QUEM FICA FORA DA ESCOLA? ANÁLISE DA EVASÃO ESCOLAR NO BRASIL A PARTIR DOS DADOS DO CENSO ESCOLAR

WHO IS LEFT OUT OF SCHOOL? AN ANALYSIS OF SCHOOL DROPOUT IN BRAZIL BASED ON DATA FROM THE SCHOOL CENSUS

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/774507061

RESUMO
A evasão escolar permanece como um dos principais desafios das políticas educacionais brasileiras, sobretudo no que se refere à garantia do direito à educação e à permanência de crianças e adolescentes na escola. Nas últimas décadas, diferentes estratégias institucionais têm sido desenvolvidas com o objetivo de identificar estudantes em situação de risco e promover ações de retorno e permanência no sistema educacional. Nesse contexto, as iniciativas de busca ativa e de reinserção escolar têm se consolidado como instrumentos relevantes no enfrentamento das trajetórias escolares interrompidas. O presente artigo tem como objetivo analisar as contribuições e os limites dessas políticas públicas no enfrentamento da evasão escolar no Brasil. Trata-se de uma pesquisa de natureza qualitativa, desenvolvida por meio de revisão de literatura sobre evasão e permanência escolar, articulada à análise de dados secundários provenientes do Censo Escolar produzido pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. A análise busca compreender as tendências recentes da evasão escolar e examinar de que forma as estratégias de monitoramento, identificação e acompanhamento de estudantes fora da escola têm sido implementadas no âmbito das políticas educacionais. Os resultados indicam que as ações de busca ativa contribuem para ampliar a visibilidade do fenômeno e favorecer a reinserção de estudantes que interromperam suas trajetórias escolares, especialmente em contextos marcados por vulnerabilidade social. Entretanto, evidenciam-se limites relacionados à fragmentação das políticas públicas, à insuficiente articulação intersetorial e às condições estruturais que produzem e reproduzem o abandono escolar. Conclui-se que o enfrentamento da evasão exige não apenas mecanismos de retorno à escola, mas também estratégias voltadas à permanência, à equidade educacional e ao fortalecimento das redes de proteção social.
Palavras-chave: Evasão escolar; Políticas públicas educacionais; Censo Escolar.

ABSTRACT
School dropout remains one of the main challenges of Brazilian educational policies, especially concerning the guarantee of the right to education and the retention of children and adolescents in school. In recent decades, different institutional strategies have been developed with the aim of identifying students at risk and promoting actions for their return and retention in the educational system. In this context, initiatives for active search and school reintegration have become relevant tools in addressing interrupted school trajectories. This article aims to analyze the contributions and limitations of these public policies in tackling school dropout in Brazil. This is a qualitative research study, developed through a literature review on school dropout and retention, combined with the analysis of secondary data from the School Census produced by the Anísio Teixeira National Institute for Educational Studies and Research. The analysis seeks to understand recent trends in school dropout and to examine how strategies for monitoring, identifying, and supporting students out of school have been implemented within the scope of educational policies. The results indicate that active search actions contribute to increasing the visibility of the phenomenon and favoring the reintegration of students who have interrupted their school trajectories, especially in contexts marked by social vulnerability. However, limitations are evident related to the fragmentation of public policies, insufficient intersectoral articulation, and the structural conditions that produce and reproduce school dropout. It is concluded that tackling dropout requires not only mechanisms for returning to school, but also strategies aimed at retention, educational equity, and the strengthening of social protection networks.
Keywords: School dropout; Educational public policies; School Census.

1. INTRODUÇÃO

A garantia do direito à educação, prevista constitucionalmente, tem sido historicamente acompanhada por tensões relacionadas não apenas ao acesso, mas sobretudo à permanência dos estudantes no sistema educacional. Nas últimas décadas, o Brasil avançou de forma significativa na ampliação das matrículas na educação básica, aproximando-se da universalização da escolarização obrigatória. No entanto, a evasão escolar permanece como um fenômeno persistente, revelando limites estruturais das políticas educacionais e das condições sociais que atravessam a vida dos estudantes.

