REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/787702268
RESUMO
Este estudo teve como objetivo analisar as evidências científicas acerca dos riscos ocupacionais e psicossociais no trabalho de enfermagem, suas repercussões na saúde dos trabalhadores e as estratégias de prevenção, proteção e promoção da saúde no contexto laboral. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, realizada na Coleção LILACS Plus da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), contemplando publicações de 2021 a 2025. A estratégia de busca identificou 32 estudos, dos quais 15 atenderam aos critérios de elegibilidade e compuseram a amostra final. Os achados foram organizados em três categorias temáticas: fatores psicossociais e riscos ocupacionais; repercussões na saúde mental e na qualidade de vida; e estratégias de prevenção, proteção e promoção da saúde do trabalhador de enfermagem. Os resultados evidenciaram sobrecarga laboral, elevadas demandas psicológicas e emocionais, jornadas prolongadas, violência ocupacional, fragilidades no apoio social e organizacional, além de riscos biológicos e ergonômicos. Entre as principais repercussões identificaram-se estresse ocupacional, burnout, transtornos mentais, sofrimento psicológico e comprometimento da qualidade de vida. Destacaram-se como estratégias de proteção o apoio social e institucional, a educação permanente, a promoção da saúde mental, a melhoria das condições e da organização do trabalho e o monitoramento dos riscos ocupacionais. Conclui-se que a prevenção dos agravos requer uma abordagem integrada dos riscos ocupacionais e psicossociais, com participação do enfermeiro do trabalho no planejamento e desenvolvimento de ações voltadas à promoção da saúde e à construção de ambientes laborais mais seguros e saudáveis.
Palavras-chave: Saúde do Trabalhador; Enfermagem do Trabalho; Riscos Ocupacionais; Riscos Psicossociais; Saúde Mental.
ABSTRACT
This study aimed to analyze scientific evidence on occupational and psychosocial risks in nursing work, their repercussions on workers’ health, and strategies for prevention, protection, and health promotion in the workplace. This is an integrative literature review conducted using the LILACS Plus Collection of the Virtual Health Library (VHL), including publications from 2021 to 2025. The search strategy identified 32 studies, of which 15 met the eligibility criteria and comprised the final sample. The findings were organized into three thematic categories: psychosocial factors and occupational risks; repercussions on mental health and quality of life; and strategies for prevention, protection, and health promotion among nursing workers. The results revealed work overload, high psychological and emotional demands, prolonged working hours, occupational violence, weaknesses in social and organizational support, as well as biological and ergonomic risks. The main repercussions identified included occupational stress, burnout, mental disorders, psychological distress, and impairment of physical, social, and quality-of-life dimensions. The findings highlight the importance of integrated actions involving risk monitoring, organizational support, continuing education, improvement of working conditions, and mental health promotion.
Keywords: Occupational Health; Nursing; Occupational Risks; Psychosocial Factors; Mental Health.
1. INTRODUÇÃO
A saúde do trabalhador constitui um campo de atenção voltado à promoção e à proteção da saúde nos diferentes contextos laborais, considerando as relações estabelecidas entre trabalho e processo saúde-doença. No âmbito da enfermagem, essa discussão assume especial relevância diante das características do processo de trabalho e da exposição dos profissionais a diferentes fatores psicossociais e riscos ocupacionais, envolvendo exigências laborais, organização do trabalho, relações sociais, liderança, saúde e bem-estar no ambiente laboral (Pousa; Lucca, 2021). Nesse cenário, reconhecer os fatores presentes no ambiente de trabalho constitui elemento importante para o desenvolvimento de ações direcionadas à prevenção de agravos e à promoção de condições laborais mais seguras e saudáveis.
Entre os riscos presentes no trabalho da enfermagem, os fatores psicossociais assumem relevância por envolverem aspectos relacionados às demandas psicológicas e emocionais, à organização e ao ritmo de trabalho, às relações interpessoais, ao apoio social e às situações de violência no ambiente laboral. A exposição a essas condições pode estar associada ao estresse ocupacional e a repercussões sobre a saúde mental dos trabalhadores, especialmente quando coexistem elevada demanda, sobrecarga e fragilidades no suporte organizacional (Pousa; Lucca, 2021; Schultz et al., 2022; Tamborini et al., 2023).
A exposição aos riscos ocupacionais e psicossociais pode estar associada a diferentes repercussões na saúde dos profissionais de enfermagem. Entre os agravos identificados na literatura destacam-se o estresse ocupacional, o burnout, os transtornos mentais, o sofrimento psicológico e o comprometimento da qualidade de vida no trabalho. Tais manifestações podem estar relacionadas a fatores como sobrecarga laboral, jornadas extensas, demandas emocionais e condições inadequadas de trabalho, evidenciando a importância de compreender a saúde do trabalhador de forma articulada às características do ambiente e do processo laboral (Santos et al., 2022; Rohwedder et al., 2023; Centenaro et al., 2024; Leite et al., 2025).
No contexto brasileiro, a abordagem dos fatores psicossociais relacionados ao trabalho adquiriu maior relevância normativa com a atualização do capítulo 1.5 da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passou a incluí-los expressamente no escopo do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO). Essa perspectiva amplia a abordagem preventiva ao reconhecer que o gerenciamento dos riscos ocupacionais deve contemplar, além dos agentes físicos, químicos e biológicos e dos riscos de acidentes, os fatores ergonômicos, incluindo os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho. Nesse sentido, aspectos como sobrecarga, assédio e falta de suporte no trabalho são expressamente considerados no gerenciamento dos fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho, reforçando a necessidade de identificação, avaliação e implementação de medidas preventivas nos ambientes laborais (Brasil, 2026).
