REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/777864867
RESUMO
A vacinação infantil constitui uma das principais estratégias de prevenção de doenças, sendo essencial para a redução da morbimortalidade. Entretanto, observa-se o aumento da hesitação vacinal, influenciada, entre outros fatores, pela disseminação de informações nas redes sociais. Este estudo teve como objetivo analisar produções científicas atuais acerca de como as redes sociais influenciam a adesão dos pais à vacinação infantil. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, de abordagem qualitativa, realizada nas bases de dados LILACS, MEDLINE e SciELO, incluindo estudos publicados entre 2021 e 2024, disponíveis na íntegra, nos idiomas português, inglês e espanhol, resultando em uma amostra final de seis artigos. Os resultados evidenciaram que a disseminação de fake news nas redes sociais contribui para o aumento da hesitação vacinal, influenciando negativamente a decisão dos pais quanto à vacinação infantil. Observou-se que fatores como percepção de risco, crenças individuais e exposição a conteúdos desinformativos impactam diretamente a adesão ao calendário vacinal. A análise dos estudos indica que a desinformação atua na construção de percepções negativas sobre as vacinas, reduzindo a confiança nos programas de imunização. Destaca-se ainda o papel do enfermeiro na promoção da vacinação, por meio da educação em saúde e do combate à desinformação. Conclui-se que as redes sociais exercem influência significativa na adesão à vacinação infantil, sendo necessário o fortalecimento de estratégias de comunicação em saúde e da atuação da enfermagem para ampliar a confiança da população nas vacinas.
Palavras-chave: Vacinação; Hesitação Vacinal; Redes Sociais; Enfermagem; Saúde Pública.
ABSTRACT
Childhood vaccination is one of the main strategies for disease prevention, being essential for reducing morbidity and mortality. However, there is an increase in vaccine hesitancy, influenced, among other factors, by the dissemination of information on social media. This study aimed to analyze current scientific productions on how social media influences parents' adherence to childhood vaccination. This is an integrative literature review, with a qualitative approach, carried out in the LILACS, MEDLINE, and SciELO databases, including studies published between 2021 and 2024, available in full, in Portuguese, English, and Spanish, resulting in a final sample of six articles. The results showed that the dissemination of fake news on social media contributes to increased vaccine hesitancy, negatively influencing parents' decisions regarding childhood vaccination. It was observed that factors such as risk perception, individual beliefs, and exposure to misinformation directly impact adherence to the vaccination schedule. Analysis of the studies indicates that misinformation contributes to the construction of negative perceptions about vaccines, reducing confidence in immunization programs. The role of nurses in promoting vaccination through health education and combating misinformation is also highlighted. It is concluded that social media exerts a significant influence on adherence to childhood vaccination, making it necessary to strengthen health communication strategies and the role of nurses to increase public confidence in vaccines.
Keywords: Vaccination; Vaccine Hesitation; Social Networks; Nursing; Public Health.
1. INTRODUÇÃO
Este estudo visa entender como as informações compartilhadas nas redes sociais afetam a decisão na vacinação infantil. A escolha desse tema vem por meio das discussões que tivemos durante a graduação sobre a queda nas taxas de vacinação no Brasil, especialmente entre as crianças. Nota-se que os pais e responsáveis estão usando cada vez mais as redes sociais como fonte de informações sobre saúde. Isso nos faz questionar a qualidade e a veracidade dessas informações e como elas afetam as pessoas. Por isso, é importante saber como essas publicações influenciam a decisão de vacinar as crianças.
A imunização constitui uma das estratégias mais eficazes para a prevenção de doenças imunopreveníveis, configurando-se como uma das principais intervenções em saúde pública. Isso porque a vacinação ajuda a reduzir significativamente o número de crianças que ficam doentes ou morrem por causa dessas doenças, isso tem sido visto ao longo das últimas décadas (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2023).
No Brasil, o Programa Nacional de Imunizações (PNI) é o responsável por coordenar as ações de vacinação, ofertando vacinas importantes para as crianças de forma gratuita, o que ajuda a controlar e até mesmo erradicar algumas doenças, sendo um dos pilares para a saúde das crianças no Brasil (BRASIL, 2024).
