RELAÇÃO ENTRE QUALIDADE DO SONO E HIPERTROFIA MUSCULAR EM INDIVÍDUOS SUBMETIDOS AO TREINAMENTO RESISTIDO

RELATIONSHIP BETWEEN SLEEP QUALITY AND MUSCLE HYPERTROPHY IN INDIVIDUALS UNDERGOING RESISTANCE TRAINING

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/793608024

RESUMO
O presente artigo analisa a relação entre a qualidade e a duração do sono e processos relacionados à recuperação muscular em indivíduos submetidos ao treinamento resistido. Trata-se de uma revisão bibliográfica narrativa, baseada em estudos experimentais, revisões sistemáticas e pesquisas observacionais localizadas em bases acadêmicas. A literatura consultada sugere que a privação de sono pode alterar alguns marcadores hormonais e reduzir a síntese proteica muscular em condições experimentais, além de prejudicar determinadas medidas de desempenho físico. Entretanto, os resultados variam conforme o protocolo de perda de sono, a população e o desfecho avaliado. Conclui-se que o sono deve ser considerado parte do planejamento da recuperação, mas as referências analisadas não permitem quantificar com segurança seu efeito isolado sobre os ganhos de hipertrofia em longo prazo.
Palavras-chave: treinamento resistido; sono; síntese proteica muscular; recuperação; desempenho físico.

ABSTRACT
This article analyzes the relationship between sleep quality and sleep duration and the processes related to muscle recovery in individuals undergoing resistance training. It is a narrative literature review based on experimental studies, systematic reviews and observational research located in academic databases. The consulted literature suggests that sleep deprivation may alter some hormonal markers and reduce muscle protein synthesis under experimental conditions, and may also impair certain measures of physical performance. However, the results vary according to the sleep loss protocol, the population and the outcome assessed. It is concluded that sleep should be considered part of recovery planning, although the references analyzed do not allow its isolated effect on long-term hypertrophy gains to be quantified with confidence.
Keywords: resistance training; sleep; muscle protein synthesis; recovery; physical performance.

1. INTRODUÇÃO

A elaboração de um programa de treinamento resistido exige o manejo de variáveis como volume, intensidade e seleção de exercícios para estimular a hipertrofia (Schoenfeld, 2010). Contudo, as adaptações ao treinamento dependem também de fatores de recuperação, entre eles o sono, que participa da regulação metabólica e hormonal e pode influenciar a resposta ao exercício (Dattilo et al., 2011; Lamon et al., 2021).

Quando o sono é reduzido ou interrompido, podem ocorrer alterações no ambiente hormonal e na síntese de proteínas musculares. Em um estudo experimental com adultos jovens, uma noite de privação total de sono reduziu a síntese proteica muscular e alterou as concentrações de cortisol e testosterona (Lamon et al., 2021). Esses resultados sugerem possíveis implicações para a recuperação, mas não permitem concluir, isoladamente, que a privação de sono sempre impeça a hipertrofia.

Do ponto de vista endócrino, o sono participa da regulação de hormônios relacionados ao metabolismo e à recuperação. Estudos experimentais e revisões descrevem alterações no cortisol, na testosterona e em outros mediadores em condições de privação de sono, embora a magnitude das respostas dependa do protocolo e da população estudada (Dattilo et al., 2011; Lamon et al., 2021; Su et al., 2021). Modelos animais também indicam que a privação paradoxal de sono pode afetar a função cardíaca; esses resultados não devem ser extrapolados diretamente para a hipertrofia do músculo esquelético em humanos (Giampá et al., 2016).

A relevância do tema está nas possíveis repercussões do sono insuficiente sobre o rendimento e a recuperação de praticantes de treinamento resistido. Revisões sistemáticas indicam que a perda aguda de sono pode prejudicar diferentes medidas de desempenho físico, embora os efeitos variem conforme a duração da restrição, o horário do exercício e o teste realizado (Craven et al., 2022; Easow et al., 2025).

A relação entre exercício e sono pode ser bidirecional. Revisões de intervenções sugerem que a prática regular de exercícios pode melhorar alguns indicadores de qualidade do sono, mas os efeitos não são uniformes para todas as medidas ou para todos os indivíduos (Kelley; Kelley, 2017). A ingestão de proteína antes de dormir também foi estudada como estratégia nutricional para apoiar a síntese proteica durante a recuperação noturna, especialmente quando associada ao exercício resistido (Snijders et al., 2015; Trommelen; Van Loon, 2016).