Os dados mais recentes do Censo Escolar evidenciam um cenário marcado por avanços e contradições. De um lado, observa-se a ampliação do acesso e da frequência escolar, com taxas que alcançam 97,2% da população em idade obrigatória, indicando que o país se aproxima de um patamar de universalização da educação básica. De outro, persistem desafios relacionados à continuidade das trajetórias escolares, especialmente em etapas como o ensino médio, nas quais os índices de abandono tendem a ser mais elevados.

Nesse contexto, a redução de aproximadamente 1 milhão de matrículas na educação básica, registrada no último levantamento, suscita interpretações que exigem análise cuidadosa. Embora, em um primeiro momento, tal dado possa sugerir aumento da evasão escolar, a leitura articulada das informações indica que essa redução está associada, em parte, à diminuição da população em idade escolar e à redução da distorção idade-série, o que reflete mudanças demográficas e melhorias nos fluxos escolares.

Ainda assim, a evasão escolar não pode ser compreendida apenas a partir de indicadores quantitativos isolados. Trata-se de um fenômeno complexo, que envolve dimensões sociais, econômicas, culturais e institucionais.

A evasão e o abandono escolar são caracterizados quando os alunos e as alunas deixam de ir para a escola sem motivos justificáveis pela legislação. Mesmo com o direito à educação garantido por lei e a existência de uma Rede de Atenção Psicossocial que fiscaliza a frequência, as estatísticas denunciam o desaparecimento de grande parcela da população dos bancos escolares, ano após ano, e mostram que a evasão atinge em número muito maior quem é negra, negro, pobre, mãe ou está no trabalho informal, não remunerado ou mal remunerado (Ratusniak, 2024, p. 02).

As trajetórias escolares interrompidas frequentemente estão relacionadas a situações de vulnerabilidade social, trabalho precoce, dificuldades de aprendizagem e ausência de políticas de apoio que garantam condições efetivas de permanência.

Os dados do Censo Escolar também apontam para avanços importantes na organização da oferta educacional, como a expansão da educação em tempo integral. Entre 2021 e 2025, o percentual de matrículas nessa modalidade na rede pública passou de 15,1% para 25,8%, permitindo ao país atingir a Meta 6 do Plano Nacional de Educação. Tal expansão tem sido apresentada como estratégia para fortalecer a permanência dos estudantes na escola, ao ampliar o tempo educativo e diversificar as experiências formativas.

No Ensino Médio, etapa historicamente mais vulnerável à evasão, também se observam mudanças relevantes. O aumento das matrículas em tempo integral e a implementação de políticas de incentivo financeiro, como o programa Pé-de-Meia, indicam esforços institucionais voltados à permanência e à conclusão escolar. Essas iniciativas buscam enfrentar fatores que tradicionalmente contribuem para o abandono, especialmente entre jovens em situação de vulnerabilidade socioeconômica.

Outro indicador relevante refere-se à redução da distorção idade-série, que caiu de forma significativa nos últimos anos, tanto no ensino fundamental quanto no ensino médio. Esse movimento sugere melhoria nos fluxos escolares e pode contribuir para a diminuição do abandono, uma vez que o atraso escolar é reconhecido como um dos principais fatores associados à evasão. Ainda assim, persistem desigualdades importantes, especialmente quando se consideram marcadores como raça/cor, evidenciando que estudantes pretos e pardos apresentam maiores índices de atraso.

Além disso, os dados revelam avanços na infraestrutura educacional, como a ampliação do acesso à internet nas escolas, que passou de 82,8% em 2021 para 94,5% em 2025. Embora tais melhorias contribuam para qualificar as condições de ensino e aprendizagem, elas não são, por si só, suficientes para garantir a permanência dos estudantes, sobretudo em contextos marcados por desigualdades sociais profundas.

Diante desse cenário, torna-se evidente que o enfrentamento da evasão escolar exige uma abordagem que vá além da ampliação do acesso e da oferta educacional. As políticas públicas recentes têm incorporado estratégias de monitoramento e acompanhamento, como as iniciativas de busca ativa, que visam identificar estudantes em risco de abandono e promover sua reinserção no sistema educacional. No entanto, a efetividade dessas ações depende de sua articulação com outras políticas sociais.

