RELAÇÃO ENTRE DOENÇA DE CROHN E SAÚDE MENTAL: UMA REVISÃO NARRATIVA DA LITERATURA
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REGISTRO DOI: 10.5281/zenodo.18489190
Viviane Gomes da Cruz1
Herbert dos Santos Bangoim2
RESUMO
Este artigo tem como objetivo revisar e sintetizar a literatura científica sobre a relação entre a Doença de Crohn e a saúde mental, com foco na prevalência de sintomas psicológicos, fatores associados e implicações para o cuidado integral. Trata-se de uma revisão narrativa da literatura realizada mediante busca sistemática nas bases de dados Portal de Periódicos CAPES, SciELO e BVS, utilizando a string e operadores booleanos: "Doença de Crohn" AND "Psicologia". Foram incluídos artigos em português com texto completo disponível, publicados entre 2010 e 2025. Os resultados evidenciam elevada prevalência de sintomas depressivos, ansiosos e oscilações de humor em pacientes com doença de Crohn (DC). Fatores psicossociais, como suporte social, estado civil e ocupação, demonstraram influência significativa no bem-estar e na resiliência. Conclui-se que a integração sistemática de intervenções psicológicas ao manejo clínico é essencial para promover adaptação e qualidade de vida, reforçando a necessidade de abordagens interdisciplinares e políticas de saúde baseadas em uma perspectiva biopsicossocial.
Palavras-chave: Doença de Crohn; Saúde Mental; Psicologia, Doenças Inflamatórias Intestinais;
ABSTRACT
This article aims to review and synthesize the scientific literature on the relationship between Crohn's Disease and mental health, focusing on the prevalence of psychological symptoms, associated factors, and implications for comprehensive care. It is a narrative review conducted through a systematic search in the CAPES Periodicals Portal, SciELO, and BVS databases, using the search string with Boolean operators: "Crohn's Disease" AND "Psychology." Articles in Portuguese with full text available, published between 2010 and 2025, were included. The results show a high prevalence of depressive and anxious symptoms, as well as mood swings, in patients with Crohn's disease. Psychosocial factors, such as social support, marital status, and occupation, demonstrated a significant influence on well-being and resilience. It is concluded that the systematic integration of psychological interventions into clinical management is essential to promote adaptation and quality of life, reinforcing the need for interdisciplinary approaches and health policies based on a biopsychosocial perspective
Keywords: Crohn Disease; Mental Health; Psychology; Inflammatory Bowel Diseases
1. INTRODUÇÃO
A Doença de Crohn (DC), uma das principais formas da Doença Inflamatória Intestinal (DII), caracteriza-se por uma inflamação crônica e transmural que pode afetar qualquer segmento do trato gastrointestinal, apresentando um curso imprevisível marcado por períodos de atividade inflamatória e remissão (BAUMGART & SANDBORN, 2012).
Seu manejo clínico, tradicionalmente focado no controle da atividade inflamatória e na prevenção de complicações, tem progressivamente reconhecido a profunda interação entre os processos fisiológicos da doença e a esfera psicossocial do paciente. Neste contexto, a saúde mental emerge não como um epifenômeno, mas como um componente intrínseco e determinante da experiência global do adoecimento, influenciando e sendo influenciada pela condição crônica.
A natureza da DC impõe uma carga única ao paciente. Sintomas como dor abdominal intensa, diarreia crônica, fadiga debilitante e a urgência fecal geram uma vivência de imprevisibilidade e perda de controle, fatores conhecidos por gerar estresse psicológico significativo, o que impacta diretamente na qualidade de vida (VAN DER HAVE et al., 2013).
Estudos demonstram uma relação bidirecional e fisiopatológica, onde o sofrimento psicológico pode modular a atividade da doença por meio de vias neuroimunoendócrinas, e a inflamação sistêmica pode afetar diretamente o eixo cérebro-intestino e o funcionamento cognitivo (GE, et al., 2022).