Considerando a relação entre sono, recuperação e desempenho, este trabalho reúne evidências sobre as possíveis associações entre a qualidade e a duração do sono e as respostas fisiológicas de indivíduos submetidos ao treinamento resistido. A interpretação distingue estudos experimentais, revisões e pesquisas observacionais, evitando tratar associações como demonstrações de causalidade.

Diante desse contexto, a questão norteadora é: qual é a influência da qualidade e da duração do sono sobre os processos relacionados à hipertrofia muscular em praticantes de treinamento resistido?

De acordo com os fatos expostos anteriormente, o objetivo desta revisão foi analisar a relação entre a qualidade e a duração do sono e os processos associados à hipertrofia muscular em praticantes de treinamento resistido. Especificamente, pretende-se discutir a recuperação muscular, a síntese proteica, as respostas hormonais, o desempenho físico e as limitações das evidências disponíveis.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1. Qualidade do Sono e Recuperação Muscular

A recuperação após o treinamento depende de múltiplos fatores, e o sono participa da regulação de processos metabólicos, hormonais e fisiológicos relevantes para a manutenção do tecido muscular (Dattilo et al., 2011; Lamon et al., 2021). A evidência experimental sugere que a privação de sono pode reduzir a síntese proteica muscular; ainda assim, os efeitos sobre a recuperação e a hipertrofia em longo prazo precisam ser interpretados conforme o desenho de cada estudo.

A dor muscular tardia e a recuperação após sessões de treinamento são influenciadas por diversas variáveis, como a carga, o volume, a familiarização com os exercícios e o tempo de recuperação. O estudo de Medellín Ruiz et al., (2025), investigou efeitos tardios de diferentes níveis de perda de velocidade sobre a regulação autonômica, a qualidade do sono e a dor muscular; porém seus achados não devem ser interpretados como prova de que a privação de sono, por si só, eleva marcadores de dano muscular.

A avaliação do sono pode incluir medidas subjetivas e objetivas, como qualidade percebida, latência para adormecer, duração e eficiência. Uma revisão sistemática de meta-análise encontrou benefícios do exercício para alguns desfechos de sono em adultos, embora a qualidade da evidência varie entre os resultados (Kelley; Kelley, 2017).

A ritmicidade circadiana organiza variações fisiológicas ao longo de aproximadamente 24 horas e interage com o sono, o metabolismo e a função muscular (Morrison et al., 2022). Um estudo sobre o horário do treinamento durante o Ramadã — em que treinar à tarde significava treinar em jejum, e treinar à noite, após a quebra do jejum — avaliou força, respostas hormonais e qualidade do sono, mas seus resultados se referem a esse contexto específico e não devem ser generalizados para todas as rotinas de treinamento (Triki et al., 2024).

Em nível celular, estudos experimentais sugerem que o sono pode influenciar a síntese proteica muscular e o ambiente hormonal. Entretanto, é necessário distinguir as alterações agudas observadas após a privação de sono das adaptações de hipertrofia, que decorrem de um processo prolongado de treinamento (Lamon et al., 2021; Morrison et al., 2022).

No estudo experimental de Lamon et al., (2021), uma noite de privação total de sono foi associada a uma redução de 18% na síntese proteica muscular, aumento de 21% no cortisol plasmático e redução de 24% na testosterona. Esses resultados foram observados em uma amostra pequena e em condições específicas; por isso, devem ser apresentados como evidência experimental, não como uma resposta universal.

A regularidade e a duração do sono podem ser relevantes para a recuperação entre sessões, mas os efeitos sobre os resultados de programas de treinamento de longo prazo dependem também da programação do exercício, da alimentação e das características individuais. Revisões sobre perda aguda de sono apontam prejuízos em algumas medidas de desempenho físico, com variação entre protocolos e testes (Craven et al., 2022; Easow et al., 2025).

A relação entre sono e rendimento não é idêntica em todos os testes. Uma revisão sistemática de 2025, identificou que 10 de 13 estudos incluídos observaram diferenças significativas em pelo menos uma medida de força após perda de sono, mas também relatou resultados heterogêneos entre os estudos (Easow et al., 2025).

2.2. Duração do Sono e Processos Fisiológicos Relacionados à Hipertrofia Muscular

A duração do sono é uma variável importante para a saúde e pode estar associada à recuperação física. Estudos experimentais indicam que a privação de sono pode alterar a síntese proteica muscular, enquanto revisões sobre sarcopenia investigam associações entre duração do sono e risco de perda de massa e função muscular (Lamon et al., 2021; Li; He; Sun, 2023; Pourmotabbed et al., 2020).