Assim, este artigo parte do pressuposto de que a evasão escolar deve ser analisada como expressão de processos sociais mais amplos, que extrapolam o campo educacional. Ao mobilizar dados do Censo Escolar e dialogar com políticas de busca ativa e permanência, busca-se compreender as tendências recentes do fenômeno no Brasil, bem como os limites e as possibilidades das estratégias adotadas. A análise proposta pretende contribuir para o debate sobre a necessidade de políticas integradas, orientadas não apenas ao retorno à escola, mas à garantia de trajetórias escolares contínuas, equitativas e socialmente referenciadas.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

A evasão escolar constitui fenômeno complexo, atravessado por dimensões sociais, econômicas, culturais e institucionais, não podendo ser compreendida como resultado de escolhas individuais isoladas. A literatura educacional aponta que o abandono da escola está profundamente relacionado às desigualdades estruturais que organizam a sociedade, incidindo de forma diferenciada sobre grupos sociais historicamente marginalizados (Ratusniak, 2024; CEPAL, 2021). Nesse sentido, a evasão não se configura como evento pontual, mas como processo que se constrói ao longo das trajetórias escolares.

A análise desse fenômeno exige considerar os mecanismos de exclusão que operam no interior da própria escola. A instituição escolar, ao mesmo tempo em que se apresenta como espaço de inclusão, pode produzir formas sutis e explícitas de afastamento dos estudantes, sobretudo daqueles que não se ajustam aos padrões hegemônicos de comportamento e desempenho (Saviani, 2008; Ratusniak, 2024). Tal dinâmica evidencia que a evasão é frequentemente precedida por experiências reiteradas de fracasso escolar.

A partir dessa perspectiva, torna-se possível compreender que o abandono escolar está articulado a processos de deslegitimação dos sujeitos no espaço educativo. Estudantes que não conseguem acompanhar o ritmo das atividades escolares, ou que enfrentam dificuldades decorrentes de suas condições sociais, acabam sendo progressivamente afastados das dinâmicas pedagógicas, o que contribui para a construção de trajetórias marcadas pela exclusão (Ratusniak, 2024).

No campo das relações sociais, a evasão escolar revela-se atravessada por marcadores como raça, gênero e classe social. Esses elementos não atuam de forma isolada, mas interseccionam-se, produzindo experiências diferenciadas no interior da escola (Ratusniak, 2024). A literatura evidencia que estudantes negros, pobres e pertencentes a contextos vulneráveis são mais suscetíveis ao abandono escolar, o que aponta para a permanência de desigualdades históricas no sistema educacional (CEPAL, 2021).

A discussão sobre gênero também se mostra relevante na compreensão das dinâmicas de evasão. As trajetórias escolares de meninas e meninos são marcadas por expectativas sociais distintas, que influenciam diretamente sua permanência na escola (Ratusniak, 2024). Enquanto meninas podem ser afastadas do ambiente escolar em função de responsabilidades familiares, meninos frequentemente são associados a discursos de desinteresse e indisciplina.

Nesse contexto, a produção social do “aluno desinteressado” deve ser problematizada. Tal categoria não pode ser compreendida como característica intrínseca ao estudante, mas como resultado de processos institucionais e discursivos que atribuem sentido ao comportamento dos alunos (Ratusniak, 2024). Essa construção contribui para a naturalização da evasão, deslocando a responsabilidade do sistema educacional para o indivíduo.

A partir de uma leitura foucaultiana, os documentos e registros escolares podem ser compreendidos como dispositivos que produzem verdades sobre os sujeitos. Ao classificarem estudantes como evadidos, tais registros não apenas descrevem uma situação, mas participam ativamente da construção dessa realidade (Ratusniak, 2024). Nesse sentido, a evasão escolar também deve ser analisada como efeito de práticas discursivas e relações de poder.