A Constituição Federal de 1988 estabelece, em seu artigo 227, que a família, a sociedade e o Estado têm a responsabilidade de garantir à criança o direito à vida e à saúde, com prioridade absoluta (BRASIL, 1988). O Estatuto da Criança e do Adolescente determina que a vacinação é obrigatória nos casos recomendados pelas autoridades sanitárias, reforçando que a imunização infantil é uma questão de saúde pública e coletiva (BRASIL, 1990).
A ampliação das coberturas vacinais no Brasil permitiu que o país eliminasse doenças importantes que podem ser prevenidas com vacinas. A poliomielite, por exemplo, não tem casos no Brasil desde 1989, graças às estratégias de vacinação. Algo semelhante aconteceu com o sarampo, que não circula mais no país desde 2016, após campanhas de vacinação e monitoramento. Isso evidencia que a vacinação das crianças tem um impacto direto na redução de doenças e mortes (BRASIL, 2014; BRASIL, 2022).
Além disso, o Brasil também eliminou a rubéola e a síndrome da rubéola congênita em 2015, mantendo altas taxas de vacinação nas crianças e em campanhas de acompanhamento. Esses avanços mostram que a vacinação é uma das medidas mais eficazes em saúde pública, fundamental para prevenir o retorno de doenças já eliminadas (BRASIL, 2014; ORGANIZAÇÃO PANAMERICANA DA SAÚDE, 2015).
Nos últimos anos, o Brasil tem visto uma redução gradual nas taxas de vacinação das crianças, mesmo com todos os avanços que o PNI alcançou ao longo do tempo. Isso tem deixado muitos profissionais de saúde e gestores públicos bastante preocupados, como mostram os estudos recentes (SANTOS et al., 2024).
Existem diversos fatores que contribuem para a redução das coberturas vacinais, incluindo desigualdades no acesso aos serviços de saúde e os impactos decorrentes da pandemia de COVID-19. Ademais, a disseminação de desinformação acerca das vacinas tem se configurado como um dos principais desafios contemporâneos, comprometendo a confiança da população e influenciando negativamente a adesão à imunização (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 2019; UNICEF, 2023).
As redes sociais tornaram-se importantes meios de comunicação e compartilhamento de informações em saúde, influenciando comportamentos e decisões individuais. Entretanto, essas plataformas também facilitam a circulação de conteúdo não verificados, como fake News, que podem gerar dúvidas, medo e insegurança em relação à vacinação infantil (GASKELL et al., 2021).
No Brasil, a propagação de notícias falsas sobre vacinação se tornou mais visível durante a pandemia COVID-19. Isso fez com que mais pessoas questionassem a importância das vacinas e perdessem a confiança nas políticas de imunização. Essas notícias falsas muitas vezes se baseiam em informações distorcidas ou teorias sem fundamento (GALHARDI et al., 2022).
A literatura aponta que a exposição frequente a conteúdos desinformativos nas redes sociais pode influenciar negativamente a decisão dos pais quanto à vacinação dos filhos, favorecendo a hesitação vacinal e a adesão a crenças não baseadas em evidências científicas (GASKELL et al., 2021).
Nesse cenário, a atuação dos profissionais de enfermagem é muito importante, especialmente na atenção primária à saúde. O enfermeiro tem um papel estratégico na educação em saúde, esclarecendo dúvidas e fortalecendo o vínculo com as famílias. Isso ajuda a combater a desinformação sobre vacinação infantil (SILVA et al., 2024).
A educação em saúde, quando conduzida de forma ética, empática e baseada em evidências científicas, mostra-se eficaz na redução da hesitação vacinal e no aumento da confiança da população nas vacinas (SANTOS et al., 2024). Dessa forma, compreender o impacto das redes sociais na decisão parental é essencial para o planejamento de intervenções educativas mais efetivas.