Consequentemente, as repercussões na saúde mental são prevalentes e impactantes. Pacientes com DC apresentam índices significativamente elevados de transtornos de ansiedade e depressão quando comparados à população geral (BARBERIO et al., 2021). A ansiedade frequentemente se manifesta como uma vigilância corporal constante e medo antecipatório de crises em ambientes públicos, conduzindo a comportamentos de esquiva e isolamento social. A depressão, por sua vez, pode estar associada tanto à carga sintomática e às limitações funcionais quanto aos efeitos diretos da inflamação sobre o sistema nervoso central.
Esse prejuízo psicossocial se reflete diretamente na qualidade de vida, conforme sintetizado por Knowles et al. (2018) acreditam que o caráter de imprevisibilidade da DC podem gerar impacto e prejuízo a qualidade de vida relacionada à saúde e entre outros aspectos sociais da vida do indivíduo.
Diante da complexa e estreita relação entre a Doença de Crohn e a saúde mental, evidencia-se a necessidade de uma síntese organizada do conhecimento existente. A literatura sobre o tema, embora crescente, encontra-se dispersa, com estudos que abordam desde aspectos epidemiológicos até intervenções psicológicas específicas.
Assim, realizar uma revisão sistemática da literatura sobre essa temática justifica-se pela urgência de consolidar e avaliar criticamente essas evidências. Diante disso, o objetivo do presente trabalho consiste em mapear o estado atual do conhecimento, identificar consistentes associações entre atividade inflamatória e sofrimento psíquico, avaliar quais as intervenções disponíveis utilizadas e apontar lacunas para futuras pesquisas. O produto final desta revisão servirá como uma base empírica sólida para fundamentar a prática clínica interdisciplinar e a formulação de políticas de saúde que integrem, de forma obrigatória, o cuidado psicológico ao manejo integral do paciente com Doença de Crohn.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
A pesquisa de Solidade (2023) indicou um comprometimento significativo na percepção da realidade, afetando 83% da amostra. Paralelamente, observou-se uma alta prevalência de traços psicológicos como tendência perfeccionista (74%), insegurança (93%) e alexitimia, ou dificuldade em identificar e expressar emoções (32%). No domínio afetivo, foram identificadas deficiências no controle dos afetos (55%), na observação da realidade (58%) e na adaptação (64%). Além disso, a amostra apresentou dificuldades para a adequada coordenação das vivências emocionais (42%) e para conter a ansiedade interna (48%), um controle emocional frágil (45%) e, em contrapartida, uma elevada capacidade de identificação e contato humano (71%). Por fim, constatou-se a presença de conflito intrapsíquico em 42% dos participantes.
Acciari, et al (2019), evidenciam que, em pacientes com Doença de Crohn (DC), os aspectos sociais exercem uma influência mais significativa sobre o bem-estar psicológico, a resiliência e as estratégias de enfrentamento do que as características clínicas da doença. Variáveis como sexo, estado civil, parentalidade, ocupação, renda e prática de atividades complementares demonstraram associações consistentes com os desfechos psicossociais. Especificamente, homens, indivíduos em união conjugal estável, sem filhos, empregados e com maior escolaridade apresentaram perfis mais favoráveis em termos de bem-estar e resiliência. Em contraste, variáveis clínicas como tempo de diagnóstico, tratamento medicamentoso e histórico de hospitalizações não mostraram influência significativa. Esses achados reforçam a necessidade de que o manejo da DC incorpore, de forma estruturada, uma avaliação psicossocial sistemática e intervenções direcionadas a fortalecer recursos pessoais e redes de apoio, visando não apenas o controle da atividade inflamatória, mas a promoção global da adaptação e da qualidade de vida dos pacientes.