A articulação entre fracasso escolar e evasão revela-se central na compreensão do fenômeno. Antes de abandonar a escola, muitos estudantes vivenciam sucessivas experiências de insucesso, que comprometem sua relação com o aprendizado e com o espaço escolar (Saviani, 2008; Ratusniak, 2024). Esse processo contribui para o afastamento progressivo dos estudantes.

Nesse cenário, a evasão escolar não pode ser dissociada das condições materiais de existência dos estudantes. A necessidade de inserção precoce no mundo do trabalho, a precariedade das condições de vida e a ausência de políticas públicas eficazes de permanência escolar são fatores que impactam diretamente a continuidade dos estudos (CEPAL, 2021). Tais elementos evidenciam que a evasão está vinculada a uma lógica social mais ampla.

Além disso, a escola, ao não reconhecer a diversidade de trajetórias e experiências dos estudantes, contribui para a produção de exclusões. Currículos pouco sensíveis às realidades sociais dos alunos, práticas pedagógicas descontextualizadas e avaliações padronizadas tendem a reforçar desigualdades (UNESCO, 2020; UNESCO, 2021), dificultando a permanência de determinados grupos no sistema educacional.

A análise da evasão também demanda considerar os processos de racialização presentes na escola. O racismo estrutural atua de forma decisiva na organização das trajetórias escolares, afetando o acesso, a permanência e o desempenho dos estudantes (Ratusniak, 2024). A invisibilização das experiências de estudantes negros contribui para a reprodução de desigualdades no ambiente escolar.

Nesse sentido, a evasão deve ser compreendida como resultado de um processo mais amplo de exclusão social e educacional, no qual determinados grupos são sistematicamente afastados do direito à educação (Ratusniak, 2024; CEPAL, 2021). Tal compreensão permite deslocar o foco da responsabilidade individual para as condições estruturais que produzem o abandono.

Essa leitura também evidencia que a evasão não ocorre de maneira homogênea, mas incide de forma mais intensa sobre populações em situação de vulnerabilidade, como estudantes negros, pobres e inseridos em contextos de trabalho precário (Ratusniak, 2024). Tal distribuição desigual reforça a necessidade de políticas públicas que considerem as especificidades das trajetórias escolares.

A compreensão da evasão como processo implica reconhecer que, antes do abandono, há um percurso marcado por exclusões sucessivas e fracasso escolar reiterado (Saviani, 2008; Ratusniak, 2024). Esse processo tende a naturalizar a saída dos estudantes da escola, obscurecendo os mecanismos institucionais que produzem tal afastamento.

Diante disso, a evasão escolar deve ser analisada como expressão das desigualdades sociais e educacionais. A superação desse fenômeno exige não apenas intervenções pontuais, mas a transformação das estruturas que produzem exclusão no interior da escola e na sociedade (CEPAL, 2021; UNESCO, 2021).

Por fim, a reflexão teórica sobre a evasão aponta para a necessidade de construção de uma escola que reconheça a diversidade dos sujeitos e que seja capaz de promover condições reais de permanência. Isso implica repensar práticas pedagógicas, currículos e políticas educacionais, de modo a enfrentar as desigualdades que atravessam o sistema educacional (UNESCO, 2020; Saviani, 2008).

3. METODOLOGIA

A presente pesquisa caracteriza-se como de abordagem qualitativa, fundamentada em revisão bibliográfica e análise teórica de produções acadêmicas que discutem a evasão escolar a partir de seus determinantes sociais, educacionais e institucionais. A escolha por esse delineamento justifica-se pela necessidade de compreender o fenômeno em sua complexidade, considerando não apenas dados quantitativos, mas também os sentidos, discursos e práticas que o constituem no interior das relações escolares.

Do ponto de vista metodológico, a investigação apoia-se na compreensão de que o conhecimento científico não se reduz à aplicação de técnicas, mas se organiza a partir de pressupostos teóricos e epistemológicos que orientam a leitura da realidade. Nesse sentido, a metodologia é concebida como elemento estruturante da pesquisa, articulando teoria e análise, e possibilitando a construção de interpretações acerca do objeto investigado. Para Nunes (1993), a metodologia não se limita à descrição de procedimentos, mas expressa uma forma de compreensão do conhecimento e de sua produção no campo educacional .

