QUANDO O CORPO VIRA ALVO: IMPACTOS DO ESTIGMA E O BULLYING GORDOFÓBICO NA VIDA DO ESTUDANTE ACIMA DO PESO
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REGISTRO DOI: 10.5281/zenodo.17756784
Leonardo Simões dos Santos1
RESUMO
Este artigo analisa como o estigma na perspectiva clássica de Erving Goffman, constitui a base sociocultural que sustenta e intensifica o bullying no ambiente escolar, especialmente em sua manifestação gordofóbica. A partir da noção de que o estigma não é uma marca inerente ao corpo, mas uma construção social que desvaloriza determinados atributos, o texto discute como crianças e adolescentes tornam-se alvos de violência quando seus corpos ou identidades destoam das normas de normalidade estabelecidas pela sociedade. Ao examinar processos como rotulação, estereotipização e discriminação, evidencia-se que o estigma opera como linguagem que organiza relações de poder e legitima práticas excludentes entre pares. Nesse contexto, a gordofobia emerge como uma das formas mais frequentes e devastadoras de violência escolar, dada a centralidade do ideal corporal magro na cultura contemporânea. Dados recentes apresentados por diversos autores mostram o crescimento da obesidade entre crianças e adolescentes e demonstram que esses jovens enfrentam não somente problemas de saúde, mas também humilhações, rejeição social e sofrimento emocional intenso que podem resultar em ansiedade, depressão, transtornos alimentares, isolamento e, em casos graves, ideação suicida. O artigo destaca ainda que a escola, ao invés de funcionar como espaço de proteção, muitas vezes reforça padrões estéticos e naturaliza práticas discriminatórias, especialmente durante atividades de Educação Física. Assim, compreender o estigma como fenômeno estrutural torna-se essencial para enfrentar a gordofobia escolar, evidenciando a necessidade de intervenções pedagógicas, formação docente, políticas inclusivas e ações institucionais que promovam respeito, diversidade corporal e dignidade humana. Combater o estigma e o bullying gordofóbico é tarefa ética e educativa urgente para a construção de ambientes escolares verdadeiramente acolhedores e igualitários.
Palavras-chave: Estigma; Gordofobia; bullying.
ABSTRACT
This article analyzes how stigma, in the classical perspective of Erving Goffman, constitutes the sociocultural foundation that sustains and intensifies bullying in the school environment, especially in its fatphobic manifestation. Based on the notion that stigma is not an inherent mark on the body but a social construction that devalues certain attributes, the text discusses how children and adolescents become targets of violence when their bodies or identities deviate from the norms of normality established by society. By examining processes such as labeling, stereotyping, and discrimination, it becomes evident that stigma operates as a language that organizes power relations and legitimizes exclusionary practices among peers. In this context, fatphobia emerges as one of the most frequent and devastating forms of school violence, given the centrality of the thin body ideal in contemporary culture. Recent data presented by several authors show the increase in obesity among children and adolescents and demonstrate that these young people face not only health problems but also humiliation, social rejection, and intense emotional suffering that may result in anxiety, depression, eating disorders, isolation, and, in severe cases, suicidal ideation. The article further highlights that the school, instead of functioning as a protective space, often reinforces aesthetic standards and naturalizes discriminatory practices, especially during Physical Education activities. Thus, understanding stigma as a structural phenomenon becomes essential for confronting fatphobia in schools, highlighting the need for pedagogical interventions, teacher training, inclusive policies, and institutional actions that promote respect, body diversity, and human dignity. Combating stigma and fatphobic bullying is an urgent ethical and educational task for the construction of truly welcoming and egalitarian school environments.
Keywords: Stigma; Fatphobia; Bullying.
1. INTRODUÇÃO
O estigma, entendido como mecanismo sociocultural de classificação e desvalorização de determinados indivíduos ou grupos, exerce papel decisivo na produção e manutenção do bullying no ambiente escolar. Desde a obra clássica de Erving Goffman (2004), compreende-se que o estigma não é uma marca inerente ao corpo, mas uma construção social atribuída por meio de expectativas normativas que definem quem é considerado “normal” e quem será visto como “manchado” ou “diminuído”. A partir dessa lógica, características físicas, comportamentais, raciais, de gênero ou identitárias tornam-se sinais de inferioridade, transformando crianças e adolescentes em alvos potenciais de violência simbólica, psicológica e física.