A escolha desse tema vem por meio das discussões que tivemos durante a graduação sobre a queda nas taxas de vacinação no Brasil, especialmente entre as crianças. Nota-se que os pais e responsáveis estão usando cada vez mais as redes sociais como fonte de informações sobre saúde. Isso nos faz questionar a qualidade e a veracidade dessas informações e como elas afetam as pessoas. Por isso, é importante saber como essas publicações influenciam a decisão de vacinar as crianças. O objetivo é analisar produções científicas atuais acerca de como as redes sociais influenciam a adesão dos pais à vacinação infantil. A pergunta norteadora que orienta esta revisão integrativa é: ‘’como a disseminação de informações nas redes sociais sobre vacinação impacta na decisão dos pais em relação à vacinação infantil?’’.
2. METODOLOGIA
Este estudo consiste em uma revisão integrativa qualitativa, exploratória e descritiva sobre a literatura do tema. A pesquisa exploratória procura entender sobre um determinado fenômeno, enquanto a pesquisa descritiva busca analisar e descrever características relacionadas ao objeto de estudo. Já na abordagem qualitativa, ela compreende e interpreta informações presentes nos estudos analisados, sem utilizar os métodos estatísticos.
O desenvolvimento da revisão integrativa seguiu as etapas propostas por Mendes, Silveira e Galvão (2008), que incluem: definição do problema de pesquisa, estabelecimento de critérios de inclusão e exclusão, busca na literatura, avaliação dos estudos selecionados, análise e interpretação dos resultados e apresentação da síntese do conhecimento produzido.
Esta pesquisa é uma revisão integrativa por possibilitar a reunião, análise e síntese de pesquisas já publicadas sobre determinado tema, possibilitando uma compreensão mais abrangente acerca da influência das redes sociais na adesão dos pais à vacinação infantil. Este modelo de revisão busca contribuir para uma construção de conhecimento científico ao reunir evidências disponíveis na literatura, além de possibilitar a identificação de lacunas relacionadas ao tema investigado.
A coleta de dados foi realizada no período de janeiro a março de 2026, por meio de busca em bases de dados científicas relevantes na área da saúde, incluindo Scientific Electronic Library Online (SciELO), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e Google Acadêmico. Para a busca dos estudos foram utilizados descritores relacionados ao tema, como “vacinação infantil”, “redes sociais”, “fake news” e “hesitação vacinal”, combinados por meio dos operadores booleanos AND e OR, com o objetivo de ampliar e refinar os resultados encontrados.
A população do estudo foi composta por artigos científicos relacionados à influência das redes sociais na adesão à vacinação infantil. Foram incluídos artigos publicados nos últimos cinco anos, disponíveis na íntegra, nos idiomas português, inglês ou espanhol, que abordassem a relação entre redes sociais, desinformação, fake news ou hesitação vacinal relacionada à vacinação infantil. Foram excluídos estudos duplicados e aqueles que não apresentavam relação direta com o tema investigado.
Foram incluídos artigos publicados nos últimos cinco anos, disponíveis na íntegra, nos idiomas português, inglês ou espanhol, que abordassem a relação entre redes sociais, desinformação, fake news ou hesitação vacinal relacionada à vacinação infantil. Foram excluídos estudos duplicados, trabalhos que não apresentavam relação direta com o tema investigado.
Inicialmente realizou-se a identificação dos estudos por meio da leitura dos títulos e resumos. Em seguida, os artigos potencialmente relevantes foram selecionados para leitura na íntegra. Após essa etapa, foram incluídos na revisão apenas os estudos que atenderam aos critérios previamente estabelecidos. O processo de seleção dos artigos foi organizado e apresentado por meio de um fluxograma, permitindo visualizar as etapas de identificação, triagem e inclusão dos estudos.
A princípio, foram identificados 42 estudos nas bases de dados Scientific Electronic Library Online (SciELO), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e Google Acadêmico. Após a remoção de duplicatas e aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, 6 artigos foram selecionados para compor a amostra final desta revisão integrativa. O processo de seleção dos estudos está apresentado na Figura 1, por meio de fluxograma, permitindo a visualização das etapas de identificação, triagem e inclusão dos artigos.
Figura 1 – Fluxograma de seleção dos estudos incluídos na revisão integrativa.