Diante desse cenário, a prevenção dos agravos relacionados ao trabalho requer estratégias que considerem não apenas os riscos físicos e biológicos, mas também os aspectos psicossociais e organizacionais presentes nos ambientes laborais. A identificação das necessidades dos trabalhadores, o acolhimento, a promoção da saúde mental e a articulação de ações multiprofissionais constituem possibilidades de intervenção no âmbito da saúde ocupacional. Nesse contexto, o enfermeiro do trabalho pode contribuir para o planejamento e o desenvolvimento de ações de promoção da saúde, acompanhamento dos trabalhadores e integração com os demais profissionais envolvidos no cuidado à saúde ocupacional (Queiroz et al., 2024).
Considerando a relevância dos riscos ocupacionais e psicossociais para a saúde dos trabalhadores de enfermagem e a necessidade de estratégias direcionadas à prevenção de agravos e à promoção da saúde nos ambientes laborais, torna-se importante reunir e analisar as evidências disponíveis sobre essa temática. A sistematização desse conhecimento pode contribuir para a compreensão dos principais fatores relacionados ao trabalho, de suas repercussões sobre a saúde dos profissionais e das possibilidades de intervenção no âmbito da saúde ocupacional.
Diante disso, este estudo teve como objetivo analisar as evidências científicas acerca dos riscos ocupacionais e psicossociais no trabalho de enfermagem, suas repercussões na saúde dos trabalhadores e as estratégias de prevenção, proteção e promoção da saúde no contexto laboral.
2. METODOLOGIA
Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, de abordagem qualitativa, desenvolvida com a finalidade de reunir e sintetizar evidências científicas acerca dos riscos ocupacionais e psicossociais no trabalho de enfermagem, suas repercussões na saúde dos trabalhadores e as estratégias de prevenção, proteção e promoção da saúde no contexto laboral. A revisão foi conduzida de forma sistematizada, contemplando a definição da questão de pesquisa, a busca e seleção dos estudos, a extração e organização dos dados, a análise dos achados e a síntese das evidências.
A busca dos estudos foi realizada no portal da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), na Coleção LILACS Plus, que reúne registros de diferentes bases de dados da área da saúde. Para a recuperação das publicações, utilizou-se a estratégia de busca “riscos psicossociais OR riscos ocupacionais AND saúde do trabalhador OR saúde mental AND enfermagem do trabalho”, com aplicação do recorte temporal de 2021 a 2025.
A estratégia de busca resultou na identificação de 32 estudos na Coleção LILACS Plus da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS). Após a análise dos títulos, resumos e, quando pertinente, dos textos completos, foram excluídos os estudos que não apresentaram relação com o objetivo desta revisão e aqueles que não estavam disponíveis na íntegra. Ao final do processo de seleção, 15 estudos atenderam aos critérios de elegibilidade e compuseram a amostra final.
Para a extração dos dados, foram consideradas as seguintes informações: autor e ano de publicação, título, objetivo, delineamento metodológico, amostra ou cenário do estudo, principais resultados e contribuição para a temática investigada, conforme apresentado no Quadro 1. Essa organização possibilitou a comparação e a síntese dos achados dos estudos incluídos na revisão.
Quadro 1. Caracterização dos 15 estudos
Nº | Autor/Ano | Título | Objetivo | Método | Amostra/Cenário | Principais resultados | Contribuição para o tema |
1 | Santana et al., 2025 | Riscos psicossociais e saúde mental de profissionais de enfermagem no contexto da pandemia da COVID-19 | Analisar o impacto dos riscos psicossociais relacionados ao trabalho na saúde mental de profissionais de enfermagem no contexto da COVID-19 | Estudo epidemiológico transversal com 1.237 profissionais de enfermagem brasileiros | 1.237 profissionais de enfermagem, de todas as categorias profissionais, atuantes em estabelecimentos de atenção à saúde públicos ou privados em todo o território brasileiro. | Demandas cognitivas e emocionais, insegurança no trabalho, níveis de informação e conflitos de papéis foram fatores de risco; sentido e desenvolvimento no trabalho, senso de comunidade, relações sociais e clareza de papéis foram fatores protetores | Evidencia a influência dos fatores psicossociais na saúde mental dos profissionais de enfermagem e subsidia o planejamento de intervenções voltadas à prevenção de riscos e à promoção da saúde no trabalho. |
2 | Leite et al., 2025 | Burnout na Enfermagem: Fatores de Risco, Impactos e Estratégias de Enfrentamento | Analisar as evidências científicas sobre fatores de risco, consequências e estratégias de enfrentamento do Burnout na enfermagem. | Revisão integrativa da literatura, seguindo as diretrizes PRISMA. | 15 estudos selecionados entre 864 registros identificados nas bases PubMed, BVS, LILACS e BDENF. | Sobrecarga de trabalho, jornadas extenuantes e apoio organizacional inadequado foram fatores de risco predominantes. Entre as consequências destacaram-se exaustão emocional, ansiedade e insônia. Apoio social e treinamento emocional apareceram como estratégias de enfrentamento. | Demonstra a influência dos fatores organizacionais e psicossociais no Burnout da enfermagem e reforça a importância de medidas preventivas, suporte institucional e promoção da saúde mental no trabalho. |