Assim, o estigma passa a funcionar como linguagem, como código social compartilhado, capaz de orientar práticas discriminatórias e reforçar hierarquias entre pares.
O estigma envolve processos interligados de rotulação, estereotipização, separação, perda de status e discriminação, sempre sustentados por relações de poder desiguais. Em contexto escolar, tais processos são intensificados pela dinâmica grupal, pelos padrões de beleza veiculados pela mídia, pelo olhar avaliativo do outro e pela fragilidade emocional típica da infância e adolescência.
O estigma compromete a autoestima, o bem-estar e a saúde mental das vítimas, gerando ansiedade, vergonha e sentimentos persistentes de inadequação. Assim, o bullying, longe de ser um fenômeno isolado, constitui-se como expressão prática do estigma: trata-se de violência que nasce da leitura social negativa sobre determinado atributo.
Nesse cenário, o bullying gordofóbico emerge como uma das formas mais recorrentes e devastadoras de estigmatização no ambiente escolar, justamente por envolver atributos corporais que se chocam com o padrão hegemônico de magreza valorizado pela sociedade contemporânea. Crianças e adolescentes que fogem desse ideal tornam-se, como descreve Goffman (2004), “presas fáceis” da violência, alvo de piadas, apelidos, humilhações e exclusões que marcam profundamente sua trajetória escolar e emocional.
Diversos estudos recentes apontam que a gordofobia escolar afeta não apenas a socialização, mas também a saúde mental e física das vítimas, podendo gerar transtornos alimentares, depressão, isolamento, evasão e até ideação suicida. O ambiente escolar, é o espaço que deveria ser formativo, acolhedor e inclusivo, transforma-se, assim, em palco de reprodução de desigualdades e sofrimentos.
Desse modo, compreender o estigma enquanto linguagem social torna-se fundamental para analisar o bullying gordofóbico. Ao reconhecer que essa violência não é fruto de comportamentos individuais isolados, mas expressão de estruturas culturais amplas, abre-se espaço para intervenções pedagógicas, políticas e comunitárias mais efetivas. Os autores que serão trabalhados aqui, reforçam que a prevenção exige enfrentamento direto às práticas que naturalizam insultos, padronizam corpos e silenciam sofrimentos. Assim, a presente discussão busca evidenciar como o estigma, descrito por Goffman e aprofundado por outros estudiosos, constitui terreno fértil para a construção do bullying gordofóbico nas escolas, destacando suas causas, manifestações e impactos, além da urgência de abordagens educativas que promovam respeito, diversidade corporal e dignidade humana.
2. O ESTIGMA COMO LINGUAGEM QUE FAVORECE O BULLYING NO AMBIENTE ESCOLAR
O conceito de estigma tornou-se central nos estudos sociológicos a partir da obra clássica de Erving Goffman, que leva o nome de “Estigma”. Para o autor, o estigma é um atributo profundamente desacreditador, que reduz uma pessoa de alguém comum e total a alguém “manchado e diminuído” aos olhos da sociedade.
Goffman (2004), afirma que a sociedade cria expectativas sobre como as pessoas deveriam ser; quando um indivíduo não corresponde a essas expectativas, é percebido como alguém com identidade deteriorada. O estigma, portanto, não está no corpo, mas na leitura social do atributo, ou seja, no julgamento coletivo que o transforma em marca negativa.
Goffman explica:
As pessoas estigmatizadas passam a viver sob o risco constante da rejeição, desenvolvendo estratégias para manejar sua identidade, como ocultar traços estigmatizantes ou tentar corrigir-se para se aproximar das normas sociais. Ao mesmo tempo, os “normais”, atuam como guardiões invisíveis de padrões estéticos, morais e comportamentais. Assim, o estigma se sustenta por processos sociais, não por características individuais (Goffman, 2004, p.14).