Gouveia, Edna Cristina (2010) aponta que a aplicação de testes psicológicos não identificou uma estrutura psíquica homogênea entre os pacientes, revelando, contudo, a presença ambígua de níveis variados de estresse, ansiedade e depressão. A correlação clínica evidenciou que estes estados emocionais, ao comprometerem as defesas imunológicas, atuavam como fatores precipitadores, contribuidores e exacerbadores dos sintomas gastrointestinais, conforme observado na congruência entre a piora física relatada e os conflitos emocionais em curso durante as sessões.
A psicoterapia de grupo demonstrou-se eficaz ao oferecer amparo e continência, rompendo o ciclo de isolamento e permitindo uma releitura biográfica do adoecimento. Nesse espaço, os pacientes articularam seus sintomas orgânicos a eventos e afetos de suas histórias de vida, compreendendo o caráter significante e não causal da doença. Esse processo de elaboração, ainda que em um setting breve, não implicou na cura da condição orgânica, mas conferiu maior autonomia frente aos sintomas e promoveu um ganho substantivo na qualidade de vida, ao possibilitar uma compreensão integrada de si como um ser biopsicossocial.
Menezes e Faro (2018) a partir da pesquisa feita com pacientes portadores de DC e RCU constataram que há predominância elevada de sintomas depressivos, cerca de 52,4% da amostra. Os fatores que corroboram para isso podem estar relacionados ao período de crise, quando a doença está em atividade, ter passado por procedimento cirúrgico devido a doença, possuir outras comorbidades e ainda pela utilização de supressão emocional e baixa capacidade de reavaliação cognitiva. O perfil sociodemográfico também apresentou estreita relação com os sintomas depressivos. Vale ressaltar que a pesquisa constatou que portadores de RCU possuem duas vezes mais chances de desenvolver depressão quando comparados a portadores de DC.
De modo complementar, Costa et al. (2022) também identificaram relação estreita entre as Doença de Crohn e Retocolite Ulcerativa com sintomas depressivos. Segundo os autores, a causa dessas doenças pode estar relacionada a fatores psicossomáticos cuja etimologia remete à infância. Ademais, constataram que a disbiose intestinal pode desencadear sintomas depressivos.
Além disso, os autores Costa et al. (2022) também estão de acordo com Menezes e Faro (2018) pois afirmam que maiores são as chances de desenvolver sintomas depressivos quando a doença está em fase ativa. Por outro lado, Lima et al. (2012) embora tenha concluído que houve elevada incidência de oscilação do humor em pacientes com DC, quando comparada à população de adultos saudáveis, não foi observada relação entre a oscilação do humor com a mudança de atividade clínica da DC.
Enquanto no estudo de Menezes e Faro (2018) constatou o maior índice de sintomas depressivos em pacientes que foram submetidos a procedimentos cirúrgicos, a pesquisa de Lima et al. (2012) de modo contrário constatou maior índice de oscilação de humor em pacientes que não haviam realizado procedimentos cirúrgicos por complicações da doença.
Ainda conforme Lima et al. (2012) a maior incidência de oscilação de humor foi constatada em mulheres diagnosticadas com DC. Costa et al. (2022) de modo semelhante afirmam que sintomas depressivos também prevaleceram no sexo feminino.
Quando as possíveis medidas de intervenção e manejo psicológico com intuito de reduzir impacto na qualidade de vida e saúde mental dos portadores de DC proposta pelos artigos, Lima et al. (2012) propõe avaliação psicológica periódica para detectar possíveis oscilações de humor. Já Costa et al. (2022) propõe as Terapias comportamentais e uso de probióticos. Gouveia e Ávila (2010) considera que a intervenção psicoterapêutica favorece a elaboração de fatores emocionais expressos pela via da somatização. Menezes e Faro (2018) não propõem medidas interventivas.
3. METODOLOGIA
Para a condução desta revisão narrativa da literatura, adotou-se uma estratégia de busca sistemática em bases de dados eletrônicas, com o objetivo de identificar estudos na interface entre a Doença de Crohn, a Psicologia e a Saúde Mental. Inicialmente, utilizou-se a seguinte string de busca com operadores booleanos: ("Doença de Crohn" AND "Psicologia"). Esta combinação foi aplicada em três bases de dados de referência: Portal de Periódicos da CAPES, Scientific Electronic Library Online (SciELO) e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS).