Nessa perspectiva, adota-se como procedimento central a análise de literatura, mobilizando autores que discutem evasão escolar, desigualdades educacionais e processos de exclusão, com ênfase em abordagens críticas. A seleção das fontes considerou relevância temática, atualidade das produções e diálogo com o campo das políticas educacionais e das teorias sociais. A análise dos textos foi orientada pela identificação de categorias como fracasso escolar, exclusão, desigualdade estrutural e marcadores sociais, permitindo a construção de um quadro interpretativo do fenômeno.

A compreensão da metodologia enquanto mediação entre teoria e prática pode ser evidenciada na seguinte passagem:

A metodologia constitui a doutrina do método, a sua teoria. Ela discute os vários tipos particulares de métodos, organizando-os num sistema, que orienta num todo teórico o trabalho de investigação da realidade. A metodologia explica um conjunto de métodos, donde também decorre a técnica. A metodologia de ensino pode ser entendida, então, como a aplicação dos princípios gerais de uma ciência, traduzidos nos seus métodos de investigação nas situações de ensino. (Nunes, 1993, p. 51)

A pesquisa assume que a produção do conhecimento se dá em estreita relação com as condições históricas e sociais em que está inserida. Assim, a análise desenvolvida busca não apenas descrever o fenômeno da evasão escolar, mas interpretá-lo como expressão de relações sociais mais amplas, contribuindo para o debate educacional e para a reflexão sobre políticas públicas voltadas à permanência escolar.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES

A evasão escolar configura-se como um fenômeno estrutural e multifacetado, cuja compreensão exige a articulação entre dimensões históricas, sociais, econômicas e institucionais. Longe de se reduzir a um ato individual de abandono, trata-se de um processo socialmente produzido, que reflete desigualdades persistentes no acesso, na permanência e na qualidade da educação. Nesse sentido, a literatura converge ao apontar que a evasão não pode ser analisada de maneira isolada, devendo ser compreendida no interior de dinâmicas mais amplas de exclusão social (Araujo et al., 2025) .

Primeiramente, é relevante estabelecer a distinção conceitual entre evasão e abandono escolar, uma vez que tal diferenciação contribui para maior precisão analítica. Conforme Maitê e Arraes (2015), o abandono refere-se à interrupção temporária da frequência escolar, enquanto a evasão implica o rompimento definitivo do vínculo institucional. Johann (2012) reforça essa compreensão ao definir a evasão como a não renovação da matrícula, caracterizando uma ruptura formal com a instituição escolar. Essa distinção permite identificar diferentes trajetórias educacionais e, consequentemente, distintos mecanismos de intervenção.

A análise das causas evidencia a complexidade do fenômeno, que se estrutura a partir da interseção de múltiplos fatores. A literatura destaca que aspectos socioeconômicos exercem influência decisiva, especialmente em contextos de vulnerabilidade social. A necessidade de inserção precoce no mercado de trabalho, por exemplo, constitui um dos principais determinantes da evasão, sendo responsável por parcela significativa dos casos, o que evidencia a centralidade da dimensão econômica na trajetória escolar (Sousa et al., 2025).

Nesse contexto, a desigualdade social emerge como eixo estruturante da evasão escolar. Autores como Silva (2019) e Soares (2001) apontam que a precariedade das condições de vida limita o acesso a recursos educacionais e reduz as possibilidades de permanência na escola. Assim, a evasão não pode ser compreendida apenas como falha individual, mas como expressão das desigualdades estruturais que atravessam a sociedade brasileira.

Além disso, fatores familiares desempenham papel significativo na configuração do fenômeno. Situações de instabilidade familiar, baixa escolaridade dos responsáveis e ausência de acompanhamento pedagógico tendem a fragilizar o vínculo do estudante com a escola. A literatura indica que tais condições contribuem para o desengajamento progressivo, culminando, em muitos casos, na evasão (Araujo et al., 2025).