Outros autores ampliaram essa compreensão, como Link e Phelan (2001) que dizem, o estigma é composto por um conjunto de processos interligados: rotulação, estereotipização, separação, perda de status e discriminação, sempre dentro de contextos em que há desigualdade de poder. Essa definição é importante porque mostra que o estigma não é apenas um rótulo, mas um mecanismo que reforça hierarquias sociais.
No campo da psicologia social, Crocker et al. (1998) definem estigma como um atributo ou característica que provoca rebaixamento social em um contexto específico. Eles reforçam que o estigma afeta a autoestima, a saúde mental e o bem-estar das pessoas, podendo gerar ansiedade, vergonha e sentimento de inadequação, efeitos intensificados quando o estigma está ligado a aspectos corporais, como peso e aparência física.
De modo geral, o estigma funciona como uma forma de controle social, produzindo exclusão e sofrimento. Ao classificar pessoas como menos, o grupo dominante legitima discriminação, desigualdade e violência simbólica. Isso se torna especialmente evidente em fenômenos como o bullying gordofóbico, onde o corpo fora do padrão é transformado em sinal de falha moral, preguiça ou falta de disciplina. Nesses casos, o estigma opera sustentado por ideologias de beleza, saúde e valor pessoal.
As formas de violência e mecanismos de como ele se propaga na história são muito parecidos com o que acontece no bullying, Goffman (2004), ao relatar os tipos de violência mais comuns em relação ao estigma, elabora três tipos:
1) Físico: características físicas consideradas indesejáveis, como deformidades e anomalias corporais; 2) Psicológico: aspectos relacionados a falhas individuais, como falta de força de vontade, paixões consideradas excessivas ou inadequadas, crenças rígidas e errôneas, ou desonestidade. Esses fatores são frequentemente associados a condições como transtornos mentais, histórico de prisão, vícios, alcoolismo, homossexualidade, desemprego, tentativas de suicídio ou comportamentos políticos radicais e; 3) Raciais: discriminações baseadas em raça, nacionalidade ou religião, transmitidas hereditariamente e vistas como algo que afeta igualmente todos os membros de uma família (Goffman, 2004, p. 07).
Para o referido autor (2004), em todas essas formas de violência, está estampado o estigma, fazendo com que um indivíduo que se enquadra nestes tipos torne-se “presa fácil” para ser uma vítima da violência ou do bullying escolar. O estigma normalmente serão traços “negativos” da vítima, como uma característica física, um defeito, etc.
Para Fante e Prudente (2020), o apelido é umas das formas de bullying verbal, geralmente é uma das primeiras formas de ataque, apelidar os amigos de escola, mas é cruel. Os apelidos estigmatizam e reforçam os sintomas piores que o bullying deixa: ansiedade, depressão, evasão, vergonha, baixa autoestima das vítimas, entre outros sintomas. Esse tipo de bullying o verbal, também está relacionado a queda no desempenho escolar.
Ao receber um apelido, o aluno fica estigmatizado e sempre será lembrado pelo apelido que, num primeiro momento, ele não aceitou, mas terá que conviver com este estigma em seu período escolar e até mesmo ao sair da escola. Os apelidos geram subcategorias cruéis, como: gordofobia, homoafetividade, preconceito racial etc.
Em todas as formas de estigma, Goffman (2004) destaca de maneira clara que há características sociológicas comuns: uma pessoa que normalmente seria aceita nas interações sociais carrega uma marca que chama a atenção de forma negativa, afastando os outros e impedindo que seus demais atributos sejam reconhecidos.
O estigma é uma categoria que está inserida em vários tipos de violência, como a estrutural, esse tipo vai atingir as questões das minorias, grupos raciais, homoafetivos, entre outros; a violência simbólica, que se apresenta com humilhações e vai causar os principalmente os problemas de ordem psicológica.
De acordo com Fonseca:
Erving Goffaman, em sua obra Estigma, faz-nos perceber que um indivíduo estigmatizado por sua condição, não foge da linha preconceituosa da sociedade, mesmo adaptando a ela. Se um indivíduo homem se assume como homossexual sem demonstrar trejeitos femininos, ele ainda causa espanto, pois os indivíduos são educados a consumir e agir segundo padrões sociais de “normalidade” (Fonseca, 2018, p. 55).