A análise dos dados ocorreu por meio de leitura crítica e sistemática dos artigos selecionados, buscando identificar as principais evidências relacionadas à influência das redes sociais na decisão dos pais quanto à vacinação infantil. As informações extraídas dos estudos foram organizadas em tabelas contendo dados como autor, ano de publicação, objetivo do estudo e principais resultados. Posteriormente, os achados foram sintetizados e interpretados, possibilitando a construção das seções de resultados e discussão do estudo.
Por utilizar exclusivamente dados secundários provenientes de estudos já publicados em bases de dados científicas, esta pesquisa não envolveu contato direto com seres humanos, não sendo necessária a submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa, conforme estabelecido pela Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde. Ainda assim, foram respeitados os princípios éticos da pesquisa científica, garantindo a correta citação das fontes utilizadas.
3. RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS
Para organização e melhor compreensão dos achados, os dados foram sistematizados em tabelas. A Tabela 1 apresenta a caracterização dos estudos incluídos, segundo autor, ano, país, objetivo, tipo de estudo e principais resultados. Já a Tabela 2 sintetiza os achados em categorias temáticas, permitindo uma análise mais aprofundada e organizada das evidências encontradas.
Tabela 1 – Caracterização dos estudos incluídos na revisão integrativa
Frugoli et al., 2021 | Brasil | Analisar a influência das fake news na hesitação vacinal | Estudo qualitativo | A desinformação nas redes sociais gera medo e insegurança, contribuindo para a hesitação vacinal |
Gaskell et al., 2021
| Reino Unido
| Investigar fatores associados à | Estudo
|
Uso de redes sociais e crenças conspiratórias associam-se a maior hesitação vacinal |
Galhardi et al., 2022
| Brasil | Analisar a circulação de fake news sobre vacinação no Brasil
| Estudo
| As fake news reforçam discursos antivacina e impactam negativamente a confiança na vacinação |
Santos et al., 2024
| Brasil | Analisar a atuação da enfermagem frente às fake news | Estudo | O enfermeiro atua como mediador da informação e agente fundamental de educação em saúde |
Silva et al., 2024 | Brasil | Avaliar a influência da desinformação na adesão à vacinação | Revisão integrativa | Evidenciou-se associação entre fake news e redução da adesão ao calendário de vacinação |
Froes et al., 2025 | Brasil | Revisar estratégias de enfrentamento às fake news sobre vacinação | Revisão narrativa | A educação em saúde e a comunicação efetiva são estratégias fundamentais |
Fonte: elaboração do autor, 2026.
Na Tabela 1, observa-se que os estudos analisados apresentam como foco principal a influência das redes sociais e da desinformação na hesitação vacinal. De forma geral, os resultados apontam que a disseminação de fake news contribui para o aumento do medo, da insegurança e da desconfiança em relação às vacinas, impactando negativamente a adesão à vacinação infantil. Além disso, os estudos evidenciam que crenças pessoais, teorias conspiratórias e a falta de acesso a informações confiáveis estão diretamente associadas à redução da confiança nos programas de imunização.
Também se destaca, nos estudos analisados, o papel do enfermeiro como agente fundamental no enfrentamento da desinformação, atuando por meio da educação em saúde, da comunicação clara e do fortalecimento do vínculo com as famílias, contribuindo para a promoção da vacinação (SILVA et al., 2024).
A partir da análise dos estudos selecionados, foi possível organizar os achados em categorias temáticas, conforme apresentado na Tabela 2. A análise dos estudos permitiu a organização dos resultados em três categorias temáticas, apresentadas na Tabela 2: disseminação de fake news sobre vacinação infantil; hesitação vacinal de pais e responsáveis; e atuação do enfermeiro no enfrentamento da desinformação.
Tabela 2 – Síntese temática dos estudos
Categoria temática Evidências encontradas | |
Fake news e desinformação sobre vacinação | Os estudos apontam que informações falsas disseminadas nas redes sociais geram medo e insegurança quanto à segurança das vacinas |
Hesitação vacinal e tomada de decisão parental | A hesitação vacinal está associada à percepção de risco, crenças pessoais e exposição a conteúdos desinformativos |
Atuação do enfermeiro na promoção da vacinação | O enfermeiro exerce papel fundamental na educação em saúde, no esclarecimento de dúvidas e no fortalecimento do vínculo com as famílias |
Fonte: elaboração autor, 2026.