Paralelamente, a dimensão institucional também se apresenta como elemento central na análise. A precariedade da infraestrutura escolar, associada à insuficiência de recursos didáticos e humanos, compromete a qualidade do ensino e impacta negativamente a experiência educacional. Estudos apontam que ambientes escolares pouco estruturados tendem a desmotivar os estudantes, contribuindo para o aumento das taxas de evasão (Sousa et al., 2025).

A organização curricular e as práticas pedagógicas constituem outro aspecto relevante. Currículos descontextualizados, que não dialogam com a realidade dos estudantes, são frequentemente apontados como fatores de desinteresse. Nesse sentido, a ausência de significado atribuído ao processo educativo contribui para o afastamento progressivo dos alunos, sobretudo no ensino médio.

A literatura crítica introduz, ainda, a noção de “expulsão escolar”, deslocando o foco da responsabilidade individual para os mecanismos institucionais de exclusão. Segundo essa perspectiva, a evasão pode ser compreendida como resultado de práticas escolares que não reconhecem as diversidades socioculturais, produzindo processos de marginalização de determinados grupos sociais (Sousa et al., 2025). Tal abordagem amplia o entendimento do fenômeno, evidenciando sua dimensão política.

Nesse cenário, questões relacionadas à discriminação e à violência simbólica também devem ser consideradas. Estudantes pertencentes a grupos historicamente marginalizados, como população negra e LGBTQIA+, encontram maiores barreiras de permanência, em virtude de práticas discriminatórias que permeiam o ambiente escolar. Tais experiências contribuem para o rompimento do vínculo educacional (Sousa et al., 2025).

Outro elemento relevante refere-se à violência no contexto escolar, incluindo o bullying, que impacta diretamente a saúde mental dos estudantes. Situações recorrentes de violência física ou psicológica tendem a gerar sofrimento emocional, levando, em muitos casos, à evasão como estratégia de proteção. Assim, a permanência escolar também depende da construção de ambientes seguros e acolhedores.

No âmbito individual, fatores como gravidez na adolescência e dificuldades de aprendizagem também aparecem como condicionantes da evasão. Tais aspectos, embora frequentemente analisados de forma isolada, devem ser compreendidos em articulação com as condições sociais mais amplas, evitando interpretações reducionistas (SOUSA et al., 2025) .

As consequências da evasão escolar são amplas e atingem tanto o indivíduo quanto a coletividade. No plano individual, a interrupção da trajetória educacional limita o acesso ao mercado de trabalho e reduz as possibilidades de mobilidade social. Além disso, compromete o desenvolvimento de habilidades cognitivas e críticas, fundamentais para o exercício da cidadania .

No plano social, os impactos se manifestam na ampliação das desigualdades e na reprodução de ciclos de pobreza. A literatura aponta que a evasão escolar está associada ao aumento da exclusão social, afetando diretamente o desenvolvimento econômico e social das comunidades (Araujo et al., 2025) . Trata-se, portanto, de um problema que transcende o campo educacional.

Sob a perspectiva econômica, estudos indicam que a evasão escolar gera perdas significativas para o país, incluindo redução da produtividade e aumento dos custos sociais relacionados à saúde e à segurança pública (Sousa et al., 2025) . Esse dado reforça a necessidade de políticas públicas eficazes voltadas à permanência escolar.

Gava, Lopes e Unbehaum (2025) destacam que a frequência irregular não deve ser interpretada como um fenômeno periférico, mas como um sinal estruturante das trajetórias de afastamento escolar, o que reforça a necessidade de deslocar o olhar analítico para momentos anteriores à ruptura definitiva com a escola (Gava; Lopes; Unbehaum, 2025).

Nesse sentido, os achados do presente estudo convergem com a proposição de que o abandono escolar se configura como um processo gradual, no qual a presença descontínua revela não apenas dificuldades objetivas de acesso, mas também fragilização do vínculo pedagógico e institucional. Conforme argumentam Gava, Lopes e Unbehaum (2025), a irregularidade na frequência expressa uma forma de participação precária, que tensiona a dicotomia tradicional entre presença e ausência, exigindo categorias mais sensíveis às nuances da permanência escolar.