Se um menino ou menino homoafetiva não se comportar segundo os padrões da normalidade são “presas fáceis” para o bullying e cyberbullying, isso é o estigma de Goffman, poderosamente trabalhado neste artigo.
Como visto em páginas anteriores a respeito do estigma de Goffman, pode-se dizer que a gordofobia se enquadra perfeitamente como categoria estigmatizada, pois a violência com crianças e adolescentes que se encontram nesta categoria é praticamente certo.
3. GORDOFOBIA
Infelizmente a obesidade é um problema não só no Brasil, mas em diversas partes do mundo, é uma preocupação de pais, médicos, professores e de vários setores da sociedade. Conforme estudo realizado por Nunes e Silva (2024) para a Fiocruz, cerca de 15% das crianças e 8% dos adolescentes enfrentam problemas relacionados à obesidade. Além disso, estima-se que oito em cada dez adolescentes que apresentam obesidade mantenham essa condição na vida adulta.
O problema da obesidade não é apenas com relação ao bullying, mas também pelos vários problemas de saúde que a obesidade causa: diabetes, problemas cardíacos e má formação do esqueleto (Nunes; Silva, 2024).
Conforme Adelardi (2022) na Argentina, a gordofobia ocupa o segundo lugar de discriminação, ressalta que a Argentina é o segundo país do mundo com maior quantidade de casos de transtornos alimentares.
O Brasil não fica muito para trás, é o que aponta Rocha (2023), em 2023 uma pesquisa apontou que 17% de jovens entre 17 e 24 anos são obesos e metade da população brasileira está acima do peso. A pesquisa também mostrou que o sedentarismo é um dos fatores que colaboram para esse índice.
Os dados acima justificam a violência nas escolas com crianças e adolescentes que se encontram acima do peso e obesas, para as vítimas, a gordofobia é retratada como bullying.
A gordofobia, em uma definição simplista é o preconceito contra pessoas que estão acima do peso, denominadas por muitos como pessoas gordas, é considerada um dos tipos mais graves de bullying, pelo fato de envolver a discriminação e o estigma de Goffman, o ambiente escolar é o palco principal para cenas de gordofobia na infância e adolescência. A vítima sempre relata piadas, comentários sobre seu peso, forma do corpo, fazendo destas vítimas presas fáceis do bullying.
Conforme classificação de Souza e Gonçalves (2022):
Quando uma pessoa não se encaixa no padrão de beleza imposto pela sociedade, especialmente no que diz respeito ao corpo magro, ela se torna alvo de discriminação, exclusão social e desdém por causa de sua aparência física. Essas atitudes discriminatórias são conhecidas como gordofobia, um preconceito baseado no peso. Esse fenômeno se intensifica na sociedade devido à imposição de padrões relacionados à forma do corpo, gerando aversão em relação àqueles considerados fora desse padrão, especialmente as pessoas com sobrepeso (Souza; Gonçalves, 2022, p. 02).
Os padrões sociais, serão determinantes para escolha da vítima, como o padrão de beleza estabelecido para sociedade é o corpo magro, a pessoa que não possui esse padrão será a vítima, isso se enquadra no estigma do Goffman, assim como o racismo e a homofobia.
Com relação ao bullying gordofóbico para Bonetto e Gonçalves (2022) ele acontece com muita recorrência principalmente em aulas de Educação Física, pois essa é uma das disciplinas onde o corpo é “adorado”, local que os padrões estéticos se estabelecem. Esse tipo de bullying independe do gênero, todos que entram na categoria de gordos, tornam-se vítimas.
As vítimas de gordofobia, muitas descrevem uma quantidade grande de sofrimento psicológico (como pensamentos suicidas, depressão, relacionamentos abusivos, sentimentos de inadequação, culpa por não emagrecer, ansiedade etc.) e consequências cotidianas (no transporte público, nas relações familiares, em consultas médicas, em lojas de roupas, na academia, entrevistas de emprego, em relacionamentos amorosos, entre outros) (Bonetto; Gonçalves, 2022, p. 04).