3 | Quevedo et al., 2025 | Fatores sociodemográficos e laborais associados à Síndrome de Burnout em profissionais de saúde argentinos | Analisar a relação entre fatores sociodemográficos e ocupacionais e a Síndrome de Burnout em profissionais de saúde de uma instituição privada, em 2024. | Estudo quantitativo, observacional, analítico e transversal. | 214 profissionais de saúde de uma instituição privada da província de Entre Ríos, Argentina; 38,3% eram enfermeiros e 36,4% médicos. | 12,1% apresentaram Síndrome de Burnout. Foi mais frequente entre mulheres e profissionais com maior carga horária semanal. Houve ainda níveis elevados de exaustão emocional e despersonalização. | Evidencia a relação entre condições ocupacionais, especialmente carga horária, e Burnout, subsidiando estratégias institucionais de prevenção e promoção da saúde e do bem-estar dos trabalhadores. |
4 | Costa et al., 2025 | Acidentes de trabalho e suas repercussões entre profissionais de enfermagem | Conhecer os impactos dos acidentes de trabalho entre os profissionais de enfermagem. | Estudo descritivo, exploratório e quantitativo. | 54 profissionais de enfermagem (enfermeiros e técnicos) de um hospital municipal de média complexidade de Pinheiro-MA. | Predominaram acidentes envolvendo riscos biológicos (77,2%), principalmente com materiais perfurocortantes. O transtorno psicológico foi a principal sequela relatada (9%). | Evidencia as repercussões físicas e psicológicas dos riscos ocupacionais na enfermagem e reforça a importância da educação permanente, prevenção de agravos e promoção da saúde ocupacional. |
5 | Cuadros-Carlesi et al., 2024 | Percepção de riscos laborais da equipe de enfermagem em quatro hospitais do Chile | Avaliar a percepção dos riscos laborais da equipe de enfermagem que trabalha em quatro hospitais chilenos. | Estudo quantitativo, analítico, correlacional e transversal. | 501 trabalhadores de enfermagem de quatro hospitais da região de Valparaíso, Chile. | A percepção dos riscos laborais foi moderada. Destacaram-se riscos relacionados ao estresse e desgaste emocional, carga mental e fatores associados à pessoa e ao ambiente organizacional, com diferenças segundo cargo e unidade de trabalho. | Evidencia a influência de fatores psicossociais e organizacionais sobre a saúde da equipe de enfermagem e fornece subsídios para avaliação de riscos e planejamento de intervenções de saúde ocupacional. |
6 | Centenaro et al., 2024 | Transtornos mentais comuns e percepção de risco no trabalho de enfermagem em unidades hospitalares Covid-19 | Analisar as associações entre a suspeita de Transtornos Mentais Comuns e a percepção de risco no trabalho da enfermagem em unidades hospitalares Covid-19 e conhecer os elementos envolvidos nessas relações. | Estudo multicêntrico de métodos mistos paralelo-convergente (QUAN+QUAL). | 327 trabalhadores de enfermagem de unidades Covid-19 de sete hospitais do Rio Grande do Sul. | 76,4% perceberam aumento considerável ou elevado dos riscos no trabalho. Foram identificados riscos de danos psicológicos, alterações do sono e do padrão alimentar e isolamento social, todos associados à suspeita de Transtornos Mentais Comuns; o medo foi o principal elemento na relação entre percepção de risco e adoecimento mental. | Evidencia a associação entre riscos ocupacionais e adoecimento mental dos trabalhadores de enfermagem, subsidiando ações institucionais de prevenção de doenças relacionadas ao trabalho e promoção da saúde mental. |
7 | Paredes Pila; Chipantiza Córdova, 2024 | Situações de risco enfrentadas por enfermeiros cirúrgicos: uma revisão da literatura | Analisar as situações de risco enfrentadas por enfermeiros cirúrgicos, identificando as principais ameaças à saúde e as medidas preventivas a serem adotadas. | Revisão bibliográfica descritiva, utilizando o método PRISMA. | 25 estudos, publicados entre 2021 e 2024 relacionados aos riscos ocupacionais no ambiente cirúrgico. | Evidenciou elevada exposição dos profissionais de enfermagem cirúrgica a riscos biológicos, ergonômicos e psicossociais, com destaque para estresse ocupacional, elevada carga de trabalho, pressão de tempo, exaustão física e emocional e burnout. | Demonstra a importância dos riscos psicossociais no ambiente cirúrgico e reforça a necessidade de intervenções institucionais, programas de apoio psicológico, manejo do estresse e melhoria das condições de trabalho. |
8 | Queiroz et al., 2024 | Promoção à saúde mental de trabalhadores do agronegócio: um estudo reflexivo | Refletir sobre as estratégias organizacionais do enfermeiro do trabalho para a promoção da saúde mental no ambiente laboral de trabalhadores do agronegócio. | Estudo reflexivo, descritivo, baseado nas experiências de ações desenvolvidas por equipe multidisciplinar. | Empresa do agronegócio com mais de 1.200 trabalhadores, localizada nos estados do Paraná, São Paulo e Santa Catarina, com 71 filiais; as rodas de conversa foram realizadas em 51 filiais. | Foram realizados atendimentos individuais e rodas de conversa voltados à saúde emocional. Durante um ano, 238 trabalhadores buscaram atendimento; as ações favoreceram maior procura pelo apoio psicológico e interesse pelos grupos de saúde emocional. | Evidencia a atuação do enfermeiro do trabalho na promoção da saúde mental, destacando acolhimento, identificação de necessidades, encaminhamento, educação em saúde e articulação de estratégias organizacionais de cuidado ao trabalhador. |