A hipertrofia muscular resulta da adaptação acumulada ao treinamento resistido e envolve a interação de estímulos mecânicos, nutrição e recuperação (Schoenfeld, 2010). O sono pode contribuir para esse contexto, mas as evidências disponíveis não autorizam afirmar que uma duração específica, isoladamente, garanta ganhos de massa muscular.

O sono está associado a processos fisiológicos relevantes para a recuperação. Revisões propõem mecanismos pelos quais a dívida de sono pode afetar o ambiente hormonal e o metabolismo proteico, enquanto estudos experimentais oferecem evidências mais diretas sobre alterações na síntese proteica após privação de sono (Dattilo et al., 2011; Lamon et al., 2021).

Em um estudo cruzado com 13 adultos jovens, uma noite de privação total de sono reduziu a síntese proteica muscular em 18% em comparação com a condição de sono normal (Lamon et al., 2021). Esse resultado sustenta a importância de investigar o sono na recuperação, mas não equivale a uma medição direta de ganhos ou perdas de hipertrofia em um programa de treinamento prolongado.

A duração e a regularidade do sono integram o contexto de recuperação e saúde metabólica, mas ainda são necessários estudos longitudinais que relacionem medidas objetivas de sono com alterações diretamente mensuradas na massa muscular de praticantes de treinamento resistido (Lamon et al., 2021; Morrison et al., 2022).

Estudos observacionais e meta-análises investigaram a associação entre duração do sono e sarcopenia, mas essas relações não demonstram, por si só, que dormir determinado número de horas previna a perda muscular em todos os grupos (Li; He; Sun, 2023; Pourmotabbed et al., 2020). Para adultos, recomendações gerais de sono não devem ser confundidas com uma dose comprovada para maximizar a hipertrofia.

Revisões sistemáticas indicam que a perda aguda de sono pode prejudicar algumas medidas de força, potência e resistência muscular, embora a magnitude do efeito varie de acordo com o protocolo de privação e o tipo de teste (Craven et al., 2022; Easow et al., 2025).

Em conjunto, os estudos sugerem que o sono é um fator relevante para a recuperação e pode influenciar processos relacionados à adaptação ao treinamento. Contudo, a relação direta entre duração/qualidade do sono e hipertrofia em longo prazo ainda requer estudos que acompanhem programas de treinamento e mensurem mudanças musculares de forma específica (Lamon et al., 2021; Schoenfeld, 2010).

2.3. Sono, Respostas Hormonais e Recuperação do Tecido Muscular

O ciclo sono-vigília participa da regulação endócrina, mas não determina, isoladamente, um estado anabólico ou catabólico. As respostas de testosterona e cortisol variam segundo o protocolo de privação, o contexto fisiológico e as características dos participantes (Lamon et al., 2021; Su et al., 2021). No contexto do treinamento resistido, as respostas de testosterona, hormônio do crescimento e fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1 (IGF-1) envolvem vias fisiológicas complexas e não devem ser interpretadas por meio de um marcador isolado (Kraemer; Ratamess; Nindl, 2017).

A secreção do hormônio do crescimento apresenta relação com o sono, especialmente com o sono de ondas lentas (Van Cauter; Plat, 1996). Entretanto, os efeitos de alterações do sono sobre a recuperação muscular dependem de diversos fatores, e as hipóteses mecanísticas descritas em revisões não devem ser confundidas com demonstração direta de hipertrofia (Dattilo et al., 2011).

A privação de sono pode alterar a concentração de hormônios como a testosterona, mas os resultados dependem do protocolo e da população estudada (Lamon et al., 2021; Su et al., 2021). Um estudo realizado durante o Ramadã comparou o treinamento resistido em estado alimentado e em jejum e avaliou força, hormônios e qualidade do sono; seus resultados são específicos desse contexto (Triki et al., 2024).

O cortisol participa da resposta ao estresse e pode se alterar em condições de privação de sono. Em um experimento com adultos jovens, uma noite sem dormir foi associada a aumento do cortisol plasmático, mas não se deve inferir que todos os treinos realizados com sono insuficiente ou em jejum provoquem necessariamente picos hormonais idênticos (Lamon et al., 2021; Triki et al., 2024).

Como evidência complementar, Giampá et al., (2016), observaram, em ratos, alterações cardíacas e hormonais após 96 horas de privação paradoxal de sono, com atenuação de parte das alterações pelo treinamento resistido prévio. Como o experimento utilizou modelo animal e investigou predominantemente o sistema cardiovascular, não se pode extrapolar seus resultados diretamente para a hipertrofia do músculo esquelético em humanos.