Ademais, as autoras enfatizam que a análise da evasão escolar demanda o reconhecimento de sua multicausalidade, evitando interpretações simplificadoras que atribuem a responsabilidade exclusivamente aos estudantes ou às suas famílias. Ao contrário, Gava, Lopes e Unbehaum (2025) situam o fenômeno em um contexto mais amplo de desigualdades sociais, evidenciando que fatores como vulnerabilidade socioeconômica, condições de trabalho familiar e impactos de crises sanitárias, como a pandemia de COVID-19, incidem diretamente sobre a capacidade de manutenção da frequência escolar. Tal perspectiva dialoga com os resultados aqui discutidos, ao evidenciar a interdependência entre condições sociais e trajetórias educacionais.

Outro aspecto relevante apontado pelas autoras refere-se às limitações institucionais da escola no enfrentamento da evasão. Segundo Gava, Lopes e Unbehaum (2025), as estratégias tradicionalmente adotadas tendem a se concentrar na resposta ao abandono já consumado, o que reduz sua efetividade. Em contrapartida, defendem a necessidade de políticas educacionais orientadas para o monitoramento contínuo da frequência e para a construção de estratégias preventivas, capazes de intervir nos estágios iniciais do afastamento escolar. Essa proposição encontra respaldo nos dados analisados, que indicam a importância de ações precoces e sistemáticas.

As autoras também destacam a relevância da escuta dos profissionais da educação como elemento central para a compreensão do fenômeno. Ao valorizar as percepções de gestores e docentes, Gava, Lopes e Unbehaum (2025) evidenciam que o cotidiano escolar constitui um espaço privilegiado de produção de conhecimento sobre a evasão, permitindo identificar padrões, dificuldades e possibilidades de intervenção. Essa dimensão qualitativa, frequentemente negligenciada, mostra-se fundamental para a formulação de políticas mais aderentes às realidades locais.

A análise do panorama brasileiro revela a persistência do problema, apesar de avanços pontuais. Dados recentes indicam que ainda há contingente expressivo de crianças e adolescentes fora da escola, evidenciando a insuficiência das políticas implementadas. Ademais, o contexto pós-pandemia agravou desigualdades já existentes, intensificando os riscos de evasão.

Nesse sentido, a evasão escolar deve ser compreendida como expressão de um modelo educacional que, historicamente, não tem sido capaz de garantir equidade. Conforme Arroyo (2012), a escola precisa ser analisada em sua relação com as condições de vida dos sujeitos, reconhecendo que o direito à educação está intrinsecamente vinculado ao direito a condições dignas de existência.

A partir dessa perspectiva, torna-se evidente que o enfrentamento da evasão requer abordagens intersetoriais. Políticas educacionais isoladas mostram-se insuficientes diante da complexidade do fenômeno. É necessário articular ações nas áreas de assistência social, saúde e trabalho, visando à construção de condições efetivas de permanência escolar (Sousa et al., 2025).

Adicionalmente, a valorização da escola como espaço de pertencimento constitui elemento central. A literatura enfatiza que a permanência está diretamente relacionada à capacidade da instituição de promover vínculos significativos e reconhecer as singularidades dos estudantes. Nesse sentido, práticas pedagógicas inclusivas tornam-se fundamentais.

Por conseguinte, a reformulação curricular aparece como estratégia relevante, na medida em que possibilita maior articulação entre os conteúdos escolares e a realidade dos estudantes. Currículos contextualizados tendem a aumentar o engajamento e reduzir os índices de evasão, especialmente entre jovens do ensino médio.

Do mesmo modo, investimentos em infraestrutura e formação docente são imprescindíveis para a melhoria da qualidade educacional. Ambientes escolares adequados e profissionais qualificados contribuem para a construção de experiências educativas mais significativas, favorecendo a permanência dos estudantes (Sousa et al., 2025).