9 | Rohwedder et al., 2023 | Associação entre comportamentos ofensivos e risco de burnout e de depressão em trabalhadores de saúde | Avaliar a ocorrência de comportamentos ofensivos no trabalho, suas características e associação com sexo, estresse, burnout e depressão em trabalhadores de saúde. | Estudo transversal, descritivo e quantitativo. Foram utilizados questionário sociodemográfico/laboral, COPSOQ II-Br e Inventário de Depressão de Beck II (IDB-II), com análise estatística descritiva, Qui-quadrado e regressão logística. | 125 trabalhadores de serviços de saúde do SUS, sendo 45 enfermeiros (36%), 28 técnicos/auxiliares de enfermagem (22,4%) e outros profissionais. Dados coletados entre junho de 2021 e abril de 2022. | 44% dos participantes relataram comportamentos ofensivos. Entre enfermeiros, 51,1% relataram esses comportamentos e, entre técnicos/auxiliares, 53,6%. Na amostra total, 85,6% apresentaram risco de burnout e 80,8% risco de estresse. Houve associação significativa dos comportamentos ofensivos com burnout (OR=4,73; p=0,02) e sintomas depressivos (OR=1,05; p=0,02). | Evidencia a exposição dos trabalhadores de enfermagem à violência ocupacional e sua associação com burnout e sintomas depressivos, reforçando a necessidade de ações de prevenção, promoção da saúde mental, acolhimento e apoio psicológico e organizacional. |
10 | Santos et al., 2023 | Transtornos mentais em profissionais de enfermagem na pré-vacinação da pandemia COVID-19 | Identificar os fatores associados à ocorrência de transtornos mentais em profissionais de enfermagem atuantes em instituições hospitalares no período de pré-vacinação da pandemia COVID-19. | Estudo multicêntrico, quantitativo, transversal, descritivo e analítico. | 859 profissionais de enfermagem de três hospitais de ensino brasileiros, localizados em Minas Gerais, São Paulo e Pernambuco. | Entre os profissionais, 290 (33,76%) apresentaram transtornos mentais. A atuação em unidade exclusiva para COVID-19 e a categoria profissional estiveram associadas à ocorrência desses transtornos. Trabalhar menos de 40 horas semanais apresentou-se como fator protetor. | Evidencia fatores laborais associados à ocorrência de transtornos mentais em profissionais de enfermagem e reforça a importância da organização do trabalho, da carga horária e de estratégias de suporte à saúde mental para prevenção de agravos. |
11 | Tamborini et al., 2023 | Estresse ocupacional em profissionais da atenção primária durante a pandemia da COVID-19: estudo de métodos mistos | Analisar o risco de exposição ao estresse ocupacional em profissionais de saúde da Atenção Primária à Saúde durante a pandemia da COVID-19 e sua percepção sobre essa vivência. | Estudo de métodos mistos, do tipo explanatório sequencial (QUAN → Qual). | 50 profissionais da APS de um município do Sul do Brasil, sendo 21 enfermeiros e 13 técnicos de enfermagem, além de outros profissionais; participaram quatro UBS e 18 ESF. Na etapa qualitativa, 14 profissionais foram entrevistados. | 66% apresentaram alta demanda psicológica. Enfermeiros e técnicos de enfermagem apresentaram associação com alta demanda, autocontrole e alto apoio social. Os relatos evidenciaram estresse, ansiedade, medo, insegurança e vulnerabilidade relacionados ao trabalho. | Evidencia fatores psicossociais relacionados ao trabalho na APS e sua repercussão na saúde mental, destacando demanda psicológica, controle e apoio social como elementos importantes para prevenção do estresse ocupacional. |
12 | Schultz et al., 2022 | A resiliência e a redução do estresse ocupacional na Enfermagem | Analisar a associação entre resiliência e estresse ocupacional de profissionais de Enfermagem de um hospital geral. | Estudo observacional, exploratório e transversal. | 321 profissionais de Enfermagem, sendo 83 enfermeiros e 238 técnicos, de um hospital geral filantrópico da Região Noroeste do Rio Grande do Sul. | 73,5% apresentaram algum grau de exposição ao estresse ocupacional; 54,5% apresentaram resiliência moderada e 36,4%, alta. Os participantes apresentaram alta demanda psicológica (54,5%), alto controle sobre o trabalho (53,3%) e elevado apoio social (51,4%). O controle sobre o trabalho e o apoio social foram apontados como fatores protetores à exposição ao estresse. | Evidencia fatores psicossociais relacionados ao estresse ocupacional e destaca controle sobre o trabalho, apoio social e estratégias de gestão como elementos relevantes para prevenção do adoecimento e promoção da saúde ocupacional na Enfermagem. |
13 | Santos et al., 2022 | O adoecimento dos trabalhadores de enfermagem e os riscos psicossociais no trabalho | Analisar o adoecimento físico e psicossocial decorrente do trabalho do profissional de enfermagem que atua em ambulatório de hospital universitário e sua inter-relação com os riscos psicossociais. | Estudo epidemiológico transversal. | 388 profissionais de enfermagem de unidades ambulatoriais vinculadas a três universidades públicas do município do Rio de Janeiro-RJ. | 64,4% apresentaram risco médio/alto para danos físicos, 19,3% para danos psicológicos e 17,5% para danos sociais. A presença de doenças crônicas esteve associada aos danos físicos, enquanto o absenteísmo por doença associou-se aos danos psicológicos, sociais e físicos. | Evidencia a inter-relação entre condições de trabalho, riscos psicossociais e adoecimento dos profissionais de enfermagem, reforçando a necessidade de intervenções na organização e nas condições de trabalho para proteção da saúde do trabalhador. |