Entretanto, em estudo cruzado com 10 homens submetidos a dano muscular induzido por exercício excêntrico, 48 horas de privação total de sono não retardaram a recuperação da força, e o aumento da creatina quinase (CK) foi semelhante nas condições com e sem privação; o que se alterou foram as respostas inflamatórias e hormonais, com cortisol e razão cortisol/testosterona mais altos na condição de privação (Dáttilo et al., 2020).

Assim, o sono deve ser considerado um dos fatores de recuperação no planejamento do treinamento resistido. A evidência sustenta efeitos da privação de sono sobre alguns indicadores hormonais e sobre a síntese proteica em condições experimentais, mas não permite reduzir a recuperação muscular a uma única variável (Lamon et al., 2021; Su et al., 2021).

2.4. Privação ou Baixa Qualidade do Sono e Desempenho no Treinamento Resistido

A produção de força e o desempenho físico podem ser afetados pela perda de sono, mas a resposta varia de acordo com a tarefa, o horário do exercício e a duração da restrição (Craven et al., 2022; Easow et al., 2025).

Uma revisão sistemática publicada em 2025 incluiu 13 estudos e constatou que 10 deles (76,9%) identificaram diferenças significativas em pelo menos uma medida de força entre condições de sono normal e de perda de sono (Easow et al., 2025). O resultado não significa que 76,9% dos indivíduos percam força, mas sim que essa proporção dos estudos encontrou diferença significativa em pelo menos um desfecho.

A força máxima em testes de uma repetição máxima e outras medidas de desempenho não respondem necessariamente da mesma maneira à perda de sono. As revisões disponíveis apontam efeitos heterogêneos conforme o tipo de exercício, o protocolo de privação e o tempo transcorrido até o teste; portanto, não é adequado afirmar que a força máxima sempre se mantém ou que sempre cai (Craven et al., 2022; Easow et al., 2025).

Em um estudo com 14 homens, Medellín Ruiz et al., (2025), compararam sessões de treinamento resistido com perdas de velocidade de 10%, 20% e 40%. A condição de 40% produziu alterações significativas em indicadores de variabilidade da frequência cardíaca e dor muscular após 24 horas, em comparação às condições de menor perda de velocidade. Não foram observadas diferenças significativas na qualidade do sono entre as condições.

A percepção subjetiva de esforço e o rendimento físico podem ser influenciados pela perda de sono, mas os resultados variam entre modalidades e protocolos de avaliação. Revisões de estudos experimentais indicam prejuízos em diferentes medidas de desempenho, sem estabelecer um único efeito para todos os praticantes (Craven et al., 2022; Easow et al., 2025).

A relação entre exercício físico e sono pode ser bidirecional. Uma síntese de meta-análises observou melhorias em determinados desfechos de sono após intervenções com exercícios, embora a qualidade da evidência tenha sido classificada como baixa ou muito baixa (Kelley; Kelley, 2017). Em estudo específico, Alley et al., (2015), analisaram o efeito agudo do horário de realização do treinamento resistido sobre características do sono e observaram menos despertares noturnos nas condições com exercício do que no dia sem exercício; por se tratar de efeito agudo em adultos jovens, esse resultado não deve ser generalizado para toda rotina de musculação.

Em síntese, a literatura consultada indica que a perda de sono pode afetar a síntese proteica muscular e algumas medidas de desempenho físico. Entretanto, a extensão desses efeitos sobre os ganhos de hipertrofia em longo prazo ainda não pode ser quantificada com segurança a partir das referências utilizadas (Craven et al., 2022; Easow et al., 2025; Lamon et al., 2021).

2.5. Sono, Alimentação e Síntese Proteica Muscular

A adaptação hipertrófica depende da interação entre estímulo mecânico, alimentação e recuperação (Schoenfeld, 2010). Estudos sobre privação de sono e síntese proteica e sobre a ingestão de proteína antes de dormir oferecem evidências relevantes para compreender essa interação, mas não demonstram que uma estratégia nutricional isolada compense a falta de sono (Lamon et al., 2021; Snijders et al., 2015; Trommelen; Van Loon, 2016).