A busca realizada no Portal de Periódicos da CAPES retornou sete artigos que atenderam integralmente aos critérios estabelecidos. No portal BVS foi encontrado apenas um artigo, porém já encontrava-se incluído nos resultados encontrados na busca realizada na CAPES. A mesma string de busca não produziu resultados nas bases SciELO, indicando uma dispersão ou escassez terminológica na indexação do tema. Os sete artigos identificados no Portal CAPES foram analisados em profundidade.
Foram incluídos os artigos em língua portuguesa com versão completa disponível. Quanto aos critérios de exclusão foram descartados os artigos cuja temática não apresentava relação com o objetivo do presente trabalho.
4. DISCUSSÕES
A Tabela 1 apresenta os dados dos artigos selecionados na amostra com seus respectivos delineamentos e conclusões.
Tabela 1 - Caracterização dos Artigos da Amostra
Titulo do Artigo | Autor (ano) | Objetivo | Delineamento | Conclusão |
Fatores psicológicos e características psicodinâmicas dos portadores da doença de crohn por meio do psicodiagnóstico de rorschach | Solidade, M. S. (2023) | Conhecer os fatores psicológicos e as características psicodinâmicas dos pacientes com doença de Crohn. | Estudo observacional, transversal, de abordagem qualitativa, com delineamento clínico-descritivo. | Há nestes pacientes um quadro composto por mecanismos psíquicos importantes que estão profundamente incapacitados, levando-os a ter dificuldades para lidar com situações que causem grande estresse e sofrimento, principalmente em momentos de perdas. Apresentam, também, dificuldade para controlar a ansiedade e as emoções, o que gera alto nível de angústia. |
Relação entre bem-estar psicológico, resiliência e coping com fatores sociais e clínicos em pacientes com doença de Crohn | Acciari et al. (2019) | Relacionar o bem-estar psicológico, a resiliência e o enfrentamento com as características sociais e clínicas de pacientes com doença de Crohn. | Estudo observacional,prospectivo, quantitativo, de caráter analítico-correlacional (ou analítico-descritivo). | Os aspectos sociais exercem maior influência sobre o bem-estar psicológico, a resiliência e as estratégias de enfrentamento de pacientes com Doença de Crohn do que os aspectos clínicos da doença. |
Aspectos emocionais associados a disfunções gastroenterológicas | Gouveia; Ávila (2010) | Investigar a influência de fatores emocionais na manifestação de sintomas psicossomáticos em pacientes com doenças inflamatórias intestinais e explorar os efeitos de uma psicoterapia breve em grupo. | Trata-se de um estudo de abordagem mista, observacional e interventiva, de caráter transversal e exploratório. | Conclui-se que os aspectos emocionais exercem papel relevante no agravamento das doenças inflamatórias intestinais e que a intervenção psicoterapêutica favorece a elaboração psíquica de conflitos anteriormente expressos de forma somática. |
Sintomatologia depressiva e regulação emocional em pacientes com doença de crohn e retocolite ulcerativa | Menezes; Faro (2018) | Investigar a ocorrência de depressão e aspectos relativos à RE em pacientes com DC e RCU, atendidos no Ambulatório de Coloproctologia do Hospital Universitário da Universidade Federal de Sergipe. | Quantitativa, observacional, transversal e analítica. | A pesquisa constatou que a ocorrência de sintomas depressivos em pacientes com DII é elevada, atingindo 52,4% dos participantes. O uso da estratégia de supressão emocional (tentativa de inibir a expressão de emoções) revelou-se um dos preditores mais fortes, aumentando em quase cinco vezes (4,7) às chances de depressão. |
Eixo intestino-cérebro e sua interferência no transtorno depressivo: revisão integrativa | Costa et al. (2022) | Compreender a relação Intestino cérebro e as interferências no distúrbio depressivo. | Trata-se de um estudo bibliográfico com uma abordagem integrativa. | Notou-se uma grande relação entre as Doença de Crohn e Retocolite Ulcerativa com o aparecimento de sintomas depressivos principalmente em mulheres. Investiga-se que as causas destes problemas podem ter uma origem psicossomática e que pode ter início na infância por mal hábitos alimentares, uso de antibióticos, má relação familiares entre outros. |
Oscilação do humor em pacientes com doença de Crohn: incidência e fatores associados (repetido, bvs) | Lima et al. (2012) | Avaliar em portadores de doença de Crohn (DC) a incidência de oscilação do humor (OH) e os possíveis fatores associados à mesma. | Estudo prospectivo longitudinal | Verificou-se elevada incidência (58%) de OH em pacientes com DC. O sexo feminino e ausência de cirurgia prévia por complicações da DC foram associadas à maior incidência de OH. |
Fonte: elaborado pelos autores.