14 | Pousa; Lucca, 2021 | Fatores psicossociais no trabalho da enfermagem e riscos ocupacionais: revisão sistemática | Identificar, na produção científica internacional, os principais fatores psicossociais no trabalho de enfermagem, encontrados por meio da aplicação do Copenhagen Psychosocial Questionnaire (COPSOQ). | Revisão sistemática da literatura, seguindo as recomendações PRISMA. | 15 estudos, totalizando 8.171 participantes, dos quais 5.669 eram profissionais de enfermagem e 2.502 outros trabalhadores da saúde, provenientes de 11 países da Europa e Ásia. | Destacaram-se exigências laborais, organização e conteúdo do trabalho, relações sociais e liderança, interface trabalho-casa, saúde e bem-estar, valores no local de trabalho e comportamentos ofensivos. Elevadas demandas cognitivas e emocionais, ritmo intenso de trabalho, violência e trabalho em turnos constituíram fatores de risco, enquanto suporte das chefias, justiça, respeito e inclusão social atuaram como fatores protetores. | Evidencia os principais fatores psicossociais presentes no trabalho da enfermagem e sua relação com estresse e saúde mental, reforçando a necessidade de identificação, monitoramento e intervenção sobre os riscos psicossociais nos ambientes de trabalho. |
15 | Fonsêca et al., 2021 | Qualidade de vida no trabalho dos profissionais de enfermagem: reflexão sobre os impactos da COVID-19 | Refletir sobre os principais impactos causados na qualidade de vida no trabalho dos profissionais de enfermagem durante a pandemia do novo coronavírus. | Reflexão teórica, baseada na teoria da qualidade de vida no trabalho, fundamentada em artigos nacionais e internacionais e dados oficiais relacionados à temática. | Não se aplica, por se tratar de reflexão teórica. Aborda profissionais de enfermagem no contexto da pandemia da COVID-19. | Foram identificados aspectos positivos e negativos da qualidade de vida no trabalho. Como positivos, destacaram-se oportunidades de crescimento e segurança, constitucionalismo e cidadania, relevância social do trabalho e desenvolvimento das capacidades humanas. Entre os negativos, destacaram-se longas jornadas, afastamentos, sobrecarga de trabalho, sofrimento físico e mental, baixa remuneração e problemas relacionados à disponibilidade e reutilização de EPIs. | Evidencia como condições e organização do trabalho, sobrecarga, jornadas extensas, segurança ocupacional e disponibilidade de recursos repercutem na saúde e na qualidade de vida dos profissionais de enfermagem, reforçando a importância de medidas de gestão e proteção à saúde do trabalhador. |
Fonte: Elaborado pelo autor (2026).
A partir da análise e da comparação dos achados dos estudos apresentados no Quadro 1, foram identificadas similaridades temáticas que possibilitaram o agrupamento das evidências em três categorias de análise. A distribuição dos estudos em cada categoria temática está apresentada no Quadro 2.
Quadro 2. Distribuição dos estudos segundo as categorias temáticas
Categoria temática | Artigos | Nº de estudo |
1. Fatores psicossociais e riscos ocupacionais no trabalho de enfermagem | 1, 4, 5, 6, 7, 9, 11, 13, 14 e 15 | 10 |
2. Repercussões dos riscos ocupacionais na saúde mental e na qualidade de vida dos trabalhadores de enfermagem | 1, 2, 3, 5, 6, 7, 9, 10, 11, 12, 13, 14 e 15 | 13 |
3. Estratégias de prevenção, proteção e promoção da saúde do trabalhador de enfermagem | 1, 2, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 11, 12, 13, 14 e 15 | 13 |
Fonte: Elaborado pelo autor (2026).
Os dados extraídos foram analisados de forma descritiva e interpretativa, buscando identificar semelhanças, recorrências e particularidades entre os achados dos estudos selecionados. Posteriormente, os resultados foram agrupados por similaridade temática, originando três categorias de análise: fatores psicossociais e riscos ocupacionais no trabalho de enfermagem; repercussões dos riscos ocupacionais na saúde mental e na qualidade de vida dos trabalhadores de enfermagem; e estratégias de prevenção, proteção e promoção da saúde do trabalhador de enfermagem.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
3.1. Fatores Psicossociais e Riscos Ocupacionais no Trabalho de Enfermagem
A análise dos estudos evidenciou que os profissionais de enfermagem estão expostos a diferentes fatores psicossociais e riscos ocupacionais relacionados às características e à organização do processo de trabalho. Entre os aspectos identificados destacaram-se as elevadas demandas psicológicas e emocionais, a sobrecarga e o ritmo intenso de trabalho, as jornadas prolongadas, as relações interpessoais, a violência ocupacional, as condições inadequadas de trabalho e as fragilidades no apoio social e organizacional (Pousa; Lucca, 2021; Tamborini et al., 2023; Cuadros-Carlesi et al., 2024). Esses fatores demonstram que os riscos presentes no cotidiano laboral da enfermagem ultrapassam a dimensão física e envolvem aspectos organizacionais, relacionais e psicossociais capazes de interferir na saúde e no bem-estar dos trabalhadores (Santos et al., 2022; Paredes Pila; Chipantiza Córdova, 2024).