Outro autor que salienta que a bullying gordofóbico acontece nas aulas de Educação Física é Valle (2021) manifestações gordofóbicas ocorrem, principalmente, nas aulas de educação física, que exigem mobilidade e agilidade. Gordos são estereotipados como incapazes e raramente escolhidos pelos colegas nas atividades coletivas, além de serem diariamente constrangidos e ofendidos.
Infortunadamente, não há legislação específica em relação a esse público no país. Na escola, porém, o tema pode ser tratado via lei antibullying 13.185/2015.
Está aí, mais uma categoria do bullying em que a pior consequência para vítima é o efeito psicológico, normalmente a vítima de violência terá alguma consequência psicológica, mas a gordofobia é cruel por estigmatizar a vítima e colocá-la numa prateleira de inferioridade incrível.
O termo mais comumente utilizado para o bullying contra pessoas gordas, é: bullying gordofóbico que segundo Ramos (2019) trata-se de agressões recorrentes e organizadas direcionadas a crianças e adolescentes com obesidade no contexto escolar.
Para a autora citada (2019) o bullying gordofóbico traz consigo uma pré-julgamento que pessoas gordas são: doentes, incapazes, fedidas, sujas, feias, o que não é realidade.
Segundo Ramos (2019):
No contexto de bullying, a gordofobia é caracterizada por atitudes humilhantes e preconceituosas contra pessoas gordas, frequentemente gerando um impacto profundo na autoestima e saúde mental das vítimas. Geralmente estudantes com sobrepeso são alvo de chacotas, insultos ou exclusão de atividades sociais e esportivas, levando ao isolamento e até a depressão. No caso do cyberbullying, a gordofobia pode se intensificar devido ao anonimato e ao alcance das redes sociais. As vítimas podem ser alvo de ataques através de mensagens ofensivas, memes cruéis, fotos manipuladas e discursos de ódio. Isso pode agravar o sofrimento emocional da pessoa, amplificando os danos à saúde mental, como ansiedade e distúrbios alimentares (Ramos, 2019, p. 79).
Em espanhol a palavra que traduz gordofobia é “gordo ódio” não é o medo incontrolável de pessoas gordas, mas um rechaçar de pessoas gordas, isso já está arraigado na cultura que visa e busca padrões de beleza num corpo magro (Lavia, 2022).
Segundo ensina Lavia (2022) o discurso gordofóbico incentiva o desenvolvimento de doenças para a vítima: desenvolvimento de transtorno da saúde, distorção da imagem corporal, depressão, ansiedade, anorexia, bulimia, entre outros problemas.
Já está claro que a gordofobia quando acontece no ambiente escolar é bullying, as consequências são as mesmas, as pessoas que sofrem este tipo de discriminação passam pelos mesmos processos que qualquer outra vítima de bullying.
Para os autores Paranhos e Jimenez (2023) a gordofobia na escola se utiliza do ambiente perfeito, pois ele é o palco para este tipo de violência:
O ambiente escolar é um espaço onde a gordofobia é disseminada, afetando não apenas os alunos, mas toda a comunidade escolar. Pais, responsáveis, professores, coordenadores, diretores, além das equipes de limpeza e alimentação, entre outros, também são impactados por esse estigma. A escola perpetua a gordofobia de várias maneiras, como pela ausência de treinamentos ou abordagens sobre o tema, ou ainda pela estrutura das instalações educacionais, que muitas vezes é voltada exclusivamente para corpos considerados "normais", ou seja, magros (Paranhos; Jimenez, 2023, p. 154).
Para os autores supra (2023), a gordofobia vai além, é um preconceito para com pessoas gordas, considerando que essa discriminação é um estigma estrutural, institucionalizado, propagado culturalmente em muitos espaços e contextos sociais na contemporaneidade, levando pessoas gordas à exclusão social, negando a acessibilidade, patologizando, medicalizando e hierarquizando as pessoas gordas, desde suas infâncias até a fase adulta. Ainda salientam que todo esse processo acaba por desvalorizar, humilhar, inferiorizar, e restringir os obesos, de modo geral, levando a perda de direitos.