Os estudos incluídos foram publicados entre os anos de 2010 e 2025. Dos sete artigos encontrados, seis foram selecionados conforme os critérios de inclusão e posteriormente analisados. Um artigo foi excluído por apresentar objetivo distinto e centralidade em aspectos orgânicos da doença. Quanto à metodologia utilizada pelos artigos, três são de natureza quantitativa, três de natureza qualitativa com revisão de literatura e um apresentou natureza mista. Quatro artigos utilizaram delineamento transversal e observacional, apenas um realizou estudo longitudinal. De maneira geral, a maior parte abordou a relação entre manifestações psicológicas e a doença de Crohn e demais doenças inflamatórias intestinais principalmente a Retocolite Ulcerativa (REU).
Apesar dos estudos abordarem metodologias distintas, constatou-se que houve um consenso na literatura apresentada em relação a alta prevalência de sintomas depressivos e oscilação de humor em pacientes com DII, sobretudo DC e RCU. Isso significa dizer que há grande impacto na saúde mental diante dessa condição de saúde.
Os estudos de Solidade (2023) e Gouveia e Ávila (2010), embora separados por mais de uma década, convergem ao destacar a complexa interface psicossomática na experiência do adoecimento crônico. Solidade (2023) oferece um mapeamento minucioso dos vulnerabilidades psicológicas estruturais, como a alta prevalência de insegurança (93%), dificuldades no controle afetivo (55%) e a presença de conflito intrapsíquico (42%). Esses dados sugerem um substrato psicológico frágil que pode comprometer os recursos de enfrentamento. Gouveia e Ávila (2010), por sua vez, corrobora a relevância desses fatores ao demonstrar a correlação direta entre estados emocionais negativos (estresse, ansiedade, depressão) e a exacerbação dos sintomas físicos, atuando como elementos precipitadores ou agravantes da patologia orgânica.
Ambos os autores, portanto, iluminam a dimensão intrapsíquica do sofrimento, apontando para a necessidade de intervenções que trabalhem as defesas emocionais e a elaboração dos conflitos. No entanto, enquanto Solidade (2023) foca em um perfil psicométrico descritivo, Gouveia e Ávila (2010) avança ao testemunhar o potencial transformador da psicoterapia de grupo como meio de criar continência e ressignificar a experiência da doença.
Em contraponto a essa ênfase nos aspectos intrapsíquicos, Acciari et al. (2019) deslocam o foco para a esfera sociocontextual, demonstrando que variáveis como estado civil, ocupação e rede de apoio exercem uma influência mais determinante no bem-estar e na resiliência do que as próprias características clínicas da doença. Este achado qualifica a compreensão oferecida pelos outros dois autores: a insegurança e a fragilidade emocional mapeadas por Solidade (2023) e a exacerbação sintomática relacionada a conflitos, observada por Gouveia e Ávila (2010), podem ser profundamente mediadas ou atenuadas por condições sociais favoráveis. A conclusão de Acciari et al. (2019) de que homens empregados e com maior escolaridade apresentam perfis mais resilientes sugere que recursos materiais e simbólicos funcionam como fatores de proteção, possivelmente modulando a expressão das vulnerabilidades psicológicas.