Entre os fatores psicossociais identificados, as demandas psicológicas e a organização do trabalho assumiram papel relevante. Tamborini et al. (2023) verificaram que 66% dos profissionais da Atenção Primária à Saúde apresentaram alta demanda psicológica, enquanto Pousa e Lucca (2021), ao analisarem estudos internacionais, identificaram como fatores de risco as elevadas demandas cognitivas e emocionais, o ritmo intenso de trabalho, a violência e o trabalho em turnos. De modo semelhante, Cuadros-Carlesi et al. (2024) evidenciaram percepção de risco relacionada ao estresse e ao desgaste emocional, além de aspectos associados à carga mental e ao ambiente organizacional. Em conjunto, esses achados indicam que a exposição aos riscos psicossociais não decorre de um único elemento, mas da interação entre exigências do trabalho, organização das atividades e condições nas quais o cuidado é realizado.
As relações interpessoais e a ocorrência de comportamentos ofensivos também se destacaram entre os riscos psicossociais presentes nos ambientes de trabalho. Rohwedder et al. (2023) identificaram que 44% dos trabalhadores investigados relataram pelo menos um comportamento ofensivo, sendo essa exposição observada em 51,1% dos enfermeiros e 53,6% dos técnicos e auxiliares de enfermagem. Os autores verificaram ainda associação significativa entre comportamentos ofensivos e burnout, evidenciando que situações de violência no ambiente laboral podem ampliar a vulnerabilidade dos trabalhadores. Esses resultados convergem com Pousa e Lucca (2021), que identificaram os comportamentos ofensivos entre as dimensões psicossociais presentes no trabalho da enfermagem e apontaram a violência ocupacional como importante fator de risco.
Além dos fatores psicossociais, as condições em que o trabalho é desenvolvido expõem os profissionais de enfermagem a diferentes riscos ocupacionais. Costa et al. (2025) identificaram predominância dos riscos biológicos (77,27%), com destaque para os acidentes relacionados a materiais perfurocortantes (36,36%), demonstrando que a exposição ocupacional envolve também ameaças concretas à integridade física dos trabalhadores. No ambiente cirúrgico, Paredes Pila e Chipantiza Córdova (2024) identificaram exposição a riscos biológicos, ergonômicos e psicossociais, associados ainda à elevada carga de trabalho, pressão de tempo e exaustão. Em contexto distinto, Fonsêca et al. (2021) destacaram jornadas prolongadas, sobrecarga laboral, baixa remuneração e problemas relacionados à disponibilidade e reutilização de equipamentos de proteção individual como elementos capazes de comprometer as condições de trabalho dos profissionais de enfermagem.
Diante desse conjunto de evidências, observa-se que os riscos ocupacionais no trabalho de enfermagem apresentam caráter multidimensional, envolvendo fatores físicos, biológicos, ergonômicos, organizacionais e psicossociais. A sobrecarga de trabalho, as elevadas exigências emocionais e cognitivas, a pressão de tempo, a violência ocupacional e as fragilidades nas condições e relações de trabalho podem coexistir no cotidiano profissional, ampliando a exposição dos trabalhadores a situações potencialmente prejudiciais à saúde (Pousa; Lucca, 2021; Santos et al., 2022; Paredes Pila; Chipantiza Córdova, 2024). Nesse sentido, reconhecer e avaliar esses fatores constitui etapa fundamental para o planejamento de medidas de prevenção e proteção à saúde dos trabalhadores, especialmente considerando que a exposição contínua a essas condições pode estar associada a importantes repercussões sobre a saúde mental e a qualidade de vida da equipe de enfermagem.
3.2. Repercussões dos Riscos Ocupacionais na Saúde Mental e na Qualidade de Vida dos Trabalhadores de Enfermagem
A exposição aos riscos ocupacionais e psicossociais está associada a diferentes repercussões na saúde dos trabalhadores de enfermagem, especialmente nas dimensões mental e emocional. Os estudos analisados evidenciaram manifestações relacionadas ao estresse ocupacional, burnout, transtornos mentais, ansiedade, alterações do sono, exaustão emocional e sofrimento psicológico, além de impactos sobre a qualidade de vida no trabalho (Leite et al., 2025; Centenaro et al., 2024; Santos et al., 2023; Schultz et al., 2022). Esses achados demonstram que o adoecimento relacionado ao trabalho não deve ser compreendido apenas a partir de características individuais, uma vez que as condições laborais, a organização do processo de trabalho e as relações estabelecidas no ambiente profissional exercem influência nesse processo.
O burnout e o estresse ocupacional constituíram repercussões importantes entre os estudos analisados. Leite et al. (2025) identificaram a sobrecarga de trabalho, os turnos e a insuficiência de apoio organizacional entre os fatores relacionados ao burnout na enfermagem, com repercussões como exaustão emocional, ansiedade e alterações do sono. Quevedo et al. (2025), por sua vez, observaram Síndrome de Burnout em 12,1% dos profissionais investigados, com maior ocorrência entre mulheres e associação com maior carga horária semanal. Em consonância com esses achados, Schultz et al. (2022) verificaram que 73,5% dos profissionais de enfermagem apresentavam algum grau de exposição ao estresse ocupacional. Rohwedder et al. (2023) também identificaram elevada ocorrência de risco de burnout entre os trabalhadores avaliados, correspondendo a 85,6% da amostra, além de demonstrarem associação significativa entre comportamentos ofensivos e burnout.
