poderia favorecer o engajamento dos estudantes e ampliar suas competências de linguagem.
Os resultados obtidos ao longo da intervenção evidenciaram avanços tanto nos indicadores relacionados à leitura quanto na produção textual dos estudantes. Observou-se ampliação da participação nas atividades de leitura, redução das recusas à leitura em voz alta, melhora na realização de inferências e progressos na localização de informações explícitas nos textos. De forma semelhante, as produções escritas demonstraram maior organização, ampliação da autoria e adequação às características dos gêneros trabalhados.
A análise dos dados também revelou que a utilização de diferentes gêneros discursivos contribuiu para diversificar as experiências de leitura e escrita vivenciadas pelos estudantes. As histórias em quadrinhos favoreceram a interpretação de textos multissemióticos; os contos possibilitaram o contato com a narrativa literária; as fanfics ampliaram as oportunidades de autoria e intertextualidade; e os haicais estimularam a síntese, a observação e a experimentação estética da linguagem. Dessa forma, a proposta permitiu que os estudantes interagissem com práticas de linguagem distintas, ampliando suas possibilidades de participação em diferentes situações comunicativas.
Outro aspecto que merece destaque refere-se ao engajamento dos estudantes durante o desenvolvimento da intervenção. As percepções registradas nos questionários autoavaliativos indicam que a organização das atividades em estações favoreceu uma relação mais participativa com as práticas de leitura e escrita. As referências recorrentes às aulas como experiências “diferentes”, “interessantes” e “mais dinâmicas” sugerem que mudanças na organização didática podem influenciar não apenas o desempenho dos estudantes, mas também sua disposição para participar das atividades escolares.
Os resultados obtidos também reforçam a importância da articulação entre metodologias ativas e trabalho com gêneros discursivos. Ao promover situações de aprendizagem que valorizam a participação dos estudantes, a colaboração entre pares e a circulação por diferentes propostas de trabalho, a Rotação por Estações contribuiu para a construção de um ambiente mais interativo e alinhado à perspectiva sociointeracionista de linguagem adotada neste estudo. Nesse sentido, a metodologia não se limitou a uma estratégia de organização da aula, mas constituiu uma possibilidade de reorganização das práticas pedagógicas voltadas ao ensino de Língua Portuguesa.
Do ponto de vista educacional, considera-se que a proposta apresenta potencial para auxiliar professores na construção de experiências de aprendizagem mais diversificadas e significativas. A pesquisa evidencia que a ampliação das oportunidades de leitura, escrita, interação e autoria pode favorecer não apenas o desenvolvimento de habilidades linguísticas, mas também a construção de uma relação mais positiva dos estudantes com as práticas de linguagem.
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1 Mestra em Ensino pela Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA), Campus Bagé.