É muito cruel como esta categoria de bullying, muitas vezes não tem uma ação escolar, pois infelizmente no Brasil e acredita-se que em diversas partes do mundo a obesidade ou sobrepeso na infância e adolescência está apenas na prateleira da área da saúde e não educacional, assim, quando tem uma criança ou adolescente com problemas corporais, os pais são convocados e lhe pedem para que procure um médico endocrinologista ou até mesmo outros profissionais como nutricionista e psicólogos para lidar com a situação.
Conforme Amorim (2021):
A violência dentro do espaço escolar é um grande problema porque ameaça a juventude as expondo a situações que deixam marcas em toda a vida. O número de jovens com depressão é preocupante e tem se tornado um ponto chave nas discussões sobre juventude. O racismo, a gordofobia, homofobia, intolerância religiosa, o machismo e a violência de classe são as fontes dessas agressões e elas estão presentes em toda a sociedade. Cabe aos profissionais da educação, desnaturalizar tais violências, vale apontar a necessidade das escolas de possuírem um profissional capacitado e dedicado a mediação de conflitos no ambiente escolar (Amorim, 2021, p. 89).
A importância da mediação do conflito por parte da gestão escolar é algo ressaltado por diversos autores nesta tese, combater a violência, principalmente nestas categorias trazidas pelo autor supracitado é de extrema importância para o combate à violência.
Segundo Matuoka (2023), é essencial abordar a gordofobia no ambiente escolar, ouvir os estudantes que sofrem com essa questão e promover uma transformação na escola, criando um espaço verdadeiramente inclusivo, diverso e acolhedor.
Fernandes (2021) também aborda a importância da prevenção da gordofobia nas escolas, destacando a urgência de tratar desse tema desde a educação infantil. A autora ressalta que a gordofobia começa com atitudes cruéis, como piadas durante as aulas de Educação Física, em eventos e festas. Ela defende a necessidade de investir na capacitação dos professores sobre o assunto, promovendo debates, atividades lúdicas e outras abordagens para enfrentar essa questão.
Ramos (2023) apresenta algumas consequências da gordofobia, que em sua maioria são de cunho psicológico: depressão, a ansiedade, isolamento, fuga, etc.; alguns jovens e adolescentes desenvolvem transtornos alimentares como a bulimia e anorexia, principalmente as meninas.
Dr. Ramirez (2021) apresenta outras consequências do bullying gordofóbico: algumas vítimas se sentem culpadas pelo corpo que possuem, outras sentem vergonha, trazendo os transtornos alimentares como, anorexia e bulimia; a depressão, transtorno de ansiedade generalizada, entre outros problemas.
Para Souza e Gonçalves (2022), as consequências podem ser extremas, até o suicídio:
Entre os prejuízos causados por essa prática, destacam-se os efeitos de médio e longo prazo, como o aumento do risco de desenvolver transtornos emocionais, incluindo ansiedade, depressão, distúrbios alimentares, dependência de substâncias e até mesmo suicídio. É importante salientar que esses danos não são exclusivos das fases da infância e adolescência, mas é nesse período que o indivíduo se encontra em uma fase de maior vulnerabilidade psicológica (Souza; Gonçalves, 2022, p. 06).
Mais uma vez uma gama de consequências psicológicas que a violência causa, não importa o tipo, as consequências são severas para indivíduo, podendo chegar ao suicídio na escola, é comum vermos no Brasil o crescente números de crianças e adolescentes se matando ou até mesmo morrendo após casos de bullying físico.
Quanto ao combate, Ramos (2023) diz que precisa passar pela conscientização e educação, fazendo as pessoas entenderem que a obesidade é um problema complexo que envolve fatores genéticos, ambientais e sociais.
De acordo com Silva (2023) o combate a gordofobia, necessita da promoção de um ambiente acolhedor, que envolva muita aceitação, inclusão e o respeito por pessoas de todos os tamanhos e formas corporais.
As informações de Ramos (2023) e Silva (2023) são importantes para a mitigação e o combate ao bullying gordofóbico. A compreensão deste tipo de problema é fundamental para o combate, bem como suas consequências para saber lidar.