A amostra final foi composta por seis estudos, publicados entre 2021 e 2024, com predomínio de pesquisas realizadas no Brasil. Os delineamentos metodológicos incluíram estudos qualitativos, quantitativos e revisões integrativas.
A Tabela 2 apresenta a caracterização dos estudos incluídos, segundo autor, ano, país, objetivo, tipo de estudo e principais achados relacionados à influência das fake news na vacinação infantil.
A análise permitiu a organização dos resultados em três categorias temáticas: disseminação de fake news sobre vacinação infantil; hesitação vacinal de pais e responsáveis; e atuação do enfermeiro no enfrentamento da desinformação.
Os resultados do presente estudo evidenciaram que a exposição a conteúdos desinformativos contribui para o aumento da hesitação vacinal, ao gerar dúvidas, medo e insegurança quanto à segurança e eficácia das vacinas, influenciando negativamente a adesão ao calendário vacinal. Tal cenário sugere que o ambiente digital, embora amplie o acesso à informação, também potencializa a exposição a conteúdos não verificados, capazes de gerar medo, insegurança e desconfiança em relação aos imunizantes.
A partir da análise dos estudos, os achados foram organizados em três categorias temáticas: fake news e desinformação sobre vacinação, hesitação vacinal e tomada de decisão parental, e atuação do enfermeiro na promoção da vacinação. Na categoria “fake news e desinformação sobre vacinação”, os estudos evidenciam que a circulação de informações falsas nas redes sociais gera dúvidas quanto à segurança e eficácia das vacinas, contribuindo para a propagação de discursos antivacina e para a diminuição da confiança da população (FRUGOLI et al., 2021; GALHARDI et al., 2022).
Na categoria “hesitação vacinal e tomada de decisão parental”, observa-se que a decisão dos pais é influenciada por fatores como percepção de risco, experiências prévias, crenças individuais e, principalmente, pela exposição a conteúdos desinformativos nas redes sociais, o que pode levar ao atraso ou recusa da vacinação infantil (GASKELL et al., 2021).
Por fim, na categoria “atuação do enfermeiro na promoção da vacinação”, destaca-se que o profissional de enfermagem exerce papel essencial na orientação dos pais e responsáveis, no esclarecimento de dúvidas e na disseminação de informações baseadas em evidências científicas, sendo peça-chave no combate às fake news e na promoção da saúde (SILVA et al., 2024).
Esse conjunto de achados sugere que a influência das redes sociais na vacinação infantil ocorre de forma multifatorial, envolvendo aspectos informacionais, comportamentais e profissionais. A presença de conteúdos desinformativos não apenas interfere na percepção de risco, mas também impacta diretamente a confiança nos serviços de saúde e nas vacinas.
Esses resultados corroboram evidências de que a desinformação disseminada nas redes sociais contribui significativamente para o aumento da hesitação vacinal, especialmente quando associada à falta de compreensão sobre os benefícios das vacinas (FRUGOLI et al., 2021; GALHARDI et al., 2022). Isso sugere que a influência das redes sociais vai além do simples acesso à informação, atuando diretamente na formação de crenças e atitudes em saúde.
Além disso, observa-se que a hesitação vacinal não está relacionada apenas à presença de informações falsas, mas também à forma como essas informações são interpretadas pelos indivíduos. Esse achado indica que fatores subjetivos, como experiências pessoais, valores culturais e percepção de risco, influenciam a maneira como os pais avaliam a necessidade da vacinação. Nesse sentido, a exposição repetida a conteúdos desinformativos pode reforçar dúvidas preexistentes, contribuindo para decisões baseadas mais em crenças do que em evidências científicas.
Esse resultado é semelhante ao descrito em estudos que apontam que o uso frequente de redes sociais está associado à maior adesão a crenças conspiratórias e à diminuição da confiança nas vacinas (GASKELL et al., 2021). Em consonância com organismos internacionais, a hesitação vacinal é reconhecida como um fenômeno complexo e multifatorial, sendo considerada uma das principais ameaças à saúde global (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2023). Esse cenário reforça que a problemática não se limita à desinformação em si, mas envolve também aspectos sociais, culturais e psicológicos que influenciam o comportamento dos indivíduos.