Os transtornos mentais e outras manifestações de sofrimento psicológico também estiveram presentes de forma expressiva entre os trabalhadores investigados. Centenaro et al. (2024) verificaram que 76,4% dos profissionais de enfermagem perceberam aumento considerável ou elevado dos riscos durante a atuação em unidades hospitalares destinadas à COVID-19, sendo identificados danos psicológicos, alterações do sono e do padrão alimentar, isolamento social e medo, este último destacado como elemento importante na relação entre percepção de risco e suspeita de transtornos mentais comuns. Santos et al. (2023) identificaram ocorrência de transtornos mentais em 290 (33,76%) dos 859 profissionais de enfermagem avaliados, observando associação com a atuação em unidades exclusivas para COVID-19 e com a categoria profissional enfermeiro. De forma complementar, Tamborini et al. (2023) evidenciaram manifestações de estresse, ansiedade, medo, insegurança e vulnerabilidade entre profissionais da Atenção Primária à Saúde, demonstrando que as repercussões psicossociais do trabalho podem ocorrer em diferentes níveis e cenários de atenção à saúde.
As repercussões dos riscos ocupacionais não se limitaram à saúde mental, alcançando também as dimensões física e social e comprometendo a qualidade de vida dos trabalhadores. Santos et al. (2022) identificaram risco médio ou alto para danos físicos em 64,4% dos profissionais de enfermagem, enquanto 19,3% apresentaram risco para danos psicológicos e 17,5% para danos sociais. Os autores observaram ainda associação entre doenças crônicas e danos físicos, bem como entre o absenteísmo por doença e os danos físicos, psicológicos e sociais. Fonsêca et al. (2021), ao refletirem sobre a qualidade de vida no trabalho durante a pandemia da COVID-19, destacaram que jornadas prolongadas, sobrecarga laboral, baixa remuneração, sofrimento físico e mental e problemas relacionados à disponibilidade e reutilização de equipamentos de proteção individual repercutiram negativamente nas condições de trabalho da enfermagem. Esses resultados evidenciam que os efeitos das condições laborais podem atingir diferentes dimensões da vida do trabalhador, reforçando a necessidade de uma abordagem ampliada da saúde ocupacional.
Em conjunto, os estudos evidenciam que as repercussões associadas aos riscos ocupacionais e psicossociais entre os trabalhadores de enfermagem são complexas e multidimensionais, envolvendo estresse ocupacional, burnout, transtornos mentais, sofrimento psicológico e alterações nas dimensões física, social e na qualidade de vida. A recorrência desses achados em diferentes cenários de atuação reforça a relevância das condições e da organização do trabalho para a saúde dos profissionais de enfermagem (Santos et al., 2022; Tamborini et al., 2023; Centenaro et al., 2024; Leite et al., 2025). Nesse contexto, os resultados apontam para a importância de medidas que não se restrinjam ao trabalhador individualmente, mas que também contemplem fatores presentes no ambiente e no processo de trabalho, fortalecendo o suporte organizacional, as relações profissionais e as condições laborais.
3.3. Estratégias de Prevenção, Proteção e Promoção da Saúde do Trabalhador de Enfermagem
A prevenção dos riscos ocupacionais e psicossociais e a promoção da saúde dos trabalhadores de enfermagem requerem estratégias que articulem ações individuais, coletivas e organizacionais. Os estudos analisados apontaram medidas relacionadas ao apoio social e institucional, à melhoria das condições e da organização do trabalho, à educação permanente, à promoção da saúde mental, ao fortalecimento das relações profissionais e à identificação e ao monitoramento dos riscos presentes nos ambientes laborais (Costa et al., 2025; Queiroz et al., 2024; Schultz et al., 2022; Pousa; Lucca, 2021). Nessa perspectiva, o planejamento das ações de saúde ocupacional deve considerar não somente a prevenção de acidentes e agravos, mas também fatores psicossociais que podem repercutir no bem-estar e na qualidade de vida dos profissionais.
O apoio social e a organização do trabalho destacaram-se como elementos relevantes para a proteção da saúde dos profissionais de enfermagem. Schultz et al. (2022) apontaram o controle sobre o trabalho e o apoio social como fatores protetores diante da exposição ao estresse ocupacional, evidenciando a importância de ambientes laborais que favoreçam maior participação e suporte aos trabalhadores. De modo semelhante, Pousa e Lucca (2021) destacaram o suporte das chefias, a justiça, o respeito e a inclusão social como fatores positivos para a saúde mental, ressaltando ainda a importância da participação dos trabalhadores no planejamento das atividades e na organização das cargas de trabalho. Leite et al. (2025), por sua vez, identificaram o apoio social entre as estratégias de enfrentamento do burnout, reforçando que as relações estabelecidas no ambiente laboral e o suporte institucional constituem componentes importantes das ações de proteção à saúde dos trabalhadores.
As ações de promoção da saúde mental no ambiente laboral constituem outra estratégia relevante para a proteção dos trabalhadores. Queiroz et al. (2024) descreveram experiências desenvolvidas por uma equipe multidisciplinar em uma empresa do agronegócio, envolvendo atendimentos psicológicos individuais e rodas de conversa com os trabalhadores. A experiência destacou a importância da identificação precoce das necessidades relacionadas à saúde mental, do acolhimento e da construção de espaços de escuta no ambiente de trabalho. Nesse contexto, destaca-se a participação do enfermeiro do trabalho na articulação das ações de promoção da saúde, no acompanhamento dos trabalhadores e na integração com outros profissionais, contribuindo para o desenvolvimento de estratégias preventivas e de cuidado no âmbito da saúde ocupacional.