A ingestão de proteína antes de dormir foi investigada como estratégia para fornecer aminoácidos durante a recuperação noturna. Em um ensaio de treinamento prolongado, essa prática foi associada a ganhos de massa muscular e força quando integrada a um programa de treinamento resistido; uma revisão posterior discutiu os mecanismos e as condições dessa estratégia (Snijders et al., 2015; Trommelen; Van Loon, 2016).

Um estudo durante o Ramadã encontrou respostas diferentes em força e em alguns marcadores hormonais entre participantes que treinaram em estado alimentado e em jejum, mas não demonstrou que essa estratégia seja universalmente protetora para todos os hormônios ou para a qualidade do sono (Triki et al., 2024).

As evidências sobre duração do sono e composição corporal também exigem cautela. Revisões sobre sarcopenia identificaram associações entre padrões de sono e prevalência de comprometimento muscular, sobretudo em populações adultas e idosas; tais associações não quantificam diretamente o efeito do sono sobre a hipertrofia decorrente do treinamento resistido (Li; He; Sun, 2023; Pourmotabbed et al., 2020).

A hipertrofia deve ser compreendida como uma adaptação multifatorial que envolve treinamento resistido, nutrição e recuperação. As evidências revisadas indicam que o sono é relevante para processos fisiológicos ligados à recuperação, mas ainda há limitações para estabelecer uma relação causal precisa entre padrões de sono e magnitude dos ganhos hipertróficos em longo prazo (Lamon et al., 2021; Schoenfeld, 2010; Snijders et al., 2015).

3. METODOLOGIA

Trata-se de uma pesquisa de revisão bibliográfica narrativa, com abordagem qualitativa e descritiva. Seu objetivo é discutir achados sobre o sono e processos relacionados à recuperação e à hipertrofia muscular, sem realizar síntese estatística dos resultados dos estudos.

Para a elaboração e revisão do texto, foram examinados registros bibliográficos e materiais científicos disponíveis em bases e portais acadêmicos, com ênfase no PubMed/Medline e nas páginas dos periódicos na internet.

A seleção das fontes ocorreu por pertinência temática, considerando estudos experimentais, revisões, meta-análises e pesquisas observacionais sobre sono, treinamento resistido, síntese proteica, hormônios, composição corporal e desempenho físico. Foram mantidos estudos publicados até 2025, além de trabalhos clássicos necessários à contextualização fisiológica. As fontes foram interpretadas de acordo com o tipo de estudo, a população e os desfechos investigados.

Por se tratar de revisão narrativa, não foi aplicado um protocolo de busca reproduzível, nem foi realizada triagem sistemática, contagem padronizada de estudos elegíveis ou avaliação formal de risco de viés. Por isso, os resultados não devem ser interpretados como os de uma revisão sistemática, e a seleção de estudos pode estar sujeita a vieses.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES

A literatura selecionada aponta relações entre sono, regulação hormonal, síntese proteica muscular e desempenho físico. Entretanto, o conjunto de pesquisas consultadas não demonstra que a qualidade do sono determine, isoladamente, a magnitude da hipertrofia obtida em programas prolongados de treinamento resistido. Para organizar a discussão, os achados foram distribuídos em quatro eixos temáticos.

Primeiro eixo: respostas hormonais e síntese proteica. Os estudos consultados indicam que a privação de sono pode modificar respostas hormonais e comprometer a síntese proteica muscular em determinadas condições experimentais. Em estudo cruzado com 13 adultos jovens, uma noite de privação total de sono reduziu a síntese proteica muscular em aproximadamente 18%, aumentou o cortisol plasmático em 21% e reduziu a testosterona em 24% (Lamon et al., 2021). Apesar de relevantes, esses resultados não permitem quantificar os efeitos sobre a hipertrofia muscular em longo prazo.

A secreção do hormônio do crescimento apresenta relação com o sono, sobretudo com o sono de ondas lentas (Van Cauter; Plat, 1996). Além disso, um estudo em modelo animal observou alterações na função cardíaca após privação paradoxal de sono, parcialmente atenuadas pelo treinamento resistido prévio (Giampá et al., 2016). Por se tratar de modelo animal e de tecido cardíaco, esses achados não devem ser generalizados diretamente para a hipertrofia do músculo esquelético humano.

A ingestão de proteína antes de dormir foi estudada como estratégia para sustentar a disponibilidade de aminoácidos durante a recuperação noturna (Snijders et al., 2015; Trommelen; Van Loon, 2016). Separadamente, um estudo realizado durante o Ramadã avaliou treinamento resistido em estado alimentado e em jejum, encontrando diferenças em alguns resultados de força e hormônios; não houve diferença estatisticamente significativa entre os grupos para a qualidade do sono (Triki et al., 2024).