No âmbito da prática em saúde, esses achados possuem implicações relevantes, especialmente para a enfermagem. Os resultados evidenciaram que o enfermeiro desempenha papel fundamental no enfrentamento da desinformação, atuando por meio da educação em saúde, da comunicação clara e da construção de vínculo com as famílias. Isso sugere que a atuação do enfermeiro é essencial para mediar o acesso à informação qualificada e promover a confiança da população nos serviços de saúde (SILVA et al., 2024).
Na prática assistencial, esses resultados reforçam a necessidade de fortalecimento das competências comunicacionais dos profissionais de saúde, bem como da adoção de estratégias educativas que considerem o contexto sociocultural da população atendida. Além disso, evidencia-se a importância da atuação dos profissionais também no ambiente digital, acompanhando e contrapondo informações incorretas que circulam nas redes sociais.
Outro ponto relevante refere-se às diferenças observadas entre estudos nacionais e internacionais quanto aos fatores associados à hesitação vacinal. Enquanto os estudos brasileiros enfatizam fortemente o impacto das fake news, pesquisas internacionais destacam também a influência de fatores como desconfiança institucional, crenças culturais e influência de grupos sociais. Esse achado indica que a hesitação vacinal é um fenômeno contextual, que varia de acordo com características sociais e culturais, exigindo estratégias específicas para cada realidade.
Apesar dos avanços na compreensão do tema, ainda são escassos os estudos que avaliam intervenções efetivas voltadas ao enfrentamento da desinformação em saúde, especialmente no contexto da atenção primária. Persistem lacunas quanto à identificação das melhores estratégias para promover o letramento em saúde e fortalecer a confiança da população nas vacinas. Dessa forma, torna-se necessária a realização de novas pesquisas que aprofundem essas questões e contribuam para o desenvolvimento de ações mais eficazes no combate à hesitação vacinal.
4. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este estudo teve como objetivo analisar produções científicas atuais acerca de como as redes sociais influenciam a adesão dos pais à vacinação infantil. Os resultados evidenciam que a disseminação de informações nas redes sociais impacta diretamente a decisão dos pais, principalmente de forma negativa, ao favorecer a circulação de conteúdos desinformativos que geram dúvidas, medo e insegurança quanto à segurança e eficácia das vacinas, contribuindo para o aumento da hesitação vacinal e, consequentemente, para a redução da adesão ao calendário vacinal infantil.
Como principais achados, destacam-se a forte influência da desinformação na construção de percepções negativas sobre as vacinas, a associação entre o uso de redes sociais e a redução da confiança nos programas de imunização, bem como o papel das crenças pessoais e da percepção de risco na tomada de decisão parental. Além disso, evidencia-se a relevância da atuação do enfermeiro como agente fundamental no enfrentamento da desinformação e na promoção da vacinação infantil.
No contexto da enfermagem, tais achados reforçam a importância da atuação profissional na educação em saúde, na comunicação clara e baseada em evidências científicas, e no fortalecimento do vínculo com as famílias. A enfermagem se destaca como peça-chave na orientação dos pais e responsáveis, contribuindo para o esclarecimento de dúvidas e para o aumento da confiança nas vacinas.
Entretanto, observam-se lacunas na literatura quanto ao desenvolvimento e avaliação de estratégias efetivas para o enfrentamento das fake news, especialmente no âmbito da atenção primária à saúde e da atuação da enfermagem no ambiente digital. Ainda são limitados os estudos que abordam intervenções práticas capazes de reduzir o impacto da desinformação na hesitação vacinal.
Diante disso, recomenda-se a realização de novas pesquisas que aprofundem a temática, especialmente no que se refere ao desenvolvimento de estratégias de comunicação em saúde mais eficazes e ao fortalecimento do letramento em saúde da população. Além disso, sugere-se o investimento em ações educativas e no uso estratégico das redes sociais por profissionais de saúde, visando combater a desinformação e promover a adesão à vacinação infantil.
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1 Estudante de enfermagem (centro universitário cesmac). Email: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0007-2860-9028.
2 Docente do centro universitário cesmac. Email: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.