Assim, a síntese dos três estudos aponta para um modelo integrado de cuidado: se, por um lado, é essencial intervir nos conflitos emocionais e na regulação afetiva (Solidade, 2023 & Gouveia, 2010), por outro, é imperativo fortalecer ativamente os suportes sociais e as condições de vida (Acciari et al., 2019). O manejo integral da condição crônica demanda, portanto, uma abordagem dupla que promova simultaneamente a elaboração psicológica e a transformação do contexto social do paciente.
A divergência constatada nos estudos de Menezes e Faro (2018), Costa et al. (2022) e Lima et al. (2012) sobre a correlação entre atividade clínica da doença e oscilação de humor e sintomas depressivos, pode estar relacionada ao recorte amostral utilizado bem como com a disparidade do delineamento metodológico utilizado por cada um dos autores - estudo observacional e transversal, revisão de literatura e estudo prospectivo longitudinal, respectivamente. Além disso, tal divergência pode demonstrar também a não linearidade e constância dos fatores emocionais dos pacientes com DC. Apesar disso, essas diferenças não indicam inconsistência nos achados, mas evidenciam a complexidade do fenômeno e a necessidade de metodologias complementares.
Constatou-se uma maior risco e incidência de sintomas depressivos e ocilação de humor em pessoas do sexo feminino portadores de DC (LIMA et al., 2012; COSTA et al., 2022). Porém, as pesquisas não se debruçaram de maneira aprofundada sobre a relação entre gênero, DC e sofrimento psíquico. Tal constatação evidencia a necessidade de pesquisas que possam contribuir para o estudo dessas relações.
Diante da análise, foi possível constatar também que há diversificados métodos utilizados para o manejo psicológico com pacientes diagnosticados com DC, não havendo consenso ou sistematização quanto às abordagens e métodos específicos. É importante ressaltar sobre a necessidade de acompanhamento multiprofissional, visto que a dimensão multifatorial da DC envolve aspectos biopsicossociais e que agravos da doença podem ser desencadeados por fatores sociais e psicológicos, conforme ressalta Acciari, et al (2019).
5. CONCLUSÃO
Diante da análise da literatura realizada foi possível concluir que a Doença de Crohn está associada a comprometimentos na saúde mental. Observou-se a elevada prevalência de sintomas depressivos, ansiosos e oscilações de humor. Essas manifestações relacionam-se não apenas a sintomatologia bem como a agudização da doença, mas também a mecanismos fisiopatológicos, como a disbiose intestinal. Além disso, fatores psicossociais, como suporte social, condições socioeconômicas e estratégias de enfrentamento exercem grande influência na melhora da qualidade de vida e melhor adaptação à condição crônica. Ressalta-se que aspectos psicológicos e emocionais podem interferir tanto de modo preditor para o desenvolvimento e agudização da DC quanto como comorbidades da doença.
Diante disso, é de fundamental importância a disponibilização de meios que facilitem o acesso desses pacientes não somente a assistência médica, mas também a assistência psicológica, visto a dimensão dessa doença. Compreende-se que o manejo adequado através de equipe multiprofissional pode contribuir para uma melhor qualidade de vida bem como a construção de melhores estratégias de enfrentamento.
Os resultados constatados no presente estudo não visam esgotar a temática proposta, mas sim contribuir para que novas pesquisas possam ser realizadas de modo a contribuir e propor medidas para melhor compreensão entre DII, especialmente a DC e saúde mental, dado a complexidade do tema.
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1 Psicóloga, Residente do Hospital Universitário da Universidade federal do Piauí (HU/UFPI). E-mail: [email protected]
2 Psicólogo, Residente do Hospital Universitário da Universidade federal do Piauí (HU/UFPI). E-mail: [email protected]