Segundo eixo: desempenho físico. Uma revisão sistemática publicada em 2025 reuniu 13 estudos sobre perda de sono e força muscular; 10 estudos (76,9%) encontraram diferenças significativas em pelo menos uma medida de força, embora os resultados variassem conforme o protocolo e o desfecho (Easow et al., 2025).

A revisão meta-analítica de Craven et al., (2022), concluiu que a perda aguda de sono pode prejudicar o desempenho físico no dia seguinte, com diferenças conforme o protocolo de perda de sono, o tempo acordado antes do exercício e o horário da avaliação. Assim, não se deve afirmar que a força máxima avaliada em teste sempre se mantém ou que todas as formas de desempenho são afetadas de modo igual.

A magnitude da fadiga autonômica também pode variar conforme a prescrição do exercício. Em estudo com 14 homens, uma sessão com perda de velocidade de 40% foi associada a alterações significativas em indicadores de variabilidade da frequência cardíaca e dor muscular 24 horas após o treinamento, em comparação a sessões com 10% e 20% de perda de velocidade. A qualidade do sono não apresentou alterações significativas entre as condições avaliadas (Medellín Ruiz et al., 2025).

Terceiro eixo: dor muscular, regulação autonômica e composição corporal. O estudo de Medellín Ruiz et al., (2025), avaliou os efeitos tardios de diferentes níveis de perda de velocidade no treinamento resistido sobre a regulação autonômica, a qualidade do sono e a dor muscular.

Meta-análises observacionais investigaram associações entre duração do sono e sarcopenia, mas essas evidências foram produzidas em populações distintas das amostras tipicamente utilizadas em estudos sobre hipertrofia no treinamento resistido. Seus resultados não permitem inferir, por si só, uma relação causal entre duração do sono e ganhos de massa muscular durante o treinamento (Li; He; Sun, 2023; Pourmotabbed et al., 2020).

Quarto eixo: exercício, sono e nutrição. A relação entre a prática de exercícios e o sono pode ocorrer em ambas as direções: a qualidade do repouso influencia a recuperação, enquanto a atividade física regular pode favorecer alguns indicadores do sono. Esses benefícios, porém, não são uniformes entre indivíduos e medidas avaliadas (Alley et al., 2015; Kelley; Kelley, 2017). A ingestão de proteína antes de dormir, especialmente associada ao treinamento resistido, pode contribuir para a disponibilidade de aminoácidos e para a síntese proteica noturna, mas não substitui a duração e a qualidade adequadas do sono (Snijders et al., 2015; Trommelen; Van Loon, 2016).

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A presente pesquisa evidencia que a qualidade e a duração do sono constituem fatores relevantes para os processos fisiológicos relacionados à recuperação muscular e às adaptações decorrentes do treinamento resistido. A análise da literatura permite compreender que o sono participa da regulação hormonal, da síntese proteica muscular e da manutenção do desempenho físico, exercendo influência sobre condições necessárias ao desenvolvimento muscular.

Diante da questão norteadora, considera-se que o sono contribui para os processos associados à hipertrofia muscular, porém não determina isoladamente os ganhos de massa muscular. Esses ganhos resultam da interação entre diferentes fatores, especialmente o estímulo proporcionado pelo treinamento resistido, a alimentação e a recuperação. Dessa forma, a qualidade do sono representa um componente importante desse processo, embora as evidências analisadas não permitam estabelecer uma relação causal precisa entre os padrões de sono e a magnitude da hipertrofia em longo prazo.

Os objetivos propostos foram alcançados por meio da análise das relações entre sono, recuperação muscular, respostas hormonais, síntese proteica e desempenho físico. Entretanto, as limitações das pesquisas examinadas demonstram a necessidade de estudos que investiguem diretamente os efeitos da qualidade e da duração do sono sobre os ganhos de massa muscular durante programas prolongados de treinamento resistido.

Assim, o trabalho reforça a importância de considerar o sono no planejamento da recuperação muscular, juntamente com a organização adequada do treinamento, da alimentação e de outros componentes, reconhecendo que a hipertrofia constitui um processo multifatorial e que seus resultados não dependem de uma única variável.

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1 Acadêmico do Curso de Educação Física Bacharelado do Centro Universitário Assis Gurgacz (FAG). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.

2 Doutor em Saúde da Criança e do Adolescente pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e professor do Curso de Educação Física Bacharelado do Centro Universitário Assis Gurgacz (FAG). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.