Por fim, a análise evidencia que a evasão escolar não pode ser enfrentada por meio de soluções simplistas. Trata-se de um fenômeno complexo, que exige compreensão aprofundada de suas múltiplas determinações. Assim, o enfrentamento efetivo da evasão implica a construção de políticas públicas integradas, orientadas pela perspectiva da equidade e pela garantia do direito à educação como dimensão fundamental da cidadania.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O percurso analítico empreendido neste estudo permitiu evidenciar que a evasão escolar no Brasil não constitui um fenômeno isolado ou circunstancial, mas expressa a materialização de desigualdades históricas que atravessam o sistema educacional e a organização social mais ampla. Embora os dados do Censo Escolar apontem avanços significativos no que se refere ao acesso à educação básica, permanece evidente que a permanência dos estudantes ainda se configura como um dos principais desafios das políticas públicas educacionais.

Os resultados indicam que iniciativas como a busca ativa e os programas de reinserção escolar desempenham papel relevante ao ampliar a visibilidade do fenômeno e possibilitar o retorno de estudantes que interromperam suas trajetórias. Todavia, tais estratégias, quando implementadas de forma isolada, mostram-se insuficientes para enfrentar as múltiplas determinações da evasão. A recorrente fragmentação das políticas públicas, somada à fragilidade da articulação intersetorial, limita o alcance dessas ações e compromete sua efetividade no longo prazo.

Nesse sentido, torna-se fundamental reconhecer que a evasão escolar se constrói ao longo de um processo gradual, marcado por experiências de fracasso, desengajamento e exclusão no interior da própria escola. Tal compreensão desloca o foco de análises centradas no indivíduo para uma perspectiva que considera os condicionantes estruturais, institucionais e sociais que incidem sobre as trajetórias escolares. Consequentemente, reforça-se a necessidade de políticas que atuem de maneira preventiva, identificando sinais precoces de afastamento e promovendo intervenções contínuas.

Ademais, os achados evidenciam que fatores como vulnerabilidade socioeconômica, inserção precoce no trabalho, desigualdades raciais e de gênero, bem como práticas pedagógicas descontextualizadas, constituem elementos centrais na produção e reprodução da evasão. Tal cenário indica que o enfrentamento do problema exige a construção de respostas que ultrapassem o campo educacional, articulando-se com políticas de assistência social, saúde e proteção integral.

Outro aspecto relevante refere-se à necessidade de ressignificação do papel da escola enquanto espaço de pertencimento e reconhecimento. A promoção de práticas pedagógicas inclusivas, aliada à reformulação curricular e ao investimento em formação docente e infraestrutura, apresenta-se como condição indispensável para a construção de trajetórias escolares mais significativas e contínuas.

Diante do exposto, conclui-se que o enfrentamento da evasão escolar demanda uma abordagem integrada, orientada pela garantia do direito à educação em sua dimensão mais ampla. Isso implica não apenas assegurar o acesso, mas criar condições concretas para a permanência e o sucesso escolar, considerando as especificidades dos sujeitos e os contextos em que estão inseridos. Assim, a superação desse fenômeno requer o compromisso com políticas públicas estruturantes, capazes de enfrentar as desigualdades e promover uma educação efetivamente inclusiva e socialmente referenciada.

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1 Doutorando em Psicologia – UNIP. Graduado em Pedagogia (UniDomBosco). Professor na UNIP. E-mail: [email protected]

2 Doutor em Ensino. Universidade do Estado do Amapá/ UEAP. E-mail: [email protected]

3 Doutoranda em Ambiente e saúde / UNIPLAC. Mestre em Ambiente e saúde / UNIPLAC. Fisioterapeuta e docente universitária. E-mail: [email protected]

4 Mestrado em Ciências da Educação - Educação Especial: Área de Especialização no Domínio Cognitivo e Motor pela UFP/PT. Professor da educação básica, séries finais. E-mail: [email protected]

5 Mestrado em matemática pelo PROFMAT UFRN. Professor de ensino básico. E-mail: [email protected]

6 Doutorando em Geografia pelo PPGG – UFPB. Professor da SEEC/RN. E-mail: [email protected]