4. CONCLUSÃO
A partir das discussões apresentadas, torna-se evidente que o estigma, na perspectiva clássica de Goffman, constitui um dos pilares centrais para compreender como o bullying se estrutura e se perpetua no ambiente escolar. Ao transformar atributos físicos, psicológicos ou sociais em marcas depreciativas, o estigma cria uma linguagem que legitima práticas excludentes e hierarquizadas. O estigma envolve processos de rotulação, estereotipização e discriminação sustentados por desigualdades de poder, o que reforça que esse fenômeno ultrapassa o indivíduo, enraizando-se nas dinâmicas sociais. Nesse cenário, o ambiente escolar torna-se um espaço privilegiado para observar como tais processos se transformam em violência simbólica, verbal, física e emocional.
Quando articulado com questões corporais, especialmente o peso e a aparência física, o estigma revela ainda mais sua potência destrutiva, configurando-se como base para o bullying gordofóbico. Os dados apresentados por diversos autores demonstram que a obesidade infantil e adolescente é crescente e, além de constituir um desafio de saúde pública, torna-se gatilho para práticas humilhantes, exclusão social e sofrimento psicológico profundo. A gordofobia, conforme visto em páginas acima, emerge de padrões estéticos rígidos e inalcançáveis que classificam o corpo magro como desejável e o corpo gordo como inadequado, preguiçoso ou incapaz, reforçando estereótipos que naturalizam a violência. Evidencia-se também que a escola, muitas vezes, reforça tais padrões ao não acolher corpos diversos e ao negligenciar ações preventivas e inclusivas.
As consequências dessa dinâmica são severas: ansiedade, depressão, distúrbios alimentares, isolamento, queda do rendimento escolar e, em casos extremos, ideação suicida. A literatura demonstra que essas marcas perduram por toda a vida, indo muito além do período escolar. Diante disso, torna-se imprescindível que a escola assuma um papel ativo no enfrentamento ao estigma e à gordofobia, compreendendo que tais violências não são questões apenas de saúde, mas de educação, convivência e cidadania. A promoção de ambientes seguros, acolhedores e diversos, aliada à formação continuada dos profissionais da educação e à construção de práticas pedagógicas inclusivas, é essencial para romper com a lógica da exclusão.
Conclui-se, portanto, que combater o estigma e o bullying gordofóbico não é apenas uma necessidade ética, mas uma responsabilidade coletiva na construção de uma escola capaz de respeitar e valorizar a dignidade de todos os seus alunos.
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1 Doutorando em Educação pela Christian Business School – USA. - Doutorado Livre em Psicanálise pela American Andragogy University - EUA (conclusão 2023). - Mestrado em Educação pela Universidad de la Empresa – Uruguai (conclusão 2022). - Mestrado Livre em Teologia pela Faculdade Metodista Livre de São Paulo (conclusão 2008). - Mestrado com dupla titulação: Internacional en Psicologia Infantil y adolescente / Internacional en Coach e Inteligência Emocional Infantil y juvenil pela Esneca Bussiness School - Espanha (conclusão 2022). - MBA em Gestão Empresarial Estratégica de Negócios pela Universidade de São Paulo-USP (conclusão 2006). - Pós-graduação em Psicanálise pela Faculdade Iguaçu (conclusão 2023). - Curso de Extensão em Capacitação em Comunidades Terapêuticas pela UNESP (conclusão em 2011). – Graduação em Teologia pela Faculdade Teológica Batista de São Paulo (conclusão 2004). – Graduação em Psicologia pela Universidade São Marcos (conclusão 2012). – Graduação em História pela Faculdade Campos Eliseos (conclusão 2025). - Gerente de Relacionamento na GPS Pamcary Logistica e Gerenciamento de Risco Ltda. (1999 - atual) / Psicólogo Clínico (2012 - atual) / Foi Professor de Teologia pela Faculdade de Teologia Metodista Livre de São Paulo nas áreas de Psicologia Pastoral, Novo Testamento, Aconselhamento, Religiões comparadas e Ética (anos de ministração de aulas 2015-2018).