A prevenção dos riscos ocupacionais também depende do desenvolvimento contínuo de ações educativas e da adoção de medidas de segurança adequadas às características dos diferentes ambientes de trabalho. Costa et al. (2025), ao identificarem predominância de riscos biológicos e ocorrência de acidentes envolvendo materiais perfurocortantes entre profissionais de enfermagem, destacaram a importância da educação permanente, da prevenção de agravos e da promoção da saúde ocupacional. De forma complementar, Paredes Pila e Chipantiza Córdova (2024) apontaram a necessidade de medidas preventivas diante da exposição dos enfermeiros cirúrgicos a riscos biológicos, ergonômicos e psicossociais. Esses achados reforçam que as ações educativas devem estar articuladas à avaliação dos riscos existentes no processo de trabalho e ao planejamento de intervenções capazes de promover ambientes laborais mais seguros e saudáveis.
Os achados desta revisão também apresentam consonância com as atuais diretrizes brasileiras para o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais. A atualização do capítulo 1.5 da NR-1 incluiu expressamente os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho no escopo do GRO, estabelecendo sua consideração no processo de identificação de perigos, avaliação e controle dos riscos ocupacionais. Nessa perspectiva, medidas relacionadas ao reconhecimento das condições de trabalho, à participação dos trabalhadores, ao planejamento das ações preventivas e ao acompanhamento de sua implementação assumem relevância para o gerenciamento desses fatores. A aproximação entre as evidências identificadas nesta revisão e as atuais diretrizes normativas reforça a necessidade de estratégias organizacionais contínuas e sistematizadas para a prevenção dos riscos psicossociais e a promoção de ambientes de trabalho seguros e saudáveis (Brasil, 2026).
Diante das evidências analisadas, a proteção da saúde dos trabalhadores de enfermagem demanda uma abordagem sistemática e integrada, capaz de articular identificação dos riscos, planejamento das ações, educação permanente, suporte institucional e avaliação das condições e da organização do trabalho. Nesse processo, a atuação do enfermeiro do trabalho assume relevância ao contribuir para o reconhecimento das necessidades dos trabalhadores, o planejamento de intervenções preventivas, a promoção da saúde e a articulação entre trabalhadores, gestores e demais profissionais envolvidos na saúde ocupacional. Dessa forma, estratégias voltadas à redução dos riscos psicossociais e ocupacionais podem ser incorporadas ao planejamento e à gestão dos serviços, buscando não apenas prevenir acidentes e agravos, mas também favorecer ambientes de trabalho mais seguros, saudáveis e promotores de bem-estar (Pousa; Lucca, 2021; Schultz et al., 2022; Queiroz et al., 2024; Costa et al., 2025).
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise dos estudos permite concluir que os riscos ocupacionais e psicossociais constituem componentes relevantes do processo de trabalho da enfermagem e estão relacionados tanto às condições laborais quanto à organização do trabalho. A exposição a esses fatores repercute na saúde dos profissionais em diferentes dimensões, especialmente na saúde mental e na qualidade de vida, evidenciando a necessidade de uma abordagem ampliada da saúde do trabalhador que considere, de forma integrada, os aspectos ocupacionais, organizacionais e psicossociais.
Os achados também evidenciam a importância de estratégias de prevenção e promoção da saúde que contemplem tanto os riscos ocupacionais quanto os fatores psicossociais presentes no processo de trabalho. Nesse sentido, o apoio social e institucional, a educação permanente, a melhoria das condições e da organização do trabalho, a promoção da saúde mental e o monitoramento dos riscos constituem elementos relevantes para a proteção dos trabalhadores. A atuação do enfermeiro do trabalho insere-se nesse contexto por meio do planejamento de ações preventivas, do acompanhamento das necessidades dos trabalhadores e da articulação com gestores e demais profissionais, contribuindo para a construção de ambientes laborais mais seguros e saudáveis. Essa perspectiva mostra-se ainda mais relevante diante da inclusão expressa dos fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais previsto na NR-1, reforçando a necessidade de sua integração ao planejamento e à gestão das ações de saúde ocupacional.
Como limitação, destaca-se a heterogeneidade dos delineamentos, das populações e dos cenários de atuação contemplados nos estudos analisados, o que requer cautela na generalização dos achados. Ainda assim, a síntese das evidências amplia a compreensão acerca dos riscos ocupacionais e psicossociais presentes no trabalho de enfermagem e de suas repercussões sobre a saúde dos profissionais. Os resultados contribuem para subsidiar o planejamento e a gestão de ações em saúde do trabalhador e apontam para a necessidade de novas investigações e estratégias institucionais voltadas à prevenção de agravos, à promoção da saúde e à melhoria das condições de trabalho da equipe de enfermagem.
Nessa perspectiva, o planejamento das ações em saúde ocupacional deve considerar as particularidades dos ambientes e dos processos de trabalho, possibilitando a identificação precoce de situações capazes de comprometer a saúde dos trabalhadores de enfermagem. O acompanhamento das condições de saúde e de trabalho subsidia a definição de prioridades, a implementação de medidas preventivas e a avaliação das intervenções realizadas. Nesse processo, o enfermeiro do trabalho assume papel relevante na articulação entre assistência e gestão, contribuindo para que a prevenção dos riscos ocupacionais e psicossociais seja incorporada de forma contínua ao planejamento dos serviços e à promoção de ambientes de trabalho mais seguros e saudáveis.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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1 Discente do Curso de Pós-graduação de Enfermagem do Trabalho Planejamento e Gestão pela Faculdade Alcance – FAAL. Graduado em Enfermagem. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Discente do Curso Superior de Enfermagem da Universidade Franciscana – UFN, Campus Santa Maria. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail